Covid-19 e a política anti-capitalista

“Se a China não puder repetir o papel que desempenhou em 2007-8, então o ônus de sair da atual crise econômica se deslocará para os Estados Unidos e aqui está a grande ironia: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica como politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que possa propor Bernie Sanders”, escreve David Harvey, geógrafo e teórico social britânico, em artigo publicado por Observatorio de la crisis, 22-03-2020. A tradução é do Cepat.

David Harvey* –  UHU Adital

Quando busco interpretar, entender e analisar o fluxo diário de notícias, tendo a localizar o que está acontecendo no contexto de duas maneiras um tanto diferentes (e cruzadas) que almejam explicar como o capitalismo funciona.

O primeiro nível é um mapeamento das contradições internas da circulação e acumulação de capital como fluxos de valor monetário em busca de lucro através dos diferentes “momentos” (como os chama Marx) de produção, realização (consumo), distribuição e reinvestimento. Esse modelo da economia capitalista como uma espiral de expansão e crescimento sem fim se complica bastante na medida em que se elabora, através de, por exemplo, as lentes das rivalidades geopolíticas, desenvolvimentos geográficos desiguais, instituições financeiras, políticas estatais, reconfigurações tecnológicas e uma rede em constante mudança das divisões do trabalho e das relações sociais.

No entanto, também acredito que esse modelo deve se inscrever em um contexto mais amplo de reprodução social (nos lares e comunidades), em uma relação metabólica permanente e em constante evolução com a natureza (incluindo a “segunda natureza” da urbanização e o ambiente construído) e todos os tipos de formações culturais, científicas (baseadas no conhecimento), religiosas e sociais contingentes que as populações humanas geralmente criam através do espaço e do tempo.

Esses últimos “momentos” incorporam a expressão ativa dos desejos, necessidades e anseios humanos, a ânsia de conhecimento e significado e a busca evolutiva da satisfação em um contexto de mudanças nos arranjos institucionais, disputas políticas, confrontos ideológicos, perdas, derrotas, frustrações e alienações, tudo em um mundo de acentuada diversidade geográfica, cultural, social e política.

Essa segunda maneira constitui, por assim dizer, minha compreensão prática do capitalismo global como uma formação social distinta, enquanto a primeira trata das contradições dentro do motor econômico que conduz essa formação social por certos caminhos de sua evolução histórica e geográfica.

Quando em 26 de janeiro de 2020 li pela primeira vez sobre um coronavírus – que estava ganhando terreno na China – pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica mundial da acumulação de capital – David Harvey

Quando em 26 de janeiro de 2020 li pela primeira vez sobre um coronavírus – que estava ganhando terreno na China -, pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica mundial da acumulação de capital. Sabia por meus estudos do modelo econômico que os bloqueios (fechamentos) e interrupções na continuidade do fluxo de capital provocariam desvalorizações e que, se as desvalorizações fossem generalizadas e profundas, isso indicaria o início de uma crise.

Também sabia muito bem que a China é a segunda economia maior do mundo e que foi a potência que resgatou o capitalismo mundial, após o período 2007-2008. Portanto, qualquer golpe na economia chinesa estava destinado a ter graves consequências para uma economia global que, de qualquer forma, já estava em uma situação lamentável.

O modo existente de acumulação de capital está com muitos problemas. Estavam sendo produzidos movimentos de protesto em quase em todos os lugares (de Santiago a Beirute), muitos dos quais focados em um modelo econômico dominante que não funciona para a maioria da população.

Este modelo neoliberal se baseia cada vez mais em capital fictício e em uma grande expansão da oferta monetária e na criação massiva de dívida. Esse modelo já estava enfrentando uma insuficiente “demanda efetiva” para “realizar” os valores que o capital é capaz de produzir.

Então, como poderia o sistema econômico dominante, com sua legitimidade decadente e sua delicada saúde, absorver e sobreviver ao inevitável impacto de uma pandemia da magnitude que enfrentamos?

A resposta depende em grande parte do tempo que dura a perturbação, pois, como apontou Marx, a desvalorização não se produz porque os produtos básicos não podem ser vendidos, mas porque não podem ser vendidos a tempo.

Durante muito tempo, havia rejeitado a ideia de que a “natureza” estava fora e separada da cultura, da economia e da vida cotidiana. Adotei um ponto de vista mais dialético da relação metabólica com a natureza. O capital modifica as condições ambientais de sua própria reprodução, mas o faz em um contexto de consequências não intencionais (como a mudança climática) e no contexto de forças evolutivas autônomas e independentes que estão reconfigurando constantemente as condições ambientais.

Os vírus sofrem mutação o tempo todo para estar seguros. Mas as circunstâncias em que uma mutação se torna um ameaça para a vida dependem das ações humanas – David Harvey

Deste ponto de vista, não existe um verdadeiro desastre “natural”. Os vírus sofrem mutação o tempo todo para estar seguros. Mas as circunstâncias em que uma mutação se torna um ameaça para a vida dependem das ações humanas.

Existem dois aspectos relevantes nisso. Primeiro, as condições ambientais favoráveis aumentam a probabilidade de mutações poderosas. Por exemplo, é plausível esperar que o fornecimento de alimentos intensivos (e indiscriminados) nos subtópicos úmidos possa contribuir para isso. Tais sistemas existem em muitos lugares, incluindo a China ao sul do Yangtzé e todo o Sudeste Asiático.

Em segundo lugar, as condições que favorecem a rápida transmissão variam consideravelmente. As populações humanas de alta densidade parecem ser alvos fáceis para os hóspedes. É sabido que as epidemias de sarampo, por exemplo, só florescem em grandes centros populacionais urbanos, mas morrem rapidamente em regiões pouco populosas. A forma com que os seres humanos interagem entre si, se movem, se disciplinam ou esquecem de lavar as mãos afeta a maneira como são transmitidas as doenças.

Nos últimos anos, a SARS, a gripe aviária e a gripe suína parecem ter saído do Sudeste Asiático. A China também sofreu muito com a peste suína no ano passado, forçando um massivo abate de porcos e um consequente aumento dos preços da carne suína. Não estou dizendo tudo isso para acusar a China.

Existem muitos outros lugares onde os riscos ambientais de mutação e disseminação viral são altos. A gripe espanhola de 1918 pode ter saído do Kansas. O HIV pode ter eclodido na África, o ebola começou no Nilo Ocidental e a dengue parece ter florescido na América Latina. Mas os impactos econômicos e demográficos da propagação de vírus dependem das fendas e vulnerabilidades pré-existentes no sistema econômico hegemônico.

Não me surpreendeu muito que a COVID-19 tenha sido encontrada inicialmente em Wuhan (embora ainda não se saiba se ela se originou lá). Claramente, os efeitos locais podem se tornar importantes. Mas como esse é um grande centro de produção, seu impacto pode ter repercussões econômicas globais.

A grande questão é como ocorre o contágio e sua difusão, e quanto tempo durará (até que possa ser encontrada uma vacina). A experiência anterior demostrou que um dos inconvenientes da crescente globalização é a impossibilidade de impedir uma rápida difusão internacional de novas doenças. Vivemos em um mundo altamente conectado, onde quase todo mundo viaja. As redes humanas de difusão potencial são vastas e abertas. O perigo (econômico e demográfico) é que a interrupção dure um ano ou mais.

Embora tenha havido um declínio imediato nos mercados acionários mundiais quando foram divulgadas as notícias, foi surpreendentemente seguido pela alta dos mercados. As notícias pareciam indicar que os negócios eram normais em todos os lugares, exceto na China.

A crença parecia ser que iríamos experimentar uma repetição da SARS, que foi rapidamente contida e teve um baixo impacto global, apesar de sua alta taxa de mortalidade.

Depois descobrimos que a SARS criou um pânico desnecessário nos mercados financeiros. Então, quando apareceu a COVID-19, a reação foi apresentá-la como uma repetição da SARS e, portanto, agora a preocupação era injustificada.

