Bárbara Lia – Versos na tarde

Mar/absinto
Bárbara Lia

Nossos olhos de dezoito anos
acomodaram o mar
Sobrou a maré em torno
um sussurro de conchas
a nos acordar nas noites brancas

Nossos olhos de dezoito anos
beberem do mar/absinto
como ao vinho santo.

Nossos olhos embriagados.
Nossos olhos negros e azulados.
Uma sereia recolhendo a rede
os corações de dois poetas ali
enredados

Nossos olhos de dezoito anos.
Nossas almas milenares.
Nossos amores fracos à soleira da incerteza.
Tanta beleza em ti, Rimbaud!
Tanta ausência em mim!

E nas marquises
bêbados ainda caminham
buscando o sol
que você guardou prá mim

Pintura – Pablo Picasso “A bebedora de absinto”,1901

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Testamento Vital – Emanuel Jorge Botelho – Poesia

Testamento Vital
Emanuel Jorge Botelho

estou tão cansado de andar a ir morrendo,
à espera que o tempo saia do meu nome.

trepar paredes não é risco a que dê gasto de alma,
e não tenho caligrafia
para cancelar o endereço.

ponho uma faca entre os dentes?
masco tília?
ou desenho a primeira sílaba de uma asa?

não faço nada.
não sou capaz de trair a minha morte.

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Joaquim Pessoa – Agradecimento à corja

Boa noite
Poema de agradecimento à corja.
Joaquim Pessoa

Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Gravura de Oswaldo Goeldi,1937

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Eugênio Andrade – Faz uma chave, mesmo pequena

Faz uma chave, mesmo pequena
Eugênio Andrade

Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

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Álvaro de Campos/Fernado Pessoa – Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão

Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão
Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim,
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau —
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos
Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá nocturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter…
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida.
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade.
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel,
A tua imortalidade presumida era o não teres vida.
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente,
Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina!

Pintura de Mary Mendla, 2016

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Luís Filipe Parrado – Teoria da narrativa familiar

Boa noite
Teoria da narrativa familiar
Luís Filipe Parrado

Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

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Leonardo Marona – Mãos e Cordas

Mãos e cordas – Outra década
Leonardo Marona

sei que nossa corda é firme,
mas é preciso mãos para puxá-la.
vejam só como se parece
uma corda firme largada
no chão do fim de uma década,
no chão do fim de uma feira,
da feira que dura uma década.

olhem bem para o chão
pela última vez no que se fecha
e abre um novo ciclo provisório.
a mesma corda sempre firme
mais parece um clown
embrulhado de maldade
sem o carinho cheio de suor
das mãos que choram medo
e transpiram frustração translúcida.

alguém que caiu no meio da festa
e não houve tempo de perceberem,
essa corda é firme, mas sem mãos
ela fica assim como o cigarro
que a chuva molhou enquanto
alguém ainda pensava no amor.

pode ser também a mesma corda
da qual desistiu o palhaço suicida
e que ficou ali, no fim da feira,
largada enquanto ele seguiu
com a cara triste da qual se ri
o mais digno fiel da procissão.

seguir talvez seja puxar a corda,
com cuidado para que não estique
a ponto de estarmos curados,
de não mais precisarmos da corda.
e nunca mais veríamos as mãos
e nunca mais diríamos preciso
da sua mão para puxar a corda.

uma corda precisa de pelo menos
duas mãos para não ser um chicote.
a uma corda é preciso uma disputa
e somente um tipo de disputa existe:
a que vale para erguer o derrotado
e será a calma de deuses coléricos
quando olharem finalmente para nós.
por enquanto somos mãos e cordas
e a terrível vontade de simbolizar
o amor que não sabemos entender.

Litografia de Maria Bonomi

Vitorino Nemésio – O poema em que te busco é a minha rede.

Boa noite
O poema em que te busco é a minha rede.
Vitorino Nemésio

O poema em que te busco é a minha rede,
Bem mais de borboletas que de peixes,
E é o copo em que te bebo: morro à sede
Mas ainda és margarida e não-me-deixes
E muito mais, no enumerar das coisas:
Cordão de laço e corda de violino,
Saliva de verdade nalgum beijo,
E poisas
Como ave de aço em pão se não te vejo.
Mas onde mais real do céu me avisas
É nas tuas camisas,
Calças de cor no catre bem dobradas.
E és os meus pensamentos, se te ausentas,
Meu ciúme escuro como vinho em toalha;
E o branco circular das horas lentas
Que um perfurante amor lembrado espalha.
Põe o penso no velo intercrural
Com um atilho vertical:
Rosa coberta esquiva
Quer a mão do desejo, quer
O conhecido cravo da agressão
Que estendo às tuas formas de mulher,
Com esta soma e verbal percaução
De um fónico doutor de Mompilher.

Pintura de Crystal Neubauer

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Renato Mazzini – Nóstromo

Nóstromo
Renato Mazzini

Quebrada a combinação,
o que restou no cofre
entre mímicas involuntárias
de falas e rostos
e filmagens mentais em 35mm,
foi a lembrança detalhada
de todo o percurso de dor
e lesões oculares.
De uma madrugada de
tempestade em que, abre aspas,
os relâmpagos tentavam comunicar
alguma coisa, fecha aspas, até
acordar abraçado
a um travesseiro em pedaços,
os sistemas aparentemente
incoerentes entre si, insistindo
em distribuir a seguinte
informação, abre aspas, talvez
você desconheça a identidade
do verdadeiro inimigo,
fecha aspas, ou, na primeira
versão que interpretamos,
as vidraças e eu, abre aspas,
o som não se propaga no vácuo,
mas realmente deveria, fecha aspas.
Isso soma mais algumas dúvidas
à mente cansada que
acorda, num escuro quase perfeito,
machucado apenas
por algumas flechas de luz
vazando os tacos da janela de
madeira, e não havendo
energia elétrica nem para o
ferro de passar, concluir que
talvez fosse melhor,
abra aspas, reorganizar todos
os pensamentos, fecha aspas,
antes de inalar a primeira carga
do dia de ar aos pulmões e ficar,
enquanto acende uma boca
de fogão com o último fósforo
não-molhado, pensando sobre
a microexasperação
de cada coisa.