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A ESQUERDA LATINO-AMERICANA PRECISA DAR UMA RESPOSTA SOBRE A AMAZÔNIA: SERÁ QUE ELA CONSEGUE REJEITAR PETRÓLEO, PECUÁRIA E MINERAÇÃO?

O CAPÍTULO DA história da América Latina que teve início em 1998 com celebrações na Venezuela terminou com um golpe e violência na Bolívia. Como ocorre com todas as ondas, a “maré rosa” recua para revelar um terreno transformado. O cenário do movimento de esquerda que produziu governos socialistas variados em uma dúzia de países está quebrado e desiludido. As Américas Central e do Sul enfrentam uma direita ressurgente e o retorno da austeridade, muitas vezes por meio de ataques com gás lacrimogêneo. Esse estado de desordem marca também o terreno literal do continente: as florestas e montanhas foram abertas e rasgadas, seus minerais e hidrocarbonetos enviados para portos e embarcados para o exterior em nome de um projeto socialista cujas realizações se mostraram frágeis, temporárias e superficiais.

Compreensivelmente, nos últimos tempos, a preocupação global com o futuro da Amazônia se concentrou no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro acelerou a destruição da floresta tropical com alegria fascista. Mas, sob o arrepiante desprezo desse regime pela natureza, tratando-a como sendo apenas um estoque de recursos a serem colhidos, existe uma verdade inquietante: sua agenda de extração desenfreada representa uma diferença de grau e estilo, e não de tipo, daquela adotada nas últimas duas décadas por todos os principais países amazônicos. Isso inclui os governos da maré rosa de Venezuela, Bolívia, Equador e Brasil, que promoveram a mineração, a extração de petróleo e a agricultura industrial com a mesma diligência que seus colegas neoliberais no Peru e na Colômbia.

Examinar esse legado não é descartar os ganhos sociais que ele tornou possível, ainda que brevemente. Esses ganhos foram reais e, em alguns casos, impressionantes. Os novos gastos estatais em saúde, educação e programas de subsídios por bloco melhoraram a vida de muitos milhões de pessoas em uma região definida pela imensa desigualdade e uma profunda pobreza endêmica. E, no entanto, como muitos observaram desde o início, esses ganhos só poderiam ser efêmeros, com base nos aumentos orçamentários de um boom de commodities único de uma década impulsionado pela China e, em menor grau, pela Índia. Mesmo antes dos preços do minério e do petróleo começarem a cair em 2012, as coalizões por trás de muitos governos da maré rosa começaram a desmoronar sob as contradições e trocas do que o cientista social uruguaio Eduardo Gudynas, um crítico precoce e influente da maré rosa à esquerda, chamado “neoextrativismo”. Acabou que essa versão do extrativismo, apesar de defendida de varandas de palácios ornadas com bandeiras socialistas e anti-imperialistas, não era tão diferente do modelo praticado por séculos de domínio colonial, militar e neoliberal. Sua principal inovação foi negociar cortes maiores nas crescentes exportações de recursos primários.

Campo de mineração de ouro informal Esperança IV, perto do território indígena Menkragnoti, no Pará, em 28 de agosto de 2019.

Campo de mineração de ouro informal Esperança IV, perto do território indígena Menkragnoti, no Pará, em 28 de agosto de 2019.
Foto: João Laet/AFP via Getty Images

Os rendimentos dos pontos percentuais extras foram muito bons enquanto duraram. Eles também obscureceram o fracasso em avançar um projeto de esquerda democrática para desafiar cinco séculos de espoliação, desapropriação e dependência sistêmicas. O neoextrativismo “possibilitou formas importantes de inclusão socioeconômica e empoderamento político para as massas, ao mesmo tempo em que prejudicou transformações mais radicais”, conclui Thea Riofrancos em “Resource Radicals” (Radicais de recursos), seu próximo estudo sobre a política do extrativismo da maré rosa.

Na Bolívia e no Brasil, as florestas estão em chamas.

No lugar dessas transformações mais radicais, o neoextrativismo acelerou o ciclo de destruição exigido pelo papel histórico da região na economia global. As consequências políticas e ecológicas disso foram mais acentuadas nas florestas tropicais, florestas secas e nas cordilheiras ocidentais que são as fontes do sistema amazônico. À medida que os leilões de mineração e petróleo se multiplicavam, as coalizões de trabalhadores urbanos, pequenos agricultores e povos indígenas se separaram.

“Esquerda ou direita, a ideologia é a mesma: roube nossa terra e destrua o meio ambiente”, disse José Gregorio Díaz Mirabal, coordenador venezuelano da federação de organizações indígenas da Amazônia, ou Coica. “Na Bolívia e no Brasil, as florestas estão em chamas.”

O RELATO DESSA história ocorre, como tudo agora, à luz da crise climática. Como o extrativismo condena a floresta amazônica, um bioma central para qualquer solução concebível para essa crise, uma nova esquerda latino-americana terá de rejeitá-la.

Essa ideia não é nova. Os debates sobre como a América Latina poderia costurar suas veias e criar alternativas a um modelo de “desenvolvimento” ocidental baseado nas exportações de commodities foram centrais para o firmamento de movimentos sociais que os partidos da maré rosa levaram ao poder. Durante os anos 1990, ativistas, estudiosos e figuras políticas da região se empenharam em buscar críticas à globalização e à armadilha extrativista. Antes de Hugo Chávez anunciar a chegada do nacionalismo de recursos “anti-imperialista”, assegurando a estatura da Venezuela e financiando programas antipobreza com rendimentos do petróleo e de projetos de mineração no sul do país, as figuras mais inspiradoras da esquerda latina e global foram os zapatistas no sul México, que exigiam um “mundo onde cabem muitos mundos”. Em centenas de reuniões em cidades pequenas e grandes capitais – das quais o Fórum Social Mundial era apenas o maior –, as bandeiras de arco-íris de grupos indígenas recém-politizados misturavam-se a símbolos socialistas e bolivarianos nos debates sobre como construir uma nova América Latina, que seria socialmente justa e ecologicamente sábia.

Cerca de 30 mil pessoas se reúnem em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 2002, em uma marcha para inaugurar oficialmente o Fórum Social Mundial de cinco dias.

Cerca de 30 mil pessoas se reúnem em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 2002, em uma marcha para inaugurar oficialmente o Fórum Social Mundial de cinco dias. Foto: Douglas Engle/AP

O novo pensamento encontrou sua expressão mais completa no conceito de buen vivir. Como princípio político ou ideologia organizadora, “viver bem” é uma espécie de fusão de ideias indígenas e ocidentais sobre limites, solidariedade, fontes de felicidade humana e equilíbrio da natureza. A expressão sugere uma forte crítica ao mercado, ao pensamento de curto prazo, o materialismo e a exploração das pessoas e do meio ambiente. Foi promovida e adotada pelos governos de Cuba, Venezuela, Argentina, Paraguai, Uruguai e Peru, mas está mais estreitamente associado à Bolívia e ao Equador. Os ex-presidentes Evo Morales e Rafael Correa fizeram campanha em plataformas buen vivir e consagraram o conceito em suas respectivas constituições da maré rosa.

O uso de símbolos e ideias indígenas estava dilapidado quando conheci Alberto Acosta em uma marcha de protesto na cidade de Zamora, no sul do Equador, no final de 2012. Economista de alta estatura, com uma postura um tanto severa, Acosta foi o primeiro ministro de minas e energia de Correa e presidiu a convenção que ganhou as manchetes globais pela inclusão do buen vivir e seus semelhantes “direitos da natureza” na constituição de 2008. Três anos depois, Acosta havia deixado o governo e, desde então, presidiu diferentes tipos de conferências, como a “Movimentos sociais pela democracia e pela vida”, reunidas para organizar a oposição de esquerda a Correa e ao neoextrativismo da maré rosa.