O fato de a epidemia ter causado estragos na China com rapidez e crueldade moveu o resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo que ocorria “lá” e, portanto, fora da vista e da mente nossa, ocidentais – David Harvey

O fato de a epidemia ter causado estragos na China com rapidez e crueldade moveu o resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo que ocorria “lá” e, portanto, fora da vista e da mente nossa, ocidentais (acompanhados de sinais de xenofobia contra os chineses).

O vírus que teoricamente teria interrompido o crescimento histórico da China foi recebido com alegria em certos círculos do governo Trump.

No entanto, dentro de poucos dias, houve uma interrupção nas cadeias de suprimentos mundiais, muitas das quais passam por Wuhan. Essas notícias foram ignoradas e tratadas como problemas para certas linhas de produtos e algumas empresas (como a Apple). As desvalorizações eram locais e particulares e não sistêmicas.

Também se minimizou a queda na demanda dos consumidores, embora algumas empresas, como McDonald‘s e Starbucks, que tinham operações dentro do mercado interno chinês tiveram de fechar suas portas. A coincidência do Ano Novo chinês com o surto do vírus mascarou os impactos ao longo de todo o mês de janeiro. E a autocomplacência do ocidente se demonstrou escandalosamente fora de lugar.

As primeiras notícias da propagação internacional do vírus foram ocasionais e episódicas, com um grave surto na Coréia do Sul e em alguns outros pontos quentes como o Irã. Foi o surto italiano que provocou a primeira reação violenta. A queda do mercado de ações em meados de fevereiro oscilou um pouco, mas em meados de março havia levado a uma desvalorização líquida de quase 30% nos mercados de ações em todo o mundo.

A escalada exponencial das infecções provocou uma série de respostas muitas vezes inconsistentes e às vezes de pânico. O presidente Trump realizou uma imitação do Rei Canuto diante de uma potencial maré de doenças e mortes.

Algumas das respostas foram estranhas. O fato de o ‘Federal Reserve’ ter baixado as taxas de juros diante de um vírus parecia insólito, mesmo quando se reconhecia que a medida tinha por objetivo aliviar o impacto nos mercados, em vez de retardar o progresso do vírus.

Quarenta anos de neoliberalismo em toda Américas do Norte e do Sul e na Europa deixaram a população totalmente exposta e mal preparada para enfrentar uma crise de saúde pública – David Harvey

As autoridades públicas e os sistemas de saúde foram surpreendidos em quase todos os lugares pela escassez de mão de obra. Quarenta anos de neoliberalismo em toda Américas do Norte e do Sul e na Europa deixaram a população totalmente exposta e mal preparada para enfrentar uma crise de saúde pública, apesar das epidemias anteriores – causadas pela SARS e o ebola – terem proporcionado abundantes advertências e lições sobre o que deveríamos fazer.

Em muitas partes do mundo supostamente “civilizado”, os governos locais e as autoridades estaduais – que invariavelmente constituem a primeira linha de defesa nas emergências de saúde pública – se viram privados de recursos, graças a uma política de austeridade destinada a financiar cortes impostos e subsídios às empresas e aos ricos.

As grandes empresas farmacêuticas têm pouco ou nenhum interesse em pesquisas não remuneradas sobre doenças infecciosas (como o coronavírus, conhecidas desde os anos 1960). A “Grande Indústria Farmacêutica” raramente investe em prevenção. Tem pouco interesse em investir diante de uma crise de saúde pública. Dedica-se apenas a projetar curas. Quanto mais doentes estamos, mais ganham. A prevenção não é uma fonte de renda para seus acionistas.

O modelo de negócios aplicado à saúde pública eliminou a capacidade necessária para enfrentar uma emergência. A prevenção não era sequer um campo de trabalho suficientemente atraente para justificar associações público-privadas.

O presidente Trump cortou o orçamento do Centro de Controle de Doenças e dissolveu o grupo de trabalho sobre pandemia do Conselho de Segurança Nacional, no mesmo espírito em que cortou todo o financiamento para pesquisas, incluindo as relacionadas à mudança climática.

Se eu quisesse ser antropomórfico e metafórico, concluiria que a COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos brutais e abusivos ao meio ambiente, pelas mãos de um extrativismo neoliberal violento – David Harvey

Se eu quisesse ser antropomórfico e metafórico, concluiria que a COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos brutais e abusivos ao meio ambiente, pelas mãos de um extrativismo neoliberal violento e não regulamentado.

Talvez seja sintomático que os países menos neoliberais, China e Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura, até agora superaram a pandemia de melhor forma que a Itália.

Há muitas provas de que a China administrou mal, inicialmente, a última epidemia da SARS. Mas desta vez, com a COVID-19, o presidente Xi se apressou em ordenar total transparência, tanto na apresentação de relatórios, quanto nas provas.

Mesmo assim, a China perdeu um tempo valioso (foram apenas alguns dias, mas importantes). No entanto, o que tem sido notável é que a China conseguiu confinar a epidemia à província de Hubei, com Wuhan no centro. A epidemia não se espalhou para Pequim, nem para o Oeste, nem mais ao Sul.

As medidas tomadas para confinar o vírus geograficamente foram draconianas. Seria difícil reproduzir em outros lugares por razões políticas, econômicas e culturais. China e Cingapura desdobraram seus poderes de vigilância social. Ao que parece, foram extremamente eficazes, embora se essas medidas tivessem sido implementadas apenas alguns dias antes, muitas mortes poderiam ter sido evitadas.

Esta é uma informação importante: em qualquer processo de crescimento exponencial, há um ponto de inflexão além do qual a massa ascendente se descontrola totalmente (observe, aqui, a importância da massa em relação à taxa). O fato de Trump ter perdido tempo por tantas semanas pode resultar custoso em muitas vidas humanas.

Os efeitos econômicos estão agora fora de controle, sobretudo fora da China. As perturbações ocorridas nas cadeias de valor das empresas e em certos setores resultaram mais sistêmicas e substanciais do que se pensava originalmente.

O efeito a longo prazo pode ser encurtar e diversificar as cadeias de suprimentos e, ao mesmo tempo, avançar para formas de produção que exijam menos mão de obra (com grandes repercussões no emprego) e uma maior dependência dos sistemas de produção com inteligência artificial.

A interrupção das cadeias produtivas leva à dispensa e demissão de muitos trabalhadores, o que diminuirá a demanda final, enquanto a demanda por matérias-primas está diminuindo o consumo produtivo. Esses impactos pelo lado da demanda produzirão por si mesmos uma recessão.

Mas a maior vulnerabilidade do sistema está enraizada em outros lugares. Os modos de consumismo que explodiram após 2007-8 se romperam com consequências devastadoras. Esses modos se baseiam em reduzir o tempo de rotação do consumo o mais próximo de zero.

A avalanche de investimentos nessas formas de consumismo teve tudo a ver com a máxima absorção dos volumes de capital, mediante o aumento exponencial das formas de consumismo, que têm, por sua vez, o menor tempo de rotatividade possível.

Nesse sentido, o turismo internacional é emblemático. As visitas internacionais aumentaram de 800 milhões para 1,4 bilhão, entre 2010 e 2018. Essa forma de consumismo instantâneo exigiu investimentos massivos em infraestrutura em aeroportos e companhias aéreas, hotéis e restaurantes, parques temáticos e eventos culturais, etc.

Esta praça de acumulação de capital está agora morta. As companhias aéreas estão perto da falência, os hotéis estão vazios e o desemprego em massa nas indústrias de hospitalidade é iminente. Comer fora não é uma boa ideia. Os restaurantes e bares foram fechados em muitos lugares. Até comida para viagem parece arriscada.

O vasto exército de trabalhadores na economia do trabalho autônomo e do trabalho precário está sendo destruído sem nenhum meio visível de apoio governamental. Eventos como festivais culturais, torneios de futebol e basquete, concertos, convenções empresariais e profissionais e até reuniões políticas e eleições são canceladas. Essas formas de consumismo vivencial “baseadas em eventos” são praticamente suprimidas. As receitas dos governos locais foram reduzidas. As universidades e escolas estão fechando.

