Por que os EUA têm os piores índices de pobreza do mundo desenvolvido

Dois meninos olham para foto, em área de banco de alimentos
Milhares de famílias dependem da ajuda de bancos de alimentos nos EUA – Direito de imagem GETTY IMAGES

Este é um dos grandes paradoxos dos nossos tempos: os Estados Unidos, país mais rico do mundo, têm alguns dos piores índices de pobreza no grupo dos países desenvolvidos.

Mais de meio século depois que o presidente Lyndon B. Johnson declarou “guerra incondicional à pobreza”, os EUA ainda não descobriram como vencê-la.

Desde a declaração de Johnson, em 1964, o país teve conquistas surpreendentes, como chegar à Lua ou gestar a internet. Entretanto, nesse período, conseguiu uma tímida redução no índice de pobreza, que caiu de 19% para cerca de 12%.

Isso significa que quase 40 milhões de americanos vivem abaixo da linha oficial de pobreza.

O problema é muito maior e mais antigo do que se vê na atual pandemia do novo coronavírus, que também vem revelando e intensificando questões sociais do país — os EUA têm o maior número de casos de covid-19 no mundo e agora enfrentam os piores níveis de desemprego desde a Grande Depressão de 1930.

Até hoje, segundo estudiosos, o aumento da pobreza foi contido nos EUA graças a uma expansão histórica de subsídios do governo.

Mesmo antes da crise na saúde, o país já destinava anualmente bilhões de dólares a programas de combate à pobreza, em quantias até maiores do que o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns países da América Latina.

“Essa é a ironia: seria uma coisa se fôssemos um país pobre e realmente não pudéssemos fazer muito a respeito. Mas temos os recursos”, diz Mark Rank, professor da Universidade de Washington em St. Louis, considerado um dos maiores especialistas em pobreza nos EUA.

Questão cultural: o tabu do fracasso individual

Homem e mulher consertando bicicleta em acampamento
Nos EUA, 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza – Direito de imagemAFP

Pesquisadores apontam para duas razões fundamentais por trás da pobreza nos Estados Unidos: uma tem a ver com simbologia e a outra é pragmaticamente econômica.

Primeiro, os EUA carecem de uma rede de assistência social forte ou programas de apoio à renda como outros países.

Os programas de assistência social que os Estados Unidos implementaram nas últimas décadas, como vale-alimentação ou seguro desemprego, permitiram reduzir em alguns pontos a pobreza, mas são considerados limitados.

Fatores culturais são geralmente lembrados para explicar isso.

“Nós tendemos a ver a pobreza nos EUA como um fracasso individual, ou seja, como se as pessoas não tivessem trabalhado duro o suficiente. Como se tivessem tomado decisões ruins ou não tivessem talento o suficiente. Assim, é algo como: cabe a você se erguer”, afirma Rank.

“O resultado é que realmente não fazemos muito em termos de políticas sociais para tirar as pessoas da pobreza.”

Somam-se a isso as desigualdades raciais: as minorias sofrem desproporcionalmente no país.

Enquanto 11% das crianças brancas nos EUA vivem na pobreza, essa taxa chega a 32% para crianças negras e 26% para crianças latinas, segundo dados do censo levantados pelo Centro de Dados Kids Count.

“A pobreza é frequentemente vista como um problema para os não-brancos, e isso também reduz a vontade de ajudar os outros”, diz Rank.

“Existem estudos mostrando que em países mais homogêneos em termos de raça e etnia, existe uma rede de segurança mais robusta, porque as pessoas veem os outros como semelhantes — tendo maior probabilidade de querer ajudar.”

Pessosas negras em fila para receber alimentosDesigualdade nos EUA é ainda mais presente e sofrida entre os negros. Direito de imagem GETTY IMAGES

Maior desigualdade

Por outro lado, especialistas apontam para um fator econômico: a deterioração do mercado de trabalho americano para aqueles com salários mais baixos, que representam cerca de 40% do total e sofreram perdas em seus ganhos reais nas últimas décadas.

As razões vão do enfraquecimento dos sindicatos às transformações tecnológicas.

Assim, a desigualdade de renda e riqueza nos EUA aumentou e é maior do que em quase qualquer outro país desenvolvido, de acordo com o Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas em Washington.

Christopher Wimer, codiretor do Centro de Pobreza e Política Social da Universidade de Columbia, argumenta que, nos EUA, “as oportunidades no mercado de trabalho tendem a ir para pessoas com formação superior e que se beneficiaram do crescimento econômico”.

“E grande parte desse crescimento econômico não foi compartilhado nas faixas de renda ou escolaridade que vêm abaixo”, contou à BBC News Mundo.

Operadores em bolsa de valores de Nueva York
Apenas alguns segmentos da população americana, como aqueles com acesso ao ensino superior, se beneficiaram das conquistas econômicas do país nas últimas décadas
Direito de imagem GETTY IMAGES

‘Uma escolha política’

Mas houve sim, nas últimas décadas, alguns avanços sociais — como níveis mais altos de escolaridade e queda na mortalidade infantil.

Além disso, especialistas alertam que o cálculo do índice oficial de pobreza nos EUA se baseia apenas em renda, sem contar com auxílios do governo como créditos fiscais, cupons de alimentos ou assistência habitacional.

Um estudo recente de Wimer e outros pesquisadores de Columbia projetou que, sem ajuda emergencial aprovada na pandemia de coronavírus, a taxa de pobreza do país teria saltado de 12,5% antes da crise para 16,3%.

Mas esses benefícios, que incluem cheques semanais de US$ 600 a trabalhadores afetados pela pandemia, expiraram no final do mês. Sua continuidade depende de um acordo entre o Congresso e a Casa Branca.

Antes da covid-19, especialistas já alertavam que o país era condescendente com níveis muito altos de pobreza.

“Os Estados Unidos são um dos países mais ricos, poderosos e tecnologicamente inovadores do mundo. Mas nem sua riqueza, nem seu poder, nem sua tecnologia estão sendo usados ​​para resolver a situação em que 40 milhões de pessoas continuam vivendo na pobreza”, indicou no final de 2017 o então relator especial das Nações Unidas para a pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston.

Entre outras coisas, Alston observou que os EUA tinham a maior mortalidade infantil no mundo desenvolvido, que a expectativa de vida de seus cidadãos era menor e menos saudável do que em outras democracias ricas.

E também que sua pobreza e desigualdade estavam entre as piores no clube dos países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de uma taxa de encarceramento entre as mais altas do mundo.

“No fim das contas”, afirmou ele, “particularmente em um país rico como os EUA, a persistência da pobreza extrema é uma escolha política feita pelos que estão no poder”.

Criança na porta de uma casa pobre
No mundo desenvolvido, EUA também chama a atenção por indicadores preocupantes em relação às crianças
Direito de imagem GETTY IMAGES

Luke Shaefer, diretor da iniciativa Poverty Solutions da Universidade de Michigan, defende políticas mais simples nos EUA e com uma abordagem mais universal.

Um estudo realizado por ele e outros especialistas da universidade indicou que os Estados Unidos investem US$ 278 bilhões (mais de R$ 1,4 trilhões) por ano em programas governamentais de combate à pobreza, sem contar os gastos com saúde.

Somando-se programas de saúde para os mais pobres, como o Medicaid, o investimento anual chega a US$ 857 bilhões (mais de R$ 4,4 trilhões), ou seja, mais do que o PIB da Argentina e do Chile somados.

“Muitos desses dólares não estão indo realmente para os mais pobres”, alerta Shaefer.

As eleições presidenciais de novembro podem dar aos EUA uma nova oportunidade para repensar como melhorar esses gastos, acreditam aqueles que se dedicam ao tema há anos.

“Existem pessoas da esquerda e da direita falando que essa abordagem (atual) não está funcionando. Temos que fazer algumas coisas de maneira diferente, precisamos simplificar”, diz ele.

A pandemia de covid-19 está forçando a repensar a macroeconomia

Na forma como é conhecido hoje, a macroeconomia começou em 1936 com a publicação de “The The General Theory of Employment, Interest and Money”, de John Maynard Keynes.

Sua história subsequente pode ser dividida em três épocas. A era da política, guiada pelas idéias de Keynes, começou na década de 1940. Nos anos 70, encontrou problemas que não conseguia resolver e, nos anos 80, começou a era monetarista, mais comumente associada ao trabalho de Milton Friedman. Nas décadas de 1990 e 2000, os economistas combinaram idéias de ambas as abordagens. Mas agora, nos destroços deixados pela pandemia de coronavírus, uma nova era está começando. O que ele contém?

A idéia central da economia de Keynes é o gerenciamento do ciclo de negócios – como combater recessões e garantir que tantas pessoas que querem trabalho possam obtê-lo. Por extensão, essa ideia-chave se tornou o objetivo final da política econômica. Ao contrário de outras formas de teoria econômica no início do século XX, o keynesianismo previa um grande papel para o Estado alcançar esse objetivo. A experiência da Grande Depressão convenceu os proto-keynesianos de que a economia não era um organismo naturalmente corretor. Os governos deveriam ter grandes déficits (ou seja, gastando mais do que gastaram em impostos) durante as crises para sustentar a economia, com a expectativa de que pagariam a dívida acumulada durante os bons tempos.

O paradigma keynesiano entrou em colapso na década de 1970. A inflação persistentemente alta e o alto desemprego daquela década (“estagflação“) confundiram os economistas comuns, que pensavam que as duas variáveis ​​quase sempre se moviam em direções opostas. Isso, por sua vez, convenceu os formuladores de políticas de que não era mais possível “sair do caminho da recessão”, como admitiu James Callaghan, então primeiro-ministro britânico, em 1976. Um insight central da crítica de Keyman ao modernismo de Friedman era que, se os formuladores de políticas tentassem estimular sem enfrentar as deficiências estruturais subjacentes, eles aumentariam a inflação sem reduzir o desemprego. E a inflação alta poderia persistir, apenas porque era o que as pessoas esperavam.

Os formuladores de políticas procuraram algo novo. As idéias monetaristas da década de 1980 inspiraram Paul Volcker, então presidente do Federal Reserve, a esmagar a inflação restringindo a oferta de moeda, embora isso também produzisse uma recessão que provocou um aumento do desemprego. O fato de Volcker saber que isso provavelmente aconteceria revelou que algo mais havia mudado. Muitos monetaristas argumentaram que os formuladores de políticas antes deles tinham se concentrado demais na igualdade de renda e riqueza em detrimento da eficiência econômica. Em vez disso, precisavam se concentrar no básico – como inflação baixa e estável – que, a longo prazo, criaria as condições nas quais os padrões de vida aumentariam.

Parece um sussurro

Nas décadas de 1990 e 2000, surgiu uma síntese do keynesianismo e do Friedmanismo. Eventualmente, recomendou um regime político amplamente conhecido como “metas flexíveis de inflação”. O objetivo central da política era atingir inflação baixa e estável – embora houvesse espaço para, durante as crises, colocar o emprego em primeiro lugar, mesmo que a inflação estivesse desconfortavelmente alta. A principal ferramenta de gestão econômica era o aumento e a redução das taxas de juros de curto prazo, que, como se viu, eram determinantes mais confiáveis ​​do consumo e do investimento do que a oferta monetária. A independência dos bancos centrais dos governos garantiu que eles não caíssem nas armadilhas inflacionárias que Friedman advertiu. A política fiscal, como forma de gerenciar o ciclo de negócios, foi deixada de lado, em parte porque era vista como sujeita a influência política. O trabalho da política fiscal era manter as dívidas públicas baixas e redistribuir a renda na medida e da maneira que os políticos entendessem.

Agora parece que esse paradigma econômico dominante atingiu seu limite. Começou a tremer após a crise financeira global de 2007-09, quando os formuladores de políticas foram confrontados com dois grandes problemas. A primeira foi que o nível de demanda na economia – em geral, o desejo agregado de gastar em relação ao desejo agregado de economizar – parecia ter sido permanentemente reduzido pela crise. Para combater a crise, os bancos centrais reduziram as taxas de juros e lançaram flexibilização quantitativa (qe, ou imprimir dinheiro para comprar títulos). Mas, mesmo com uma política monetária extraordinária, a recuperação da crise foi lenta e longa. o crescimento do PIB foi fraco. Eventualmente, os mercados de trabalho cresceram, mas a inflação permaneceu silenciosa (ver gráfico 1). O final de 2010 foi simultaneamente a nova década de 1970 e a anti-década de 1970: inflação e desemprego mais uma vez não estavam se comportando como esperado, embora desta vez os dois fossem surpreendentemente baixos.

Isso pôs em questão a sabedoria recebida sobre como gerenciar a economia. Os banqueiros centrais enfrentaram uma situação em que a taxa de juros necessária para gerar demanda suficiente estava abaixo de zero. Esse era um ponto que eles não podiam alcançar com facilidade, pois se os bancos tentassem cobrar taxas de juros negativas, seus clientes poderiam simplesmente retirar seu dinheiro e colocá-lo debaixo do colchão. qe era um instrumento político alternativo, mas sua eficácia foi debatida. Tais disputas levaram a uma repensar. De acordo com um documento de trabalho publicado em julho por Michael Woodford e Yinxi Xie, da Columbia University, os “eventos do período desde a crise financeira de 2008 exigiram uma reavaliação significativa da sabedoria convencional anterior, segundo a qual somente a política de taxas de juros. deve ser suficiente para manter a estabilidade macroeconômica. ”

O segundo problema pós-crise financeira estava relacionado à distribuição. Embora as preocupações com os custos da globalização e automação ajudassem a impulsionar a política populista, os economistas perguntaram em cujos interesses o capitalismo vinha trabalhando ultimamente. Um aparente aumento na desigualdade americana após 1980 se tornou central em muitas pesquisas econômicas. Alguns temiam que as grandes empresas tivessem se tornado poderosas demais; outros, que uma sociedade globalizada era muito afiada ou que a mobilidade social estava em declínio.