Na manhã em que o entrevistei, ele falou enquanto marchava atrás da bandeira de sete partidos aliados de esquerda que haviam sido fundados em oposição ou deixado a coalizão “Unidade” de Correa. “Não há nada de novo no plano de desenvolvimento de Correa”, ele me disse. “Ele cita os teóricos das escolas dependentista, mas sua ideia é o mesmo modelo econômico de periferia central de exportação de matérias-primas. Ele substituiu o tio Sam pelo tio Chen” – a China – “para sustentar seus programas sociais e sua posição política à custa do desenvolvimento real. Nós resistimos a esse modelo da mesma forma como resistimos ao neoliberalismo.”

Como o extrativismo condena a floresta amazônica, uma nova esquerda latino-americana terá de rejeitá-la.

Eu estava no Equador na época fazendo uma reportagem que ilustrava a crítica. O governo de Correa havia aprovado planos para uma megamina de cobre e ouro a céu aberto na Cordilheira do Condor, um importante ponto biológico, corredor de espécies e divisor de águas no noroeste da Amazônia que abrigava milhares de povos indígenas, majoritariamente Shuar, e agricultores mestiços. A mina, então nos estágios iniciais de construção por um conglomerado chinês chamado ECSA, já estava deslocando comunidades. Quando concluída, deslocaria muito mais e poluiria a terra e a água de quem lá permanecesse. Correa criminalizou a oposição ao projeto e atacou seus críticos como patetas e agentes imperialistas. Em Quito, um ativista da ONG Clínica Ambiental me mostrou o nome de centenas de ativistas que estavam na prisão ou encarcerados. “Como Correa representa a esquerda, fazer oposição a ele rende acusações de se estar apoiando o antigo regime que levou todos à falência. Mas ele provou ser neoliberal com toques redistributivos. Ele evitou pactos com os EUA, mas vendeu o país para a China.”

Na Bolívia, uma versão mais suave da mesma dinâmica começou a ocorrer em 2012. A expansão da mineração e da agricultura industrial pelo governo de Morales causou deserções precoces de figuras-chave nos movimentos sociais forjados durante as chamadas guerras de água e gás do início dos anos 2000, antes de levar Morales ao poder. A grande oportunidade veio em 2011, quando Morales anunciou planos para construir uma estrada de 300 quilômetros através das florestas tropicais primárias do território indígena Isiboro Sécure. O governo alegou que seu objetivo era fornecer melhores serviços sociais para aldeias remotas, mas os grupos indígenas bolivianos entenderam corretamente a rodovia como parte de um projeto de longo prazo para industrializar as florestas de terras baixas, eventualmente conectando-as à rede de transporte da Amazônia encontrada nos documentos de planejamento de um superprojeto liderado pelo Brasil chamado Iniciativa para a integração da infraestrutura regional da América do Sul, ou IIRSA. (A rodovia é financiada pelo BNDES e acompanha de perto as terras sobre as quais a gigante petrolífera brasileira Petrobras detém direitos de exploração.) À medida que a resistência se espalhava, Morales invadiu os escritórios de grupos indígenas que se opunham à rodovia e substituiu à força os líderes por aliados seus. Ele acusou publicamente seus críticos, incluindo o antigo presidente da Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia Adolfo Chávez de serem “agentes da USAID” – a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional – e os acusou de crimes graves. Eles se esconderam até que a Suprema Corte do país reverteu as acusações.

Da esquerda para a direita: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente do Equador, Rafael Correa, chegam a um desfile militar em comemoração aos 200 anos do início do movimento de independência da Bolívia em La Paz, em 16 de julho de 2009.

Da esquerda para a direita: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente do Equador, Rafael Correa, chegam a um desfile militar em comemoração aos 200 anos do início do movimento de independência da Bolívia em La Paz, em 16 de julho de 2009.
Foto: Patricio Crooker/AP

“Nós apoiávamos Morales e Correa porque os partidos de esquerda prometeram respeitar nossos direitos, mas eles quebraram as promessas e enfraqueceram nossas organizações”, disse-me Chávez recentemente. “Tínhamos um plano coerente para ajudar o governo a construir indústrias sustentáveis que protegessem as florestas e os rios. Os padrões nunca mudaram. Ainda estamos sujeitos a transnacionais que têm igualmente relações com partidos de esquerda e direita igualmente.”

Não foram apenas os autodeclarados países bolivarianos da maré rosa que adotaram o neoextrativismo. No Brasil, os governos do Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff reforçaram as proteções em grandes áreas da Amazônia, ao mesmo tempo em que adotaram a visão de longo prazo da IIRSA: uma região pontilhada de barragens para abastecer as operações de mineração e conectada por estradas e ferrovias para facilitar o fluxo cada vez maior de matérias-primas para os portos nas costas do Atlântico e do Pacífico. Nas duas administrações, a mineração se expandiu por todo o país, inclusive na Amazônia. Mas foi outra expansão mais silenciosa que provavelmente teve o maior impacto climático: o “deserto verde” da agricultura industrial continuou a consumir as florestas secas e savanas remanescentes do Cerrado, um sumidouro de carbono que antes era maciço, mas que desaparece rapidamente, que se espalha por meia dúzia de estados no planalto central do Brasil.

O desafio enfrentado por uma esquerda pós-extrativista transformacional é assustador. Para tomar e manter o poder, precisará responder à acusação de Correa de que os defensores do pós-extrativismo querem que os pobres do continente vivam como “mendigos em um saco de ouro”. Será necessária uma visão e um plano para resolver o enigma proposto pelo acadêmico de esquerda e crítico de Correa, Pablo Ospina Peralta: “Como se revoluciona a economia quando o governo depende da saúde da economia que procura revolucionar?”
Quaisquer que sejam as especificidades da resposta, o caso se beneficiará das falhas de séculos de extrativismo. A América Latina, onde foi concebido o condomínio fechado, é a região mais desigual do mundo, com profunda pobreza estrutural cada vez mais agravada pela poluição e pelos efeitos da crise climática. O fato de que essas questões podem ser fortemente emparelhadas ficou visível no mês passado nas ruas de Quito, no Equador. Após uma greve de 11 dias em protesto contra um pacote de austeridade anunciado, o presidente Lenin Moreno, que sucedeu Correa em 2017, cedeu ao encontro com líderes indígenas que estavam à frente dos protestos de rua em oposição à proposta de cortes sociais e reformas trabalhistas – e pelo fim da exploração de petróleo e da mineração na Amazônia. No Chile, onde a devastação causada por décadas de mineração desenfreada tornou-se impossível de ignorar, manifestantes urbanos estão agitando bandeiras mapuches, cujo simbolismo colorido de buen vivir retrata sangue indígena, terra, sol, montanhas cobertas de neve e esperança.

A América Latina detém quase metade do cobre e da prata do mundo, um quarto do níquel e da bauxita, e reservas dispersas de metais “tecnológicos” usados em computadores, painéis solares e células de combustível de última geração.

“Algo está se agitando”, disse Arturo Escobar, estudioso colombiano-americano cujo livro de 1995 “Encountering Development (Encontrando o desenvolvimento)”, deu forma a debates emergentes sobre desenvolvimento e crescimento. “Existem fissuras visivelmente crescentes no consenso dominante sobre o modelo político, econômico e de desenvolvimento, incluindo o ‘consenso sobre commodities’ dos anos 2000 e 2010 que causou uma devastação ecológica maciça. As pessoas estão novamente falando de uma crise civilizacional, que, na melhor das hipóteses, leva à possibilidade de uma nova época que questione as antigas suposições e se mova em direção a uma política de buen vivir – com orientação mais comunitária, ecológica e espiritual.”

