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‘Acostumados à barbárie’: Pesquisadora de Oxford alerta para risco de normalização de incêndios na Amazônia

Fogo e desmatamento na Amazônia causam preocupação em todo o mundo

Um grande risco para a Amazônia nos próximos anos é a normalização dos incêndios no bioma, alerta a bióloga brasileira Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster, ambas no Reino Unido.

A especialista, que estuda os impactos do fogo na Amazônia, ressalta que neste momento as atenções sobre as queimadas estão voltadas para o Pantanal, que enfrentou a seca mais intensa das últimas décadas e o pior período de incêndios em sua história recente.

Apesar de reforçar a importância de se falar sobre a situação do Pantanal e de cobrar ações rápidas das autoridades para a região, Berenguer pontua que não se deve esquecer dos problemas vividos na Amazônia.

O turismo de onças e a tragédia dos incêndios no Pantanal: Uma reflexão

O Capitalismo da morte!
Da série:”Ao fim e ao cabo não irá sobrar nada. Nem a ira nem o choro”


No início de agosto, resolvi aceitar o convite de um amigo de longa data para ir ao o Pantanal com minha companheira Margarete, para matar a saudade das onças-pintadas do Porto Jofre.

Por:Peter G. Crawshaw Jr.

Uma onça-pintada tomando sol no Pantanal, em agosto de 2019.
Foto: Martha de Jong-Lantink/Flickr.

Iríamos de avião de Porto Alegre a Brasília, onde encontraríamos o meu amigo, e depois seguiríamos em um carro alugado até Porto Jofre. Pelo meu histórico e conhecimento da região, eu havia sido encarregado de providenciar a logística de hospedagem no local. Já nos meus primeiros contatos, fiquei impressionado com o quanto o turismo direcionado às onças havia inflacionado e elitizado a oferta de hotéis e pousadas. Mesmo nas mais simples, as diárias chegavam a R$700,00 por pessoa, incluindo as refeições. A maioria delas era muito mais cara, algumas chegando a R$1.600,00 ou mais, com valores em dólares. O adicional do barco com piloteiro, para ter acesso aos locais usados pelas onças, representava um mínimo de R$1.200,00 a mais por dia. Portanto, para três pessoas por um período de sete dias, baseado nos menores valores que pude negociar, o preço total seria quase R$25.000,00, ou mais de R$7.000,00 por pessoa. Cheguei à conclusão que um funcionário público federal aposentado como eu não tem direito ao privilégio de observar uma onça-pintada na natureza, ao menos através da estrutura normal montada pelo setor especializado disponível no local.

Eu entendo que isso seja resultado da lei da oferta e da demanda, como me foi explicado por um amigo, que “como tem gringo de sobra querendo ver onça, as operadoras e pousadas aumentam o preço e continuam lotadas”, mas isso é tremendamente injusto para o turista brasileiro, que não pode competir com esses preços. Quase desisti da viagem, mas resolvi apelar para amizades e conseguimos, através de favores especiais, negociar uma situação aceitável de hospedagem. Quanto ao barco, uma amiga que desenvolve um projeto na região e que no momento se encontra fora do país, ofereceu o barco do projeto para nosso uso durante a visita. Como o barco se encontrava sem uso há oito meses, pagamos uma revisão completa por um técnico especializado vindo de Cuiabá, que deixou o motor e a embarcação prontos para o nosso uso. Com minha habilitação (arrais) em dia e minha longa experiência com barcos e conhecimento da área, depois de ter morado na região, eu mesmo pilotaria o barco.

Chegamos no Porto Jofre na tarde do dia 5 de agosto, e saímos com o barco para um reconhecimento. Eu já havia marcado de antemão no meu GPS vários pontos de avistamentos de onças ao longo dos rios e corixos repassados por minha amiga, a maioria deles dentro do Parque Estadual Encontro das Águas. O parque é considerado um dos melhores lugares do mundo para a observação da espécie. Saímos do rio Cuiabá e subimos um bom trecho do rio Três Irmãos, mas tivemos que voltar pelo avançado da hora. Fizemos o mesmo trajeto no dia seguinte, subindo novamente o Três Irmãos. Em um ponto, cruzamos com outro barco com turistas, cujo piloteiro nos avisou que tinham encontrado duas onças, dando-nos alguns detalhes dos locais. Seguindo mais ou menos as instruções, subimos até o corixo do Caxiri, entrando por ele e indo até o rio Cuiabá sem, entretanto, encontrar sinais das onças. Voltamos novamente para o Três Irmãos e subimos mais um trecho dele, entrando por outro corixo que também saiu no rio Cuiabá.

No trajeto, passamos por um local onde eu havia me hospedado em agosto de 2007, naquela época um pesqueiro particular, e agora uma pousada chamada Recanto do Jaguar Lodge. Encontramos apenas uma ariranha, que passou várias vezes por baixo do barco enquanto tentávamos tirar algumas fotos dela. Enquanto pilotava o barco, pensava no por que não havíamos encontrado ainda nenhuma onça. Dei-me conta que, pela economia que estávamos fazendo, não pagando os preços vigentes, nos faltava o apoio da eficiente rede montada pelos piloteiros e guias de turismo da região que, com rádios portáteis operando em uma mesma frequência, informavam as posições dos animais avistados para aqueles que se encontravam nos rios, procurando, descrevendo os locais com nomes específicos que todos eles conhecem, e permitindo assim livre acesso às informações e aos animais.

“Sentindo a água gelada, minha primeira reação foi agradecer aos céus por todos nós estarmos com coletes salva-vidas, um detalhe de segurança que eu havia insistido em observar.”

No nosso terceiro dia, ainda nos adaptando ao nosso sistema improvisado de exploração, resolvemos subir o rio Piquiri para visitar uma toca de ariranhas, cuja localização me havia sido passada por minha amiga, e que eu havia marcado no GPS. Antes de chegarmos ao local da toca, no entanto, encontramos o grupo de ariranhas se alimentando, e meu amigo começou a tirar fotos. Havia pelo menos uns 10 a 12 indivíduos espalhados, alguns mergulhando concentrados em pescar e outros, já com peixes, degustando a refeição apoiados em troncos dentro d’água.

O ar vibrava com os sons emitidos pelos animais. Eu havia esquecido meu equipamento fotográfico na casa de minha irmã em Porto Alegre antes de ir para o aeroporto e, portanto, tive que me ater a filmar o que pude com minha versão mais barata de filmadora GoPro. Tudo ia muito bem, o barco a uns 6 metros da margem direita e os animais pescando na margem esquerda a uns 40 metros de distância, todos envolvidos em um clima de exaltação, quando, de repente, aconteceu! Meu amigo, talvez concentrado demais nas fotos que estava tirando e nos equipamentos necessários, fez um movimento muito errado, vindo para o mesmo lado que eu estava, e desequilibrou o barco, desafiando as leis da física. Por uma fração de segundos, esperei o melhor e achei que a embarcação fosse se estabilizar, mas então, sem acreditar no que estava acontecendo, me dei conta que estávamos mesmo virando e íamos inexoravelmente ao fundo.

O peso do motor de 40 hp e a má distribuição momentânea de peso, apesar de perfeitamente dentro da capacidade do barco, fez com que ele girasse no seu eixo horizontal e, em uma velocidade inacreditável, tudo se acabou, ele sumiu na água profunda. Sentindo a água gelada, minha primeira reação foi agradecer aos céus por todos nós estarmos com coletes salva-vidas, um detalhe de segurança que eu havia insistido em observar! Enquanto terminava de fechar o último fecho do meu colete, comecei a chamar meus companheiros.

A Margarete respondeu imediatamente, ainda tentando em vão segurar a corda presa à proa do barco. Como filha de prático de navios no porto de Maceió, em Alagoas, ela havia crescido familiarizada com água. Meu amigo não respondeu e, preocupado, procurei por ele. Vi logo que ele estava flutuando, tentando com dificuldade segurar parte do seu pesado equipamento. Eu disse a ele que soltasse, pois sua vida era mais importante. Juntei duas mochilas que estavam flutuando próximas a mim e, analisando a situação, me dei conta que não conseguiria chegar à praia mais próxima, porque a correnteza, muito forte, nos levava na direção da margem oposta.

Margarete já estava quase chegando à praia, mas gritei para ela que deveríamos permanecer juntos. Segurando as mochilas, comecei a bater pernas e um braço, na intenção de aproveitar a correnteza para chegar à outra margem. Vi que meu amigo seguia mais ou menos o mesmo curso, mesmo sem se movimentar muito. Nadando de costas, eu conseguia enxergar por cima da testa a sombra das árvores se aproximando aos poucos. Quando pude me virar, vi um tronco de árvore enorme caído dentro d’água e me dirigi para ele mas, quando cheguei, a velocidade da correnteza me forçava para baixo dele. Eu sabia que se isso acontecesse, não conseguiria mais subir, pelo cansaço que já sentia. Optei por largar as mochilas, que a Margarete por sorte conseguiu juntar mais abaixo, e reunindo toda minha força, fui me esgueirando com os braços em direção à ponta do tronco, enquanto minhas pernas eram forçadas para baixo dele. Consegui finalmente fazer a volta por cima  e me agarrar em galhos secos um pouco mais abaixo, alguns dos quais iam quebrando, até que pude me firmar. Enquanto isso, a Margarete, em melhores condições físicas, tinha usado o remo que trouxera para puxar meu amigo para a galharia, pouco mais abaixo de onde eu estava. Estávamos agora os três quietos, recuperando o fôlego e nos recobrando do susto.

