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Educação e leitura; Substituir José de Alencar, por exemplo

Artigo de Paulo Raviere

O assassínio de potenciais leitores
Em tempos de perseguição aos professores é uma afirmação um tanto incômoda, mas se existe uma função que as aulas de literatura vêm cumprindo com eficiência industrial em nosso país é a de assassinar potenciais leitores. Não é preciso uma pesquisa formal para intuir que a maioria dos estudantes que volta e meia escapam ilesos dessa chacina conhecida como Ensino Médio o conseguem exatamente por evitar o conteúdo que lhes foi empurrado goela abaixo. Talvez em algum momento até leiam Gregório de Matos, Graça Aranha ou Euclides da Cunha, mas muito provavelmente não é por conta deles que desenvolvem gosto pela leitura. Para alguns, grande parte dos clássicos permanecem indigestos mesmo após anos devorando livros, por conta do modo como lhes foram apresentados.

Nas escolas, a leitura é desvinculada da vida: martela-se por anos a importância de certos nomes e da leitura como um todo, mas não seu interesse. O foco está em nomes próprios, títulos, sinopses, cronologias, contextos, escolas literárias, gêneros, generalizações e sentenças deslocadas que haverão de substituir obras inteiras. Há pouco conteúdo específico, pouca legibilidade e liberdade, muita homogeneização. O problema não é a leitura programática, estudada, objetiva, mas ensinar esse método como o único possível. Assim, Memórias Póstumas de Brás Cubas pode ser lido porque vai cair numa prova, mas raramente o será por alguém bem deitado, sem prazos ou objetivos bem definidos, que preferiu ignorar o celular por alguns minutos.

O fetiche da leitura
A leitura, no Brasil, é um fetiche. Grande parte dos agentes fomentadores da importância dos livros – pais, educadores, livreiros, celebridades, políticos – não são, eles próprios, leitores. Essas pessoas alardeiam essa importância – pior, a anunciam com certa pompa – mas, por favor, jamais lhes deem livros como presente de Natal, pois elas nunca têm tempo para ler. Seus argumentos em favor da leitura são válidos: o desenvolvimento do pensamento crítico, a empatia, a alteridade, a diversidade e por aí vai, porém sugerem que o hábito em si é uma qualidade moral. E, acima de tudo, a leitura é vendida como a forma definitiva de aquisição de conhecimento.

A experiência também é indispensável: um estudante pode mergulhar em bibliotecas à procura de tratados sobre as propriedades dos sólidos na água e ainda assim afundar como uma bigorna ao saltar numa piscina. Lemos por toda a vida a respeito do amor e acreditamos compreendê-lo, até o inevitável momento em que nos afogamos em seus dissabores pela primeira vez, lição que nenhuma leitura minuciosa de Proust poderá ensinar tão bem. Há outros meios, e nem sequer a fruição é garantida. O que nenhum desses agentes alardeia é que a leitura pode ser um fim em si. E embora realmente gere seres empáticos, críticos e cosmopolitas, às vezes também produz monstros.

Monstros geniais
O pedantismo é um produto do fetiche. Conhecemos alguns leitores, e a despeito do que leem, não são muito diferentes das outras pessoas: almoçam no quilo, assistem futebol, vão ao banheiro, amam, escutam rock, se embriagam, votam, postam vídeos, contam piadas ruins, cometem erros – a única diferença é que geralmente estão lendo enquanto fazem isso. Mas por ser tão propagada a importância da leitura, muitos se acham melhores apenas por gostarem de ler. Nem é preciso chegar a tanto, na verdade – basta possuir uma biblioteca.

Mas a prova escancarada desse risco é que dentre os próprios autores que forram nossas estantes vários foram pessoas detestáveis ou defenderam ideias infames. Borges saudou Pinochet, Pound apoiou os fascistas, Heidegger os nazistas. Monteiro Lobato e Lovecraft escreveram ficção racista, Céline panfletos antissemitas, Knut Hamsun um elogio a Hitler. Villon matou um homem, Norman Mailer esfaqueou a esposa, Burroughs atirou na cabeça da sua. Nabokov, Thomas Bernhard, Patricia Highsmith, Salinger, Naipaul, embora gênios, eram todos intratáveis no convívio. E a monstruosidade é ainda mais mesquinha entre os leitores anônimos – poetas ressentidos, loucos de palestra, acadêmicos vaidosos, eruditos que têm crises de apoplexia devido à ignorância de seus alunos de 18 anos que jamais abriram um exemplar de Paraíso perdido.