Alguns argumentaram que o crescimento econômico estruturalmente fraco e a má distribuição dos despojos da atividade econômica estavam relacionados. Os ricos têm uma maior tendência a economizar, em vez de gastar, por isso, se sua parcela da renda aumentar, a economia geral aumentará. Enquanto isso, na imprensa, os bancos centrais enfrentaram acusações de que baixas taxas de juros e qe estavam aumentando a desigualdade, aumentando os preços da habitação e das ações.

No entanto, também estava ficando claro o quanto de estímulo econômico poderia beneficiar os pobres, se o desemprego caísse o suficiente para que os salários das pessoas de baixa renda aumentassem. Pouco antes da pandemia, uma parcela crescente do PIB em todo o mundo rico era acumulada para os trabalhadores na forma de ordenados e salários. Os benefícios foram maiores para os trabalhadores mal remunerados. “Estamos ouvindo em voz alta e clara que essa longa recuperação está beneficiando comunidades de baixa e moderada renda em maior extensão do que se sente há décadas”, disse Jerome Powell, presidente do Fed, em julho de 2019. A crescente crença no o poder redistributivo de uma economia em expansão aumentou a importância de encontrar novas ferramentas para substituir as taxas de juros para gerenciar o ciclo de negócios.

Mesas começando a virar

Então o coronavírus atingiu. As cadeias de suprimentos e a produção foram interrompidas, o que, sendo tudo o mais, deveria ter causado o aumento dos preços, pois as matérias-primas e os produtos acabados eram mais difíceis de encontrar. Mas o maior impacto da pandemia tem sido do lado da demanda, fazendo com que as expectativas de inflação e taxas de juros futuras caiam ainda mais. O desejo de investir caiu, enquanto as pessoas em todo o mundo estão economizando grande parte de sua renda.

A pandemia também expôs e acentuou desigualdades no sistema econômico. Aqueles em empregos de colarinho branco podem trabalhar em casa, mas trabalhadores “essenciais” – os motoristas de entrega, os limpadores de lixo – devem continuar trabalhando e, portanto, correm maior risco de contrair a covid-19, o tempo todo por salários baixos. Aqueles em setores como hospitalidade (desproporcionalmente jovens, mulheres e com pele negra ou marrom) sofreram o impacto da perda de empregos.

Mesmo antes da covid-19, os formuladores de políticas estavam começando a se concentrar mais uma vez no maior efeito do rebentamento e do boom do ciclo de negócios sobre os pobres. Mas desde que a economia foi atingida por uma crise que mais afeta os mais pobres, surgiu um novo senso de urgência. Isso está por trás da mudança na macroeconomia. Criar novas maneiras de voltar ao pleno emprego é mais uma vez a principal prioridade para os economistas.

Mas como prosseguir sobre isso? Alguns argumentam que a covid-19 provou temores errados de que os formuladores de políticas não possam combater recessões. Até agora, neste ano, os países ricos anunciaram estímulos fiscais no valor de US $ 4,2 trilhões, o suficiente para levar seus déficits a quase 17% do PIB, enquanto os balanços dos bancos centrais cresceram 10% do PIB. Esse enorme estímulo acalmou os mercados, impediu que as empresas colapsassem e protegessem a renda das famílias. Ações políticas recentes “repreendem a idéia de que os formuladores de políticas podem ficar sem munição”, argumenta Erik Nielsen, do banco Unicredit.

No entanto, embora ninguém duvide que os formuladores de políticas tenham encontrado muitas alavancas, ainda há divergências sobre o que deve continuar sendo puxado, quem deve fazer o puxão e quais serão os efeitos. Economistas e formuladores de políticas podem ser divididos em três escolas de pensamento, do menos ao mais radical: um que exige apenas mais coragem; um que olha para a política fiscal; e um que diz que a solução são taxas de juros negativas.

Pegue a primeira escola. Seus defensores dizem que, enquanto os bancos centrais puderem imprimir dinheiro para comprar ativos, poderão impulsionar o crescimento econômico e a inflação. Alguns economistas argumentam que os bancos centrais devem fazer isso na medida do necessário para restaurar o crescimento e atingir suas metas de inflação. Se eles falham, não é porque estão sem munição, mas porque não estão se esforçando o suficiente.

Há pouco tempo, os banqueiros centrais seguiram esse credo, insistindo que ainda tinham as ferramentas para fazer seu trabalho. Em 2013, o Japão, que tem mais experiência do que qualquer outro país com condições de baixo crescimento e inflação ultra baixa, nomeou um banqueiro central “o que for preciso”, Kuroda Haruhiko, para liderar o Banco do Japão (boj). Ele conseguiu provocar um boom de empregos, mas aumentou a inflação em menos do que o prometido. Logo antes da pandemia Ben Bernanke, ex-presidente do Fed, argumentou em um discurso para a Associação Econômica Americana que o potencial de compra de ativos significava que apenas a política monetária provavelmente seria suficiente para combater uma recessão.

Mas, nos últimos anos, a maioria dos banqueiros centrais gravitou para exortar os governos a usarem seus orçamentos para impulsionar o crescimento. Christine Lagarde abriu seu mandato como presidente do Banco Central Europeu com um pedido de estímulo fiscal. Powell alertou recentemente o Congresso contra a retirada prematura de sua resposta fiscal à pandemia. Em maio, Philip Lowe, governador do Banco da Reserva da Austrália (rba), disse ao parlamento australiano que “a política fiscal terá que desempenhar um papel mais significativo na gestão do ciclo econômico do que no passado”.

Permanecendo nas linhas de bem-estar

Isso coloca a maioria dos banqueiros centrais na segunda escola de pensamento, que se apóia na política fiscal. Os adeptos duvidam que as compras de ativos do banco central possam oferecer estímulo ilimitado, ou ver essas compras como perigosas ou injustas – talvez, por exemplo, porque a compra de dívida corporativa mantém as empresas vivas que deveriam falir. Melhor para o governo aumentar os gastos ou cortar impostos, com os déficits orçamentários absorvendo o excesso de poupança criada pelo setor privado. Pode significar ter grandes déficits por um período prolongado, algo que Larry Summers, da Universidade de Harvard, sugeriu.

Essa visão não elimina o papel dos bancos centrais, mas os relega. Eles se tornam facilitadores de estímulos fiscais, cuja principal tarefa é manter os empréstimos públicos de longo prazo ainda mais baratos à medida que os déficits orçamentários disparam. Eles podem fazer isso comprando títulos diretamente, ou fixando as taxas de juros de longo prazo perto de zero, como fazem o boj e o rba atualmente. Como resultado da covid-19 “a linha tênue entre política monetária e gerenciamento da dívida do governo ficou turva”, de acordo com um relatório do Bank for International Settlements (bis), um clube de bancos centrais.

Nem todo mundo está feliz com isso. Em junho, Paul Tucker, ex-vice-governador do Banco da Inglaterra, disse que, em resposta às vastas compras de títulos do governo pelo banco, a questão era se o banco “agora voltou a ser o braço operacional do Tesouro”. Mas aqueles influenciados pela escola keynesiana, como Adair Turner, ex-regulador financeiro britânico, querem que o financiamento monetário do estímulo fiscal se torne uma política declarada – uma idéia conhecida como “dinheiro de helicóptero”.Enormes programas de estímulo fiscal significam que os índices de dívida pública / PIB estão aumentando (ver gráfico 2). No entanto, esses não mais preocupam economicamente os economistas. Isso ocorre porque as baixas taxas de juros atuais permitem que os governos paguem dívidas públicas muito mais altas (veja o gráfico 3). Se as taxas de juros continuarem abaixo do crescimento econômico nominal – ou seja, antes de se ajustar à inflação -, uma economia poderá sair da dívida sem precisar ter um superávit orçamentário, um ponto enfatizado por Olivier Blanchard, do Instituto Peterson de Economia Internacional, um think tank. Outra maneira de argumentar é dizer que os bancos centrais podem continuar a financiar governos enquanto a inflação permanecer baixa, porque é a perspectiva de inflação que força os formuladores de políticas a aumentar as taxas para níveis que tornam a dívida cara.

Para alguns, a idéia de transformar a torneira fiscal ao máximo e cooptar o banco central para esse fim se assemelha à “moderna teoria monetária” (mmt). Essa é uma economia heterodoxa que pede que países que podem imprimir sua própria moeda (como os EUA e a Grã-Bretanha) ignorem os índices de dívida em relação ao PIB, confiem no banco central para conter a dívida pública e continuem executando gastos deficitários, a menos e até desemprego e inflação voltam ao normal.

E há de fato uma semelhança entre essa escola de pensamento e a mmt. Quando as taxas de juros são zero, não há distinção entre emitir dívida, que de outra forma incorreria em custos de juros, e imprimir dinheiro, que os livros didáticos supõem que não incorrem em custos de juros. A uma taxa de juros zero, “não importa se você financia com dinheiro ou com dívida”, disse Blanchard em um webinar recente.

Mas a comparação termina aí. Enquanto aqueles que defendem o mmt querem que o banco central atrele as taxas de juros a zero permanentemente, outros economistas do setor defendem uma política fiscal expansionista precisamente porque desejam que as taxas de juros subam. Isso, por sua vez, permite que a política monetária recupere a tração.

A terceira escola de pensamento, que se concentra nas taxas de juros negativas, é a mais radical. Preocupa-se com a forma como as taxas de juros permanecerão abaixo das taxas de crescimento econômico, como Blanchard estipulou. Seus defensores veem o estímulo fiscal, financiado por dívida ou pela criação de dinheiro do banco central, com alguma suspeita, pois ambos deixam contas para o futuro.

Um efeito colateral do qe é que ele deixa o banco central incapaz de aumentar as taxas de juros sem pagar juros pela enorme quantidade de dinheiro eletrônico que os bancos estacionaram com ele. Quanto mais dinheiro for impresso para comprar títulos do governo, mais dinheiro será depositado nele. Se as taxas de curto prazo aumentarem, a conta de “juros sobre reservas” do banco central também aumentará. Em outras palavras, um banco central que cria dinheiro para financiar estímulos está, em termos econômicos, fazendo algo surpreendentemente semelhante a um governo que emite uma dívida de taxa flutuante. E os bancos centrais são, em última instância, parte do governo.

Portanto, não há almoços grátis. “Quanto mais alto o qe pendente como parcela da dívida total do governo, mais o governo fica exposto a flutuações nas taxas de juros de curto prazo”, explicou Gertjan Vlieghe, do Banco da Inglaterra, em um discurso recente. Outra preocupação é que nas próximas décadas os governos enfrentarão ainda mais pressão sobre seus orçamentos com os gastos com pensões e assistência médica associados ao envelhecimento da população, investimentos para combater as mudanças climáticas e outras catástrofes no molde da covid-19. A melhor maneira de estimular as economias continuamente não é, portanto, criar contas a serem pagas quando as taxas subirem novamente. É tomar taxas de juros negativas.

À espera de uma promoção
Algumas taxas de juros já são marginalmente negativas. A taxa da política do Banco Nacional Suíço é de -0,75%, enquanto algumas taxas na zona do euro, Japão e Suécia também estão no vermelho. Mas Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, e Willem Buiter, ex-economista-chefe do Citigroup, um banco, prevê taxas de juros de -3% ou menos – uma proposta muito mais radical. Para estimular gastos e empréstimos, essas taxas teriam que se espalhar por toda a economia: aos mercados financeiros, às taxas de juros dos empréstimos bancários e também aos depósitos nos bancos, que precisariam encolher com o tempo. Isso desencorajaria a poupança – em uma economia deprimida, afinal, muita economia é o problema fundamental – embora seja fácil imaginar taxas de juros negativas provocando uma reação populista.

Muitas pessoas também gostariam de tirar seu dinheiro dos bancos e enfiá-lo debaixo do colchão. Efetuar essas propostas, portanto, exigiria uma reforma abrangente. Existem várias idéias de como fazer isso, mas o método da força bruta é abolir pelo menos as notas de alta denominação, tornando caro e impraticável manter grandes quantidades de dinheiro físico. Rogoff sugere que, eventualmente, o dinheiro possa existir apenas como “moedas pesadas”.

Taxas negativas também apresentam problemas para os bancos e o sistema financeiro. Num artigo publicado em 2018, Markus Brunnermeier e Yann Koby, da Universidade de Princeton, argumentam que existe uma “taxa de juros reversa” abaixo da qual os cortes nas taxas de juros realmente impedem os empréstimos bancários – prejudicando a economia em vez de impulsioná-la. Abaixo de uma certa taxa de juros, que a experiência sugere que deve ser negativa, os bancos podem não estar dispostos a repassar cortes nas taxas de juros para seus depositantes, por medo de levar os clientes irritados a transferir seus depósitos para um banco rival. Taxas de juros profundamente negativas podem esmagar os lucros dos bancos, mesmo em uma economia sem dinheiro.

