Plantas irlandesas que são incomuns e fascinantes

Aqui está um grupo de plantas irlandesas que são incomuns e fascinantes. Apesar da perda de muitos lugares selvagens nos últimos 30 anos, eles sobrevivem principalmente.

Você pode visitar algumas das áreas selvagens restantes nos Parques Nacionais.

O medronheiro (Arbutus unedo) é uma árvore irlandesa nativa rara.
Pode ser encontrada de Cork a Sligo.

Originalmente mais comum, agora é mais frequentemente encontrado ao longo das margens dos lagos Killarney. Sua forma grisalha e casca única são lindas.

Clima,Meio Ambiente,Blog do Mesquita

“Se você não se preocupa com as plantas, é possível que não saiba cuidar de outro ser humano”

A cada ano, 2.100 espécies vegetais fascinam as 250.000 pessoas que visitam o jardim botânico da Universidade Harvard, em Boston. Seu diretor admite que ele próprio não deixa de se surpreender com elas

O biólogo Wiiliam Friedman, em uma recente visita a San Sebastián, na Espanha.
O biólogo Wiiliam Friedman, em uma recente visita a San Sebastián, na Espanha. ADELINE MARCOS (SINC)

Milhares de crianças visitam anualmente o Arnold Arboretum, o jardim botânico da Universidade Harvard, em Boston (EUA), onde há uma norma: todos são capazes de ensinar, dos universitários aos cientistas, passando pelos funcionários.

Um deles é o biólogo William Friedman, que esteve recentemente na Espanha para participar do festival científico Passion for Knowledge (P4K), em San Sebastián. Apaixonado pelas plantas, Friedman é professor de Biologia Evolutiva e dos Organismos na Universidade de Harvard e dedicou toda sua carreira ao estudo da diversificação evolutiva das plantas.

Pergunta. Você demonstrou que as plantas têm relações especiais e se ajudam mutuamente. Nesse sentido, são melhores que nós?

Resposta. Do ponto de vista de um biólogo evolutivo, entre as plantas ocorre uma grande quantidade de mortes prematuras. Por cada pássaro que você vê pela janela, 199 morreram. Por cada planta que você vê, quantas sementes caíram ou cresceram um pouco e não conseguiram ir além? As plantas fazem coisas maravilhosas ao cooperar entre elas, mas às vezes têm um lado sombrio.

P. Que aspecto das plantas mais o surpreendeu ao longo de sua carreira?

R. Tive surpresas incríveis ao longo de minha vida, sobretudo com o estudo da origem evolutiva das plantas de flor, que são um grupo muito recente, o mais jovem. Como é possível então que estejam por toda parte? Estudei o tecido interior das sementes onde as mães põem seu alimento, e que depois vai para o embrião. É algo que domesticamos para comer, o chamado endoesperma. Comemos um grão de arroz ou de milho porque está cheio de nutrientes. Descobri muitas coisas sobre este processo.

P. Como o quê?

R. Que mães e pais diferem quanto à contribuição nutritiva desse tecido, e podemos ver isso com análises genéticas. Quando observo uma semente, posso ver os genes da mãe e os do pai, como estes debatem sobre quanto alimento deveria haver. Estou há vinte anos me perguntando se pais e mães discutem sobre como alimentar a seu broto, e nos cinco últimos anos descobrimos…

P. E quem ganha?

R. Ah [risos], pois a verdade é que depende. Essa é a questão. Em geral, os pais são doadores de esperma, e as mães do óvulo, mas além disso eles têm que alimentar. Alguém se envolve mais que o outro, que só fornece os seus genes. Isto ocorre com os animais, mas também com as plantas.

P. Então, o que quer um pai quando dá seus genes a uma semente da mãe?

R. Que essa semente tenha todo o alimento possível. As mães têm muitas sementes, mas selecionam e rejeitam as que acreditam que não são boas, porque têm recursos limitados e precisam decidir onde investem seu alimento.

P. E ao analisar essas sementes, que mais se pode ver?

R. Nos estudos de genética molecular se pode ver inclusive como tudo isto ocorre. Como fazem diferentes investimentos, os pais são egoístas, e as mães tentam tomar decisões universais. Se uma mãe com 100 sementes só tem comida para 50, em quais vai investir? Ela vai se perguntar quais são as melhores. As fêmeas reconhecem as sementes que podem estar aparentadas geneticamente e fecham a chegada do pólen de maneira bioquímica. Estão continuamente filtrando os pais. É uma das grandes histórias das plantas, e não creio que muita gente a conheça.

P. Quando rejeitam um pai, podem escolher outro?

R. No caso dos pinheiros, que polinizam por meio do vento, a mãe recebe o esperma de muitos pais, e assim pode escolher. Se insetos entrarem em jogo, a cada flor chegam pais de diferentes origens, e as mães faz que compitam entre si.

P. Mas como sabem se são bons pais?

R. Conhecem os atributos genéticos do pai, é incrível. Em alguns casos, saberão se o pai é um parente direto; em outros saberão se não é um bom partido, e então as mães interromperão a fertilização. E inclusive quando a fertilização já começou elas podem abortar as sementes. Durante muitos anos me diverti entendendo que as plantas, como os humanos e outros animais, têm conversas entre progenitores e tomam decisões.

P. Quando começou a se interessar pelas plantas?

R. Cresci no campo, mas foi nas aulas de Biologia do colégio onde me interessei mais. Não era bom, mas eu gostava tanto… Uma manhã, estávamos no laboratório e tínhamos um porco peludo morto em formol, que tínhamos que dissecar. Não gostei nada. Não tinha nem ideia de como os animais funcionavam. Então pensei que talvez não devesse ser biólogo [risos]. Mas de repente apareceram as plantas, e senti com elas uma conexão instintiva e profunda. Tive muita sorte em experimentar essa sensação com as plantas e seguir em frente.

P. Então na verdade foram as plantas que o escolheram…

R. A verdade é que sim, e me sinto muito afortunado de ter descoberto seu mundo [risos].

P. De todas as características das plantas, qual delas foi para você inimaginável quando começou a estudá-las?

R. As plantas fazem muitas coisas estranhas. Conhece o ginkgo? É uma árvore muito antiga, presente nas cidades. Tem dois sexos (os que fazem o pólen, os machos, e os que fazem as sementes, as fêmeas), mas você não vai vê-las juntas em Madri. Não verá nenhuma semente pela cidade, e a razão é que têm um cheiro muito forte, então só os machos são plantados. No jardim botânico de Harvard temos fêmeas, e cheiram a vômito por causa do ácido butírico do seu interior. As sementes estão dispersas pelo chão, e cheira como se todo mundo na cidade tivesse vomitado ali. É muito forte.

P. E que sentido tem que as fêmeas façam isto?

R. Algum animal extinto achou que cheiravam muito bem e começou a comer as sementes para dispersá-las. A planta ficou com esse código, que cheira péssimo para nós, mas você pode ver todo tipo de moscas, que dispersam sementes, voando ao redor.

P. Foi sua maneira de se adaptar e sobreviver, mas em geral as plantas enfrentam muitas ameaças…

R. Sim, como os patógenos invasores que se deslocam em pallets de madeira transportados em navios. Como movimentamos coisas pelo mundo todo e às vezes não tomamos cuidado, continuamos introduzindo ameaças que poderiam aniquilar toda uma espécie. Podem ser insetos, cogumelos ou bactérias nos lugares mais insuspeitos, como as solas dos meus sapatos.

P. Todo isso piorará com a crise climática.

R. Claro. A mudança climática agrava a situação. Posso lhe dar um exemplo. No jardim botânico temos magníficas faias que padecem de uma enfermidade causada por um cogumelo invasor. As árvores podem lutar contra a epidemia, como você e eu fazemos se estivermos saudáveis, mas o que acontece se estivermos estressados, se formos mais velhos ou nos alimentarmos mal? Neste sentido, as plantas são exatamente iguais aos humanos. Há três anos tivemos a pior seca da região. Durante dois meses sofremos condições de aridez, e nos dois anos posteriores as árvores doentes terminaram por perecer. A doença ganhou. As faias estavam tão estressadas por causa da seca que não puderam lutar. Tivemos que abater árvores de três metros de largura que tinham morrido. E isto está sendo visto com insetos e aves por todo o mundo. A questão é se nos preocupa ou não. Acredito que à maioria sim, mas não aos que têm o poder para tomar decisões.

P. Por que se preocupar com as plantas, perguntarão muitos?

R. Claro, não somos nós. Os pássaros não somos nós, os insetos não somos nós. Se você não consegue se preocupar com uma planta, é possível que não consiga cuidar de outro ser humano. Dizem que devemos nos preocupar com a natureza porque, se não, perderemos a capacidade de alimentar o mundo, mas não acredito que seja a principal razão.

