Narcotráfico,Chile,Ricardo Martinez

Em gravação secreta, Exército do Chile reconhece venda ilegal de armas ao narcotráfico

Narcotráfico,Chile,Ricardo MartinezÁudio revelou que comandante-chefe Ricardo Martinez recomendou “cuidado” a oficiais diante de relatório que investiga corrupção interna na instituição; em reunião com ministro da Defesa, militar disse que usou “palavras imprudentes”

Em uma gravação secreta, o comandante-chefe do Exército do Chile, general Ricardo Martinez, reconheceu que oficiais da instituição vendiam armas ilegais para grupos associados com o tráfico de drogas, de acordo com o jornal The Clinic.

Na gravação, o militar se dirige a 900 oficiais da Escola Militar da capital Santiago, recomendando “cuidado” aos membros diante do recebimento de um relatório sobre corrupção dentro do Exército.

De acordo com as falas de Martinez, há evidências de que ao menos cinco suboficiais das Forças Armadas chilenas estão envolvidos na venda de armamentos para cartéis.

“Com a inteligência militar, temos indícios de que pode ser que eles compraram armas e depois as davam por perdidas para vendê-las”, disse ele.

O comandante fala no áudio de outros atos de corrupção dentro do corpo militar, tais como desvio de fundos públicos, relacionados à compra de bilhetes de funcionários e à coleta ilegal de pensões.

“Foi um aviso para todos ficarem claros de que são atos completamente em desacordo com a lei”, diz Martinez.

O governo do presidente Sebastián Piñera assegura que as informações obtidas no áudio são fatos do passado que já estão sendo investigados.

O chefe do Ministério da Defesa do Chile, Alberto Espina, solicitou uma reunião com o General Martinez após a revelação, na qual pedirá que militar comprove as alegações.

“Eu telefonei para o comandante-chefe, que está em uma reunião de generais fora de Santiago, e pedi-lhe para me dar imediatamente todas as informações amanhã, em detalhes, sobre os fatos que ele mencionou “. A reunião foi marcada para as primeiras horas da manhã desta sexta-feira (23/11).

Escândalos de corrupção do exército chileno resultaram, há duas semanas, na remoção de 21 generais – o que representa cerca de metade da liderança.

Resposta

Durante uma coletiva de imprensa em frente ao Edifício do Exército Bicentenário, o comandante se referiu à publicação do The Clinic e pediu “desculpas” pelas “palavras imprudentes”.

“Na reunião com o ministro da Defesa, Alberto Espina, represento que minhas palavras eram imprudentes, eu me encarrego disso, e se alguma das minhas expressões foi interpretada dessa maneira, eu ofereço as desculpas correspondentes”, disse Martinez.

(*) Com TeleSUR

O EXAME DE DROGAS PARA CARTEIRA DE MOTORISTA É INEFICIENTE E ESTÁ SENDO PAGO POR VOCÊ

A TRAGÉDIA DA VIOLÊNCIA no Brasil vai além das milhares de pessoas assassinadas. Ela também ocorre no trânsito.

 Em 2016, os acidentes mataram mais de 35 mil pessoas. Em uma década, são mais de 400 mil mortes decorrentes de desastres com caminhões, carros, ônibus e motos, incluindo os atropelamentos. É urgente agir para reduzir esses números e fomentar políticas que previnam a combinação de consumo de álcool e outras drogas com direção, um dos aspectos mais relevantes para a segurança no trânsito.

Nos últimos anos, porém, a ausência de uma discussão aprofundada e amparada em evidências somada a ações oportunistas e demagógicas do governo federal levaram o Brasil a adotar uma política cara, ineficaz e discriminatória que replica, no transporte, os equívocos da política contra as drogas. E, se depender de um esforço coordenado em andamento, isso pode piorar. 

Trata-se do exame toxicológico de larga janela de detecção que, a partir da implantação da lei 13.103, de 2015, se tornou obrigatório para qualquer pessoa que queira solicitar ou renovar uma permissão de dirigir veículos automotores nas categorias C, D e E – aquelas que permitem que motoristas exerçam atividade profissional. Esse teste é realizado em amostras de cabelo, outros pelos do corpo ou unhas e deve ser capaz, segundo a lei, “aferir o consumo de substâncias psicoativas que, comprovadamente, comprometam a capacidade de direção e deverá ter janela de detecção mínima de 90 (noventa) dias, nos termos das normas do Contran”.

Os grupos de drogas que têm que ser pesquisados são as anfetaminas, os canabinoides, os opiáceos, a cocaína e o mazindol. Curiosamente, e sem nenhuma justificativa, outras drogas psicoativas com demonstrado potencial de dependência e que podem comprometer a capacidade de direção, como os benzodiazepínicos, não foram incluídas na lei. O exame, então, passou a ser realizado somente por laboratórios credenciados pelo Denatran.

Um intenso lobby já garantiu a obrigatoriedade do exame em todo país e, agora, seu objetivo é derrubar qualquer obstáculo judiciário ao exame e, mais a frente, torná-lo obrigatório para qualquer categoria de motoristas – ou seja, para todas as pessoas que dirigem veículos de qualquer tipo no Brasil.

Antes de tudo, há inúmeros problemas técnicos com o exame:

  1. Ausência de locais apropriados para coleta de material em todo o território nacional: muitos postos de coleta disponíveis pelos laboratórios atualmente credenciados não têm estrutura para adequada para essa tarefa.
  1. Foram demonstradas falhas na interpretação dos resultados: para citar um exemplo, o resultado positivo para canabinoides (derivados da maconha) detectados no cabelo pode não estar relacionado ao uso dessas drogas por quem passou pelo exame.
  1. Os exames não estão considerando a diferença entre pelos corporais e do couro cabeludo: os primeiros são incapazes de servir como parâmetro para averiguar o uso de substâncias psicoativas nos últimos 90 dias.
  1. Não existe nenhuma indicação que exame em unha, cuja ocorrência já foi relatada pela imprensa, possa ser utilizado para fins de prevenção de acidentes.
  1. Tem ocorrido atraso nos laudos e, consequentemente, perda da validade do exame (60 dias).
  1. Inexistem evidências científicas que apontem para a eficácia da medida do ponto de vista de segurança no trânsito: nenhum país do mundo adota esta política para aumentar a segurança no trânsito.

Ainda que o exame não tivesse todos esses problemas listados, obter a informação de que alguém fumou maconha, cheirou cocaína ou consumiu algum opiáceo ou anfetamina há 90 dias não comprova que a pessoa tenha dirigido sob o efeito de drogas – ou o que irá fazê-lo no futuro.

Além disso, o exame não é suficiente para atestar que essa pessoa faça uso problemático ou seja dependente dessa substância, assim como não seria se o exame apontasse que, há 90 dias, ela consumiu bebidas alcoólicas.

Ao contrário, o exame pode reforçar o estigma que já recai sobre pessoas que consomem substâncias psicoativas ilícitas. E, pior, caso essa mesma pessoa realmente esteja no limiar de um uso problemático – convém, também, não ignorar as consequências de exames falsos-positivos –, a exclusão do direito de dirigir profissionalmente pode torná-la ainda mais vulnerável à discriminação de seus potenciais empregadores.

A obrigatoriedade desses exames, cujo custo milionário é bancado por cidadãos brasileiros, produz um diversionismo para ações que, de fato, poderiam reduzir as estatísticas dramáticas de acidentes de trânsito. Por exemplo: a falta de fiscalização para flagrar quem está dirigindo sob efeito de alguma droga psicoativa – principalmente o álcool, que é, de longe, a substância que mais está relacionada a acidentes no Brasil – ou cometendo outras imprudências, como o excesso de velocidade.

O mínimo que se espera para colocar em prática uma medida com esse custo econômico e social seria uma avaliação de seus potenciais benefícios. Tomar como critério de sucesso a redução do número de pessoas que estão pleiteando autorização para dirigir – como tem sido feito pelo lobby a favor do exame – é o equivalente lógico a comemorar uma redução do número de voos comerciais pelo seu potencial de diminuição de acidentes aéreos.
Fonte:TheIntercept

Foto em destaque: Exame do bafômetro é uma das medidas eficazes contra acidentes e deveria ser reforçada. Crédito: Eduardo Anizelli/Folhapress

O Rio é como Beirute

EM OUTUBRO DE 1964, um policial meteu o pé na porta de uma casa na periferia de Marselha e prendeu o químico Joseph Cesari, o mais famoso refinador de heroína da Europa.

Foto de destaque: atentado a bomba que matou o juiz anti-máfia Giovani Falcone, sua mulher e oficiais da escolta.
Foto: wikicommons 

 Havia mais de uma década que um laboratório não era descoberto na capital do crime organizado francês – as forças de ordem assistiam à escalada da violência passivamente.

A queda de Cesari não acabou com o tráfico, é claro. O mercado americano, principal comprador da heroína francesa, demandava cada vez mais, e os gângsters buscaram saída nos braços seguros dos compadres italianos: a máfia Cosa Nostra importou os refinadores do lado de lá dos Alpes e fez da Sicília o maior laboratório do mundo.

A heroína gerou riqueza e violência nunca vistas. Em poucos anos, Palermo tinha pelas ruas tantos cadáveres quanto o Líbano em guerra. Uma manchete de jornal virou o símbolo daquele tempo: “Palermo é como Beirute”.

A história passada há meio século ilustra muito do que acontece hoje no Rio de Janeiro. A guerra às drogas já se mostrava, em 1964, um equívoco. Hoje, é uma insanidade. E mesmo que o desejo seja o de continuar com a repressão, a história também mostra que não existe “escalada do crime” que seja tão rápida que não possa ser investigada e controlada. Se Marselha, Palermo e Rio se parecem, é por dois motivos: dose intensa de capitalismo criminal globalizado – são cidades portuárias onde a demanda ganha escala – e convivência harmoniosa com os salões do poder político e da polícia corrupta.

Marselha ficou 10 anos sem estourar um laboratório de heroína. A violência no Rio vem aumentando desde a falência das UPPs, há anos. Não começou no carnaval.

Um mês atrás, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse sobre a segurança no Rio: “Não há descontrole nem desordem”. Anteontem, o mesmo Jungmann mudou de ideia: “Inadmissíveis e lamentáveis” as cenas de violência no carnaval. Ontem: intervenção militar.

Concluo, então, que a escalada da violência que justifica colocar um general na Secretaria de Segurança começou depois de 12 de janeiro. É a mais rápida de que se tem notícia na história.

Sabem quanto foi o investimento em inteligência policial no Rio em 2014? 40 mil reais (é mil mesmo, não milhões). Em 2015: 21 mil. E 2016, quando já era mais que evidente que o projeto de segurança das UPPs havia sido implodido? Zero.

A guerra às drogas faliu. Mas eles querem continuar a lutá-la só com músculos, sem usar o cérebro. Nenhuma surpresa.

Leandro Demori escreve todos os sábados exclusivamente na newsletter do The Intercept Brasil.