Pouco depois, antes mesmo de podermos pensar muito, escutamos o barulho de um motor e, em seguida, um barco apareceu na curva acima. Fizemos sinal e eles vieram nos socorrer. Já com quatro pessoas e bastante carga, pedi a eles que nos deixassem na praia do outro lado do rio e que avisassem a pousada onde estávamos hospedados, que eles providenciariam o nosso resgate. O pessoal do barco, no entanto, foi irredutível e não quis nos deixar na praia, pois, segundo eles, uma onça certamente iria nos pegar. Depois de reajeitar a carga e as pessoas no barco, abriram espaço para que embarcássemos. Cansado como eu estava e com as limitações de movimentos que tenho nas pernas desde um acidente de ultraleve em 1998, foi necessário que um dos pantaneiros me içasse como um guindaste para dentro do barco.

Durante o trajeto de volta a Porto Jofre, um dos passageiros nos contou que foi muita sorte eles terem passado por ali naquele momento. Disse ele que eram funcionários de uma pousada mais acima no rio Piquiri, fechada desde março devido à pandemia. Eles haviam saído para ir a Poconé, mas quis o destino que alguém esquecesse um documento e tiveram que voltar à pousada para buscá-lo. Se isso não tivesse acontecido, eles teriam passado por nós enquanto ainda fotografávamos as ariranhas, e nós teríamos perdido nosso resgate quase que imediato. Embora eu tivesse tido a precaução de dizer para onde iríamos, o pessoal da pousada só iria se preocupar com a nossa ausência se não chegássemos ao final da tarde, o que representaria, no mínimo, passar a noite na margem do rio. Se isso acontecesse, não seria a minha primeira vez, mas certamente seria uma experiência traumática para meus companheiros. O curioso foi que a Margarete, sendo neófita no Pantanal, depois de ter se portado exemplarmente durante todo o episódio, contou que havia todo o tempo ficado preocupada com as onças na praia e com jacarés abocanhando-a por baixo d’água, mas ficou horrorizada quando soube depois que havia também piranhas no rio…

Resgate do barco. Foto: Fernando Tortato/Panthera Brasil,

Enfim, chegamos ilesos de volta à pousada. As únicas perdas que tivemos foram os equipamentos, principalmente de meu amigo, que perdeu várias dezenas de milhares de dólares em câmeras e lentes. Mas, como diz o ditado, vão-se os anéis, ficam os dedos. Depois de explicar o ocorrido, o pessoal da pousada conseguiu ajuda da colônia de pescadores e eu voltei ao local do acidente para tentar localizar o barco afundado. Com a ajuda do piloteiro que havia nos resgatado, e tendo identificado o local com a ajuda do malfadado tronco para baixo do qual quase fui levado, achamos o barco. Com cordas e ganchos e puxando com três barcos, conseguimos levá-lo para perto da praia, e a força de oito homens acabou de puxá-lo até a margem. No trajeto de volta à pousada, agradeci aos céus pelas bênçãos que havia recebido naquele dia.

Ao chegar à pousada, providenciei novamente a vinda do mecânico para efetuar os procedimentos necessários para limpeza do motor, troca dupla de óleo e nova revisão. Infelizmente, fiquei sabendo que, por ter afundado, o motor, que tinha menos de 100 horas de uso, perdera a garantia de cinco anos pela fábrica. Isso selou o compromisso de comprar novo motor para devolver à minha amiga. No dia seguinte ao naufrágio, retornamos à Brasília e depois a Porto Alegre. Na semana seguinte, compramos um motor igual e, no dia 18 de agosto, eu estava de volta em Cuiabá para fazer a reposição. O barco está agora pronto para quando minha amiga chegar ao Brasil, no início de outubro. Enquanto isso, o motor afundado está passando por uma revisão completa e será colocado à venda, para diminuir nosso prejuízo. E pensar que tudo isso aconteceu porque estávamos tentando economizar!

“É cedo ainda, mas dá para imaginar o impacto que esses incêndios terão no Pantanal, não apenas nos animais, mas na vegetação como um todo.”

Enfim, usei esse incidente incomum como preâmbulo para escrever sobre a situação que tem deixado estarrecidos a todos aqueles que conhecem e que amam o Pantanal. É irônico agora, e muito triste, pensar que um mês atrás eu estava nesse mesmo local onde agora as chamas reduzem tudo a solo torrado e onde onças e antas são encontradas mortas ou resgatadas por grupos de pessoas abnegadas e levadas para tratamento, onde permanecem lutando entre a vida e morte.  E, como disse um amigo da área, “se os grandes e fortes estão morrendo, imagine os pequenos e indefesos”.

É cedo ainda, mas dá para imaginar o impacto que esses incêndios terão no Pantanal, não apenas nos animais, mas na vegetação como um todo. Esse impacto vai ser diferencial conforme as espécies, algumas se recuperarão mais rápido, outras demorarão muito mais. Talvez algumas não se recuperem. Não sabemos ainda se poderemos acompanhar todos esses processos, em todas as suas escalas. Mas será um imenso aprendizado. E espero, sinceramente, que possamos aprender pelo menos algumas lições básicas sobre como evitar situações semelhantes no futuro para que não se repitam. Porque, infelizmente, agora que o leite já se derramou, sabemos que o desastre vinha se anunciando há décadas.

O Pantanal é resultado de várias características, sendo uma das mais marcantes o seu ciclo anual, de cheia e de seca. Além desse, costumava ser identificado também um ciclo plurianual de secas e cheias, com um período de aproximadamente 14 anos de enchentes mais pronunciadas, seguido depois de outros tantos anos de secas acentuadas, que se alternavam. No entanto, desde as grandes cheias da década de 70, esse ciclo maior tem se desequilibrado, talvez como consequência de alterações antrópicas mesmo fora da bacia do Pantanal. Com o recuo da pecuária na parte central do Pantanal por causa das grandes enchentes, e com a criação e proteção de várias áreas para conservação, mais e mais extensões de mata foram se acumulando. Mesmo na região do Jofre, grandes áreas abertas foram sendo tomadas por ambientes florestados. Com os últimos anos de secas intensas, foram-se criando as condições que culminaram com a ignição dos fogos espalhados praticamente em toda a bacia do Pantanal, intencionais ou acidentais, ainda piorado pela longa ausência de chuvas nesse período. É o aspecto negativo das grandes extensões florestadas protegidas demais com a finalidade de conservação.

Combate aéreo ao incêndio no Parque Estadual Encontro das Águas.
Foto: Mario Friedlander/AECOPAN

São criadas as condições para os chamados “wildfires”, ou incêndios florestais, que, quando começam, ardem sem possibilidade de controle. Isso tem ocorrido mesmo em países com boas políticas de manejo de fogo, como Estados Unidos, Austrália e alguns países da Europa. Temos que proteger grandes áreas de mata, sim, mas, ao mesmo tempo, manter condições de protegê-las contra fogo, por mais dispendioso e trabalhoso que isso possa ser.

Como apontado por um amigo, Walfrido Tomás, da Embrapa Pantanal, as mudanças climáticas globais são agora um componente mais sério. No ano passado, choveu 25% menos que a média na Bacia do Alto Paraguai, e esse ano já estamos ultrapassando 40% de déficit em relação à média. Os cenários de mudanças climáticas indicam que a partir de 2070 os modelos mais negativos seriam de uma redução de 30% em relação à média, com aumento da temperatura e incidência de eventos climáticos extremos. O Pantanal é regido por instabilidade quando se olha em escala de tempo mais longo, não em ciclos previsíveis. O que era o “normal” já não vale mais, mesmo sendo caracterizado por instabilidade. A região vai se tornando mais seca e mais quente, e esse será um novo normal. Assim, como preconizado por ele, talvez seja necessário se adaptar à uma nova realidade, onde mesmo as tradições, usos e costumes no manejo das terras terão que ser adequadas ao novo normal. Isso inclui o manejo de áreas protegidas, cujos gestores precisam ser realistas e adotar a queima prescrita como uma pratica conservacionista de rotina, como já feito por algumas unidades de conservação. Ao invés de disputas e conflitos, quem sabe seja preciso uma aproximação de objetivos, fazendeiros usando a terra de forma mais parecida com as unidades de conservação e as unidades de conservação sendo protegidas de forma mais parecida com as fazendas.