P. E qual seria?

R. Pensar que todos estes organismos são nossa comida e dependem de nossa exploração é ser míope. Há um valor mais profundo. Devemos nos preocupar porque compartilhamos a Terra com eles.

P. As plantas estão há milhões de anos se adaptando, mas continuam mantendo essa capacidade agora?

R. As plantas podem se adaptar, sim. Podem se adaptar rapidamente? Sim. Podem se adaptar à velocidade com que estamos mudando o planeta? Veremos. Há 20.000 anos, em Boston, não havia nem plantas nem árvores, havia uma geleira, e agora a cidade está repleta de vegetação. As plantas se movem, mudam, crescem e se adaptam. Entretanto, as mudanças que estamos introduzindo agora são tão rápidas que certos ecossistemas tombarão.

P. O que acontecerá? Não poderemos voltar ao ponto de partida?

R. Se afinal der errado, sem dúvida será nossa culpa. Não poderemos voltar. Será um novo futuro.

P. E como será esse futuro?

R. Não sei… Talvez seja sem humanos. Mas de uma coisa estou certo: que esse futuro será muito rico graças à evolução. O mais incrível da vida é que é resistente. O equilíbrio pode voltar. Talvez nós não sejamos suficientemente resistentes, mas em milhões de anos é possível que o planeta continue sendo verde e continue tendo animais. Se quisermos continuar sendo parte disso, temos que ser mais cuidadosos.

P. Pode ser que atualmente estejamos começando a mudar. Não notou?

R. Sim, há cada vez mais consciência ambiental. Há 40 anos, quando comecei meus estudos, os cientistas não falavam com o público, achavam não ser parte do seu trabalho. Nos últimos 20 anos, o jornalismo científico virou uma maneira muito poderosa de ajudar os cientistas — que não eram bons explicando coisas — a se conectarem com as pessoas. Ser cientista não é só fazer ciência. Somos cidadãos encarregados de conscientizar os outros.

P. Algum dia saberemos tudo das plantas?

R. Não acredito… Há um poema de Alfred Tennyson chamado Flower in the Crannied Wall, de 1863, que é a resposta a sua pergunta. Se eu pudesse conhecer totalmente cada uma das plantas, conheceria todo o universo. Mas não podemos. Cada planta é tão complicada que acaba sendo impossível. É isso que torna a natureza seja tão maravilhosa.

Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita

Patanal em fogo – araras-azuis e outros animais sob risco de extinção

O drama das araras-azuis e outros animais sob risco de extinção e acuados pelo fogo no Pantanal.

Por muito pouco — questão de segundos — a bióloga Carine Emer, do câmpus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), não morreu queimada no carro em que viajava no domingo, dia 27 de outubro, pela BR-262, entre Corumbá e Miranda, no Mato Grosso do Sul. Uma labareda gigante atravessou a rodovia, vinda de um incêndio no mato em suas margens. Foi apenas mais uma entre o maior número de queimadas já registrado no Estado. Entre os dias 1º de agosto e 31 de outubro, o número de focos de queimadas no Pantanal cresceu 506% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Araras comem cocos no chãoDireito de imagem CEZAR CORRÊA
Araras comem cocos no chão; fogo aumenta ainda mais o risco de que algumas espécies ameaçadas de extinção desapareçam

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958 nos três meses deste ano.

Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%. Depois vem agosto, que passou de 243 para 1.641 (575%), e setembro, que foi de 785 para 2.887 (368%).

O fogo coloca em risco a vida de muitos animais da rica biodiversidade pantaneira, assim como a vegetação. É fácil encontrar animais mortos depois que o fogo se apaga, como cobras, lagartos e jacarés, estes principalmente por causa da seca.

“Ainda não há estimativa de quantas árvores e bichos foram queimados”, diz Carine. “Também é difícil dizer em quanto tempo a área vai se recuperar. Depende de até quando os incêndios vão durar, do que for destruído.” O governo do Estado ainda não tem um levantamento da situação.

O engenheiro florestal e especialista em restauração ambiental, Júlio Sampaio, gerente dos programas Cerrado e Pantanal, do WWF-Brasil, diz que, embora ainda não tenha sido feito um levantamento preciso do impacto dos incêndios na vida selvagem, ele foi intenso.

“Há vários relatos de animais incinerados ou asfixiados pela fumaça”, explica. “Os que se locomovem mais lentamente, como os de pequeno porte e os répteis são os que sofrem mais com as queimadas”, acrescenta.

Filhote de arara morreu desidratado e queimadoDireito de imagem THAMY MOREIRA
Filhote de arara morreu desidratado e queimado

De acordo com Sampaio, diferentemente de algumas plantas, que têm adaptações genéticas para sobreviver ao fogo, entre os animais elas não existem.

“Não há espécie da fauna brasileira que esteja adaptada para conviver com incêndios”, diz ele. “Isso faz com que o impacto (dos incêndios) seja muito maior para os animais do que para os vegetais. Mas não há estudos sobre isso, então é muito difícil estimar quantos bichos foram mortos.”

Ele alerta, no entanto, que o fogo aumenta ainda mais o risco de algumas espécies ameaçadas de extinção desaparecerem, como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla) e lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) e algumas aves, como a arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus).

O único levantamento já feito depois dos incêndios foi elaborado pelo Instituto Arara Azul, uma organização não governamental que criou e administra o Refúgio Ecológico Caiman (REC), o maior centro de reprodução da espécie no Pantanal, com 54 mil hectares, onde há atualmente 98 ninhos cadastrados, dos quais 52% naturais e 48% artificiais. “O fogo atingiu nossa fazenda no dia 10 de setembro”, conta a bióloga Neiva Guedes, presidente do Instituto e professora do programa de pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Universidadade Anhanguera Uniderp (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), de Campo Grande.

Atos criminosos e riscos para viajantes

De acordo com o governo do Mato Grosso do Sul os incêndios florestais ocorrem em várias direções e em proporções nunca registradas, causados “pela estiagem e atos criminosos”.

O fogo nas margens da rodovia BR-262, que liga Vitória (ES) a Corumbá (MS), cruzando o Pantanal, assusta e coloca em riscos a vida dos viajantes. As labaredas chegam a mais de dez metros de altura e formam uma cortina de fumaça, que transforma o dia em noite, reduzindo a visibilidade de quem trafega pela estrada.

Equipe do Instituto Arara Azul monitora destruição após queimadasDireito de imagem INSTITUTO ARARA AZUL
Equipe do Instituto Arara Azul monitora destruição após queimadas

Devido à gravidade da situação, em setembro o governo estadual decretou estado de emergência. Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenas para renovar os pastos ou abrir novas áreas de cultivo.

Verruck diz que é uma atitude cultural. “Historicamente sempre foi assim, nesta época do no ano coloca-se fogo”, explica. “Mas este é o período mais seco do ano, por isso proibimos qualquer tipo de queimada entre agosto e outubro de todos os anos. Agora, como a situação está mais grave, prorrogamos a interdição até 30 de novembro, assim como o estado de emergência. Neste período, todas as queimadas são ilegais.”

Segundo Verruck, elas já devastaram 56 mil hectares de vegetação nativa no Pantanal sul-mato-grossense apenas do dia 20 de outubro até o dia 31. “Em todo o Estado, a área chega 1,3 milhão de hectares, das quais cerca de 500 mil foram na reserva dos índios cadiuéus”, diz.

“A situação, já complicada nesta época do ano, se agravou, porque choveu apenas 30% do que é normal para este período.” Também contribuiu para intensificar o fogo uma combinação de outros fatores como baixa umidade do ar, alta temperatura, ondas de calor, muita matéria orgânica seca e grande velocidade do vento.

De acordo com ele, para combater as queimadas, o governo estadual conta com o apoio do Estado vizinho do Mato Grosso, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Comando Militar do Oeste do Exército Brasileiro.

“Estão trabalhando dezenas de brigadistas do Ibama, bombeiros e militares”, conta. “Além disso, estão sendo usados no combate ao fogo três aviões e quatro helicópteros. Entre os problemas que enfrentamos nesse trabalho estão dificuldades nas comunicações entre os municípios atingidos, pois os incêndios queimaram as fibras ópticas.”

Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%Direito de imagem CHICO RIBEIRO/PORTAL DO GOVERNO DE MATO GROSSO DO
Outubro foi o mês que teve o maior aumento de focos, indo de 119 no ano passado para 2.430, o que representa um crescimento de 1.942%

Em seu 1º Relatório do Impacto do Fogo sobre as Araras Azuis, Neiva informa que dos 98 ninhos cadastrados, 39 eram de araras 15 de outras oito espécies de aves, todos com ovos ou filhos. Além disso, havia 30 ninhos sendo preparados pelas araras ou em disputa com outras aves e 14 vazios. Desse total, 33% foram atingidos em diferentes graus de severidade, dos quais apenas dois foram perdidos totalmente. A contabilidade final revela, no entanto, que 16 filhotes e 23 ovos foram destruídos pelos incêndios.

Próximas gerações de araras ameaçadas

Segundo Neiva, isso afetará o sucesso das araras-azuis não só nesta estação reprodutiva, mas também no futuro.

“As perdas atuais serão sentidas nestas e nas futuras gerações, quando estes filhotes perdidos não entrarão na população reprodutiva daqui a 9 ou 10 anos”, lamenta em seu relatório.

“Queremos saber também o que acontecerá nos próximos anos com relação à alimentação, que até agora não era um fator limitante. Mas com os incêndios, hectares e mais hectares da palmeira acuri foram totalmente destruídos. Esta planta é chave não só para as araras-azuis, embora seja fundamental para elas, mas para várias outras espécies que se alimentam da sua polpa, inclusive o gado.”

Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958Direito de imagem GOVERNO DO MS/DIVULGAÇÃO
Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, em números absolutos, os incêndios em todo o bioma Pantanal saltaram de 1.147 entre agosto e outubro de 2018 para 6.958

Sobre o convívio da biodiversidade vegetal com o fogo anual do Pantanal há mais estudos. “De acordo com as pesquisas que temos realizado, os incêndios nas áreas mais sujeitas a inundações podem diminuir o número de espécies de árvores e arbustos que ocupam as partes baixas”, diz o botânico Geraldo Alves Damasceno Junior, dos programas de pós-graduação em Ecologia e Conservação e em Biologia Vegetal, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

“Muitas árvores que tiveram suas copas queimadas não conseguirão rebrotar e a inundação que virá depois poderá impedir que sementes dessas espécies germinem, pois muitas delas precisam de um período prolongado de seca para nascer e crescer nesses ambientes”, acrescenta Damasceno.

Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenasDireito de imagem VICENTE ASSAD
Segundo o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, a maioria das queimadas não ocorre por causas naturais, mas intencionais, feitas por fazendeiros ou populações indígenas

Mas para a vegetação pantaneira as queimadas também podem ter um lado bom. “Elas promovem aumento da biodiversidade das espécies herbáceas que ocorrem nesse ambiente”, explica Damasceno.

“Como grande parte das plantas do Pantanal pertence a este grupo, no cômputo geral os incêndios podem promover um aumento na biodiversidade dos vegetais. Assim, o fogo é um elemento que na paisagem da região faz parte da dinâmica da vegetação, embora algumas espécies mais sensíveis possam desaparecer dos locais onde ele foi muito severo.”

A flora tem outra vantagem em relação à fauna do Pantanal. “A vegetação se recupera muito rapidamente”, explica Damasceno. “Em poucos meses, ela vai rebrotar novamente. Entretanto, alguns efeitos podem ser bastante duradouros. Para árvores e arbustos, por exemplo, nós conseguimos captar efeitos danosos até seis anos após eventos de fogo.”

Carine conta que pesquisa para seu pós-doutorado a dispersão de sementes na Mata Atlântica, mas estava no Mato Grosso do Sul para dar uma palestra na Semana da Pós-Graduação em Ecologia e Conservação na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grade.

“Eu achei que era uma ótima oportunidade para dar um pulo até o Pantanal e conhecê-lo, afinal é o sonho de todo biólogo ver este sistema tão rico”, conta. “Então organizamos uma pequena excursão para ir até a região do Passo do Lontra, que fica no município de Corumbá.”

Focos de queimadas no PantanalDireito de imagem CARINE EMER
Entre os dias 1º de agosto e 31 de outubro, o número de focos de queimadas no Pantanal cresceu 506% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Eles chegaram ao local na sexta-feira e Carine disse que já achou a situação esquisita. “Estava tudo muito estranho, muito seco, e o rio Miranda tão baixo como nunca se viu”, explica.

“Saímos para ver bicho, mas não ouvíamos nem víamos nenhum. No sábado de madrugada, aconteceu a mesma coisa. Poucas aves, o que é estranho, porque no Pantanal você visualiza muitos animais. Saímos de barco pelo rio e só o que víamos era fogo dos dois lados. Algo surreal, pois a gente vai para o Pantanal, a maior região alagável do mundo, e só vê incêndio por todos os lados e nada de bicho.”

Mas o pior ainda estava por vir. No domingo eles andaram horas de carro pela BR-262 e praticamente não avistaram animais. “Só vimos um tamanduá-mirim na beira da rodovia e tudo seco, lagoas, riachos, vegetação”, revela. “Vimos também jacarés mortos em poças secas.”

No final do dia resolveram voltar para Campo Grande. “Era por volta de umas 18 horas e começamos a ver muito fogo, nos dois lados da estrada e focos mais distantes”, conta.

“De repente, uma labareda gigantesca cortou a estrada e não nos pegou por questão de dois ou três segundos. Fizemos a volta e retornamos para Corumbá, muito assustadas e com uma sensação de estar no Inferno, de Dante. Quer dizer, não conheci o Pantanal, pois não vi bichos, e quase morri.”

Espécies atingidas pelo incêndio no PantanalDireito de imagem VICENTE ASSAD
Não há espécie da fauna brasileira que esteja adaptada para conviver com incêndios, alerta oengenheiro florestal e especialista em restauração ambiental, Júlio Sampaio
Natureza,Ambiente,Meio Ambientea,Clima,Blog do Mesquita 01

O mundo sob efeito das mudanças climáticas

Exposição coloca em evidência o mundo sob efeito das mudanças climáticas

Simulação do cenário do módulo [Des]ordem. Foto: Divulgação.

Jornalista experiente na área ambiental, Felipe Lobo cultiva, há pelo menos uma década, o desejo de comunicar melhor os efeitos das mudanças climáticas na vida comum das pessoas. A ideia se concretizou nesta quinta-feira (10), na Cidades das Artes, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde ficará até 10 de novembro a exposição O Dia Seguinte, fruto dessa ambição.“Sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas”, explica Lobo, em conversa com ((o))eco por telefone.

A exposição ocupa dois andares na Cidade das Artes e está dividido em seis módulos, com foco em como as mudanças climáticas atinge as cidades. Leia a entrevista com Felipe Lobo.

*

Como surgiu a ideia? O que é o Dia Seguinte? 

Dia Seguinte surgiu de uma inquietação minha e a da Tiza Lobo, que é a minha sócia, de como as mudanças climáticas e o tema ambiental e sustentável como um todo é tratado, seja na grande imprensa, seja nas universidades e na comunicação de uma forma geral para as pessoas. Eu pelo menos, que trabalho com isso há doze, treze anos, sempre senti que estava faltando alguma coisa, que faltava um toque diferente para fazer com que as pessoas perceberem que falar sobre mudanças climáticas é muito mais do que falar sobre árvores, degelo ou qualquer assunto que possa parecer que está muito distante das pessoas.

Falar sobre mudanças climáticas, para mim, é muito mais falar sobre modelo de desenvolvimento. Falar sobre saúde, sobre segurança, sobre educação, cidadania, igualdade de gênero. Enfim, tudo o que importa para o nosso dia a dia.

Ao longo desses últimos tempos viemos pensando em como a gente poderia mostrar mais claramente como esse assunto é fundamental, urgente e que pertence a todos nós, independente da nossa classe social, de onde a gente vive, do que a gente faz e com o que a gente trabalha. As mudanças climáticas significam muito para as nossas vidas. Todos nós nos importamos em ter saúde, em ter segurança, paz, em ter tranquilidade, ter inclusão e tudo isso passa pelas mudanças climáticas.

Mas isso não é facilmente entendido pelo público

O jornalista Felipe Lobo. Foto: Arquivo Pessoal.

As pessoas acham que [as mudanças climáticas] vão acontecer daqui a muitos anos ou que são coisas que acontecem com os outros e não acontecem com elas ou que é um assunto que elas não precisam se preocupar agora. A gente quer mostrar que as mudanças climáticas, embora impactem em grande parte dos marginalizados de sempre, que são as mulheres, as pessoas mais pobres, a população negra, elas em algum momento podem atingir a todos. E mesmo que não atinjam, elas precisam ser tratadas com rigor porque elas já estão atingindo muitas pessoas e a gente precisa ter um pouco mais de empatia, um pouco mais de solidariedade com quem sofre com os efeitos. Decidimos que para tentar fazer isso de uma forma menos técnica, valia a pena fazer uma exposição sensorial, uma exposição imersiva, para que as pessoas consigam vivenciar de uma forma diferente o que são mudanças climáticas, o que elas significam para a gente e o que elas significam para as cidades.