O México também colocou o Exército nas ruas contra o tráfico: a história daquele fracasso

Mais de 11 anos depois de mandar o Exército às ruas para combater o tráfico a violência continua sangrando o país.

intervenção federal militar no RJ
Mulher carrega bebê na comunidade Vila Kennedy, no Rio.
Foto – CARL DE SOUZA AFP

Quando o México acordou, os traficantes e o Exército nas ruas continuavam lá. Quase onze anos após Felipe Calderón decidir em seu décimo dia como presidente, em 10 de dezembro de 2006, enviar 6.500 soldados a sua Michoacán natal para sufocar a violência e a impunidade, o balanço da chamada “guerra contra o tráfico” não pode ser mais desalentador. Quase 200.000 mortos, 23.000 desaparecidos, numerosas denúncias por violações dos direitos humanos, casos emblemáticos como os 43 estudantes de Ayotzinapa desaparecidos há quatro anos, o mês de janeiro de 2018 mais violento desde 1991 com mais de 2.000 mortos e cartéis da droga cada vez mais fragmentados e incontroláveis que todos os dias mancham de sangue a geografia mexicana.

A controversa decisão de Calderón, um dos presidentes mais impopulares a sentar-se na cadeira da águia, e na qual muitos viram uma tentativa de se legitimar no poder após uma eleição apertada que venceu por poucos votos, foi como uma pedrada em uma colmeia cujas picadas mortais chegaram a toda a sociedade mexicana. Durante dois meses, quase 20.000 soldados foram recebidos como heróis por uma população cansada de violência e de massacres desde 2005 e de forças de segurança corruptas. O sonho logo acabou: abusos dos militares, que aumentaram em 600% entre 2003 e 2013 de acordo com organizações como a Anistia Internacional, falta de preparação e de um marco legal, efetivos reduzidos para territórios grandes, população rural desalojada e erupção dos chamados grupos de autodefesa em Guerrero, Oaxaca e Michoacán, no sul do país, na realidade, pessoas dispostas a fazer justiça com suas próprias mãos, muitas vezes cumprindo ordens dos traficantes.

O veneno contaminou os seis anos de mandato de Enrique Peña Nieto, do PRI, que ao assumir prometeu mudar essa estratégia, fracassada segundo todos os parâmetros, mas cuja recente e polêmica Lei de Segurança, agora na Suprema Corte de Justiça, questionada por várias ONGs, apesar de pretender dar um respaldo jurídico à ação do militares, causou um profundo mal-estar no interior das Forças Armadas que são enviadas para lutar uma guerra assimétrica para a qual não estão preparadas. Os diferentes candidatos às eleições presidenciais de 1 de julho ainda não se pronunciaram sobre o assunto por imperativo legal, mas o favorito, Andrés Manuel López Obrador, do Movimento de Regenerarão Nacional (MORENA) insinuou uma anistia aos chefes do narcotráfico que causou incômodo.

 

A insegurança se transformou em uma obsessão aos mexicanos que veem como, apesar da mobilização de mais de 50.000 soldados em suas cidades, a violência continua e penetra em antigos santuários de tranquilidade como a Cidade do México e as regiões turísticas de Cancún e Los Cabos onde já é comum ver tanques e turistas. O Governo de Peña Nieto se orgulha de ter prendido 101 dos 122 chefes mais procurados, entre eles, ano passado, o famoso Joaquín El Chapo Guzmán, chefe do poderoso Cartel de Sinaloa, agora preso nos Estados Unidos após várias fugas e recapturas. “Missão cumprida”, publicou à época o presidente em sua conta no Twitter. Mas como aconteceu com George W. Bush no Iraque, os números e a realidade desmentem o presidente.

De fato, muitos ‘think thanks” classificam o México como um dos países mais mortíferos do mundo, também para a imprensa (12 jornalistas mortos somente em 2017, números comparáveis aos da Síria), ao que é preciso acrescentar 63.000 mortos em seus três primeiros anos de mandato (50% a mais do que no mesmo período de Calderón). Enquanto isso, a droga continua fluindo livremente aos Estados Unidos e a estratégia seguida pelo Gabinete de Peña de atacar os cartéis e fragmentá-los, mais do que enfraquecê-los, voltou a agitar a colmeia, com grupos cada vez mais autônomos e, portanto, menos manejáveis e previsíveis. Essa é a razão pela qual muitos no México acreditam que a melhor guerra contra as drogas é fazer as pazes com os chefes do tráfico e deixar seu lucrativo negócio como está, como acontecia nos tempos do velho PRI. Porque, uma vez que você coloca o Exército nas ruas, quem o devolve aos quartéis?

Ópio, USA e a família Sackler

Quem é a família de bilionários acusada de se beneficiar da crise de drogas nos EUA

OxycontinDireito de imagemREUTERS
O comércio e marketing do OxyContin gerou um aumento nas prescrições de opióides nos Estados Unidos e pode estar na origem da epidemia de dependência

Eles deram o sobrenome a universidades, salas de museus, centros de pesquisa, galerias e até a um planeta fora do Sistema Solar.

São uma das famílias mais poderosas dos Estados Unidos- mais rica que os Rockefeller- e também das mais discretas e filantrópicas, a ponto de serem chamados de os “Médici do século 20”.

Mas o que poucos sabem é que a enorme fortuna dos Sackler – com a qual compram arte, criam fundações e instituições, patrocinam salas no Louvre e no Museu Britânico, abrem escolas em Israel e fundam dezenas de programas científicos e culturais por todos os lados – tem um passado obscuro.

É uma história e uma fortuna que começam com três irmãos, passam por uma campanha de marketing e chega a uma epidemia sem precedentes de consumo e dependência de drogas opioides.

Uma crise de saúde que levou os Estados Unidos a declarar, na semana passada, uma emergência de saúde pública que tem deixado mais mortos que a guerra do Vietnã e do Afeganistão juntos, sem que um tiro fosse disparado.

O começo da fortuna

Tudo começa no final do século 19, quando Arthur, Mortimer e Raymon Sackler, três irmãos psiquiatras do Brooklyn, fundaram em Greenwich Village, em Nova York, uma pequena empresa de medicamentos.

Viram nela uma possibilidade de um negócio familiar e, em 1950, compraram, com os lucros, a Purdue Pharma, uma farmacêutica que, no início, gerava recursos com a venda de removedores de cera de ouvido, laxantes e o antisséptico de cor laranja iodopovidona, usado em cirurgias.

Mas a entrada de dinheiro da produção de analgésicos na década de 1980 catapultou o negócio dos Sackler. Pouco menos de um século depois de sua fundação, a empresa era um gigante farmacêutico mundial e havia transferido sua sede para Stamford, em Connecticut.

Os Sacklers financiaram un pátio futurista no Museu Britânico, que foi batizado com o nome da família.Direito de imagemGETTY IMAGES
Os Sacklers financiaram um pátio futurista no Museu Britânico, que foi batizado com o nome da família

No entanto, o grande êxito comercial veio em 1995, quando lançaram no mercado o OxyContin, um medicamento para a dor, com base em opioides, que era quase três vezes mais forte que a poderosa morfina.

“O OxyContin é um analgésico que se sintetiza a partir da tebaína, uma substância presente no ópio. Ou seja, é da família da heroína”, explica à BBC Mundo o médico Brandon Marshall, professor de epidemiologia da Universidade de Brown, em Rhode Island.

Além da capacidade de neutralizar a dor, esse remédio tem um potencial perigosamente alto de gerar dependência, ressalta Marshall.

“Antes do surgimento do OxyContin, era muito raro os médicos prescreverem opiodes para combater a dor, mas foi tão grande a campanha de marketing realizada pela Pardue Pharma que o OxyContin se converteu num êxito de venda”, diz Marshall.

As autoridades dos Estados Unidos aprovaram o medicamento naquele mesmo ano, em 1995, e já em 2001 as vendas alcançaram US$ 1,6 bilhão, superior às vendas do Viagra, e representavam cerca de 80% da receita da empresa dos Sackler.

Donald TrumpDireito de imagemGETTY IMAGES
Trump declou na quinta que a crise de dependência em substâncias derivadas do ópio nos Estados Unidos, como a heroína, é uma emergência de saúde pública

Uma investigação realizada por Marshall e publicada no American Journal of Public Healthindica que, desde a aprovação do OxyContin, várias farmacêuticas se engajaram em ações de marketing e “subornos” para convencer os médicos a prescrever opioides.

Vários especialistas consultados pelas publicações New Yorker e Enquire também argumentam que a campanha levada a cabo pela Pardue Pharma contribuiu para que a prescrição desse tipo de medicamento fosse menos rigorosa, aumentando o número de dependentes entre a população.

Só em 2012, médicos prescreveram mais de 282 milhões de receitas de analgésicos opioides, incluindo OxyContin, Vicodin e Percocet, uma quantidade que equivale a quase um frasco para cada habitante dos Estados Unidos.

De acordo com pesquisa de Marshall, entre agosto de 2013 e dezembro de 2015, várias empresas farmacêuticas, entre elas a Pardue Pharma, pagaram mais de US$ 46 milhões a 68 mil médicos em todo o país por meio de refeições, viagens e honorários para os incitar a receitar opioides.

A fortuna dos Sacklers se multiplicou e, em 2016, elas foram classificadas entre as famílias mais ricas dos Estados Unidos, com uma fortuna em ascensão, segundo cálculos da revista Forbes, de US$ 13 bilhões.

Mas à medida que o consumo desses medicamentos aumentava nos EUA – e a fortuna dos Sackers disparava -, o uso de opioides causava uma catastrófica epidemia com uma magnitude de mortes sem precedentes.

Epidemia

Segundo Marshall, a história dos Sakler está atrelada à origem da atual crise de opioides. Uma situação que saiu tanto do controle que o presidente Donald Trump precisou declarar emergência de saúde pública.

Dados fornecidos pela Agência de Investigação e Qualidade de Assistência Médica dos Estados Unidos indicam que, no ano passado, mais de 60 mil pessoas morreram no país por overdose de opiáceos (substâncias derivadas do ópio).

Em 2014, cerca de 1,3 milhão de pessoas foram tratadas por esse motivo em clínicas e emergência de hospitais. Não foi o OxyContin, porém, a droga mais usada naquele ano, mas sim, a heroína e o fentanilo, uma droga de produção caseira 50 vezes mais poderosa quer a primeira.

“Mas o OxyContin está na base de tudo”, assegura Marshall.

Paramédicos atendem homem, após crise causada por uso de derivado de ópio
Mais de 60 mil pessoas morreram por overdose de substâncias derivadas de ópio

“Agora sabemos que as agressivas estratégias de marketing implementadas pela Purdue Pharma (e outras empresas) para promover o tratamento de dores crônicas com opioides receitados e as táticas que minimizaram as informações sobre risco de dependência foram o fator chave da crise atual”, assegura.

De acordo com especialistas, estes medicamentos estão na base do surto de dependência e a epidemia de opiáceos vivida hoje pelos Estados Unidos.