Pegue o que é deles

Vários fatores ainda podem tornar a economia mais hospitaleira a taxas negativas, no entanto. O dinheiro está em declínio – outra tendência que a pandemia acelerou. Os bancos estão se tornando menos importantes para o financiamento, com cada vez mais intermediação nos mercados de capitais (ver artigo). Os mercados de capitais, observa Buiter, não são afetados pelo argumento da “taxa de reversão”. Enquanto isso, os banqueiros centrais estão brincando com a idéia de criar suas próprias moedas digitais, que podem funcionar como contas de depósito para o público, permitindo que o banco central pague ou pague juros diretamente sobre os depósitos, e não através do sistema bancário. A campanha de Joe Biden para a Casa Branca inclui idéias semelhantes, o que permitiria ao Fed atender diretamente aqueles que não têm uma conta bancária privada.

Os formuladores de políticas agora têm que ponderar os riscos a escolher no mundo pós-cobiçado: ampla intervenção do banco central nos mercados de ativos, aumentos contínuos na dívida pública ou um abalo no sistema financeiro. No entanto, um número crescente de economistas teme que mesmo essas mudanças radicais não sejam suficientes. Eles argumentam que existem problemas mais profundos que só podem ser resolvidos por reformas estruturais.

Um novo artigo de Atif Mian, da Universidade de Princeton, Ludwig Straub, da Universidade de Harvard, e Amir Sufi, da Universidade de Chicago, expande a idéia de que a desigualdade prejudica a demanda da economia. Assim como a desigualdade cria uma necessidade de estímulo, eles argumentam, o estímulo acaba criando mais desigualdade. Isso ocorre porque deixa as economias mais endividadas, ou porque as baixas taxas de juros incentivam as famílias ou empresas a tomar empréstimos, ou porque o governo está com déficits. O endividamento público e privado transfere a renda para investidores ricos que possuem a dívida, diminuindo ainda mais a demanda e as taxas de juros.

As tendências seculares das últimas décadas, de maior desigualdade, maiores índices dívida / PIB e menores taxas de juros, reforçam-se assim. Os autores argumentam que escapar da armadilha “requer consideração de políticas macroeconômicas menos padronizadas, como as que se concentram na redistribuição ou as que reduzem as fontes estruturais de alta desigualdade”. Uma dessas “fontes estruturais de alta desigualdade” pode ser a falta de competitividade. Grandes empresas com mercados cativos não precisam investir tanto quanto investiriam se enfrentassem mais concorrência.

Um novo documento de trabalho de Anna Stansbury, também da Universidade de Harvard, e Summers, rejeita essa visão e culpa o declínio do poder de barganha dos trabalhadores no mercado de trabalho. Segundo os autores, isso pode explicar todos os tipos de tendências econômicas americanas: o declínio (até meados de 2010) da participação dos trabalhadores na renda, redução do desemprego e da inflação e alta rentabilidade corporativa. Eles sugerem que os empresários podem economizar mais do que os trabalhadores, de modo que, à medida que a renda das empresas aumenta, as economias agregadas aumentam.

Stansbury e Summers são a favor de políticas como o fortalecimento dos sindicatos ou a promoção de “acordos de governança corporativa que aumentem o poder dos trabalhadores”. Eles argumentam que tais políticas “precisariam ser cuidadosamente consideradas à luz dos possíveis riscos do aumento do desemprego”. Idéias para aumentar o poder dos trabalhadores como indivíduos podem ser mais promissoras. Uma é fortalecer a rede de segurança, o que aumentaria o poder de barganha dos trabalhadores e a capacidade de se afastar de acordos de trabalho pouco atraentes.

Em um livro recente, Martin Sandbu, colunista do Financial Times, sugere substituir os subsídios isentos de impostos por pequenos rendimentos básicos universais. Outra idéia é fortalecer a aplicação da legislação trabalhista existente, atualmente fraca em muitos países ricos. Uma regulamentação mais rigorosa de fusões e aquisições, para impedir a formação de novos monopólios, também ajudaria.

Todas essas novas idéias agora competirão por espaço em um ambiente político no qual a mudança repentinamente parece muito mais possível. Quem poderia imaginar, apenas seis meses atrás, que dezenas de milhões de trabalhadores em toda a Europa teriam seus salários pagos por esquemas de licença financiados pelo governo ou que sete em cada dez desempregados americanos em recessão ganhariam mais com o seguro-desemprego pagamentos do que haviam feito no trabalho? Devido aos resgates em massa, “o papel do estado na economia provavelmente parecerá consideravelmente maior”, diz o bis.

Falando sobre uma revolução

Muitos economistas desejam precisamente essa intervenção do estado, mas ela apresenta riscos claros. Os governos que já possuem dívidas pesadas podem decidir que se preocupar com déficits é para os fracos e que a independência do banco central não importa. Isso poderia finalmente desencadear inflação alta e fornecer um lembrete doloroso dos benefícios do antigo regime. As reformas do setor financeiro podem sair pela culatra. Uma maior redistribuição pode tirar a economia de uma maneira estranha, como Sufi, Stansbury e seus respectivos colegas descrevem – mas impostos pesados ​​podem igualmente desencorajar o emprego, a empresa e a inovação.

Repensar a economia é uma oportunidade. Atualmente, existe um consenso crescente de que mercados de trabalho restritos poderiam dar aos trabalhadores mais poder de barganha sem a necessidade de uma grande expansão da redistribuição. Uma reavaliação equilibrada da dívida pública pode levar ao investimento público verde necessário para combater as mudanças climáticas. E os governos poderiam desencadear uma nova era das finanças, envolvendo mais inovação, intermediação financeira mais barata e, talvez, uma política monetária que não seja restringida pela presença de dinheiro físico. O que está claro é que o velho paradigma econômico parece cansado. De um jeito ou de outro, a mudança está chegando.
Com dados da The Economist/

Clima,Meio Ambiente,Blog do Mesquita

Como o ambientalismo se tornou um ativo financeiro

Natureza,Ambiente,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 00

Empresas e investidores se preocupam cada vez mais com preservação ambiental, em busca de rentabilidade no longo prazo e temendo efeitos das mudanças climáticas. No Brasil, cresce pressão sobre governo Bolsonaro.

Nascida na contracultura, longe do poder econômico e político, a defesa de um ecossistema sustentável é uma bandeira cada vez mais empunhada pelos donos do dinheiro grosso, como fundos de pensão e de investimento. Além de novos atores, o ambientalismo financeiro tem novos motivos. Em vez do dever ético de preservar o planeta para as próximas gerações, há o dever de assegurar rentabilidade e estabilidade a investimentos no longo prazo.

Diversos sinais desse ativismo apareceram no último mês. Um grupo de investidores internacionais responsável por cerca de 20 trilhões de reais enviou cartas a embaixadas brasileiras manifestando preocupação com o aumento do desmatamento na Amazônia. E mais de 50 CEOs de grandes empresas no país lançaram manifesto pedindo combate ao desmatamento. Ambos os grupos foram recebidos pelo vice-presidente, Hamilton Mourão, que preside o Conselho da Amazônia. Na terça-feira (14/07), 17 ex-titulares do Ministério da Fazenda e do Banco Central brasileiros lançaram carta cobrando uma retomada sustentável da economia após a pandemia.

Tais iniciativas foram potencializadas pelo descaso do governo Jair Bolsonaro em relação a questões ambientais, mas refletem também um movimento global, cujo ponto de inflexão ocorreu em janeiro, no último Fórum Econômico Mundial. Durante o encontro, na cidade suíça de Davos, o Bank for International Settlements (BIS), conhecido como o banco central dos banco centrais, divulgou um relatório alertando para os riscos que as mudanças climáticas podem trazer à estabilidade da economia e do sistema financeiro.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

No mesmo evento, o fundo BlackRock, maior gestor de ativos do mundo, anunciou que seus novos investimentos seriam destinados apenas a companhias com responsabilidade ambiental, e que tiraria dinheiro ou usaria seu poder de voto em investimentos existentes para forçar as empresas a caminhar nessa direção.

A decisão do BlackRock se relaciona às duas principais variáveis que orientam os investidores sobre onde colocar dinheiro: risco e retorno. No mercado financeiro, está se consolidando a percepção de que empresas que não conseguem manejar de forma inteligente os recursos naturais demonstram não estar preparadas para se manter na liderança de seus setores no futuro. Portanto, seriam investimentos mais arriscados e com potencial de perda de rentabilidade, afirma Celso Funcia Lemme, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro especializado em finanças e sustentabilidade corporativa.

Nesse contexto, retirar os investimentos de empresas que ignoram seu impacto ambiental é, mais do que uma opção, um dever dos gestores dos fundos, que têm a chamada responsabilidade fiduciária de agir de acordo com os interesses dos donos do dinheiro.

Há outros incentivos em jogo. Segundo a economista Maria Eugênia Buosi, sócia-fundadora da consultoria Resultante, o engajamento de uma empresa com sustentabilidade é hoje interpretado como um sinal de que ela tem uma gestão eficiente e, portanto, está mais bem posicionada para ter retorno financeiro no longo prazo. Além disso, indica uso mais eficiente de recursos como água e energia e menor exposição a multas e passivos ambientais.

Por fim, a performance ambiental das companhias também reduz o risco reputacional, diz Marcelo Seraphim, diretor no Brasil da Principles for Responsible Investment (PRI), organização criada com apoio da ONU para elaborar princípios norteadores de investimentos sustentáveis.

“Nenhum detentor de ativos, seja ele uma seguradora, um fundo de pensão ou um family office gostaria de ver seu dinheiro financiando empresas cujas atividades envolvam trabalho escravo, desmatamento, emissão descontrolada de gases de efeito estufa”, afirma.

Lógica semelhante se aplica à análise sobre em qual país os investimentos serão feitos, diz Seraphim. “A comunidade financeira hoje analisa a atratividade dos investimentos nos países também do ponto de vista dos riscos ASG [ambientais, sociais e de governança], exatamente como fazem com as empresas”, diz.

Risco sistêmico das mudanças climáticas

Além da atenção dos investidores aos fundamentos de cada empresa, existe preocupação no mercado financeiro com os riscos sistêmicos das mudanças climáticas, detalhados no relatório do BIS apresentado em Davos.

O aumento da temperatura média, a alteração do regime de chuvas e a ocorrência de eventos extremos, como furacões e ciclones, têm potencial de afetar diretamente diversos setores da economia.

Um exemplo, citado por Lemme, são as indústrias de refrigerantes e cerveja, que dependem de grande quantidade de água de qualidade. Crises hídricas, como a que ocorreu no estado de São Paulo de 2014 a 2016, impactam de forma emergencial essas companhias.

Outro setor vulnerável é o agronegócio, responsável por 21% do PIB brasileiro de 2019 e estratégico para a balança comercial do país. Já está comprovado que o desmatamento da Floresta Amazônica afeta os “rios aéreos”  que levam umidade para outras regiões e reduz o volume de chuvas.

“O sistema de chuvas é o que faz agronegócio, e a alteração do clima e da qualidade do solo afeta sua produtividade”, afirma Lemme, lembrando que pesos pesados do setor, como Amaggi e Cargill, assinaram a carta deste mês pedindo ao governo combate ao desmatamento.

As indústrias de cosméticos e medicamentos também são prejudicadas pela destruição da floresta, pois da biodiversidade surgem essências e substâncias importantes para os produtos. E a elevação do nível do mar e a ocorrência de eventos extremos implicam em riscos para o setor de infraestrutura urbana, estradas e ferrovias.

A evolução do “dinheiro verde”

“O movimento por mais sustentabilidade nas empresas começou de forma voluntária. Em seguida vieram acordos. E agora estamos vendo isso transitar na esfera regulatória”, diz Buosi.

Na virada do século, práticas sustentáveis eram um nicho de mercado e estratégia de marketing de empresas. Em 2006, foi lançado o PRI, que busca engajar o mercado financeiro por meio da persuasão. Em 2015, o Banco Central brasileiro passou a exigir que todas as instituições financeiras tenham uma política de responsabilidade socioambiental.

Em 2017, o bilionário e ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg liderou o lançamento da Força-tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD, na sigla em inglês), que pressiona empresas a divulgarem dados sobre seu impacto climático para que investidores usem esses indicadores em suas decisões.

Paralelamente, vem crescendo o apetite de investidores por “títulos verdes”, instrumentos financeiros negociados no mercado de capitais que detêm um selo atestando o comprometimento com o controle ou reversão do impacto ambiental.

Oportunidades para o Brasil

Os especialistas consultados pela DW Brasil são unânimes em afirmar que o atual governo brasileiro provocou retrocessos na área e desperdiça oportunidades de atrair recursos que buscam financiar projetos sustentáveis.

“Até dois anos atrás, o país era visto como protagonista na preservação ambiental, e os dados de combate ao desmatamento na Amazônia são provas disso. O país caminhava para obter os louros desse protagonismo, quando passaria a atrair capital de investidores responsáveis. No entanto, houve uma guinada muito prejudicial na forma como os gestores públicos passaram a ver a questão. De repente, nossa floresta tropical passou da condição de bônus para se transformar num ônus”, afirma Seraphim, para quem o governo “enfraqueceu a posição até então de vantagem comparativa que o Brasil tinha”.

Para Buosi, o Brasil precisa sair do “discurso reativo” na área ambiental e olhar para a sustentabilidade como um meio de buscar verbas, dada a abundância de recursos de fundos, bancos multilaterais e linhas de financiamento destinadas a iniciativas ambientalmente corretas.