E por que focar em cidades?

As cidades, embora ocupem apenas 2% da superfície terrestre, elas são lar de mais de 50% da população mundial — no Brasil, mais de 80%. Então, falar de cidades é muito importante porque elas são causa, consequências e também são a solução. São nas cidades que estão os governos locais, onde estão as academias, os recursos financeiros, as organizações da sociedade civil. São nos grandes centros urbanos que a gente começa a reverter este cenário também.

Me fala por que vocês escolheram inaugurar a exposição na Cidade das Artes e como está funcionando?

Primeiro que a gente queria fazer no Rio de Janeiro. Nós somos daqui e a gente sente que o Rio está muito carente de eventos culturais gratuitos. Decidimos pela Cidade das Artes, primeiro, porque é linda e estamos conseguindo fazer uma cenografia incorporada à arquitetura que está funcionando super bem. Em segundo lugar, porque ela fica na zona oeste da cidade. Quem é da zona sul acaba pensando apenas em Barra da Tijuca e a zona oeste tem Bangu, Santa Cruz, Tanque, Anil, Jacarepaguá etc. que são lugares que carecem muito de eventos culturais gratuitos. Então a gente quis ocupar o espaço da zona oeste com uma exposição como essa, super tecnológica, super imersiva para toda a família, cem por cento gratuito.

Há um braço do projeto que é educativo, temos ônibus para buscar e levar crianças de escolas municipais e estaduais para visitar a exposição.

Como ficou dividido a exposição?

Cartaz da Exposição.

Ficou dividida em cinco módulos. O primeiro deles se chama Bem-vindos ao dia seguinte e é composto por uma estrutura de andaime muito bonita com uma bola bem grande de materiais reciclados, muito plástico reciclado que ia ser descartado e a gente está usando com arte e depois a gente vai entregar para cooperativas de reciclagem. Embaixo dessa escultura vai ter um piso de LED que mostra uma água super límpida passando e depois começa a ficar super sujo com petróleo, com plástico, para as pessoas terem ideia do que se trata a exposição.

Logo em seguida tem um módulo que se chama [Des]Ordem, que é um módulo de choque. Que é uma estrutura com LEDs nas paredes e no teto e com sensações como vento, fumaça, enfim que a gente vai nesses LEDs a gente vai passar vários eventos climáticos extremos. Furacão, tempestade, inundação, seca, nevasca, para mostrar durante esses quatro minutos o que a gente vai viver no futuro. Hoje esses eventos são considerados extremos, mas no futuro podem ser frequentes se a gente começar a agir desde já. Então ali a gente quer chocar.

Logo depois tem outro módulo que se chama [Des]Humanidades, que é o módulo que a gente quer sensibilizar. Então a gente mostra o que as mudanças climáticas já causam hoje para o planeta e para as pessoas. A gente fala quem são os desabrigados, número de mortes, número de afetados etc. Tem um filme bem bonito que passa numa tela de 12 metros de comprimento e a gente tem do outro lado dessa tela seis depoimentos de brasileiros que sofreram com mudanças climáticas, seja com inundação, com seca, precisar migrar para outras cidades.

Logo depois a gente tem o módulo [Trans]Formação, que é o módulo em que a gente informa. Então, a gente chocou no Desordem, sensibilizou no Desumanidades, e no Transformação, a gente informa. É uma projeção mapeada com paredes bem grandes, globo solar, globo terrestre. Tem o piso também. Mostrando como as cidades foram construídas desde o Big Bang, passando pela Pangeia, época dos dinossauros e tal, até chegar na Revolução Industrial. E aí, a gente mostra como a partir da Revolução Industrial, a gente se transformou nessas mega e complexas metrópoles e como nós, seres humanos, passamos a ser responsáveis pelas mudanças do clima, a partir do momento em que a gente descobriu a queima de combustíveis fósseis etc. E no meio desse caminho, entre a [Trans]Formação e o [Des]Humanidades, tem um espaço com 8 telas touch, duas para cada módulo e uma tela de jogos, chamado espaço [In]Formativo. Nessas telas touch a gente faz várias iconografias, animações para explicar um pouco mais sobre mudanças climáticas: quais foram as reuniões mais importantes do clima? o que é poluição plástica? o que é água? o que é energia? o que saneamento? como o planeta está esquentando? quais são as projeções do clima para o futuro? e assim por diante.

Simulação do cenário do módulo [In]Formativo. Foto: Divulgação.

E por fim, tem um espaço que se chama [R]Evolução, que é o espaço onde a gente traz a esperança. Após tudo, a gente reforça que ainda está em tempo de mudar, embora o tempo seja muito curto, ainda tem tempo de mudar, a gente ainda pode transformar o planeta num lugar melhor, numa cidade inclusivas, mais sustentável. A gente mostra exemplos de cidades pelo mundo que já fazem o esforço de utilizar uma economia de baixo carbono e assim por diante. Então a gente termina a exposição com esse olhar de esperança e conectado à zona oeste. A ONU é um dos parceiros da exposição. A gente tem um painel mostrando como o clima pode ser diferente. Se a gente tiver as políticas públicas de base que consigam oferecer qualidade de vida para as pessoas e um caminho de transição para um mundo melhor.
Daniele Bragança

Natureza,Ambiente,Meio Ambiente,Reservalegal,Economia,Blog do Mesquita

Brasil: reservas legais – elas geram R$ 6 trilhões por ano

Estudo esclarece por que o Brasil precisa de suas reservas legais – elas geram R$ 6 trilhões por ano

 para o ecossistema e para a economia. Foto: Pixabay.
Carolina Lisboa

As áreas de reserva legal previstas na lei 12.651/12 (Código Florestal) têm por finalidade manter porcentagens fixas de vegetação nativa em propriedades privadas, que variam de 20% a 80% conforme o bioma. A obrigatoriedade de manter áreas naturais nas propriedades rurais existe desde 1934 ‒ há exatos 85 anos ‒, quando foi publicada a primeira versão do Código. A importância dessas áreas para o Brasil é o tema do artigo Why Brazil needs its Legal Reserves (Porque o Brasil precisa de suas Reservas Legais, em português), publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation e assinado por Jean Paul Metzger, do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP), junto a nove coautores e endossado por 407 cientistas  ‒ 391 deles pesquisadores de 79 instituições de ensino superior e pesquisa brasileiras. “Quando consideramos o rol de benefícios que essas áreas podem prover, tanto para o proprietário quanto para a sociedade, começamos a entender que esses benefícios não são pequenos. Eles são altos! Na verdade, em alguns casos, você tem muito mais benefícios mantendo a reserva legal do que retirando e avançando com o cultivo da área”, explicou Metzger.

O artigo destaca que as reservas legais correspondem a 167 milhões de hectares, ou 29% da vegetação nativa do Brasil, e que são um ativo ambiental, tanto para os proprietários de terras quanto para o país. “O que procuramos mostrar com esse estudo é que essas áreas proveem uma série de benefícios, tanto para o proprietário quanto para a sociedade. Desde benefícios mais globais como regulação climática e hídrica, quanto mais locais como provisão e serviços de polinização, controle biológico ou água. Elas podem também ser utilizadas economicamente, na medida que o proprietário mantém a vegetação. Pode, por exemplo, ter serviços de recreação ou retirada sustentável de madeira, de castanha ou de açaí. Além disso, é preciso lembrar que a Lei 12.651/12 permite o uso de 50% da reserva legal com espécies vegetais de uso econômico, inclusive exóticas”, esclareceu Metzger.

Cadastro Ambiental Rural de uma propriedade no Paraná mostra a área de produção e a área de reserva legal. Imagem: A Pública.

Metzger explica ainda que uma floresta gera benefícios econômicos que variam de mil a cinco mil dólares por hectare por ano, e que os 103 milhões de hectares de vegetação natural remanescente que não são protegidos por Lei na forma de reservas legais ou Áreas de Preservação Permanente (APPs), junto aos 167 milhões de hectares de reservas legais, somam 270 milhões de hectares de vegetação nativa que geram um ativo de cerca de R$ 6 trilhões por ano para o país em serviços ecossistêmicos. “Para fazer essa conta, nós utilizamos estudos reconhecidos internacionalmente que medem o valor econômico desses benefícios naturais, considerando 17 serviços ecossistêmicos, e fazendo uma estimativa de quanto se perderia em serviços pela supressão daquela vegetação”.

