Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog doMesquita 11

Naomi Ayala – Breve – Poesia

Breve
Naomi Ayala

Aqui a fome morre –
no canto, atrás das redes,
– Como se a morte fosse rápida,
rápida como uma bala.

Aqui morre a esperança, morre –
debaixo da árvore em janeiro,
na sua bolsa de gelo,
nas ruas agredidas,
engolindo sons de sirenes –

malditas ambulâncias

– Nos becos escondidos,
nas casas sem saídas,
na pestilência dos edifícios.

A esperança morre
como uma criança morre
– como morrem
todas as crianças

Morrem como o teto perfurado sobre a cama
no ciclone de tiroteios.

Eles morrem como a raiva –
como se a morte fosse breve,

breve como a vida,
breve como um sonho,

ou uma bala, sim.

Gravura de Masha Shishova

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Konstantinos Kaváfis – Poesia

À Espera dos Bárbaros
Konstantinos Kaváfis

O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

Forografia de Misha Gordin

Poesia,Neruda,Fernando Pessoa,Cecília Meireles,ShakespeareBlogdoMesquita 02

Shakespeare – Poema

Poema
Shakespeare

Perguntei a um sábio ,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade…

O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas ,
a Amizade o chão.

No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.

Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.

Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.

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Baudelaire – Poesia

Prelúdio da Vaidade
Baudelaire

Maldade que encaminha a vaidade…
Vaidade, que me toma como vencido…
Vencido quero ver-me arrependido…

Arrependido a tanta tolice…
Arrependido estou de coração…

Do seu coração busco sua luz…
Para entender do que há tanta tolice…

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Eugênio de Andrade – …em lugar de sol, nevoeiro dentro de si

Ver Claro
Eugênio de Andrade

Toda a poesia é luminosa,
até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

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Marco Antonio Campos – Os poetas modernos

Os poetas modernos
Marco Antonio Campos

E o que ficou das experimentações,
da “grande estreia da modernidade”,
do “confronto com a página em branco”,
da pirueta rítmica e do
contra-ângulo da palavra,
de ultraístas e pássaros concretos,
de surrealizantes com sonhos de
náufrago em vez de terra firme,
quantos versos te revelaram um mundo,
quantos versos ficaram no teu coração,
diz-me, quantos versos ficaram no teu coração.

Brecht – Nunca diga não

Nunca
Bertold Brecht

Nunca digam: isso é natural!
Diante dos acontecimentos diários
Numa época em que reina a confusão
Em que escorre o sangue,
Em que se ordena a desordem,
Em que o arbitrário tem força d lei,
Em que a humanidade se desumaniza,
Nunca digam: isso é natural!

arte digital/colagem José Mesquita

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Paul Éluard – A noite

A noite
Paul Eluard

Teu olhar faz a volta do meu coração,
Uma roda de dança e de doçura,
Auréola do tempo, berço noturno e seguro,
E se não sei mais o que tenho vivido
É porque teus olhos nem sempre me enxergaram.

Folhas do dia e musgo do rocio,
Caniços do vento, sorrisos perfumados,
Asas que cobrem o mundo de luz,
Barcos carregados de céu e mar,
Caçadores de ruídos e fontes de cores.

Aromas nascidos de uma ninhada de auroras
Que sempre jaz sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos puros
E o meu sangue todo flui nos olhares deles.

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Lope de Vega – Letra para cantar

Letra para cantar
Lope de Vega

Não serem, Lucinda, estrelas
as tuas pupilas belas,
bem pode ser;
mas que em sua claridade
não haja alguma deidade,
não pode ser.

Que a boca celestial
não seja o próprio coral,
bem pode ser;
mas que não exceda a rosa
em ser vermelha e cheirosa,
não pode ser.

Que não seja o branco peito
de cristais ou neve feito,
bem pode ser;
mas que não vença em brancura
os cristais e a neve pura,
não pode ser.

Que não seja um anjo, o colo
da Fênix, o próprio Apolo,
bem pode ser;
porém que de anjo não tenha
o que com anjo convenha,
não pode ser.

Não teres flores nas veias
nem de lírios as mãos cheias,
bem pode ser;
mas que nelas não se vejam
quantas graças se desejam,
não pode ser.