Grande parte do modelo de vanguarda do consumismo capitalista contemporâneo é inoperante nas condições atuais. O impulso para o que André Gorz descreve como “consumismo compensatório” foi esmagado – David Harvey

Grande parte do modelo de vanguarda do consumismo capitalista contemporâneo é inoperante nas condições atuais. O impulso para o que André Gorz descreve como “consumismo compensatório” foi esmagado (um recurso que supunha que os trabalhadores alienados poderiam recuperar seu espírito por meio de um pacote de férias em uma praia tropical).

Mas as economias capitalistas contemporâneas estão impulsionadas em 70 ou até 80% pelo consumismo. Nos últimos quarenta anos, os sentidos básicos do consumidor se tornaram a chave para a mobilização da demanda efetiva e o capital se tornou cada vez mais dependente dessas demandas, artificiais em muitos casos.

Essa fonte de energia econômica não havia estado sujeita a flutuações repentinas, como a erupção vulcânica da Islândia que bloqueou voos transatlânticos durante algumas semanas. Mas a COVID–19 não é uma flutuação repentina. É um choque verdadeiramente poderoso no coração do consumismo que domina nos países mais prósperos.

A forma em espiral de acumulação de capital sem fim está colapsando para dentro, de uma parte do mundo a outra. A única coisa que pode salvá-la é um consumismo massivo financiado pelo governo, evocado do nada – David Harvey

A forma em espiral de acumulação de capital sem fim está colapsando para dentro, de uma parte do mundo a outra. A única coisa que pode salvá-la é um consumismo massivo financiado pelo governo, evocado do nada. Isso exigirá socializar toda a economia dos Estados Unidos, por exemplo, sem chamá-la de socialismo, é claro.

As linhas de frente

Existe uma conveniente mitologia de que “as doenças infecciosas não reconhecem barreiras e fronteiras de classe”. Como muitos desses ditados, há uma certa verdade nisso. Nas epidemias de cólera do século XIX, a horizontalidade da doença entre as classes sociais foi dramática o suficiente para dar lugar ao nascimento de um movimento pela saúde pública (que mais tarde se profissionalizou) e que persiste até hoje.

Não está claro se esse movimento pretendia proteger a todos ou apenas as classes altas. Mas hoje as diferenças de classe e os efeitos sociais são uma história muito diferente.

Agora, o impacto econômico e social se insere através das discriminações “habituais” que está instalada em toda parte. Para começar, a força de trabalho que trata de um crescente número de doentes é tipicamente sexista e racializada na maior parte do mundo ocidental. Essas trabalhadoras e trabalhadores são facilmente apreciados, por exemplo, nos serviços mais desprezados, em aeroportos e outros setores logísticos.

Essa “nova classe trabalhadora” está na vanguarda e carrega o fardo de ser a força de trabalho que mais corre o risco de contrair o vírus devido à natureza de seus empregos. Se tiverem a sorte de não contrair a doença, provavelmente serão demitidos mais tarde devido à crise econômica que a pandemia trará.

Há também a questão de quem pode trabalhar em casa e quem não pode. Isso agudiza a divisão social. Nem todos podem se dar ao luxo de se isolar ou se colocar em quarentena (com ou sem remuneração) em caso de contato ou infecção.

Nos terremotos na Nicarágua (1973) e no México D.F. (1995), aprendi em campo que os terremotos foram, na realidade, “um terremoto para os trabalhadores e os pobres”.

A pandemia da COVID-19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, gênero e raça – David Harvey

Portanto, a pandemia da COVID–19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, gênero e raça. Embora os esforços de mitigação estejam convenientemente ocultos na retórica de que “todos estamos juntos nesta guerra”, as práticas, em particular por parte dos governos nacionais, sugerem motivações mais sombrias.

A classe trabalhadora contemporânea dos Estados Unidos (composta predominantemente por afro-americanos, latinos e mulheres assalariadas) enfrenta uma escolha horrível: a contaminação por cuidar dos doentes e manter meios de subsistência (entregadores de supermercado, por exemplo) ou o desemprego sem benefícios e assistência médica adequada.

Os funcionários assalariados (como eu) trabalham em casa e recebem seus salários como antes, enquanto os diretores gerais se movimentam em jatos particulares e helicópteros.

As forças de trabalho na maior parte do mundo têm sido socializadas durante muito tempo para se comportarem como bons sujeitos neoliberais (ou seja, culpar a si mesmas ou a Deus se algo der errado, mas nunca ousar sugerir que o capitalismo pode ser o problema).

Contudo, mesmo bons sujeitos neoliberais podem ver hoje que há algo muito errado na forma como a pandemia está sendo respondida.

A grande questão é: quanto tempo isso vai durar? Pode levar mais de um ano, e quanto mais o tempo passa, mais desvalorização haverá, mesmo para a força de trabalho. É quase certo que os níveis de desemprego subirão para níveis comparáveis aos dos anos 1930, na ausência de intervenções estatais massivas que teriam que ir contra a lógica neoliberal.

O consumismo contemporâneo é indubitavelmente excessivo, Marx o descreveu como “consumo excessivo e insano, monstruoso e bizarro” – David Harvey

As ramificações imediatas para a economia, assim como para a vida social diária, são múltiplas e complexas. Mas nem todas são ruins. O consumismo contemporâneo é indubitavelmente excessivo, Marx o descreveu como “consumo excessivo e insano, monstruoso e bizarro”.

A imprudência do consumo excessivo desempenhou um papel importante na degradação do meio ambiente. O cancelamento de voos de companhias aéreas e a redução radical de transporte – e de movimento – tiveram consequências positivas em relação às emissões de gases do efeito estufa.

A qualidade do ar em Wuhan melhorou muito, como em muitas cidades dos Estados Unidos. Os locais de turismo ecológico terão um tempo para se recuperar do pisoteio dos viajantes. Os cisnes retornaram aos canais de Veneza. À medida que diminui o gosto pelo excesso de consumo imprudente e sem sentido, poderá haver alguns benefícios a longo prazo. (Menos mortes no Monte Everest pode ser algo bom).

E embora ninguém diga isso em voz alta, o viés demográfico do vírus poderá acabar afetando as pirâmides etárias, com efeitos a longo prazo na Seguridade Social e no futuro da “indústria do cuidado”.

A vida cotidiana vai desacelerar e para algumas pessoas isso será uma bênção. As regras sugeridas de distanciamento social poderão, se a emergência for prolongada o suficiente, levar a mudanças culturais. A única forma de consumismo que quase certamente se beneficiará é a que chamo de economia “Netflix”, que atende os “consumidores compulsivos”.

No plano econômico, as respostas foram condicionadas pela forma como foi produzida a saída da crise de 2007-8. Isso levou a uma política monetária ultraflexível, ao resgate de bancos e a um aumento dramático no consumo produtivo por meio de uma expansão massiva no investimento em infraestruturas (inclusive na China).

Isso não pode ser repetido na escala necessária. Os planos de resgate estabelecidos em 2008 focavam nos bancos, mas também envolviam a nacionalização de fato da General Motors. Talvez seja significativo que, frente ao descontentamento dos trabalhadores e o colapso da demanda, as três grandes montadoras automobilísticas de Detroit estejam fechando, pelo menos temporariamente.

Se a China não puder repetir o papel que desempenhou em 2007-8, então o ônus de sair da atual crise econômica se deslocará para os Estados Unidos e aqui está a grande ironia: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica como politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que possa propor Bernie Sanders. Os programas de resgate terão que começar sob a égide de Donald Trump, presumivelmente sob a máscara de “Making America Great Again” (Tornando a América Grande Novamente).

Todos os republicanos que se opuseram visceralmente ao resgate de 2008 terão que comer o corvo ou desafiar Donald Trump. Esse personagem poderia chegar a cancelar as eleições “pela emergência” e impor uma presidência autoritária do Império para salvar o capital e o mundo dos “distúrbios e da revolução”.

David Harvey (Gillingham, Kent, 7 de dezembro de 1935) é um teórico da Geografia britânico formado na Universidade de Cambridge. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana. Em 2007 foi classificado como o décimo oitavo teórico vivo mais citado nas ciências humanas

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Uma nova era do gelo ou uma recessão sem igual?