Além dos benefícios em serviços ecossistêmicos, Metzger afirma que uma vegetação nativa adjacente a áreas de cultivo agrícola reduz os investimentos em termos de insumos, de pesticidas e de fertilizantes. “Em um experimento que fizemos no sul de Minas Gerais, por exemplo, concluímos que a produção de café pode aumentar seus rendimentos em até 28% caso a lavoura esteja próxima a uma reserva legal. Esses são valores de 2 a 6 milhões de reais por ano. Um benefício que o produtor nem percebe, ou que percebe quando precisa investir mais em insumos para sua lavoura”.

O pesquisador explica ainda que, atualmente, o aumento de produção agrícola se dá mais por intensificação local do que por expansão de área de produção. “A mensagem do artigo é que uma área de vegetação nativa adjacente permite redução de investimentos em insumos. Manter a vegetação nativa também aumenta a produtividade, é um ativo para o país e é parte da solução para o desenvolvimento sustentável. É o que chamamos de soluções baseadas na natureza”, conclui Metzger.

Em entrevista para ((o))eco, Jean Paul Metzger contextualiza a situação das reservas legais no Brasil:

*

O Eco: O artigo esclarece a importância dos serviços ecossistêmicos prestados pelas reservas legais. A perda desses serviços poderia prejudicar o agronegócio? Como?

“Apenas a perda de serviços de polinização pode representar para o Brasil a redução na produção de mais de 29 cultivos, com perdas financeiras na ordem de 5-15 bilhões de dólares ao ano.”

Jean Paul Metzger: As reservas legais preveem importantes serviços ecossistêmicos para os proprietários, seus vizinhos, e para a sociedade como um todo, incluindo regulação climática, conservação de recursos hídricos, controle de zoonoses, polinização e controle biológico em áreas de cultivo. O efeito mais direto para o proprietário, e logo para o agronegócio, está na perda dos serviços de polinização, controle biológico e serviços de regulação hídrica. Apenas a perda de serviços de polinização pode representar para o Brasil a redução na produção de mais de 29 cultivos, com perdas financeiras na ordem de 5-15 bilhões de dólares ao ano.

É consenso entre os cientistas brasileiros que as reservas legais devem ser mantidas ou há alguma corrente que defende o contrário?

Eu desconheço correntes que defendam a extinção ou mesmo a redução na proteção de reservas legais. No entanto, é importante salientar que essa exigência, com meta fixa de conservação em área particular (de 20, 35 ou 80%), existe (até onde eu sei) apenas no Brasil. Ou seja, trata-se de uma legislação ambiental bastante exigente, mas considerando todos os benefícios que essas reservas trazem para os proprietários e para a sociedade, considero que ela é uma política adequada para estimular uma ocupação adequada do solo, promovendo tanto a conservação da biodiversidade em áreas de uso, como também propiciando a oferta de uma série de benefícios sociais.

Qual a situação geral das reservas legais no Brasil? Os proprietários de terras vem cumprindo essa exigência de manter ou recompor vegetação nativa? 

Os maiores passivos de reserva legal (que segundo a lei de 2012 deveriam ser restaurados) ocorrem no Cerrado (4,2 milhões de hectares/Mha), na Amazônia (3,6 Mha) e na Mata Atlântica (2,7 Mha). Em termos percentuais (passivo em relação à vegetação remanescente), a Mata Atlântica e os Pampas são os biomas mais afetados.

“Os maiores passivos de reserva legal (que segundo a lei de 2012 deveriam ser restaurados) ocorrem no Cerrado, na Amazônia e na Mata Atlântica”.

A taxa de conversão de vegetação nativa para diferentes tipos de usos (e.g. agropecuária) continua alta, principalmente em áreas particulares (quando comparadas com áreas públicas protegidas ou terras indígenas), com taxas crescentes a partir de 2012, depois da aprovação da Lei de Proteção da Vegetação Nativa (o “Novo Código Florestal”). Ou seja, o descumprimento à lei aumentou após a aprovação da nova versão da lei… O Brasil continua sendo campeão de desmatamento.

Por enquanto, as iniciativas de restauração são muito tímidas ou inexistentes.

A obrigatoriedade de manter vegetação nativa em propriedades ocorre em outros países?

Ocorre, de outras formas (por exemplo, com restrições ao corte, ou então com medidas agroambientais de apoio a práticas sustentáveis e de conservação), sem uma meta fixa como ocorre com a definição das reservas legais.

Ambiente,Oceanos,Ártico,MeioAmbiente,Mudanças Climáticas,Clima,Natureza,Poluição,Ecologia,Blog do Mesquita

Iceberg de 315 bilhões de toneladas se desprende da Antártida

Sistema de satélite Sentinel-1 da União Europeia capturou essas imagens para fazer a comparação antes e depois

A plataforma de gelo Amery, localizada na na Antártida, acaba de produzir seu maior iceberg em mais de 50 anos. O bloco tem uma área de 1.636 km² — um pouco maior que a cidade de São Paulo — e foi batizado de D28.

Assim que começa a se deslocar, um iceberg desse tamanho passa a ser monitorado e rastreado, pois no futuro pode se tornar um risco para o transporte marítimo. A Amery não produzia um iceberg tão grande desde a década de 1960.

Amery é a terceira maior plataforma de gelo da Antártida e um importante canal de escoamento para o leste do continente.

A plataforma é a extensão flutuante de várias geleiras que fluem na direção do mar. Perder icebergs para o oceano é a maneira como essas correntes de gelo mantêm o equilíbrio diante dos acúmulos de mais neve.

Mas os cientistas já previam esse acontecimento. O interessante é que boa parte da atenção sobre a área foi focada no leste do trecho que se separou.

Imagem mostra Dente SoltoDireito de imagem NASA
‘Dente mole’ retratado no início dos anos 2000; D28 é vista se formando à esquerda

‘Dente’ vizinho

Este é um segmento da Amery que ficou carinhosamente conhecido como Dente Mole, devido à sua semelhança em imagens de satélite com a dentição de uma criança. Ambas as áreas de gelo tinham o mesmo sistema de fendas.

Mas, embora pendente, o Dente Mole ainda continua preso. O D28 é que foi “extraído”.

“É um molar quando comparado a um dente de leite”, disse à BBC a professora Helen Fricker, da Scripps Institution of Oceanography.

Fricker havia previsto em 2002 que o Dente Mole se descolaria em algum momento entre 2010 e 2015.

“Estou empolgada em ver esse evento após todos esses anos. Sabíamos que isso aconteceria eventualmente, mas, para ficarmos mais espertos, não aconteceu exatamente quando esperávamos”, disse ela.

A pesquisadora do Scripps enfatizou que não havia ligação entre este evento e as mudanças climáticas.

Dados de satélite capturados desde a década de 1990 mostraram que a Amery está em equilíbrio com o ambiente, apesar de sofrer forte derretimento da superfície durante o verão.

Superfície da AmeryDireito de imagem RICHARD COLEMAN/UTAS
Amery, 3ª maior plataforma de gelo da Antártida, não produzia um iceberg tão grande como esse desde a década de 1960

“Embora haja muito com o que se preocupar na Antártida, ainda não há motivo de alarde em relação a essa plataforma de gelo em particular”, acrescentou a professora Fricker.

Entretanto, a Divisão Australiana da Antártida vai observar a Amery de perto para ver como ela reage. Os cientistas da divisão têm instrumentos na região.

É possível que a perda de um iceberg tão grande mude o equilíbrio na plataforma de gelo. Isso pode influenciar o comportamento das rachaduras e até a estabilidade do Dente Mole.

Calcula-se que o D28 tenha cerca de 210 metros de espessura e cerca de 315 bilhões de toneladas de gelo.

O nome vem de um sistema de classificação administrado pelo Centro Nacional de Neve e Gelo dos Estados Unidos, que divide a Antártida em quadrantes.

O quadrante D cobre as longitudes de 90 graus Leste a zero grau, o Meridiano de Greenwich. O tamanho do D28 é ofuscado pelo poderoso iceberg A68, que rompeu com a plataforma de gelo Larsen C em 2017. Atualmente, ele cobre uma área três vezes maior.

As correntes e ventos costeiros levarão o D28 para o oeste. É provável que demore vários anos para que se desmanche e derreta completamente.
BBC

Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

Fundos que controlam 16 trilhões de dólares cobram pela crise na Amazônia

Fundos financeiros de 30 países que movimentam 16 trilhões de dólares exigem que Brasil adote medidas eficazes para proteger a Amazônia em meio à recente crise ambiental.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

A Amazônia brasileira perdeu em agosto 1.698 quilômetros quadrados de sua cobertura vegetal por conta das queimadas.
Foto FERNANDO BIZERRA JR

Brasil só julgou 14 dos 300 assassinatos de ambientalistas da última década

Sob pressão, Câmara reinicia debate sobre lei que flexibiliza licenciamento ambiental

Boicote por crise dos incêndios na Amazônia chega ao mercado financeiro e acende alerta.