Pode parecer absurdo que possa surgir um movimento para construir uma nova ordem social e satisfaça as necessidades humanas enquanto protege e regenera os rios e florestas. Mas não é mais irrealista do que acreditar que uma economia baseada no consumo e no crescimento possa alcançar o equilíbrio ecológico.

Dragas no rio Madre de Dios, no território indígena de Tacana, perto de La Paz, na Bolívia, em 31 de agosto de 2019.

Dragas no rio Madre de Dios, no território indígena de Tacana, perto de La Paz, na Bolívia, em 31 de agosto de 2019.
Foto: Ernesto Benavides/AFP via Getty Images

As chances de sucesso de tal movimento dependerão do sucesso de movimentos aliados em outros lugares. Os mercados de commodities escreveram grande parte da história da América Latina, e a demanda global por matérias-primas continuará a exercer uma poderosa influência. Isso será verdade mesmo em uma versão “esverdeada” do sistema atual. Uma mudança global dos combustíveis fósseis pouparia a Amazônia de mais devastação do desenvolvimento de petróleo e gás, mas não de ser aberta para monoculturas ou destruída na busca por metais raros para construir iPhones com carregamento solar atualizados anualmente e o mais recente SUV de desempenho totalmente elétrico da Jaguar. Um sistema baseado em crescimento que funcione em uma rede descarbonizada ainda exigirá insumos massivos dos materiais primários encontrados nos solos e rochas dos nove países da Amazônia. A América Latina detém quase metade do cobre e da prata do mundo, um quarto do níquel e da bauxita (alumínio), e reservas dispersas de metais “tecnológicos” usados em computadores, painéis solares e células de combustível de última geração. Em um artigo recente sobre a indústria de lítio da Bolívia para a New Republic, a colaboradora do Intercept, Kate Aronoff, observa que alimentar a economia atual com energias renováveis consumiria as reservas mundiais de lítio em um período muito curto de tempo. Tentar manter uma versão “verde” da sociedade de consumo global pode levar a uma disputa por metais raros capaz de fazer com que as ondas de extrativismo anteriores pareçam suaves em comparação.

Se a América Latina se recusasse a abrir suas veias para esses recursos, encerraria seu papel como banco de recursos global, que começou de maneira não consensual com as economias escravistas do século XVI, que carregavam navios europeus com ouro, prata e açúcar. Existem pequenos precedentes para essa recusa. El Salvador proibiu toda a mineração de metais em 2017 para proteger sua água. A Costa Rica há muito tempo aplica uma proibição limitada de mineração. Em todos os países onde a mineração é desenfreada, os movimentos estão se organizando por trás de agendas pós-extrativistas, guiadas pelos valores ecossocialistas do buen vivir.

Os grupos indígenas são apenas parte deste projeto, mas estão na frente e desempenham um papel único. Eles trazem um conhecimento vivo de alternativas e são os que estão ameaçados mais diretamente com a extinção. Uma das vozes indígenas mais proeminentes de um curso diferente é Juan Carlos Jintiach, coordenador de planejamento econômico da COICA e, muitas vezes, a única voz indígena presente em ambientes como a Convenção sobre Diversidade Biológica, as Nações Unidas e o Banco Mundial. Ele não é ingênuo nem resignado, mas se concentra nas gestações das emergências sobrepostas do momento.

“Este é um momento confuso e arriscado”, disse Jintiach. “É um momento que exige mobilizações sociais que transcendam esquerda e direita e nos conectem uns aos outros e com a terra. O buen vivir contém os conceitos, mas é uma linguagem que a outra sociedade nem sempre entende. Estamos construindo alianças para mostrar que há outra maneira. Não é nossa luta, é de todos. Neste momento, há uma tempestade, uma forte tempestade. Mas, no momento em que acordarmos, veremos o céu.”

Alexander Zaitchik/ITB-Tradução: Cássia Zanon

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Aquecimento global: 7 gráficos que mostram em que ponto estamos

As geleiras do mar Ártico diminuíram nos últimos anos

As mudanças climáticas devem causar grandes transformações em todo o mundo: o nível do mar vai subir, a produção de alimentos pode cair e algumas espécies talvez sejam extintas.A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que o mundo precisa limitar o aumento da temperatura média global a menos de 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais.Mas, de acordo com os cientistas, cumprir a meta de 1,5 °C exige “mudanças rápidas, de longo alcance e sem precedentes” em todos os aspectos da sociedade.

Afinal, o quão quente o mundo está e o que pode ser feito?

1. O mundo está mais quente

O planeta está agora quase um grau mais quente do que estava antes do processo de industrialização, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Como a temperatura dos anos se compara com a média do séc. 20

Os 20 anos mais quentes foram registrados nos últimos 22 anos, sendo que 2015 a 2018 ocupam os quatro primeiros lugares do ranking, diz a OMM.

Se essa tendência continuar, as temperaturas poderão subir entre 3ºC e 5ºC até 2100.

Um grau pode não parecer muito, mas, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), se os países não tomarem uma atitude, o mundo enfrentará mudanças catastróficas — o nível do mar vai subir, a temperatura e a acidez dos oceanos vão aumentar e a nossa capacidade de cultivar alimentos como arroz, milho e trigo estaria ameaçada.

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2. 2019 bateu todos os recordes

Quase 400 temperaturas recordes foram registradas no Hemisfério Norte durante o verão de 2019.

Os recordes foram alcançados em 29 países entre 1º de maio e 30 de agosto. Um terço das temperaturas mais altas de todos os tempos foi registrada na Alemanha, seguida por França e Holanda.

Esses recordes europeus foram registrados em meio a ondas de calor em todo o continente que provocaram um aumento nas temperaturas médias em junho e julho.

Durante o período indicado no mapa abaixo (de maio a agosto de 2019), os pontos amarelos mostram onde e quando um recorde de calor foi quebrado, o rosa indica os lugares mais quentes naquele mês, e o vermelho escuro representa os locais mais quentes desde o início dos registros.

As temperaturas mais altas destas regiões

Datas

Fonte: Robert A. Rohde/Berkeley Earth. Mapa criado em Carto

Mais de 30 recordes foram registrados nos EUA, de acordo com os dados do Berkeley Earth. No Japão, onde 11 pessoas morreram em decorrência da onda de calor no verão, foram quebrados 10 recordes de temperatura.

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3. Não estamos no caminho de atingir as metas de mudança climática

Se somarmos todas as promessas para reduzir emissões de gases que provocam efeito estufa pelos países que assinaram o Acordo de Paris, o mundo ainda esquentaria em mais de 3°C até o fim deste século.

Gráfico média de aquecimento global
Nos últimos três anos, climatologistas mudaram a definição do que acreditam ser o limite “seguro” da mudança climática.

Por décadas, pesquisadores argumentaram que o aumento da temperatura global devia ser mantido abaixo de 2°C até o fim deste século para evitar consequências mais graves.

Os países que assinaram o acordo de Paris se comprometeram a manter as temperaturas “bem abaixo dos 2°C em relação aos níveis pré-industriais e a buscar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C”.

Mas a comunidade científica concorda agora que, na verdade, precisamos manter os aumentos de temperatura abaixo de 1,5°C.

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4. Os maiores emissores são a China e os EUA

Os países que emitem mais gases de efeito estufa são, de longe, a China e os EUA. Juntos, eles são responsáveis por mais de 40% do total global de emissões, de acordo com dados de 2017 do Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia e da Agência Holandesa de Avaliação Ambiental (PBL).

Gráfico emissores de CO2

A conduta ambiental dos EUA mudou sob o governo de Donald Trump, que adotou uma política pró-combustíveis fósseis.

Depois de tomar posse, o presidente americano anunciou a retirada do país do Acordo de Paris.

Na ocasião, Trump disse que queria negociar um novo acordo “justo” que não prejudicasse empresas e trabalhadores americanos.

