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250 leões famintos descobertos em uma fazenda de caça de troféus na África do Sul

A indústria de caça enlatada está prosperando há décadas na África do Sul. Esse é um negócio em que os criadores de jogos recebem quantias ultrajantes de dinheiro de ricos caçadores de emoções, principalmente turistas estrangeiros, para colocar caça capturada ou criada em recintos onde eles podem ser facilmente mortos a tiros como troféus.

Berend Plasil/Drew Abrahamson

Os infelizes leões de Ingogo Safaris, África do Sul, são objetos dessa crueldade insana. Localizada na província de Limpopo, na Cidade do Cabo, a fazenda pertence a Walter Slippers, que administra uma fazenda de criação, uma fazenda de caça e uma cafeteria. Em 2016, fotos dos 250 leões magros e desnutridos criados na fazenda surgiram on-line. As estruturas esqueléticas dos animais selvagens podiam ser vistas claramente que estavam famintos e negligenciados por um longo tempo.

Um vizinho que mora na propriedade adjacente tirou fotos dos leões e as enviou para Drew Abrahamson, CEO da Fundação Captured in Africa.

“Algumas imagens surgiram cerca de dois anos atrás, quando ele costumava ter voluntários em sua propriedade”, disse Abrahamson ao Dodo. “Havia dois leões nas imagens bebendo água; eles também estavam incrivelmente abaixo do peso, então acho que é um caso de negligência como um todo. Você não espera que os leões cativos sejam tão magros que seus ossos do quadril se projetem. “

Berend Plasil/Drew Abrahamson

Ele alegou que sua negligência foi causada por problemas de saúde

Em uma entrevista ao Traveler 24, Slippers afirma que ele estava no hospital após um ataque cardíaco. Alegou que não tinha ajuda na fazenda e era incapaz de atender adequadamente os animais.

“Enquanto eu estava no hospital, a comunidade me ajudou; Não tenho irmãos ou pai que possam me ajudar enquanto eu estava no hospital ”, disse Slippers.

Berend Plasil/Drew Abrahamson

As investigações foram realizadas logo depois pela Unidade de Proteção da Vida Selvagem da NSPCA (Conselho Nacional de Sociedades para a Prevenção de Crueldade para Animais) da África do Sul. Segundo a gerente da unidade, Isabel Wentzel, Slippers havia dito que as fotos eram antigas e foram tiradas quando ele ainda estava em reabilitação. Ele insistiu que seus leões não estavam desnutridos.

No entanto, a unidade da NSPCA descobriu vários leões com baixo peso e desnutridos em sua fazenda. Segundo Wentzel, como nem todos os leões estavam abaixo do peso, eles deixaram Slippers com um aviso oficial para serem seguidos com inspeções regulares.

“O que fizemos foi trabalhar com a SPCA local em Louis Trichardt, Makhado – que visitou a fazenda”, disse Wentzel. “Estivemos em todas as instalações e, embora nem todos os leões estejam abaixo do peso, emitimos um aviso oficial”.

“Quando você olha para esses leões, pode ver cicatrizes no rosto, o que significa que provavelmente é uma questão de lutar por comida. Não é um caso de alimentá-los e eles se recuperarão imediatamente; será um processo de recuperação. ”

Berend Plasil/Drew Abrahamson

Caça enlatada de leões criados em cativeiro: Legal, mas imoral

A maioria das pessoas não tem certeza das legalidades em torno da caça enlatada e caça na África, especialmente em países como o Zimbábue e a África do Sul.

A caça enlatada é ilegal na África do Sul. No entanto, é permitido apenas quando praticado com leões criados em cativeiro.

O Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal informou que existem entre 6.000 e 8.000 leões mantidos em cativeiro na África do Sul em cerca de 200 fazendas.

“Toda a caça ao leão na África do Sul deve ser autorizada, e essas são caçadas regulamentadas que devem ser feitas com certos critérios”, disse Carla van der Vyver, diretora executiva da Associação Sul-Africana de Predadores (SAPA) à BBC. “Se tal atividade aconteceu e não foi realizada de acordo com os regulamentos de permissão, definitivamente não é algo que a SAPA apoiará.”

Embora a caça enlatada de leões criados em cativeiro seja legal, a prática ainda é errada, completamente imoral e injusta. Os leões selvagens estão desaparecendo rapidamente na África do Sul, enquanto a população de leões criados em cativeiro, para serem mortos, continua a crescer.

Para controlar a situação, a Associação de Caçadores Profissionais da África do Sul (PHASA) colocou em votação e a maioria concordou em não participar da caça enlatada de leões criados em cativeiro, a menos que as condições estejam alinhadas com os regulamentos da SAPA. Os membros foram completamente proibidos de se envolver na caça enlatada de leões selvagens.

“É hora de chamar a atenção para os criadores e caçadores individualmente, para que eles não possam se esconder atrás da indústria como um todo”, escreveu Abrahamson. “É hora de encarar a música com relação à sua exploração”.

Fonte: Family Life Goals
Créditos da imagem: The Dodo

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Meio Ambiente: A poluição microplástica está em toda parte

A poluição por plásticos é uma preocupação global crescente. Grandes pedaços de plástico foram encontrados em quase toda parte da Terra, das praias mais visitadas às ilhas remotas e desabitadas. Como a vida selvagem é regularmente exposta à poluição por plásticos, geralmente perguntamos que efeitos os plásticos têm sobre os animais.

Com o tempo, os macroplásticos (detritos de plástico com mais de cinco milímetros de tamanho) se decompõem em pequenas partículas chamadas microplásticos (menores que cinco milímetros), que podem persistir no ambiente por centenas de anos.Ambiente,MicroPlásticos,Poluição,Oceanos,Alimentos,Blog do Mesquita 01

Sabe-se que os macroplásticos causam efeitos prejudiciais à vida selvagem. Animais individuais podem ingerir pedaços grandes ou enredar-se em itens de plástico, como equipamentos de pesca, e sufocar ou morrer de fome. Embora não haja dúvida de que os macroplásticos são prejudiciais à vida selvagem, os efeitos dos microplásticos não são tão diretos.Meio Ambiente,Plásticos,Oceanos,Poluição,Blog do Mesquita 05

Enquanto muitos estudos descobrem que os microplásticos podem afetar a expressão gênica, o crescimento, a reprodução ou a sobrevivência de um animal, outros concluem que os microplásticos não têm efeitos negativos. A falta de um consenso claro torna mais difícil para os tomadores de decisão adotarem políticas eficazes para mitigar a poluição por plásticos.

Nem todos os plásticos são iguais

Recentemente, aprofundamos a pesquisa que analisou como a poluição por plásticos afeta a vida selvagem aquática e terrestre.

Descobrimos que, embora os macroplásticos continuem causando efeitos prejudiciais a animais individuais, eles também estão causando mudanças em larga escala nas populações de animais, comunidades e ecossistemas. Por exemplo, a poluição plástica pode introduzir espécies invasoras em novos habitats transportando organismos a centenas de quilômetros de sua faixa nativa, alterando a composição das espécies em uma comunidade.Ambiente & Ecologia,Poluição,Vida Selvagem,Oceanos,Plástico

Os efeitos dos microplásticos, no entanto, são muito mais complicados. Dos estudos que incluímos em nossa revisão, quase metade (45%) constatou que os microplásticos causavam um efeito. Alguns estudos observaram que os microplásticos fizeram com que os animais tivessem vidas mais curtas, comessem menos ou nadassem mais devagar, e outros viram mudanças no número de filhotes produzidos e mudanças nos genes sendo expressos. No entanto, 55% dos estudos não detectaram efeitos.