A crise ambiental provocada pelo aumento dos incêndios na Amazônia brasileira se refletiu com força no mercado financeiro. Nesta quarta-feira, um total de 230 fundos de investimento internacionais que juntos administram 16 trilhões de dólares (cerca de 65 trilhões de reais) –valor equivalente a cerca de nove vezes o PIB do país em 2018– publicaram um manifesto, colocando mais pressão para que o Governo brasileiro apresente medidas efetivas para proteger a floresta amazônica e deter o desmatamento. O manifesto foi divulgado no mesmo dia em que a Organização das Nações Unidas (ONU) vetou o discurso do presidente Jair Bolsonaro ou de um representante brasileiro na cúpula do clima da próxima semana em Nova York. A justificativa é que o Brasil não apresentou um plano concreto e inspirador de aumento do compromisso de enfrentar a mudança climática.

Em um contexto de aumento da degradação e de debilidade na fiscalização ambiental no Brasil, empresas e fundos de investimento manifestaram preocupação com o impacto financeiro que o desmatamento na Amazônia pode ter nas empresas nas quais possuem participações, o que poderia aumentar os riscos de reputação, operacionais e regulatórios.

Os 230 fundos de investimento que colocaram mais pressão no Governo Federal nesta quarta-feira pedem às empresas que “redobrem seus esforços e demonstrem um claro compromisso de eliminar o desmatamento em suas operações e cadeias de abastecimento”. Trata-se de um grupo grande que investe um valor em torno de nove vezes o PIB brasileiro do ano passado. Nesse sentido, seu manifesto pode ter uma força importante para alertar as empresas que são coniventes com o desmatamento.

A responsabilidade ambiental, social e de governança (conhecida sob a sigla em inglês ESG) é um critério crescente nas carteiras de fundos de investimento em todo o mundo, como reflexo dos grupos de pressão na sociedade organizados em torno da luta contra a mudança climática. Na semana passada, grupos liderados pela ESG disseram que a onda de incêndios no Brasil entrou no radar.

O Brasil registrou entre janeiro e a terceira semana de agosto um total de 71.497 focos de incêndio, o maior número do mesmo período nos últimos sete anos, e pouco mais da metade ocorreu na maior floresta tropical do mundo. “Considerando o aumento das taxas de desmatamento e os recentes incêndios na Amazônia, estamos preocupados que as empresas expostas ao possível desmatamento em suas operações e cadeias de abastecimento brasileiras tenham cada vez mais dificuldades para ter acesso aos mercados internacionais”, diz a nota conjunta dos 230 fundos de investimento.

Eles se juntam a mais empresas e outros fundos de investimento que já tinham reagido nas últimas semanas contra a política ambiental do Governo Federal. O presidente minimizou a mudança climática e o desmatamento ilegal, assim como rejeitou as críticas de países como França e Alemanha. Sem um plano ambicioso para enfrentar a mudança climática, o presidente nem sequer poderá discursar na cúpula da ONU na próxima semana. A Organização havia solicitado aos países que apresentassem um plano com seus compromissos climáticos e selecionou os 63 que tinham os discursos mais inspiradores. O Brasil ficou fora dessa lista, assim como os Estados Unidos e outros países.

A crise ambiental brasileira se tornou um golpe na imagem internacional do país. Há pouco menos de duas semanas, a gigante da moda H&M anunciou a suspensão, com efeito imediato, da compra de couro brasileiro. Alegou “a conexão dos graves incêndios da Amazônia com a pecuária”. A decisão, segundo a empresa, ficará em vigor “até que existam sistemas de controle confiáveis de que o couro não contribui para os danos ambientais na Amazônia”.

O Brasil sofre uma campanha de boicote aos seus produtos, promovida por empresas internacionais que têm uma clientela cada vez mais preocupada com a mudança climática. Além da H&M, as empresas VFcorp, Vans e The North Face também anunciaram que deixariam de comprar couro brasileiro.

Meio Ambiente,Plásticos,Oceanos,Poluição,Blog do Mesquita 02

Estudo na Alemanha acha plástico em organismo de crianças

Resíduos foram encontrados no corpo de quase todos os menores testados. Algumas das substâncias podem causar danos à saúde e ao desenvolvimento infantil. Uma delas será proibida na UE a partir do ano que vem.    

Peças de Lego numa mesa e algumas mãos de criançasTraços de 11 de 15 aditivos plásticos foram encontrados nas amostras

Componentes de material plástico foram encontrados em 97% das amostras de sangue e urina de 2.500 crianças entre três e 17 anos, testadas entre 2014 e 2017, de acordo com um estudo do Ministério do Meio Ambiente da Alemanha e do Instituto Robert Koch, divulgado nesta sexta-feira (13/09) pela revista Der Spiegel.

Traços de 11 de 15 aditivos plásticos foram encontrados nas amostras. “Nosso estudo mostra claramente que os aditivos plásticos, que estão crescendo em produção, também estão aparecendo cada vez mais no organismo das pessoas”, disse à revista Marike Kolossa-Gehring, membro da equipe que realizou o estudo.

Plásticos de produtos de limpeza, de roupas impermeáveis, de embalagens de alimentos e de utensílios de cozinha frequentemente entram em contato direto com o corpo.

Embora alguns dos produtos químicos encontrados não apresentem riscos conhecidos à saúde, os pesquisadores disseram estar particularmente preocupados com os altos níveis de ácido perfluorooctanóico (PFOA) encontrados no estudo. O PFOA é frequentemente usado em panelas antiaderentes e em roupas impermeáveis.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente alemão, a substância é perigosa para o sistema reprodutivo e é tóxico para o fígado. A UE proibirá a substância a partir de 2020.

Os subprodutos plásticos também podem interromper funções hormonais, o que pode levar à obesidade, distúrbios reprodutivos, câncer e atrasos no desenvolvimento de crianças.

Crianças menores são mais vulneráveis

Segundo a pesquisa, as crianças mais jovens foram as mais afetadas pela ingestão de plástico. O estudo também mostrou que crianças de famílias mais pobres tinham mais resíduos de plástico em seus corpos do que crianças de famílias de alta renda.

“É muito preocupante que as crianças mais novas, como o grupo mais sensível, também sejam as mais afetadas”, disse Kolossa-Gehring.

“Não é possível que cada quarta criança entre três e cinco anos esteja tão sobrecarregada com produtos químicos que danos a longo prazo não possam ser descartados com segurança”, disse à Der Spiegel a especialista em saúde ambiental do Partido Verde Bettina Hoffmann.

Segundo a revista, o estudo ainda não foi publicado, e os resultados foram disponibilizados pelo governo mediante solicitação de um questionamento feito pelo Partido Verde sobre os efeitos de produtos químicos na saúde pública.

Hoffmann disse que não há pesquisas suficientes sobre como substâncias químicas de plásticos afetam o organismo humano e como eles são ingeridos.

Ambiente,Amazônia,Ouro,Contaminação,Celulares,Ecologia,Meio Ambiente,Natureza,Brasil,Crimes Ambientais,BlogdoMesquita

Seu celular também está destruindo a Amazônia

“Se você se preocupa com a Floresta Amazônica, não há nada que faça mais mal a ela do que a mineração aluvial. Você poderia jogar uma bomba nuclear na floresta, e isso seria melhor do que garimpá-la.”Ambiente,Amazônia,Ouro,Contaminação,Celulares,Ecologia,Meio Ambiente,Natureza,Brasil,Crimes Ambientais,BlogdoMesquita

Cris Bouroncle / AFP / Getty Images

Vista aérea de uma área quimicamente desmatada da floresta amazônica causada por atividades ilegais de mineração na bacia hidrográfica da região de Madre de Dios, no sudeste do Peru, em 17 de maio de 2019, durante a operação conjunta “Mercúrio” realizada por militares e policiais peruanos em andamento desde fevereiro de 2019.

Os incêndios florestais que estão assolando a Amazônia atraíram a atenção do mundo. Muitos cientistas acreditam que os pecuaristas, para limpar as terras, tenham causado os incêndios, estimulando grupos em todo o mundo — incluindo o governo da Finlândia — a pedirem um boicote à carne brasileira. Mas, para boicotar todos os produtos que estão destruindo a Amazônia, você precisaria fazer muito mais do que desistir da carne.