Ninguém dessa geração pós 1929 experimentou uma queda econômica tão repentina.Economia,Blog do Mesquita

Ainda não podemos dizer que estamos em recessão, pelo menos não formalmente. Um comitê decide essas coisas – não, realmente. O governo geralmente adota a visão de que uma contração não é uma recessão, a menos que a atividade econômica tenha caído mais de dois quartos.

Mas estamos em recessão e todo mundo sabe disso. E o que estamos experimentando é muito mais do que isso: um cisne negro, uma guerra financeira, uma praga. Talvez as coisas pareçam normais onde você está. Talvez as coisas não pareçam normais. As coisas não são normais.

Por semanas ou meses, não saberemos quanto o PIB desacelerou e quantas pessoas foram forçadas a sair do trabalho. As estatísticas do governo demoram um pouco para serem geradas. Eles olham para trás, os números mais recentes ainda mostram uma economia quente perto do pleno emprego.

Para quantificar a realidade atual, precisamos contar com histórias de empresas, pesquisas com trabalhadores, fragmentos de dados privados e alguns números de estados. Eles mostram uma economia que não está em crise, em contração ou em uma situação delicada, sem sofrer perdas ou vender ou corrigir. Eles mostram evaporação, desaparecimento no que parece uma escala religiosa.Economia,Capitalismo,Blog do Mesquita 01

O que está acontecendo é um choque para a economia americana, mais repentino e severo do que qualquer pessoa viva já experimentou. A taxa de desemprego atingiu o ápice de 9,9% 23 meses após o início formal da Grande Recessão. Apenas algumas semanas após a pandemia doméstica de coronavírus e apenas alguns dias após a imposição de medidas de emergência para detê-la, quase 20% dos trabalhadores relatam que perderam horas ou perderam o emprego.

Uma pesquisa em folha de pagamento e agendamento sugere que 22% das horas de trabalho foram evaporadas para funcionários horistas, com três em cada 10 pessoas que normalmente comparecem para o trabalho que não ocorre na terça-feira. Na ausência de uma forte resposta governamental, a taxa de desemprego parece alcançar alturas nunca vistas desde a Grande Depressão ou até o miserável final do século XIX. Uma taxa de 20% não é impossível.

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Bolsas de Valores: Ações globais mergulham na crise financeira

Esse filme já passou em 1929.

E em 1987. Mas o liberalismo não está nem aí.

O papel pintado, ficção jurídica, continua roubando os incautos que veneram o deus mercado.

Ações em todo o mundo estão enfrentando seu pior dia desde a crise financeira, com as dramáticas quedas que levaram ao dia de “Segunda-Feira Negra”.

Os principais índices financeiros nos EUA fecharam em queda de mais de 7%, enquanto o índice das principais ações de Londres encerrou o dia quase 8% menor.

Quedas semelhantes ocorreram na Europa e na Ásia, uma vez que a disputa entre a Rússia e a Arábia Saudita viu os preços do petróleo caírem.

As ações já estavam se recuperando do medo do impacto do coronavírus.

Analistas descreveram a reação do mercado como “carnificina total”.

Nos EUA, os principais índices de ações caíram tão acentuadamente no início das negociações, que a compra e venda de ações foi interrompida por 15 minutos, quando um chamado “disjuntor”, destinado a conter as vendas em pânico, entrou em vigor.

O Dow Jones Industrial Average caiu mais de 2.000 pontos, ou 7,8%, a maior queda de todos os tempos no comércio intradiário. O S&P 500 caiu 7,6%, enquanto o Nasdaq caiu cerca de 7,3%.

As quedas em Londres varreram cerca de £ 125 bilhões do valor das principais empresas do Reino Unido.As quedas no Reino Unido e nos EUA foram refletidas por quedas semelhantes na Europa, com os principais índices do mercado de ações na França, Alemanha e Espanha fechando mais de 7%.

“Há um cenário de pânico no mercado agora”, disse Andrew Lo, professor de finanças da Sloan School of Management do MIT. “As coisas vão piorar antes de melhorar.”

Litígios na produção de petróleo
As dramáticas quedas foram desencadeadas por uma briga entre a Arábia Saudita e a Rússia sobre a produção de petróleo.

A Arábia Saudita disse que reduziria os preços e bombearia mais petróleo, provocando temores de uma guerra de preços. Isso ocorreu depois que a Rússia rejeitou uma proposta dos exportadores de petróleo de cortar a oferta para lidar com a menor demanda devido ao surto de coronavírus.

Analistas disseram que a Arábia Saudita estava “flexionando seus músculos” para proteger sua posição no mercado de petróleo.

Na segunda-feira, o preço do Brent, referência internacional em petróleo, caiu quase um terço em sua maior queda desde a Guerra do Golfo em 1991, antes de se recuperar levemente para negociar 20% menos.

O preço do petróleo já havia caído acentuadamente este ano quando o coronavírus começou a se espalhar internacionalmente, com a demanda por combustível caindo.

Decisão “surpreendente”
Essas condições tornam a decisão da Arábia Saudita de aumentar a produção “extremamente surpreendente”, disse Stewart Glickman, analista de patrimônio de energia da CFRA Research.

“Esta não é a primeira vez que tivemos um choque no mercado de petróleo, mas é a primeira vez que me lembro que você teve um choque de oferta e demanda ao mesmo tempo”, disse ele.

“A loucura que você está vendo nos preços do petróleo hoje e em empresas relacionadas ao petróleo e gás é um reflexo disso bastante sem precedentes”.

Nos EUA e no Reino Unido, as empresas de petróleo lideraram as quedas do mercado, com as ações da Shell, BP e Chevron em queda de cerca de 15% ou mais. A Premier Oil viu suas ações mais da metade em valor.

Em Frankfurt e Paris, os bancos foram os mais atingidos, enquanto o rublo russo caiu cerca de 8% para o nível mais fraco desde 2016.

No Brasil, as fortes quedas no comércio da manhã também provocaram uma pausa temporária, com as ações terminando o dia em queda de 12%.

No início, os mercados asiáticos também caíram acentuadamente, com o índice Nikkei 225 do Japão caindo 5%, enquanto o ASX 200 da Austrália caiu 7,3% – sua maior queda diária desde 2008.

Na China, o Shanghai Composite de referência caiu 3%, enquanto em Hong Kong, o índice Hang Seng caiu 4,2%.Em outros lugares dos mercados, o preço do ouro atingiu a alta de sete anos em um ponto, sendo negociado a US $ 1.700 por onça. O ouro é frequentemente visto como um ativo desejável em tempos de incerteza.

E, em um momento histórico, a demanda por títulos de referência do governo do Reino Unido para vencimentos de dois, três, quatro, seis e sete anos elevou os preços tão altos que os rendimentos – ou a taxa de retorno dos títulos – se tornaram brevemente negativos para o mercado. primeira vez. Um rendimento negativo significa que os investidores perderão dinheiro com a manutenção do título.

Por que eu deveria me importar se as bolsas de valores caem?
A reação inicial de muitas pessoas aos “mercados” é que elas não são diretamente afetadas, porque não investem dinheiro.

No entanto, existem milhões de pessoas com uma pensão – privada ou através do trabalho – que verão suas economias (conhecidas como pensão de contribuição definida) investidas pelos planos de pensão. O valor do seu pote de poupança é influenciado pelo desempenho desses investimentos.

Portanto, grandes aumentos ou quedas podem afetar sua aposentadoria, mas o conselho é lembrar que a economia de aposentadoria, como qualquer investimento, geralmente é uma aposta de longo prazo.

‘Poker político’
Em uma reunião com o embaixador russo na segunda-feira, o Departamento do Tesouro dos EUA disse que “enfatizou a importância de mercados de energia organizados”.

Embora no passado as pessoas tenham respondido aos preços mais baixos do petróleo com planos de viagem e outros gastos, o coronavírus provavelmente reduzirá essa resposta, disse Beth Ann Bovino, economista-chefe da S&P Global Ratings nos EUA.

E economistas disseram que, se o declínio nos preços do petróleo continuar, é provável que tenham efeitos econômicos de longo alcance. Isso poderia aumentar o risco nos mercados de dívida ou prejudicar o investimento no setor de energia, que desempenha um papel econômico importante em muitas partes dos EUA.