Nosso anti-intelectualismo atávico e cada vez mais evidente é uma reação a esse pedantismo. Ninguém é necessariamente melhor, mais inteligente ou mais generoso por ter lido bons livros. No Brasil esses valores parecem ter sido invertidos, e muitos se consideram melhores, mais inteligentes ou mais generosos exatamente por jamais terem aberto um livro na vida. Mas não há receita: se a leitura não é garantia de humanidade, tampouco seria a sua falta. Por via das dúvidas, são mais sólidos aqueles argumentos em sua defesa – melhor ler do que não ler, como dizia Calvino. Dito isso, permanece a pergunta: como propagar a leitura no Brasil?

Abraçando a geleia geral
É bem incômodo idealizar uma educação nestes tempos filisteus, em que o sucateamento das escolas é um projeto político e os professores, uma classe historicamente miserável, são perseguidos de forma abjeta e sistemática. Por outro lado, este problema persistiu em tempos mais estáveis: em vez de tentar formar seres humanos, há décadas a escola é uma fábrica de robôs programados para preencher gabaritos.

Ainda assim, muita gente que sempre detestou ler continua interessada em narrativa, montagem, composição de páginas de histórias em quadrinhos, em fazer pinturas e fotografias, na escrita de diálogos, em performances, no que há de inexplicável na arte. Nossa necessidade de expressão é latente. Uma proposta realizável, embora radical, seria abandonar de vez a pompa e os manuais de literatura, desistir de Antônio Vieira, Odorico Mendes e da Prosopopéia, evitar certos didatismos e, em conjunção com as disciplinas afins, estimular a percepção e a criação.

Quem lê por prazer frequenta ao mesmo tempo obras díspares: o Rubaiyat convive com os ensaios de Lamb, Charlie Chan Hock Chye e a nova temporada do Demolidor na Netflix. Assim seria possível misturar gêneros, mídias, lugares e épocas, conforme a conveniência. Aproximar o estranho do habitual, o erudito do popular – como na “vida real”. Talvez fosse mais interessante analisar, em vez de linhas do tempo, as diferentes representações dos escravos brasileiros nos quadrinhos de Marcelo D’Salete, os romances de João Ubaldo Ribeiro e a música de Rincon Sapiência. No lugar das resenhas, a importância dos cenários urbanos em Bulldogma e Baudelaire. Visões opostas da guerra em Kubrick e Homero. Transições, leituras de imagens, velocidades, ritmos, modos de ler, modos de criar. Não há limites, não há método fechado – leitor algum enfrenta os cânones de cabo a rabo.

Um devaneio, claro, ainda mais em nosso contexto. Mas não devemos jamais ignorar o alerta de Epicuro na Carta sobre a felicidade (em tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore): “quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz”. Leiamos, portanto, por prazer, e deixemos Iracema para os especialistas (e eventuais interessados).

Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 03

Ciência ou humanidades?

É um tema recorrente que vem à tona constantemente e sobre o qual ultimamente tenho lido algumas manifestações notáveis: o da necessidade de as chamadas “humanidades” fazerem parte da educação e da cultura de todos.

E que pelo menos alguns não recebem atenção suficiente. Os exemplos são inúmeros, talvez o mais utilizado seja o que se refere às duas grandes línguas “clássicas” – o grego e o latim -, cuja presença nos programas de ensino encontra dificuldades. Argumenta-se que, além de fazer parte do passado da humanidade, eles ainda estão embutidos em muitas das palavras e conceitos que usamos em nossas línguas atuais. Também é comum ouvir que, se não soubermos algo sobre o conteúdo da Bíblia, seremos como náufragos perdidos em uma ilha da qual nada sabemos; em outras palavras, que não entenderemos muito do que nos rodeia, desde ideias a objetos materiais. E eu poderia continuar oferecendo mais exemplos.