Você precisaria jogar fora seu celular, seu notebook, sua aliança de casamento e qualquer outra coisa contendo ouro.

“Não há como extrair o ouro sem destruir a floresta. Quanto mais acres você destrói, mais ouro obtém. É diretamente proporcional”, disse Miles Silman, cofundador do Centro de Inovação Científica da Amazônia (CINCIA) da Universidade Wake Forest.

“Não há como extrair o ouro sem destruir a floresta.”

O que alimenta essa demanda não é apenas o apetite mundial por barras e joias de ouro — as maiores finalidades dadas ao ouro —, mas também da alta tecnologia. Pequenas correntes elétricas circulam constantemente pelo seu iPhone, pela sua assistente virtual Alexa e pelo seu notebook — e quem transporta essas correntes é o ouro, um fantástico condutor de eletricidade que também é resistente à corrosão.

Embora não haja muito ouro dentro de um único dispositivo — um iPhone 6, por exemplo, contém 0,014 gramas, ou cerca de R$ 2 —, no total, o valor é espantoso. Segundo o pesquisador de mercado Gartner, mais de 1,5 bilhão de smartphones foram vendidos no ano passado, com 1,3 bilhão deles sendo dispositivos Android. Estes foram seguidos por 215 milhões de dispositivos iOS.

Portanto, a indústria de tecnologia, que consome quase 335 toneladas de ouro por ano, simplesmente precisará cada vez mais do metal.

“Há uma corrida do ouro na Amazônia no momento, exatamente como a corrida do ouro que aconteceu na Califórnia na década de 1850”, disse Silman.

De acordo com um estudo do CINCIA de 2018, a mineração artesanal, ou mineração em pequena escala conduzida por garimpeiros independentes, desmatou quase 250 mil acres de floresta tropical na região de Madre de Dios, no Peru, onde Silman concentra seu trabalho. Outro estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Porto Rico em 2015, descobriu que aproximadamente 415 mil acres de floresta tropical na América do Sul foram perdidos pela mineração de ouro. Um mapa compilado pelo grupo ambiental Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada mostra 2.312 locais de garimpo ilegal em 245 áreas em seis países, o que o grupo chamou de “epidemia”.

E assim como a corrida do ouro na Califórnia deu origem a uma ilegalidade que levou gerações até ser controlada, os fornecedores da indústria de tecnologia nem sempre conseguem atender à demanda, e às vezes recorrem à economia do garimpo ilegal da Amazônia.

Afp / AFP / Getty Images

Um garimpeiro mostra um pedaço de ouro após extração e processamento, em 6 de maio de 2008 em El Ingenio, Peru, 420 km ao sul de Lima. A mineração artesanal é responsável pela subsistência de mais de 40 mil famílias peruanas, e quase 15% da produção de ouro do país venha dessa atividade. Desde os anos 80, muitos campos de extração foram convertidos em pequenas cidades mineiras, sem serviços básicos e com altos níveis de poluição.

Uma investigação do Miami Herald em 2018 detalhou como vários negociantes da empresa de metais preciosos do sul da Flórida, a NTR Metals, compraram US$ 3,6 bilhões em ouro de minas ilegais na América do Sul. A NTR Metals desde então foi fechada e os negociantes presos. A empresa era uma subsidiária da Elemetal, uma importante refinaria de ouro dos EUA fornecedora da Tiffany & Co. e outras marcas de consumo, como a Apple, a qual disse que parou de trabalhar com a fornecedora, em divulgações corporativas para o ano de 2017 e 2018.

A Apple está longe de ser a única gigante da tecnologia que obtém ouro da região amazônica. Uma análise das divulgações corporativas feita pelo BuzzFeed News descobriu que Amazon (a empresa), Apple, Samsung, Sony e Google listam as refinarias Asahi e Metalor como fornecedores. Por sua vez, essas empresas, com sede respectivamente no Japão e na Suíça, compram parte de seu ouro das minas sul-americanas. De acordo com o Herald, essas empresas compram de corretores, que obtêm seu ouro de uma variedade de minas legais e ilegais na região.

Empresas como a Alphabet, controladora do Google, estão cientes dos impactos da mineração de ouro na Amazônia, e têm tomado medidas para resolver isso. Um porta-voz da empresa do Google apontou para sua política de minerais de conflito, e diz que conta com auditorias de terceiros para garantir que as fundições estejam em conformidade. Samsung, Sony e Amazon não responderam a um pedido para comentar o assunto. A Apple disse ao BuzzFeed News que todas as suas refinarias de ouro participam de auditorias de terceiros. “Se uma refinaria não for capaz ou não estiver disposta a cumprir nossos padrões, ela será removida da nossa cadeia de suprimentos”, disse um porta-voz da Apple. “Desde 2015, paramos de trabalhar com 60 refinarias de ouro por esse motivo.”

O ouro sujo não acaba apenas nos eletrônicos. Um relatório de 2015 do Ojo Público relatou que empresas vinculadas à London Bullion Market Association — uma organização que determina o preço internacional do ouro — adquiriram metais preciosos em campos de mineração ilegais no Peru, Bolívia e Brasil.

Estima-se que de 15% a 20% do ouro em joias e eletroeletrônicos inadvertidamente vem de minas de ouro de pequena escala, de acordo com a Fairtrade Gold, uma organização que defende o uso de metais preciosos de origem responsável.

“Uma parte do problema do ouro é que tudo vai para um caldeirão de derretimento. Assim, você pode ter uma barra de ouro onde parte dela vem de fontes responsáveis e parte de fontes ilegais, mas que se parece com qualquer barra de ouro”, disse Sarah duPont, presidente da Amazon Aid Foundation.

Essa extração ilegal e suja de ouro afeta o meio ambiente e os seres humanos que o mineram. Comparado à agricultura de soja ou à pecuária, o setor de mineração desmata menos acres de floresta da Amazônia.

No entanto, diz Silman, as emissões de carbono da mineração podem tornar o impacto ambiental da indústria entre 3 a 8 vezes maior do que os acres de superfície perdidos para a mineração podem sugerir.

Além de arrancarem árvores e outras plantas, os mineradores cavam de dois a quatro metros de profundidade no solo, onde o solo é rico em carbono. Esse solo pode ter milhares de anos, e a mineração do ouro libera esse carbono de volta à atmosfera, matando nutrientes na terra que são vitais para as plantas da floresta tropical.

“Se você se preocupa com a Floresta Amazônica, não há nada que faça mais mal a ela do que a mineração aluvial.”

“As taxas de crescimento nas minas são muito lentas, porque você lavou tudo o que é bom do solo”, disse Silman.

A mineração do ouro também transforma a paisagem de outra forma: “1 em cada 5 acres convertidos pela mineração não pode ser reflorestado porque ele é convertido em um corpo d’água. Então, acaba ficando igual a Minnesota, com milhares de lagos por toda a paisagem”, disse Silman. “Se você se preocupa com a Floresta Amazônica, não há nada que faça mais mal a ela do que a mineração aluvial. Você poderia jogar uma bomba nuclear na floresta, e isso seria melhor do que minerá-la.”

Além da devastação ambiental, o mercúrio, usado como amálgama para extrair o ouro da terra, contamina o suprimento de água e alimentos da região. De acordo com o Instituto Nacional de Saúde dos EUA, a mineração artesanal e em pequena escala de ouro é a principal fonte de mercúrioliberada no meio ambiente. Pesquisadores descobriram altos níveis de mercúrio, o qual tem efeitos sérios à saúde nos sistemas nervoso, digestivo e imunológico, em pessoas vivendo ao longo da fronteira Brasil-Venezuela, na área de Madre de Dios do Peru e no Suriname.

Joao Laet / AFP / Getty Images

Vista aérea do campo informal de mineração de ouro Esperança IV, próximo ao território indígena Menkragnoti, em Altamira, Pará, Brasil, na bacia amazônica, em 28 de agosto de 2019.

Apesar dos perigos, é improvável que a mineração do ouro na região amazônica diminua. O presidente Jair Bolsonaro está trabalhando para abrir mais da Amazônia à mineração.

O que pode ser feito? Segundo Kevin Telmer, diretor executivo do Artisanal Gold Council, uma organização que trabalha para profissionalizar e treinar o setor, o problema ambiental está vinculado ao da pobreza extrema.

Proibir a mineração em pequena escala não seria eficaz, de acordo com a Telmer: “As pessoas têm pedido a saída dos garimpeiros há 40 anos, e eles não saíram. O que a proibição faz é levar a economia ao mercado negro.”