Por que alguns estudos detectam efeitos enquanto outros não? Existem várias possibilidades. Por um lado, os pesquisadores usaram diferentes desenhos experimentais em seus experimentos de laboratório.

Há também a questão do uso do termo microplástico, que se refere a uma mistura complexa de plásticos que variam em material (como polietileno, poliestireno ou cloreto de polivinil), os produtos químicos associados a eles (incluindo aditivos, cargas e corantes), além de seu tamanho e forma. Cada uma dessas características, juntamente com a quantidade de plástico ao qual o animal é exposto no experimento, pode afetar seu potencial de detectar um efeito.

Microfibras e microesferas

Por exemplo, vimos que, quando os estudos expuseram crustáceos ao poliestireno, um tipo de plástico usado para fazer recipientes, tampas e talheres descartáveis, os crustáceos geralmente produziam mais descendentes. Mas quando foram expostos ao polietileno ou ao tereftalato de polietileno, usado para fazer sacolas plásticas e garrafas de bebidas, os crustáceos produziram menos filhos.

As microesferas são encontradas em produtos esfoliantes, como produtos de limpeza de rosto e creme dental. Vários países proibiram sua produção e venda. Crédito: Shutterstock

Vários países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos, proibiram recentemente as microesferas de plástico – as esferas e fragmentos esféricos em lavagem de rosto, esfoliação corporal e pasta de dentes – porque estavam contaminando o meio ambiente e poderiam causar efeitos negativos em animais aquáticos. Embora essa legislação reduza um tipo de microplástico no meio ambiente, é irrelevante para muitos outros.

Também descobriu-se que estudos usando partículas menores têm maior probabilidade de detectar um efeito. Isso ocorre porque partículas menores são mais facilmente consumidas por pequenos organismos ou porque podem se mover através da membrana celular e causar efeitos nocivos, como inflamação.

No que diz respeito à forma do plástico, as microfibras (de roupas ou cordas) e os fragmentos tiveram maior probabilidade de afetar negativamente o organismo em comparação com as esferas (dos produtos de limpeza facial). Por exemplo, um estudo descobriu que as microfibras eram mais tóxicas para uma espécie de camarão marinho do que fragmentos ou esferas microplásticos.

Finalmente, pode-se esperar que os animais sejam mais prejudicados quando expostos a concentrações mais altas de microplásticos. Embora seja verdade que os crustáceos tenham mais probabilidade de morrer quando expostos a doses crescentes de microplásticos, o efeito na reprodução foi mais complexo. O número de filhotes aumentou com doses extremamente altas, mas diminuiu com doses mais baixas, semelhante ao observado no ambiente.Ecologia,Plásticos,Microplásticos,Meio Ambiente,Ambiente,Natureza,Poluição,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,Blog do Mesquita,Brasil

Muitos tipos, muitos resultados

Com base em nossa análise, acreditamos que pesquisas futuras precisam reconhecer a complexidade dos microplásticos e os cientistas precisam projetar seus testes estrategicamente para que possamos realmente entender como os diferentes tipos, tamanhos, formas, doses e a duração da exposição aos microplásticos afetam a vida selvagem.

Somente se tivermos uma melhor compreensão de como os diferentes tipos, formas e concentrações de microplásticos afetam a vida selvagem podemos tomar melhores decisões políticas. Se, por exemplo, as microfibras são realmente mais nocivas que as esferas, poderíamos concentrar nossa atenção em impedir que essas fibras entrem em nossas vias navegáveis ​​por fontes conhecidas, como máquinas de lavar.

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Patanal em fogo – araras-azuis e outros animais sob risco de extinção

O drama das araras-azuis e outros animais sob risco de extinção e acuados pelo fogo no Pantanal.

Por muito pouco — questão de segundos — a bióloga Carine Emer, do câmpus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), não morreu queimada no carro em que viajava no domingo, dia 27 de outubro, pela BR-262, entre Corumbá e Miranda, no Mato Grosso do Sul. Uma labareda gigante atravessou a rodovia, vinda de um incêndio no mato em suas margens. Foi apenas mais uma entre o maior número de queimadas já registrado no Estado. Entre os dias 1º de agosto e 31 de outubro, o número de focos de queimadas no Pantanal cresceu 506% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Araras comem cocos no chãoDireito de imagem CEZAR CORRÊA
Araras comem cocos no chão; fogo aumenta ainda mais o risco de que algumas espécies ameaçadas de extinção desapareçam

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958 nos três meses deste ano.

Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%. Depois vem agosto, que passou de 243 para 1.641 (575%), e setembro, que foi de 785 para 2.887 (368%).

O fogo coloca em risco a vida de muitos animais da rica biodiversidade pantaneira, assim como a vegetação. É fácil encontrar animais mortos depois que o fogo se apaga, como cobras, lagartos e jacarés, estes principalmente por causa da seca.

“Ainda não há estimativa de quantas árvores e bichos foram queimados”, diz Carine. “Também é difícil dizer em quanto tempo a área vai se recuperar. Depende de até quando os incêndios vão durar, do que for destruído.” O governo do Estado ainda não tem um levantamento da situação.

O engenheiro florestal e especialista em restauração ambiental, Júlio Sampaio, gerente dos programas Cerrado e Pantanal, do WWF-Brasil, diz que, embora ainda não tenha sido feito um levantamento preciso do impacto dos incêndios na vida selvagem, ele foi intenso.

“Há vários relatos de animais incinerados ou asfixiados pela fumaça”, explica. “Os que se locomovem mais lentamente, como os de pequeno porte e os répteis são os que sofrem mais com as queimadas”, acrescenta.

Filhote de arara morreu desidratado e queimadoDireito de imagem THAMY MOREIRA
Filhote de arara morreu desidratado e queimado

De acordo com Sampaio, diferentemente de algumas plantas, que têm adaptações genéticas para sobreviver ao fogo, entre os animais elas não existem.

“Não há espécie da fauna brasileira que esteja adaptada para conviver com incêndios”, diz ele. “Isso faz com que o impacto (dos incêndios) seja muito maior para os animais do que para os vegetais. Mas não há estudos sobre isso, então é muito difícil estimar quantos bichos foram mortos.”

Ele alerta, no entanto, que o fogo aumenta ainda mais o risco de algumas espécies ameaçadas de extinção desaparecerem, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) e lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) e algumas aves, como a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus).

O único levantamento já feito depois dos incêndios foi elaborado pelo Instituto Arara Azul, uma organização não governamental que criou e administra o Refúgio Ecológico Caiman (REC), o maior centro de reprodução da espécie no Pantanal, com 54 mil hectares, onde há atualmente 98 ninhos cadastrados, dos quais 52% naturais e 48% artificiais. “O fogo atingiu nossa fazenda no dia 10 de setembro”, conta a bióloga Neiva Guedes, presidente do Instituto e professora do programa de pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Universidadade Anhanguera Uniderp (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), de Campo Grande.