Não tenho dúvidas de que tudo isso é verdade, mas infelizmente a questão não pode ser reduzida a tais termos, nem pode ser baseada em alguns dos argumentos que são usados, especialmente os linguistas. Alguém nem um pouco desconfiado de desprezar o mundo clássico, como Mary Beard, professora de clássicos da Universidade de Cambridge, escreveu em um de seus magníficos livros, The Living Heritage of the Classics (Critic, 2013): “Latin, of claro, permite que você aprenda sobre o idioma e como funciona, e o fato de estar “morto” pode ser bastante controverso – sou muito grato por não precisar saber latim para pedir uma pizza ou as direções para a catedral , mas, honestamente, se você quer aprender francês, a verdade é que seria melhor fazê-lo diretamente, e não começar com qualquer outro idioma primeiro. Só existe um bom motivo para aprender latim: que você queira ler o que está escrito nessa língua ”.

“E a ciência? Onde ela aparece nessas reclamações?”

E como acabo de recorrer a Mary Beard, é oportuno continuar a recorrer ao ensaio intitulado “Os clássicos têm um futuro?”, Que abre o livro citado. E é apropriado porque compartilho o valor que você atribui aos estudos clássicos. “Eu acredito”, ele aponta, “que devemos ir além da ideia superficialmente plausível de que os clássicos são, ou lidam com, a literatura, arte, cultura, história, filosofia e linguagem do mundo antigo.” Claro que ele reconhece que “em parte eles são apenas isso”, mas o que mais justifica sua sobrevivência “é o diálogo que estabelecemos com aqueles que antes de nós dialogaram com o mundo clássico (seja Dante, Rafael, William Shakespeare, Edward Gibbon, Pablo Picasso ou Eugene O’Neill) ”. E, claro, nesses diálogos muitos tipos de ideias intervêm. O que é importante é precisamente essa variedade e os estilos argumentativos que neles aparecem, não as simplificações que muitos defensores dos estudos clássicos empregam (temo que seja interessante), simplificações do tipo que “na Atenas antiga eles inventaram a democracia”. “Dito assim”, Beard explica, “simplesmente não é verdade. Até onde sabemos, nenhum grego antigo jamais disse tal coisa; e, em todo caso, a democracia não é algo que se inventou, como um motor a pistão ”. A verdade é que seria impossível compreender Dante sem Virgílio, ou John Stuart Mill e Karl Popper sem Platão.

Repito, compreendo perfeitamente quase todos estes argumentos, mesmo aqueles carregados de interesses profissionais, disciplinares ou religiosos. Mas não devemos limitar a discussão a tais parâmetros. E a ciência? Onde aparece nessas reclamações? É menos necessário do que as humanidades viajar totalmente pelo mundo? Obviamente, é muito necessário. E não só porque está na base das infra-estruturas tecnológicas, sanitárias ou alimentares do mundo actual, mas porque também faz parte desse “diálogo” que devemos manter com o passado, mesmo com o chamado “clássico” . O biólogo, cosmólogo e lógico Aristóteles – entendida como a lógica como um ramo da matemática – não é menos interessante, nem relevante, do que outras disciplinas “humanísticas”.

“Não preciso do valor das humanidades para me defender, nem na escola nem na rua”