Segundo ela, esse “dinheiro verde” tem a vantagem de superar restrições hoje impostas do Brasil, como ser um país sem grau de investimento e que não faz parte da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). “São entraves que barram a vinda de alguns investidores, mas o ‘dinheiro verde’ é capaz de contorná-los”, diz.

Uma estratégia que poderia ser mais explorada, diz Lemme, é o pagamento por serviços ambientais, nos quais se busca recursos para projetos que preservam o meio ambiente e ao mesmo tempo criam alternativas sustentáveis de geração de renda.

“Temos um potencial enorme. É um ativo colossal para negociações internacionais, aberturas diplomáticas e desenvolvimento.

A alternativa para os próximos 20 anos é uma forma sustentável de capitalismo, que não será vista como capitalismo

Paul Mason é autor de “Pós-Capitalismo”: Um Guia para o Nosso Futuro’ – Getty Imeges

Um grande ponto de interrogação se coloca sobre o mundo neste momento: o que vai acontecer depois da pandemia de covid-19?

A pergunta recai sobre as coisas mais mundanas e concretas — como quando voltaremos a dar as mãos ou abraçar nossos amigos — até as mais abstratas e aparentemente mais distantes: nossas liberdades individuais serão afetadas?

Será o fim da globalização? O que acontecerá com o capitalismo?

Esta última parece ir ao cerne do momento que vivemos atualmente. O capitalismo é mais uma vítima da crise ou seu causador? Como o sistema deve mudar para se adaptar a novas realidades? Há apetite para uma mudança desse porte entre as classes dirigentes e os empresários?

O britânico Paul Mason dedicou parte da vida para refletir sobre o capitalismo. Como jornalista, cobriu parte das grandes crises econômicas e dos movimentos sociais das últimas décadas.

Como intelectual, além de um livro de ficção e uma peça de teatro, escreveu sobre os mesmos temas: a classe trabalhadora, a crise financeira de 2008 e os diferentes protestos globais como a Primavera Árabe, Ocuppy Wall Street e os “indignados” da Espanha.

Mas fora suas últimas obras — PostCapitalism: A Guide to Our Future (“Pós-capitalismo: Um guia para o nosso futuro”, editado pela Cia das Letras) e Clear Bright Future: A Radical Defence of the Human Being (ainda sem edição no Brasil) — que o tornaram um nome conhecido internacionalmente, envolvido em vários debates sobre o estado atual do capitalismo e seu futuro.

A BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, conversou com Paul Mason em Londres, onde ele vive.

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A peste negra foi a epidemia que mais matou na História

Em um artigo recente, o senhor traça um interessante paralelo entre o que acontece hoje e o que aconteceu depois da epidemia de peste negra, no século 14, que marcou a transição do feudalismo para o capitalismo.

Paul Mason – Um dos temas do meu trabalho é que, como o feudalismo, o capitalismo tem um começo, um meio e um fim.

Em meu último livro (Clear Bright Future: A Radical Defence of the Human Being), digo que o fim de um modo de produção de um sistema econômico é com frequência uma mistura de suas fraquezas internas com o que chamamos de “choques externos” ou exógenos.

Então, para nós, a mudança climática se manifesta como um choque exógeno, porque o único capitalismo industrial que conhecemos está baseado na extração de carvão e na destruição da biosfera.

É possível que, em um universo paralelo, o capitalismo tivesse se desenvolvido a partir da energia limpa e em harmonia com a natureza, mas não foi assim.

Há ainda a questão do envelhecimento populacional, que possivelmente levaria à falência 60% dos países até meados deste século porque não haverá gente o suficiente para sustentar uma população envelhecida.

O coronavírus é outro fator que parece ser um choque externo.

Mas meu argumento é que, ainda que todos pareçam choques externos, na realidades são produzidos pelo próprio capitalismo.

Esse é o problema: o tipo de capitalismo que temos destrói as florestas tropicais e cria condições para que milhões de pessoas vivam em situação vulnerável.

E no mundo desenvolvido — provavelmente não tão óbvio para alguns leitores na América Latina — ele tem criado “doenças da pobreza”. Há muita gente morrendo de obesidade em Londres, com diabetes tipo B ou enfermidades nos pulmões porque fumou a vida inteira.

O paralelo que faço com a peste negra é limitado, mas vale a pena ser explorado, porque a epidemia foi responsável por duas coisas: primeiro, interrompeu o modelo econômico do feudalismo porque não havia componeses para cultivar a terra.

E nas cidades não havia pessoas o suficiente que soubessem trabalhar com o que era a principal matéria-prima da época, a lã. Nas revoltas que eclodiram depois da peste negra, sempre houve participação dos trabalhadores que manufaturavam a lã.

Protestos em Wall Street em 2008: para Mason, capitalismo financeiro é danoso para o próprio capitalismo
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O outro impacto — e maior — foi a quebra da ideologia. Porque fez com que as pessoas dissessem: “Isso (o modelo) não está funcionando.”

Entre aqueles que estudaram aquele período há um livro brilhante que se chama Lust for Liberty (“Desejo de liberdade”, em tradução livre), de Samuel K. Cohn. O título já diz tudo: ao final da epidemia, as pessoas se deram conta de que o sistema não as estava protegendo.

Se pensa no feudalismo — e acredito que na América Latina a imagem seja desses grandes senhores de terras, pois as revoltas coloniais também foram contra os grandes senhores de terras —, e a cultura entre esses donos de terra era o paternalismo. O proprietário está ali para explorar, mas também para proteger.

E o que aconteceu no século 14 foi que as pessoas disseram: “Espera aí, isso não está nos protegendo”. E a palavra liberdade começou a ser usada e disseminada.

Nós pensamos na palavra “liberdade” no contexto da Revolução Francesa, mas desde 1360 observamos o uso da palavra “libertas”, em latim, pelos revolucionários.

Algo que me chama atenção nesta comparação é que a peste negra marcou a transição do feudalismo para o capitalismo, o que, de alguma maneira, permitiu o Renascimento e o que conhecemos como Idade Moderna. Há mais ou menos 40 anos se fala do fim dessa Idade Moderna e do que, por falta de uma expressão melhor, se chama “pós-modernismo”. Como se novamente uma epidemia estivesse marcando a transição para um período distinto…

Mason – É interessante, mas não vejo as coisas assim. Há muita coisa em jogo. Minha posição é a de que temos em nível global um sistema econômico que não funciona. E é um sistema que depende que um mundo rico bombeie recursos para um mais pobre e, por sua vez, que este mundo pobre bombeie lucro de volta ao rico.

É uma simplificação extrema, mas é assim que funciona.

Isso gerou grande desenvolvimento no hemisfério sul do planeta — algo bom para a região —, mas, ao mesmo tempo, cria pobreza e desigualdade, inclusive no mundo desenvolvido, tanto ao ponto de mostrar que o sistema não é sustentável.

Em 2008, dissemos: “Há muita dívida”. E a razão foi que os bancos centrais imprimiram muita moeda e as pessoas usaram isso para especular. E a solução foi US$ 75 bilhões extras em dívida e mais dinheiro por parte dos bancos centrais.

Estamos tentando curar a doença… com mais doença. E a doença é o capitalismo financeiro.

E qual a cura que se está oferecendo para a crise de covid-19? Mais dinheiro por parte dos bancos centrais, mais dívida.

Então, antes de falar de Modernidade, devemos falar de algo muito mais recente: o modelo econômico neoliberal, que está baseado em uma profunda desigualdade, especulação financeira extrema e baixos salários. Um modelo que em algum momento funcionou, mas que não funciona mais.

Indústria automotiva destruiu empregos quando surgiu, mas acabou gerando outros – Direito de imagem GETTY IMAGES

Deixemos de lado a questão da dívida. Se você pensa em uma franquia da Starbucks, ela trabalha com uma margem de lucro bem pequena, porque está em constante pressão para reduzir preços.

Se a Starbucks decide aumentar o preço do café, o McDonald’s reduz imediatamente. Então estamos diante de algo que há sido chamado de “capitalismo just in time”, onde praticamente não há estoque.

É o que temos no serviço de saúde britânico: deixamos que ele opere em sua capacidade máxima, assim não há camas ou respiradores sobressalentes. E isso não pode continuar assim. O que se necessita é de capacidade.

No futuro fará sentido que a Starbucks tenha várias lojas com cafés de cada país. Fará sentido que elas tenham empregados adicionais, porque essa situação deve continuar e eles devem em algum momento ter algo como 10% da força de trabalho doente a todo momento.

E, logicamente, o serviço de saúde britânico deveria ter mais camas, mais médicos, mais enfermeiros.

Mas, se tudo isso acontecer, todo o modelo neoliberar vai ruir. Então esse é meu ponto. Estamos diante de um modelo que já se esgotou e acredito que a tarefa para aqueles envolvidos na política é pensar em uma solução.

Porque a resposta não pode ser a mesma que a maioria dos países deu em 2008, certo? Austeridade, cortes em áreas como a saúde… Isso parece estar no centro de tudo o que está errado neste momento.

Mason – Exatamente. Temos que rechaçar a austeridade, não só porque ela afeta mais aqueles que têm menos, mas porque se você a combina com a maior disponibilidade de recursos por parte dos bancos centrais…

Pense em termos da quantidade de dinheiro circulando: se um governo coloca mais dinheiro para circular, mas ao mesmo tempo está cortando gastos, o único lugar para onde esses recursos podem fluir é para os mais ricos.

Então, essa combinação de imprimir mais moeda enquanto se reduz o Estado só vai produzir mais desigualdade.

E digo o seguinte a seus leitores: qualquer governo da América Latina que se proponha a fazer essas duas coisas ao mesmo tempo está conscientemente enchendo o bolso das casses mais altas.

Como jornalista, Paul Mason trabalhou para a BBC e para o Channel 4, na Inglaterra
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O que você acha que vai acontecer? Porque estamos diante de mudanças que nunca se pensou que ocorreriam com tanta rapidez: países aprovando uma renda básica universal ou a nacionalização de alguns setores da economia… Isso deve continuar?

Mason – Não. Veja, é possível pensar na nossa cabeça que o livre mercado funciona perfeitamente bem e que vai corrigir tudo em circunstâncias normais, mas o que precisamos agora é de forte intervenção estatal.

O que estamos vendo com Trump ou com os conservadores no Reino Unido que estão tomando as medidas corretas, ainda que com lentidão: fechar a economia e a reconversão de algumas companhias às mãos do Estado.

Mas o que vai acontecer quando as pessoas se derem conta de que a normalidade não vai retornar? Acredito que precisamos de três coisas.

Primeiro, que o governo tenha uma participação em todos os negócios estratégicos. Isso não é o mesmo que resgatá-los financeiramente. Pode-se dar-lhes algum dinheiro, mas com algumas condições, como que mantenham toda a força de trabalho que possam — no caso das empresas do setor aéreo e as petroleiras, pode-se pedir que comecem a fazer uma transição para a tecnologia verde. E que o Estado seja dono de parte da empresa.

Você mencionou a renda básica. A longo prazo, a melhor maneira para que isto funcione é através de algo chamado de serviços básicos universais.

Quer dizer, usar o dinheiro dos contribuintes para garantir renda para todo mundo, mas também para prover serviços básicos gratuitos: saúde, educação universitária, moradia acessível e transporte barato ou gratuito nas cidades.

O problema nesta crise é que nada disso vai ajudar, porque o que as pessoas precisam neste momento é dinheiro. Assim, no curto prazo precisamos que cada país tenha um esquema de salário básico universal.

Finalmente, a terceira coisa que creio que precisamos é que os bancos centrais comprem a dívida do governo, se necessário, de maneira indireta.

Isso é um anátema para a economia de livre mercado porque basicamente é o governo decretando o fim da independência dos bancos centrais — algo que era uma ficção, de qualquer maneira. É o governo emprestando a si mesmo.

Para muitos isso não faz sentido, mas teríamos que pensar da seguinte maneira: estaríamos concedendo um “empréstimo ponte” (modalidade que algumas instituições financeiras condecedem quando seus clientes necessitam de liquidez imediata) ao futuro.

A conta seria paga por aqueles que estivesse vivos daqui 50 ou 100 anos. Porque, se pagássemos os custos agora, as pessoas não morreriam apenas pela doença. A própria democracia poderia morrer.

E em um momento em que ela já está frágil — veja Trump e Bolsonaro —, se permitirmos uma depressão na escala de 1929 creio que em muitos países a democracia evaporaria.

Algo que o senhor analisava quase cinco anos atrás em “Postcapitalism”, seu livro anterior, é que o capitalismo havia perdido sua capacidade de se adaptar, em especial o neoliberalismo. O que pensa sobre esse tema hoje?

Mason – O capitalismo pode se adaptar a essa crise, mas assumirá uma forma bem diferente. Ficará tão diferente que muita gente nem o enxergará como capitalismo.

Agora mesmo há muitas oportunidades para o investimento privado. Na área de educação, por exemplo, ou no entretenimento.

O faturamento da Netflix está aumentando, seu problema é não conseguir produzir conteúdo novo neste momento. Mas está lá a oportunidade para que as pessoas criativas o façam. Por exemplo: acho que a animação voltará a ser bastante popular.

Não estou dizendo que essa crise vai significar o fim do capitalismo. O ponto do meu livro era diferente: que o capitalismo havia perdido sua capacidade de se adaptar a mudanças tecnológicas.