Atos criminosos e riscos para viajantes

De acordo com o governo do Mato Grosso do Sul os incêndios florestais ocorrem em várias direções e em proporções nunca registradas, causados “pela estiagem e atos criminosos”.

O fogo nas margens da rodovia BR-262, que liga Vitória (ES) a Corumbá (MS), cruzando o Pantanal, assusta e coloca em riscos a vida dos viajantes. As labaredas chegam a mais de dez metros de altura e formam uma cortina de fumaça, que transforma o dia em noite, reduzindo a visibilidade de quem trafega pela estrada.

Equipe do Instituto Arara Azul monitora destruição após queimadasDireito de imagem INSTITUTO ARARA AZUL
Equipe do Instituto Arara Azul monitora destruição após queimadas

Devido à gravidade da situação, em setembro o governo estadual decretou estado de emergência. Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenas para renovar os pastos ou abrir novas áreas de cultivo.

Verruck diz que é uma atitude cultural. “Historicamente sempre foi assim, nesta época do no ano coloca-se fogo”, explica. “Mas este é o período mais seco do ano, por isso proibimos qualquer tipo de queimada entre agosto e outubro de todos os anos. Agora, como a situação está mais grave, prorrogamos a interdição até 30 de novembro, assim como o estado de emergência. Neste período, todas as queimadas são ilegais.”

Segundo Verruck, elas já devastaram 56 mil hectares de vegetação nativa no Pantanal sul-mato-grossense apenas do dia 20 de outubro até o dia 31. “Em todo o Estado, a área chega 1,3 milhão de hectares, das quais cerca de 500 mil foram na reserva dos índios cadiuéus”, diz.

“A situação, já complicada nesta época do ano, se agravou, porque choveu apenas 30% do que é normal para este período.” Também contribuiu para intensificar o fogo uma combinação de outros fatores como baixa umidade do ar, alta temperatura, ondas de calor, muita matéria orgânica seca e grande velocidade do vento.

De acordo com ele, para combater as queimadas, o governo estadual conta com o apoio do Estado vizinho do Mato Grosso, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Comando Militar do Oeste do Exército Brasileiro.

“Estão trabalhando dezenas de brigadistas do Ibama, bombeiros e militares”, conta. “Além disso, estão sendo usados no combate ao fogo três aviões e quatro helicópteros. Entre os problemas que enfrentamos nesse trabalho estão dificuldades nas comunicações entre os municípios atingidos, pois os incêndios queimaram as fibras ópticas.”

Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%Direito de imagem CHICO RIBEIRO/PORTAL DO GOVERNO DE MATO GROSSO DO
Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%

Em seu 1º Relatório do Impacto do Fogo sobre as Araras Azuis, Neiva informa que dos 98 ninhos cadastrados, 39 eram de araras 15 de outras oito espécies de aves, todos com ovos ou filhos. Além disso, havia 30 ninhos sendo preparados pelas araras ou em disputa com outras aves e 14 vazios. Desse total, 33% foram atingidos em diferentes graus de severidade, dos quais apenas dois foram perdidos totalmente. A contabilidade final revela, no entanto, que 16 filhotes e 23 ovos foram destruídos pelos incêndios.

Próximas gerações de araras ameaçadas

Segundo Neiva, isso afetará o sucesso das araras-azuis não só nesta estação reprodutiva, mas também no futuro.

“As perdas atuais serão sentidas nestas e nas futuras gerações, quando estes filhotes perdidos não entrarão na população reprodutiva daqui a 9 ou 10 anos”, lamenta em seu relatório.

“Queremos saber também o que acontecerá nos próximos anos com relação à alimentação, que até agora não era um fator limitante. Mas com os incêndios, hectares e mais hectares da palmeira acuri foram totalmente destruídos. Esta planta é chave não só para as araras-azuis, embora seja fundamental para elas, mas para várias outras espécies que se alimentam da sua polpa, inclusive o gado.”

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958Direito de imagem GOVERNO DO MS/DIVULGAÇÃO
Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958

Sobre o convívio da biodiversidade vegetal com o fogo anual do Pantanal há mais estudos. “De acordo com as pesquisas que temos realizado, os incêndios nas áreas mais sujeitas a inundações podem diminuir o número de espécies de árvores e arbustos que ocupam as partes baixas”, diz o botânico Geraldo Alves Damasceno Junior, dos programas de pós-graduação em Ecologia e Conservação e em Biologia Vegetal, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

“Muitas árvores que tiveram suas copas queimadas não conseguirão rebrotar e a inundação que virá depois poderá impedir que sementes dessas espécies germinem, pois muitas delas precisam de um período prolongado de seca para nascer e crescer nesses ambientes”, acrescenta Damasceno.

Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenasDireito de imagem VICENTE ASSAD
Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenas

Mas para a vegetação pantaneira as queimadas também podem ter um lado bom. “Elas promovem aumento da biodiversidade das espécies herbáceas que ocorrem nesse ambiente”, explica Damasceno.

“Como grande parte das plantas do Pantanal pertence a este grupo, no cômputo geral os incêndios podem promover um aumento na biodiversidade dos vegetais. Assim, o fogo é um elemento que na paisagem da região faz parte da dinâmica da vegetação, embora algumas espécies mais sensíveis possam desaparecer dos locais onde ele foi muito severo.”

A flora tem outra vantagem em relação à fauna do Pantanal. “A vegetação se recupera muito rapidamente”, explica Damasceno. “Em poucos meses, ela vai rebrotar novamente. Entretanto, alguns efeitos podem ser bastante duradouros. Para árvores e arbustos, por exemplo, nós conseguimos captar efeitos danosos até seis anos após eventos de fogo.”

Carine conta que pesquisa para seu pós-doutorado a dispersão de sementes na Mata Atlântica, mas estava no Mato Grosso do Sul para dar uma palestra na Semana da Pós-Graduação em Ecologia e Conservação na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grade.

“Eu achei que era uma ótima oportunidade para dar um pulo até o Pantanal e conhecê-lo, afinal é o sonho de todo biólogo ver este sistema tão rico”, conta. “Então organizamos uma pequena excursão para ir até a região do Passo do Lontra, que fica no município de Corumbá.”

Focos de queimadas no PantanalDireito de imagem CARINE EMER
Entre os dias 1º de agosto e 31 de outubro, o número de focos de queimadas no Pantanal cresceu 506% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Eles chegaram ao local na sexta-feira e Carine disse que já achou a situação esquisita. “Estava tudo muito estranho, muito seco, e o rio Miranda tão baixo como nunca se viu”, explica.

“Saímos para ver bicho, mas não ouvíamos nem víamos nenhum. No sábado de madrugada, aconteceu a mesma coisa. Poucas aves, o que é estranho, porque no Pantanal você visualiza muitos animais. Saímos de barco pelo rio e só o que víamos era fogo dos dois lados. Algo surreal, pois a gente vai para o Pantanal, a maior região alagável do mundo, e só vê incêndio por todos os lados e nada de bicho.”