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5. As áreas urbanas são particularmente ameaçadas

Quase todas as cidades — 95% delas — que enfrentam riscos climáticos graves estão na África ou na Ásia, segundo um relatório da Verisk Maplecroft, consultoria de estratégia e risco.

E o risco é maior para cidades com crescimento mais rápido, incluindo megacidades como Lagos, na Nigéria, e Kinshasa, na República Democrática do Congo.

Cerca de 84 das 100 cidades que mais crescem no mundo enfrentam riscos “extremos” de aumento das temperaturas e de fenômenos climáticos extremos.

Cidades em rápida expansão enfrentam piores riscos climáticos
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6. Gelo do Ártico também está ameaçado

A extensão do gelo do mar do Ártico diminuiu nos últimos anos. Em 2012, chegou ao nível mais baixo já registrado.

Gráfico gelo no Ártico

As geleiras vêm diminuindo há décadas, com a aceleração do derretimento desde o início dos anos 2000, de acordo com o Comitê de Auditoria Ambiental do Parlamento do Reino Unido.

O Oceano Ártico pode ficar sem gelo no verão antes de 2050, a menos que as emissões sejam reduzidas, acrescenta o comitê.

A extensão do gelo do mar Ártico em 2019 foi a segunda menor já registrada por satélite, empatando com a de 2007 e 2016.

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7. Todo mundo pode fazer algo para ajudar

Enquanto os governos precisam fomentar grandes mudanças, indivíduos também podem fazer sua parte.

Os cientistas dizem que todos nós temos de adotar “mudanças rápidas, abrangentes e sem precedentes” no nosso estilo de vida, a fim de evitar danos mais severos ao clima.

O IPCC recomenda uma redução no consumo de carne, leite, queijo e manteiga; comer mais alimentos sazonais de origem local — e desperdiçar menos; dirigir carros elétricos, mas caminhar ou pedalar distâncias curtas; pegar trens e ônibus em vez de aviões; substituir viagens de negócios por videoconferências; usar varal em vez de máquina de secar roupa; aprimorar o isolamento térmico das casas; exigir bens de consumo com baixo teor de carbono.

Mas a maneira mais eficaz de se reduzir o próprio impacto ambiental no planeta é mudar a dieta, com menos menos carne — de acordo com estudos recentes.

Gráfico mostra impacto dos alimentos

Cientistas dizem que devemos consumir menos carne por causa das emissões de carbono que essa indústria produz, entre outros impactos ambientais negativos.

Um estudo recente publicado na revista científica Science destacou uma enorme variação no impacto ambiental na produção de um mesmo alimento.

O gado de corte criado em terras desmatadas, por exemplo, produz 12 vezes mais emissões de gases de efeito estufa que o criado em pastagens naturais.

Em resumo, o estudo mostra que mesmo a carne com o menor impacto ambiental ainda gera mais emissões de gases de efeito estufa do que o cultivo de hortaliças e cereais de maneira sustentável.

Mas, além de alterar nossas dietas, a pesquisa indica ser preciso mudar radicalmente as práticas agrícolas para beneficiar o meio ambiente.

Por Nassos Stylianou, Clara Guibourg, Daniel Dunford, Lucy Rodgers, David Brown e Paul Rincon.

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Por que vítimas de incêndios estão iradas com premiê da Austrália: ‘Não quero apertar sua mão’

Morrison foi criticado na internet por forçar uma mulher a apertar sua mão

“Eu realmente não quero apertar sua mão.”

“Você não vai conseguir nenhum voto aqui, parceiro. Você está fora.”

“E as pessoas que morreram, senhor primeiro-ministro? E aquelas que não têm para onde ir?”

Em visita a uma cidade devastada por incêndios nesta quinta-feira (2), o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, foi duramente questionado pela população local.

Em Cobargo, no Estado de New South Wales, a raiva era palpável. Mas mais constrangedores — e, por isso, alvo de maior atenção — foram dois encontros menos barulhentos.

“Eu só vou cumprimentá-lo se você der mais dinheiro ao RFS [o corpo de bombeiros rural]. Tantas pessoas perderam suas casas”, disse ela.

“Eu entendo”, ele respondeu. Enquanto ele se afastava, ela acrescentou: “Precisamos de mais ajuda”.

Depois que um bombeiro também se recusou a apertar sua mão, Morrison disse a seus assessores: “Digam àquele rapaz que eu sinto muito. Tenho certeza de que ele está apenas cansado”. Ele, então, ouviu de uma autoridade local: “Não, não, ele perdeu sua casa”.

As interações, todas filmadas e bastante compartilhadas online, voltaram a colocar Morrison no centro da ira popular pela forma como ele vem lidando com os incêndios florestais sem precedentes que atingem o país.

O primeiro-ministro é acusado de estar sendo negligente perante a crise — passou, inclusive, alguns dias de férias no Havaí — e também tem sido criticado por subestimar os efeitos do aquecimento global nos incidentes.

Incêndios do tamanho de pequenos países

Desde setembro, os incêndios já deixaram 19 mortos, destruíram mais de 1.200 casas e devastaram milhões de hectares. Embora a atenção esteja centrada em New South Wales, o Estado mais atingido, todas as regiões do país foram afetadas.

A fumaça se espalhou por cidades do sudeste, a área mais populosa da Austrália, prejudicando a qualidade do ar para milhares de pessoas. Estima-se que milhões de animais tenham morrido, e que o custo econômico do desastre seja gigantesco.

Bombeiros atravessam túnel de fogo durante incêndio florestal na Austrália

O apoio popular aos bombeiros — em sua maioria voluntários —, que vêm lutando contra chamas em regiões cujo tamanho se assemelha ao de pequenos países, tornou-se unanimidade no país. Três deles morreram em serviço.

Chefes dos corpos de bombeiros locais, como o comissário Shane Fitzsimmons em NSW, tornaram-se os rostos da crise.

Para os críticos do primeiro-ministro, esses agentes são um exemplo de liderança. Nesta sexta (3), um membro destacado do partido de Morrison fez uma crítica pública à sua atuação.

“As únicas duas pessoas que estão oferecendo alguma liderança neste momento são Shane Fitzsimmons e [a governadora de New South Wales] Gladys Berejiklian”, disse Andrew Constance, secretário estadual dos transportes.

Ao comentar as interações do primeiro-ministro com a população, Constance afirmou: “Para ser sincero, ele provavelmente teve a recepção que mereceu”.

O que causou a ira da população?

No início da crise, as críticas se centravam na relutância de Morrison em debater como a mudança climática está piorando os incêndios florestais —uma conexão admitida pelo Serviço de Meteorologia da Austrália.

Embora tenha, desde então, admitido a contribuição do fenômeno, o líder conservador ainda sustenta que não há ligação direta entre o fogo e suas políticas para o clima.

O tema continua causando controvérsia em decorrência da dependência energética da Austrália na mineração de carvão.

Mas, conforme o fogo se espalhava, Morrison passou a ser acusado de “desaparecer” ocasionalmente. No mês passado, tirou férias no Havaí com a família enquanto os incêndios se intensificavam —ele se desculpou, mais tarde, pela “grande ansiedade” causada pela viagem.

Ao falar em um evento de críquete no dia do Ano Novo, Morrison foi considerado insensível ao dizer que os australianos se reuniriam em torno de suas TVs para serem “inspirados pelos grandes feitos de nossos atletas”.

Parte da população pede ainda que o governo direcione mais recursos para os corpos de bombeiros do país, amplamente não-remunerados, citando uma pressão extraordinária sobre os recursos e argumentando que comunidades menores são desfavorecidas.

Um grupo de ex-chefes dos serviços defende que o país precisa de uma nova estratégia de longo prazo contra incêndios, e criticam o primeiro-ministro por se recusar a encontrá-los.