Sim, é verdade.

Em essência, em todas as revoluções tecnológicas anteriores, as novas tecnologias eliminavam formas antigas de trabalho.

Por exemplo, as pessoas que usavam cavalos ou carroças ficaram sem trabalho no início do século 20, com a criação do automóvel. Mas novos postos de trabalho foram criados nas fábricas de veículos.

E assim o capitalismo vai se adaptando. O problema é que a tecnologia da informação atualmente destrói formas de trabalho mais rapidamente do que cria — e em particular elimina empregos com alta remuneração.

Claro que ele também cria a função do desenvolvedor de software, que é bem pago, mas agora muito do processo de desenvolvimento de software está automatizado.

O clássico trabalho manual bem remunerado era o de fabricante de ferramentas para maquinário. E então havia um engenheiro talentoso que era capaz de desenhar e fundir em metal algo que era tão precioso que poderia construir aviões com ele. Agora ele faz um computador.

Essa é a ideia que trato de explicar quando falo da capacidade de adaptação do capitalismo, mas a crise causada pela covid-19 é um problema a mais.

O senhor segue acreditando que é possível ver as sementes desse pós-capitalismo no ambiente em que vivemos hoje?

Mason – A tecnologia da informação permite que o lucro venha cada vez mais fácil. Também cria a possibilidade de automatização rápida. Cria um efeito de rede que produz novos materiais.

Por exemplo: quando descobrirmos uma vacina contra o coronavírus, independentemente da decisão dos fabricantes de cobrar ou não por ela, o fato é que ela poderia estar à disposição do mundo inteiro no dia seguinte. E de forma gratuita. Hoje é muito fácil fabricar uma vacina com uso da tecnologia da informação.

Basicamente, a tecnologia da informação está dificultando que o capitalismo seja capitalista. Agora, temos modalidades diferentes de propriedade, como a Wikipedia, o movimento “open source”, plataformas de cooperação.

Em Postcapitalism eu argumento que nos levará tempo para amadurecer um sistema alternativo. E creio que o fato de que agora mesmo estejamos enfrentando uma crise de funcionalidade do modelo existente deveria fazer as pessoas pensarem nas alternativas de que dispomos.

Para mim, a alternativa para os próximos 20 anos é uma forma mais sustentável de capitalismo. Quero dizer mais verde, menos excludente, sem especulação financeira.

Continuará sendo capitalismo, mas muitos não o enxergarão como tal.

“Falta de investimento na infância é uma tragédia no Brasil”

Após 30 anos de vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente, país falhou em tratar infância como política prioritária e em proteger menores da violência, avalia Mário Volpi, do Unicef e um dos idealizadores do ECA.

“É preciso mais investimento ou corremos o risco de perder tudo o que foi feito nos últimos 30 anos”

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – uma das legislações mais avançadas do mundo para defesa e promoção dos direitos das crianças e adolescentes – completa 30 anos nesta segunda-feira (13/07), num dos países mais perigosos para a infância. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 32 crianças e adolescentes são assassinados todos os dias no Brasil.

A alta exposição de menores à violência é uma das principais falhas de implementação do ECA, segundo um de seus idealizadores.

Falta de investimento no desenvolvimento de crianças e adolescentes brasileiros, sobretudo nas periferias, pode custar todo o trabalho já feito para garantir educação, acesso à saúde e assistência social no âmbito da infância.

“Precisamos de mais investimentos ou corremos o risco de perder todos os investimentos feitos nos últimos 30 anos”, diz Volpi, ressaltando que o ECA confere ao Estado e à sociedade a responsabilidade de garantir a proteção integral de crianças e adolescentes.

Para ele, um dos desafios se refere à normalização da morte de adolescentes e jovens, especialmente negros, nas periferias do país. “Há um discurso de que, se eles morreram, alguma coisa eles devem ter feito. […] Essa ideologia de culpar o excluído pela sua própria exclusão precisa ser superada.”

Em relação à atual crise sanitária do país, Volpi lembra que a epidemia de covid-19 “deixa crianças que vivem em situação de vulnerabilidade ainda mais expostas”. “O grande impacto da pandemia será sobre as crianças. Vemos crianças sem acesso à internet que não estão recebendo os conteúdos escolares, o que é uma situação grave”, observa.

DW Brasil: Em 1990, quando você esteve envolvido na criação do ECA, como imaginava que estaria a implementação do estatuto 30 anos depois?

Mário Volpi: Tínhamos três grandes expectativas: a redução da violência contra a criança, a criação de oportunidades de educação, saúde e proteção social para as crianças se desenvolverem, e o investimento dos governos na infância como uma política prioritária. A ideia era que nenhum país poderia ter um desenvolvimento sustentável se não investisse na infância.

A ampliação do acesso à escola e a redução da mortalidade infantil foram êxitos na implementação. Quando o ECA foi aprovado, mais de 20% das crianças estavam fora da escola; hoje, são 4,3%. A educação era obrigatória dos 7 aos 14 anos e, hoje, é obrigatória dos 4 aos 17 anos. Essa mudança na lei conferiu o direito à educação a muitas crianças.

O segundo sonho que a gente tinha, de ter mais acesso às políticas para a infância, de alguma forma se realizou. Hoje há muito mais crianças na escola, menos mortalidade infantil e muitos programas na área da saúde, como os centros de apoio psicossocial.

Mas o primeiro elemento com o qual a gente sonhava, que era a criança mais protegida contra a violência, ainda é um grande desafio. Ainda temos maus-tratos, abusos, exploração sexual e crimes relacionados ao mundo digital contra as crianças. Além disso, os investimentos na infância não foram como esperávamos. Ainda é preciso muito trabalho para que os governos e a sociedade priorizem os direitos da infância.

Pode-se falar em frustração em relação à implementação do ECA ou ainda é possível ter uma visão otimista?

Não é exatamente uma frustração, mas uma perda de oportunidade. O país deixou passar uma oportunidade grande de ter feito dessa geração que hoje está com 30 anos de idade uma geração plena no seu desenvolvimento. Essa poderia ser a geração dos direitos, que tem a escolaridade completa e condições de enfrentar o mundo do trabalho de igual para igual, mas, infelizmente, nós precisamos recuperar o tempo perdido no que tange a proteção contra a violência.

Mais de 10 mil adolescentes, especialmente adolescentes negros, são assassinados todos os anos. Isso ganhou uma característica de extermínio da população negra e jovem e muito pouco foi feito para enfrentar essa tragédia social. O Estado brasileiro precisa garantir o fim da impunidade dos responsáveis pelos assassinatos de adolescentes e jovens. São os casos menos investigados no país e, quando há investigações, elas não são concluídas. Poucos responsáveis por esses crimes foram punidos. Esses homicídios acontecem em territórios muito específicos. São os territórios da periferia, da exclusão social, da falta de políticas públicas. Não se trata de um fenômeno disseminado por todo o país e, portanto, difícil de enfrentar.

Além disso, existe uma incompreensão da sociedade, que não está muito interessada em saber o que acontece com esses adolescentes. Há um discurso de que, se eles morreram, alguma coisa eles devem ter feito. É um discurso muito cínico, porque a maioria desses jovens frequentava a escola, trabalhava e tinha relações familiares. Esse desconhecimento sobre esses jovens assassinados gerou uma certa acomodação da sociedade. Em 1991, quando houve uma CPI sobre extermínio de adolescentes no Brasil, falava-se de uma média de 4,2 assassinatos de jovens por dia no Brasil. Hoje são 32.

Há uma normalização da morte de adolescentes e jovens nas periferias.

Exatamente, como algo que acontece. São esses meninos lá da favela que estão brigando entre si. É um contexto muito grave de eliminação da vida humana. Então, ainda precisamos fazer um amplo trabalho – e o Unicef está engajado nisso – de criar uma empatia da sociedade com esses jovens que vivem nas comunidades. Essa ideologia de culpar o excluído pela sua própria exclusão precisa ser superada, senão o país não fará as mudanças necessárias para se tornar mais justo.

Por isso, vemos um apoio amplo à redução da maioria penal, sempre que o debate vem à tona.

Objetivamente, é uma proposta que tem a adesão da sociedade, porque se propõe a fazer algo que nunca vai fazer, que é reduzir a violência. Essa ideia de que, se você punir os adolescentes, você reduz a violência colou na cabeça das pessoas. Mas é exatamente o contrário. Os jovens, por falta de oportunidades, vão entrar no sistema penitenciário e vão se consolidar no mundo do crime. A perspectiva social de que o aumento da pena reduz o delito é uma tese que temos combatido há muito tempo. Quanto mais oportunidades dermos aos adolescentes, menos eles se envolverão em delitos.

Crianças indígenas em meio a arbustos no Mato Grosso
“Sociedade precisa entender o que é ser uma criança no Cerrado brasileiro, na Amazônia, numa favela”

O ECA veio para garantir que as crianças sejam “sujeitos de direitos”. O que isso significa?

Trata-se de um conceito de infância e adolescência que sai dessa ideia de objeto. Antigamente, as crianças e os adolescentes eram objeto do poder da família. Havia aquele conceito da inviolabilidade do lar, ou seja, o que acontece no âmbito da família não interessa a mais ninguém. Isso foi superado pelo ECA com o conceito de sujeito de direitos, ou seja, alguém com uma história, conhecimento, desejos, interesses e capacidades. Esse sujeito vive uma condição especial de desenvolvimento e de formação de valores, hábitos e atitudes. A mudança de conceito, saindo dessa ideia de incapacidade para a ideia de sujeito, foi muito importante e ajudou a construir todos os programas na área de assistência social, educação e saúde, mas ainda precisa ser consolidado na sociedade.

Quais são os principais direitos associados à infância e adolescência que ainda precisam ser consolidados no Brasil?

A participação na vida social protegida da violência e somada ao direito à saúde, à educação, à profissionalização, ao esporte, à cultura, às artes e ao lazer formam um conjunto indissociável. Então, um grande princípio do ECA, que vem da Convenção sobre os Direitos da Criança, é a ideia da indivisibilidade dos direitos que asseguram o desenvolvimento pleno da criança e precisam ser assegurados conjuntamente.

Um exemplo de como esse conceito mudou algumas práticas sociais: antes do estatuto, se uma criança sofresse violência em casa era muito comum o Estado colocar a criança numa instituição. Hoje, a criança que sofre violência não deve se afastar da família, quem deve se afastar é o agressor. Se uma criança tem dificuldade de se adaptar numa escola ou apresenta problemas disciplinares, a escola não pode expulsá-la simplesmente, porque ela tem o direito à educação.

Quando o estatuto foi aprovado, trouxe essa responsabilidade da família e do Estado. Então, quando alguém denuncia uma situação de maus-tratos na infância, essa pessoa está cumprindo o seu dever social de preservar os direitos da criança. Depois de 30 anos, o grande desafio é consolidar essa visão da infância como o sujeito que deve ser protegido pela família, pela sociedade e pelo Estado.

Como você avalia as políticas para a infância do governo atual?

O Brasil se funda num pacto federativo, então, os estados e municípios têm muitas responsabilidades na implementação de políticas para a infância. O Brasil consolidou um conjunto de políticas municipais e estaduais pelos direitos da infância que garantem uma rede ampla de programas. No âmbito federal, não existem programas correspondentes a essa estrutura, então a gente observa muita tensão entre estados, municípios e a União, com os municípios e os estados reivindicando mais recursos.

Vivemos um momento muito complexo na situação dos direitos da infância. Precisamos de mais investimentos ou corremos o risco de perder todos os investimentos feitos nos últimos 30 anos. É preciso recuperar o pacto federativo para um maior investimento do governo federal no apoio aos estados e municípios para o cumprimento dos seus diferentes papéis.

É claro que esse momento de pandemia é um momento fundamental para retomar esse diálogo muito importante. O grande impacto da pandemia será sobre as crianças, especialmente das famílias mais vulneráveis. Vemos crianças sem acesso à internet que não estão recebendo os conteúdos escolares, o que é uma situação grave. Há crianças em casa sujeitas a uma série de abusos e maus-tratos. Muitos adolescentes e jovens perderam o emprego.

No âmbito do governo federal e dos governos estaduais, é muito urgente se abrir um diálogo para reposicionar as políticas da infância como políticas prioritárias. Trata-se de alocar recursos para investimentos em educação, saúde e assistência social. O melhor critério para avaliarmos se a criança é uma prioridade é o orçamento público. Esse é um grande desafio que o Brasil precisa enfrentar: investir mais nos direitos da infância.

É necessária maior empatia da sociedade com a infância e a adolescência. O que o Unicef tem feito no sentido de ensejar um melhor entendimento?

O Unicef faz, há muitos anos, um trabalho para criar empatia pela infância, na tentativa de provocar os adultos para que se coloquem no lugar da criança. Para que entendam o que é ser uma criança no Cerrado brasileiro, na Amazônia, numa favela, e para entender que, sem um investimento grande do Estado e da sociedade, o desenvolvimento da criança não acontece. A criança tem um potencial enorme que precisa ser apoiado por ações do Estado e da sociedade.