Mas o pior ainda estava por vir. No domingo eles andaram horas de carro pela BR-262 e praticamente não avistaram animais. “Só vimos um tamanduá-mirim na beira da rodovia e tudo seco, lagoas, riachos, vegetação”, revela. “Vimos também jacarés mortos em poças secas.”

No final do dia resolveram voltar para Campo Grande. “Era por volta de umas 18 horas e começamos a ver muito fogo, nos dois lados da estrada e focos mais distantes”, conta.

“De repente, uma labareda gigantesca cortou a estrada e não nos pegou por questão de dois ou três segundos. Fizemos a volta e retornamos para Corumbá, muito assustadas e com uma sensação de estar no Inferno, de Dante. Quer dizer, não conheci o Pantanal, pois não vi bichos, e quase morri.”

Espécies atingidas pelo incêndio no PantanalDireito de imagem VICENTE ASSAD
Não há espécie da fauna brasileira que esteja adaptada para conviver com incêndios, alerta oengenheiro florestal e especialista em restauração ambiental, Júlio Sampaio
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Estas imagens vão fazer você repensar o meio ambiente

Estas 19 imagens vão fazer você repensar sua postura sobre o meio ambiente
Por mais que educação sustentável esteja em pauta e que a preocupação com o meio ambiente faça cada vez mais parte da nossa vida, algumas pessoas teimam em não mudar pequenos hábitos – e são justamente esses pequenos hábitos que fazem a diferença. Separar o lixo produzido entre o que é reciclável e o que é orgânico, por exemplo, já seria um bom começo.

Infelizmente, apesar de sermos criaturas inteligentes, nem sempre agimos com coerência, e o ditado “o que os olhos não veem o coração não sente” acaba por resumir muitas atitudes que, se começássemos a analisar mais de perto, nos deixariam envergonhados.

Problema de todos

A questão é: se você não aprendeu ainda que faz parte de um todo gigantesco e que, por fazer parte, tem direitos e deveres relacionados à saúde, digamos assim, desse todo, talvez mude suas atitudes a partir do momento em que enxergar o que a negligência humana pode provocar no planeta e no vida de quem vive por aqui.

O Bored Panda selecionou algumas imagens chocantes e que mostram o quanto a poluição afeta a vida de animais que não têm nada a ver com a sua falta de interesse pelo meio ambiente. Confira essas imagens a seguir e depois nos diga: será que não está na hora de você mudar suas atitudes?

1 – Cágado preso em um pedaço de plástico

2 – Um coala perdido

3 – Mais uma tartaruga que teve seu desenvolvimento prejudicado por um pedaço de plástico

4 – Pássaro em meio a uma mancha de óleo

5 – Foca machucada em seu próprio habitat

6 – Essa não é a cegonha que você imaginava quando era criança

7 – Pinguins imersos em óleo

8 – Onda cheia de lixo em Java, na Indonésia

9 – Tá vendo este menino?

O trabalho dele é coletar lixo reciclável todas as manhãs. O material é vendido por pouco mais de R$ 1 o quilo.

10 – Em Hong Kong os turistas tiram foto em frente a um mural que mostra como a cidade foi um dia

11 – Mais uma foca que se deu mal com o lixo que foi parar no mar

12 – Pássaro contaminado em uma mancha de óleo

13 – Garoto nada em um rio poluído na Índia

14 – Menino bebe água poluída em cidade na China

15 – Um retrato da poluição em Pequim

16 – Trabalhador chinês tenta retirar centenas de peixes mortos em um rio

17 – Esta é a Muralha da China

18 – Um retrato da seca brasileira

19 – Queima da Floresta Amazônica, no Brasil

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O que se descobriu até agora sobre o óleo no Nordeste

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Mancha de óleo na praia de Peroba, Alagoas

Enquanto o petróleo avança pelo litoral brasileiro e já pode chegar ao Sudeste, investigação se concentra em navio grego como provável origem do desastre. Entenda o que foi divulgado até agora e a extensão dos danos.

Desde o final de agosto, praias do Nordeste brasileiro vêm sendo atingidas por manchas de petróleo. Segundo uma ampla investigação da Polícia Federal, em parceria com a Marinha e outras instituições, o responsável é um navio de bandeira grega, que fugiu sem alertar sobre o vazamento, e o óleo é venezuelano.

O principal suspeito

O navio de bandeira grega Bouboulina é o principal suspeito de ser o responsável pelo vazamento do óleo nas praias do Nordeste, segundo afirmaram procuradores da República em representação encaminhada à Justiça Federal.

O Bouboulina atracou na Venezuela em 15 de julho, ficou ali por três dias, e continuou viagem rumo a Cingapura, pelo Atlântico, vindo a aportar apenas na África do Sul. Foi no trajeto que ocorreu o vazamento

Segundo os investigadores, há fortes indícios de que a empresa Delta Tankers, o comandante do navio e tripulação deixaram de comunicar às autoridades competentes sobre o vazamento no Atlântico.

A Grécia é líder global em transporte de petróleo, com 24% do mercado mundial, segundo relatório da agência das Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento.

O Ministério Público Federal (MPF) afirmou, em comunicado, que a embarcação investigada pela PF ficou quatro dias retida nos Estados Unidos devido a “incorreções de procedimentos operacionais no sistema de separação de água e óleo para descarga do mar”.

O marco zero

Os investigadores da PF dizem terem conseguido achar a localização da mancha inicial de petróleo em águas internacionais, a aproximadamente 700 quilômetros da costa brasileira.

A partir da localização da mancha inicial – o derramamento teria ocorrido entre os dias 28 e 29 de julho – foi possível identificar o único navio petroleiro que navegou pela área suspeita.

Por meio do uso de técnicas de geointeligência e cálculos oceanográficos regressivos, chegou-se então ao navio de bandeira grega.

Selo venezuelano

A Marinha disse ainda que o óleo coletado nas praias do litoral nordestino foi submetido a análises em laboratórios que comprovaram ser originário de campos petrolíferos da Venezuela.

Estudos feitos pela Petrobras e pela Universidade Federal da Bahia já haviam apontado que o óleo que chegou à costa do Nordeste foi produzido na Venezuela.

Extensão dos danos

O último boletim do Ibama, da quinta-feira última, indica que 286 locais em 98 cidades do Nordeste foram atingidos pelas manchas de óleo.

Um terço das mais de 280 localidades atingidas chegaram a ser limpas, mas viram a poluição retornar ao menos uma vez. Ao todo, 83 praias e outras localidades tiveram a reincidência da contaminação, segundo um levantamento do portal G1.

O Instituto de Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) diz que o óleo pode chegar aos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. O órgão foi acionado pelo comitê de crise do governo federal e atua para detectar movimentação do óleo no mar.

Um relatório entregue na sexta-feira ao comitê de crise aponta que as manchas podem estar “represadas” em alto mar e sendo arrastadas por correntes marítimas, podendo se mover ainda por bastante tempo e chegar ao Sudeste, especificamente ao Espírito Santo e ao norte do Rio de Janeiro. A possibilidade de que as manchas avancem ainda mais em direção ao sul é tratada como remota, dadas as características geográficas da região, que oferecem uma espécie de proteção natural.

