Meio Ambiente:Quarenta deputados alemães pedem que Congresso brasileiro não flexibilize regras ambientais

Parlamentares alemães enviaram carta para Arthur Lira e Rodrigo Pacheco afirmando que eventual aprovação de três projetos de lei pode afetar a relação comercial entre Alemanha e Brasil.

Signatários, que incluem 40 membros do Parlamento alemão, afirmam que aprovação de projetos de lei teria potencial para elevar o desmatamento no Brasil.

Quarenta membros do Parlamento alemão (Bundestag) assinaram na sexta-feira (26/03) uma carta aberta endereçada aos presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), pedindo que eles não pautem para votação três projetos de lei que flexibilizam regras de proteção do meio ambiente e de comunidades tradicionais e indígenas.

O texto menciona o projeto que autoriza a mineração em terras indígenas, o que flexibiliza as normas para regularização de terras e o que estabelece um novo marco legal do licenciamento ambiental.

Entre os assinantes, está a vice-presidente do Bundestag Claudia Roth e Anton Hofreiter, líder dos Verdes no Parlamento alemão, além de mais cinco integrantes da Câmara dos Deputados da Itália e um membro do Parlamento Europeu, totalizando 46 políticos europeus com mandato.

Os signatários afirmam que a aprovação dos projetos tem potencial para elevar o desmatamento e a violência contra comunidades indígenas e tradicionais e significaria um retrocesso na legislação ambiental do Brasil.

A carta diz também que os projetos mencionados, se virarem lei, afetariam as relações atuais e futuras com o Brasil. Os parlamentares citam que ações que provoquem mais desmatamento, afetem os direitos humanos e prejudiquem o combate às mudanças climáticas devem ser levadas em conta em qualquer acordo comercial.

“Estamos muito preocupados que esse pacote de propostas legislativas possa ameaçar nossos esforços conjuntos e colocar em risco nossas relações econômicas e comerciais futuras”, diz o texto. “Gostaríamos de considerar o Brasil nosso parceiro num esforço conjunto por um mundo melhor. Um mundo que protege os direitos humanos, respeita a biodiversidade e o clima e dá suporte a sociedades prósperas.”

A carta é o mais recente capítulo da crescente pressão europeia para a preservação do meio ambiente no Brasil, agravada por políticas do governo Jair Bolsonaro que reduziram a proteção florestal e prejudicaram o combate ao desmatamento e a incêndios, deixando mais longe uma possível ratificação do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul.

Fome e pandemia nas favelas: ‘Meus netos comem menos para eu almoçar’

Netos de Josinete comeram menos para que sobrasse comida para ela no último domingo

No último domingo, a empregada doméstica Josinete Antônia da Silva, de 64 anos, abriu os armários da casa onde mora na periferia de Recife, em Pernambuco. Destampou os potes de mantimentos e não encontrou nada. Não havia nada nas panelas também. A filha, ao saber que a mãe não tinha o que almoçar, pediu para que os filhos dela comessem menos para que sobrasse para a avó.

“Ela falou: hoje, cada um de vocês come um pouquinho menos hoje para ter comida para a vó também. E me mandou carne moída, feijão e arroz. Se não fosse ela, não sei o que eu teria feito”, contou Josinete em entrevista por telefone à BBC News Brasil.

Novo auxílio não é suficiente para cobrir linha de pobreza em nenhum Estado do país, aponta estudo.

De acordo com ONGs, líderes comunitários e empresas especializadas em doações ouvidas pela reportagem, o número de contribuições caiu drasticamente ao longo da pandemia e hoje, no auge da crise sanitária, muitas famílias que moram em comunidades não têm o que comer.

Nas últimas 24 horas, o Brasil registrou 3.869 mortes por covid-19, superando o recorde registrado na véspera, 3.780 vidas perdidas.

Josinete recebe uma pensão no valor de um salário mínimo (R$ 1.100) e mora com as três filhas, que perderam o emprego na pandemia. Uma delas tem quatro filhos e está grávida. A outra tem dois.

Ela conta que o dinheiro da pensão é insuficiente para comprar comida para o mês. O único que trabalha na família é o filho dela, que mora de aluguel no mesmo bairro e faz trabalhos informais como pedreiro.

“Ele me ajuda como pode. Está tudo muito caro. Vou ao mercado comprar feijão, arroz, uns pedacinhos de galinha, macarrão e salsicha e não gasto menos de R$ 100. O que pesa é a carne, o arroz e o leite, ainda mais morando com uma criança de 3 anos e outra de 9 meses. Tem dia que dá para comprar pão, outros não”, conta Josinete.

Além dela, na mesma casa moram três filhas e cinco netos. Ao todo, Josinete tem nove filhos (sete desempregados), 33 netos e sete bisnetos.

No início da pandemia, em 2020, ela recebeu cestas básicas e dinheiro para fazer a feira, mas no fim do ano essa ajuda diminuiu gradativamente até parar, conta ela.

O Instituto Casa Amarela Social foi um dos que ajudaram a família de Josinete na pandemia. O grupo faz diversas campanhas para arrecadar doações.

“Eu tenho vergonha de pedir para outras pessoas, mas não (quando é) para meus filhos. Eu só peço misericórdia para quem tem um pouco mais (de dinheiro) se unir com os outros e ajudar quem não tem condições de sair dessa sozinho. O governo poderia ter mantido o auxílio emergencial em R$ 600, mas a gente não tem escolha”, afirmou.

O Congresso aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite o financiamento do novo auxílio, que terá valor médio em R$ 250, mas as cotas devem variar entre R$ 150 e R$ 375.

Uma pesquisa feita pelo Data Favela, uma parceria entre Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa), em fevereiro, apontou que, entre os 16 milhões de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens básicos do orçamento com o fim do auxílio emergencial, como comida e material de limpeza.

Outros 68% afirmaram que, nos 15 dias anteriores à pesquisa, em ao menos um faltou dinheiro para comprar comida. Oito em cada 10 famílias disseram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas básicas durante os meses de pandemia se não tivessem recebido doações.

Um presidente por rua

O presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, Gilson Rodrigues, disse que a escassez de doações ocorre em favelas por todo o Brasil. Em Paraisópolis, a maior de São Paulo, um homem chegou a desmaiar na fila enquanto aguardava um prato de comida na última semana.

“Vejo um agravamento da situação em que o Brasil fala de um novo normal, com fome e desemprego. A fila de moradores por um marmitex começa às 9h, mas a gente só começa a entregar meio-dia. Eles fazem isso porque sentem medo de perder a única refeição do dia”, afirmou.

Foto – DANIEL EDUARDO
Mulheres fazem protesto para denunciar a fome na favela de Paraisópolis em SP

Gilson conta que, no início da pandemia e auge das doações, eles conseguiam entregar 10 mil marmitas por dia. Hoje, são 700.

O G10 Favelas, grupo que reúne as 10 maiores comunidades do país, criou uma central de arrecadação para ajudar famílias de baixa renda de todo o país. Há um endereço específico para colaborar com moradores de Paraisópolis e outras favelas.

O líder comunitário afirmou que, na falta de poder público, a própria favela elegeu presidentes de rua. Cada um cuida de 50 famílias. Isso é importante para descentralizar os pedidos, já que ele conta que chegou a receber 7 mil mensagens de ajuda num único dia.

Ele disse que fazer os vizinhos cuidarem uns dos outros gera resultados mais contundentes que muitas políticas públicas. Gilson explica o valor da proximidade e humanização com que eles enxergam os problemas de quem mora ao lado.

“Na falta de um presidente para o país, temos um a cada 50 casas. Organizamos a sociedade para que ela tenha um papel real de transformação. Cada um desses presidentes acompanha de perto a situação dessas pessoas, as deficiências na saúde, alimentação. Damos protagonismo às pessoas e reaproximamos vizinhos”, afirmou o líder comunitário de Paraisópolis.

Gilson explica que dessa maneira as doações são distribuídas de maneira mais justa e os presidentes de rua fazem o máximo para ver quem mora perto dele numa situação melhor.

“Fizemos isso em 300 favelas de 14 Estados. Nossa intenção é salvar vidas. Produzimos mais de 1,4 milhão de máscaras, contratamos ambulâncias. Tudo graças ao protagonismo dos próprios moradores. O vizinho dos Jardins (área nobre de SP) também deve fazer isso. Conhecer quem mora na mansão do lado, estender as mãos para um irmão”, afirmou.

Ele explicou que a favela sempre teve a cultura do apoio e que agora o Brasil precisa ativar esse movimento em todos os bairros e instâncias. O G10 Favelas criou um site para explicar como levar o projeto de presidente de rua para a sua região.

Marmitex na cracolândia

Há um mês, a universitária Alessandra Monteiro pensou em como poderia fazer ações sociais maiores e mais organizadas do que as doações que ela já costumava fazer.

A favor da Amazônia, bancos e entidades católicas pressionam Bolsonaro

Carta assinada por 93 instituições, também financeiras, ameaça retirada de investimentos no Brasil, pede plano concreto contra desmatamento e proteção de povos indígenas.

Vista aérea de desmatamento na Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, em Altamira, Pará

Diante do avanço da destruição da Floresta Amazônica, mais de 90 instituições internacionais católicas, entre as quais quatro bancos alemães, se uniram para manifestar publicamente oposição às políticas ambientais de Jair Bolsonaro.

Nesta segunda-feira (29/03), o grupo entrega uma carta ao presidente brasileiro e a seu vice, Hamilton Mourão, pedindo ações concretas para proteger a maior floresta tropical do mundo e os povos indígenas.

“Como investidores, nós estamos usando os meios possíveis para exercer pressão contra a destruição da Amazônia e de seus povos tradicionais”, justifica Tommy Piemonte, da instituição financeira católica alemã.

Segundo Piemonte, é a primeira vez que investidores católicos se unem para exercer esse tipo de pressão internacionalmente, motivados pelo aumento do desmatamento, queimadas, crimes ambientais e violações dos direitos indígenas. Em 2020, a área de vegetação destruída na Amazônia chegou a 11.088 quilômetros quadrados, batendo recorde dos últimos 12 anos, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Se não houver mudanças, vamos retirar nossos investimentos e cancelar potenciais investimentos futuros”, afirma Piemonte. “Somos quatro bancos que têm muitos clientes, inclusive outras instituições católicas”, complementa, mencionando o Bank im Bistum Essen, Pax-Bank Köln e Steyler Ethik Bank, que também assinam a carta.