Para o momento, vamos ter que correr atrás do prejuízo, e esperar que o Pantanal, com sua resiliência, comece a se regenerar. E enquanto toda a sua parte biológica lambe suas feridas, a parte antrópica, social, que sobrevive a esse desastre ambiental, com muitos daqueles que viviam em função do turismo da onça, terão que se reinventar e se readequar, na esperança que, algum dia, em breve, as onças possam voltar a ser o astro principal no palco onde a natureza brilha mais forte, nos rios do Pantanal. Esperamos que depois que as chamas se apaguem, possamos descobrir que as sobreviventes serão bem mais numerosas que aquelas mortas ou retiradas para recuperação e que elas consigam se acomodar e sobreviver no que restar da hecatombe que passou pelo que antes era sua casa. É provável que por alguns anos, as fotografias dessas onças tiradas por turistas na beira dos rios não tenham o verde e o aspecto selvagem que costumavam ter, mas com o tempo, eles voltarão. E quem sabe então, esse tipo de turismo possa vir a ser mais equilibrado, e não restrito apenas aos mais abastados, de forma que pessoas com menor poder aquisitivo também tenham acesso ao privilégio de ver uma onça em seu lugar de direito.

Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

Meio Ambiente & Queimadas; Um governo BioGenocida

Da série:”Ao fim e ao cabo não irá sobrar nada. Nem a ira nem o choro”.

O presente virou pó, cinzas. Se não reagirmos agora diante da destruição em massa que abate o Pantanal, a Amazônia e o Cerrado, o futuro próximo será sem ar e sem água.

Eis um biogenocida.

Ministro(?) do Meio Ambiente Ricardo Salles abre a cloaca para excretar estupidez: “questões ideológicas favoreceram #queimadas no Pantanal”.

É um insano, o “Sinistro# do MeioAmbiente ao atribuir perseguição à criação de gado como fator de descontrole, embora reconheça que “há muito fogo” na região.

O Capitalismo da Morte em sua mais tenebrosa ação.

Terra indígena Xingu. Precisamos pressionar o Ministério Público, tanto estadual quanto federal. Precisamos citá-los em todos os posts, e comentários relativos à tragédia ambiental no Brasil. Só assim vão se sentir constrangidos a fazer algo!
Matar índios e pobres é “esporte” ancestral no Brasil.

Rodovia Transpantaneira, antes e depois dos incêndios. O mundo está vendo isso.
News in the international press.
“Road crossing Pantanal, one of the world’s largest flooded grasslands, before and after wildfires. Home to hundreds of animals species turned into an immense graveyard of mammals and reptiles.

“O coronavírus é uma brincadeira de criança diante do que a mudança climática trará”.
Rodrigo Medellín

#ForaRicardoSallesUrgente #BrasilEmChamas #DefundBolsonaro
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Por que o lixo plástico é um material de construção ideal

E se transformássemos os crescentes terrenos baldios de plásticos em desuso em um novo tipo de construção sustentável?

O descarte de plásticos é um problema global altamente visível – das montanhas mais altas às fossas oceânicas mais profundas, os resíduos de plástico parecem inevitáveis. Em condições naturais, os plásticos são quase indestrutíveis e, no entanto, são descartados em grande escala no mundo todo: o mundo produz cerca de 359 milhões de toneladas de plásticos por ano. O meio ambiente não consegue lidar com o seu descarte em uma velocidade rápida o suficiente para evitar danos aos seres vivos.

Isso levou a um consenso de que os plásticos são um material insustentável. E sim, os plásticos são certamente um problema enorme, mas não necessariamente têm que ser.

A questão principal não é com o plástico como material, mas com nosso modelo econômico linear: os bens são produzidos, consumidos e depois descartados. Este modelo pressupõe um crescimento econômico sem fim e não considera os recursos esgotáveis ​​do planeta.

Mas existem muitas maneiras de definirmos os plásticos em um ciclo de vida diferente – e uma em que venho trabalhando é transformar plásticos em desuso em um material de construção resistente, confiável e sustentável.

A maioria das pessoas acredita que a reciclagem de plásticos é severamente restrita: que apenas alguns tipos podem ser reciclados. Isso não é surpreendente. A proporção de plásticos que são reciclados é mínima. O Reino Unido, por exemplo, usa cinco milhões de toneladas de plástico a cada ano e apenas 370.000 toneladas são recicladas a cada ano: isso é apenas 7%.

Os plásticos são fortes, duráveis, à prova d’água, leves, fáceis de moldar e recicláveis – todas as propriedades essenciais para materiais de construção
Mas todos os polímeros são, tecnologicamente, 100% recicláveis. Alguns deles têm o ciclo de vida perfeito do berço ao berço: eles podem ser usados repetidamente para produzir os mesmos produtos. Alguns plásticos podem ser reutilizados da mesma forma que fragmentam um objeto em flocos, derretendo-o e reutilizando.

Tijolos como esses poderiam ser o protótipo de tijolos de plástico que são fortes e duráveis ​​o suficiente para serem usados ​​na construção (Crédito: Sibele Cestari)

Esses plásticos reciclados podem ter propriedades mecânicas menores em comparação com os plásticos virgens, porque cada vez que você derrete e processa um plástico, as cadeias poliméricas se degradam. Mas essas propriedades podem ser recuperadas misturando-o a aditivos ou plástico virgem. Exemplos de reciclagem industrial bem-sucedida incluem PET ou poli (tereftalato de etileno), que é usado para fazer garrafas de refrigerantes, e poliestireno.

Todo o resto pode ser tecnicamente reprocessado em novos materiais para diferentes aplicações. No caso final, qualquer resíduo de plástico pode ser triturado e usado como enchimento de asfalto, ou ser pirolisado – decomposto por aquecimento – para produzir combustível. A empresa japonesa Blest Corporation já vende uma máquina portátil para converter resíduos plásticos domésticos em combustível de forma simples e acessível.

Trabalhar com os resíduos ‘não recicláveis’ e desenvolver alternativas de plásticos aos materiais naturais pode reduzir a demanda por recursos do mundo
O problema é que reciclar grande parte desse lixo plástico é atualmente inviável e não rentável. Polímeros como borrachas, elastômeros, termofixos e resíduos plásticos mistos são confortavelmente rotulados como “não recicláveis” pelo setor de reciclagem. Mas a quantidade desses materiais em todo o mundo é assustadoramente grande e continua crescendo. E se esse lixo plástico pudesse ser usado para produzir algo útil para a sociedade?

Itens de plástico que consideramos lixo podem ter uma segunda vida na construção devido às mesmas propriedades que os tornam tão difíceis de descartar (Crédito: Getty Images)

Muitas universidades e empresários estão tentando fazer isso. A maioria das soluções é voltada para resíduos plásticos mistos e sugere aplicações diferentes das originais. Por exemplo, vários grupos desenvolveram materiais de construção feitos de resíduos plásticos.

Os plásticos são fortes, duráveis, à prova d’água, leves, fáceis de moldar e recicláveis ​​- todas as propriedades essenciais para materiais de construção. E daí se todo esse lixo plástico pudesse ser convertido em materiais de construção para populações de baixa renda? As iniciativas existentes são promissoras, mas ainda não reproduzíveis em escala industrial.

Estudo resíduos plásticos com o objetivo específico de encontrar maneiras interessantes de removê-los do meio ambiente. Desde 2009, desenvolvi vários materiais de construção feitos de plásticos pós-consumo misturados com diferentes materiais de fluxo de resíduos. De resíduos agrícolas, como o bagaço da cana-de-açúcar – um subproduto da indústria açucareira no Brasil – e borra do café, até resíduos de concreto e entulho de construção, compostos com plásticos reciclados, existem várias formas de obter materiais para produzir tijolos, telhas, plásticos madeira serrada e outros elementos úteis para a construção.

Nossa equipe está atualmente tentando desenvolver um bloco de construção viável feito de plásticos reciclados. Preparamos uma série de materiais prospectivos usando uma mistura de plásticos virgens e reciclados – garrafas PET coloridas, polipropileno, polietileno – e outros materiais de resíduos locais, como cânhamo, serragem, resíduos de concreto e lama vermelha.

Existe uma concepção comum de que algum plástico é “não reciclável”, mas com o tratamento correto não precisa ir para aterro (Crédito: Sibele Cestari)

Atualmente, estamos ajustando as propriedades dos materiais para o processo de rotomoldagem, uma tecnologia de moldagem de plásticos ideal para a fabricação de grandes artigos ocos. Queremos usar a quantidade máxima de plásticos reciclados neste bloco. Os blocos feitos de 25% de plástico reciclado tiveram um desempenho extremamente bom em testes mecânicos. Em seguida, vamos tentar 50%, 75% e 100%.

Também estamos pensando na estética dos blocos. As misturas de plásticos reciclados de várias cores geralmente acabam com uma cor cinza ou preta. Para habilitar a cor, estamos preparando misturas de plásticos virgens ou reciclados para cobrir a maior parte do bloco.

Portanto, talvez os plásticos não sejam necessariamente o problema. Eles podem fazer parte de um caminho para uma forma de vida mais sustentável. Usar um recurso natural ou renovável não é necessariamente amigo do ambiente. A pegada ecológica de um material polimérico é menor do que a de materiais naturais, que têm uma demanda considerável por terras aráveis, água limpa, fertilizantes e tempo de regeneração.