Risco para Abrolhos

As manchas de óleo de origem desconhecida que atingem o litoral do Nordeste começaram a aparecer na região de Abrolhos, que abriga o arquipélago homônimo, no sul da Bahia, e a maior biodiversidade marinha de todo o Atlântico Sul. Especialistas preveem uma catástrofe ambiental se o óleo chegar em grande quantidade até ali.

A ONG Conservação Internacional relata ter encontrado óleo, nesta semana, em Canavieiras, Belmonte e Santa Cruz de Cabrália, na região de Abrolhos, que engloba o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos e compreende os ecossistemas marinhos e costeiros entre a foz do Rio Jequitinhonha, em Canavieiras (BA), e do Rio Doce, em Linhares (ES), além dos bancos marinhos de Abrolhos e de Royal Charlotte.

Criado em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos abriga as cinco ilhas do arquipélago e ainda não foi atingido pelas manchas de óleo. A área é rica em corais e o principal berçário de baleias jubarte da costa brasileira. O turismo e a pesca na região são fonte de renda para cerca de 100 mil pessoas.

Limpeza

No auge da crise, críticos apontaram que a população, os municípios e os estados das regiões afetadas estavam basicamente tendo que limpar sozinhos as praias, recifes e manguezais atingidos pelas manchas de óleo.

Segundo a Marinha, os estados de Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba estão com todas as suas praias limpas, e os esforços estão agora concentrados na limpeza de cinco praias de Alagoas (Maragogi, Japaratinga, Barra de São Miguel, Feliz Deserto e Coruripe) e de uma na Bahia (Moreré).

Até esta semana, haviam sido retiradas mais de 2 mil toneladas de resíduos de óleo das praias no Nordeste. No total, foram empregados mais de 3.100 militares, 19 navios e três helicópteros da Marinha, além de 5 mil militares do Exército e seis aeronaves da Força Aérea Brasileira.

Eles se somam a 140 servidores do Ibama, 40 do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e 440 funcionários da Petrobras, além de funcionários de órgãos estaduais e municipais.

Com o governo Bolsonaro criticado pela demora e falta de ações efetivas para conter o desastre ambiental no Nordeste, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles,chegou a insinuar, sem provas, que o Greenpeace, uma das principais ONGs ambientais do mundo, seria responsável pela situação.

Outra hipótese

A Marinha contesta categoricamente um estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que sugeriu que as manchas de petróleo podem ter origem em um grande vazamento abaixo da superfície do mar.

Um pesquisador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), vinculado à Ufal, apontou a identificação de um “enorme vazamento de óleo, em formato de meia lua, com 55 quilômetros de extensão e 6 quilômetros de largura, a uma distância de 54 quilômetros da costa do Nordeste”.

De acordo com a assessoria de imprensa da Marinha, não há tal registro de mancha de óleo na região ao sul da Bahia. Para a Marinha, a imagem de satélite pode ter mostrado uma nuvem espessa.

RPR/dw/ots

Meio Ambiente,Oceanos,Fauna,Flora,Blog do Mesquita

O paradoxo de Darwin e os menores vertebrados dos oceanos 

Mariquita-pintada encara a câmera. Foto: Gualter Pedrini.

Uma lembrança da minha infância que ainda permanece vívida é a de chegar cedo na praia e andar uns poucos metros até uma formação rochosa que despontava sobre a areia. Durante a noite, as ondas varriam essas rochas, chegando a cobri-las completamente, mas, com o recuo da maré pela manhã, formavam-se poças em suas reentrâncias. Cada uma delas era como um pequeno aquário, com uma infinidade de criaturas que ficariam ali aprisionadas até a maré subir novamente.

E assim eu passava quase todas as manhãs das minhas férias de verão, com uma rede de aquarismo vasculhando cada poça e coletando pequenos peixes e crustáceos. No meio da tarde, eu já tinha um balde repleto de criaturas coloridas, que me encaravam com aqueles olhos tão curiosos quanto eu as admirava. Antes de ir embora para casa, devolvia cada um à sua poça de origem e esperava a maré subir para garantir que ninguém ficaria preso naquelas fendas por mais de um dia.

Meu pai nunca me ensinou a pescar. Acredito que ele também não era muito bom nisso.  Porém, ele sempre me acompanhava nas horas que eu passava em lojas de pesca, “namorando” as máscaras de mergulho ovaladas iguais às do Jacques Costeau, experimentando inúmeras nadadeiras e no meu primeiro curso de mergulho, já que eu era novo demais para assinar os papéis da minha credencial.

Décadas se passaram e ainda hoje, quando o mar está tão mexido que não dá para ver mais que uns palmos à frente, eu me contento em ficar observando e fotografando aqueles mesmos peixinhos da minha infância. Muitos mergulhadores demoram a aprender que a beleza do mar também está nos pequenos detalhes. Mesmo em ambientes inóspitos, cada fresta, cada metro quadrado de areia esconde uma gama de pequenos seres que constroem redes de interações e ali passam todo o seu ciclo de vida.

Cardume-de-xiras em naufrágio pernambucano. Um exemplo de peixes que se alimentam dos criptobentonicos. Foto: Gualter Pedrini.

Estamos acostumados a pensar no ecossistema recifal como um campeão de biodiversidade. Na verdade, porém, o fato é que suas águas não são assim tão ricas em nutrientes ao ponto de sustentar tamanha quantidade de espécies. Em 1842, o próprio Charles Darwin observou que a transparência das águas tropicais apontava para a rarefação de nutrientes e microrganismos, o que contrastava com o número de espécies coletadas por ele. Esta análise ficou conhecida como “o paradoxo de Darwin” e vem desafiando os cientistas por mais de 150 anos.

Na busca para por peças deste quebra-cabeça, cientistas da Austrália, Canadá, França e Estados Unidos, liderados pelo ecologista Simon Brandl (Simon Fraser University), analisaram dados coletados durante 20 anos acerca de populações de peixes dos corais de Belize, Polinésia Francesa e Austrália. Neste estudo, publicado pela revista Science no começo de 2019, eles desenvolveram simulações computadorizadas visando a diagnosticar o comportamento de reprodução, desova e crescimento dos menores vertebrados marinhos conhecidos.

O mesmo fascínio da minha infância impulsionou estes pesquisadores. Brandl e seus colegas estudaram um grupo de 17 famílias de minúsculos peixes, incluindo gobies, blenios e cardinais. Denominados de criptobênticos (cripto = escondido; bêntos = vivem perto do fundo do mar), eles podem pesar apenas 0,1 grama quando adultos. Raramente são maiores que um dedo mindinho e quase sempre são camuflados ou muito ágeis em se esconder em qualquer fenda se ameaçados. Por conta dessas características, esses peixes passam despercebidos na maioria dos censos de biodiversidade marinha, o que se reflete em um número reduzido de estudos abordando esses animais.

Macaquinho de cabeça preta se esconde em uma fresta do coral Foto: Gualter Pedrini.

Apesar de pouco abordados, a bibliografia aponta que esses peixes estão presentes em todos os recifes de corais tropicais, subtropicais ou temperados.  Na pesquisa de campo, a equipe de Brandl conseguiu contabilizar até 100 peixes criptobênticos por metro quadrado, com uma média de 15 indivíduos por metro quadrado, o que os tornam o grupo mais abundante de vertebrados dos recifes.