Com um total de ativos estimado em 5,6 bilhões de euros (cerca de 38 bilhões de reais), o BKC tem fundos de investimentos que incluem títulos do governo do brasileiro. Fundada em 1972, a instituição é uma das pioneiras em apoiar projetos sustentáveis e a se opor a negócios ligados à energia nuclear, usinas de carvão, indústria de armamento, ou que tenham violado direitos humanos e usado trabalho infantil.

“É importante mostrar nosso relativo poder como investidor ao Brasil. Afinal, oferecemos dinheiro para projetos, negócios, para a economia. E, desse modo, queremos aumentar a pressão vinda de fora sobre o governo brasileiro”, comenta Piemonte.

“Diálogo difícil”

A carta sugere uma lista de medidas de proteção à floresta – e que possam ser verificadas. Dentre os pontos do plano de ação sugerido estão implementação de legislação estrita de proteção ambiental; programa concreto de combate ao desmatamento com orçamento e metas intermediárias a serem medidas; mais recursos para combater incêndios; suspensão de medidas contra organizações não governamentais; proteção dos territórios e dos direitos da população indígena; reflorestamento e relatórios anuais sobre o progresso dessa atividade.

O documento pede ainda diálogo com o governo brasileiro. Eleito com forte apoio dos evangélicos, Bolsonaro administra o maior país católico do mundo, em que 50% da população se diz pertencente a essa religião, segundo pesquisa Datafolha de 2020.

“É muito difícil o diálogo”, diz Dom Vicente de Paula Ferreira, secretário da Comissão Especial de Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, que também encabeça o movimento de protesto.

Por outro lado, acrescenta o bispo, a CNBB tem um assento no Conselho Nacional de Justiça e mantém conversas com a Câmara de Deputados, senadores e comissões, como a de Meio Ambiente. “Há instâncias que estão abertas ao diálogo. Mas com o presidente é mais complicado, porque a pauta dele é totalmente contrária ao que pensamos.”

Encíclica “Laudato si'”, do papa Francisco, prega ecologia integral e proteção do meio ambiente

As críticas à postura antiambiental do governo Bolsonaro seguem as linhas gerais da encíclica Laudato si’, redigida pelo papa Francisco em 2015. O documento defende o planeta como casa comum, prega a ecologia integral, proteção do meio ambiente e ações contra as mudanças climáticas.

“Num contexto maior, a nossa posição é critica e de denúncia de violações de direitos dos povos, da natureza. Por isso saímos em defesa das comunidades indígenas, quilombolas, pequenos agricultores, que formam uma rede que protege o meio ambiente e que, geralmente, são afetados por grandes projetos internacionais, especialmente na Amazônia”, diz Ferreira.

Mesmo sob a liderança que prega a defesa socioambiental do papa Francisco, há dificuldades internas dentro da Igreja Católica: “Há fragmentos ligados à ala mais extremista que apoiam muito também [o presidente Bolsonaro]”, reconhece o bispo.

Contra projetos de destruição

Com a carta pública, as instituições católicas esperam uma sinalização do governo Bolsonaro. “A destruição da Floresta Amazônica e a violação dos direitos humanos não representam apenas uma ameaça à reputação do Brasil na comunidade internacional, mas também uma ameaça real à economia brasileira”, alerta o documento.

Em toda a Europa, têm crescido pedidos de boicotes a produtos brasileiros como consequência da atual política ambiental do país. Bancos internacionais têm desencorajado investimentos em empresas que, direta ou indiretamente, atuam na cadeia ligada ao desmatamento. No fim de 2020, o governo francês anunciou que reduziria importações da soja brasileira devido ao aumento da devastação na Amazônia.

“Com esse comunicado ao governo brasileiro, esperamos fazer pressão sobre a economia, sobre as empresas que têm negócios no Brasil principalmente relacionados à madeira, mineração, soja”, diz Piemonte sobre as expectativas, acrescentando que, como o Brasil ainda é o maior país católico do mundo, espera também que o documento influencie a opinião pública.

Para Dom Vicente de Paula Ferreira, essa movimentação internacional é importante para mostrar ao mundo as violações, flexibilizações de leis de proteção ambiental, agressões às comunidades indígenas de que o Brasil tem registrado aumento nos últimos dois anos.

“Lá fora, a mensagem é de que está havendo sustentabilidade nos empreendimentos, mas isso não está acontecendo de fato nos territórios. É preciso que se questione os investimentos internacionais. Será que esses bancos e agências conhecem de fato a realidade para investir por aqui? No Brasil, há muitos projetos que são de destruição”, alerta Ferreira.

‘Vendi as panelas para comprar pão e pé de galinha’: os relatos da fome no Brasil às vésperas do novo auxílio emergencial menor

EPA
Inflação de alimentos cresceu três vezes mais do que índice oficial

Na terça-feira (16/3), Fernanda Ferreira da Fonseca, 60 anos, recolheu pela casa algumas panelas velhas e as levou a um centro de reciclagem perto de casa, no bairro Jardim Imperial, em Atibaia (SP).

Com os R$ 30 que lhe pagaram pelo material, comprou um pacote de pão e 5 quilos de pé de galinha, que vão virar almoço e jantar para ela e o marido até o fim da semana.

“Pra outra semana eu não tenho mais panela pra vender. Não sei o que vou fazer.”

Os R$ 179 que recebeu do Bolsa Família no fim de fevereiro foram embora rapidamente: R$ 90 por um botijão de gás, R$ 40 pra pagar a conta de energia e outra parte para quitar duas contas de água atrasadas.”Não tem papel higiênico aqui em casa, virou artigo de luxo. A gente vem cortando um lençol velho para levar ao banheiro.”

Diagnosticada com artrose e fibromialgia, ela não pode trabalhar. O marido, caminhoneiro, está desempregado desde 2019 e também tem problemas de saúde.

Ambos deram entrada no Benefício de Prestação Continuada (BPC), mas ainda não tiveram retorno do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

Assim como outros 56 milhões de brasileiros, Fernanda parou de receber o auxílio emergencial em dezembro. Teve acesso a cinco parcelas de R$ 600 e a outras quatro de R$ 300, quando o benefício foi reduzido.

O marido, apesar de também elegível ao auxílio, teve de esperar nove meses para receber os pagamentos. A liberação foi inicialmente bloqueada porque constava erroneamente no sistema que ele estava recebendo seguro-desemprego. Em dezembro, após uma ordem judicial, o benefício foi liberado.

Desde janeiro, o casal sobrevive com os R$ 179 que recebe pelo Bolsa Família.

Naquele mês, eles conseguiram uma das cestas básicas que vinham sendo distribuídas no bairro. Depois disso, com o volume limitado de doações e aumento da demanda, ficou mais difícil.

“Aqui estão dando prioridade pra quem tem criança, e eu entendo”, diz Fernanda. “Estou dentro de casa passando fome, já passei da fase de ‘necessidade’.”

Os 5kg de pés de galinha que Fernanda comprou com a venda das panelas serão almoço e jantar para ela o marido até o fim da semana

Nos três meses em que o país levou para negociar a liberação de outras quatro parcelas do auxílio emergencial, a combinação entre desemprego elevado e inflação ascendente trouxe a fome de volta às casas de milhões de pessoas.

Na semana passada, o Congresso aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite o financiamento do novo auxílio. O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o valor médio ficaria em R$ 250, mas as cotas devem variar entre R$ 150 e R$ 375.

A Medida Provisória com os detalhes sobre o benefício, cuja publicação é necessária para que se iniciem os pagamentos, foi assinada nesta quinta (18/3), após dias de expectativas frustradas. Conforme o comunicado enviado pela Secretaria Especial de Comunicação Social, o presidente Jair Bolsonaro deve apresentá-la ao Congresso no fim da tarde.

“Assinando ou não (a medida), eles continuam almoçando e jantando lá em Brasília, né?”, desabafa Fernanda, que há dias espera notícias sobre a retomada dos pagamentos.

‘A comida acaba e a fila continua’

Uma pesquisa feita pelo Data Favela, uma parceria entre Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (Cufa), em fevereiro apontou que, entre os 16 milhões de brasileiros que moram em favelas, 67% tiveram de cortar itens básicos do orçamento com o fim do auxílio emergencial, como comida e material de limpeza.

Outros 68% afirmaram que, nos 15 dias anteriores à pesquisa, em ao menos um faltou dinheiro para comprar comida. 8 em cada 10 famílias disseram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar as contas básicas durante os meses de pandemia se não tivessem recebido doações.

As estatísticas se materializam nas filas por refeições e cestas básicas em diferentes regiões do país.

Na capital paulista, no entanto, o número de marmitas distribuídas por dia na favela de Paraisópolis caiu de 10 mil para algo entre 500 a 800.

REUTERS
Última parcela do auxílio emergencial foi paga em dezembro

“Tem dia que a comida acaba e a fila continua, que as pessoas ficam brigando lá fora”, diz o líder comunitário Gilson Rodrigues.

A queda no volume de doações — recolhidas, entre outros canais, pelos sites novaparaisopolis.com.br e g10favelas.com.br — também afetou outros serviços que as lideranças comunitárias vinham prestando, entre elas as ambulâncias e as equipes médicas que assistiam a população.

Os veículos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) não entram na comunidade na zona sul de São Paulo, onde vivem cerca de 100 mil pessoas. Os moradores já entraram na Justiça para reivindicar o atendimento durante a pandemia, mas, na falta de uma resposta, os vizinhos se ajudam como podem com carros de passeio.

Nos últimos dias, se multiplicaram nas redes sociais as campanhas de arrecadação de recursos para colocar comida na mesa dos brasileiros mais vulneráveis. Entre elas estão a Tem Gente com Fome, cuja meta é auxiliar cerca de 220 mil famílias pelos próximos quatro meses.

Alta dos alimentos três vezes maior que inflação oficial
Comer ficou significativamente mais caro de um ano para cá no Brasil.