Organizações como a Médicos para a Prescrição Responsável de Opioides e meios de comunicação americanos têm assinalado nos últimos anos o envolvimento da família Sackler na atual emergência de saúde pública dos Estados Unidos.

Todos asseguram que a flexibilização na prescrição de opioides, ocorrida partir das campanhas realizadas pela farmacêutica, aumentou o consumo deste tipo de produto nos Estados Unidos.

A Purdue Pharma se declarou culpada de enganar o público sobre o risco de vício em OxyContin, em 2007, e foi obrigada a pagar uma multa de mais de US$ 600 milhões, um dos maiores acordos farmacêuticos da história dos Estados Unidos.

No entanto, em um comunicado enviado à BBC Mundo, a empresa alegou que as propagandas de seus produtos são feitas em cumprimento com as regras da Administração de Alimentos e Medicamenos (FDA) – agência dos Estados Unidos que controla a venda de medicamentos.

“Compartilhamos a inquietude sobre a crise de opiáceos e temos tomado medidas significativas para ajudar a abordá-la, que incluem a limitação significativa da propaganda de nossos produtos aprovados pela FDA”, diz o texto.

Na página da farmacêutica na internet, não há informações sobre seus fundadores e, entre os membros diretores, não aparecem mencionados integrantes da família que, por mais de 60 anos, gere a empresa.

Os Sackler patrocinam várias galerias de arte e museus.Direito de imagemGETTY IMAGES
Os Sackler patrocinam várias galerias de arte e museus

Os novos herdeiros

Enquanto a empresa farmacêutica está na mira dos meios de comunicação norte-americanos, a família por trás dela vive na discrição de sua fortuna, com aparições esporádicas para um ou outro ato de filantropia.

De acordo com a revista Enquire, diferentemente de outras famílias milionárias, os Sackler souberam separar o sobrenome das razões de sua fortuna. “Os Fords, Hewletts, Packards, Johnsons: todas essas famílias puseram os próprios nomes dos produtos, porque tinham orgulho deles”, comentou ao Enquire Keith Humphreys, professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford.

A família Sackler é atualmente formada por 20 membros descendentes dos três irmãos fundadores da empresa farmacêutica, que já morreram – Arthur, o principal fundador do “império”, morreu em 1987, Mortimer, em 2010, e Raymond, no início deste ano.

Os descendentes mais visíveis nos últimos anos tem sido Elizabeth, filha de Arthur, que integrante da diretoria do Museu do Brooklyn, e os filhos de Raymon, Ricard e Jonathan, que dirigem um corpo de professores no centro de investigações sobre câncer da Universidade de Yale.

Outros oito membros da família formam parte da diretoria da Pardue Pharma, segundo a imprensa norte-americana. Ilene, Kathe, Marissa, Mortimer e Richard Sackler integram vários conselhos da família, a maioria de natureza filantrópica.

De acordo com a publicação Inside Philanthropy, o clã “mantém um discreto perfil público, não mantém sites na internet e não emprega profissionais formalmente”.

O pártio inaugurado pela família em junho, em LondresDireito de imagemGETTY IMAGES
Os membros da família Sackler são discretos e aparecem esporadicamente em eventos de filantropia

Em 2015, a Fundação Arthur M. Sackler transferiu mais de US$ 1,1 milhão a várias instituições, a totalidade em doações para o campo da arte, segundo informam declarações de imposto consultadas pela BBC Mundo.

A fundação ainda banca projetos filantrópicos na Universidade de Tel Aviv, na Universidade de Leiden, na Holanda, no Museu Britânico e na Faculdade de Medicina Clínica da Universidade de Cambridge.

Contudo, apesar das doações a iniciativas médicas, uma investigação do The Daily Caller assegura que a família nunca apoiou nenhum projeto para financiar na cura do vício em opioides, que a empresa farmacêutica dos Sackler ajudou a difundir.

Em um discurso na semana passada, para declarar emergência de saúde pública, Trump também não mencionou a responsabilidade das farmacêuticas na crise atual dos opioides.

“Apesar dos riscos conhecidos associados à prescrição de opioides, algumas empresas farmacêuticas continuam comercializando amplamente estes produtos. Estas práticas de venda são, no mínimo, um lastro importante para abordar o tema da epidemia atual”, afirma Marshall.

A Islândia sabe como acabar com as drogas entre adolescentes, mas o resto do mundo não escuta

Nos últimos anos, o país reduziu drasticamente o consumo de tabaco, drogas e álcool entre os jovens

Meninas numa academia de Reykjavik
Meninas numa academia de Reykjavik
Dave Imms para Mosaic.

Falta pouco para as 15h de uma ensolarada tarde de sexta-feira, e o parque de Laugardalur, perto do centro de Reykjavik, está praticamente deserto. De vez em quando, um adulto passa empurrando um carrinho de bebê. Mas, se os jardins estão rodeados de casas e edifícios residenciais, e os meninos já saíram do colégio, onde estão as crianças?

Sou acompanhada em meu passeio por Gudberg Jónsson, um psicólogo islandês, e Harvey Milkman, professor de psicologia norte-americano que leciona na Universidade de Reykjavik durante uma parte do curso. Há 20 anos, conta Gudberg, os adolescentes islandeses estavam entre os que mais bebiam na Europa. “Nas noites de sexta, você não podia andar pelas ruas do centro de Reykjavik porque não se sentia seguro”, diz Milkman. “Havia uma multidão de adolescentes se embebedando diante de todos.” Chegamos perto de um grande edifício. “E aqui temos a pista de patinagem coberta”, informa Gudberg.

Minutos atrás, passamos por duas salas onde se joga badminton e tênis de mesa. No parque também há uma pista de atletismo, uma piscina com aquecimento geotérmico e, finalmente, um grupo de crianças jogando futebol com entusiasmo sobre grama sintética.

Não há jovens passando a tarde no parque neste momento, explica Gudberg, porque eles se encontram nas instalações fazendo atividades extra-escolares ou em clubes de música, dança e arte. Talvez também tenham saído com os pais.

A Islândia ocupa hoje o primeiro lugar no ranking europeu sobre adolescentes com um estilo de vida saudável. A taxa de meninos de 15 e 16 anos que consumiram grande quantidade de álcool no último mês caiu de 42% em 1998 para 5% em 2016. Já o índice dos que haviam consumido cannabis alguma vez passou de 17% para 7%, e o de fumantes diários de cigarro despencou de 23% para apenas 3%.

O país conseguiu mudar a tendência por uma via ao mesmo tempo radical e empírica, mas se baseou, em grande medida, no que se poderia denominar de “senso comum forçado”. “É o estudo mais extraordinariamente intenso e profundo que já vi sobre o estresse na vida dos adolescentes”, elogia Milkman. “Estou muito bem impressionado com seu funcionamento.” Se fosse adotado em outros países, diz ele, o modelo islandês poderia ser benéfico para o bem-estar psicológico e físico geral de milhões de jovens. Isso sem falar dos orçamentos dos organismos de saúde e da sociedade como um todo. Um argumento que não pode ser ignorado.

“Estive no olho do furacão da revolução das drogas”, diz Milkman, enquanto tomamos um chá em seu apartamento em Reykjavik. No início dos anos setenta, quando trabalhava como residente no Hospital Psiquiátrico Bellevue de Nova York, “o LSD já estava na moda, e muita gente fumava maconha. Havia um grande interesse em saber por que as pessoas consumiam certas drogas.”

Em sua tese de doutorado, Milkman concluiu que as pessoas escolhiam a heroína ou as anfetaminas dependendo de como queriam lidar com o estresse. Os consumidores de heroína preferiam se insensibilizar, enquanto os usuários de anfetaminas optavam por enfrentar o estresse ativamente. Quando o trabalho foi publicado, Milkman entrou para um grupo de pesquisadores recrutados pelo Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA para que respondessem a determinadas perguntas. Entre elas, por que as pessoas começam a consumir drogas, por que continuam consumindo, quando atingem o limite do abuso, quando deixam de consumi-las e quando têm recaída. “Qualquer aluno da faculdade poderia responder à pergunta sobre por que começa: é que as drogas são fáceis de conseguir e os jovens gostam de riscos. Também é preciso levar em conta o isolamento e talvez a depressão”, afirma. “Mas, por que continuam consumindo? Por isso, passei à pergunta sobre o limite do abuso… e me iluminei. Vivi minha própria versão do ‘eureka!’. Os garotos podiam estar à beira da dependência inclusive antes de tomar a droga, pois o vício estava na maneira como enfrentavam seus problemas.”

Na Universidade Estatal Metropolitana de Denver, Milkman foi fundamental para o desenvolvimento da ideia de que a origem dos vícios estava na química cerebral. Os menores “combativos” procuravam ter “sensações intensas” e podiam consegui-las roubando calotas de carro, rádios e depois os próprios carros – ou através das drogas estimulantes. Claro que o álcool também altera a química cerebral. É um sedativo, mas primeiro seda o controle do cérebro, o que por sua vez pode suprimir as inibições e, em doses limitadas, reduzir a ansiedade.

“As pessoas podem se tornar dependentes de bebida, carro, dinheiro, sexo, calorias, cocaína… de qualquer coisa”, diz Milkman. “A ideia da dependência comportamental se transformou no traço que nos caracteriza.”

Dessa ideia nasceu outra. “Por que não organizar um movimento social baseado na embriaguez natural, em que as pessoas ‘sintam barato’ com a química de seu cérebro – porque me parece evidente que as pessoas desejam mudar seu estado de consciência – sem os efeitos prejudiciais das drogas?”

Em 1992, sua equipe de Denver obteve uma subvenção de 1,2 milhão de dólares (3,7 milhões de reais) do Governo para criar o Projeto Autodescoberta, que oferecia aos adolescentes maneiras naturais de se embriagar, alternativas aos entorpecentes e ao crime. Os cientistas pediram aos professores, assim como às enfermeiras e aos terapeutas de centros escolares, que lhes enviassem alunos. E incluíram no estudo meninos de 14 anos que não achavam que precisavam de tratamento, mas que tinham problemas com as drogas ou com crimes leves.

“Não lhes contamos que vinham para uma terapia, e sim que lhes ensinaríamos algo que quisessem aprender: música, arte, dança, hip hop ou artes marciais”, explica. A ideia era que as diferentes aulas pudessem provocar uma série de alterações em sua química cerebral e lhes proporcionassem o que necessitavam para enfrentar melhor a vida. Enquanto alguns talvez desejassem uma experiência para ajudar a reduzir a ansiedade, outros poderiam estar em busca de emoções fortes.

Ao mesmo tempo, os participantes receberam formação em capacidades para a vida, centrada em melhorar suas ideias sobre si mesmos, sua existência e sua maneira de interagir com os demais. “O princípio básico era que a educação sobre as drogas não funciona porque ninguém dá atenção a ela. Precisamos de capacidades básicas para levar essas informações à prática”, afirma Milkman. A equipe disse aos adolescentes que o programa duraria três meses. Alguns ficaram cinco anos.