Ao contrário dos animais maiores, as larvas desses peixes não seguem o fluxo das correntes até encontrar um lar propício: elas ficam próximas aos corais onde nasceram. Algumas espécies podem gerar até 7 gerações por ano, o que resulta em um fluxo constante de novos recrutas que são muito eficazes em se alimentar dos poucos crustáceos e algas microscópicas à sua volta e em usar essa energia para o próprio crescimento. Ao levarmos em consideração que a maioria destes animais será devorada antes de completar dois meses de vida, podemos entender a importância deles na cadeia alimentar dos recifes.

“Esses peixes são como doces”, diz Brandl em entrevista à Simon Fraser University. “Eles são minúsculos feixes coloridos de energia que são comidos quase imediatamente por qualquer organismo de recife de coral que pode morder, agarrar ou chupá-los. Nossos dados mostram que esses peixes obtêm muito mais sucesso reprodutivo para cada ovo que produzem, permitindo que suas populações criem um fluxo constante de juvenis que rapidamente substitui todos os peixes adultos que foram comidos”.

De fato, a pesquisa publicada na Science demonstra como os peixes criptobênticos podem responder por até 60% da biomassa de peixes consumidos nos recifes. Isto pode ser a chave para a melhor compreensão de como a cadeia alimentar nos recifes de coral se sustenta com tão poucos nutrientes.

Maria-da-toca macho se esconde em meio a corais em Ilhabela, SP. Foto: Gualter Pedrini.

“Os peixinhos criptobênticos são muito importantes na cadeia trófica. Eles crescem e se reproduzem rapidamente, então, são alimento de outros peixes quando ovos, larvas, jovens e adultos”, comenta o Prof. Dr. Sergio Ricardo Floeter do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina.

Mesmo com 70% desses peixes sendo consumidos em uma semana, a alta taxa de reprodução, de crescimento e de aproveitamento dos nutrientes dão a eles uma posição de destaque no equilíbrio do ecossistema. Por um outro lado, por estarem sempre tão próximos aos corais, o monitoramento destes animais pode servir de marcador diante de qualquer agressão mínima aos ambientes recifais.

Gobi Neon aguarda sobre a rocha em Arraial do Cabo. Foto: Gualter Pedrini.
Gualter Pedrini
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Por que o Brasil deveria se importar com a morte de abelhas

Ambiente,AgroTóxicos,Meio Ambiente,Natureza,Poluição,Ecologia,Agricultura,Alimentos,Vida Selvagem,Crimes Ambientais,Fauna & Flora,BrasilPaís enfrenta mortandade de colmeias em vários estados. Diminuição das espécies tem impactos na agricultura, meio ambiente e economia. Mas tema ainda é negligenciado.

A morte de abelhas não é um fenômeno recente: é observada por pesquisadores ao menos desde a década passada. No entanto, nos últimos meses, a mortandade alcançou números alarmantes no Brasil.

“A morte de abelhas não é só um risco para o Brasil, mas para o mundo todo. Quando se pensa em abelhas, se pensa em mel. O principal produto delas, porém, é a polinização”, afirma Fábia Pereira, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na área de Apicultura.

Apenas nos últimos três meses, 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores no país, segundo um levantamento feito pela ONG Repórter Brasil em parceria com a Agência Pública. A grande maioria dos casos foi registrada no Rio Grande Sul, seguido por Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Além da morte em massa de colmeias em apiários, cinco espécies nativas de abelhas estão ameaçadas de extinção – três delas habitam a Mata Atlântica, uma o Cerrado e outra o pampa gaúcho. Não há dados, porém, sobre a mortandade em comunidades selvagens.

As abelhas são responsáveis pela polinização de cerca de 70% das plantas cultivadas para alimentação, principalmente frutas e verduras. Sua morte coloca em risco a agricultura e, consequentemente, a própria segurança alimentar. Sem elas, o ser humano enfrentaria uma mudança drástica na sua dieta, que ficaria restrita apenas a culturas autopolinizáveis, como feijão, arroz, soja, milho, batata e espécies de cereais.

Além da agricultura, as abelhas são ainda agentes fundamentais para a polinização de florestas nativas. Seu desaparecimento poderia desencadear a morte de ecossistemas inteiros. “Se o homem parasse de fazer qualquer outra intervenção ambiental, e as abelhas apenas sumissem, haveria um desaparecimento da mata correspondente a entre 30% e 90% do que temos hoje, provocando um processo de extinção em cadeia até chegar em nós que estamos no topo”, ressalta Pereira.

Essa mortandade tem ainda potencial para impactar a economia brasileira. O país é o oitavo produtor mundial de mel e, em 2017, as exportações totalizaram 121 milhões de dólares. A diminuição na produção diante da redução do número de colmeias resultaria numa queda nas vendas. Além disso, em caso de mortes causadas por agrotóxicos, resíduos destas substâncias possivelmente poderiam ser encontrados no mel, o que levaria compradores estrangeiros a rejeitarem o produto brasileiro.

“A exportação para a Europa é muito exigente, e qualquer resíduo é detectado. O mel que foi produzido nos últimos meses está contaminado. No exterior, ninguém vai querê-lo, e não há um mercado interno suficiente para a quantidade produzida. Isso vai desestimular a apicultura”, afirma o engenheiro agrônomo Aroni Sattler, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Números alarmantes

A morte de abelhas começou a chamar a atenção mundial a partir da identificação do Distúrbio do Colapso das Colônias (CCD), em 2006 nos Estados Unidos, quando um forte surto dizimou milhares de colmeias. Na Europa, fenômenos semelhantes estão sendo observados desde o fim da década de 1990. Pesquisadores descobriram que, além das doenças e da redução do habitat das espécies, os agrotóxicos são um dos fatores que desencadeia essa mortandade.

Além da toxicidade elevada de alguns defensivos agrícolas, contribui para esse cenário o uso incorreto destas substâncias. Elas são aplicadas durante o dia, quando as abelhas estão fora das colmeias, sem seguir parâmetros de segurança e sem comunicar apicultores para que possam deixar as caixas fechadas.

No atual caso brasileiro, pesticidas à base de neonicotinoides e de fipronil foram os principais agentes causadores das mortes. “O histórico da mortandades agudas que temos constatado deixa muito clara a sua relação com o uso de agrotóxicos”, ressalta Sattler, especialista em apicultura.

No Rio Grande do Sul, onde mais de 400 milhões de abelhas morreram só no primeiro trimestre, 80% das mortes foram causadas pelo fipronil, inseticida usado amplamente em lavouras de monoculturas, mas também em pequenas propriedades rurais. A substância é ainda muito popular no extermínio de formigas e em remédios veterinários para controle de insetos, como pulgas. Em Santa Catarina, resquícios do pesticida foram detectados em colmeias mortas entre o fim do ano passado e início deste.

“Precisamos começar a questionar o modelo agrícola atual. Os efeitos da expansão do monocultivo baseado em agrotóxicos estão comprovados. Os Estados Unidos tinham 6 milhões de colmeias na década de 1940, e hoje estão com cerca de 2,5 milhões”, destaca Sattler.