De acordo com a Global Footprint Network, antes da pandemia estávamos demandando 1,75 vezes os recursos disponíveis do planeta. Trabalhar com os resíduos “não recicláveis” e desenvolver alternativas de plásticos aos materiais naturais pode reduzir essa demanda e deixar um planeta mais limpo e sustentável para as próximas gerações.

Construir com resíduos de plástico requer menos recursos do que produtos naturais e, de outra forma, iria para aterros ou para os oceanos (Crédito: Sibele Cestari)

Os materiais de construção feitos de plástico reciclado ainda não são amplamente usados ​​na indústria da construção – os protótipos têm sido usados ​​principalmente para instalações demonstrativas. Será necessária vontade política e ampla conscientização ambiental para incentivar mais investimentos no potencial da reciclagem de plásticos.

Mas, esperançosamente, a maré está começando a mudar, como consequência da crescente pressão da opinião pública sobre a questão da poluição do plástico. Graças ao envolvimento do governo e da indústria com a ideia de uma economia circular, parece que haverá uma abertura no mercado – e na mente das pessoas – para acolher iniciativas de plástico para substituir os materiais de construção convencionais.


Sibele Cestari é uma cientista de materiais poliméricos do Brasil, que atualmente é pesquisadora na Queen’s University Belfast. Este artigo foi publicado originalmente em The Conversation e é republicado sob uma licença Creative Commons. É também por isso que esta história

O naufrágio da área ambiental brasileira

No momento em que o alto índice de desmatamento da Amazônia e as queimadas do Pantanal são motivo de grande preocupação e notícia em todo o mundo, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) informou semana passada que, devido a bloqueios financeiros para o Ibama e Instituto Chico Mendes (ICMBio), seriam interrompidas todas as operações de proteção às florestas no país. Diante de fortes pressões, que inclusive atingiram o acordo do Mercosul, o governo voltou atrás e agora anuncia que há recursos.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, falam à imprensa na entrada do Palácio da Alvorada.

Na verdade, desde o início do governo, em 2019, o meio ambiente não é prioridade. O Ministério, se dependesse do presidente, teria sido extinto, e só não o foi por pressão da sociedade e razões constitucionais.

Para a consecução de seu projeto antiambiental, Bolsonaro passou, então, a uma estratégia de artifícios de sucateamento do setor. Nomeou Ricardo Salles, o “menino da porteira”, investigado por improbidade administrativa, para “comandar” o Ministério. Juntos, presidente e um ex-representante dos ruralistas, atacaram o sistema de meio ambiente de forma virótica, por dentro de sua estrutura.

Deslocaram competências para a agricultura e extinguiram agendas expressivas, como mudanças climáticas. A gestão ambiental brasileira foi abandonada, apresentando total perda de protagonismo junto aos outros ministérios. Departamentos passaram a ser geridos por personagens alheios à temática, nomeados para “administrá-los”.

Conforme as promessas de campanha, o governo passou a suspender multas, criando mecanismos de anistia prévia instalados por meio de decreto. A normativa ambiental foi atacada, substituindo normas mais protetivas por interpretações mais brandas. O ataque interno ao Ibama levou a instituição à acefalia institucional, o que trouxe consequências de neutralização para suas funções operacionais.

Os discursos antiambientais de Bolsonaro passaram a servir como estímulo à criminalidade na área ambiental, o que culminou na organização orquestrada do “dia do fogo” na Amazônia. Assim, em 2019, durante a estiagem, a Amazônia foi atingida com um aumento exponencial de agressões ambientais que persiste e se acentua até hoje. O governo, por meio de estrutura montada de fake news para tentar manipular a opinião pública, passou a atacar as ongs e “os antipatriotas que queriam se apropriar da Amazônia” ou “refrear a competitividade brasileira no mercado internacional”, ou até mesmo afirmar que ongs estariam incendiando a Amazônia. Uma postura ridícula e trágica ao mesmo tempo.

O monitoramento da devastação, realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), uma das instituições mais respeitadas do planeta em monitoramento por satélite, foi desqualificada pelo governo e tratado como se fosse um inimigo interno, ao cumprir seu papel técnico de mostrar a realidade do aumento do desmatamento na Amazônia.

Para sustentar a incúria, foi preciso neutralizar os conselhos ambientais participativos, como o Conama e o Fundo Nacional de Meio Ambiente. Os recursos financeiros para elementos que pudessem representar exigência e controle social foram extintos, como os do Fundo Amazônia, criando impasses com governos e órgãos internacionais financiadores.

Mas como os princípios da sustentabilidade ambiental já estão institucionalizados internacionalmente, o tiro saiu pela culatra. O Brasil, de liderança na área, passou a tratado como um pária internacional, com reflexos negativos no aporte de investimentos e com sérias restrições na exportações de commodities. A boa imagem brasileira ruiu.

Setores da economia começaram a pressionar e, como resposta, vieram os remendos institucionais. Os meios de fiscalização foram militarizados, abandonando-se a especialização e expertise do órgão técnico, o Ibama, único preparado e com técnicos capazes de frear as queimadas e cortes na floresta, que passou a atuar submetido às decisões da área militar.

“Durante todo este processo, a simpatia do governo federal por desmatadores e mineradores ilegais foi demonstrada explicitamente”.

Durante todo este processo, a simpatia do governo federal por desmatadores e mineradores ilegais foi demonstrada explicitamente, seja na complacência com o crime, com a devolução de equipamentos apreendidos no meio da floresta, seja em caronas para contraventores da floresta para Brasília, em avião do governo, para reuniões ministeriais, enquanto a mineração ilegal continua a avançar em terras indígenas, destruindo a floresta e envenenando as águas e as comunidades com mercúrio.

A derrocada do Brasil na área ambiental já era sinalizada no início de 2019, em Davos, na Suíça, quando um presidente Bolsonaro de ar simplista oferecia ao incrédulo ex-vice presidente dos Estados Unidos, Al Gore, uma parceria para exploração conjunta da região amazônica. “Não entendi o que você quis dizer”, disse Gore.

Mas as mineradoras de ouro internacionais entenderam e estão de olho na Amazônia, acompanhando de perto o projeto de lei proposto por Bolsonaro que autoriza mineração em terras indígenas.

Vivemos uma farsa dantesca. O general Mourão, vice-presidente, que aparenta em entrevistas ter maior capacidade de moderação, foi deixado para trás para apagar os incêndios. A implementação de uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO), ao custo de R$ 60 milhões por mês, obteve pouco resultado. Sobre os 24.633 focos de incêndio em agosto, registrados pelo Inpe, o general afirmou que “isso é agulha no palheiro”, comparando os dados com a dimensão total da Amazônia. Esqueceu-se de que 17% da massa florestal já foram destruídos e que estamos hoje, com milhares e milhares de focos de incêndio, mais próximos dos 25%, que representam o ponto de inflexão, apontado pela ciência, onde o ecossistema amazônico, diante das alterações drásticas, começará a colapsar.

Foi assim que, em plena crise de incêndios que assolam a Amazônia e o cerrado, o Ministério do Meio Ambiente anunciou a retirada das forças de fiscalização e combate aos incêndios, por falta de recursos. É evidente, na falta de comunicação e priorização interna, o abandono da área ambiental e o grande teatro que foi instalado. Diante de mais um escândalo de proporções internacionais, os recursos reapareceram.

ALTAMIRA PARA, BRAZIL: Aerial image of burning in the city of Altamira, Pará state. (Photo: Victor Moriyama / Greenpeace)
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Após reações, Meio Ambiente recua e manterá operações na Amazônia e Pantanal

Incêndio no Amazonas; desmatamento na Amazônia já é 34% maior este ano, na comparação com o passado.

A sexta-feira (28/8) foi de recuos no governo federal e de sustos entre ambientalistas após o Ministério do Meio Ambiente anunciar, à tarde, que operações contra o desmatamento e queimadas na Amazônia e no Pantanal estariam suspensas a partir de segunda (31/8) por conta de um bloqueio de R$ 60 milhões na pasta, por ordem do setor econômico do Planalto.

Os alvos do corte foram o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio; bloqueio de R$ 39,7 milhões) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama; bloqueio de R$ 20,9 milhões), sob determinação, segundo nota do ministério, da Secretaria de Governo e da Casa Civil da Presidência.

Por volta das 20h, o Ministério do Meio Ambiente publicou uma atualização da nota, afirmando que “na tarde de hoje (sexta) houve o desbloqueio financeiro dos recursos do IBAMA e ICMBIO e que, portanto, as operações de combate ao desmatamento ilegal e às queimadas prosseguirão normalmente”.

Antes da atualização, declarações do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do vice-presidente, Hamilton Mourão, mostraram a dissonância dentro do próprio governo sobre o assunto.

No início da noite, Mourão afirmou a jornalistas que Salles havia “se precipitado” a respeito da suspensão das operações — e que elas continuariam, já que o governo estava buscando recursos para permitir a continuidade das operações na Amazônia e Pantanal. O vice-presidente assumiu mais fortemente, nos últimos meses, o protagonismo em ações ambientais do governo, como a criação do Conselho Nacional da Amazônia.