Em 1991, Milkman foi convidado para falar sobre seu trabalho, suas descobertas e suas ideias na Islândia. Tornou-se assessor do primeiro centro residencial de tratamento de dependência de drogas para adolescentes do país, situado na cidade de Tindar. “A ideia [do centro] era oferecer aos meninos coisas melhores para fazer”, explica. Lá conheceu Gudberg, que na época estudava Psicologia e trabalhava como voluntário. Desde então, os dois são amigos íntimos.

No início, Milkman viajava regularmente à Islândia para dar conferências. Suas palestras e o centro de Tindar atraíram a atenção de Inga Dóra Sigfúsdóttir, uma jovem pesquisadora da Universidade da Islândia. Ela se perguntava o que aconteceria se fosse possível utilizar alternativas saudáveis às drogas e ao álcool dentro de um programa que não tivesse o objetivo de tratar jovens com problemas, mas, sobretudo, de conseguir que eles deixassem de beber e consumir drogas.

Você já experimentou álcool? Se a resposta for afirmativa, quando foi a última vez que bebeu? Ficou bêbado em alguma ocasião? Consumiu tabaco? Se sim, quanto você fuma? Quanto tempo passa com os seus pais? Tem uma relação estreita com eles? De que tipo de atividade você participa?

A Islândia sabe como acabar com as drogas entre adolescentes, mas o resto do mundo não escuta
Dave Imms para Mosaic

Em 1992, os meninos e meninas de 14, 15 e 16 anos de todos os centros de ensino da Islândia preencheram um questionário com perguntas como essas. O processo foi repetido em 1995 e em 1997.

Os resultados da pesquisa foram alarmantes. Em todo o país, quase 25% dos jovens fumavam diariamente, e mais de 40% havia se embriagado no mês anterior. Mas quando a equipe se aprofundou nos dados, identificou com precisão quais centros tinham mais problemas e quais tinham menos. A análise expôs as claras diferenças entre as vidas dos garotos que bebiam, fumavam e consumiam outras drogas e as vidas daqueles que não utilizavam essas substâncias. Também revelou que havia diversos fatores com um efeito decididamente protetor: a participação, três ou quarto vezes por semana, em atividades organizadas – sobretudo esportivas; o tempo que passavam com os pais durante a semana; a sensação de que os professores do colégio se preocupavam com eles; e não sair de noite.

“Naquela época, houve inúmeras iniciativas e programas para a prevenção do consumo de drogas”, diz Inga Dóra, que foi pesquisadora ajudante nas pesquisas. “A maioria se baseava na educação.” As campanhas alertavam os meninos sobre os perigos da bebida e das drogas, mas, como Milkman observara nos EUA, os programas não davam resultado. “Queríamos propor um enfoque diferente.”

O prefeito de Reykjavik também estava interessado em testar algo novo, e muitos pais compartilhavam seu interesse, conta Jón Sigfússon, colega e irmão de Inga Dóra. As filhas de Jón eram pequenas na época, e ele entrou para o Centro Islandês de Pesquisa e Análise Social de Sigfúsdóttir em 1999, ano de sua fundação. “A situação estava ruim”, recorda. “Era evidente que precisávamos fazer alguma coisa.”

A partir dos dados da pesquisa e dos conhecimentos proporcionados por diversos estudos, entre eles o de Milkman, aos poucos foi introduzido um novo plano nacional, que recebeu o nome de Juventude na Islândia.

As leis mudaram. Penalizou-se a compra de tabaco por menores de 18 anos e a de álcool por menores de 20. Proibiu-se a publicidade das duas substâncias. Reforçaram-se os vínculos entre os pais e os centros de ensino, mediante organizações de mães e pais, que deviam ser criadas por lei em todos os centros, juntamente com conselhos escolares com representação dos pais. A estes também foi pedido que comparecessem às palestras sobre a importância de passar muito tempo com os filhos, em vez de dedicar a eles “tempo de qualidade” esporadicamente, assim como falar com eles de suas vidas, conhecer suas amizades e ressaltar a importância de ficar em casa de noite. Além disso, foi aprovada uma lei que proibia que os adolescentes de 13 a 16 anos saíssem depois das 22h no inverno e da meia-noite no verão. A norma continua vigente.

Casa e Escola, a entidade nacional que agrupa as organizações de mães e pais, estabeleceu acordos que os pais tinham de assinar. O conteúdo varia dependendo da faixa etária, e cada organização pode decidir o que deseja incluir. Para os meninos a partir de 13 anos, os responsáveis podem se comprometer a cumprir todas as recomendações e, por exemplo, a não permitir que seus filhos realizem festas sem a sua supervisão, a não comprar bebida alcoólica aos menores de idade e a estar atentos ao bem-estar dos garotos.

Esses acordos sensibilizam os pais e ajudam a reforçar sua autoridade em casa, afirma Hrefna Sigurjónsdóttir, diretora da Casa e Escola. “Desse modo, fica mais difícil para eles utilizar a velha desculpa de que os demais [garotos] têm permissão para fazer essas coisas.”

Também aumentou o financiamento estatal para clubes esportivos, musicais, artísticos, de dança e outras atividades para oferecer aos garotos maneiras alternativas de se sentirem bem fazendo parte de um grupo, sem terem que consumir álcool e drogas. Os filhos de famílias de baixa renda receberam ajuda para participar das atividades. Em Reykjavik, onde mora um terço da população do país, o chamado Cartão do Lazer dá direito a 35.000 coroas (cerca de 1.030 reais) anuais por filho para custear atividades recreativas.

Um fator decisivo é a continuidade das pesquisas. A cada ano, quase todos os garotos islandeses as preenchem. Isso significa que sempre há dados novos e confiáveis.

Entre 1997 e 2012, duplicou a proporção de adolescentes de 15 e 16 anos que declararam que “com frequência ou quase sempre” passavam tempo com os pais no fim de semana – a cifra passou de 23% para 46%. Já a dos que participavam de atividades esportivas organizadas pelo menos quatro vezes por semana subiu de 24% para 42%. Ao mesmo tempo, o consumo de cigarros, álcool e maconha nessa mesma faixa etária caiu drasticamente. “Embora não possamos apresentar esse fenômeno como uma relação causal – o que é um bom exemplo de por que às vezes é difícil vender aos cientistas os métodos de prevenção primária –, a tendência é muito clara”, observa

Kristjánsson, que trabalhou com os dados e hoje integra a Escola Universitária de Saúde Pública da Virgínia Ocidental, nos EUA. Os fatores de proteção aumentaram e os de risco diminuíram – assim como o consumo de entorpecentes. Além disso, na Islândia essas variações ocorreram de modo mais coerente que em qualquer outro país da Europa.”

O caso europeu

Jón Sigfússon pede desculpa por chegar alguns minutos atrasado. “Recebi um telefonema por uma situação de crise.” Prefere não dizer onde, mas era uma entre as várias cidades do mundo inteiro que adotaram parcialmente as ideias do programa Juventude na Islândia.

O Juventude na Europa, dirigido por Jón, nasceu em 2006 após a apresentação dos já então extraordinários dados da Islândia numa das reuniões do Cidades Europeias contra as Drogas. “As pessoas nos perguntavam como conseguíamos”, recorda Sigfússon.

A participação no Juventude na Europa não se dá por iniciativa dos Governos nacionais; corresponde às Prefeituras. Oito municípios aderiram ao plano no primeiro ano. Hoje participam 35 cidades de 17 países. Em algumas, poucas escolas estão envolvidas; em outras, como Tarragona (Espanha), há 4.200 adolescentes de 15 anos engajados. O método é sempre igual. Jón e sua equipe falam com as autoridades locais e elaboram um questionário com as mesmas perguntas fundamentais utilizadas na Islândia, além de outras adaptadas ao lugar. Algumas cidades, por exemplo, têm registrado casos de problemas graves com as apostas pela internet, e as autoridades querem saber se isso está relacionado com outros comportamentos de risco.

Dois meses após a devolução do questionário à Islândia, a equipe já manda um relatório preliminar com os resultados, além de informações comparando-os com os de outras zonas participantes. “Sempre dizemos que, assim como as verduras, as informações têm que ser frescas”, brinca Jón. “Se você entregar os resultados depois de um ano, as pessoas te dirão que passou muito tempo e que as coisas talvez tenham mudado.” Além disso, os dados têm que ser locais para que os centros de ensino, os pais e as autoridades possam saber exatamente que problemas existem em quais regiões.

A equipe analisou 99.000 questionários de lugares tão distantes entre si como as ilhas Feroé, Malta e Romênia, assim como a Coreia do Sul e, mais recentemente, Nairóbi e Guiné-Bissau. Em linhas gerais, os resultados mostram que, no que se refere ao consumo de substâncias tóxicas entre os adolescentes, os mesmos fatores de proteção e de risco identificados na Islândia são válidos em todos os lugares. Mas há algumas diferenças. Em um lugar (um país “do Báltico”), a participação em esportes organizados foi um fator de risco. Uma pesquisa mais profunda revelou que isso acontecia porque os clubes eram dirigidos por jovens ex-militares viciados em anabolizantes, assim como em bebidas e cigarro. Neste caso, portanto, tratava-se de um problema concreto, imediato e local que deveria ser resolvido.

Jón e sua equipe oferecem assessoria e informações sobre as iniciativas que deram bons resultados na Islândia, mas cada comunidade decide o que fazer com base nos resultados. Algumas vezes, não fazem nada. Um país predominantemente muçulmano, que o pesquisador prefere não mencionar, rechaçou os dados porque revelavam um desagradável nível de consumo de álcool. Em outras cidades – como a que originou o telefonema de “crise” de Jón – estão abertas aos dados e têm dinheiro, mas Sigfússon observou que pode ser muito mais difícil assegurar e manter financiamento para as estratégias de prevenção de saúde do que para os tratamentos.

A Islândia sabe como acabar com as drogas entre adolescentes, mas o resto do mundo não escuta
Dave Imms para Mosaic.

Nenhum outro país fez mudanças tão amplas quanto as da Islândia. Algum deles seguiu o exemplo da legislação para impedir que os adolescentes saiam de noite? Jón sorrie: “Até a Suécia ri dessa medida, chamando-a de ‘Toque de recolher’ infantil.”

Ao longo dos últimos 20 anos, as taxas de consumo de álcool e drogas entre os adolescentes melhorou em termos gerais, embora em nenhum lugar isso tenha acontecido de forma tão radical quanto na Islândia. E as causas dos avanços nem sempre têm a ver com as estratégias de fomento ao bem-estar dos jovens. No Reino Unido, por exemplo, o fato de eles passarem mais tempo em casa relacionando-se pela Internet, em vez de cara a cara, poderia ser um dos principais motivos da redução do consumo de álcool.