Os preços de alimentos e bebidas estão em média 15% mais altos nos 12 meses encerrados em fevereiro, quase três vezes a inflação oficial, que atingiu 5,2%, conforme o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Os 15% de aumento médio na categoria alimentos e bebidas, já elevado, esconde altas ainda maiores, como a do arroz, que ficou quase 70% mais caro nos últimos 12 meses, do feijão preto (50%), da batata inglesa (47%), da cebola (69%), do limão (79%).

O aumento da inflação de alimentos tem impacto especialmente sobre as famílias mais pobres, que têm um percentual maior da renda comprometida com itens básicos – e, agora, no momento mais agudo da pandemia, terão acesso a um auxílio financeiro significativamente menor.

Paola Carvalho, da organização Rede Brasileira de Renda Básica, que vinha pressionando o governo para que mantivesse o auxílio em seu formato original, ressalta que os R$ 150 que serão pagos a milhões de famílias nos próximos quatro meses é menos de 25% do valor de uma cesta básica, que custa em média R$ 620, conforme o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).
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Campanhas para tentar ajudar famílias vulneráveis têm se multiplicado nas últimas semanas

“Esse valor empurra as pessoas para a rua.”

Para ela, a lógica do auxílio emergencial deveria ser diferente das demais políticas de transferência de renda, já que teoricamente também tem como objetivo garantir o mínimo de subsistência para que as pessoas não precisem sair para trabalhar e, assim, contribuir para o esforço de tentar controlar a circulação do vírus no país.

“Seria possível baixar o benefício a partir do momento em que a população estivesse imunizada, não agora, quando a gente está no pior momento da pandemia”, acrescenta Paola.

O economista Vinícius Botelho concorda que, “quanto menor o valor, menor a potência do benefício para tirar as pessoas temporariamente da força de trabalho”, o que, para ele, reforça a urgência de se acelerar a imunização contra covid-19 no país.

“A gente continuar usando auxílio emergencial como estratégia de distanciamento social é muito caro”, avalia.

Urgente também é a necessidade de se pensar em uma política para a redução estrutural da pobreza no país, que retoma a trajetória de crescimento após uma breve interrupção em 2020.

No fim do ano passado, diante da iminência do fim do pagamento do auxílio emergencial, o economista calculou o impacto potencial da suspensão do benefício: cerca de 3,4 milhões cairiam na extrema pobreza em 2021, levando em conta o patamar de renda de US$ 1,90 por dia usado pelo Banco Mundial.

A extensão do auxílio por mais quatro meses muda pouco a perspectiva, já que a despesa com o benefício será significativamente menor, de R$ 44 bilhões, ante R$ 290 bilhões pagos em 2020.

Além disso, as perspectivas de reação da economia, que embasaram as estimativas do estudo, têm se deteriorado neste primeiro trimestre – o que dificulta a saída das famílias da condição de vulnerabilidade.

“A notícia mais assustadora não é nem quantidade de pessoas, mas o fato de que esse aumento pode ser permanente se a trajetória de renda per capita não acelerar”, diz o doutorando em economia dos negócios pelo Insper.

A pobreza extrema no Brasil vinha em uma crescente desde 2014. Teve uma interrupção temporária em 2020, por conta do auxílio emergencial – que transferiu um volume de recursos para famílias de baixa renda, mas que é insustentável do ponto de vista fiscal no médio prazo -, e deve retomar a trajetória.

Quanto mais o país demora para controlar a pandemia, diz o especialista, pior o cenário: os efeitos que deveriam ser temporários vão ganhando cicatrizes – as empresas que não conseguem mais se manter em operação à espera do retorno à “normalidade”, por exemplo – e isso acaba tendo reflexo sobre a geração de emprego e renda e, em última instância, sobre a pobreza.

E agora? Quidroga deu chabu. Chama o quinto ministro da Saúde aí.

“Bastaram cinco dias para a imprensa descobrir o real motivo que impede a posse do novo ministro da Saúde”, diz o jornalista Alex Solnik. “Marcelo Queiroga é réu em ação penal contra o patrimônio público.”

Bastaram cinco dias para a imprensa descobrir o real motivo que impede a posse do novo ministro da Saúde, indicado ao pai presidente pelo filho Flávio Bolsonaro..

Segundo a repórter Helena Mader, de O Antagonista, Marcelo Queiroga é réu em ação penal contra o patrimônio público.

Ele administrou, em 2000, um pronto-socorro cardiológico em João Pessoa (PB) chamado Hospital Prontocor que tem dívida milionária com o governo federal por ter deixado de recolher contribuições previdenciárias de seus funcionários.

De Queiroz a Queiroga, a família Bolsonaro adora conviver com foras da lei.

Coronavírus: “O Brasil está se tornando uma ameaça à saúde pública global”

O Brasil é o segundo país do mundo com o maior número de mortes por coronavírus. Foto EPA

As mortes diárias por coronavírus no Brasil ultrapassam 2.000, tornando-se o segundo país com maior número de mortes por essa causa, depois dos Estados Unidos.

O epidemiologista Pedro Hallal, que atua no sul do estado do Rio Grande do Sul, fala de uma situação de transbordamento que implica um perigo que se estende além das fronteiras do gigante sul-americano.

“21% de todas as mortes que ocorreram no mundo ontem por causa do covid-19 ocorreram no Brasil, um país que tem apenas 2,7% da população mundial. Então, isso é enorme. Tornando-se uma ameaça para o público global saúde”, disse Hallal à BBC.

Na quarta-feira, 10 de março, o país registrou 79.876 novas infecções confirmadas, o terceiro maior número em um único dia, enquanto o número total de mortes relacionadas ao covid-19 chegou a 270.656, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.

Isso significa que o Brasil tem uma taxa de 128 mortes por 100 mil habitantes, o que o coloca em 11º lugar entre os 20 países mais afetados do mundo. As taxas mais altas estão na República Tcheca com 208 mortes por 100.000 pessoas e no Reino Unido com 188 mortes por 100.000 pessoas, de acordo com relatórios da Universidade Johns Hopkins.

Crise em hospitais
Margareth Dalholm, médica e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, centro de pesquisa científica localizado no Rio de Janeiro), descreveu a situação como “o pior momento da pandemia no Brasil”.

Reuters

Muitos centros de saúde estão sobrecarregados com o alto número de hospitalizações.

Em todo o Brasil, as unidades de terapia intensiva (UTI) estão com mais de 80% de sua capacidade, segundo a Fiocruz. E em 15 capitais as UTIs estão com mais de 90% de sua capacidade, inclusive no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A imprensa do país afirma que a capital, Brasília, atingiu a capacidade máxima das UTIs, enquanto duas cidades, Porto Alegre e Campo Grande, ultrapassaram essa capacidade.

Em seu relatório, a Fiocruz alertou que os números apontam para “sobrecarga e até mesmo colapso dos sistemas de saúde”.

Hallal garante que seu estado (Rio Grande do Sul) está sobrecarregado. “Aqui no sul do Brasil a situação está ficando muito ruim, estamos com mais de 100% de ocupação em unidades de terapia intensiva”, disse ele à BBC.

Ele também observou que as pessoas se sentiram “abandonadas pelo governo federal”.

“Os políticos demoraram muito para agir”, disse Adilson Menezes, de 40 anos, à agência de notícias AFP em frente a um hospital em São Paulo. “Os pobres estão pagando por isso”, disse Menezes, referindo-se ao estado de quase colapso do sistema público de saúde do Brasil.

A questão da liderança
Análise de Katy Watson, correspondente da BBC América do Sul

O Brasil enfrenta sua maior crise desde o início da pandemia, mas ainda assim, parece que as pessoas estão tentando ignorá-la.

Veja São Paulo, por exemplo. Embora as lojas não essenciais tenham sido fechadas nas últimas semanas, não há “bloqueio” para falar, nenhuma restrição sobre quem as pessoas podem se encontrar e as escolas permaneceram abertas (embora com menos capacidade).

As pessoas aqui estão tomando suas próprias decisões sobre como ficar seguras e certamente não existe esse medo como vimos nesta época, há um ano, quando todos estavam se trancando, inclusive os brasileiros.

Um ano depois, e mesmo em meio a estatísticas terríveis que continuam a aumentar, a narrativa de Jair Bolsonaro foi comprada por muitos: desconfiança da vacina CoronaVac chinesa e críticas ao fechamento de restaurantes e empresas.

Enquanto isso, os cientistas estão clamando cada vez mais por uma liderança nacional para impedir o colapso de todo o sistema de saúde nas próximas semanas.

O que está por trás da onda de infecções?
O aumento de casos nos últimos dias foi atribuído à disseminação de uma variante altamente contagiosa do vírus, chamada P1, que se acredita ter se originado na cidade amazônica de Manaus.

A nova variante do coronavírus, detectada pela primeira vez no Brasil, levou ao aumento das mortes naquele país.

Dados preliminares sugerem que a variante P1 pode ser até duas vezes mais transmissível do que a versão original do vírus.

Indicam também que a nova variante pode escapar da imunidade derivada de ter sofrido a versão original do coronavírus: a probabilidade de reinfecção está entre 25% e 60%.

Na semana passada, o Instituto Fiocruz disse que o P1 era apenas uma das diversas variantes que geram preocupação, que passaram a ser dominantes em seis dos oito estados estudados por aquela instituição.

A diretora da Organização Pan-Americana da Saúde, Carissa Etienne, disse que a situação no Brasil lembra a ameaça de ressurgimento. “As áreas mais afetadas pelo vírus no passado permanecem vulneráveis ​​à infecção hoje”, disse ele.

Hallal, por sua vez, reconhece o desafio colocado pela nova variante, mas garante que o problema vai além.

“Sabemos que a nova variante é mais transmissível e temos evidências emergentes de que pode ser um pouco mais agressivo que o vírus original, mas nem tudo tem a ver com a variante. Como cientista, devo dizer: é verão em esta parte do mundo. O sul do mundo e as pessoas aqui no Ano Novo participaram de grandes encontros em todos os lugares, então a variante está tornando mais difícil, mas não é apenas a variante “, diz ele.

Em alguns hospitais, os pacientes precisam ser atendidos em quartos improvisados.