Depois da fala de Mourão, Salles deu entrevista ao jornal O Globo afirmando que o vice-presidente só garantiu a verba após o ministério se posicionar sobre o bloqueio: “Já estava bloqueado e eles desbloquearam agora. Mas não vou ficar discutindo com o vice-presidente, que respeito muito. Eles desbloquearam depois da nota (do ministério).”

Entre as idas e vindas do Planalto, ambientalistas e políticos ouvidos pela BBC News Brasil mostraram grande preocupação com o anúncio, que teria potencial para gerar uma repercussão mundial. E, além disso, os entrevistados apontaram como o bloqueio demonstrava a desorganização do governo na área ambiental — tanto em questões orçamentárias quanto de agenda.

O anúncio da interrupção pelo MMA veio em um momento crítico para os dois biomas. Segundo dados de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), neste ano houve alta de 34% no desmatamento da Amazônia (comparando o período de agosto de 2018 a julho de 2019, versus agosto de 2019 a julho de 2020).

Ainda de acordo com dados do Inpe, no Pantanal, entre o início de janeiro e o dia 12 de agosto deste ano, houve alta de 242% no número de focos de incêndio em comparação com o mesmo período do ano anterior. De janeiro a julho deste ano, foram registrados 4.218 focos de incêndio em todo o Pantanal. Nos mesmos meses em 2019, foram 1.475 registros.

“Me parece que o anúncio reflete uma situação real de orçamento muito difícil, por muitos anos, e em particular neste devido à covid-19. Esse orçamento não está sendo disponibilizado para as ações de fiscalização e o MMA quer, de certo modo, se isentar da relativa ineficiência de se combater as queimadas e desmatamento. É como se livrar da responsabilidade e colocar a responsabilidade na área orçamentária do governo federal”, disse à BBC News Brasil o climatologista Carlos Nobre, ex-presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, Suely Araújo afirmou que o anúncio parecia “um teatro para militarizar de vez a fiscalização na Amazônia e, ao mesmo tempo, usar orçamento como desculpa falsa para se isentar de responsabilidade pela explosão do desmatamento e das queimadas”.

“Os recursos bloqueados são pequenos demais para fazer diferença no caixa governamental. Se têm dinheiro para a GLO (operações de Garantia da Lei e da Ordem, executadas pelas Forças Armadas), que custa R$ 60 milhões por mês e traz poucos resultados, podem assegurar financeiro para o Ibama e o ICMBio trabalharem”, avalia.

“O Ibama só gastou 25% dos recursos que tinha para fiscalização até agora. A autarquia tem dinheiro para o pagamento dos contratos de locação de helicópteros e caminhonetes pelo projeto Profisc 1-B do Fundo Amazônia – não precisa de autorização da Fazenda, é só executar. Ainda tem R$ 62,9 milhões de financeiro do Fundo Amazônia para usar até abril de 2021. O Ibama também possui recursos disponíveis dos R$ 50 milhões que entraram pela decisão do STF sobre a Lava-Jato, para serem aplicados na fiscalização do desmatamento e no combate ao fogo. Desse total, só usou R$ 13,7 milhões até agora.”

A ONG WWF-Brasil também divulgou nota destacando que há verbas previstas para o Ibama não executadas.

“Um dado que chama a atenção é que o Ibama gastou até dia 30 de julho apenas 19% dos recursos orçamentários deste ano previstos para prevenção e controle de incêndios florestais.”

“(O anúncio) reforça a mensagem que vem sido emitida pelo governo federal de que o crime não será punido, e, portanto, compensa”, completa a nota.

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Bombeiro apaga incêndio no Pantanal; bioma já tem recorde de queimadas neste ano.

O engenheiro agrônomo Luis Fernando Guedes Pinto, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), também considerou o anúncio destoante de compromissos recentes do governo na área ambiental.

“É uma enorme contradição. O Ministério do Meio Ambiente cria uma nova estrutura, uma secretaria da Amazônia, uma área das mudanças climáticas, mas não executa o orçamento do Ibama; investe um dinheiro enorme em operações militares; e o que a gente encontra é um aumento do desmatamento.”

Presidente da Frente Parlamentar Ambientalista, Rodrigo Agostinho (PSB-SP) disse que o anúncio poderia configurar até mesmo um crime de responsabilidade de representantes do governo federal.

“É uma total falta de sensibilidade do Ministério da Economia e uma total inabilidade (do Ministério do Meio Ambiente) em soltar uma nota como essa”, avaliou deputado, dizendo que o governo deveria ter se esforçado antes para remanejar verbas dentro do orçamento, garantindo a sustentação financeira às operações.

“É um escândalo de dimensões internacionais, para mim configura crime de responsabilidade.”

“O combate ao desmatamento já vinha sendo feito de forma precária, muito aquém do necessário”, completou o parlamentar.

Diretor do Instituto SOS Pantanal, Felipe Dias afirma que brigadistas e aeronaves dos órgãos federais são fundamentais para o combate aos incêndios no bioma do Centro-Oeste, que normalmente acontecem nesta época do ano — mas que em 2020 estão ainda mais preocupantes.

A nota do ministério anunciou a interrupção de atividades envolvendo 1.346 brigadistas e 4 helicópteros usados no combate ao incêndio pelo Ibama em todo o país; além de 459 brigadistas e 10 aeronaves Air Tractor do ICMBio.

Dias explica que, diferente da Amazônia, a maioria da área do Pantanal é ocupada por propriedades privadas, então o uso de queimadas ilegais com a finalidade de desmatar não é tão comum. Mas, este ano, o bioma está vivendo um “evento crítico climático”

“Os brigadistas costumam atuar entre julho, agosto e setembro, quando há maior risco de fogo. Este ano, no entanto, fevereiro já começou alto (em incêndios). Estamos vivendo uma alteração climática crítica, com uma baixa inundação (de cursos d’água) como só ocorreu há 47 anos, e mudanças na precipitação. Nesse ano, lugares que deveriam ter água estão com o solo trincando”, diz, apontando que pouca chuva, altas temperaturas e vegetação seca estão se combinando para que o fogo, que pode até acontecer naturalmente no Pantanal, saia totalmente de controle neste ano.

“Dentro da contingência, de limitação de recursos humanos, equipamentos e maquinaria, as operações de combate aos incêndios são bastante eficientes. Os brigadistas são muito habilitados para essa função e fazem um trabalho extremamente importante. Temos que bater palmas para eles, é um trabalho muito difícil (de combate ao fogo) e a ação deles é realmente impressionante.”

Em julho, 73% do desmatamento para garimpo na Amazônia ocorreu em unidades de conservação e terras Indígenas

Em julho deste ano, 73% do desmatamento para garimpo na Amazônia ocorreu em unidades de conservação (UCs) e em terras indígenas (TIs), informou um levantamento realizado pelo Greenpeace Brasil, com base em dados do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Registro feito em maio pela organização mostra as invasões na Terra Indígena Munduruku Foto: Marcos Amend / Greenpeace

O estudo apontou que, durante o mês, foram detectados 2.369 hectares de destruição na Amazônia para exploração da atividade. O Pará concentra 91% dessas áreas, sendo que 70% de todo o desmatamento se concentrou nas cidades Itaituba e Jacareacanga, localizadas na região do rio Tapajós. De acordo com a organização, os locais são apontados como principais pontos de origem do ouro ilegal e boa parte do material seria fruto da extração em áreas protegidas.

Desmatamento na Amazônia: Derrubada da floresta cresce 34% no período de um ano, indicam dados do Inpe

Ainda considerando todo o desmatamento para exploração garimpeira durante o mês, 55% ocorreu dentro de apenas três áreas, localizadas no mesmo estado: a Área de Proteção Ambiental do Tapajós, a Terra Indígena Munduruku e a Terra Indígena Kayapó.

Uma outra análise do Greenpeace Brasil já havia alertado para um aumento da exploração da atividade em territórios que deveriam estar sob regime de conservação. Entre janeiro e abril de 2020, 72% de todo o garimpo na Amazônia ocorreu nestes locais. Em relação ao mesmo período do ano passado, foi apontado um aumento de 13,4% dentro das terras indígenas, com 434 hectares desmatados com esse objetivo, e de 80,6% nas unidades de conservação, com 879 hectares.

A quantidade de áreas protegidas que foram desmatadas para garimpo no mês de julho, portanto, é maior do que a soma dos quatro primeiros meses do ano, calcula Carolina Marçal, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace Brasil.

— De janeiro a junho, 4781 hectares foram destruídos com esse objetivo na Amazônia Legal como um todo. Ou seja, foi destruído no mês de julho metade do que havia sido ao longo de 6 meses. E o que a gente tem observado é que a maioria desse desmatamento está se concentrando dentro de áreas protegidas — explica.

A alta do ouro e o contexto político

Para a porta-voz do Greenpeace, a alta no preço do ouro tem uma influência nesse avanço, mas já ocorre há alguns meses. Ela explica que, em momentos de crise como o atual, o ouro se torna um elemento seguro para investimento e, com isso, o preço aumenta, assim como a exploração. Outra questão apontada é o contexto político atual:

— Temos pronunciamentos do governo e do presidente dizendo que tem interesse em abrir, por exemplo, as terras indígenas para mineração. E temos medidas correndo no Congresso para tentar legalizar a realização dessas atividades dentro de TIs, o que é uma afronta à Constituição — analisa, e acrescenta que também há uma diminuição das atividades de campo dos órgãos que deveriam estar fiscalizando essas atividades.