Mas Kaunas, na Lituânia, é um exemplo do que se pode conseguir por meio da intervenção ativa. Desde 2006, a cidade distribuiu os questionários em cinco ocasiões. E as escolas, pais, agências de saúde, igrejas, polícia e serviços sociais reuniram esforços para tentar melhorar a qualidade de vida dos meninos e frear o consumo de substâncias tóxicas. Por exemplo, os pais recebem entre oito e nove sessões gratuitas de orientação parental por ano. Um programa novo facilita um financiamento adicional às instituições públicas e ONGs que trabalham pela melhora da saúde mental e a gestão do estresse. Em 2015, a cidade começou a oferecer atividades esportivas gratuitas nas segundas, quartas e sextas-feiras. Agora planeja implementar um serviço de transporte também grátis para as famílias de baixa renda, a fim de contribuir para que os meninos que vivem longe dos estabelecimentos possam participar.

Entre 2006 e 2014, o número de jovens de 15 e 16 anos de Kaunas que declararam ter se embriagado nos 30 dias anteriores caiu cerca de 25%, e os dos que fumavam diariamente foi reduzido em mais de 30%.

No momento, a participação no Juventude na Europa não é sistemática, e a equipe da Islândia é pequena. Jón gostaria que existisse um organismo centralizado com seus próprios fundos específicos para promover a expansão do plano. “Embora nos dediquemos a isso há 10 anos, não é nossa principal ocupação. Gostaríamos que alguém imitasse e mantivesse a iniciativa em toda a Europa”, afirma. “E por que ficar restritos à Europa?”

O valor do esporte

Depois de nosso passeio pelo parque Laugardalur, Gudberg Jónsson nos convida a voltar para sua casa. Do lado de fora, no jardim, seus dois filhos mais velhos – Jón Konrád, de 21 anos, e Birgir Ísar, de 15 –, falam comigo sobre álcool e cigarro. Jón bebe álcool, mas Birgir diz não conhecer ninguém em seu colégio que beba ou fume. Também falamos das aulas de futebol. Birgir treina cinco ou seis vezes por semana; Jón, que cursa o primeiro ano de Administração de Empresas na Universidade da Islândia, pratica cinco vezes. Os dois começaram a jogar bola como atividade extra-escolar quando tinham seis anos. “Temos muitos instrumentos em casa”, diz o pai. “Tentamos fazer com que gostassem de música. Antes tínhamos um cavalo. Minha mulher adora montar, mas não deu certo. No final, escolheram o futebol.” Alguma vez acharam que o treino era excessivo? Foi preciso pressioná-los para que treinassem quando teriam preferido fazer outra coisa? “Não, a gente se divertia jogando futebol”, responde Birgir. Jón completa: “Começamos a jogar e nos acostumamos, então continuamos jogando.”

Embora Gudberg e a esposa não planejem de forma consciente um determinado número de horas semanais com seus três filhos, tentam levá-los regularmente cinemas, teatros, restaurantes, trilhas pelas montanhas e pesca. Em setembro, quando na Islândia as ovelhas descem das terras altas, fazem até excursões de pastoreio em família.

Pode ser que Jón e Birgir gostem mais de jogar futebol que as pessoas em geral, e que tenham mais talento (Jón recebeu oferta de uma bolsa de futebol na Universidade Metropolitana do Estado de Denver e, poucas semanas depois de nosso encontro, Birgir foi convocado para a seleção nacional sub-17). No entanto, será que um aumento significativo da porcentagem de jovens que participam de atividades esportivas pelo menos quatro vezes por semana teria outras vantagens, além de fazer os meninos crescerem mais saudáveis?

Isso pode ter relação, por exemplo, com a contundente derrota da Inglaterra para a Islândia na Eurocopa de 2016? Quando fazemos essa pergunta a

Inga Dóra Sigfúsdóttir, eleita Mulher do Ano da Islândia 2016, ela responde com um sorriso: “Também podemos citar os sucessos na música, como o Of Monsters and Men [grupo independente de folk-pop de Reykjavik]. São jovens que decidiram fazer atividades organizadas. Algumas pessoas me agradeceram”, reconhece, piscando um olho.

Nos demais países, as cidades que participam do Juventude na Europa relatam outros resultados positivos. Em Bucareste, por exemplo, caíram os índices de suicídios e consumo de álcool e drogas entre os adolescentes. Em Kaunas, o número de menores que cometem crimes foi reduzido em um terço entre 2014 e 2015.

Como afirma Inga Dóra, “os estudos nos mostraram que tínhamos de criar circunstâncias nas quais os menores pudessem levar uma vida saudável, sem precisar de consumir drogas porque a vida é divertida. Os meninos têm muitas coisas para fazer e contam com o apoio de pais que passam tempo com eles.”

Em suma, as mensagens – embora não necessariamente os métodos – são simples. E quando vê os resultados, Harvey Milkman pensa nos EUA, seu país. Será que o modelo Juventude na Islândia funcionaria por lá?

A Islândia sabe como acabar com as drogas entre adolescentes, mas o resto do mundo não escuta
Dave Imms para Mosaic.

E os Estados Unidos?

São 325 milhões de habitantes frente a 330.000; 33.000 bandas em vez de praticamente nenhuma; e ao redor de 1,3 milhão de jovens sem teto contra meia dúzia.

É claro que os EUA enfrentam dificuldades que não existem na Finlândia. Mas os dados de outras partes da Europa, incluindo cidades como Bucareste, com graves problemas sociais e uma pobreza relativa, mostram que o modelo islandês pode funcionar em culturas muito diferentes, afirma Milkman. E os EUA precisam com urgência de um programa assim. O consumo de álcool entre menores de idade representa 11% do total consumido no país. O abuso de álcool provoca mais de 4.300 mortes por ano entre os menores de 21 anos.

No entanto, é difícil que o país implemente um programa nacional similar ao Juventude na Islândia. Um dos principais obstáculos é que, enquanto no pequeno país europeu existe um compromisso de longo prazo com o projeto nacional, nos EUA os programas de saúde comunitários costumam ser financiados com subvenções de curta duração. Milkman aprendeu, por experiência própria, que, mesmo quando recebem reconhecimento geral, os melhores programas para jovens nem sempre são ampliados ou mesmo mantidos. “Com o Projeto Autodescoberta, parecia que tínhamos o melhor programa do mundo”, recorda. “A Casa Branca me convidou duas vezes. O projeto ganhou prêmios nacionais. Achávamos que seria reproduzido em todas as cidades, mas isso não aconteceu.”

Segundo ele, o motivo é que não se pode receitar um modelo genérico a todas as comunidades, pois nem todas têm os mesmos recursos. Qualquer iniciativa que pretenda dar aos adolescentes dos EUA as mesmas oportunidades de participar dos tipos de atividades habituais na Islândia, ajudando-os assim a se afastar do álcool e das drogas, terá que se basear no que já existe. “Você depende dos recursos da comunidade”, reconhece. Seu colega Álfgeir Kristjánsson está introduzindo as ideias islandesas na Virgínia Ocidental. Alguns colégios do estado já distribuem questionários aos alunos, e um coordenador ajudará a informar os resultados aos pais e a qualquer pessoa que possa utilizá-los para ajudar os garotos. Mesmo assim, o pesquisador admite que provavelmente será difícil obter os mesmos resultados da Islândia.

A visão de curto prazo também é um obstáculo para a eficácia das estratégias de prevenção no Reino Unido. É o que adverte Michael O’Toole, diretor-executivo da Mentor, uma organização sem fins de lucro voltada à redução do consumo de drogas e álcool entre crianças e jovens. Nesse país tampouco existe um programa de prevenção de dependências coordenado em âmbito nacional. Em geral, o assunto é deixado nas mãos das autoridades locais ou dos centros de ensino. Assim, somente são oferecidas aos meninos informações sobre os perigos das drogas e do álcool, uma estratégia que O’Toole também reconhece que não funciona.

O diretor da Mentor é um forte defensor do protagonismo que o modelo islandês confere à cooperação entre os pais, as escolas e a comunidade para ajudar a dar apoio aos adolescentes, e à implicação dos pais ou tutores na vida dos jovens. Melhorar a atenção poderia ajudar em muitos sentidos, diz ele. Inclusive quando se trata somente de álcool e cigarro, há enorme quantidade de evidências demonstrando que, quanto mais velho for o menino na hora de começar a beber ou fumar, melhor será sua saúde ao longo da vida.

No Reino Unido, contudo, nem todas as estratégias são aceitáveis. O “toque de recolher” infantil é uma delas. Outra, certamente, são as rondas de pais pela vizinhança para identificar garotos que não respeitam as normas. Além disso, um teste experimental realizado em Brighton pela Mentor, que incluía convidar os pais para participar de oficinas nas escolas, descobriu que era difícil conseguir seu comparecimento.

O receio das pessoas e a recusa a se comprometerem serão dificuldades onde o método islandês for proposto, afirma Milkman, e afetam a questão da divisão de responsabilidade entre os Estados e os cidadãos. “Quando controle você quer que o Governo tenha sobre o que acontece com os seus filhos? É excessivo que ele tenha ingerência na forma como as pessoas vivem?”

Na Islândia, a relação entre a população e o estado permitiu que um eficaz programa nacional reduzisse as taxas de abuso de cigarro e álcool entre os adolescentes e, de quebra, unisse mais as famílias e promovesse a saúde dos jovens em todos os sentidos. Será que nenhum outro país decidirá que esses benefícios também têm seus custos?

Esta reportagem foi publicada originalmente em inglês por Mosaic Science
Autora: Emma Young
Editor: Michael Regnier
Verificação dos fatos: Lowri Daniels
Corretor: Tom Freeman
Fotografia: Dave Imms
Diretor de arte: Charlie Hall

A guerra pelo poder na Rocinha

Traficante, ‘primeira-dama’ e ex-guarda-costas em guerra por poder na Rocinha: a visão de biógrafo de Nem

Danúbia Rangel
Danúbia é mulher e ‘herdeira’ de Nem | Foto: Reprodução/ Facebook

De um lado, o antigo guarda-costas e atual desafeto, que assumiu o poder do morro depois da prisão do mentor. De outro, a mulher do ex-chefe, condenada por tráfico, foragida, mas que, nas redes sociais, ostenta os cabelos pintados bem louros, o corpo bronzeado com biquínis e decotes, óculos escuros de grife e colares de ouro com pingente de coroa.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Ainda é cedo para concluir que a disputa de poder na Rocinha, zona sul do Rio, e a violência detonada na área, que culminou em novo tiroteio na manhã desta sexta-feira e com a decisão de intervenção do Exército, tenham sido ordenadas pelo traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, vulgo Nem, de dentro de uma prisão de segurança máxima, considera o jornalista britânico especializado em crime organizado Misha Glenny.

Mas o racha interno e a crescente tensão entre a mulher e “herdeira” de Nem, Danúbia Rangel, e seu ex-aliado e sucessor, Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, precedem o conflito, em uma disputa de protagonismo que pode ajudar a explicar o embate – que gerou fortes tiroteios e imagens de guerra de domingo para cá na maior favela do Rio.

Glenny conta a história de Nem no livro O Dono do Morro: um homem e a batalha pelo Rio (Companhia das Letras), lançado no ano passado.