O que diz Morrison?

Depois de dizer inicialmente que os bombeiros estão trabalhando “porque querem”, Morrison prometeu compensar financeiramente os voluntários que faltaram a seus trabalhos para ajudar, e disse que direcionará 11 milhões de dólares australianos (US$ 7,7 milhões) para financiar aviões que combatam o fogo.

Ele tem recusado os novos pedidos de recursos, mas elogia a atuação dos bombeiros com frequência. Para o político, uma seca prolongada é a principal razão da proporção tomada pelos incêndios.

Quando questionado nesta sexta-feira sobre o motivo de estar sendo contestado em público, ele afirmou à rádio 3AW: “As pessoas estão tristes e com raiva. Se estão nervosas comigo ou com a situação, o que importa é que estão sofrendo”.

Ele defende que a Austrália vai cumprir suas metas climáticas — afirmação contestada pelas Nações Unidas e outras entidades —, mas diz que medidas adicionais não podem ocorrer às custas de cortes irresponsáveis de vagas de trabalho na indústria de combustíveis fósseis.

Morrison pediu aos australianos que não cedam ao pânico e já disse repetidamente que cada Estado tem de ser responsável por sua estratégia de emergência — a melhor tática é deixar que cada um faça seu trabalho, disse.

Seus apoiadores dizem que ele não pode ser responsabilizado por esse tipo de desastre natural que sempre atingiu a Austrália, nem consertar o problema com mudanças bruscas e reativas nas políticas públicas.

‘Você será julgado’

Morrison foi reconduzido ao cargo em maio após vitória surpreendente nas urnas, levando-o a ser elogiado por muitos como um político perspicaz e instintivo. Mas, para alguns, sua reação aos incêndios despertou incredulidade.

“Estamos assistindo à destruição de um líder político, e dessa vez pelas suas próprias mãos”, tuítou o comentarista político Barrie Cassidy. O também comentarista Hugh Riminton escreveu: “Nunca vi um primeiro-ministro tão publicamente desprezado durante um desastre nacional”.

Vista aérea de cidades afetadas pelo fogo

Nem todos os comentários, porém, foram tão críticos. O governador de Victoria, Daniel Andrews, um político trabalhista, agradeceu a Morrison pelo auxílio fornecido ao Estado. Liz Innes, prefeita de um condado perto de Cobargo, pediu desculpas ao primeiro-ministro em nome daqueles que o contestaram, segundo a ABC.
BBC

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Meio Ambiente: Degradação da Amazônia já chegou a ponto irrecuperável

Pesquisa conduzida por cientista brasileiro aponta que desmatamento e mudanças climáticas podem aumentar área atingida por queimadas, transformando floresta de sumidouro em fonte de carbono.    

Trecho da Amazônia atingido por queimadas perto de Porto velho, em foto de agosto de 2019Trecho da Amazônia atingido por queimadas perto de Porto velho, em foto de agosto de 2019

Professor na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, o engenheiro florestal brasileiro Paulo Brando costuma usar uma analogia simples do mundo financeiro para explicar a importância da preservação da Amazônia. Ele convida o interlocutor a imaginar uma conta poupança. “Bem grande, cujos juros geram bastante dinheiro. Mas em vez de dinheiro, nela há um estoque de carbono. Ou seja, os juros são a capacidade de absorção de mais carbono.” Quanto mais você tira o dinheiro, menos juros essa conta rende. No caso das queimadas na Amazônia, estamos tirando a capacidade de absorção do carbono. Então basicamente os incêndios florestais somos nós queimando dinheiro”, compara o cientista.

Nesta sexta-feira (10/01), o periódico científico Science Advances traz uma pesquisa conduzida por Brando, na qual ele modelou os cenários da floresta brasileira diante das queimadas e do aquecimento global. E o futuro não é nada animador. A Amazônia caminha para o colapso, diz o pesquisador.

“No pior dos cenários, 16% da floresta serão queimados daqui para a frente até 2050. Junto a outros fatores de degradação, isso vai interagir com o clima”, afirma ele, à DW Brasil. “Estamos jogando uma roleta russa ambiental. Não sabemos qual é o número [a data exata do colapso], mas estamos chegando cada vez mais perto. Se chegarmos, a coisa vai para o buraco. O fogo é catalisador do processo.”

A pesquisa mostra que os níveis de desmatamento e o cenário previsto para o aquecimento global irão contribuir para intensificar ainda mais as queimadas na Amazônia.

Em agosto do ano passado, a floresta brasileira teve uma quantidade de incêndios bem acima da média. No período, foram registrados 30.901 focos de incêndio – a média registrada entre 1998 e 2018 para o mesmo mês era de 25.853. Comparando somente com o mês de agosto do ano anterior (10.421 focos de incêndio), a alta foi de 196%.

“O resultado desse processo é que, com a intensificação do fogo, haverá mais emissão de carbono na atmosfera. O desmatamento interage com mudanças climáticas e pode aumentar ainda mais a área queimada e as emissões pelo fogo”, comenta Brando. Trata-se de um ciclo vicioso, diz.

“Nosso estudo prevê o impacto disso na floresta. A Amazônia se protege do fogo porque tem um sub-bosque úmido, que não deixa as folhas secarem. A proteção da floresta é este sub-bosque. Quando há uma seca, uma temperatura mais alta, as plantas podem ficar estressadas hidricamente e jogar folhas para reduzir esse estresse. Com isso, entra mais luz, seca o sub-bosque e acaba essa proteção.” Então, conforme explica o cientista, o fogo gerado nas zonas desmatadas, por ação humana, “escapam e invadem a área de floresta primária”.

Segundo Brando, o estágio desse processo já é tão grave que, mesmo se todo o processo de desmatamento fosse interrompido hoje, o índice de incêndios prováveis para as próximas décadas seria reduzido em apenas 50%. “Se compararmos a Amazônia que existia na primeira década dos anos 2000 e a que deve existir em 2050, a área queimada quase dobra”, afirma.

De acordo com a pesquisa, a degradação da Amazônia já chegou a um ponto irrecuperável. “Em nossas simulações, a floresta não consegue se recuperar totalmente mais, mesmo em uma condição sem nenhum fogo”, pontua. “Mesmo que haja, na natureza, uma tendência de recuperação, [no atual estágio] isso não é suficiente, porque as mudanças climáticas não permitem. Então tem mais carbono ficando na atmosfera.”

Ciclo vicioso

“Os cenários futuros de clima gerados por modelos climáticos, que têm incertezas, sugerem que, no futuro, devido ao aumento de temperatura de de concentração de dióxido de carbono, a floresta pode entrar em colapso, por não conseguir mais absorver mais carbono – e passar a emitir carbono”, comenta o climatologista e meteorologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Segundo ele, isso significa a transformação de uma floresta sempre verde numa área florestal do tipo secundária ou mesmo na chamada savanização da Amazônia, ou seja, numa “vegetação tipo cerrado”.

“[Esse cenário] pode agravar a situação atual de aquecimento global”, completa o climatologista. “Podemos ter um clima mais seco, quente. E isso pode favorecer mais o risco de fogo e queimadas, que no final liberam ainda mais dióxido de carbono.”

De acordo com o climatologista Carlos Nobre, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), a floresta “não perturbada” tem absorvido nas últimas décadas uma quantidade que varia entre 1 bilhão e 2 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano.

“Globalmente, as atividades humanas emitem cerca de 40 bilhões de toneladas por ano”, afirma ele. “Portanto, a Amazônia retira da atmosfera entre 2,5% e 5% de todo o dióxido de carbono emitido. Se ela se tornar uma fonte de carbono, tanto pelo seu desmatamento, pelo aumento da destruição da floresta pelo fogo, quanto pelo próprio aumento da morte de árvores devido às mudanças climáticas, perde-se este importantíssimo serviço ecossistêmico para o planeta.”