Além disso, ela pontua que há uma questão da própria singularidade do sistema: atualmente é temporada de seca na Amazônia, então há menos limitação para identificar as áreas desmatadas. No período de chuva, muitas acabam não aparecendo no levantamento, explica Marçal.

Para a representante do Greenpeace Brasil, o avanço do garimpo em áreas protegidas traz uma série de consequências e conflitos. Nesse momento de pandemia, Carolina Marçal pontua que a presença de invasores dentro de Territórios Indígenas representa potenciais transmissores da Covid-19.

Ela também destaca o impacto do garimpo da região. Há o problema da contaminação dos rios com mercúrio, e os rejeitos depositados pela atividade, que podem gerar assoreamento e desequilíbrios ecológicos. Além disso, ressalta que a questão social é outro problema grave:

— O garimpo traz para a região prostituição, uso de drogas, violência e a desestabilização social de um povo — enumera.

Garimpo ilegal

Qualquer atividade de garimpo é proibida nas terras indígenas, de acordo com o Artigo 231 da Constituição. Já nas unidades de conservação, Marçal explica que eles podem ocorrer, dentro de algumas categorias. No entanto, para isso, a atividade precisa estar prevista no plano de manejo da unidade, um instrumento de gestão.

Quando existe uma comunidade nessa área, o plano precisa ser aprovado pelo conselho. Caso esse primeiro requisito seja cumprido, ainda é preciso que o órgão competente por licenciar a atividade a autorize, explica a porta-voz do Greenpeace.

— Acontece que boa parte das UCs não tem plano de manejo. A Área de Proteção Ambiental dos Tapajós, por exemplo, que concentrou mais de 900 hectares desmatados em julho, não tem — exemplifica.

A reportagem entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente, que afirmou que assuntos sobre a Amazônia deveriam ser tratados diretamente com a Vice Presidência e com o Ministério da Defesa.

Este último se limitou a responder aos questionamentos da reportagem listando as atribuições da Operação Verde Brasil 2, como é chamada chamada a ação de Garantia de Lei e da Ordem (GLO), iniciada no começo de maio para o combate a desmatamento ilegal e focos de incêndio na Amazônia Legal.

Segundo a Defesa, desde então, “militares e agentes de órgãos parceiros aplicaram R$ 445 milhões em multas e termos de infração. Efetuaram 153 prisões e realizaram 24,5 mil inspeções navais e terrestres, vistorias e revistas em embarcações, 122 inspeções em madeireiras serralharias e fazendas”.

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Queimadas deixam marcas profundas na Amazônia

Vastas áreas foram destruídas por desmatamento e fogo nos últimos anos, enfraquecendo o solo e até mesmo a vegetação que resistiu às chamas. Especialistas preveem que em 2020 terá novos recordes de destruição ambiental.

Plantas rasteiras de floresta pegam fogo Muitas árvores maiores que sobrevivem ao fogo graças ao ambiente úmido acabam sucumbindo ao trauma

O ano de 2020 está se configurando como um novo período destrutivo para a Floresta Amazônica no Brasil. O desmatamento aumentou significativamente, de acordo com observadores. E muitos especialistas temem que a região possa ver uma repetição dos destrutivos incêndios florestais de agosto e setembro do ano passado.

Dados de satélite divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em 1º de agosto mostraram mais de 6.800 incêndios na região amazônica em julho, um aumento de 28% em relação ao mesmo mês do ano passado. E ainda é cedo – agosto é geralmente considerado o início da temporada de incêndios, que normalmente ocorrem durante os meses mais secos. Mais de 10 mil incêndios foram registrados nos primeiros dez dias deste mês, um aumento de 17% em relação ao mesmo período de 2019, segundo o Inpe.

Desmatamento do tamanho do Líbano

A área desmatada no ano passado na maior floresta tropical do mundo – 60% da qual está no Brasil – foi estimada em 10 mil quilômetros quadrados, correspondente aproximadamente ao tamanho do Líbano. É o nível mais alto desde 2008, segundo o Inpe. O aumento do desmatamento traz um risco maior de incêndios florestais, já que muito do fogo que devastou a floresta tropical no ano passado se espalhou a partir de terras que estavam sendo queimadas para mineração ilegal, agricultura e pecuária.

O presidente Jair Bolsonaro – que repetidamente defendeu que mais áreas da região amazônica fossem desmatadas para o desenvolvimento econômico – contestou os dados recentes de incêndios, dizendo que “essa história que a Amazônia arde em fogo é uma mentira” em um discurso em 11 de agosto deste ano, durante a 2ª Cúpula Presidencial do Pacto de Letícia, grupo de países da região amazônica formado no ano passado para proteger a floresta tropical.

Vista aérea de uma florestaPaisagem aérea pode enganar. Um incêndio florestal típico queima a vegetação sob a copa principal da floresta

Bolsonaro convidou embaixadores e representantes de países a sobrevoarem a região entre Manaus e Boa Vista, uma distância de cerca de 750 quilômetros. “Eles não acharão nenhum foco de incêndio, nem um quarto de hectare desmatado”, disse.

Embora essas florestas ainda possam parecer intocadas quando vistas de cima, a paisagem verde vista de um avião ou satélite pode ser enganosa. Um incêndio florestal típico queima no sub-bosque – a vegetação que cresce sob a copa principal da floresta – de uma floresta tropical virgem, podendo exterminar pequenos arbustos, plantas e entre 40% a 50% de todas as árvores.

“Uma parte considerável da Floresta Amazônica foi degradada consecutivamente e é invisível aos nossos olhos”, diz Ane Alencar, diretora de ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), uma organização não governamental brasileira. “Na verdade, a qualidade dessas florestas está degradada por causa desses incêndios.”

Quando grande parte da vegetação rasteira e das árvores menores é eliminada, fica difícil manter o microclima úmido do sub-bosque, que ajuda a proteger as florestas tropicais dos incêndios. Esses microclimas já estão sofrendo, com a temperatura média na bacia amazônica subindo pelo menos 0,5 grau Celsius desde 1980, de acordo com dados climáticos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). A estação seca tornou-se mais longa, e as secas severas agora são mais frequentes, com três relatadas desde 2005.

Recuperação

O dano também não termina com o incêndio inicial. Árvores maiores, que podem ser danificadas em um incêndio, mas sobrevivem graças ao ambiente úmido, podem finalmente sucumbir ao trauma anos depois.

“Inicialmente, são as pequenas árvores que morrem, porque são mais vulneráveis ao estresse térmico, mas com o tempo são as árvores maiores que morrem e caem, levando consigo muitas outras árvores”, afirma Jos Barlow, professor britânico de ciências da conservação que trabalha no Brasil desde 1998. “Isso abre lacunas adicionais no dossel florestal, permitindo que a luz solar alcance o sub-bosque e o seque ainda mais.”

Vista aérea de desmatamento da florestaA extração ilegal de madeira, mineração e outras atividades estão constantemente corroendo as bordas da floresta

A recuperação de redes micorrízicas – sistemas subterrâneos de fungos do solo que auxiliam as árvores na troca de nutrientes e água – após um incêndio florestal ainda não está clara e é objeto de pesquisas, embora se saiba que a camada superior de raízes muito finas também sofre no incêndio inicial. Alguns estudos, incluindo um artigo de 2017 na publicação Fire Ecology, sugeriram que a “resiliência dos fungos do solo provavelmente contribui para a rápida recuperação geral do ecossistema após o fogo.” Para os ecossistemas florestais, no entanto, “rápido” ainda pode significar, no mínimo, várias décadas, de acordo com um artigo de 2019 na revista Science Advances.

Outro perigo, conforme Barlow, é que cada vez mais incêndios estão reacendendo áreas já danificadas pelo fogo, particularmente ao longo das margens da floresta tropical, perto de novas estradas, clareiras e pastagens, tanto legais como ilegais. Isso pode mudar permanentemente a paisagem.

“Se você tem incêndios recorrentes de duas ou três queimadas, então você entra em um ecossistema alternativo onde quase não há árvores grandes, dominado por espécies arbustivas e bambu e gramíneas”, explica Barlow.

Fuligem afeta padrões de chuva

Paulo Massoca, pesquisador brasileiro e doutorando na Universidade de Indiana Bloomington, que estuda a regeneração da floresta tropical, afirma que os incêndios recorrentes atuam como uma espécie de “filtro”, eliminando gradualmente as plantas que não estão adaptadas a incêndios frequentes e selecionando as espécies mais resistentes, deixando “uma fração de todo o conjunto de plantas da região”.

“Após repetidas queimadas, os solos empobrecem, as plantas crescem mais lentamente, e cipós e outras plantas não lenhosas, além das árvores, se instalam na área”, diz o pesquisador, acrescentando que essa ampla mudança no ecossistema “retarda e prejudica a capacidade das florestas secundárias danificadas por repetidos incêndios em voltar a crescer e acumular carbono”.