Em entrevista à BBC Brasil, ele considera que ainda há lacunas a se preencher sobre o papel que o ex-chefe do morro, preso em 2011 e atualmente em um presídio de segurança máxima em Porto Velho, Rondônia, teve no episódio.

Mas diz que Nem continua sendo “extremamente influente” na Rocinha e que Danúbia vinha buscando maior protagonismo na comunidade, com uma divisão de forças entre ela e Rogério 157.

“Claramente havia muita tensão entre o Rogério e a Danúbia. A única coisa que eu ainda não entendi é se a Danúbia estava agindo motivada por sua própria ambição, ou se estava representando, de fato, o Nem”, considera Glenny. “Eu suspeito que se trate mais da primeira opção, mas essa é só uma interpretação minha.”

O jornalista Misha Glenny
Glenny aponta para tensão entre Danúbia e Rogério 157, ex-aliado de Nem | Foto: Divulgação/ Ivan Gouveia

Danúbia teria sido expulsa da Rocinha a mando de Rogério, e ambos estão foragidos. Ela, porém, parece se manter ativa nas redes sociais, onde, na segunda-feira, em uma conta que acredita-se ser dela, gabou-se de um perfil publicado no jornal O Globo. Postou o link da matéria destacando um trecho que a compara com a Bibi Perigosa vivida por Juliana Paes na novela A Força do Querer. “Viu só como estou poderzão ainda?”, escreveu com um emoji de sorriso escancarado.

Na semana anterior, essa conta postou um panfleto do disque-denúncia com sua foto e de outras mulheres procuradas pela polícia, fazendo troça: “Eu e minha coleguinhas bombando por aí”, diz, ao lado de carinhas chorando de tanto rir.

Glenny diz que Danúbia não é muito popular na Rocinha, sendo uma “forasteira” que veio da Maré, complexo de favelas na zona norte do Rio. Teria autoridade na favela não por sua personalidade, mas por ser mulher de Nem, tornando-se uma rara liderança feminina no mundo do tráfico – que lhe rendeu a alcunha de “Xerife da Rocinha”. Ela é a quarta esposa de Nem – que, segundo Glenny, sempre se mostrou “muito apaixonado” por ela. Antes, foi mulher de dois traficantes na Maré, ambos mortos pela polícia. Daí também o apelido de “viúva negra”.

No domingo, a Rocinha foi invadida por dezenas de traficantes de morros como o São Carlos e o Vila Vintém, favelas controladas, assim como a Rocinha, pela facção criminosa conhecida como Amigos dos Amigos (ADA). O bando estaria, a pedido de Nem – segundo os jornais -, tentando tomar o controle das mãos de Rogério 157, em uma disputa interna da favela por integrantes da mesma organização.

Glenny, que se encontra em Londres, diz que segue acompanhando de perto a escalada de violência no Rio e considera que os governos estadual e federal tem sido “incapazes” de lidar com a guerra de facções no Rio, que as Unidades de Polícia Pacificadora só continuam existindo “no papel” e que o envio do Exército para o Rio “não teve qualquer impacto na redução da criminalidade”.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil – O seu livro narra desde a ascensão de Nem a “dono do morro” à sua prisão em 2011. Ele agora está em um presídio de segurança máxima em Rondônia – que papel você acha que ele desempenhou nessa disputa?

Misha Glenny – Citando fontes da polícia e do sistema prisional, os jornais dos últimos dias têm dado como certo que Nem comandou a invasão da Rocinha através da Danúbia (Rangel, sua mulher). Para mim, isso ainda é uma questão em aberto. Não digo que não aconteceu, mas não está comprovado.

O Nem continua sendo uma figura incrivelmente influente e popular na Rocinha, e as pessoas o ouvem muito, mas não sabemos ainda até que ponto ele está envolvido.

Se a ordem partiu dele, para quem teria dado a mensagem? Desde o início do mês ele não teve visitas da família, e só na terça desta semana foi visitado por seu advogado.

Postagem de conta atribuída a Danúbia no Facebook
Danúbia, que aparece em conta no Facebook que seria sua, é a quarta esposa de Nem | Foto: Reprodução/Facebook

BBC Brasil – Sempre vemos disputas entre facções rivais no Rio, mas o que parece notável neste caso é que a disputa é entre integrantes da mesma facção (a ADA). O que precipitou esse conflito interno?

Glenny – Na última vez que estive no Rio, em dezembro, já tinha havido um racha entre a Danúbia e o Rogério (Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, sucessor de Nem no comando do tráfico da Rocinha). A Danúbia havia criado seu próprio bonde e tinha seus próprios seguranças. E havia um terceiro protagonista nessa história, o Perninha (Ítalo Jesus Campos), que era braço direito do Nem e foi assassinado no dia 13 de agosto (investigações apontam que Perninha planejava tomar a favela a mando de Nem). Há indícios de que ele estava se aproximando da Danúbia, queria abrir suas próprias bocas de fumo, e por isso foi assassinado.

Então antes de se falar em uma ofensiva comandada pelo Nem a partir da prisão, é preciso considerar que já havia essa disputa interna dentro da Rocinha. Havia divisões internas, com a Danúbia aparentemente querendo ter mais protagonismo, e a comunidade se dividindo sobretudo entre ela e o Rogério.

BBC Brasil – A Danúbia agora está foragida e teria sido expulsa da comunidade pelo Rogério. Qual é a importância e o papel desempenhado por ela na Rocinha? Você a conheceu?

Glenny – Eu conheci a Danúbia. O Antônio (Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem) sempre me deu a entender que é muito apaixonado por ela. Ela é sua quarta esposa e se tornou uma figura muito poderosa na Rocinha, embora não seja muito popular na comunidade.

Sua autoridade vem do fato de ser casada com o Nem, não de sua personalidade. Ela vem do Complexo da Maré, é uma forasteira. E, sobretudo, é uma mulher. Do ponto de vista sociológico, sua história é muito interessante. A tradição no tráfico de drogas no Rio não é particularmente amigável a mulheres. E certamente não em posições de liderança. Então é uma situação incomum.

Claramente havia muita tensão entre o Rogério e a Danúbia. A única coisa que eu ainda não entendi é se a Danúbia estava agindo motivada por sua própria ambição ou se estava representando de fato o Nem. Eu suspeito que se trate mais da primeira opção, mas essa é só uma interpretação minha.

BBC Brasil – Como a operação da ADA se distingue das outras? Há muito foco na personalidade dos líderes, como vemos até hoje na influência da figura do Nem, mesmo preso desde 2011?

Glenny – A ADA nasceu com muito sangue, a partir de uma ruptura no Comando Vermelho (CV) nos anos 1990, que se deu com muitas mortes. É a mais jovem facção das três (cariocas). Quando o Nem assumiu o controle da Rocinha, ele adotou o estilo de um de seus antecessores, o Lulu (Luciano Barbosa da Silva, que chefiou a comunidade antes dele e foi morto pelo Bope em 2004).

A sua marca foi usar menos violência e se concentrar mais em corromper a polícia e construir uma rede de serviços sociais para assegurar o apoio da comunidade. Essa é uma das marcas da ADA, mas em outras favelas a facção é mais violenta, por causa das ameaças do CV e do Terceiro Comando Puro (TCP).

A desvantagem é que a Rocinha é uma das maiores, se não a maior, distribuidora de cocaína do Rio. É muito valorizada e disputada. Por outro lado, é uma comunidade difícil de invadir se você não tem apoio interno e um contingente grande o suficiente.

A favela da RocinhaDireito de imagemREUTERS
Image captionSegundo jornalista, Rocinha é uma das maiores, se não a maior, distribuidora de cocaína do Rio

BBC Brasil – Nos últimos dias, moradores da Rocinha disseram que o Rogério vinha impondo a cobrança de taxas por serviços como distribuição de gás, métodos associados a milícias. Você acha que o Nem poderia querer tirá-lo por isso?

Glenny – Como eu disse, não estou certo de que o Nem estivesse ativamente tentando se livrar dele. Não temos provas disso ainda. Mas certamente o Nem não aprovaria a troca do modelo que ele implementou por outro mais adotado pelas milícias, contrariando o que foi tradição na Rocinha nos últimos 18 ou 19 anos.

Depois de um período muito violento entre os anos 1990 e o começo dos anos 2000, a Rocinha teve o que os moradores consideram seus anos de ouro, com o sistema introduzido por Lulu e seguido e ampliado por Nem.

O Rogério não se fez nenhum favor ao impor novas taxas de pagamento aos moradores, cobrando taxas para mototaxistas operarem, pela distribuição de gás, esse tipo de serviço. Há muita insatisfação dentro da Rocinha com o Rogério e com a maneira como ele vinha chefiando a favela.

BBC Brasil – Você teve uma série de conversas com o Nem nas entrevistas que deram origem ao seu livro. Como o descreve?

Glenny – Eu passei um total de 31 horas com ele. O Nem é uma pessoa que não age espontaneamente. Ele pensa muito antes de tomar qualquer decisão e gosta de discutir as opções com outras pessoas. Fica ansioso no processo, mas quando chega a uma decisão tende a levá-la adiante. Ele é calmo.

Se tivesse tido uma educação melhor, acho que seria uma empresário bem-sucedido, porque tem carisma e sabe tomar decisões. Mas a tese do meu livro é que ele se permitiu ser preso porque achou excessiva a tensão de ser dono do morro.

BBC Brasil – Você diz que tem estado em contato constante com moradores da Rocinha. Que sensação que eles têm te passado?

Glenny – O sentimento é de preocupação generalizada. As pessoas estão extremamente assustadas e apreensivas. Não sabem como a situação vai se desenrolar, mas sabem que ainda não terminou.

Está na natureza dos conflitos em favelas que, quando eles acontecem, explodem sem aviso prévio. Podem ocorrer a qualquer hora. Os períodos de disputas podem ser longos ou curtos, mas eles geralmente são sangrentos. Isso está na memória coletiva da Rocinha. E quando você tem tiroteios dentro de uma favela, as chances de danos colaterais são enormes.

E o pano de fundo é que, como todo mundo sabe, o Estado não está funcionando direito. Isso cria muita tensão para a polícia. Nas imagens de domingo, vimos que os policiais da UPP estavam se escondendo e evitando confronto.

Postagem de Danúbia no Facebook
Esposa de Nem aparentemente se mantém ativa nas redes sociais e faz piada com sua situação criminal | Foto: Reprodução/ Facebook

BBC Brasil – Que tipo de mensagem isso transmite para os criminosos?

Glenny – Significa que o Estado está cedendo o monopólio da violência para os traficantes na favela. É difícil não sentir raiva da administração Sérgio Cabral (ex-governador do Rio, preso em Bangu e condenado nesta semana a 45 anos de prisão por um esquema que teria movimentado R$ 220 milhões em propina entre 2007 e 2014).

Quando Cabral era governador, o Beltrame (o ex-secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame) fez um bom trabalho em estabelecer a UPP policial. E o governo do Rio falhou consistentemente em investir em uma UPP social. Esse era o combinado, com as UPPs você teria a polícia nas favelas e a partir daí incrementaria o investimento social nas comunidades.