Com a incerteza sobre a economia impulsionada por perguntas sobre o surto de coronavírus, os líderes têm “uma janela limitada de oportunidade para conter o pânico”, acrescentou Lo.

“Podemos pedir ao público que seja tão confiante quanto desejamos, mas isso não vai restaurar a confiança, a menos que eles vejam um progresso real”, disse ele.

A globalização poderá ser afetada pelo coronavirus?

Basta olhar para um carro saindo das linhas de montagem em Sindelfingen ou Wolfsburg, na Alemanha. Pode ser um Mercedes E-Class ou um Volkswagen Golf.

O Made in Germany não é mais aplicado por lá. Apenas um quarto de todas as peças usadas ainda é comprovado pelas montadoras, sendo o restante deixado por vários fornecedores. Os componentes vêm de todos os lugares do mundo.

Isso envolve um enorme desafio logístico. O gerenciamento da cadeia de fornecedores não é nada simples. Por exemplo, um contêiner com peças da China não chega ao porto de Hamburgo? Sindelfingen e Wolfsburg podem logotipo com um enorme problema.

Atualmente, os cenários de gargalos estão sendo analisados ​​por muitas empresas na Alemanha e em outras partes do mundo. Como montadoras estão tentando lidar com esse problema, como os fabricantes de máquinas, as pequenas e mídias empresas e as empresas listadas no índice DAX. O tópico também pressiona o sistema de saúde da Alemanha, onde o novo coronavírus exacerba uma escassez de remédios já em andamento.

Muitas pessoas estão perguntando se estamos vendo o começo do fim da globalização. Teremos que reavaliar uma divisão global do trabalho? Como países precisam trazer a produção de volta para casa? Existe uma alternativa funcional para uma fábrica global que foi construída nas últimas três décadas?

Aqui está uma decepção para todos aqueles que acreditam que todos os problemas atuais no mundo são causados ​​pela globalização: não há soluções fáceis. Por um lado, uma globalização levou a um aumento enorme de riqueza e bem-estar, e não apenas nos países industrializados.

Algumas nações conseguiram deixar o status de países em desenvolvimento e podem usar emergentes, tirando milhões e milhões de pessoas com extrema pobreza.

É claro que não deve ignorar problemas relacionados a condições de trabalho, padrões sociais e ambientais. Mas se alguém no Ocidente exigir que a produção seja repatriada, muitos empregos serão perdidos em outros lugares se isso for causado por um cabo.

Muitas pessoas reagem de maneira furiosa quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fala em trazer de volta os empregos para seu país. Mas, quando o ministro da Economia Alemã, Peter Altmaier, ou seu homólogo francês, Bruno Le Maire, fala sobre a criação de mais instalações de produção na Europa e na recuperação das principais habilidades de produção, como pessoas que reagem à maneira mais despreocupada.

Isso não significa que nenhuma mudança seja necessária. Veja a indústria farmacêutica. A Alemanha, assim como a França, obtém no exterior cerca de 80% de todos os ingredientes ativos usados ​​para medicamentos (40% somente na China). Olhando para esses dados, é possível defender o sistema que precisa ser aprimorado.

Mas não vamos esquecer como essa discrepância surgiu no primeiro lugar. A produção doméstica havia ficado muito cara, e as pressões de custo exercidas sobre o setor pelas seguradoras de saúde continuam enormes.

No entanto, está errado supor que a Alemanha esteja totalmente nas mãos dos chineses em muitos setores. A economia alemã, como parte integrante e beneficiária da divisão global de trabalho, não depende de nenhum país. Nenhum dos parceiros comerciais da Alemanha responde por mais de 10% das importações e impostos globais do país, de acordo com a Confederação Alemã das Câmaras de Indústria e Comércio (DIHK).

Obviamente, o covid-19 está levando como empresas a reavaliar suas cadeias de suprimentos, com o objetivo de diminuir ainda mais a dependência de alguns participantes do mercado. Também pode ocorrer um debate sobre o quão bom é o sistema “just in time” da administração de produção e não seria mais sensato voltar a uma política de compras antecipadas.

O diretor da Câmara de Comércio da União Europeia na China, Jörg Wuttke, que afirma acreditar que terminou o tempo das empresas que decidiram produzir onde isso pode ser feito com mais eficiência. Afinal, isso também afeta negativamente a Alemanha, uma nação orientada para exportação.

A produção econômica da Alemanha caiu 5% em 2009, nenhuma medida da crise financeira global. Sofreria muito mais se a globalização fosse revertida. Limitar-se à produção doméstica séria como voltar ao século 19.

Com a proteção crescente em vários países, os formuladores de políticas devem ser adotados para reunir alguns bons argumentos quando disserem que as pessoas que estão sendo afetadas.

Petróleo cai 30% em relação à guerra de preços entre Arábia Saudita e Rússia e temores de coronavírus

O Petróleo caiu quase 30% em uma abertura caótica do mercado, com os principais benchmarks de petróleo bruto Brent e WTI negociando abaixo de US $ 35 por barril em meio a temores de uma guerra de preços total após o colapso de um acordo de corte de produção entre a Rússia e a OPEP.
Os mercados asiáticos abriram com uma enorme lacuna na segunda-feira, com o Brent caindo quase 30%, para US $ 31,38 por barril em segundos, enquanto o WTI caiu abaixo de US $ 28 – o menor desde 2016 – antes de se recuperar levemente.

No sábado, Arábia Saudita havia  anunciado um desconto impressionante de US $ 6 a US $ 8 por barril para seus clientes na Ásia, Europa e EUA – e disse que aumentaria a produção de petróleo, apesar da desaceleração econômica global e da queda na demanda por petróleo.

O movimento repentino foi visto como um sinal de uma guerra total de preços do petróleo, depois que um acordo de corte de oferta entre a Rússia e a OPEP entrou em colapso.

Os países da Opep e não-OPEP realizaram consultas em Viena na sexta-feira, mas não conseguiram chegar a um acordo sobre cortes adicionais de petróleo, apesar das preocupações com o surto de coronavírus, que criou uma “situação sem precedentes”.

Ásia mergulha, futuro europeu e americano entra em colapso enquanto investidores em pânico buscam refúgio em mercados estáveis.
Os mercados asiáticos estão sendo negociados enquanto o futuro europeu e americano entra em queda livre e o ouro atinge um novo pico de sete anos, em meio a uma dramática queda do mercado de petróleo e preocupações com a economia global atingida pelo coronavírus.
O Nikkei 225 e o Topix do Japão caíram seis por cento nas negociações da manhã, enquanto o iene japonês, relativamente seguro, subiu para uma alta de três anos em relação ao dólar.

O Kopsi da Coréia do Sul caiu quase três por cento, enquanto o Hang Seng de Hong Kong caiu 3,6. Na China continental, os índices Shanghai e Shenzhen Composite caíram mais de 1,5%.

Na Europa, o Euro Stoxx 50 Futuros afundou mais de seis por cento, enquanto o futuro britânico FTSE 100 caiu quase sete por cento.

Enquanto isso, os futuros dos três principais índices da bolsa americana, S&P, Dow e Nasdaq, estão sendo negociados quase cinco por cento abaixo, com o S&P 500 E-mini chegando a atingir o limite da noite para o dia. O rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA em 30 anos caiu brevemente abaixo de 1% pela primeira vez na história, enquanto os títulos do Tesouro de 10 anos foram negociados abaixo de 0,5% por um tempo, ameaçando uma segunda-feira caótica nos EUA.

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O mundo poderá ser salvo por Grandes Empresas?

A economia mundial gera riqueza, assim como grande quantidade de gases de efeito estufa, desigualdade e perda de biodiversidade.    

Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial de 2020Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial de 2020

Agora, companhias prometem resolver tais problemas. Mas elas realmente o farão?

Ao andar pela Promenade, a principal rua de Davos, na Suíça, tem-se a impressão de estar ocorrendo na cidade uma convenção de caridade, e não uma reunião de 119 bilionários e muitos presidentes de empresas importantes e representantes do setor econômico mundial.