Também não ajuda o fato de que o solo amazônico, já pobre, perde ainda mais nutrientes valiosos após um incêndio. Em uma floresta tropical, os nutrientes fornecidos pela matéria orgânica morta são rapidamente reabsorvidos pelas plantas vivas, deixando pouco no solo.

“As queimadas matam as plantas que sustentam o solo e eliminam o solo que sustenta as plantas”, frisa Massoca. “Os incêndios liberam imediatamente os nutrientes e o carbono armazenados na camada superficial do solo, que ou são lavados após a primeira chuva ou liberados na atmosfera.”

“As partículas de fuligem suspensas nas vastas nuvens de fumaça então se espalham sobre florestas saudáveis, potencialmente afetando a formação de nuvens e os padrões de chuva”, explica Divino Vicente Silverio, biólogo da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).

Em uma entrevista de agosto de 2019 para a revista Nature, ele disse que essa carga de aerossol atmosférico pode levar a mudanças na forma como as florestas fazem o ciclo da água, criando condições mais secas e perturbando os padrões climáticos na Amazônia e de regiões ainda mais longes.

Vaqueiro em cavalo em meio a rebanho de gado em meio a área de florestaCada vez mais trechos de florestas são desmatados para dar lugar a plantações e gado

“Não há incêndios naturais na Amazônia”

Quase todos os incêndios na Amazônia podem estar ligados à atividade humana. As árvores derrubadas para dar lugar ao desenvolvimento econômico são cortadas, deixadas para secar e depois incendiadas. Incêndios adicionais são feitos para eliminar ervas daninhas das pastagens existentes e limpar áreas agrícolas antigas. E, como aconteceu em 2019, esses incêndios podem se espalhar para as florestas vizinhas. “Não há incêndios naturais na Amazônia”, diz Ane Alencar, do Ipam. “Mesmo que esteja muito, muito seco, é preciso que alguém risque o fósforo.”

Diante das críticas sobre a resposta do governo aos incêndios de 2019, Bolsonaro proibiu a prática de queimadas agrícolas na Floresta Amazônica e no Pantanal até novembro, fim da estação seca, e enviou tropas para evitar o desmatamento ilegal.

Em seu discurso na reunião do Pacto de Letícia na semana passada, ele disse que os esforços do governo foram eficazes, destacando que o desmatamento em julho caiu mais de 25% em relação a julho de 2019, a primeira queda em 15 meses. Ele reclamou que o governo é criticado apesar dos “esforços de combate aos incêndios e ao desmatamento”.

Especialistas, no entanto, acusam Bolsonaro de escolher dados a dedo. O Inpe diz que o desmatamento aumentou 25% em comparação anual no primeiro semestre do ano, e que pelo menos 3 mil quilômetros quadrados foram cortados até junho. Ane Alencar diz que se o ritmo atual continuar, 2020 será o pior ano de desmatamento no Brasil em mais de uma década.

Nos estados com taxas de desmatamento historicamente altas, como Mato Grosso, Pará e Rondônia, o número de incêndios detectados até agora em 2020 já é maior do que no mesmo período de 2019. Alencar disse que tamanho aumento logo no início da temporada mostra que a resposta do governo foi ineficaz – e ela acredita que já é tarde demais. “Para esta temporada de incêndios, parece que perdemos a batalha contra o desmatamento”, avalia.

Observações da Nasa mostram ainda uma possível temporada de furacões no Atlântico, como as de 2005 e 2010, que contribuíram para uma grande seca no sudoeste da Amazônia, já que as tempestades sugam a umidade da floresta. “Eles estão prevendo que provavelmente ocorrerá o mesmo padrão este ano, o que será catastrófico se for verdade”, diz a especialista.

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Desmatamento na Amazônia; Exército sabia dos pontos de maior risco de devastação da Amazônia, mas falhou no combate

Foto João Laet/AFP
Técnicos do Ibama, sob anonimato, dizem que comando erra ao usar ferramenta inédita do INPE. Defesa rebate.

Gado pasta em frente a uma área de queimada em Novo Progresso, no Pará, no final de 2019. Até hoje a região é uma das mais críticas de devastação da floresta

A operação de grandes proporções começou em maio. Sob a batuta do vice-presidente e general da reserva Hamilton Mourão, 3.815 militares, 110 veículos terrestres, 20 embarcações e 12 aeronaves foram despachados para a Amazônia. Com o objetivo de prevenir e reprimir delitos ambientais antes do grande período tradicional de queimadas, a ofensiva, batizada de Operação Verde Brasil 2, visava também ser uma resposta aos críticos que acusam o Governo Bolsonaro de negligenciar e, no limite, incentivar de maneira tácita, a destruição da selva.

Para além do contingente e dos veículos, os militares que comandavam a ação estavam munidos de dado estratégico e inédito: tinham um mapa das cinco áreas críticas que concentraram quase 45% do desmatamento total da floresta amazônica em 2020, um traçado feito com o auxílio de imagens de quatro satélites, tudo disponibilizado desde fevereiro pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A iniciativa, elaborada em parceria com o Ibama, foi batizada de Deter-Intenso: a cada 24 horas é gerada uma imagem com definição de 10 metros quadrados mesmo com a presença de nuvens, o que permite avaliar a evolução dos focos de desmatamento e queimadas de forma sem precedentes. Uma ação efetiva de fiscalização nestes cinco pontos, cuja área representa 9% da Amazônia Legal, se traduziria em mais floresta em pé. Não foi o que ocorreu.

Governo Bolsonaro sonha em driblar pressões ambientais

Mesmo com presença de militares, desmatamento na Amazônia cresce em junho e é o maior em 5 anos.

O desmatamento e as queimadas registraram recorde histórico em junho. Em julho, nova alta de 28%, com 6.803 focos de incêndio ante 5.318 em 2019. Além disso, houve aumento de 25% no desmatamento acumulado do semestre em comparação com o mesmo período de 2019: os alertas feitos a partir das imagens de satélite indicam devastação em 3.069,57 km², contra 2.302,1 km² no ano anterior. Para quatro fiscais do Ibama envolvidos direta ou indiretamente com a Operação Verde Brasil 2 —todos tiveram a identidade preservada para evitar retaliações, uma vez que estão subordinados ao Exército—, há razões claras para o descompasso entre a precisão da ferramenta nova e os resultados obtidos: os militares falharam no desenho e na execução das ações.

Os relatos apontam para a falta de efetividade dos militares na escolha dos alvos. Ainda que atuem dentro da área delimitada pelos pontos críticos (hotspots) do novo sistema de monitoramento do Inpe-Ibama, o comando está, segundo os fiscais, priorizando ações que não atacam diretamente focos de desmatamento e queimadas ativos, como por exemplo bloqueios em rodovias e apreensão de toras já derrubadas. Os garimpos ilegais, grandes vilões ambientais, também são poupados. Os servidores do Ibama apontam também para a falta de experiência do Exército na fiscalização. Criticam o foco em ações de patrulhamento e apreensões de madeira que não são efetivos para a preservação da Amazônia.

Indagado sobre o aumento no desmatamento, o Ministério da Defesa informou em nota que a operação “já contabiliza números expressivos”. “Foram realizadas 16.104 inspeções, patrulhas, vistorias e revistas, e a inutilização de 107 equipamentos como motores de garimpo, balsas, tratores, escavadeiras, veículos, entre outros (…)”, diz o texto. A nota também celebra 345 embarcações e 174 veículos apreendidos, 372 quilos de drogas e 28.000 metros cúbicos de madeira. “Foram ainda embargados 33.012 hectares e realizadas 153 prisões”, continua a pasta.

Áreas críticas monitoradas pelo Deter-Intenso

Estas áreas são responsáveis por quase 50% do desmatamento da Amazônia

Apesar do tom otimista da nota da Defesa, o próprio vice-presidente afirma que o desmatamento da Amazônia estava “além daquilo que pode ser considerado como aceitável”. “A gente não nega que houve desmatamento além daquilo que pode ser considerado como aceitável, ou seja, dentro dos 20% de cada propriedade rural e fora das unidades de conservação e terras indígenas”, afirmou no dia 13 de junho, após a divulgação dos dados do Inpe.

Limitação das ações

Sob o comando dos militares, os fiscais do Ibama que também integram a Verde Brasil 2 reclamam que tinham pouca margem de manobra para agir, mesmo de posse das informações precisas do sistema Deter-Intenso e uma lista de hotspots. “Nós do Ibama sabíamos quais eram as áreas, os hotspots, e até fomos direcionados para alguns. Mas como a coordenação era do Exército, a gente propunha os alvos e eles que tinham que aprovar. O que observei: os garimpos ficaram de fora sempre, na hora que submetemos os alvos, todos eles foram cortados”, conta um fiscal sob condição de anonimato.

De acordo com esse fiscal, essa resistência do comando da Verde Brasil 2 a atacar focos de mineração ilegal ocorre por dois motivos: “São locais onde existe muito maquinário em locais isolados, logo teria que ser usado o procedimento de destruição. E eles deixaram claro que não queriam se ver atrelados a estas ações, ainda que amparados por lei”. Além disso, “existe a postura do presidente Jair Bolsonaro”, diz o fiscal. Ele se refere ao fato do mandatário ser crítico da repressão aos garimpos ilegais e da destruição de seus equipamentos.