Mas esse investimento social nunca aconteceu, e isso levou o Estado a perder ainda mais credibilidade nas favelas. Atualmente o governo do Estado, do (governador Luiz Fernando) Pezão, do (secretário de Segurança) Roberto Sá não tem qualquer credibilidade dentro das favelas, porque as UPPs já não existem mais, a não ser no nome.

BBC Brasil – Essa crise é o pano de fundo para o confronto que estamos vendo na Rocinha?

Glenny – Há dois panos de fundo que precisam ser considerados. O primeiro é a instabilidade nas relações entre o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e a Amigos dos Amigos (as três maiores facções criminosas do Rio), e o papel que o Primeiro Comando da Capital (o PCC, fundado em São Paulo) vem desempenhando no Estado.

O PCC está envolvido nessa luta entre as facções, fornecendo armamentos à ADA e ao TCP. Você deve lembrar as rebeliões que explodiram nas prisões neste ano, incluindo decapitações. Foram fruto de uma disputa entre o PCC e o Comando Vermelho. E uma das formas de o PCC atingir o CV é fortalecendo seus inimigos, fornecendo armas para suas facções rivais no Rio.

O outro contexto importante é o colapso absoluto das UPPs. É aqui que vemos o verdadeiro impacto da falência efetiva do Estado do Rio. Não há recursos para segurança, e a ajuda federal, com o envio do Exército para o Rio, não teve qualquer impacto na redução da criminalidade. A comunicação entre as lideranças militares e as polícias do Rio é atroz. Não há uma estratégia de segurança integrada.

O Rio enfrenta uma crise econômica e política severa, há enorme tensão em Brasília com a Lava Jato, há o escândalo da JBS, há tudo isso ao mesmo tempo. Estamos vendo uma guerra de facções irromper, que considero ainda pequena – mas as instâncias estaduais e federais são incapazes de lidar com ela.

Danúbia Rangel posa para foto
Segundo britânico, na Rocinha Danúbia é vista como forasteira | Foto: Reprodução/Facebook

Tradicionalmente, e particularmente desde que o Nem passou a chefiar a favela em 2005, a Rocinha tem níveis de criminalidade e homicídio muito mais baixos que outras favelas. Se as coisas estão ruins na Rocinha, você sabe que a situação é grave.

BBC Brasil – No ano passado, quando você esteve na Flip, você considerou que o Rio não teria problemas de segurança até as Olimpíadas, mas depois disso a coisa tendia a piorar.

Glenny – A Olimpíada foi um buraco negro de atividades corruptas. Quando a Copa e a Olimpíada passaram, ficou evidente que o Brasil tinha navegado nos preços altos das commodities sem fazer melhorias estruturais à economia e ao sistema político. Então a Olimpíada pôde ser vista pelo que foi: uma brincadeira muito danosa à cidade do Rio de Janeiro.

A UPP foi introduzida em parte para mostrar para o mundo lá fora que o Rio seria uma sede segura para os jogos. E muitos diziam que quando a atenção internacional se desviasse, a situação se deterioraria rapidamente. E é isso que estamos vendo.

BBC Brasil – Você vê alguma saída para o problema?

Glenny – No momento, temos a atuação do Exército no Rio, mas isso não resolve o problema. A solução é colocar as finanças do Rio nos trilhos e adotar políticas sérias – na verdade, acho que o Brasil precisa considerar seriamente a descriminalização e legalização da posse de drogas por uso pessoal, seguindo o exemplo de outros países do continente americano.

Isso não vai resolver o problema do varejo de drogas, mas vai tirar uma quantidade enorme de pressão de cima da polícia, em um momento em que a polícia precisa de apoio, dada a instabilidade da situação.

BBC Brasil – Depois de passar tanto tempo fazendo pesquisa na Rocinha, como você se sentiu ao ver as imagens dos conflitos nos últimos dias?

Glenny – Não fiquei surpreso. Mas fiquei muito entristecido. E apreensivo por estar longe. Gostaria de estar lá para acompanhar melhor o que está acontecendo e tentar comunicá-lo para o resto do mundo, porque não tem a atenção que merece.

Cultos Africanos – Narcotráfico

Ataque às religiões de matriz Africanas fazem parte da nova dinâmica do tráfego no Rio.

traficantes-evangelicos-ataquesTraficantes destroem terreiros de umbanda candomblé.
Foto: reprodução de vídeo divulgado no youtube

“TODO O MAL tem que ser desfeito, em nome de Jesus”, diz um traficante, ordenando que uma yalorixá destrua as imagens do seu terreiro em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, divulgado na quarta-feira (13).

Em outro vídeo que circula nas redes sociais, um homem “lembra” a um pai de santo que o chefe não quer macumba no local: “É só um diálogo [segurando um taco de baseball escrito diálogo] que eu tô tendo com vocês.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Da próxima vez eu mato”, diz. As cenas  absurdas  são uma amostra de uma onda de ataques a terreiros de umbanda e candomblé comandados por traficantes que seguem acontecendo no Rio de Janeiro.

Até o momento, só em setembro, foram oito casos registrados apenas em Nova Iguaçu. O Disque 100, serviço de denúncias de violações de direitos humanos do Governo Federal, recebeu, entre 2011 e 2016, 175 denúncias de intolerância religiosa no estado – 10% do total no país. Há relatos de ataques e perseguições em toda a  Região Metropolitana. No Rio, traficantes proíbem a prática das religiões e o uso de roupas brancas, levando filhos de santos a deixarem as favelas. Na Cidade Alta, após a troca de comando no morro em novembro do ano passado, imagens de santos foram retiradas de comércios locais.Os casos mencionados aconteceram em lugares dominados pela mesma facção criminosa, o Terceiro Comando Puro. As investigações correm em sigilo e parte dos envolvidos já foi identificada. Como resposta ao crescente número de casos de intolerância, a Polícia Civil e a Secretaria de Segurança Pública acenam com  a criação de uma delegacia especializada até o fim do ano.

A conversão religiosa dos “homens do tráfico” não é um fenômeno novo, e esse tipo de perseguição acontece há mais de 10 anos nas favelas cariocas. Para ajudar a entender essa dinâmica em que traficantes que se denominam evangélicos tentam combater outras religiões nos territórios que dominam, The Intercept Brasil conversou com a professora de sociologia da UFF e autora do livro “Oração de traficante: uma etnografia” Christina Vital da Cunha, que pesquisa o tema há 23 anos.

The Intercept Brasil: Por que é comum que traficantes busquem ajuda religiosa?

Christina Vital da Cunha: Tanto policiais quanto traficantes, sempre estão no limite. Então, buscam proteção na religião. O salmo 91 é usado por policiais e traficantes, por exemplo. Assim como são Jorge foi e ainda é. O que acontece com essa proximidade mais recente dos traficantes com esse universo evangélico é que a igreja se apresenta como uma rede que os auxilia em diferentes questões da vida, como a preparar a saída do tráfico. O que os pastores chamam de libertação de traficantes.

TIB: Como aconteceu essa aproximação com os evangélicos?

CC: A primeira coisa que a gente tem que pensar quando vai se analisar essa situação é que os traficantes são formados em um caldo cultural que é comum hoje às pessoas de favelas e periferias. Eles sempre são produto de um meio. A gente vem observando com o passar das décadas, sobretudo dos anos 1990, um crescimento muito expressivo no número de templos religiosos evangélicos. Muitos deles são de famílias evangélicas, então já foram educados com referencial religioso.

“O pastor Marcos Pereira teve grande influência sobre a conversão de vários chefes do tráfico, a partir da ação dele nos presídios”.

Somado a isso, os pentecostais têm por característica a realização de missões com grupos marginalizados, entre eles os traficantes, oferecendo rede de proteção espiritual, psicológica e também material. Isso tem efetividade nessas localidades, assim como no sistema prisional.

O pastor Marcos Pereira teve grande influência sobre a conversão de vários chefes do tráfico, a partir da ação dele nos presídios. Mas não só ele, traficantes convertidos, a Universal do Reino de Deus e a Assembleia de Deus também participam dessas ações em favelas e periferias.

TIB: Como os líderes religiosos enxergam esses traficantes que se denominam evangélicos?

CC: Há muitos nessa comunidade moral que é a comunidade religiosa, que negam o pertencimento do traficante, pois ele não pode dizer que é evangélico porque ele não tem uma conduta correta. Dizem que eles estão em um processo. Tem muita gente séria que leva a palavra de Deus a essas pessoas, pois acreditam que elas podem e devem se libertar. Mas também tem os que usam o dinheiro do tráfico. A coisa é complexa e tem de tudo.

TIB: A figura de traficantes evangélicos é exclusiva do TCP?

CC: Nos anos 2000, houve a conversão de um dos chefes do Terceiro Comando. Essa conversão atualiza comportamentos no crime. Havia uma orientação que levava a menos confrontos, menos mortes e também se referia às sucessões na hierarquia do tráfico baseada em uma visão que uma pessoa teve na igreja. A partir daí, traficantes de lugares diferentes da hierarquia do crime passam a se vincular ao universo religioso e ter o comportamento orientado por esse conjunto de valores evangélicos.

Agora, não podemos afirmar que todo traficante evangélico pertence a uma única facção. É verdade que os casos midiatizados nos últimos dias são em localidades da mesma facção. Mas, por exemplo, no Complexo da Maré [no Rio], na parte do território do Comando Vermelho é comum as pichações com salmos e orações nas paredes. É algo que faz parte da cultura da periferia.

TIB: Em que momento as religiões de matriz africana passam a ser perseguidas?

CC: Existem líderes religiosos que incentivam a partir dos seus discursos nas igrejas atos de combate a inimigos espirituais e terrenos. Isso é uma prática que não acontecem só em igrejas de denominação única [independentes] em favelas e periferias. Isso acontece também com lideranças que estão aparecendo na mídia, e a gente vai encontrar isso em diferentes denominações e camadas sociais.

A partir da valorização de uma teologia do domínio, insuflam o combate ao inimigo, o combate das forças do bem contra o mal. E o mal está localizado em determinados símbolos, signos, grupos, religiões e comportamentos que devem ser combatidos com ações enérgicas em perspectivas violentas.

A gente vai acompanhando os efeitos negativos na sociedade em geral, como a menina Kaylane, que levou uma pedrada em 2015. Agora a gente vê com mais frequência essa ação dos traficantes, mas já tem pelo menos dez anos de perseguição e constrangimento em relação a religiões afro-brasileiras nas favelas.

TIB: Por que agora os ataques se tornaram constantes e são divulgados pelos próprios traficantes?

CC: Isso começa a sair do controle dos líderes religiosos e passa a ser como um código entre os traficantes. Um modo de comportamento que é divulgado como um modo de demonstrar força e domínio. E acaba viralizando na facção, em parte tem a ver com o estímulo de liderança religiosa, mas, também, tem relação com a própria dinâmica do tráfico. É uma demonstração de poder que se expressa no combate a esses religiosos que representam o mal dentro da favela. Trata-se de mais uma modalidade de violência.