O especialista ressalta que atualmente existem algumas medidas para restringir a circulação de pessoas, mas provavelmente não serão suficientes para conter as infecções.

“Precisamos aliar isso a uma campanha de vacinação acelerada e não estamos vendo. Precisamos de atenção imediata da indústria farmacêutica, de outros governos do mundo porque se não começarmos a vacinar a população aqui, muito em breve, isso vai virar uma tragédia. massiva “, avisa.

Um “laboratório natural”
Análise por Smitha Mundasad, Correspondente de Saúde da BBC

Os cientistas temem que o Brasil tenha quase se tornado um “laboratório natural”, onde as pessoas podem ver o que acontece quando o coronavírus passa relativamente despercebido.

Alguns alertam que o país é agora um terreno fértil para novas variantes do vírus, desimpedido por um efetivo distanciamento social e alimentado pela escassez de vacinas.

Isso porque quanto mais tempo um vírus circula em um país, maior é a probabilidade de sofrer mutação, nesse caso dando origem à variante P1.

Especialistas mundiais estão pedindo um plano que inclua vacinação rápida, bloqueios e medidas rígidas de distanciamento social para controlar a situação.

A preocupação é que a variante P1 seja uma ameaça iminente ao progresso feito na região e no resto do mundo.

Em geral, as vacinas atuais ainda são eficazes contra a variante, mas podem ser menos eficazes do que contra as versões anteriores do vírus para o qual foram projetadas.

Os estudos estão em andamento, mas os especialistas ganharão uma compreensão mais sólida de como essas vacinas P1 funcionam à medida que continuam a monitorar as pessoas que foram vacinadas no mundo real.

Os cientistas estão confiantes de que, se necessário, as vacinas podem ser modificadas com bastante rapidez para trabalhar contra novas variantes.

Como o governo reagiu?
O presidente Jair Bolsonaro minimizou os riscos apresentados pelo vírus desde o início da pandemia.

Ele também se opôs às medidas de quarentena tomadas em nível regional, argumentando que os danos à economia seriam piores do que os efeitos do próprio vírus.

Bolsonaro rejeita as críticas sobre sua forma de lidar com a pandemia.

Nesta quarta-feira, o ex-presidente e líder da oposição Luiz Inácio Lula da Silva criticou as decisões “estúpidas” do presidente Bolsonaro e disse ter recomendado que os cidadãos fossem vacinados. “Muitas mortes poderiam ter sido evitadas”, disse ele.

Bolsonaro, que no início da semana disse aos cidadãos para “pararem de choramingar”, rejeitou as críticas de Lula, dizendo que seu governo fez o suficiente para combater a doença.

Já João Doria, ex-aliado do Bolsonaro e agora rival político, chamou o presidente de “maluco”.

A posição do presidente sobre a pandemia também foi alvo de severas críticas fora das fronteiras do Brasil.

Dia Internacional da Mulher – Minha Homenagem: Como mulheres brasileiras se desdobram na pandemia

Ainda mais sobrecarregadas por afazeres domésticos e cuidados com os filhos do que antes da crise, mulheres de diferentes classes sociais buscam meios de garantir sustento e manter produtividade no trabalho.

Quase 1,5 milhão de famílias já foram auxiliadas pelo projeto Mães da Favela, da Cufa, desde o início da pandemia

Se a realidade de muitas mulheres brasileiras já era de um acúmulo de responsabilidades, com trabalho fora, afazeres domésticos e cuidados com filhos, a pandemia só aumentou essas dificuldades. Com escolas fechadas, mães precisaram também se tornar “professoras”, auxiliando no ensino remoto. Devido ao medo de contágio pelo coronavírus, elas contam também que os cuidados com a limpeza e a lavagem de roupas aumentaram. E muitas passaram a ver a subsistência de suas famílias ameaçada.

Moradora da favela de Paraisópolis, em São Paulo, Vanessa Macedo da Silva teve que encontrar uma maneira de complementar a renda familiar nestes tempos de crise. Mãe de duas filhas, uma menina de 13 anos e outra de 11 meses, ela conta que já estava desempregada quando a covid-19 chegou ao Brasil, e agora orgulha-se de dizer que se tornou empreendedora durante a pandemia.

Quando sua filha mais nova nasceu, em abril do ano passado, palavras como lockdown, quarentena, isolamento social e ensino remoto já estavam incorporadas ao vocabulário. Com a crise, seu marido foi afastado do trabalho.

“As coisas começaram a ficar difíceis, a gente passou a se privar de algumas coisas”, conta ela. “O pai da minha filha mais velha não podia mais colaborar com a pensão dela, porque também ficou desempregado. Meu marido ia ao mercado e trazia só as coisas mais necessárias.”Moradora de Paraisópolis, Vanessa Macedo da Silva, mãe de duas filhas, teve que se virar para complementar a renda durante a pandemia

Ela passou a contar com a ajuda do projeto Mães da Favela, da Central Única das Favelas (Cufa). E também do colégio onde sua filha adolescente estuda, como bolsista, que começou a destinar a ela uma cesta básica mensal. “A gente dividia tudo com meus pais, já que meu pai, pedreiro, também perdeu o emprego”, relata.

Vanessa conta que a correria doméstica ficou cada vez maior. Dividia-se entre os cuidados com a filha recém-nascida, as eventuais ajudas ao estudo da filha de 13 anos e a limpeza de tudo. Um balde com água sanitária passou a ficar na entrada da casa, para desinfetar tudo o que entrasse. E toda a roupa era lavada sempre que alguém vinha da rua — aumentou muito o trabalho. “Também comecei a limpar várias vezes por dia as maçanetas da porta”, diz.

No meio disso tudo, ela arrumou um tempinho para assistir a cursos on-line. Decidiu que iria ter um negócio próprio. “Aí comecei a fazer geladinhos”, conta. “Passei a vender pelo WhatsApp, fazendo as entregas com todos os cuidados. Com o dinheiro, dá para comprar fraldas, pagar uma continha.”

“A mãe da favela se preocupa com o que o filho vai comer”

Com cestas básicas no valor de R$ 120 viabilizadas por meio de doações financeiras, o projeto Mães da Favela já beneficiou quase 1,5 milhão de famílias desde o início da pandemia. Segundo Cláudia Rafael de Oliveira, vice-presidente da Cufa, a perda de renda dos moradores dessas comunidades pobres é decorrente do fato de que a maior parte dessas mulheres trabalha ou trabalhava como empregadas domésticas.

“E esse setor foi muito afetado por conta do isolamento social, fazendo com que muitas delas ficassem sem renda”, diz. “Muitas mulheres, mães, também precisaram ficar em casa por conta de seus filhos, que antes eram cuidados e alimentados nas creches, que também fecharam. Com a perda financeira, essas crianças também estão passando necessidade, não têm fralda, não têm alimentação básica.”

Cláudia atenta para o fato de que enquanto a preocupação da classe média é com o fato de os filhos estarem vendo muita televisão e exercitando-se menos, “a mãe da favela se preocupa com o que o filho vai comer ou não naquele dia”.

Moradora da favela Jardim Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, a ambulante Aparecida Vieira da Silva afirma que “ter comida na mesa é uma bênção de Deus”. O marido ficou desempregado por conta da pandemia. Ela tem dificuldade para vender seus produtos.

“A renda caiu muito. Deixamos de comer bem, e minhas contas, de água e de luz, estão todas atrasadas”, diz. Mãe de dois filhos — de 8 e 21 anos —, ela conta que o mais novo ficou sem estudar durante metade do ano passado. Para o ensino remoto, Aparecida emprestava o celular ao menino.  “Meu telefone quebrou, e ele ficou o resto do ano sem aulas”, conta.

Sobrecarga, estresse e depressão

De acordo com uma pesquisa realizada no ano passado pelas organizações Gênero e Número e Sempreviva Organização Feminista, 50% das entrevistadas disseram que passaram a se responsabilizar pelo cuidado de mais alguém depois do advento da covid-19. Quarenta e um por cento das mulheres afirmaram que o trabalho aumentou, e 40% das entrevistadas disseram que o sustento da casa ficou em risco.

Essa sobrecarga tem impactos na saúde. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), publicada mês passado, as mulheres são as que mais sofreram durante a pandemia — foram entrevistados 3 mil voluntárias. Dentre as participantes do sexo feminino, 40,5% apresentaram sintomas de depressão, 34,9%, de ansiedade e 37,3% de estresse.

Cientistas mulheres e o machismo estrutural

O impacto da covid-19 na sobrecarga de trabalho das mulheres não se restringe às classes sociais mais baixas. Criadora do projeto de pesquisa Parent in Science, a bióloga Fernanda Staniscuaski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) já vivenciava o fato de que a ascensão acadêmica das mulheres é mais difícil do que dos homens. E a pandemia escancarou essa situação.

“Nossos resultados mostram aquilo que sabemos desde sempre. As mulheres são as encarregadas e sobrecarregadas do cuidado. Seja da casa, dos filhos, dos idosos. Cuidar é tido em nossa sociedade como algo feminino. Na pandemia, o cuidado tomou o centro das nossas vidas. E isso impactou a produtividade das cientistas mulheres muito mais do que a dos homens”, diz.

“Com mais demandas em casa, as mulheres estão submetendo menos artigos e conseguindo cumprir menos prazos para pedidos de bolsas, financiamento, etc. Para as docentes, isto terá um impacto negativo muito grande na sua competitividade nos próximos anos”, comenta.“A pandemia impactou a produtividade das cientistas mulheres muito mais do que a dos homens”, diz a bióloga Fernanda Staniscuaski.

Pessoalmente, sua rotina também foi muito prejudicada. “Mudou tudo. Temos três filhos, meu marido também é docente pesquisador. Então tivemos que nos reorganizar para dar contas das demandas urgentes de trabalho e as urgentes de casa, como o ensino remoto dos filhos. Eles precisam de assistência em tempo integral”, conta.

“Conseguimos trabalhar apenas algumas horas por dia — e de madrugada. Muito complicado. Está tudo atrasado, sempre. Mas temos muito privilégios quando pensamos na situação da população do Brasil como um todo. Então, agora, é fazer o que dá dentro da nossa realidade”, afirma.