“O que realmente é necessário são caminhos econômicos sustentáveis para os indivíduos que atualmente praticam o garimpo ilegal”, disse Payal Sampat, diretora do programa de mineração da Earthworks, uma organização sem fins lucrativos que iniciou uma campanha chamada No Dirty Gold (Sem Ouro Sujo, em tradução livre) em 2008. Sampat acrescentou que a compra de joias antigas e a manutenção de aparelhos eletrônicos por mais tempo é uma boa maneira de as pessoas reduzirem o consumo de ouro.

Silman, pesquisador do CINCIA, concorda. As minas exploradas legalmente, disse ele, estão pelo menos confinadas a uma pequena área, em vez de milhares de minas espalhadas pela paisagem. A tributação das operações de mineração também pode ajudar o fluxo de dinheiro a voltar para a colocação de empregos e outros programas: “Foram arrecadados US$ 3 bilhões em Madre de Dios, e muito disso escoou através das máfias. Há pouco mais de 100 mil pessoas vivendo naquela terra, e elas teriam recebido US$ 300 milhões em receita tributária”, disse ele.

O Artisanal Gold Council, disse Telmer, está trabalhando para fornecer treinamento e educação para os mineradores, reflorestar áreas mineradas e introduzir processos mais eficazes que o uso de mercúrio.

A formalização e a profissionalização do setor podem ajudar os mineradores a serem mais produtivos e também menos impactantes para o meio ambiente, disse Silman: “Depois de fazer tudo isso, pelo menos você pode tirar um bom proveito da mineração e ainda não destruir todas as oportunidades para o futuro dependentes da biodiversidade.”
Nicole Nguyen

Meio Ambiente,Ecologia,Plástico,Poluição,Blog do Mesquita

O mundo está viciado em lixo plástico

Celia Talbot Tobin

As praias na Guatemala e em Honduras localizadas perto da foz do rio Montagua, vistas aqui, são alguns dos piores exemplos de acúmulo de lixo.

Quando você começa a procurar lixo, passa a vê-lo em todo lugar. Ele passa por você todos os dias, um fluxo infinito de sacolas, embalagens de delivery e garfos descartáveis, plásticos e papéis-alumínio que vêm enrolados em todo tubo de pasta de dente, brinquedo ou carregador que você compra e, posteriormente, os próprios tubos, brinquedos e carregadores. Até mesmo as roupas que você está vestindo e os sapatos que está calçando. O lixo está ao nosso redor o tempo todo, por um momento, antes de desaparecer em um lixão distante – o que não é visto, não é lembrado.

Na Guatemala, essas correntes movem-se pelo rio Motagua. O maior rio do país cobre dois terços do caminho até o istmo do Panamá, 483 quilômetros de sua nascente nos remotos planaltos centrais da Guatemala até sua foz no Recife Mesoamericano, no Caribe, a segunda maior barreira de corais do mundo. Ao longo do caminho, passa pela Cidade da Guatemala, a movimentada capital do país, apinhada com 3 milhões de pessoas e marcada por ravinas profundas que, na época das chuvas, conduzem as águas de enchentes repletas de lixos e detritos até o rio.

Durante anos as ondas de lixo chegavam até as praias da Guatemala e da vizinha Honduras, enterrando as pequenas comunidades de peixes em montes de isopor e outros plásticos: pentes, escovas de dente, tubos de rímel, Crocs, chinelos, serpentes coloridas de cordas plásticas, tapetes moldados de espuma, bolas de borracha, bonequinhos, garrafas de refrigerante, seringas, bolsas intravenosas, garrafas de desinfetante pela metade. Ao largo da costa, recifes de bolsas plásticas flutuam nas ondas, como icebergs com a ponta projetada acima da superfície e ocultando muito mais embaixo d’água.

Celia Talbot Tobin

Em El Quetzalito, os habitantes locais são responsáveis pela manutenção das “bio cercas”, instaladas recentemente pelo governo. Construídas a partir de grandes garrafas plásticas unidas com malhas, elas agem como barreiras superficiais, impedindo que o lixo flutuante chegue à foz do rio Montagua enquanto ele deságua no Mar do Caribe.

Na pequena comunidade de El Quetzalito, os habitantes locais limpam as praias com ancinhos e carrinhos de mão. A maioria deles ganhava a vida com a pesca ou a agricultura de subsistência anteriormente, porém agora eles trabalham para o governo, mais especificamente para o Ministério do Meio Ambiente, que vem lutando para enfrentar o problema da poluição ao longo do Montagua.

Apesar de as vítimas dessa poluição serem locais, o problema é verdadeiramente global: estima-se que 80% do plástico nos oceanos é resultado da “má gestão dos lixos”, assim como os que transbordam do lixão da Cidade da Guatemala todos os anos. Enquanto as cidades americanas proíbem sacolas e canudos plásticos, nenhuma medida é tomada para combater essa grande fonte de poluição.

Ao fim das três semanas que passamos na América Central, tentamos calcular todo o lixo que deixamos para trás: 15 garrafas plásticas de água, de tamanhos variados, 15 tampas de garrafas plásticas, de cores variadas, 8 garrafas de vidro, 22 latas de alumínio, 12 copos plásticos incolores, 5 copinhos de isopor para café, 3 tampas de plástico para café, 7 canudos de plástico, 1 par de chinelos de microfibra e espuma do hotel, usado duas vezes, 4 lenços umedecidos de limpeza facial, 1 porta remédios de plástico, que armazenou anteriormente um suprimento de um antimalárico para seis dias, 1 garrafinha com solução para lentes de contato, 3 mini frascos de xampu, condicionador e sabonete líquido, parcialmente vazios. Quanto às sacolas plásticas, oferecidas em todos os lugares apesar de fazermos de tudo para evitá-las, perdemos as contas.

Começamos a perceber o plástico não como algo que é irresponsavelmente descartado, mas como algo que é, antes de mais nada, irresponsavelmente criado. O plástico, em especial, é onipresente e inevitável, produzido tão casualmente quanto é descartado: um canudo cortado ao meio e servido com nossos cafés matinais, um par barato de sapatos que não dura muito tempo, uma sacola plástica para armazenar a fruta que compramos no mercado. A “nascente” do plástico fica em algum lugar muito distante, invisível, mas sua corrente é interminável.

Celia Talbot Tobin
El Quetzalito fica na foz do rio Montagua, onde ele deságua no Mar do Caribe. Aqui, como em algumas outras poucas comunidades locais, são realizados alguns pequenos projetos educacionais. Alguns deles adotam uma abordagem mais artística, como a construção de estruturas para atividades escolares extracurriculares a partir de garrafas plásticas coletadas, que são preenchidas com mais plástico flexível recolhido.
Celia Talbot Tobin

Como muitos países da América Central, a Guatemala possui poucas usinas de reciclagem. Na pequena comunidade de El Quetzalito – a última parada antes de o lixo chegar ao mar –, a maior parte do lixo reciclado coletado é levado de caminhão para a Cidade da Guatemala, 300 km a oeste, fazendo o caminho de volta ao lado do mesmo rio que o levou até ali.

Celia Talbot Tobin

 

No país, há instalações particulares de coleta de resíduos apenas na Cidade da Guatemala, onde materiais recicláveis, como o papel visto aqui, são separados por tipo e compactados.

Celia Talbot Tobin

 

Papel em uma instalação de coleta de recicláveis.

Celia Talbot Tobin

O papel é separado por tipo e peso em uma instalação de coleta na Cidade da Guatemala.

Celia Talbot Tobin

Piscinas naturais formam-se nas praias ao longo da foz do Motagua, onde o lixo – parte dele tendo viajado por toda a extensão do rio – deságua no Mar do Caribe, pertinho do Recife Mesoamericano.

Celia Talbot Tobin

Durante quase toda a sua existência, os vilarejos na costa do Mar do Caribe na Guatemala ganharam a vida com a pesca. Com os ecossistemas cada vez mais vulneráveis, esse futuro não parece mais tão certo.

Celia Talbot Tobin

Montes de plástico e isopor empilhados nas praias da Guatemala e repletos de garrafas de refrigerante, pentes, escovas de dente, Crocs, bonequinhos, seringas e bolsas intravenosas.

Celia Talbot Tobin

O único lixão oficial da Guatemala, localizado na movimentada capital do país, que possui 3 milhões de habitantes, é o maior da América Central. O Motagua nasce nos planaltos a oeste e passa pela cidade, marcada por ravinas profundas que, na época das chuvas, conduzem as águas de enchente repletas de lixos e detritos até o rio.

Celia Talbot Tobin

Em El Quetzalito, na foz do rio, os habitantes locais limpam as praias com ancinhos e carrinhos de mão, uma pequena equipe recrutada pelo governo para atuar como a última barreira entre o restante do lixo do país e o oceano.
Via BuzzFeed