Podemos entender o mundo sem ler ou saber algo sobre os “filósofos” da natureza que são cientistas; Ou seja, sem diálogo interno, por exemplo, Hipócrates, Copérnico, Galileu, Newton, Linnaeus, Maxwell, Darwin, Pasteur, Claude Bernard, Ramón y Cajal, Pávlov, Bertrand Russell, Freud, Poincaré, Einstein, Heisenberg, Schrödinger, Mandelbrot, Rachel Carson, Feynman, Hawkins, Stephen Jay Gould, Richard Dawkins, Edward Wilson, Penrose ou James Watson e Francis Crick? E não quero esquecer aqueles que deixaram uma marca profunda na ciência e na filosofia, os casos de Leibniz e Descartes. Conhecer todos eles, ler algumas das suas obras – algumas muito acessíveis – é essencial para construir uma “visão pessoal do mundo”, por mais modesta que seja. Uma visão de mundo que nos permite e nos induz a refletir sobre o sentido da vida, as obrigações que devemos assumir para com os outros e com o nosso planeta, ou os valores que queremos fazer nossos, valores que nos afetam por, precisamente o que a ciência nos ensina. Em última análise, para ter uma ideia do que significa ser humano, biológica e moralmente.

Deixe-me ser honesto. Estou cansado de ouvir tantos defensores das “humanidades” – que muitas vezes são abençoados com o rótulo de “intelectuais”, um termo, aliás, que raramente é aplicado a um cientista – pessoas que em suas vidas abordaram um livro de ciências . Não preciso do valor das humanidades para me defender, nem na escola nem na rua. E não acho que nenhum ou poucos cientistas precisem disso. Ninguém deveria precisar disso, mas temo que, não importa o quanto você pense o contrário, a ciência precisa de mais defesa. Sei muito bem que o tempo é limitado e que é muito difícil conciliar, dar espaço, para que nos ensinem grego ou latim, ou nos ajudem a ler a Bíblia, Homero, Dante, Ortega y Gasset ou Hannah Arendt, com obtendo ao mesmo tempo algum treinamento em matemática, física, biologia ou química, e ser apresentado à leitura de Galileu, Darwin, Russell, Einstein, Heisenberg ou Gould. E não tenho solução para esse dilema, mas sei que não dá para resolver deixando a ciência de lado, por mais que implique o discurso de alguns.

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Blog do Mesquita (1)

Antonio Curnetta – Poesia

Boa noite
Antonio Curnetta

Gente bonita que carrega suas cicatrizes com dignidade
Que perdeu mas ainda tenta
Que foi maltratado, mas ainda é gentil
Quem ficou desapontado, mas ainda mostra o coração
Porque as pessoas que têm uma vida difícil
muitas vezes se tornam as pessoas mais bonitas.

Literatura,Poesia,Blog do Mesquita 01

Maria Teresa Horta – Poesia

Boa noite.
Clima
Maria Teresa Horta

Neste clima de armas
submersas
de silêncios calados
bocas crespas

de já grandes coragens
e vontades

de já claridade
e já certeza

Neste clima espesso
grosso
enorme
ao tamanho dos olhos – temperatura

à exata liberdade retomada

uma espécie de grito
e de sutura

Este clima ferida

cerco
incerto
a avolumar na pele cada
dia

este clima punho

Quente

aberto

do brusco despertar
e de rotura

Clima que no homem acontece
e nele se empreende
numa luta

Pintura de Juan Miró – Ballerina 1925

William Blake – A resposta da terra

Boa noite.
A resposta da terra
William Blake

A terra levantou sua cabeça
Desde a escuridão pavorosa e triste.
Sua luz voou,
Pétreo terror!
E cobriu seus cabelos com cinzento desespero.
Presa junto a úmida costa,
Ciúmes estrelados guardam meu covil:
Fria e velha,
Chorando,
Escuto ao Pai dos homens antigos.
Egoísta Pai de homens!
Cruel, ciumento, medo egoísta!
Pode o gozo,
Acorrentado na noite,
Dar à luz as virgens da juventude e manhã?
A primavera esconde sua alegria
Quando os casulos e as flores crescem?
O semeador
Semeia pela noite,
Ou o lavrador lavra na escuridão?
Rompe esta pesada corrente
Que rodeia de gelo meus ossos
Egoísta! Inútil!
Eterna praga!
Que ao livre Amor ataste com ataduras.

Fotografia de Talia Chetrit – Hand, 2012

José Luís Peixoto – Poesia

Boa noite.
A criança em ruínas
José Luís Peixoto

Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exatamente o que é o amor.
O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
O amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa.
O amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.

Silenced, Pintura de Suhair Sibai