Professora da Faculdade de Ciências da Saúde do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, a fisioterapeuta Louisiana Carolina Ferreira de Meireles Moraes concorda.

“A pandemia piorou algo que já existia antes, que é o machismo estrutural, com a mulher acabando responsável pelo cuidado dos filhos e da casa. Agora o home office é a minha realidade e a da maioria das minhas colegas professoras e pesquisadoras. Mas além do trabalho acadêmico que já é super pesado, temos que lidar com a carga de trabalho doméstico e criação dos filhos que estão sem escola há um ano. Tem sido muito tenso”, conta.

Mãe de uma filha de 1 ano e meio, ela conta que tem feito um revezamento com o marido para os cuidados com a menina. Mesmo assim, não consegue dormir mais do que 5 horas por noite e está com artigos acadêmicos atrasados.

A geógrafa Talita Rondam Herechuk, professora da rede pública de ensino em Porto Alegre, vive sozinha com o filho de 6 anos e também se vê mais sobrecarregada do que nunca.

“A maternidade é vista como uma ‘opção’ individual, e geralmente a sobrecarga de trabalho recai sobre as mulheres, que são majoritariamente as responsáveis pelas atividades de cuidado dos filhos e demais membros da família”, diz.

“A pandemia, na minha opinião, veio visibilizar a inexistência de suporte institucional, social, político, econômico na vida acadêmica das mães cientistas e intensificou a sobrecarga de trabalho sobre nós”, afirma ela, que é doutoranda na UFRGS.

“[Desde que começou a pandemia] todos os dias eu desisto do doutorado e todos os dias eu volto a insistir”, resume ela. “Quantas outras mulheres mães que são pesquisadoras no Brasil estão na mesma condição de sobrecarga, colocando em risco a sua saúde mental e física e a de outros para ‘dar conta’ de coisas que deveriam estar sendo gerenciadas ou resolvidas pelo poder público neste momento da pandemia?”, questiona.

“Sinto como se eu fosse uma equilibrista de pratos. Tipo aquelas que vemos no circo. No entanto, sinto que estou equilibrando a vida, e os pratos são muitos pesados. Não quero perdê-los, mas as estratégias individuais estão escassas e necessitamos com urgência de estratégias coletivas de amparo às mães, não só as que são pesquisadoras, mas todas as mães brasileiras”, afirma.

Com dados da DW

Por que a covid-19 pode se tornar endêmica no Brasil, como dengue e gripe

Com controle precário e vacinação lenta, é possível que país conviva com o coronavírus por muito tempo ainda – Getty Images

Mais de um ano depois de ter começado, a pandemia de covid-19 ainda não dá sinais de que vá acabar em pouco tempo. Menos ainda no Brasil, onde seu controle é precário, com vacinação lenta, queda da adesão às medidas preventivas e omissão de agentes públicos em implementar, estimular, controlar e fiscalizar o cumprimento de normas de distanciamento social. Além disso, para piorar a situação, novas variantes do novo coronavírus vêm surgindo e se espalhando pelo país. Por isso, embora seja difícil prever, muitos especialistas acreditam que ela se estenderá pelo menos até 2022.

Mas não é só isso. Há grandes chance de a doença se tornar endêmica, como a dengue e a gripe (influenza), por exemplo.

Para o médico epidemiologista Guilherme Werneck, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), as condições para o controle da epidemia no Brasil estão muito precárias, por isso ela não deverá acabar logo.

“Faltam vacina, organização e liderança e sobra irresponsabilidade dos agentes públicos”, critica. “Começando pelas ações de contrainformação do governo federal, questionando a efetividade de máscaras, vacinas e do distanciamento social, e estimulando o uso de medicamentos ineficazes para prevenção e tratamento da covid-19. É possível, embora ainda num horizonte distante, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declare o fim da pandemia, mas o Brasil continue tendo que lidar com níveis inaceitáveis de transmissão.”

O médico Plínio Trabasso, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, também prevê que a epidemia de covid-19 no Brasil vai longe, principalmente porque a vacinação não está sendo feita de maneira maciça, ampla e simultânea.

Desse modo, ainda há um grande contingente de pessoas suscetíveis à doença em circulação. “Para um controle mais rápido, é necessário que mais pessoas (idealmente todos os acima de 18 anos) sejam vacinadas logo”, diz. “Isso cria uma barreira imunológica à disseminação do vírus.”

O mosquito Aedes aegypti é o principal transmissor de dengue, zika e chikungunya em regiões urbanas do Brasil – Foto Getty Images

De acordo com Trabasso, além da vacinação, é preciso testagem em massa, para identificar os potenciais transmissores e colocá-los em quarentena, e mais distanciamento social. “São as maneiras mais eficazes de conter a propagação da covid-19”, explica. “Claro que a higiene das mãos e o uso de máscara também são importantes, mas são medidas individuais, enquanto que a imunização e aplicação dos testes são ações de Estado.”

A ausência de uma vigilância epidemiológica efetiva é outro aspecto problemático e preocupante da pandemia no país. “O Brasil tem recursos financeiros e profissionais capacitados para desenvolver um processo eficiente de identificação de casos, por meio de testagem e busca ativa, e quarentena para todos os infectados, com apoio financeiro que garanta que a população não perca renda”, diz a médica sanitarista Maria de Fátima Siliansky de Andreazzi, professora de Economia Política da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ela diz que na Europa, caso alguém seja identificado com covid-19 num avião, por exemplo, vai-se atrás dos que estavam próximos, testam-se e isolam-se todos os passageiros. “No Brasil, no caso de Manaus, com a nova cepa identificada, não se interromperam os voos e mais, o Ministério da Saúde levou doentes infectados para outros Estados”, critica.
De acordo com Fredi Alexander Diaz Quijano, da USP, efeito que vacinas terão na redução da transmissão é incerto, mas evidências indiretas sugerem que não eliminará totalmente covid-19

O problema é que mesmo com a vacinação, o novo coronavírus não deverá desaparecer, ao contrário do que ocorreu o Sars-Cov-1, que causou a epidemia de Sars. “Algumas vacinas estão mostrando uma excelente proteção para prevenir formas graves de covid-19 (a maioria, mais de 90%). No entanto, em algumas pessoas elas não conseguem impedir a infeção e, em muitos casos, a aparição de sintomas”, explica o médico Fredi Alexander Diaz Quijano, do Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP).

De acordo com ele, o efeito que as vacinas terão na redução da transmissão é incerto, mas evidências indiretas sugerem que não eliminará totalmente a covid-19. Um dos motivos disso é que novas variantes podem eventualmente conseguir escapar das vacinas – e talvez precisemos nos imunizar contra o coronavírus com a mesma frequência com que nos imunizamos contra a gripe, por exemplo.

Por tudo isso, é muito provável que o vírus continue circulando. “Não causará doença grave na grande maioria das pessoas vacinadas, mas existindo grupos suscetíveis que não tenham sido imunizados (por qualquer motivo), ainda haverá risco de surtos de casos graves e mortes.”

Em outras palavras, a covid-19 poderá ser tornar endêmica, como a aids, dengue, gripe, malária e tuberculose, por exemplo. “Endemias correspondem a situações em que a incidência da doença não é tão elevada, mas que dura muito tempo, podendo sofrer variações sazonais, relacionadas às estações do ano, por exemplo”, explica o médico Marcelo de Carvalho Ramos, professor titular de Infectologia da FCM da Unicamp.


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Para entrar na célula, o vírus SARS-CoV-2 se liga a uma molécula presente na superfície da célula (seu receptor)

Mas por que algumas doenças se tornam endêmicas e outras, não?

“Uma enfermidade infecciosa endêmica é aquela que conseguiu um certo equilíbrio na sua taxa de reprodução”, responde Quijano. “Isto é, quando cada pessoa contaminada passa essa condição para (em média) uma outra. É o que se conhece como número reprodutivo efetivo (R), que é a média de novos infectados que alguém com o vírus produz diretamente. Em outras palavras, no caso das endemias o valor de R permanece próximo de 1.”

Quando esse número é superior a 1, então a doença progride rapidamente e causa surtos (ou até grandes epidemias), como é o caso da covid-9, cuja estimativa do R, no início da pandemia, era 3. “Se esse valor é muito superior a 1 (por exemplo, maior que 10) ela se espalha depressa, às vezes tão rápido que se acabam rapidamente as pessoas suscetíveis a ela”, explica. ” Por outra parte, valores de R inferiores a 1 conduzem a que o número de casos progressivamente diminua, levando eventualmente à eliminação da doença numa comunidade.”

Foi o que aconteceu com a Sars: o vírus Sars-Cov-1 não adquiriu essa capacidade de se perpetuar. O novo coronavírus já obteve esse salto evolutivo, no entanto. É por isso, que os especialistas acham que a covid-19 se tornará endêmica.

“O Sars-Cov-2 já se mostrou capaz de sofrer mutações, como demonstram as variante do Reino Unido, da África do Sul e do Amazonas”, diz Trabasso. “Algumas delas, ou outras que surgirão, podem fazer com que haja escape do vírus à imunidade adquirida, seja pelo contato com a variante ‘selvagem’ seja por meio da vacinação.”

Segundo ele, esses mutantes poderão causar microssurtos, até que nova vacina surja e novo contingente populacional desenvolva imunidade suficiente, para criar uma nova barreira imunológica. E assim por diante.

“É o que ocorre com a influenza, por exemplo”, explica Trabasso. “Todos os anos, a população tem que ser vacinada, porque podem ocorrer mutações no vírus e a imunidade adquirida pela infecção ou vacinação de anos anteriores não garante proteção contra a variante presente naquele ano. Assim deve se comportar o novo coronavírus daqui por diante.”

Sem ações de prevenção coletiva, como o uso de máscaras, distanciamento social e higiene pessoal, somente a vacina não será capaz de interromper a transmissão
Werneck acrescenta outros aspectos que podem levar a covid-19 a permanecer ainda por muito tempo entre os humanos. De acordo com ele, circulação do vírus só poderia ser interrompida com níveis altos de imunidade na população.