“Vamos fazer dos negócios a melhor plataforma de mudança”, diz a placa na frente de uma loja alugada por uma empresa. Outra mostra “O crescimento é uma ilusão?” com letras de neon brilhantes e arredondadas que seria possível encontrar na parede de uma cafeteria hipster.

Mais adiante está a “tenda ODS”, que organiza sessões abertas sobre temas como o futuro do capitalismo, finanças sustentáveis ou direitos LGBTI – todos pagos por empresas que desejam mostrar como estão comprometidas em ajudar a alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela ONU.

A mensagem que as empresas estão tentando passar é bem clara: nós acordamos; já se foram os dias em que o lucro era sobreposto à moral; agora nós nos preocupamos com o meio ambiente e em tornar este mundo um lugar melhor.

Mas as empresas não têm contado essa história há tanto tempo quanto o Fórum Econômico Mundial existe? E ainda assim o mundo não está no caminho certo para alcançar as metas que estabeleceu para si mesmo – tome como exemplos o Acordo do Clima de Paris, de 2015, ou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Então as grandes empresas realmente cumprirão suas promessas desta vez?

Os manifestantes anti-Fórum Econômico Mundial na Promenade certamente já decidiram sua resposta. “Você realmente acha que as instituições e corporações que têm pensado e feito negócios de uma certa maneira podem mudar assim só para serem boas com os outros?”, pergunta Sebastian Justiniano, dando sua resposta logo em seguida: “Eu acho que não.”

Mudando para lucrar mais

Svein Tore Holsether discorda. Ele é o presidente da Yara, uma empresa norueguesa cujo principal negócio é a produção de fertilizantes sintéticos. Isso significa que a companhia é parte do setor agrícola, responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa.

Sentado em um canto tranquilo de um dos luxuosos saguões de hotel de Davos, Holsether explica por que quer transformar a Yara em uma empresa mais sustentável. “Eu acho que representa uma oportunidade de negócio incrível”, afirma. “Nós administramos nossos negócios com fins lucrativos, e isso é algo que precisamos para reinvestir e desenvolver o negócio.”

Ele fala sobre como a Yara mudou sua estratégia para o desenvolvimento de novas soluções após o Acordo do Clima de Paris; e sobre como a empresa, por exemplo, está planejando ajudar o agricultor a maximizar sua produção. Assim, será necessário menos terra, que ficaria livre então para árvores que absorveriam o CO2 do ar. Isso seria bom para o meio ambiente, para a segurança alimentar, para os agricultores – e, claro, para os resultados finais da Yara.

“Nos últimos anos, ficou cada vez mais claro que as empresas que são capazes de adaptar seus modelos de negócios tanto aos desafios como às oportunidades que vemos agora serão as que sobreviverão”, sublinha Holsether.

Na verdade, as empresas têm cada vez menos o poder de escolher se querem ou não se tornar verdes. O Relatório de Riscos Globais, divulgado antes do início do Fórum Econômico Mundial, listou fatores ambientais como a maior ameaça à ordem mundial. As condições climáticas extremas e os desastres naturais causados pelas mudanças climáticas prejudicariam os negócios.

Apesar da aparente mudança nas percepções de empresas sobre sustentabilidade, manifestantes em Davos continuam céticos

Apesar da aparente mudança nas percepções de empresas sobre sustentabilidade, manifestantes em Davos continuam céticos

E até mesmo Larry Fink, presidente da maior gestora de investimentos do mundo, a BlackRock, advertiu recentemente que as empresas que não levam sustentabilidade a sério podem ter problemas quando procurarem financiamento no futuro.

Se tal transformação da economia impulsionada pelo mercado acontecerá com a rapidez suficiente, isso já é outra questão. As emissões de dióxido de carbono da Yara, por exemplo, aumentaram de cerca de 10 milhões de toneladas em 2013 para 16,6 milhões de toneladas em 2018, apesar da nova estratégia de sustentabilidade.

Portanto, se as forças do mercado trabalham de forma lenta para fazer com que as empresas se comportem de maneira mais sustentável, o que pode acelerar esse movimento? Alguns argumentam que se faz necessária uma mudança de mentalidade econômica em relação a qual é o objetivo de uma empresa.

A grande ideia lançada em Davos neste ano foi o conceito de “capitalismo das partes interessadas”. É a noção de que as empresas não têm a responsabilidade apenas de gerar lucros para seus investidores, mas responsabilidade com todos os afetados por suas ações, como sua força de trabalho, consumidores ou meio ambiente.

Fazendo o “capitalismo das partes interessadas” funcionar

A economista Mariana Mazzucato é a favor do conceito – desde que ele seja mais do que apenas um chavão vazio. “Dada a crise que estamos enfrentando – não apenas o clima, mas também a desigualdade, os sistemas de saúde e o estado de bem-estar social que está entrando em colapso de várias maneiras ao redor do mundo –, não temos tempo para besteiras”, afirma.

Os governos devem repensar como investem na economia e, particularmente, o que exigem em troca disso. Afinal, dar dinheiro às empresas as torna partes interessadas, e uma parte importante disso. Como exemplo de como isso poderia funcionar, ela menciona o governo alemão, que vinculou empréstimos estatais a empresas siderúrgicas à sua capacidade de reduzir a pegada de carbono.

“Faça com que seja condicional”, afirma Mazzucato. “Eles precisam ou morrem. É o que fazemos em outras áreas. Você não pode usar crianças numa fábrica. Existe a lei e você será excluído do negócio. Nós precisamos tornar as coisas obrigatórias.” Ela acrescenta que, no entanto, isso só funcionaria com métricas adequadas que garantam que as empresas cumpram o que prometeram.

Uma iniciativa que trabalha com tais métricas é a empresa sem fins lucrativos World Benchmarking Alliance (WBA). O grupo elaborou uma lista das 2 mil empresas mais influentes do mundo que juntas representam metade da economia global. Atualmente, uma equipe de cerca de 50 pessoas está trabalhando em classificá-las de acordo com a forma como elas contribuem para alcançar os vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Ao disponibilizar essas métricas gratuitamente, espera-se que seja possível responsabilizar as empresas e garantir que elas cumpram seus compromissos.

“É como as resoluções de Ano Novo”, conta o presidente da WBA, Gerbrand Haberkamp. “Nós sabemos que é difícil mantê-las. E é o mesmo para as empresas. Em fevereiro já é difícil ir à academia. É por isso que precisamos dessas métricas.”

Assim, as brilhantes campanhas de sustentabilidade são mais do que fumaça e espelhos? As empresas estão realmente começando a se comportar de forma mais responsável? Sim, parece que algumas realmente estão. Não necessariamente porque elas têm um coração grande, mas porque faz sentido em termos comerciais.

Elas estão mudando rápido o suficiente? Não, certamente não estão. Talvez seja melhor colocar nas palavras do cientista Johan Rockström: “Ainda estamos tendo ilhas de sucesso em um oceano de ignorância.”

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Os 10 maiores riscos globais da próxima década

Muito preocupante. E a maioria continua dizendo que meio ambiente é coisa de “esquerdalha” – quão toscos os que assim argumentam. Talvez seja excesso de alfafa na alimentação – comunistas e outras tais desargumentações.
Eis os 10 maiores riscos globais da próxima década, por probabilidade e impacto, segundo o Fórum Econômico Mundial.
Note bem: clima está em tudo. Mais do que bolha de ativos, ciberataques, armas de destruição em massa.Davos,Clima
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Dólar: A ordem financeira mundial poderá entrar em colapso?

Convencido de que a ordem financeira global baseada em dólar
poderá entrar em colapso em breve?Globalismo,Mundo,História,Economia,Blog do Mesquita

No momento, o status do dólar apoiado pelo petróleo da OPEP permite que a moeda desfrute do status do meio de troca mais estável e procurado no comércio. No entanto, vários países e atores não estatais procuraram recentemente mudar esse estado de coisas, propondo outras moedas, ouro ou mesmo criptomoedas como um substituto.

O Escritório do Diretor de Inteligência Nacional dos EUA, o poderoso órgão estatal que coordena a inteligência doméstica e estrangeira da comunidade de inteligência dos EUA, publicou um anúncio de emprego procurando por PhDs para avaliar ameaças ao sistema global do dólar.