Ação humana

Os incêndios ocorridos em 2019, concordam os especialistas, estiveram diretamente ligados à ação humana. “2019 não foi um ano anormalmente seco, como foi 2016, na Amazônia. Ainda assim, os desmatamentos e as queimadas induzidas diretamente por ações humanas aumentaram muito. O número de queimadas e a área queimada na Amazônia brasileira quase dobraram em 2019 em relação a 2018 e foram até bem maiores do que em 2016, ano de uma seca extrema”, diz Nobre.

“Isto é, o aumento de queimadas não pode ser atribuído somente a fatores de secas extremas. A ação humana em desmatar e colocar fogo para abrir novas áreas para a agropecuária contribuem muito para o aumento das queimadas”, acrescenta.

Segundo o climatologista, também o tradicional uso do fogo na agricultura tropical contribui para uma maior ocorrência de queimadas. “Muitas das áreas de florestas que pegam fogo são contíguas a áreas de agricultura. É o fogo para limpar a pastagem ou resíduos de culturas agrícolas escapam e propagam pelo chão da floresta. Podem propagar por centenas de metros no chão da floresta, queimando a biomassa da serrapilheira, mas também afetando árvores e aumentando a mortalidade de muitas árvores, que vão morrendo em anos subsequentes”, explica.

“As queimadas na Amazônia são maiormente geradas pelo homem, e com atmosfera e superfície secas o fogo se propaga rapidamente. O ano 2019 é sim uma mostra do que pode acontecer se aquecimento global aumenta e se desmatamento aumenta, mas não podemos dizer que a situação de 2019 vai se repetir em todos os anos seguintes”, acrescenta Marengo.

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O que pode acontecer se o permafrost derreter?

A Rússia tem uma grande área de permafrost – também chamada em português de pergelissolo.

Cerca de dois terços do país, de Taimir até a Tchukotka, têm o solo congelado. A vida nesses locais não é nada fácil, com invernos rigorosos, poucas coisas que podem ser cultivadas no solo local e um preço altíssimo para a construção civil.

Mesmo assim, os moradores de lá fazem o que podem para preservar as áreas de permafrost e os cientistas monitoram constantemente qualquer mudança climática que possa afetá-las.

Nada é permanente, nem mesmo na natureza

O termo permafrost, se levado ao pé da letra, não é muito correto do ponto de vista científico. Em russo, ele significa “permanentemente congelado” e surgiu na década de 1920, mas já por volta dos anos 1950 os cientistas apontaram que não há nada verdadeiramente permanente na natureza e passaram a referir-se às áreas como “congeladas perenemente”, como explica Nikita Tananaev, hidrologista do Instituto Permafrost de Iakutsk.

“É fácil compreender a definição desses locais: é onde o solo permanece congelado por dois ou mais anos.”

Na verdade, as camadas superiores chegam a derreter um pouco no verão, criando paisagens muito interessantes

As fotos abaixo foram tiradas perto da vila de Sirdakh, na Iakútia. O solo de verão do permafrost se parece com chocolate derretido, como se caísse direto para dentro de um lago.

“Vistas de cima, elas parecem uma teia gigante. Por milhares de anos, o solo se congelou, o que o faz diminuir de volume e rachar. Aí vem o verão, enche essas rachaduras de água, criando estreitas linhas de gelo por dezenas de metros solo adentro. Foi desse jeito que a tundra poligonal se formou”, explica Tananaev.

Esses polígonos são relativamente pequenos, têm cerca de 40 metros quadrados, e há centenas deles na Iakútia, em Taimir e em Tchukótka.

Esse fenômeno natural é mais comum nas áreas de montanhas, onde as águas subterrâneas sobem para a superfície por meio das rachaduras e no inverno formam os “aufeis” (espécie de lençóis de gelo em camadas que se formam a partir dos fluxos sucessivos de água para a superfície durante a época de temperaturas congelantes, também chamados em russo de “nalied”) nos rios, que praticamente não derretem.

Geleira de Bolchaia Momskaia.

A maior “nalied” é a de Bolchaia Momskaia, na Iakutia. É um campo de gelo de 26 quilômetros, que pode atingir espessuras de 5 a 6 metros, com água correndo em sua superfície e formando pequenos canais.

A água transforma a cor do gelo em um azul bem claro. No verão, tudo derrete um pouco e logo no inverno um novo gelo se forma. Na Iakutia, há inúmeros “nalied” como esse: a cada ano, mais de 50 quilômetros cúbicos de água congelam nesses locais

Esses rios de gelo também são usados às vezes como fonte de água doce, já que cavar um poço não é a coisa mais simples a se fazer em uma área de permafrost.

Mesmo assim, houve um entusiasta que decidiu cavar um poço no permafrost. Foi no início do século 19 que o diretor da Companhia Russo-Americana, Fiódor Chergin, decidiu procurar água potável por baixo do solo congelado.

Ele parou ao atingir 116 metros sem nunca encontrar a água e a mina de Chergin passou a servir para propósitos científicos. Nos anos 1930, a mina foi aprofundada até 140 metros e doada ao Instituto Permafrost.

Hoje, com o uso de sensores especiais, a mina é usada para estudos de mudanças de temperatura em diferentes camadas do solo.

Instituto Permafrost, em Iakutsk.

Um congelador natural

Os moradores locais há muito tempo aprenderam a usar o frio a seu favor. Na Iakutia, por exemplo, as pessoas constroem porões embaixo das casas e estocam comida para o ano todo, já que a temperatura nesses locais é sempre abaixo de zero.

Mas cavar um porão demora bem mais por lá do que e outras localidades, já que além de uma pá é necessário usar também fogo para derreter o solo antes de começar a escavação.

Na vila de Nôvi Port, em Iamal, fica o maior congelador natural do mundo. Na década de 1950, cerca de 200 cavernas foram cavadas e conectadas por meio de passagens. Elas eram usadas para estocar peixes a uma temperatura que fica entre ou 12 e os 15 graus Celsius negativos durante o ano todo.

O congelador natural de Novi Port.

Uma curiosidade é que em cada região o permafrost pode ter cheiros bastante diferentes.

“Se você anda nos túneis subterrâneos do Instituto Permafrost, em Iakutsk, vai sentir um cheiro forte da matéria orgânica que estava no solo e começa a se decompor. Já no túnel do Museu do Permafrost em Igarka, no território Krasnoiarsk não há um cheiro muito característico, só o de terra revolvida, pois o solo lá é completamente diferente”, diz Tananaev.

O que pode acontecer se a permafrost derreter completamente?

Pesquisadores apontam que nos últimos anos, em muitas partes do mundo, o permafrost têm derretido mais do que antes.

“Até o momento, não há uma perda muito significativa por ano – foram cerca de 10 centímetros ao longo de 20 anos (e não no mundo todo, apenas em algumas regiões de Norilsk ou no sul do território de Transbaikal). E na Iakutia o permafrost tem centenas de metros de profundidade, chegando a 1,5 quilômetro em alguns pontos”, explica Tananaev.

Mas quais seriam as consequências se esse derretimento não cessar?

Iakutsk no inverno.

“Pense em um pacote de ervilhas. Você o coloca no congelador e ele vai ficar lá com a mesma aparência por dez ou até mil anos. O permafrost é o congelador e em vez de ervilhas ela conserva grama, folhas e turfa. Toda essa matéria orgânica descongelada seria decomposta por micro-organismos, que emitem metano e, com influências de outros processos, CO2, os dois maiores gases que causa o efeito estufa. Quanto mais a permafrost derreter, mais altas as temperaturas ficarão e consequentemente ainda mais permafrost derreterá e isso se torna um círculo vicioso”, aponta o hidrologista.