“Ocorre que nosso conhecimento sobre imunidade ao novo coronavírus é ainda precário, particularmente sobre a duração dela conferida pela infecção ou pela vacina”, explica. “Ao mesmo tempo, o que se sabe sobre a eficácia das vacinas disponíveis, até o momento, é que elas não fornecem proteção efetiva contra a infecção, mas sim para o desenvolvimento de formas clinicas e graves da doença.”

Ou seja, são imunizantes que protegem as pessoas, porque evitam que elas desenvolvam sintomas e formas severas da covid-19, mas não impedem que se infectem e, eventualmente transmitam a infecção.

“Além disso, as vacinas utilizadas no Brasil (até o momento, a de Oxford-AstraZeneca e CoronaVac) têm efetividade da ordem de cerca de 70% mais ou menos, ou seja, têm boa eficácia, mas não nos níveis ideais”, diz Werneck. “Assim, mesmo com cobertura vacinal alta, ainda poderemos ter transmissão.”

Isso significa que, sem ações de prevenção coletiva, como o uso de máscaras, distanciamento social e higiene pessoal, somente a vacina não será capaz de interromper a transmissão. “Junte todos esses problemas num contexto em que faltam vacinas e que uma alta cobertura vacinal da população ainda vai demorar”, acrescenta Werneck.

“Estamos, então, em condições propícias para permitir a circulação do vírus e o aparecimento de novas variantes, tudo contribuindo para a permanência da infecção entre nós de forma endêmica.”

Brasil tem quase 30 fábricas de vacina para gado e só 2 para humanos

Foto: OWEN HUMPHREYS/PA WIRE

Enquanto o setor de vacinas para humanos depende da importação de 90% dos insumos, quase 100% das vacinas para gado sào produzidas inteiramente no Brasil

A pandemia da covid-19 evidenciou uma fragilidade do Brasil: a alta dependência de insumos importados da China para a fabricação de vacinas e o sucateamento de laboratórios e fábricas usados para produzir imunizantes no país.

Enquanto na década de 1980, o Brasil tinha pelo menos cinco institutos capazes de produzir vacinas, atualmente, há apenas dois em operação: Bio-Manguinhos, da Fiocruz, e o Instituto Butantan.

E das 17 vacinas atualmente distribuídas por esses dois institutos de pesquisa, só quatro são fabricadas totalmente no Brasil e não dependem da importação do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), como é chamada a matéria-prima para produzir imunizantes.

Esse sucateamento do setor de vacinas para humanos contrasta com os elevados investimentos na fabricação nacional de imunizantes para animais, principalmente gado.

Enquanto o Brasil importa a grande maioria das vacinas usadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mais de 90% das vacinas para gado são fabricadas no país, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan).

“O problema do Brasil é que a gente importa tudo. Nos últimos anos, reduzimos em 50% a capacidade de produção nacional de vacinas. Temos só duas fábricas. No setor veterinário, temos inúmeras fábricas”, diz Ana Paula Fernandes, pesquisadora do Centro de Tecnologia em Vacinas e Diagnóstico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

De fato, existem cerca de 30 fábricas para vacina veterinária — a maioria no Sudeste do país, segundo o Sindan. Trata-se de um mercado que garantiu faturamento de R$ 6,5 bilhões ao setor farmacêutico veterinário e que ajuda a manter a liderança mundial do Brasil na exportação de gado.

REUTERS/PHIL NOBLE
‘Para mais de 90% das vacinas para gado, o ciclo completo de produção ocorre em território brasileiro’, diz Emílio Saldanha, vice-presidente do Sindan

“Todo o processo de fabricação, da semente de trabalho do vírus vivo ao envase e distribuição, é feito aqui. Para mais de 90% das vacinas voltadas a gado, o ciclo completo de produção ocorre em território brasileiro”, disse à BBC News Brasil o vice-presidente executivo do Sindan, Emílio Saldanha.

Mas quando foi que o setor de vacinas para humanos deixou de ser prioridade, enquanto a vacinação de gado se desenvolvia?

Da autossuficiência à dependência da China
Segundo o fundador e primeiro presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gonzalo Vecina Neto, foi na década de 1980 que o setor de pesquisa e fabricação nacional de vacinas para humanos viveu o auge de investimentos.

“No regime militar, foi implementado o modelo de substituição de importações. Os militares fizeram um esforço para ampliar capacidade produtiva local de insumos farmacêuticos e o pico se deu no final dos anos 1980”, recorda.

Em 1985, o regime militar lançou o Programa de Autossuficiência de Imunobiológicos (Pasni), com a meta de tornar o Brasil autossuficiente na produção de imunizantes. Recursos do Ministério da Saúde foram transferidos em peso para quatro instituições de pesquisa: Bio-Manguinhos, Instituto Butatan, Fundação Ezequiel Dias e Instituto Vital Brasil.

Em poucos anos, o Brasil passou a fabricar uma série de vacinas em território nacional, como a da tríplice viral, febre amarela, tríplice bacteriana, poliomielite, tuberculose (BCG), e hepatite B.

“Tanto para o Butantan quanto para a Fiocruz os investimentos da década de 1980 foram um marco. O Brasil possuía um parque farmoquímico para produção de IFA (Insumo Farmacêutico Ativo)”, disse à BBC News Brasil Tiago Rocca, gerente de parcerias estratégicas e novos negócios do Butantan.

Mas a maré logo iria mudar para a indústria de pesquisa em vacinas. A partir de março de 1990, a abertura comercial promovida pelo então presidente Fernando Collor permitiu a entrada maciça de produtos importados e muitas indústrias brasileiras não resistiram, inclusive o setor de imunizantes. Nesse meio tempo, China e Índia despontaram como grandes produtores de insumos farmacêuticos.

“O Brasil passou a importar em larga escala IFA, moléculas pequenas e outras matérias-primas usadas para fazer vacina. O problema é que os investimentos não acompanharam a competitividade e abertura. Atualmente, importamos cerca de 90% dos insumos imunobiológicos”, explica Rocca, do Butantan.

Como consequência da abertura econômica, institutos e fábricas foram fechando as portas, restando apenas Fiocruz e Butantan com capacidade para produzir vacinas de tecnologia nacional.

“A abertura da economia no governo Collor foi feita sem cuidado, sem verificar como os diferentes segmentos seriam afetados. Na indústria farmacêutica, o que fizemos foi secar a capacidade de produção nacional e passar a importar tudo através das multinacionais”, acrescenta Vecina Neto, que é professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Regulamentação mais rígida e necessária foi ‘prego no caixão’

Outro momento importante na trajetória da indústria de vacinas foi a criação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no governo Fernando Henrique Cardoso, em 1999.

O Brasil passou a adotar um regime mais criterioso para liberação de medicamentos e foram impostas regras para equiparar o Brasil aos padrões internacionais de segurança em qualidade em pesquisa.

Os pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil dizem que essas medidas foram importantes, mas destacam que elas não foram acompanhadas de investimentos para que institutos como Fiocruz e Butatan pudessem atualizar sua infraestrutura e continuar a fabricar vacinas de ponta a ponta no país.

O resultado disso foi que imunizantes que antes eram produzidos no Brasil passaram a ser importados. O Butantan, por exemplo, fabricava a vacina Tríplice Bacteriana Acelular (contra difteria) e a de hepatite B, mas passou a importar esses produtos porque é custoso atualizar as fábricas para que se adequem às exigências regulatórias.

“Nós registramos a patente, detemos a tecnologia, mas precisamos de uma nova fábrica para produzir essas vacinas de acordo com as melhores práticas da Anvisa”, explica Tiago Rocca.

Atualmente, das sete vacinas que o Instituto Butantan fornece só a da gripe é fabricada inteiramente no Brasil, a partir de um acordo de transferência de tecnologia. E das 10 vacinas fornecidas pela Fiocruz, só 4 não dependem da importação de Insumo Farmacêutico Ativo, ou IFA.

Gonzalo Vecina Neto avalia que os governos que se seguiram ao de Collor, inclusive os de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, não tiveram uma visão de longo prazo e também não investiram em pesquisa farmacêutica e de vacinas.

“O boom das commodities estimulou os governos a navegar em águas tranquilas e se fiar na exportação de produtos agrícolas. Por que FHC e Lula não investiram na autossuficiência em vacinas? Falta de visão de longo prazo. Nenhum dos dois tirou o pé do curto prazo, do populismo local, da reeleição no quarto ano.”

“Vale da Morte”

Segundo a microbiologista Ana Paula Fernandes, que é professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o grande gargalo na indústria nacional de vacinas está na ausência de laboratórios tecnológicos e plantas fabris para viabilizar a transformação da pesquisa em produto final.

“Temos capacidade técnica, pesquisadores de ponta, mas existem gargalos que impedem que as descobertas se transformem em vacina. Temos conhecimento técnico para fazer vacinas como a da Pfizer e Moderna contra a covid-19, mas não temos matéria-prima, investimentos e fábricas para produzir”, resume.

Esses gargalos são chamados pelos cientistas de “vale da morte”. Isso porque, entre a descoberta científica e o uso desse achado, existe um abismo atualmente intransponível.

Segundo o professor de imunologia da USP Jorge Kalil, faltam laboratórios e plantas fabris que permitam testar a descoberta das universidades em animais e, depois, em seres humanos.

“O que impede que isso aconteça é falta de investimentos. Nós temos uma ciência de excelência no Brasil, mas precisamos atravessar o vale da morte, que é ir da descoberta científica nos laboratórios acadêmicos para a fase final, da industrialização”, diz Kalil, que também é diretor do Laboratório Incor de Imunologia e ex-presidente do Instituto Butantan.

Interesse econômico alimenta vacinas veterinárias

Já o setor de vacinas veterinárias conseguiu sobreviver à abertura de mercado e escapou às regulações criteriosas da Anvisa.

A liberação de vacinas e medicamentos para uso animal é regulamentada pelo Ministério da Agricultura, que impõe regras mais flexíveis, diz o ex-presidente da Anvisa Gonzalo Vecina Neto.

Além disso, um amplo e lucrativo mercado privado garante a compra das vacinas para gado, suínos e aves, enquanto o maior comprador de vacinas humanas é o governo federal.