Há dois anos, fizemos um experimento. Instalamos uma sala em um shopping onde os jovens de classe média alta de Brasília tinham 20 minutos para decifrar alguns enigmas. Essa sala, na verdade, era um cenário que representava uma favela. Os jovens tinham que resolver problemas de química e de matemática e encontrar algumas coisas escondidas dentro da sala com uma sirene tocando, com a polícia batendo na porta, com gritos, com tiros. Depois que esses jovens saíam dessa sala, nós fazíamos entrevistas. Todos eles, sem exceção, diziam como era difícil tentar estudar para o Enem numa favela ou falar com um amigo pelo Whatsapp dentro de um barraco. Todos ficaram muito tocados com essa experiência, porque conseguiram, por 20 minutos, se colocar no lugar de um jovem de uma comunidade. Todos reconheceram que tinham preconceito contra esses jovens, achando que eles não querem trabalhar, que estão ligados ao tráfico, que querem as coisas na vida facilmente sem ter que lutar por elas.

O que vai resolver o problema do país é investimento em educação. Temos tentado trabalhar muito essa empatia para que as pessoas entendam que a vida dessas pessoas é marcada por trajetórias pessoais, e quanto mais presentes a sociedade e o Estado se fizerem nessas trajetórias, dando condições para cada um realizar o seu potencial, mais o país vai se desenvolver. A falta de investimento na infância é uma tragédia.

A vida na primeira favela da Alemanha

Às margens do rio Spree, no bairro berlinense de Kreuzberg, um terreno baldio, mais ou menos do tamanho de um campo de futebol, chama a atenção no meio de empreendimentos imobiliários modernos e luxuosos.

Lá, entre o mato que não para de crescer, na esquina das ruas Cuvry e Schlesische, tendas e barracas se amontoam, formando aquilo que a imprensa local chamou de “a primeira favela da Alemanha”.
Primeira “favela” de Berlim reúne sem-tetos e ativistas contra gentrificação. Moradores rejeitam o termo favela e preferem se referir ao local como acampamento.

Os cerca de 60 moradores da “Cuvry”, como o local foi apelidado, não gostam de se referir ao local como favela. Eles preferem chamá-lo de acampamento.

A localização das barracas não parece seguir uma lógica. No entanto, imigrantes da Romênia e da Bulgária ficam numa área separada do restante dos habitantes. Os primeiros moradores chegaram em meados de 2012, depois de uma série de projetos para ocupar o terreno não ter ido para frente.

Há duas entradas e cartazes espalhados por todos os cantos avisando que fotos são proibidas. A proibição atrapalha passeios guiados especializados em grafite, já que no local estão dois dos principais murais de arte de rua de Berlim, feitos pelo grafiteiro italiano Blu.

“Quando trago meus grupos aqui, já aviso para eles guardarem as câmeras para evitar problemas com os moradores”, conta a guia turística Caro Eickhoff.

Habitação típica da Cuvry, terreno onde moram cerca de 60 pessoas na região central de Berlim.

A comunidade é fechada, e os habitantes são muito reticentes na hora de dar entrevistas. A grande maioria se recusa a falar com jornalistas. Os poucos que cederam aos pedidos de entrevista pediram para não ser identificados.

“Muita gente aqui já teve más experiências com a mídia, então prefere não falar”, diz uma jovem alemã que mora na Cuvry há oito meses. Vinda do interior da Alemanha para estudar em Berlim, ela procurava o endereço de um albergue na região quando ficou sabendo do acampamento.

“Minha primeira noite aqui foi dentro daquele barraco”, diz ela, apontando para uma estrutura rudimentar de madeira que, durante o dia, abriga uma biblioteca comunitária. Agora, ela divide uma tenda com dois amigos e mantém uma horta em seu pequeno quintal, onde planta tomates, pepinos e rabanetes.

Seu principal projeto para o futuro é conseguir montar uma barraca para morar sozinha. “Se depender de mim, não saio mais daqui. Essas pessoas viraram minha família.”

Em tese, qualquer um pode morar na Cuvry. De acordo com alguns moradores, quem quiser montar uma barraca no local só precisa conversar com os futuros vizinhos para verificar se o espaço está realmente livre.

Também não há uma liderança definida, e tudo é decidido em reuniões plenárias entre os moradores – desde os responsáveis por pequenos reparos nas moradias até como separar o lixo na hora de fazer a reciclagem.

As discussões são, em sua maioria, feitas em inglês por conta da mistura de nacionalidades. Não há água encanada e os banheiros são improvisados, com buracos feitos no chão.

Drogas e violência

A DW Brasil visitou o local em duas ocasiões: um domingo e uma terça-feira, sempre no período da tarde. É possível ver garrafas de bebidas alcoólicas em todos os cantos – há até um bar funcionando no local. Todas as noites, uma fogueira é acesa, e, com alguma frequência, festas são realizadas. O uso de drogas é comum.

“Passo minhas tardes sempre aqui, fumando maconha e relaxando”, conta um imigrante africano de Gâmbia que pediu para não ser identificado. Um outro morador do local, que se identificou como Philip, até mostrou o lugar preferido de alguns moradores para o consumo de drogas – uma área escondida, no meio do mato, com sofás e poltronas amontoadas.

“Moro aqui há mais ou menos um ano e é perfeito porque, além de ser de graça, também tenho amigos”, explica Philip. Segundo ele, no verão há mais moradores do que o normal – durante o rigoroso inverno alemão, o número de habitantes da Cuvry cai pela metade.

A jovem alemã que acompanhou a DW Brasil durante uma das visitas ao local disse que, apesar de o clima entre os moradores ser tranquilo na maior parte do tempo, o consumo de drogas ainda é um problema. “O que me incomoda mais são as crianças que moram aqui. Um lugar assim não é o melhor ambiente para alguém crescer.”

Gentrificação

A ocupação do terreno onde a Cuvry está instalada começou em 2012, depois de artistas, ativistas e sem-teto se mudarem para o local seguindo manifestações contra a construção de um shopping center. O projeto foi interrompido após protestos dos moradores de Kreuzberg contra a gentrificação do bairro.

O impasse, porém, continua até os dias de hoje, e os moradores da Cuvry estão constantemente sob ameaça de despejo.

Há até um abaixo-assinado na internet, no site www.change.org, que pede que o local seja transformado num parque. “Queremos discutir com os habitantes, com os vizinhos e com a cidade a criação de um parque semipúblico que também funcionaria como um espaço para moradia de refugiados, sem-teto, artistas e pessoas que querem viver fora do sistema ‘normal’”, afirma o texto do abaixo-assinado.
“Sabemos que há um problema de violência e alcoolismo entre alguns dos habitantes dessa área e nós apreciamos a tolerância e paciência de nossos vizinhos e esperamos poder evitar a ação policial ou o despejo dos moradores”, diz o documento.

Num vídeo da campanha pelo abaixo-assinado, postado no YouTube, um dos porta-vozes da comunidade, identificado apenas como Sascha, diz que muitos dos que moram na Cuvry estão ali para lutar contra a gentrificação de Berlim.

“Nós ocupamos este espaço para mostrar que há um estilo de vida diferente do estilo de vida pregado pelo ‘sistema’”, diz ele. “Esta é uma luta contra os investidores que querem explorar a nossa cidade.”

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Joseph Schumpeter; O homem que previu o fim do capitalismo e que ajuda a entender a economia de hoje

“O capitalismo pode sobreviver?”, se perguntou Joseph Schumpeter. “Não, acho que não”, foi a resposta dele.

Joseph Schumpeter nasceu em 1883 e morreu em 1950.
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A reflexão foi feita em uma de suas principais obras: Capitalismo, Socialismo e Democracia, de 1942.

O influente economista austríaco não acreditava na ditadura do proletariado nem na revolução de Karl Marx. Pelo contrário, ele rejeitava o que entendia como os elementos ideológicos da análise marxista.

Para ele, o que levaria ao fim do capitalismo seria o seu próprio sucesso. “Considero Schumpeter o analista mais aguçado do capitalismo que já existiu. Ele viu coisas que outras pessoas não viram”, disse Thomas K. McCraw, professor emérito da Escola de Negócios da Universidade de Harvard, ao Working Knowledge, o site da universidade.

Schumpeter “está para o capitalismo assim como Freud está para a psicologia: alguém cujas ideias se tornaram tão onipresentes e arraigadas que não podemos separar seus pensamentos fundamentais dos nossos”, disse o acadêmico.

A tragédia

Schumpeter nasceu em 1883 em uma cidade da República Tcheca, que na época fazia parte do império austro-húngaro.

Schumpeter falava diversos idiomas.
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Ele era filho único e perdeu o pai aos 4 anos de idade. Sua educação ficou a cargo de sua mãe e seu novo marido, que frequentavam a aristocracia local.

Embora estudasse direito, o tema que o atraiu foi a economia — Schumpeter se tornaria um dos melhores alunos da Escola Austríaca de Economia.

“Schumpeter era um excelente aluno, leitor incansável, tinha uma mente viva e curiosa, era um mestre em várias línguas”, escreveu Gabriel Tortella, professor emérito de História e Instituições Econômicas da Universidade de Alcalá, no artigo Um profeta da social-democracia, publicado na revista Book.

Ele tinha uma personalidade carismática, era mulherengo e amava cavalos. Viveu por um tempo na Inglaterra, onde teve um relacionamento com uma mulher 12 anos mais velha que ele.

Sylvia Nasar, em seu livro “Grande Busca: A história do Gênio Econômico, conta que se casou com o economista, mas que, com o tempo, ambos reconheceram que o casamento fora um erro. Em 1913, eles se separaram e anos depois se divorciaram oficialmente.

Schumpeter se casou novamente em 1925, desta vez com uma mulher muitos anos mais nova. Mas, um ano depois, uma tragédia abalaria sua vida: sua esposa morreu enquanto dava à luz seu filho, que também morreu pouco tempo depois. Nesse mesmo ano, ele ainda perderia a mãe.

Entre luxo e academia

Schumpeter morou em Viena após a Primeira Guerra Mundial e a queda do império austro-húngaro.

Schumpeter viveu a Primeira Guerra Mundial, que causou grandes estragos na Europa. Direito de imagem GETTY IMAGES

Schumpeter foi ministro da economia do governo socialista que governou a Áustria em 1919. Depois, morou em sete países, em alguns dos quais foi professor e trabalhou como banqueiro de investimentos, o que lhe permitiu fazer uma fortuna — que depois desapareceria.

Antes de seu segundo casamento, por algum tempo, Schumpeter levou uma vida de muitos luxos e parecia não se importar de ser visto em público com prostitutas, diz Nasar.

“Schumpeter era um acadêmico brilhante que fracassou retumbantemente como ministro das Finanças da Áustria”, escreveu Pearlstein, vencedor do prêmio Pulitzer, em uma resenha do livro de Nasar publicada no jornal americano The Washington Post.

O economista se estabeleceu nos Estados Unidos em 1932, onde lecionou na Universidade de Harvard pelo resto da vida. Em sua nova casa, diz Tortella, Schumpeter se apaixonou e se casou com uma historiadora de economia chamada Elizabeth Boody, 15 anos mais nova que ele.

Foi ela quem compilou e editou os textos dele sobre a história do pensamento econômico, publicados postumamente (ambos morreram antes da publicação do livro em 1954: ele em 1950 e ela em 1953) no monumental History of Economic Analysis (História da Análise Econômica, em inglês).

Schumpeter analisou a Grande Depressão dos anos 1930
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Destruição criativa

Durante a Grande Depressão da década de 1930, disse Thomas K. McCraw, “muitas pessoas inteligentes da época acreditavam que a tecnologia havia atingido seu limite, e que o capitalismo atingira seu auge “.

“Schumpeter acreditava exatamente no oposto e, é claro, estava certo”, afirmou McCraw, foi o autor do livro Profeta da Inovação: Joseph Schumpeter e Destruição Criadora.

O conceito de destruição criativa foi um dos que Schumpeter ajudou a popularizar. E, segundo Fernando López, professor de Pensamento Econômico da Universidade de Granada, essa ideia é uma espécie de darwinismo social.

“É a ideia de que o capitalismo destrói empresas não criativas e não competitivas”. “O processo de acumulação de capital continuamente os leva a competir entre si e a inovar e apenas os mais poderosos sobrevivem”.

Uma ansiedade constante

Essa dinâmica ideal do capitalismo significa que os empreendedores nunca podem relaxar. “Esta é uma lição extremamente difícil de aceitar, principalmente para pessoas de sucesso. Mas os negócios são um processo darwiniano e Schumpeter frequentemente o vincula à evolução”, afirmou McCraw.

Novos produtos aparecem constantemente para substituir os antigos, que se tornam obsoletos.

“É um processo contínuo de aprimoramento, e essa é a característica número um do capitalismo”, segundo Pep Ignasi Aguiló, professor de economia aplicada na Universidade das Ilhas Baleares, na Espanha.

A dinâmica dos negócios leva à “única maneira de sair da competição, que é muito dura, é através de tentativas de redução de custos, o que exige processos de inovação na produção ou através do desenvolvimento de novos produtos preferidos pelos consumidores em relação aos anteriores “, diz o doutor em Economia.

No entanto, as tentativas de redução de custos também podem levar a superexploração de trabalhadores, lobby para regulamentação e práticas nocivas para o ambiente — temas que muitas vezes são “esquecidos” quando se fala do assunto.

O fim do capitalismo e das meias femininas

Schumpeter usava dois exemplos para explicar suas teorias foi o das meias femininas.

Schumpeter explicava suas teorias dando como exemplos produtos como meias femininas – Direito de imagem GETTY IMAGES

No início do século 20, apenas mulheres da classe alta podiam comprá-las. Mas, após a Segunda Guerra Mundial, eles se tornaram mais acessíveis aos consumidores de diferentes grupos sociais.