Pressão popular

Na Europa, a morte abelhas é há alguns anos um tema presente na mídia e na política. Em 2017, um estudo chamou atenção da opinião pública alemã ao revelar que as populações de insetos voadores haviam recuado 75% ao longo de 25 anos no país. A pesquisa desencadeou um debate sobre a questão.

Atualmente na Alemanha a iniciativa popular “Salvem as abelhas” quer forçar o governo da Baviera a buscar soluções para a diminuição da biodiversidade. A proposta prevê o incentivo à agricultura orgânica, proteção de matas ciliares, a ampliação da ligação de habitats naturais e o banimento de agrotóxicos.

A pressão popular e de ativistas ambientais foi fundamental para a União Europeia (UE) aprovar no ano passado a proibição de três substâncias neonicotinoides – clotianidina, imidacloprida e tiametoxam, que danificam o sistema nervoso central de insetos, como as abelhas. Já a França foi mais além e baniu cinco inseticidas desta categoria de derivados da nicotina.

Já o fipronil teve seu uso restrito na Europa. Proibida completamente na França desde 2004 e, posteriormente, em vários países europeus, a aplicação do pesticida na União Europeia foi limitada em 2013 a cultivos em estufas e de alho-poró, cebola, cebolinha e couve. A substância também é banida da indústria alimentícia do bloco, podendo ser usada apenas para combater pulgas, piolhos e carrapatos de animais domésticos.

A Europa patina, porém, ainda no banimento do glifosato, outro defensivo agrícola que, segundo uma pesquisa divulgada no ano passado, é prejudicial às abelhas.

Enquanto países europeus estão reavaliando e restringindo o uso de agrotóxicos, o Brasil nos últimos meses tem incentivado a liberação de defensivos agrícolas. Em relação às abelhas, o tema continua negligenciado, ainda mais diante do impacto que a extinção destas espécies pode ter.

“Apesar de todos os esforços, ainda não conseguimos sensibilizar suficientemente o público em geral e o próprio governo sobre a importância de trabalharmos na proteção das abelhas. Já foram realizados eventos sobre o assunto, reuniões explicando a importância das abelhas e com sugestões de políticas públicas, mas ainda precisamos avançar nas ações efetivas”, ressalta Pereira.

Satller tem opinião semelhante. “A situação é bastante grave, mas ainda dá para reverter”, afirma o pesquisador, que defende o questionamento do atual modelo do agronegócio no país e a restrição do uso indiscriminado de agrotóxicos.
DW

Meio Ambiente,Animais,Mudanças,Climáticas,Insetos,Agrotóxicos,Vida Selvagem

Por que há cada vez mais moscas e baratas e menos borboletas e abelhas

Meio Ambiente,Animais,Mudanças,Climáticas,Insetos,Agrotóxicos,Vida SelvagemDireito de imagemGETTY IMAGES
A população de diversas espécies de borboletas está em declínio, além de abelhas e libélulas 

Uma nova análise científica sobre o número de insetos no mundo sugere que 40% das espécies estão experimentando uma “dramática taxa de declínio” e podem desaparecer. Entre elas, abelhas, formigas e besouros, que estão desaparecendo oito vezes mais rápido que espécies de mamíferos, pássaros e répteis. Já outras espécies, como moscas domésticas e baratas, devem crescer em número.

Vários outros estudos realizados nos últimos anos já demonstraram que populações de algumas espécies de insetos, como abelhas, sofreram um grande declínio, principalmente nas economias desenvolvidas. A diferença dessa nova pesquisa é ter uma abordagem mais ampla sobre os insetos em geral. Publicado no periódico científico Biological Conservation, o artigo faz uma revisão de 73 estudos publicados nos últimos 13 anos em todo o mundo.

Os pesquisadores descobriram que o declínio nas populações de insetos vistos em quase todas as regiões do planeta pode levar à extinção de 40% dos insetos nas próximas décadas. Um terço das espécies está classificada como ameaçada de extinção.

“O principal fator é a perda de habitat, devido às práticas agrícolas, urbanização e desmatamento”, afirma o principal autor do estudo, Francisco Sánchez-Bayo, da Universidade de Sydney.

“Em segundo lugar, está o aumento no uso de fertilizantes e pesticidas na agricultura ao redor do mundo, com poluentes químicos de todos os tipos. Em terceiro lugar, temos fatores biológicos, como espécies invasoras e patógenos. Quarto, mudanças climáticas, particularmente em áreas tropicais, onde se sabe que os impactos são maiores.”

Os insetos representam a maioria dos seres vivos que habitam a terra e oferecem benefícios para muitas outras espécies, incluindo humanos. Fornecem alimentos para pássaros, morcegos e pequenos mamíferos; polinizam em torno de 75% das plantações no mundo; reabastecem os solos e mantêm o número de pragas sob controle.

Escaravelho, um tipo de besouroDireito de imagemGETTY IMAGES
Besouros também estão em declínio, segundo o estudo

Os riscos da redução do número de insetos

Entre destaques apontados pelo estudo estão o recente e rápido declínio de insetos voadores na Alemanha e a dizimação da população de insetos em florestas tropicais de Porto Rico, ligados ao aumento da temperatura global.

Outros especialistas dizem que as descobertas são preocupantes. “Não se trata apenas de abelhas, ou de polinização ou alimentação humana. O declínio (no número de insetos) também impacta besouros que reciclam resíduos e libélulas que dão início à vida em rios e lagoas”, diz Matt Shardlow, do grupo ativista britânico Buglife.

“Está ficando cada vez mais claro que a ecologia do nosso planeta está em risco e que é preciso um esforço global e intenso para deter e reverter essas tendências terríveis. Permitir a erradicação lenta da vida dos insetos não é uma opção racional”.

Os autores do estudo ainda estão preocupados com o impacto do declínio dos insetos ao longo da cadeia de produção de comida. Já que muitas espécies de pássaros, répteis e peixes têm nos insetos sua principal fonte alimentar, é possível que essas espécies também acabem sendo eliminadas.

BaratasDireito de imagemGETTY IMAGES
Já baratas e moscas domésticas podem prosperar

Baratas e moscas podem proliferar

Embora muitas espécies de insetos estejam experimentando uma redução, o estudo também descobriu que um menor número de espécies podem se adaptar às mudanças e proliferar.

“Espécies de insetos que são pragas e se reproduzem rápido provavelmente irão prosperar, seja devido ao clima mais quente, seja devido à redução de seus inimigos naturais, que se reproduzem mais lentamente”, afirma Dave Goulson, da Universidade de Sussex.

Segundo Goulson, espécies como moscas domésticas e baratas podem ser capazes de viver confortavelmente em ambientes humanos, além de terem desenvolvido resistência a pesticidas.

“É plausível que nós vejamos uma proliferação de insetos que são pragas, mas que percamos todos os insetos maravilhosos de que gostamos, como abelhas, moscas de flores, borboletas e besouros”.

O que podemos fazer a respeito?

Apesar dos resultados do estudo serem alarmantes, Goulson explica que todos podem tomar ações para ajudar a reverter esse quadro. Por exemplo, comprar comida orgânica e tornar os jardins mais amigáveis aos insetos, sem o uso de pesticidas.