Brasil chega a exportar vacinas veterinárias a paises da América do Sul, diz Ministério da Agricultura

O Brasil é o maior exportador de gado do mundo e a quantidade de bois no território brasileiro equivale ao tamanho da população brasileira. A venda em larga escala de vacinas para uso animal garante que seja mais vantajoso fabricar o produto no Brasil a importar de outros países, até porque o custo de fabricação é menor que o de vacinas para humanos, já que as regras são menos rígidas que as impostas pela Anvisa.

Otto Mozzer, dono da Allegro Biotecnologia, destaca ainda que parte da indústria de vacina animal cresceu na garupa do programa do governo federal de erradicação, até 2026, da febre aftosa — doença altamente contagiosa que pode causar a morte do animal e que provocava grandes prejuízos aos produtores.

“O grande parque tecnológico industrial foi na trilha da produção de vacina contra febre aftosa. Todos captaram recursos para fabricação dessa vacina e foram produzidos, nos últimos 20 anos, mais de R$ 6,2 bilhões de doses aqui no Brasil”, disse Mozzer, que é doutor em biotecnologia pela USP.

Para se ter uma ideia, o Brasil tem cerca de 220 milhões de cabeças de gado, segundo o vice-presidente-executivo do Sindan, Emilio Saldanha. Cada um desses animais, precisa tomar duas doses de vacina contra febre aftosa — uma exigência do Ministério da Agricultura para todos os produtores de gado do país.

“Faz 30 anos que somos autossuficientes nas principais vacinas para rebanho brasileiro. Vacinação é sinônimo de competividade”, destaca Saldanha.

E para que investir em vacina brasileira para humanos?
O principal argumento contrário a investir em vacinas nacionais é o de que, atualmente, é mais barato importar produtos da Índia ou China do que construir laboratórios e fábricas para garantir autossuficiência. Atualmente, o déficit na balança comercial brasileira de insumos farmacêuticos é de R$ 2,1 bilhões (dado de 2019), segundo a Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi).

Como o Brasil passou por mais de 30 anos de desinvestimentos no setor, seria preciso um investimento pesado do poder público para reverter esse cenário.

Por outro lado, a pandemia do coronavírus mostrou os riscos de depender inteiramente da importação de insumos. A demora na entrega de matéria-prima pela China pode significar meses de atraso no cronograma de vacinação da população contra covid-19.

Além disso, há doenças que existem no Brasil e que não despertam interesse de pesquisa de grandes farmacêuticas estrangeiras, por serem um problema regional.REUTERS/PILAR OLIVARES

Para especialistas, investir em vacinas nacionais é estratégico para proteger população de doenças regionais e reduzir dependência externa, especialmente em momentos de crise, como em pandemias

“Por exemplo, tem um tipo de malária que é comum no Brasil, mas não em outros países. Temos dengue, zika, chikungunya… Fabricar vacinas eficazes contra doenças que predominam aqui é importante para proteger a população”, diz Ana Paula Fernandes, que participa de um projeto nacional de vacina contra covid-19.

O gerente de parcerias do Butantan, Tiago Rocca, também defende investimentos em tecnologia nacional. “Não é só uma questão de lucro, de custo e de venda. É uma questão estratégica não depender quase inteiramente de importações”, diz.

“Hoje, nós temos uma parceria com uma empresa estrangeira para continuar fornecendo a vacina da Hepatite B. Mas é uma questão estratégica ter a produção nacional, porque todos os habitantes do Brasil precisam tomar e precisam de dose de reforço a cada dez anos. É uma doença que está aí.”

Cientistas brasileiros também argumentam que investir na infraestrutura de fabricação nacional de imunizantes é importante para fazer frente ao coronavírus, especialmente diante de evidências de que as vacinas contra a covid-19 terão que ser atualizadas constantemente para responder a variantes do vírus.

Butantan assinou contrato de transferência de tecnologia para produzir no país a CoronaVac. E a Fiocruz negocia contrato similar com a Oxford-AstraZeneca. Os dois institutos investiram na atualização das suas fábricas e laboratórios para viabilizar esses acordos.

Enquanto isso, pesquisadores brasileiros tentam angariar recursos para colocar no mercado vacinas feitas com tecnologia 100% nacional.

O grupo de pesquisa da microbiologista Ana Paula Fernandes, da UFMG, já terminou a fase pré-clínica de estudos para produção de uma vacina brasileira contra covid-19. “Tivemos uma resposta excelente. Usamos camundongos e eles responderam muito bem.”

O professor Jorge Kalil, da USP, tenta desenvolver uma vacina em formato de spray nasal contra covid-19. Ele também já usou o produto em camundongos e tenta transpor o “vale da morte” para conseguir testar o produto em humanos.

“Se a gente consegue dinheiro para a fase mais fundamental da descoberta, é difícil percorrer o caminho que leva ao desenvolvimento do produto industrializado. Estamos agora negociando parcerias com empresas brasileiras.”

“Barões evangélicos são parceiros de projeto ultraconservador de Bolsonaro”, diz pastor

Ronilso Pacheco, da Comunidade Batista de São Gonçalo, afirma que política e religião sempre se misturam, mas que é “melhor fazer opção que contribua para os direitos humanos”.

Bolsonaro e Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e aliado do presidente

As igrejas evangélicas poderosas, que dispõem de presença na mídia e influência política , são hoje parceiras de um projeto “ultraconservador” do governo Jair Bolsonaro, que nega direitos e explora a fé dos mais pobres. Os “barões da fé”, porém, não representam a totalidade do público evangélico, e parte desses fiéis adota no seu cotidiano práticas de acolhimento e respeito das diferenças, na opinião do teólogo Ronilso Pacheco.

Nascido em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, Pacheco é pastor auxiliar da Comunidade Batista na sua cidade e ativista de direitos humanos. Autor do livro Ocupar, Resistir, Subverter: Igreja e teologia em tempos de racismo, violência e opressão, é hoje  pesquisador da Fundação Ford e está terminando o mestrado em teologia na Universidade Columbia, em Nova York.

Em entrevista à DW Brasil, Pacheco afirma que o vínculo entre igrejas evangélicas e a atuação política conservadora no país data da sua fundação, no século 19, por americanos brancos e racistas que perderam a Guerra da Secessão, migraram ao Brasil em missão evangelizadora e se aproximaram das elites locais. O vínculo com o poder fortaleceu-se na ditadura, consolidou-se na democracia e atingiu maior radicalismo sob Bolsonaro.

“Há um conglomerado dos barões da fé, parceiros de um projeto ultraconservador e fundamentalista, negador de direitos e que se recusa ao diálogo interreligioso. São parceiros de um projeto de poder que exclui os pobres, explorador da fé dos pobres”, afirma Pacheco. Segundo ele, a atuação desses setores da igreja só é possível “traindo” a história de Jesus Cristo registrada na Bíblia, como alguém resistente à hierarquia do poder e movido pela missão de “destituir os poderosos, tirar a riqueza dos ricos e dar aos pobres”.

Pacheco identifica uma novidade na relação entre o que chama de igreja evangélica hegemônica e o poder sob a gestão Bolsonaro. Além dos tradicionais parlamentares da bancada evangélica, que buscam prestígio e espaço para as suas igrejas, houve a chegada de líderes religiosos interessados em fazer uma “guerra cultural” para influenciar a construção da identidade da sociedade brasileira.

São representantes desse movimento no governo o ministro da Educação, Milton Ribeiro, pastor presbiteriano calvinista, o ministro da Justiça, André Mendonça, pastor presbiteriano, e a ministra Damares Alves, “uma evangélica pentecostal fundamentalista e ultraconservadora na condução de direitos humanos”, diz Pacheco. “Tudo atravessado pela afirmação de uma supremacia cristã conservadora”.

Ele afirma, porém, que há na comunidade evangélica muitos exemplos de igrejas e pessoas que, por mais que não se identifiquem com a agenda de partidos de esquerda, adotam práticas progressistas no seu dia a dia. Para Pacheco, um “esforço metodológico e pedagógico” e uma abordagem “afetiva” poderia aproximar mais os evangélicos de agendas como direitos LGBT, liberalização de drogas e legalização do aborto.

“Política e religião, queira ou não, sempre se misturam. Por isso, é melhor reconhecer isso e fazer uma opção que contribua para uma política que respeite os direitos humanos e a liberdade”, diz.

DW Brasil: Qual é o papel da religião na esfera pública?

Ronilso Pacheco: No contexto da América Latina e do Brasil, tem um papel fundamental para a formação da identidade da sociedade e da tradição popular. A religião serve como uma espécie de pano de fundo e orientadora de decisões, e pode ser determinante para legitimar ou deslegitimar uma determinada política.

Isso não se choca com a laicidade do Estado?

Não, pois laicidade do Estado não é a neutralização da presença da religião, mas a harmonia e o diálogo entre diferentes expressões religiosas. O que fere a laicidade do Estado é a perspectiva de superioridade de uma determinada religião em detrimento da outra, o que tem sido um pouco a nossa tradição.

Religião e política devem se misturar?

A ideia da separação entre religião e política tem muita influência da perspectiva iluminista, da idade da razão, europeia, onde essas distinções são bem marcadas. Mas não faz sentido, por exemplo, se levarmos em consideração a sociedade indígena, que tem uma forma de viver a política indissociável da perspectiva transcendental. Também é impossível separar o que é a vida política da perspectiva religiosa em algumas sociedades do continente africano.

Mesmo em contextos em que se prega um distanciamento entre a religião e a política, a perspectiva religiosa já se impregnou de maneira decisiva na política. A religião é um pano de fundo da perspectiva constitucional e da organização da sociedade. E também da perspectiva de luta e resistência, de pensar em alternativas. Nos assentamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) ou do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) há uma religiosidade forte, com ênfase na mística.

O movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos é indissociável de grandes lideranças das igrejas, principalmente das igrejas negras. Na América Latina não é diferente, se você pensar nos conflitos no Peru ou na Colômbia, e o papel que as igrejas têm de acolher e organizar a comunidade.

Política e religião, queira ou não, sempre se misturam. Por isso, é melhor reconhecer isso e fazer uma opção que contribua para uma política que respeite os direitos humanos e a liberdade, do que tentar fazer com que isso seja dissociável.