“Tornar algo acessível a todos leva a mentalidade socialista a entrar gradualmente nos poros do sistema capitalista e desacelerar sua característica essencial, que é a competição entre produtores”, diz o professor.

O raciocínio do austríaco era que, ao “apaziguar a concorrência e acabar gerando igualdade no acesso aos produtos”, o capitalismo chegaria ao fim.

Schumpeter fixou um prazo para isso: o fim do século 20.

“Ele estava errado sobre isso. Acreditava que até então as condições de disseminação da produção em massa e de produtos entre toda a população fariam todas a pessoas viverem melhor do que o rei da França do século 18 e, portanto, o clamor pelo socialismo seria grande”.

Vítima de seu próprio sucesso

“A ideia era a de que o capitalismo leva à produção em massa, a produção em massa leva a uma riqueza extraordinária que se espalha por uma parte muito importante da população, o que aumentaria o desejo de igualdade”, explica Aguiló.

O automóvel, por exemplo, deixou de ser um produto que apenas uma elite poderia adquirir e passou a estar disponível para milhões de pessoas. “O preço cai, as quantidades aumentam, e isso acontece repetidas vezes com todos os produtos”, diz o professor.

Essa circulação em massa de produtos significa que os padrões de vida dos consumidores aumentam, que há uma “demanda por mais igualdade” e que isso acaba dificultando a essência do sistema: a concorrência”, explica Aguiló.

Questões como os problemas ambientais se tornaram mais evidente desde a época de Schumpeter
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“Esse grande sucesso da abundância compartilhada, ao alcance de todos, é o que levaria ao fim do capitalismo”.

No entanto, embora a riqueza seja mais bem distribuída em alguns países, o que se viu no mundo desde então foi o contrário: apesar de muitos produtos estarem acessíveis para grande parte da população, o que se vê é uma concentração cada vez maior da riqueza produzida.

Virtude e perigo

Seguindo a lógica de Schumpeter, a concorrência se tornaria, ao mesmo tempo, uma virtude e um problema para as empresas.

Segundo López, Schumpeter acreditava que “o processo de acumulação incessante de capital levaria, em algum momento, ao que Marx chamava de tendência decrescente da taxa de lucro”.

“O capitalismo é um sistema incomparável em termos produtivos, é um sistema que, no nível produtivo, eu uso Marx novamente, é o mais progressista da história, mas tem o problema de que a acumulação incessante de capital o leva a competir também incessantemente.”

“Essa competição força as empresas a estar em uma guerra constante para inovar, obter novos mercados, novos produtos. E aí mora o perigo”.

Harry Landreth e David C. Colander, em seu livro História do Pensamento Econômico, explicam que “enquanto Marx havia previsto que o declínio do capitalismo derivaria de suas contradições, Schumpeter especulou que seu fim seria produto do seu próprio sucesso”.

Sua ideia de uma sociedade socialista

Em seu trabalho Capitalismo, Socialismo e Democracia, Schumpeter imaginou o tipo de sociedade socialista que surgiria depois que o capitalismo perecesse.

Guillermo Rocafort, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Comunicação da Universidade Europeia, inclui o pensador austríaco no grupo de economistas pessimistas ou fatalistas, desiludidos com o capitalismo de sua época.

Enquanto Marx via uma luta de classes entre a burguesia e a classe trabalhadora, Schumpeter percebia uma grande tensão entre um grupo de empreendedores, aqueles que provocam “vendavais capitalistas que levam a um grande crescimento econômico” e outro composto de empreendedores “que implementam um capitalismo não tão pioneiro, mas calculista, mais conservador “, diz Rocafort.

Na sociedade imaginada por Schumpeter, a distribuição da riqueza seria mais justa ainda existiria mercado.

Seria uma sociedade em que o valor da igualdade estaria acima de tudo, segundo Aguiló, “o que levaria a um status quo que desacelera a inovação para e na qual, portanto, o peso do mercado na distribuição dos recursos é menor, e o peso do Estado aumenta.”

Landreth e Colander citam Schumpeter: “Os verdadeiros promotores do socialismo não foram os intelectuais ou agitadores que o pregaram, mas os Vanderbilts, Carnegies e Rockefellers (famílias ricas do início do século 20)”.

Ciclos econômicos

Rocafort explica que Schumpeter reforçou a teoria dos ciclos econômicos como forma de evolução do capitalismo.

“Como se fosse uma montanha-russa, subindo e descendo, (…)Schumpeter refere-se a ciclos econômicos que têm sua origem em inovações tecnológicas e financeiras. Elas causam momentos de grande boom, depois estabilização e depois uma depressão ou recessão”, diz o professor.

O especialista cita como exemplos a quebra da bolsa de 1929 e a crise financeira de 2008.

Schumpeter nos faz ver o capitalismo como “um processo histórico e econômico que não tem crescimento contínuo, o que seria desejável, mas um crescimento bastante volátil, e que, em última análise, tem consequências para a sociedade em termos de, por exemplo, desemprego”.

No século 21

“Vários economistas, incluindo Larry Summers e Brad DeLong, disseram que o século 21 será ‘o século Schumpeter’ e eu concordo”, disse McCraw.

Schumpeter e John Maynard Keynes (na foto) são considerados os principais economistas do século 20
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“O motivo disso é que a inovação e o empreendedorismo estão florescendo em todo o mundo de uma maneira sem precedentes, não apenas nos casos bem conhecidos da China e da Índia, mas em todos os lugares, exceto em áreas que tolamente continuam a rejeitar o capitalismo.”

“A destruição criativa pode acontecer em uma grande empresa inovadora (Toyota, GE, Microsoft), mas é muito mais provável que isso aconteça nas start-ups, especialmente agora que elas têm muito acesso ao capital de risco”, afirmou McCraw.

De fato, segundo o autor, Schumpeter foi um dos primeiros economistas a usar esse termo: ele o fez em um artigo que escreveu em 1943, no qual falava de capital de risco.

Os inovadores

Schumpeter, suas idéias e, acima de tudo, o conceito de destruição criativa ganharam uma importância especial nas últimas duas décadas.

“É essencial para entender nossa economia”, diz Aguiló. Essa competição de negócios nem sempre significa “dominar o mercado com um produto, mas com uma idéia, com um tipo ou modelo de negócios”.

Rocafort destaca que nessa destruição criativa, inovadores e empreendedores são os principais protagonistas.

Um exemplo é como a indústria de tecnologia e seus gigantes como Google e Microsoft ocuparam o espaço de um setor que nas décadas de 20, 30, 40 e 50 era um dos principais: a indústria automotiva.

“Se você observar o preço das ações, as empresas de tecnologia são as mais importantes e são todas americanas”, diz ele.

Hoje, muitos setores da sociedade pedem uma mudança no sistema econômico
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Um alerta

Por outro lado, especialistas como López pedem cautela na aplicação das idéias de Schumpeter para explicar a economia atual. “Não é conveniente usar categorias históricas porque são sociedades diferentes. As velhas teorias não funcionariam para nós “, diz ele.

Schumpeter é o produto de uma época e “seu capitalismo não é o capitalismo de hoje”, alerta.

A acumulação de capital era diferente e não tinha nem o alcance global nem o impacto ecológico de hoje. Segundo o professor, o sistema está atravessando barreiras que antes pareciam impensáveis: se um país se industrializa, o emprego aumenta, mas o meio ambiente se deteriora.

“Isso não estava na mente de Schumpeter, nem John Maynard Keynes. [Na época,] a industrialização era o elemento fundamental do desenvolvimento.”

Mas López reconhece que “aspectos parciais do trabalho de Schumpeter [como destruição criativa] podem nos ajudar a entender o sistema”.

Em transição?

Rocafort também concorda que o trabalho de Schumpeter é sua visão pessoal da realidade em que ele viveu. “Agora temos um contexto macroeconômico que não existia na época: paraísos fiscais, fundos de investimento especulativos, endividamento excessivo das nações”, explica.

No entanto, ele esclarece que dada a situação de incerteza que enfrentamos diante da economia mundial, faz sentido procurar explicações nos grandes clássicos da economia. “É preciso tentar ver o que se aplica de cada teórico, porque não pode haver ortodoxia ou dogmatismo na economia. Nós idolatramos Keynes e o resultado, como vimos nos últimos 15 anos, está sendo um fracasso”, diz Rocafort.

O economista acredita que Schumpeter e suas ideias como “ciclos econômicos e destruição criativa” podem ajudar a esclarecer alguns pontos do momento que vivemos. “Talvez o modelo econômico atual esteja esgotado e estejamos precisando de novas inovações tecnológicas e financeiras”.

“Ele fala de destruição criativa como aquele novo ciclo causado por um grande desenvolvimento tecnológico. Talvez um ciclo esteja colidindo com outro, como placas tectônicas”, reflete.

Pandemia expõe desigualdade social na Alemanha

Bloco residencial em Berlim foi colocado em quarentena

Mais de 1.500 casos do novo coronavírus num frigorífico no estado da Renânia do Norte-Vestfália, mais de 100 num conjunto residencial em Berlim e 120 infecções entre residentes de um prédio em Göttingen, na Baixa Saxônia, são os mais recentes surtos de covid-19 na Alemanha. Apesar de registrados em diferentes cidades, os três têm algo incomum: atingem as camadas mais carentes da população.

No primeiro, mais de um quinto dos trabalhadores do frigorífico Tönnies, localizado no distrito de Gütersloh, contraiu o coronavírus. O local foi fechado, e milhares de funcionários deveriam entrar em quarentena, mas a empresa não foi capaz de fornecer os endereços de todos os empregados, pois grande parte deles é terceirizada, vinda de países do Leste Europeu com contratos temporários.

Alguns conjuntos residenciais onde vivem esses trabalhadores temporários foram cercados por grades para impor a quarentena obrigatória. As condições de moradia nesses locais não são as melhores, com muitos moradores para poucos metros quadrados, impossibilitando o distanciamento social. Soma-se a isso o medo de ficar sem receber salários com o fechamento do frigorífico.

Esse não foi o primeiro surto em frigoríficos na Alemanha, mas o maior até o momento, e ele trouxe novamente à tona o debate sobre as precárias práticas de trabalho no setor, as terceirizações que possibilitam a exploração da mão de obra, com salários baixos, e as condições de moradia dos trabalhadores temporários estrangeiros, vindo principalmente da Polônia, Romênia e Bulgária.

Os outros dois surtos recentes na Alemanha ocorreram em regiões residenciais que concentram as camadas mais carentes da população, onde muitos dos moradores dependem de benefícios sociais para sobreviver.

Em Berlim, a onda de infecções atingiu em cheio um conjunto residencial no bairro Neukölln, onde um quarto da população está abaixo da linha de pobreza – atualmente estipulada em 1.004 euros líquidos por mês na capital alemã. No prédio, vivem muitas famílias de imigrantes. Alguns dos apartamentos de dois quartos, sala e cozinha abrigam até dez pessoas.

Em Göttingen, a situação é semelhante. Cerca de 700 pessoas moram no prédio onde cerca de 120 casos foram registrados, e muitos dos moradores são imigrantes. O prédio foi isolado com grades, e as entradas e saídas foram bloqueadas para evitar que moradores furem a quarentena.

Tanto em Berlim quanto em Göttingen todos os moradores foram colocados em quarentena. Sobretudo em Göttingen, onde as portas foram bloqueadas, a medida fez muitos se perguntarem se atitudes semelhantes seriam tomadas em bairros residenciais onde vive a população mais abastada.

Os três surtos recentes expõem as desigualdades sociais presentes na Alemanha, que, apesar de não estarem tão escancaradas ou serem tão graves quanto no Brasil, também existem.

No caso do frigorífico, o surto trouxe à tona os altos custos sociais da carne de porco barata vendida na Alemanha, que só é possível de ser produzida com baixos salários e imigrantes que aceitem trabalhar e viver em condições precárias. Os surtos no setor impulsionaram novamente o debate sobre como proteger esses trabalhadores. Ainda não é possível saber se a situação atual impulsionará uma reflexão entre os alemães sobre o preço que pagam pelo bife no mercado e sobre como esses hábitos de consumo impactam a cadeia produtiva.

Já os prédios colocados em confinamento obrigatório em Berlim e Göttingen mostram a exclusão existente no setor imobiliário, onde muitos dividem espaços pequenos – por não terem condições de pagar aluguéis de apartamentos maiores ou por não serem aceitos como inquilinos em outros locais.

Na capital alemã, a questão da moradia foi um tema bastante abordado quando o governo traçou as estratégias de confinamento para conter a disseminação da covid-19. A principal questão era como manter uma quarentena relativamente “saudável” em apartamentos pequenos onde viviam grandes famílias com crianças. Por isso, a decisão aqui foi permitir que passeios e atividades ao ar livre em parques nesse período.

A exclusão no setor imobiliário e as condições de trabalho na indústria da carne são velhos conhecidos, mas a pandemia chamou atenção e deu uma nova dimensão para esses problemas. Resta agora saber se ela trará alguma mudança positiva em relação a eles.

Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Limpar o planeta com dinheiro sujo tem seus limites

Usina termelétrica na Inglaterra. Foto: Carlos Eduardo Young.