Como resultado, as temperaturas médias no mundo vão subindo também.

Tananaev se lembra que o inverno em Iakutsk dez anos atrás teve uma semana inteira com temperaturas abaixo dos 60 graus Celsius negativos e que, nos anos recentes, não houve dias em que elas tenham caído muito abaixo dos 35 a 45 graus Celsius negativos.

Um dos motivos que causam isso é a urbanização: apesar de as construções ao norte do país serem feitas com palafitas, a radiação térmica dos blocos de apartamentos aquece o ar do mesmo jeito.

O solo também derrete por conta de qualquer pequeno vazamento dos canos de água quente, fazendo com que os edifícios cedam e acabem com rachaduras em suas fachadas, principalmente nas partes onde são colocadas as janelas. Isso resulta em um prédio que não consegue manter o aquecimento (e isso é algo indispensável no norte da Rússia) e com uma fundação menos segura.

“Em Norilsk quase uma rua inteira precisou ser demolida por conta desses vazamentos”, lembra Tananaev.

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19 fatos que marcaram o clima em 2019

A ativista Greta Thunberg com sua placa de “greve escolar pelo clima” (Foto: Cherwell.org).

Aquele que caminha para ser o segundo ou terceiro ano mais quente da história também foi quente para o noticiário ambiental. Em 2019, o mundo despertou para a emergência climática, jovens tomaram as ruas, idosos famosos foram presos em atos pelo clima e governos mostraram que não conseguem responder aos apelos da população.

No Brasil, o governo de Jair Bolsonaro promoveu a agenda ambiental a inimiga, paradoxalmente dando a ela uma visibilidade pública inédita. Atravessamos uma crise ambiental crônica chamada Ricardo Salles, com episódios agudos: recorde de queimadas em agosto, recorde de derramamento de óleo em setembro, recorde de desmatamento em novembro. Em janeiro, o Brasil teve o desastre ambiental mais fatal de sua história, com 270 mortos após o rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho. O governo aparentemente está respondendo à falha de regulação que permitiu esse crime com menos regulação. Em agosto, as queimadas na Amazônia botaram o país no centro de uma crise internacional, reforçada pelo pico no desmatamento confirmado em novembro.

Nesta retrospectiva, selecionamos alguns dos eventos que marcaram a luta contra a mudança do clima e os combustíveis fósseis neste ano.

1 – Pirralha porreta

Greta Thunberg encara Trump na ONU (Foto: reprodução de TV)

Em dezembro de 2018, uma adolescente loira de tranças aparentando menos que os 15 anos que tinha caminhava incógnita pelos corredores da conferência do clima de Katowice, na Polônia. Um ano depois, Greta Thunberg não conseguiria repetir as aparições discretas na COP de Madri: elevada a status de celebridade global, a ativista sueca, 16, arrasta multidões e fieiras de câmeras aonde quer que vá. Suas greves solitárias às sextas-feiras, quando matava aula para sentar-se diante do Parlamento sueco cobrando mais ação contra a crise climática, se transformaram em 2019 num movimento global, o Fridays For Future. Greta proferiu discursos furiosos sem aliviar para os adultos no Fórum Econômico Mundial, em fevereiro (“Eu não quero a esperança de vocês. Quero que vocês entrem em pânico”) e na Assembleia Geral da ONU, em setembro (“Como ousam?”). Inspirou milhões de jovens a participarem da maior marcha pelo clima da história, em 20 de setembro. Atraiu a ira de néscios, sobretudo da extrema-direita. E tornou-se a pessoa do ano da revista Time por ter capturado como nenhum ativista antes dela a hipocrisia do discurso da esperança e o abismo entre as boas intenções declaradas dos governos e seus atos reais contra os gases de efeito estufa – um dia depois de ser chamada de “pirralha” por Jair Bolsonaro.

O movimento de jovens foi reforçado por diversos movimentos de adultos. Na Europa, o coletivo Extinction Rebellion promoveu atos de desobediência civil que pararam Londres por dias (e terminaram com um monte de gente na cadeia). Nos EUA, celebridades como a atriz Jane Fonda iniciaram em outubro protestos na frente do Congresso. Fonda, 81, disse que sua meta era ser presa uma vez por semana. Até 20 de dezembro, ela já havia sido detida quatro vezes em 11 atos.

2 – Desmatamento em alta

Foto: Reprodução Facebook MCTIC.

A taxa de desmatamento na Amazônia cresceu 29,5% no período medido entre agosto de 2018 e julho de 2019. Trata-se do maior desmatamento em uma década e do terceiro maior incremento na taxa desde que o Inpe começou a fazer as medições do sistema Prodes, em 1988.

A escrita já estava no muro desde agosto do ano passado, quando o candidato Jair Bolsonaro prometia acabar com o Ibama e com as ONGs, estimulando desmatadores na Amazônia – no período eleitoral, o desmatamento cresceu 50%. Após um primeiro quadrimestre chuvoso, o desmate começou a mostrar aceleração forte em maio, batendo recordes sucessivos em junho (98% de aumento em relação a julho anterior), julho (274%) e agosto (223%). O sistema Deter, do Inpe, precisou mudar duas vezes a escala dos gráficos em sua página na internet, para acomodar taxas mensais sem precedentes. O ministro do Meio Ambiente chamou a divulgação dos dados de “sensacionalismo”, depois encomendou a seu fiel escudeiro Evaristo de Miranda um PowerPoint mostrando supostos “furos” no Deter, que justificariam a contratação de um sistema privado para “complementar” as informações do Inpe. Quando o Prodes saiu, mostrando a perda de 9.762 km2 de floresta e confirmando os alertas do Deter, o ministro tentou fugir para a frente e culpar os países ricos por não darem dinheiro para a conservação.

3 – Brasil negacionista

O chanceler Ernesto Araújo, que nega o aquecimento da Terra (Foto: Arthur Max/MRE).

Havia um tempo em que os brasileiros podiam se gabar de não precisarem discutir em praça pública se o aquecimento global é real ou não. Aceitávamos a ciência e dávamos risadinhas arrogantes do mundo anglo-saxão, onde o debate público foi capturado pelo lobby fóssil, o que atrasou em 20 anos a tomada de providências contra a crise do clima.

Isso mudou com a eleição de 2018.

O Brasil de Bolsonaro entrou para o grupo dos países nos quais o negacionismo climático é política de Estado. Por via do escritório de importação ideológica instalado na Virgínia, compramos o pacote fechado dos movimentos obscurantistas dos EUA. O ministro das Relações Exteriores professa a variante xucra do negacionismo, segundo a qual a ciência climática é uma invenção da esquerda para destruir o Ocidente e criminalizar o consumo de carne (e o sexo heterossexual). O ministro do Meio Ambiente é um mais alinhado com o negacionismo “prafrentex”, do século 21: admite que a mudança climática existe, mas questiona se é causada pelos humanos. Os ministros não estão sozinhos: o Senado brasileiro agora convoca negacionistas para audiências públicas e tem um negacionista como presidente da comissão mista de… Mudanças Climáticas. Para além da vergonha alheia, tal disseminação do negacionismo significa que nenhuma ação real no clima deverá ser adotada por este governo.

4 – RIP Fundo Amazônia

Logomarca Fundo Amazônia – Logo Floresta.

O que você faz quando tem uma floresta de 4 milhões de quilômetros quadrados para preservar e países ricos te dão quase R$ 3,5 bilhões para isso? Se você é o ministro Ricardo Salles, a resposta é simples: você chuta tudo para o alto porque tem birrinha de ONG.