A publicação, que apareceu na rede de oportunidades de emprego Zintellect da Oak Ridge Institution for Science and Education, que é frequentemente usada por agências federais dos EUA, parece ser real e está buscando candidatos que possam “fornecer novas informações úteis que não estão disponíveis hoje” para permitir os EUA “preparem-se para cenários que ameaçam minar o dólar como moeda de reserva mundial”.

© Foto: OAK RIDGE INSTITUTE DE CIÊNCIA E EDUCAÇÃO
Captura de tela de um anúncio de emprego na rede de anúncios de empregos Zintellect do Oak Ridge Institute for Science and Education.

A publicação explica que o status do dólar como moeda de reserva mundial oferece à América muitas vantagens e oportunidades, incluindo “jurisdição sobre crimes financeiros” associados a transações em dólares e a capacidade de “nivelar efetivamente sanções” contra países ou entidades à vontade.

O ODNI enfatiza que “os EUA mantêm o domínio internacional em grande parte devido ao seu poder financeiro e autoridades” e parecem querer que as coisas continuem assim.
Infelizmente, as notas postadas, vários fatores, incluindo o crescente poder econômico de países como China e Índia, bem como criptomoedas, ameaçam a supremacia do dólar.

O anúncio de trabalho, aplicável a cidadãos norte-americanos com um PhD e associado a um credenciado universidade norte-americana, faculdade ou laboratório do governo, bem como não-cidadãos empregados acima noemeados de ‘pesquisa conselheiro’, que tenham “profundo conhecimento” em áreas como economia, finanças e mecanismos bancários emergentes e alternativos. Curiosamente, a postagem também pede habilidades em terra e geociências, ciências ambientais e marinhas, vida saúde e ciências médicas, e nanotecnologia.

O projeto de pesquisa pede aos candidatos que “aproveitem todas as informações disponíveis, bem como avanços recentes em estatísticas aplicadas, inteligência artificial e aprendizado profundo” para determinar a causa mais provável esperada do declínio do dólar, o prazo envolvido e as prováveis ​​perspectivas econômicas e nacionais. consequências de segurança.
Os candidatos em potencial têm até 28 de fevereiro de 2020 para se inscrever e devem enviar um currículo e preencher uma inscrição detalhada. Não há informações sobre salários ou benefícios está disponível. Presumivelmente candidatos aprovados seriam pago em dólares.

© AP PHOTO / JACQUELYN MARTIN
Nesta foto de arquivo de 15 de novembro de 2017, um trabalhador manuseia folhas impressas de notas de dólar no Bureau of Engraving and Printing em Washington.

Tendência Anti-Dólar

A Rússia ajudou a liderar a acusação de contestar a hegemonia do dólar nos últimos anos, depois de acusar Washington de “abuso total” de seu status cobiçado e de “uso cada vez mais agressivo de sanções financeiras”. No mês passado, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, confirmou que a Rússia continuaria “sua política voltada para a gradual desdolarização da economia”.Economia,Capitalismo,Blog do Mesquita 01

Uma vez que um dos maiores investidores em dólares e dívida dos EUA, Moscou diminuiu gradualmente a grande maioria de suas participações no Tesouro e aumentou a participação de ouro, yuan, euros e outras moedas no lugar do dólar na sua reserva de mais de US $ 500 bilhões.

Economia,Blog-do-Mesquita,Bancos,Finanças 02

Além disso, parceiros comerciais russos, incluindo China, Turquia e Índia, concordaram com o uso de moedas locais para grandes acordos comerciais e contratos relacionados à defesa, em parte para permitir que contornem as restrições às sanções dos EUA.

No final do ano passado, a gigante russa de energia Rosneft, uma das maiores empresas de petróleo e gás do mundo, caiu o dólar a favor de euros em contratos de exportação. O Ministério das Finanças da Rússia também brincou com a idéia de mudar para euros em todo o comércio com a União Europeia.

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Coronavírus na China: por que o preço do petróleo caiu tão fortemente

O impacto que o surto de coronavírus já está causando na economia da China.

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O preço máximo estabelecido pelo OPEP em janeiro.
As consequências do surto de coronavírus se estendem por toda a economia global e, embora os analistas tentem quantificar qual poderia ser o resultado, um mercado foi atingido com força especial: o petróleo.

O preço de um barril de petróleo caiu 15% desde que o surto foi anunciado na cidade chinesa de Wuhan e 20% se levarmos em conta o máximo marcado nas bolsas de valores mundiais no início de janeiro, quando o barril de Brent – de referência na Europa – marcou US $ 68,71.

É por isso que os especialistas esperam que os principais produtores de petróleo do mundo reduzam a produção para interromper o outono e aguardem uma maior clareza sobre o impacto econômico do surto.

Representantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e seus aliados provavelmente se reunirão esta semana, à medida que os pedidos de ação aumentarem para aumentar os preços do petróleo.

“A economia da China experimentará um revés que não havia sido antecipado antes, mas sua duração e intensidade permanecem amplamente desconhecidas”, explica Norbert Rücker, economista-chefe da empresa de investimentos Julius Baer.

Por que a queda é tão forte?
O aparecimento do coronavírus prejudicou o consumo do feriado do Ano Novo Lunar, o equivalente ao feriado de Natal no Ocidente.

Como resultado da epidemia, fábricas, escritórios e lojas permanecem fechados.

E isso significa que o maior importador mundial de petróleo, que geralmente consome cerca de 14 milhões de barris por dia, precisa de muito menos petróleo para alimentar suas máquinas, veículos ou até manter as luzes acesas.

Como o gerenciamento da crise do coronavírus pode afetar o governo do todo-poderoso Xi Jinping

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Para a consultoria Rücker, esta semana será fundamental para ter “mais clareza sobre a gravidade da epidemia”.
A agência de informações econômicas Bloomberg informou nesta semana que os gastos diários com petróleo caíram 20%, o equivalente às necessidades combinadas de petróleo do Reino Unido e da Itália.

Em resposta, a maior refinaria de petróleo da Ásia, a Sinopec, de propriedade do governo chinês, reduziu a quantidade de petróleo bruto processada em aproximadamente 600.000 barris por dia, 12% menos, o maior corte em mais de uma década

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A China representa 18% do PIB mundial.
Além disso, é provável que o surto tenha um impacto particularmente grande na demanda por combustível de aviação, uma vez que as companhias aéreas de todo o mundo suspenderam vôos para a China e restrições de viagens impostas pelo governo de Xi Jinping no país. também muito menos vôos.

Como a América Latina é preparada antes da possível chegada do coronavírus que surgiu na China
A escala da queda chocou o setor de energia, de acordo com o analista de petróleo Phil Flynn, de Chicago: “Não vimos um evento de destruição da demanda por essa escala e a essa velocidade”.

O que isso nos diz sobre o impacto do surto na economia global?
“O risco na economia global é alto e preocupante”, estima Philippe Waechter, diretor de análise econômica da Ostrum AM.

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Esta é a maior crise de saúde pública que a China enfrenta na época de Xi Jinping e já está se tornando uma crise social.

E, especificamente na China, a forte queda na demanda por petróleo é um sintoma claro de um declínio na atividade comercial.

É também um sinal de que o crescimento econômico do país, que já era no mínimo três décadas, diminuirá ainda mais.

Zhang Ming, economista do grupo de especialistas da Academia Chinesa de Ciências Sociais, disse que o surto pode desacelerar o crescimento econômico anual do país para menos de 5% durante os primeiros três meses do ano.