A pandemia de Covid-19 traz consequências complexas em áreas muitas vezes inesperadas. Um exemplo são os mercados de créditos transacionáveis de emissões de carbono (cap and trade). Matéria recente do Inside Climate News mostra que produtores de agricultura de baixo carbono (“climate smart”) na Califórnia estão com problemas de financiamento porque recebem recursos de programas de cap and trade que são pagos principalmente por emissões geradas pela queima de combustíveis fósseis. A retração da atividade econômica e no volume de trânsito, consequência do isolamento social, reduziu drasticamente a emissão de carbono no estado. Por isso, as receitas que eram pagas pelos emissores diminuíram porque fizeram o que se deseja na agenda das mudanças climáticas: a queima de combustíveis fósseis despencou nos últimos meses.

Esse tipo de dilema é previsto há muito tempo na literatura de economia do Meio Ambiente. Mercados de direitos transacionáveis de obrigações ambientais, como os de emissões de carbono, logística reversa de resíduos sólidos e cotas de reserva ambiental (CRA), têm como premissa o interesse em flexibilizar o cumprimento das normas ambientais. A ideia é que aqueles que não estão cumprindo os requisitos ambientais financiem terceiros que, além de cumprir seus próprios compromissos, “vão além” e têm “superávit” na sua performance ambiental. Ou seja, ao invés de reduz as suas emissões, os emissores (“poluidores”) preferem pagar para que outros o façam (“protetores”) – isso se explica porque os custos de abatimento de emissões não são homogêneos.

Para que os mercados de direitos transacionáveis de obrigações ambientais funcionem é preciso que:

(1) O regulador ambiental atue efetivamente, monitorando o desempenho ambiental de cada agente e penalize, de fato, aqueles que desobedecem a norma. É necessário mais que uma autuação, deve-se fazer que o infrator pague efetivamente (“enforcement”).

(2) Deve haver um número suficiente de agentes econômicos que estão em desacordo com as normas ambientais e com custos de atendimento à norma (“compliance“) altos. Por outro lado, é necessário existir aqueles cujo valor necessário para executar ações ambientais positivas seja baixo, para viabilizar financeiramente a compensação do déficit ambiental não atendido pelo infrator.

(3) Os direitos de propriedade devem ser bem estabelecidos, sem insegurança jurídica para que o agente em déficit ambiental (“poluidor”) pague ao que está em superávit (“protetor”), e essa ação seja oficialmente reconhecida pelo regulador como forma de cumprimento da legislação ambiental.

Ou seja, não se trata de um mercado “normal” onde o consumidor demanda um bem porque deriva utilidade de seu consumo. É uma situação especial, que não pode ocorrer em situação de “livre mercado”. Trata-se de uma flexibilização no atendimento de normas legais, cuja demanda só é estabelecida se houver pressão normativa para o cumprimento da lei por parte dos eventuais infratores.

Como essas condições variam no tempo, a demanda de “poluidores” por direitos de emissão também oscila. Portanto, em todos os mercados de direitos transacionáveis, o preço desses direitos é endógeno, ou seja, o valor das cotas de emissões também flutua.

O caso da Califórnia apresentado na matéria se explica por alteração abrupta da condição (2). A demanda de direitos de emissão caiu vertiginosamente em função da retração de fontes de lançamento de gases de efeito estufa. Por isso, reduziu-se o interesse em compensar emissões excedentes porque se aproximaram dos limites inicialmente permitidos. Diga-se de passagem, a razão pela qual esse mercado se estabeleceu na Califórnia foi uma série de avanços institucionais que permitiram o atendimento da legislação ambiental (Condição 1) e definição dos direitos e deveres para agentes privados (Condição 3). Antes da pandemia, havia um número significativo de agentes em desacordo com os limites de emissão recebidos originalmente (Condição 2), mas esse número se reduziu bastante com a retração econômica.

Um fenômeno bastante semelhante ocorreu no mercado europeu de emissões (ETS) após a crise financeira de 2008, que resultou em um colapso nos mercados de emissão em todo mundo. A queda na demanda por combustíveis, junto com o sucesso de programas de baixo carbono, fez com que o volume de emissões europeias ficasse abaixo do esperado. Como o número de emissores em déficit ambiental se reduziu, o preço dos direitos de emissão despencou junto. Somente ao final de 2019 o preço das emissões se aproximou do teto histórico pré-2008 mas, como no caso da California, houve também queda acentuada de valor após a pandemia, mas com recuperação após o seu relativo controle.

Preço dos direitos de emissão de carbono na União Europeia (EUA), 2008-2020

Fonte: EMBER.

Aliás, por causa desse colapso nos mercados de créditos de carbono, não faz sentido a crítica de que projetos de conservação florestal como REDD ou REDD+ teriam “enriquecido os investidores” enquanto “desapropriavam os povos da floresta”. Essa crítica não tem fundamento porque (i) não há “mercado milionário” de REDD, REDD+ e projetos de carbono florestal porque simplesmente não há demanda por isso (onde há alguma negociação, o volume é baixíssimo e os preços são muito inferiores aos praticados no ETS), e (ii) existem condições sociais bastante claras estabelecidas para a titulação de créditos de carbono, e um projeto que resulte em problemas sociais não seria elegível, e existem diversas auditorias e canais de reclamação para vigiar isso.

A análise das condições necessárias para o sucesso de mercados de direitos transacionáveis também explica o porquê da falta de vigor dos mercados de CRA no Brasil. Não há interesse por parte dos governos em penalizar proprietários rurais em déficit de Reserva Legal, conforme estabelecido pela legislação florestal. Por isso, não há porque se preocupar em buscar flexibilizar uma regra de legislação que nunca é exigida, rompendo com a Condição (2). A bagunça fundiária brasileira complica ainda mais a viabilidade do mercado de CRA porque ninguém vai buscar atender regras ambientais de Reserva Legal se os direitos de propriedade não estão bem estabelecidos (Condição 3).

Outro erro comum contra o uso de instrumentos de direitos transacionáveis é supor que direitos valem somente para a propriedade particular, resultando em crítica por uma suposta “privatização da natureza”. Isso também não é correto pois os direitos de propriedades podem ser também públicos ou comunais. O que importa é que o direito de propriedade seja bem estabelecido, não importando a natureza do proprietário. A falha está na tradição histórica de privatização das terras públicas através da concessão de direitos fundiários que, a pretexto de reforma agrária, acabam apenas estimulando a grilagem e agravando a concentração fundiária. Dessa forma, perdemos a possibilidade de conseguir recursos financeiros para a conservação dessas áreas, já que as administrações públicas não conseguem assegurar o controle do desmatamento.

O caso mais grave dessa perda de oportunidade é o das terras indígenas. Comunidades indígenas possuem alta capacidade de controle de desmatamento, maior até do que alguns órgãos ambientais. Por isso, poderiam estar recebendo recursos de REDD+, como mostra a experiência pioneira do Projeto Carbono Florestal Suruí. Mas projetos como esse acabam não tendo viabilidade por falta de segurança jurídica (por exemplo, terras ainda não demarcadas ou consolidadas) e falta de apoio institucional.

Voltando ao caso dos projetos climate smart da Califórnia, o problema está em imaginar ser possível financiar um projeto sustentável de longo prazo a partir de pagamentos gerados por infração ambiental. É algo semelhante ao uso da Compensação Ambiental estabelecida pelo Artigo 36 do SNUC, que financiam unidades de conservação a partir de fatos geradores que causam dano ambiental. No curto prazo, é correto que isso sirva de base de financiamento de projetos de desenvolvimento sustentável. No longo prazo, contudo, o ideal é que essas infrações diminuam e, portanto, o valor arrecadado por elas. Por isso, esses projetos devem buscar a viabilidade financeira de longo prazo sem a necessidade de recursos oriundos de ações predatórias (emissões de carbono, problemas no licenciamento), que devem ser encarados como recursos que irão se esgotar com o tempo.

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Crise econômica devido ao coronavírus: os 30 países cujas economias crescerão este ano, apesar da pandemia

Ao infectar milhões de pessoas e fazer com que os governos confinem suas populações, o novo coronavírus deixou economias em todo o mundo na enfermaria de terapia intensiva.

Em um relatório recente, o Banco Mundial alertou que a pandemia da covid-19 causará a maior crise econômica do mundo desde pelo menos 1870 e ameaça causar um aumento drástico nos níveis de pobreza em todo o mundo.

Mas para 30 países este ano será de crescimento, embora abaixo do esperado, com raras exceções (veja a lista no final deste artigo).

Uma dessas exceções é a Guiana, um país vizinho ao Brasil, que deverá apresentar crescimento de mais de 50% neste ano, o maior do mundo, devido ao início da exploração de petróleo.

A descoberta de enormes reservas de petróleo na Guiana pode mudar o futuro do país.
O país também será o único a crescer na América Latina e no Caribe.

Das regiões do mundo, apenas o Leste Asiático e o Pacífico apresentarão crescimento (0,5%), principalmente devido à China. No entanto, a gigante asiática deve crescer apenas 1%, uma pequena taxa em comparação aos anos anteriores.

Apesar disso, o Banco Mundial espera que o PIB global diminua 5,2% este ano, mais que o dobro do registrado na crise financeira de 2008.

“Cinco razões”

Mas então, o que está por trás do crescimento desses 30 países este ano?

“Os poucos mercados emergentes e economias em desenvolvimento que devem evitar contrações na atividade econômica este ano tendem a ser menos abertos, mais agrícolas e menos dependentes do setor de serviços”, disseram economistas do Banco Mundial.

Coronavírus e a economia: três diferenças principais entre a Grande Recessão de 2008 e a atual crise causada pela pandemia
E citam cinco pontos para explicar por que esses países crescerão:

1. Menos integração no comércio mundial

Segundo economistas, esses países são “significativamente menos integrados ao comércio mundial, ajudando a isolá-los parcialmente dos graves efeitos globais da queda da demanda externa”.

“As taxas de exportação / PIB nesses países são aproximadamente 35% inferiores à média dos países emergentes e em desenvolvimento, e as atuais taxas de comércio / PIB (importações mais exportações) são aproximadamente 25% mais baixas”, afirmam.

2. Maior dependência da agricultura

Segundo economistas, esses países tendem a ser mais dependentes do setor agrícola, que foi “menos exposto, em média, à queda induzida pela pandemia nos preços das commodities; os preços dos produtos agrícolas caíram apenas marginalmente, em comparação com as quedas acentuadas observadas nos preços dos produtos industriais ”.

“Os setores agrícolas das economias que devem crescer este ano representam mais que o dobro do tamanho (128%) da média dos países emergentes e em desenvolvimento”, afirmam.

A maioria dos países que crescerá este ano está localizada no que é chamado de África Subsaariana.

3. Setor de serviços menor

Esses países também tendem a ter setores de serviços “aproximadamente 20% inferiores à média dos países emergentes e em desenvolvimento”, afirmam economistas.

“Os setores de serviços são particularmente afetados pela pandemia, pois várias atividades envolvendo interações foram interrompidas devido à distância social”, afirmam.

4. Menor dependência do turismo

“Essas economias também são visivelmente menos vulneráveis ​​ao colapso das viagens e turismo globais, já que seus setores de turismo são metade do tamanho da média dos países emergentes e em desenvolvimento”.

5. Menos impacto da pandemia

Segundo economistas, “embora a capacidade de teste dificulte a comparação confiável de surtos entre países, (…) o tamanho dos surtos (em relação ao tamanho da população) nas economias que devem crescer este ano Era aproximadamente 75% menor que a média dos países emergentes e em desenvolvimento quando publicamos o relatório “.

Além disso, havia menos restrições de movimento nesses países, ao contrário do resto do mundo.

“As restrições nessas economias também foram 20% menos rigorosas que a média dos países emergentes e em desenvolvimento”.

África subsaariana

A maioria dos países que crescerá este ano está na África Subsaariana.

Como em outros países, os profissionais de saúde na África do Sul exigem maior proteção para combater a covid-19.

Apesar de dependerem das exportações de produtos industriais (metais, minerais e petróleo), são nações menos integradas ao comércio mundial e mais dependentes da agricultura, o que ajuda a isolá-los parcialmente dos graves efeitos globais da economia. demanda externa em queda “, dizem economistas.

“Cerca de dois terços das 31 economias que devem crescer em 2020 estão na África Subsaariana, onde representam aproximadamente um quarto do PIB da região”.

“Para os países da África Subsaariana, existem razões estruturais, incluindo relativamente menos integração à economia mundial por meio de canais comerciais e alta dependência da agricultura, o que deve proporcionar alguma forma de isolamento”, destacam.

No entanto, eles apontam que “mesmo para as economias que devem se expandir em 2020, o crescimento será muito menor que a tendência, uma média de quase 4 pontos percentuais abaixo das taxas médias de crescimento de 2015-19”.

Segundo economistas, os países que devem crescer este ano tendem a ser mais dependentes do setor agrícola
Além disso, existem outros fatores em jogo, segundo economistas.

Os surtos de Covid-19 foram “mais baixos do que em outras regiões” e as restrições para ficar em casa foram, em média, “10% menos rigorosas”.

“No entanto, um dos principais riscos para as perspectivas na África Subsaariana é que esses surtos domésticos não são controlados e estão aumentando de tamanho”, indicam.

“Dadas as várias vulnerabilidades subjacentes da região, incluindo sistemas de saúde fracos e subfinanciados, uma pandemia mais prolongada com surtos maiores pode ser devastadora para a atividade na região”, alertam eles.

“No cenário negativo que estimamos, onde a pandemia não é controlada, o número de economias na África Subsaariana que crescerá em 2020 cairá 75%”, afirmam.