Duas palavras ao ilustre companheiro.

Por – A. Zarfeg, poeta e jornalista baiano.
azarfeg@yahoo.com.br

Parodiando Voltaire, poderíamos até discordar do ponto de vista do ilustre companheiro; no entanto, como dois mais dois são quatro, estamos de pleno acordo que o nobre companheiro tem o sagrado direito à liberdade de expressão e pensamento.

Portanto, o companheiro pode ficar à vontade para expressar suas convicções e opiniões, por mais paradoxais e absurdas que sejam, estando certo de que será respeitado enquanto ser que pensa diferentemente de outrem.

Da mesma maneira, o companheiro pode escolher a denominação política ou religiosa que melhor lhe aprouver (ou mesmo se abster de fazê-lo), independente das razões que motivaram tal escolha.

Este, aliás, é um princípio legal que permeia a nossa cultura: que cada um faça de sua vida o que achar melhor, desde que não prejudique o outro, contando com a garantia prévia de que jamais será perseguido por isso. Do contrário, sem o exercício de tal liberdade, não haverá razão para nos considerarmos superiores às alimárias.

De maneira categórica e solene, queremos reafirmar a nossa disposição de respeitar a opinião do companheiro, ainda que ela não passe de um juízo de valor sem pé nem cabeça, próprio de um bípede arrogante que se julga dono da verdade e acima do bem e do mal; bem como que tal juízo fuja ao convencional e beire o contra-senso.

Até porque estamos convencidos de que todo e qualquer cidadão está munido do direito inalienável de dar o sentido que quiser à sua existência, quer seja um católico, budista, umbandista, marxista, peemedebista ou um petista metido a sabichão. Só não podemos aceitar (sequer admitir) que, por conta das conquistas do liberalismo e da boa educação, o ilustre companheiro ignore as mais elementares noções de razoabilidade e decência e passe a prejudicar o outro, o outro, o outro, de maneira vil e mentirosa.

Segundo a definição aristotélica levemente adaptada, todo político é animal. Sei que isso não passa de uma obviedade. Afinal, via de regra, os políticos são mesmo uma classe de gente desprezível e pouco confiável.

No entanto, existe um político cá entre nós que conseguiu sobressair graças ao fato de trair a confiança de milhões de eleitores, apropriando-se da esperança (bem mais valioso que o sufrágio universal) deles e, depois, ainda teve a ousadia de vir a público negar tudo na maior desfaçatez do mundo, dizendo-se inocente, vítima de traição, a despeito das evidências que apontam sua culpa no cartório.

Trata-se do mesmo político que, um belo dia, se apresentou ao país como o único capaz de comandar um espetáculo de desenvolvimento (acabou virando o “desenvolvimento do espetáculo”) em prol da coletividade.

Até porque nos julgávamos diante de alguém que, aliás, havia popularizado o bordão “não rouba nem deixa roubar” e, também, mostrado que seu forte era a decência e a hombridade na arte da política. Ledo engano, companheiros.

No fundo, ele não passava de um ladrão de ilusões que havia feito da política um trampolim para, mais facilmente, enganar e lesar a esperança de milhões de brasileiros que acreditaram nas suas promessas vazias de campanha.

De sorte que, uma vez eleito, ele passou a decepcionar aqueles que lhe deram um voto de confiança, privando-os do pão-de-ló da esperança e do maná da alegria. Biltre, facínora, sapo cururu de colarinho branco, cuja maior realização continua sendo espalhar o sentimento de frustração pelos palanques da nossa precariedade eleitoral.

O pior de tudo isso é que o filho da mãe ainda tem a ousadia de tentar negar o óbvio, rindo o riso mais cínico de que se tem notícia, enquanto somos obrigados a engolir a nossa indignação, calados, enlutados e (de certa forma) coniventes.
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