Os servidores do Ibama são unânimes ao avaliar que apesar de ser um grande aliado no apoio logístico de operações contra crimes ambientais, o Exército não tem vocação nem treinamento para fiscalizar. “Eles são um grande parceiro em várias operações já há alguns anos. Mas [na Verde Brasil] existe uma falta de objetivos sobre o que está sendo feito em campo, como se fiscalizar fosse manter presença, patrulhar, girar. Fiscalizar não é uma simples patrulha, não gera dissuasão no caso ambiental”, explica um fiscal. “O que gera dissuasão é ter a punição levada a cabo. Fiscalizar não é fazer uma ronda ostensiva: isso tem um efeito muito temporário e localizado. Você está em uma cidade, os criminosos ambientais vão pra outra, a patrulha acaba eles voltam”.

O critério do Ibama na escolha de alvos também era diferente dos do Exército. “Nós priorizamos sempre desmatamentos em andamento [detectados pelo Deter-Intenso]. Eles muitas vezes focam nos números. Apreensão de caminhões com tábuas ou toras de madeira, por exemplo. Só que isso, montar bloqueios nas estradas, não impede a devastação da floresta. É algo que nós fazíamos dez anos atrás”, disse o fiscal.

O Ministério da Defesa é questionado sobre a escolha dos alvos da operação. Em nota, a pasta informou que isso “é decidido no âmbito do Grupo de Integração para proteção da Amazônia”. “Este colegiado reúne onze órgãos governamentais, entre agências ambientais e órgãos de segurança pública”, segue o texto. Ainda segundo a Defesa, dados do Deter-Intenso são utilizados, juntamente com outras informações, para subsidiar as escolhas dos alvos. De acordo com a pasta foram realizadas ações em quatro dos cinco hotspots monitorados, mas não foi informado qual o tipo de ação desenvolvido em cada um (barreira em estrada, apreensão de drogas, etc).

Evolução do monitoramento

Os dados recentes do desmatamento são decepcionantes, especialmente considerando o imenso avanço do monitoramento agora à disposição do Governo brasileiro. Para entender a dimensão, é preciso analisar a evolução dos métodos utilizados: o Deter-Intenso foi um aprimoramento do Deter, que monitora toda a região amazônica e outros biomas ameaçados com geração de imagens a cada cinco dias (ante intervalos de 24 horas da nova versão). “Para essas áreas onde há demanda maior [os hotspots] desenvolvemos essa solução. Isso é um avanço enorme na questão do monitoramento, pois permite direcionar de forma precisa o deslocamento de equipes de fiscalização. Mostramos aquilo que está crescendo, para que a fiscalização possa agir”, explica o coordenador do Programa Amazônia do Inpe, Cláudio Aparecido de Almeida.

No total o Deter-Intenso monitora cinco áreas críticas: Anapu e Novo Progresso, no Pará; Apuí no Amazonas, Candeias do Jamari (Amazonas e Rondônia) e Extrema (Acre e Rondônia), totalizando 485.000 km² (aproximadamente 9% da área da Amazônia Legal). A seleção dos locais foi feita com base em um documento do Ibama elaborado no final de 2019, e que listava dez hotspots. Indagado sobre a razão de não ter ocorrido queda no desmatamento tendo em vista o material produzido pelo Deter-Intenso somado ao efetivo da Verde Brasil 2, Cláudio de Almeida, do Inpe, afirmou que “a queda do desmatamento está associada a condução de várias políticas públicas, como por exemplo programa de valorização da floresta, a fiscalização em campo e o monitoramento. Dentre essas ações o Inpe é responsável pelo monitoramento”.

Um caso de sucesso do Ibama

Quando foi lançada em maio, os números da Verde Brasil 2 impressionaram: além do efetivo de quase 4.000 agentes e veículos, chamou atenção o custo de 60 milhões de reais, praticamente o Orçamento anual do Ibama para fiscalização. Este valor ainda pode aumentar: o Governo elaborou um projeto de lei que pede mais 410 milhões de reais para serem aplicados na Verde Brasil 2, prorrogada até novembro deste ano.

Apesar dos grandes recursos humanos, financeiros e tecnológicos a seu dispor, o grande exemplo de sucesso no combate à devastação da Amazônia este ano não foi dado pela Verde Brasil 2, e sim por uma operação do Ibama realizada entre 15 de janeiro e 30 de abril. A região escolhida foi o sul do Pará, na proximidade de Altamira, área que concentra três terras indígenas —Ituna-Itatá, Apyterewa e Trincheira Bacajá. A situação no local era dramática: em uma das terras os grileiros chegaram a construir uma pequena vila para atrair mais invasores, havia até mesmo um barracão com tanques para armazenar combustível de aeronaves. “Estas terras indígenas foram as mais desmatadas do Brasil em 2019, de acordo com as imagens de satélites. Lá havia vários focos de desmatamento ativos”, conta um fiscal do Ibama que participou da ação. O objetivo era ousado: zerar a devastação nos locais.

O efetivo era modesto quando comparado aos números da Verde Brasil 2: atuaram de 7 a 10 fiscais por mês, totalizando aproximadamente 40 profissionais. O baixo custo também chama a atenção: somadas as diárias do fiscais do Ibama (que são de 177 reais), chega-se a um valor de 212.400 reais. Com o custo do uso de duas aeronaves, chega-se a 1,5 milhão de reais. O resultado também diferiu do alcançado até o momento pela operação do Exército: “Nós zeramos o desmatamento na região no período em que atuamos. O impacto foi tão grande que ao eliminar a devastação naquelas áreas, derrubamos em 58% o número total de desmatamento em terras indígenas no Brasil”. Mas sem uma presença efetiva das autoridades no local após a ação de sucesso, em julho a área voltou a sofrer com desmatamento ilegal, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.

Para este fiscal envolvido na operação nas terras indígenas, é preciso entender o que existe por trás da derrubada da floresta. “Hoje o desmatamento na maior parte da Amazônia Legal não está pulverizado. É uma questão de crime organizado, é um avanço coordenado naqueles hotspots, pois há expectativa de ocupação e regularização fundiária naquela área por parte de interesses poderosos”, conta. “Quando você atua na área crítica você vai para desarticular uma organização criminosa, você desarticula toda a estrutura do crime ambiental, da usurpação de recursos e terra pública. Não vai para multar uma pessoa só”.

Se a devastação da floresta está em alta, as multas aplicadas pelo Ibama —consideradas uma das ferramentas mais eficazes para dissuadir crimes ambientais— tiveram queda de 60% nos primeiro semestre ante o mesmo período de 2019, de acordo com a Folha de S.Paulo. É a segunda queda no Governo Bolsonaro: entre 2018 e 2019 já havia ocorrido redução de 40%.

Operação de limpeza tira 103 toneladas de plástico do mar

A ONG Ocean Voyages Institute bateu o próprio recorde de limpeza em mar aberto em uma expedição que durou 48 dias.

Uma recente operação de limpeza retirou em 48 dias cerca de 103 toneladas de lixo plástico do mar, entre redes e petrechos de pesca e itens plásticos que a humanidade consome no seu dia a dia.

A ação percorreu as costas da Califórnia e do Havaí e foi uma iniciativa do Ocean Voyages Institute que, com a coleta quebrou o próprio recorde de maior limpeza de lixo plástico dos oceanos.

Infelizmente, além do plástico, o navio recolheu muitos animais mortos e esqueletos que estavam envolvidos pelo lixo, em especial por redes de pesca abandonadas em mar aberto.

“Não existe uma solução rápida e simples para a quantidade de lixo nos oceanos. São necessários longos períodos no mar, com uma equipe extremamente competente, para que seja possível realizar ações de limpeza como esta”, explica Locky MacLean, ex-diretor da Sea Shepherd, ONG que atua na proteção da vida marinha.

Foto: Ocean Voyages Institute
Uma grande ilha de lixo se encontra entre o Havaí e a Califórnia, em uma das áreas mais remotas do Oceano Pacífico. Pesquisadores estimam que cerca de 80 mil toneladas de resíduos façam parte desta ilha de lixo, sendo a maior parte proveniente de petrechos de pesca.

As ilhas de lixo se formam graças à ação de correntes oceânicas circulares que concentram o lixo em áreas específicas.

Apesar das ações de limpezas serem parte da solução do problema, é necessário pensar na causa: todos os anos até 12,7 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos e a estimativa é que um total de 150 milhões de toneladas do material circulem atualmente pelos mares.Meio Ambiente,Oceanos,Plásticos,Poluição,Blog do Mesquita

A poluição plástica é composta de micro plásticos a grandes redes de pesca, uma imensidão de produtos que não são biodegradáveis e ameaçam gravemente a vida marinha. Um triste exemplo do mal que estamos fazendo às espécies marinhas foi a baleia encontrada por pesquisadores filipinos com 40kg de plástico no estômago, incluindo.