TIB: O que pode ser feito contra essa perseguição?

CC: É muito importante que esses casos sejam midiatizados. A pessoas precisam procurar meios de falar sobre isso. Campanhas que criem estigmas em relação aos intolerantes e ações do estado em diferentes frentes são necessárias para que esse ataques parem.
TheIntercept/Juliana Gonçalves

Drogas – Heroína está afundando os Estados Unidos

Os EUA nas garras da heroínaLuis Orozco, 24 anos, nesta semana em Miami

Luis Orozco, 24 anos, nesta semana em Miami P. D. LL.
Nesse gueto de Miami, a cocaína é chamada de girl – menina — e a heroína, de boy – menino.

Presidente Donald Trump declara epidemia de opiáceos como emergência nacional. O EL PAÍS conversou com três dependentes químicos e com um quarto que superou o vício.
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“Quer boy?”, pergunta um traficante. Pois todos os brancos que aparecem nas ruas desoladas do bairro negro de Overtown querem, precisam urgentemente do boy.

Manhã úmida, nublada, quente. Um ruivo anda de bicicleta. Não consegue parar. Está atrás da sua dose. “Depois, se você quiser, dou cem entrevistas”. E sai pedalando.

Jason, filho de cubanos, 30 anos. Não revela o sobrenome. Não quer ser fotografado. Mas conta: “Comecei com os comprimidos e depois passei para a manteiga. E quando você experimenta a manteiga, não quer mais saber dos comprimidos”. “Manteiga” é o boy. Jason jogava beisebol. Vem “de boa família”. Sua irmã está se formando em advocacia. Jason: “Ainda estou tentando entender que merda que aconteceu com a minha vida!”.´

São os Estados Unidos. É a epidemia de heroína, de opiáceos sintéticos que vem da China como mísseis tomahawk em pó, dos analgésicos viciantes da indústria farmacêutica receitados como se fossem balas – cerca de 300 milhões de comprimidos por ano desde 2000. A epidemia que Trump decretou como emergência nacional em 10 de agosto.

É essa torrente numérica: 35.000 mortos – cerca de cem por dia — por causa de overdose de heroína e outros opiáceos em 2016, ano que bateu um recorde histórico de mortes causadas por drogas: 60.000, mais do que em toda a Guerra do Vietnã; no Estado de West Virginia, em 2015, o índice foi de 36 mortos por opiáceos para cada 100.000 habitantes, superior ao de 30 por 100.000 homicídios registrados na Guatemala no mesmo ano. Um assessor de Trump sintetiza: “É um 11 de Setembro a cada três semanas”.

“Sou uma menina de vilarejo”

Cary Morissette, 28 anos
Cary Morissette, 28 anos P. D. LL.
Estava comprometida, ia me casar, ter filhos. Era gerente de um Wendy’s…

Cary Morissette tem 28 anos, é dependente desde os 20. Está cansada: “Quando você acorda de manhã, primeiro toma o café da manhã e depois escova os dentes. Eu acordo suando, primeiro vomito e depois, se não guardei nada do dia anterior, saio para comprar a minha dose”.

Passa um outro traficante, oferece a sua droga, mostra seus dentes cheios de ouro.

Cary, com seus dentes estropiados, é de Maine. Belo, cheio de florestas, na fronteira com o Canadá, um dos Estados mais atingidos pela epidemia. “Sou uma menina de vilarejo, o típico lugar onde todos se conhecem”. Pupilas dilatadas. Como no caso de Jason, ela conta que a sua é uma “boa família americana”.

“Que fazia esporte – softball –, tinha “um pai incrível”, “irmãs maravilhosas”. De repente, um dia, começou a fumar cocaína em pedra feito uma desesperada e depois passou a ingerir heroína na veia. “Estava comprometida, ia me casar, ter filhos. Era gerente de um Wendy’s [dá uma risada, desdenhando o mérito de seu cargo na rede de hambúrgueres], mas ia abrir a minha própria doceria para fazer bolos de casamento”.

Ela sua, sua muito. “Veja como estou agora. Cheia de infecções”.

Uma amiga, bastante pálida, se aproxima. “Eu comecei com comprimidos”. Característica típica da questão: brancos que se viciaram em pílulas. E daí passaram para o cavalo.

Cary não quer parar para pensar sobre o motivo dessa epidemia nos EUA. Simplesmente diz: “Isso é nojento”. Mas sua amiga comenta: “É porque nós somos os mais viciados do mundo e só sabemos desfrutar em excesso. Como os obesos são com a comida, nós somos com isso”.

Jesse Thompson, 24 anos
Jesse Thompson, 24 anos P. D. LL.

Você não faz ideia de como o Hermitage é bonita. Mas, se eu tivesse ficado mais um dia ali, acabaria morto

“Os comprimidos eram o céu”

Ele tem 24 anos, não consegue entender como não morreu e agradece a Deus por já estar limpo há um ano e meio. Jesse Thompson, “inter-racial, pai branco e mãe negra”, nascido em Hermitage (Pensilvânia, outro estado afetado). Graciosa, cheia de sol, um verdadeiro pomar de centros de reabilitação, confim peninsular aonde fugir para tentar renascer é um ponto de atração para drogados de todo o país. Foi aqui que Thompson se livrou das “garras da heroína” e agora trabalha ajudando dependentes.

“Você não faz ideia de como Hermitage é bonita. Mas, se eu tivesse ficado mais um dia ali, estaria morto”.

Jogava futebol americano. Foi operado. Deram-lhe analgésicos. “Com os primeiros comprimidos, eu entendi que tinha encontrado o que precisava. Eu me sentia no céu, invencível, como se ninguém pudesse me atingir”. Depois de alguns meses as receitas acabaram e ele foi tentar comprar comprimidos de um amigo do colégio. “Ele não tinha mais e disse: ‘mas tenho heroína’. Eu não estava aguentando a crise de abstinência das pílulas e então respondi: ‘Me dá isso já’”. E, como um “animal viciado”, chegou a gastar mais de 200 dólares por dia com heroína. Queimava todo o salário ganho como funcionário de uma construtora e ainda roubava mais mil por semana do cartão de crédito da mãe.

Luis Orozco, 24 anos
Luis Orozco, 24 anos ANTONI BELCHI
Tudo que lhe vendem agora, mesmo dizendo que é heroína, é fentanil. É terrível

Jesse foi frequentador assíduo de Overtown. Agora não é mais. A entrevista foi dada em um bairro tranquilo, enquanto desfrutava de um hambúrguer com bacon. Acompanha tudo sobre a epidemia, combate na linha de frente contra ela e prevê: “Isso não vai parar. Vai piorar. Pode acreditar”.

“Ando entre a vida e a morte”

Carly diz seu nome, mas não o sobrenome. “Coloque Carly R.”. Tem 36 anos, usa drogas desde os 19, é de Miami. Já esteve 11 vezes em clínicas de reabilitação. Tem rosto de criança. Chora ao falar da família. “Tive tudo o que queria, mas era uma menina problemática”.

Por mais nociva que a droga seja, ela se queixa de que a heroína anda escassa. “Tudo que vendem para você hoje, mesmo dizendo que é heroína, é fentanil. É terrível”. Trata-se do opiáceo sintético que inundou o mercado. Uma dose de fentanil, além de ser mais barata, é 50 vezes mais forte do que uma de heroína. Está na origem da grande onda atual de overdose.

“Sei que ando entre a vida e a morte”, diz ela, que nos últimos meses se viu duas vezes à beira da morte, mas foi socorrida por paramédicos com Narcan, um spray nasal que reverte a overdose. “Meus amigos tombaram feito moscas. Morreram uns 15. Na primeira vez que injetei heroína foi uma delícia”, lembra. “Foi com uma ex-namorada, que agora está morta”.

Luis Orozco, 24 anos.
Luis Orozco, 24 anos. P. D. LL.
Se o médico não tivesse me dado os comprimidos, talvez eu não acabasse desse jeito

Carly R. – boné, calças largas de rapper, crucifixo no peito — explica que o “barato” da heroína é prolongado, enquanto o de fentanil é breve e intenso. “Acaba logo e você quer mais uma dose”, diz. “Rapidinho, rapidinho!”, estala os dedos.

“De repente a luz se apaga para você”

Dentro da van da ONG Needle Exchange – do lado de fora, seis policiais revistam três drogados deitados em uma calçada por onde não passa ninguém -, Luis Orozco, 24 anos, nascido em Los Angeles de pais mexicanos, diz que “no meu caso foi depressão, man”.

Os que estão em pior situação, como ele, são os que moram em Overtown, em algum quartinho qualquer ou sobre papelões a céu aberto. Os enfermeiros da ONG dizem que os que têm dinheiro ou que ainda não chegaram ao fundo do poço passam de carro logo cedo – “a caminho do trabalho” –, compram sua heroína e “se injetam no escritório”. Alguns também trocam suas seringas na van. Muito rapidamente. “Nem olham para você”.

Luis desce da van. De uma família “normal, sempre trabalhando e pagando as biles [bills, contas]”, caminha por Overtown com o auxílio de um andador. É diabético. Foi operado há algumas semanas para extrair pus de um tornozelo e tem uma ferida aberta na cabeça que não consegue cicatrizar. Uma mãe passa, com duas crianças com uniforme de escola. As crianças olham com estranheza para Luis, que sorri simpaticamente.

Ele também começou com comprimidos. “Se o médico não tivesse me dado aquilo, talvez eu não acabasse desse jeito”. Tem medo de morrer por causa de uma overdose de fentanil. “Dizem que é tranquilo, Mas de repente a luz se apaga para você”.

Sua mãe morreu em 2015. O pai mora com uma irmã, em Miami. Dizem para ele deixar Overtowm e ir morar com eles. “Vem pra casa”, insiste o pai. “E ele fica chateado porque eu prefiro ficar aqui”. “Você pode me oferecer uma cama, ar-condicionado, uma geladeira cheia de comida e TV a cabo, mas eu prefiro ficar aqui, perto da droga, para estar aqui quando me bater o desespero para tê-la, que é quando você se sente como se fosse um peixe sem oxigênio”, conta, aflito, cheio de olheiras, trajando uma camiseta escura estampada com o desenho de uma morte com a foice, enrolada em uma bandeira dos EUA.

A PRAGA MAIS BRANCA

A epidemia cresce entre os brancos. Em 2001, 0,34% das pessoas brancas e 0,32% de não-brancas consumiam heroína. Em 2013, a diferença dobrou: 1,9% dos brancos, 1,05% dos não-brancos. Em 1999, 70% das pessoas mortas por causa da droga eram brancas. O dado, em 2015, é de 82%. A razão médica é o aumento maior da dependência a remédios contra a dor entre os brancos; a social, segundo os analistas, seria a pauperização econômica da classe média em um país cada vez mais desigual.
PABLO DE LLANO/ElPais