Ronilso Pacheco é pastor auxiliar da Comunidade Batista de São Gonçalo, pesquisador e ativista de direitos humanos

Você mencionou o MST e o MTST, que são movimentos de esquerda. Ao mesmo tempo, há movimentos e partidos de direita e extrema-direita vinculados a igrejas. A Bíblia abrange essas duas perspectivas ou é questão de interpretação?

Não é uma questão de interpretação, é uma questão de escolha das histórias que você quer dar ênfase. A Bíblia contém diversas narrativas sobre como Deus interage com as pessoas, ou como os povos interagem com Deus. Ambas [as perspectivas políticas] se expressam na Bíblia, ali há o contexto do mundo real, marcado por pessoas solidárias mas também por déspotas, marcado por traidores e gente muito violenta, mas também por gente disposta a lutar por justiça.

Se você escolhe dar ênfase às histórias do Novo Testamento, às histórias de Jesus, não há crises de interpretação. Ao contrário, você é confrontado em como as opções de algumas lideranças [religiosas] são traidoras da memória de Jesus que está nos Evangelhos.

Não é passível de interpretação que Jesus foi acolhedor, alimentando a multidão e estimulando a partilha. Não é a questão de interpretação como Jesus foi resistente à ideia de superioridade, de uma hierarquia de poder. No Evangelho de Lucas, Jesus fala que veio para libertar os cativos, para acolher os pobres. Não é passível de interpretação a fala de Maria, quando está grávida de Jesus e diz como que ele seria, de maneira bem expressa: ele virá para destituir os poderosos, tirar a riqueza dos ricos e dar aos pobres. A única maneira de burlar isso não é interpretação, é você trair essa memória.

Agora, você pode voltar ao Antigo Testamento e escolher, por exemplo, quando o povo de Israel invadiu um determinado território e assassinou seus habitantes para tomar conta dele. Você pode escolher usar isso para legitimar uma pretensão de poder. Mas as histórias em que Jesus está envolvido não são passíveis de interpretação, e são diferentes de qualquer perspectiva de superioridade e dominação.

Por que a igreja evangélica é hoje predominantemente identificada com a direita?

Eu diria que é a igreja hegemônica [evangélica]. Eles têm tanto poder comunicacional, um império de mídia, que tomam conta da noção sobre o que é a identidade e a estratégia evangélica. Há um conglomerado dos barões da fé, parceiros de um projeto ultraconservador e fundamentalista, negador de direitos e que se recusa ao diálogo interreligioso. São parceiros de um projeto de poder que exclui os pobres, explorador da fé dos pobres.

Esse grupo acabou se tornando um rosto do que seria a igreja evangélica no Brasil, mas a igreja evangélica é muito maior e mais complexa que isso. Ela está presente de maneira cotidiana nas periferias das cidades. E, sem se olhar no espelho e dizer “sou progressista”, sua prática diária está mais direcionada a agendas progressistas, no sentido do acolhimento, da solidariedade social, do respeito à diversidade, porque está numa periferia com uma complexidade de pertencimentos.

Não que não existam igrejas e lideranças ultraconservadoras a fundamentalista nas periferias. Mas não diria que isso é a igreja evangélica no Brasil, pois seria desonesto com muitos esforços no território nacional, desde nas comunidades evangélicas do sertão a igrejas importantes nos grandes centros urbanos, que fazem um caminho completamente diferente, inclusive pagando um alto preço por isso.

Como se deu a aliança entre a igreja evangélica hegemônica e a direita? Há paralelos com o que ocorreu nos Estados Unidos?

Os paralelos são muitos. A presença evangélica no Brasil tem uma herança do universo evangélico conservador dos Estados Unidos. A formação da nossa igreja evangélica se dá com uma imigração significativa de evangélicos cristãos do sul dos Estados Unidos, que perdem a Guerra de Secessão [1861-1865] e vão fazer missões no Brasil. Eles têm um projeto de evangelismo, conquistar territórios, povos, converter almas, abrir novas igrejas. E é um um projeto profundamente conservador, inclinado à escravidão como parte da economia. É uma igreja que cresce associada à perspectiva elitista e de poder. Claro que há fissuras, mas há essa influência.

No início do século 20, sobretudo com a ampliação do campo pentecostal, mais ligado à Assembleia de Deus, eles constroem uma relação com governadores, presidentes, e isso se intensifica durante a ditadura militar. Há um apoio forte à ditadura de algumas igrejas, como as convenções da Assembleia de Deus. Essa parceria atravessa a ditadura e entra na redemocratização. O [deputado] Mateus Iansen, da Assembleia de Deus, foi o autor da emenda que permitia a prorrogação do mandato de José Sarney de quatro para cinco anos. Em seguida, foi beneficiado com uma concessão de rádio. Tudo isso para dizer que estamos falando de uma longa jornada, não é algo do governo Bolsonaro.

O que há de novo na aproximação de parte da igreja evangélica com a extrema direita de Trump e Bolsonaro?

Nos Estados Unidos, há uma convicção do nacionalismo cristão de que ele deve pautar a identidade nacional. Há um mito, sobretudo entre os evangélicos brancos do sul dos Estados Unidos, que eles foram um vencedor moral da Guerra de Secessão, pois têm os valores mais nobres, respeitam os valores cristãos, têm amor à Bíblia e à família. A extrema direita nos Estados Unidos foi construída a partir desse nicho.

No Brasil, se for apontar algo novo, é a maneira como o grupo neocalvinista e calvinista conservador conseguiu fazer parte desse governo [Bolsonaro] de uma maneira significativa, dando outro tom para a atuação da extrema direita. Se já tínhamos a forma mais tradicional dessa influência com a bancada evangélica, com políticos que vêm de longas décadas e têm o objetivo de manter seu poder e influência, o grupo neocalvinista e calvinista conservador traz outro elemento, conectado com o que acontece nos Estados Unidos: assumir uma guerra cultural. Mais do que ter poder e recursos para sua igreja, é como influenciar na construção da identidade da sociedade brasileira. Então a disputa está na educação, na cultura.

Por isso, mais do que tomar conta do Legislativo, o importante é fazer as disputas certas nesses lugares e estar na área da educação, na área da cultura, na Suprema Corte, para construir uma identidade cultural que marque a supremacia cristã conservadora. O governo Bolsonaro deu espaço a essa investida, surgiu a oportunidade de não ter vergonha de assumir que a disputa é por uma supremacia cristã. Há a volta do discurso da cristofobia e um presidente que verbaliza isso, inclusive na ONU.

Há postos-chave do governo ocupados por nomes que se orientam por essa lógica. Você tem um pastor presbiteriano calvinista no Ministério da Educação [Milton Ribeiro], um pastor presbiteriano no Ministério da Justiça [André Mendonça], um católico ultraconservador no Ministério das Relações Exteriores [Ernesto Araújo] e uma evangélica pentecostal fundamentalista e ultraconservadora na condução de direitos humanos [Damares Alves], fazendo a disputa do que é direitos humanos e do que não é direitos humanos. Tudo atravessado pela afirmação de uma supremacia cristã conservadora, indiferente ao debate da tolerância e do diálogo interreligioso.

Qual é a representatividade da visão progressista hoje na igreja evangélica?

É um número muito significativo, mas conceituo o evangélico progressista de maneira mais aberta. Se você perguntar se ele é progressista, ele provavelmente vai dizer que não, ou que não sabe o que é isso. Me oriento mais pela prática e pela ética de movimentos e grupos de pessoas do que propriamente um compromisso com uma agenda.

Há muitas comunidades importantes em várias localidades, sobretudo nas periferias. Como por exemplo a Igreja Batista do Pinheiro, que fica em Maceió e foi expulsa da Convenção Batista Brasileira porque passou a aceitar casais homoafetivos na sua congregação e dar a eles o direito de participar da liturgia do culto. Há evangélicos fazendo isso sem alarde, que são acolhedores com o povo LGBTQI+. Há comunidades que têm relação de amizade com lideranças religiosas de outras tradições, como de matriz africana, à revelia dos ataques diários sofridos por muitos terreiros. Essa rede de solidariedade está além dos debates, por exemplo, sobre o aborto. Quando a realidade do aborto chegar, a comunidade vai pensar no que fazer. Ela não está dentro de um debate de legalizar ou não legalizar o aborto.

E como avalia a relação atual entre os partidos políticos de esquerda e centro-esquerda com o público evangélico?

Esse grupo ainda está meio perdido. As derrotas têm sido sucessivas, e há impossibilidade de comunicar e construir alternativas desde o fim da era Lula. No primeiro mandato Lula, houve uma participação mais expressiva de evangélicos progressistas.

Também tem um pouco de uma mentalidade iluminista da esquerda, no sentido de ser dona da razão, de saber propor e apontar os caminhos, de decidir o que é melhor na disputa pelos direitos humanos. Ou de empurrar determinadas agendas que são difíceis de entender, se você não gastar tempo em como tornar aquilo acessível e mostrar que é importante para a sociedade.

O campo progressista de esquerda está com muito receio desse diálogo, há muito pisar em ovos, mas está aberto a aprender que caminhos podem ser construídos.

O campo progressista tem chance de ampliar seu apoio entre os evangélicos se continuar defendendo pautas como direitos da comunidade LGBT e liberalização das drogas e do aborto, ou teria que reduzir o apoio a esses temas?

Não tem como como reduzir o apoio, porque essa é a identidade progressista, são agendas das quais não se pode abrir mão. É muito mais como pensar em como fazer isso ser compreendido e importante no dia a dia.

Alguns lidam com isso na realidade do dia a dia, como em relação à liberação das drogas. Há pessoas que perderam o filho, vizinhos, parentes, amigos. Mas não é imaginar que você vai fazer uma cartilha sobre a liberação das drogas com uma linguagem voltada para o público evangélico e isso vai resolver o problema de comunicação. Precisa estar vinculada à construção de uma relação afetiva.

O campo fundamentalista conservador tem uma aproximação em uma linguagem mais afetiva, e o campo progressista tem uma linguagem mais estética. E, às vezes, a estética não comunica. Precisa de um esforço metodológico e pedagógico de se aproximar e aderir às diversas camadas da comunidade e de fazer com que uma agenda seja compreendida. A mesma coisa com relação à questão do aborto e à questão LGBT.