Arsenii Tarkovskii – Os primeiros encontros

Boa noite.
Os primeiros encontros
Arsenii Tarkovskii

cada momento passado juntos
era uma celebração, uma Epifania,
nós os dois sozinhos no mundo.
tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
descias numa vertigem a escada
a dois e dois, arrastando-me
através de húmidos lilases, aos teus domínios
do outro lado, passando o espelho.

Alberto Caeiro – Poesia

Boa noite.
O que Nós Vemos das Cousas São as Cousas
Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Ps. Mantida a ortografia do Português de Portugal

Fotografia de Michael Kenna

Criaturas – Maria Borio – Poesia

Boa noite.
Criaturas
Maria Borio

I

Nada mais frágil, nada mais fácil:
o tempo se perde se creio termos tempo
para contar todas as formas de felicidade.

Na tela sigo a imagem do oceano: nos separa
faz frio, a cada revoada dos pássaros
teu corpo e o meu podem se transformar.

O oceano essa noite tocou-te o ventre porque o sonhaste,
uma estranha Europa roçou-me as costas.

Espremo o rosto, a figura do teu rosto
dois hemisférios.

II

Criaturas, vestígios de fogo.
No muro assinalavas as primeiras letras.

Pensei em ti uma trança na chama
abre-se violeta, cai camada sob camada.

Atravessaremos o tempo como ícones sobre o fundo
sem tempo do quadro: criaturas

que não podem se dizer
que te vencem.

Arte:Gunnar Norrman (1912 – 2005)

Hilda Hilst – Poema aos homens do nosso tempo

Poemas aos homens do nosso tempo
Hilda Hilst

homenagem a
Natalia Gorbanievskaya

Sobre o vosso jazigo
— Homem político —
Nem compaixão, nem flores.
Apenas o escuro grito
Dos homens. Sobre os vossos filhos
— Homem político —
A desventura
Do vosso nome. E enquanto estiverdes
À frente da Pátria
Sobre nós, a mordaça.
E sobre as vossas vidas
— Homem político —
Inexoravelmente, nossa morte.

Machado de Assis – Poesia

Boa noite
A uma senhora que me pediu versos
Machado de Assis

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

Ilustração Digital de José Mesquita