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Depois da madeira vem o gado: o desmatamento em Santo Antônio do Matupi

Bem ao sul do estado do Amazonas, perto das fronteiras de Rondônia e Mato Grosso, o  vilarejo de Santo Antônio do Matupi tem 23 oficinas mecânicas, 11 bares e restaurantes, 9 lojas de  produtos agropecuários, 8 hotéis, 4 farmácias e 3 postos de combustível. Toda essa estrutura parece incompatível com o vilarejo de cerca de 10 mil habitantes, à beira da BR 230, a estrada Transamazônica. Conhecido também pelo apelido de 180, em referência ao quilômetro da rodovia em que se localiza, Matupi é um distrito do município de Manicoré.
Matupi registra uma das maiores taxas de desmatamento do Amazonas, o que explica o disparate entre sua pequena população em comparação com sua abundante atividade econômica. Aqui o movimento começa cedo, com caminhonetes 4×4 circulando entre as fazendas. Nas chamadas agropecuárias, lojas de produtos agrícolas, a atividade também é intensa. Os clientes vêm em busca de rações, vermífugos, botas, borrifadores de agrotóxicos e o que mais for preciso para o trabalho no campo. Nas madeireiras, a fumaça sai das chaminés de grandes fornalhas e árvores gigantescas transformam-se em pilhas de madeira. A estrada é poeirenta quando faz sol e barrenta quando chove, mas o trânsito de caminhões carregando gado e madeira não para.

A origem do vilarejo reflete uma história comum da Amazônia nos últimos 50 anos. Os primeiros moradores chegaram junto com a Transamazônica, nos anos 1970, atraídos pela oferta infinita de terras a preço zero. Naquela época, para ganhar o título de propriedade bastava marcar uma área e desmatá-la. Manuel Vieira Alves, 72, chegou em 1990 e conseguiu seu pedaço de chão, depois de passar por Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso. Segundo ele, a vila começou a crescer de verdade com a chegada das madeireiras, nos anos 2000: “Vieram as serrarias para cá e aí começou a atrair gente. Foi quando desenvolveu mais”.

Em 1995, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) criou o assentamento Santo Antônio do Matupi, que deu nome à localidade e atraiu migrantes vindos principalmente do sul do país.

Madeira, depois pecuária

Moradores contam que Matupi já teve mais de 50 madeireiras, a maioria ilegais. Os altos índices de desmatamento colocaram o distrito no radar da fiscalização ambiental. Houve operações do Ibama em 2009 – quando o órgão apreendeu 160 caminhões de madeira – em 2011 e 2013. Outras 9 ações de fiscalização ocorreram desde 2017. A mais recente foi em setembro de 2019, quando duas serrarias foram desmontadas. A repressão não conseguiu acabar com a atividade, mas reduziu o número de madeireiras à metade. Hoje, segundo o Ibama, existem 26 autorizadas a atuarem no distrito. Nem por isso a economia de Matupi parou de crescer. Faz alguns anos, a pecuária tomou a frente como principal atividade econômica. O distrito concentra praticamente todo gado de Manicoré – 115 mil cabeças – o que o torna o quarto maior rebanho do Amazonas. Entre 2004 e 2018, o número aumentou 800%, passando de 12,8 mil para 115 mil animais. No mesmo período, foi desmatada uma área equivalente a 82 mil campos de futebol.

José Carlos da Silva, 53, tem mais de 3 mil cabeças de gado. Sua família foi uma das primeiras a chegar a Matupi, em 1978, vinda do município de Xambrê, no interior do Paraná. Daquela época, ele lembra apenas da fome e da malária. Hoje, mora com a família em uma casa ampla e confortável, tudo graças à pecuária. “O pessoal até fala que gado é um negócio abençoado, e eu acredito que é. […] Tem os vegetarianos, né? Tem um monte de nome que eles falam lá, mas pra cá eu ainda não vi esse pessoal. Pra cá, as pessoas querem comer carne mesmo”. Da Silva acompanhou a transformação da economia local, da madeira para o gado:  “É um processo. Sempre nos lugares em que está começando, a madeira chega primeiro. Depois, vem o desmate da pecuária. Anda junto, a madeira com a pecuária”. As duas atividades também funcionam de forma parecida na hora de fugir da fiscalização ambiental. “Quantas vezes não saí correndo quando tava fazendo desmate?”, reclama Silva.

Atualmente, os bois criados em Santo Antônio do Matupi são vendidos para o abate em Manaus, Humaitá e Manicoré. Para chegar até Manaus, os animais são levados por 190 quilômetros em caminhões de boi até Humaitá, onde são colocados em barcaças, e viajam por 4 ou 5 dias pelo Rio Madeira. Outra opção é percorrer cerca de 100 km até o porto de Prainha e escoar pelo Rio Aripuanã.

O crescimento do rebanho local já atraiu a atenção de investidores. Hoje, há 2 frigoríficos em construção no distrito. Um deles pertence a um empresário local e deve ficar pronto no final de 2020. A unidade terá capacidade para abater 560 animais por dia, uma planta classificada como de porte médio. O segundo frigorífico está quase pronto e pertence ao grupo Frigonosso, dona de abatedouros em Cacoal e Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e Boca do Acre (AM). A empresa foi a primeira a ser multada por descumprimento do TAC da Carne, um Termo de Ajustamento de Conduta em que os frigoríficos se comprometem a não comprar carne oriunda de desmatamento ilegal. Em ação judicial de outubro deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) pediu o pagamento de uma multa de R$ 3,8 milhões de reais, diante da “total ausência de esforços para cumprir as obrigações assumidas” pela empresa na sua unidade de Boca do Acre. Apesar da multa, o Frigonosso se prepara para abrir seu novo frigorífico em Santo Antônio de Matupi,  onde, nos últimos 10 anos, o Ibama já embargou 452 áreas de fazenda por ilícitos ambientais.

((o))eco entrou com contato com o representante do Frigonosso em Santo Antônio do Matupi, mas ele negou receber a reportagem. Também foi solicitada uma entrevista através do email institucional da empresa, sem resposta.

20 fazendas e R$ 80 milhões em multas

Se os primeiros fazendeiros a chegar aqui, nos anos 1970, chegaram com uma mão na frente e outra atrás, hoje Matupi atrai gente graúda. Douglas Pereira Louzada Neves, maior fazendeiro da região, tem 20 fazendas em seu nome, que somam 70,8 mil hectares (mais de 70 mil campos de futebol), situadas em Manicoré e no município vizinho, Novo Aripuanã. As informações constam no documento anexado a uma das 6 ações que o Ministério Público Federal abriu contra Neves, que denunciam o desmatamento ilegal de 1.661 hectares. No Ibama, Neves também se destaca pelo número de autuações: foram 40 vezes, com 8 propriedades embargadas. Somando multas do Ibama e pedidos de indenizações do MPF, o total é de R$ 79,8 milhões.

Mas quando recebeu ((o))eco em sua casa, em Santo Antônio do Matupi, Neves admitiu um patrimônio mais modesto, de 3 mil hectares de terra e 3 mil cabeças de gado. Homem de poucas palavras, explicou que veio de Colorado, em Rondônia, em busca de terras mais baratas. Questionado sobre as multas do Ibama, alertou: “Sua reportagem tá começando a ir pro lado errado. Daí, já vou desanimar de você”.

A chegada de grandes investidores como Douglas Neves à Matupi é um dos fatores que impacta a formação do assentamento original do Incra, onde agora é difícil encontrar os primeiros assentados. A maioria vendeu a propriedade para grandes fazendeiros vindos de outros estados, principalmente Rondônia: “Tem muito pouca gente daquele tempo. Uns venderam aquele lotinho e compraram área maior para fora. Tem assentado do Incra aí que vendeu aqui por R$ 10 mil e foi lá pra frente e comprou 3 vezes mais terra do que ele tinha aqui”, explica Manuel Vieira Alves.

Uma dinâmica que mantém ativa a engrenagem do desmatamento. Quem vem na frente consegue a terra quase de graça, mas arca com as dificuldades de chegar em um lugar sem infraestrutura e onde o Estado é inexistente. Quem vem atrás paga um pouco mais caro, mas chega com mais dinheiro e melhores condições de investimento. Um processo que faz parte da história de ocupação da Amazônia, como explica Gabriel Cardoso Carrero, pesquisador sênior associado do Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia): “É um processo que poderia ser chamado de matogranização de Rondônia, e depois de rondonização do Amazonas. São pessoas que têm esse perfil de trabalharem mais com pecuária do que com agricultura, e que vão atrás de terras desocupadas, sem nenhuma infraestrutura. Quando a infraestrutura chega, estas terras valorizam e essas pessoas acabam por vender a terra e vão mais à frente na fronteira”.