Além disso, é preciso fazer mais pesquisas, já que 99% da evidência do declínio de insetos vêm da Europa e da América do Norte, com poucas pesquisas na África e América do Sul.

Se um grande número de insetos desaparecer, diz Goulson, eles provavelmente serão substituídos por outras espécies. Mas esse é um processo de milhões de anos. “O que não é um consolo para a próxima geração, infelizmente”.
BBC

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Fragatas-de-trindade: a luta para salvar ave brasileira que não consegue construir ninhos em ilha devastada

Crimes Ambientais,Brasil,Ilha de Trindade,Fauna,Aves,Ilha de Trindade,FragatasDireito de imagem GETTY IMAGES
A ilha também abriga outras espécies de fragata, como a fragata-grande (foto)

Elas existem só ali. Na remota ilha de Trindade,a 1,3 mil km da costa do Espírito Santo, as trinta últimas aves da espécie Fregata trinitatis procuram por árvores para se reproduzir.

Conhecidas como fragatas-de-trindade, essas aves marinhas são endêmicas da ilha. Com apenas 30 indivíduos vivos vivendo na natureza, são consideradas criticamente ameaçadas de extinção.

Habituada à vida no mar, a fragata-de-trindade se alimenta de peixes e é capaz de voar grandes distâncias sem pousar em terra firme. Mas ela não consegue se reproduzir sem árvores para fazer seu ninho.

Enquanto procuram um local ideal sob o sol, as aves são observadas pelos cientistas da FURG (Universidade Federal do Rio Grande) e do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que sabem que, infelizmente, elas não vão encontrar árvores por ali.

A ilha não têm nenhum morador fixo, mas as paradas que os homens fizeram em Trindade há centenas de anos foram suficientes para acabar com a vegetação do local.

Ao longo dos séculos, os navegadores que passaram por ali queimaram parte das árvores e deixaram ratos, cabras e porcos – que não têm predadores naturais na região e acabaram se multiplicando,comendo e destruindo o resto da vegetação. A ilha tem 9,2 km².

Praia do Príncipe, na ilha de Trindade, contém pouca vegetaçãoDireito de imagem ICMBIO
Espécies invasoras introduzidas por humanos destruíram a vegetação das ilhas, como se vê na Praia do Príncipe, na ilha de Trindade

A destruição foi tanta, explica a analista ambiental Patrícia Serafini, do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres, que até o solo se perdeu. Atualmente, a ilha abriga cerca de 130 espécies, entre plantas, peixes, aves, crustáceos e répteis.

Segundo ela, com a destruição da vegetação, as aves terrestres que existiam ali acabaram morrendo por não ter como se alimentar. As espécies terrestres que eram endêmicas à região foram todas extintas.

“As aves marinhas, que se alimentam de peixe, conseguiram sobreviver, mas a falta de árvores ameaça sua reprodução”, explica Serafini.

O grupo de pesquisadores da FURG, do ICMBio e de outras instituições estuda como recompor a vegetação da ilha, mas isso deve levar anos – se depender apenas disso, até a mata nativa estar recuperada, todas as fragatas já terão morrido sem conseguir produzir descendentes. Também participaram do projeto a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande de Sul), a UFMG (universidade Federal de Minas Gerais), a UFAL (Universidade Federal de Alagoas), o Museu Nacional do Rio e a UnB (Universidade de Brasília).

Reproduzir os animais em cativeiro não é uma opção.

“Não tem como mantê-las em laboratório, elas não sobrevivem e não conseguem se reproduzir em cativeiro”, explica Serafini.

“Ou fazemos a fragata voltar a se reproduzir em seu ambiente natural ou a espécie vai entrar em extinção.”

Ninhos artificiais

A última esperança dos pesquisadores é tentar estimular as fragatas a se reproduzirem com a criação de postes que imitam árvores e têm ninhos artificiais.

Réplica de fragata-de-trindade que será colocada no ninhoDireito de imagem PATRÍCIA SERAFINI
Alguns dos ninhos terão também aves empalhadas para estimular as fragatas-de-trindade reais a usá-los

O projeto, criado pelo ICMBio e pelas universidade federais com o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, desenvolveu ninhos especialmente adaptados para as fragatas-de-trindade. Alguns deles têm até réplicas de aves e sons dos bichos se acasalando – a ideia é estimular a reprodução.

Os ninhos artificiais terão a base de metal e uma plataforma onde as aves podem pousar e trazer seus próprios gravetos. Ele também usarão réplicas – aves taxidermizadas – para tentar atraí-las.

“A ideia é que as aves ouçam os sons, se sintam atraídas, cheguem perto para investigar o que está acontecendo e percebam que podem se reproduzir ali, até que tragam elas mesmas seus gravetinhos”, explica Serafini.

Os pesquisadores testaram vários protótipos feitos de diferentes materiais até chegar no modelo final, que está sendo testado no Rio Grande do Sul antes de ser levado para Trindade.

“Tivemos que encontrar uma estrutura capaz de sustentar uma plataforma e resistir aos fortíssimos ventos da ilha”, afirma a ambientalista.

Os biólogos ainda não sabem se os ninhos cumprirão sua função. Outras iniciativas do tipo já tiveram sucesso no mundo – a bióloga Elizabeth Schreiber fez um trabalho bem sucedido com ninhos artificiais para outras espécies de fragata no Pacífico – mas o projeto em Trindade é a primeira tentativa de fazer isso no Brasil.

“Precisávamos de uma estratégia rápida. Essa pode ser a última chance dessa espécie”, diz Serafini.

Outras espécies, como a noivinha, a fragrata-grande, o atobá-de-pé-vermelho e a petral-de-trindade também serão ajudadas pelo programa.

Recuperar as ilhas

A ideia é manter as espécies vivas enquanto ornitólogos, botânicos e outros cientistas trabalham na recuperação da flora local, com a transposição de mudas para as ilhas.

Pesquisadores montam ninho artificial para testeDireito de imagem LEANDRO BUGONI
Os ninhos artificiais estão sendo testados no Rio Grande do Sul antes de serem levados para a ilha de Trindade

Segundo Serafini, as cabras foram retiradas da região em 2005, mas outras espécies invasoras ainda são um desafio – os ratos, por exemplo.

“É preciso analisar o impacto que eles têm, pode ser que estejam comendo as sementes das plantas, por exemplo. Nesse caso teríamos que pensar em como erradicá-los, o que não é uma tarefa fácil”, diz a ambientalista.

O processo é lento. “É preciso analisar o que tem que ser feito, onde a vegetação está conseguindo se recompor. Depois é preciso recompor o solo para que flora possa crescer.”

Se tudo der certo, o trabalho com as aves vai ajudar nisso: as fezes dos animais no chão da ilha ajudam a adubar.

“Queremos recriar um ciclo positivo, em que as aves ajudem a manter as mudas e as novas árvores permitam que haja mais árvores.”

Para uma recuperação total, também é preciso proteger a vida marinha de pesca ilegal ao redor das ilhas – o arquipélago é hoje uma área de proteção ambiental, com a pesca proibida em berçários de animais marinhos.
BBC