Desde fevereiro, Salles tem tentado controlar o Fundo Amazônia, uma iniciativa bem-sucedida de pagamentos por redução de desmatamento (REDD+) em vigor desde 2008 numa parceria entre BNDES e os governos da Noruega e da Alemanha. O objetivo do ministro era cortar todos os recursos repassados à sociedade civil e distribuir o dinheiro a seus amigos do agro. Sugeriu, sem nunca ter provado, que ONGs estariam malversando a verba. Ou que o fundo não tinha critérios. Ou que o BNDES, um banco, não sabia gerenciar dinheiro. Tentou aparelhar os comitês gestores do fundo. Só que os doadores nunca toparam. #Xatiado, Salles extinguiu os comitês e desde então vem declarando que a retomada do fundo está “em negociação”. Na prática, o Fundo Amazônia está morto. Governadores da Amazônia, que juntamente com a União recebiam a maior parte do recurso, já estão atrás de doações diretas.

5 – Galvão não se dobra

Foto: Google.

Em 19 de julho, diante das notícias sobre a explosão do desmatamento na Amazônia em junho, Jair Bolsonaro inventou uma mentira para escapar à responsabilidade. Chamou a imprensa internacional para dizer que os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais eram “mentirosos” e que o diretor do Inpe, o físico Ricardo Galvão, 72, devia estar “a serviço de alguma ONG”. O presidente só não contava com a reação de Galvão. No dia seguinte, Galvão declarou ao jornal O Estado de S.Paulo que a atitude de Bolsonaro foi “pusilânime e covarde”. A declaração lhe custou o cargo, mas ajudou a preservar o Inpe, instituição que mede desmatamento na Amazônia por satélite há mais de 30 anos. Os holofotes da opinião pública passaram a ficar tão em cima do instituto que qualquer tentativa do governo de manipular os dados seria imediatamente percebida. A integridade do cientista e sua decisão de peitar o governo tornaram Galvão um herói nacional. Em dezembro, ele abriu a lista da prestigiosa revista Nature das dez pessoas que fizeram a diferença na ciência no mundo em 2019.

6 – O fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente

Da esq. para a dir.: José Carlos Carvalho, Sarney Filho, Izabella Teixeira, Rubens Ricupero, Marina Silva, Edson Duarte e Carlos Minc em reunião de ex-ministros (Foto: OC).

Em dezembro de 2018, quando Ricardo Salles foi escolhido para ser ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, o Observatório do Clima alertou que o movimento visava extinguir na prática o Ministério do Meio Ambiente sem o ônus de fechá-lo formalmente. A nomeação de um ruralista e então réu (ora condenado) por improbidade realizava o desejo de subordinar o MMA à pasta da Agricultura. Gostaríamos de estar errados quanto a isso.

Mas o primeiro ano da gestão Salles foi exatamente o que se esperava: o de desmonte acelerado do ministério, denunciado inclusive por oito dos nove ex-ministros vivos. O desmonte começou na própria estrutura da pasta, que no primeiro dia de governo perdeu a secretaria de Clima e Florestas (responsável por implementar os compromissos do Brasil no Acordo de Paris), a Agência Nacional de Águas e o Serviço Florestal Brasileiro. Aprofundou-se com a militarização do ICMBio, o esvaziamento das chefias do Ibama e dos cargos de chefia do próprio ministério, o aparelhamento do Conama, a mordaça às comunicações e a execução orçamentária pífia, mesmo com dinheiro em caixa e um monte de problemas ambientais para resolver. Até 25 de novembro, o empenho orçamentário da administração direta do MMA havia sido de menos de R$ 3 milhões, contra R$ 35,8 milhões em 2018.

7 – A “foice no Ibama”

Multado em 2012 por pesca ilegal numa unidade de conservação em Angra dos Reis, Jair Bolsonaro passou o primeiro ano de governo usando a Presidência para promover uma vendeta contra o Ibama, que ele chama de “indústria da multa”. Sob a batuta do ministro Ricardo Salles e execução do presidente Eduardo Bim, a autarquia passou a perseguir os próprios fiscais, abandonou estratégias de inteligência contra o crime ambiental, deixou a maioria de suas superintendências nos Estados acéfalas, censurou as comunicações com a imprensa – um elemento importante de dissuasão de crimes ambientais –, divulgou locais de operação na internet, alertando os criminosos, perdeu recursos para áreas estratégicas como combate ao fogo e viu a mais alta figura da República ordenar o fim da destruição de equipamentos apreendidos de bandidos em áreas protegidas federais. Funcionou: o Ibama aplicou em 2019 o menor número de multas em 15 anos, de acordo com dados públicos obtidos pelo OC e publicados no relatório The Worst is Yet to Come (“O Pior Ainda Está por Vir), lançado na COP25. O número de multas por desmatamento na Amazônia (3.445) foi o menor desde 2012, e o desmatamento foi o maior desde 2008.

8 – Indígenas viram alvo

Paulo Paulino Guajajara, guardião indígena assassinado (Foto: Jesus Pérez-chuseto.com).

Terras indígenas na Amazônia estocam o equivalente a 42 bilhões de toneladas de gás carbônico, sendo portanto fundamentais para o equilíbrio climático global. Mas elas também ajudam a manter o ciclo de chuvas no Brasil e conservar a biodiversidade – além, claro, de garantir a sobrevivência de mais de 170 povos.

Apoiado pela ala militar, pelos liberais e pelos evangélicos, Jair Bolsonaro abriu a temporada de caça às terras indígenas, vistas como um entrave ao “desenvolvimento” (que é como eles chamam a exploração de produtos primários vendidos a preço de banana no mercado internacional) e uma ameaça à “soberania”. Bolsonaro tem prometido abrir essas terras ao garimpo, à agropecuária e à extração de madeira. Na ponta, as promessas vêm sendo entendidas como um “liberou geral”. De janeiro a setembro, o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) registrou 160 invasões a terras indígenas, contra 111 no ano passado. O desmatamento em TIs subiu 65%. E líderes indígenas vêm sendo assassinados, como o guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara, morto numa emboscada em novembro na TI Arariboia, invadida por madeireiros (mais dois guajajaras foram mortos no começo de dezembro na mesma terra). O estímulo às invasões levou Bolsonaro a ser denunciado por genocídio ao Tribunal Penal Internacional.

9 – ONGs viram alvo

Os #4deSantarém deixam a prisão.

Durante a campanha, Jair Bolsonaro prometeu “acabar com todo tipo de ativismo” no Brasil. Em seus discursos, o presidente tem incluído as ONGs na mesma categoria do pessoal que tem de ir para a tal “ponta da praia”. O ministro Ricardo Salles tem tentado cumprir a promessa presidencial sufocando financeiramente as ONGs: primeiro com o ofício (ilegal e do qual teve de recuar) determinando a suspensão de todos os convênios do ministério com organizações do terceiro setor; depois, congelando o Fundo Amazônia. Em abril, um decreto presidencial eliminou centenas de colegiados com participação da sociedade civil em todo o Executivo, limitando o controle social da administração federal. Em seguida, o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) foi alterado, mais uma vez para limitar a participação social e aumentar o controle do governo.

A nova fase da eliminação do ativismo parece ser a criminalização. No final de novembro, quatro brigadistas voluntários foram presos e o escritório do Projeto Saúde e Alegria foi invadido pela Polícia Civil de Santarém (PA), sob a acusação surreal de que os ambientalistas estariam por trás dos incêndios feitos por grileiros numa área de proteção em Alter do Chão. Numa omissão inexplicável do governador Helder Barbalho (MDB), os quatro foram indiciados na semana do Natal.

10 – Amazônia em chamas

Incêndio em Alter do Chão em setembro (Foto: Eugênio Scannavino).

Em 10 de agosto, fazendeiros da região de Novo Progresso, no Pará, combinaram por WhatsApp um “Dia do Fogo”, uma espécie de queimadaço coletivo de áreas que eles haviam derrubado. A queima tinha o objetivo declarado de “mostrar serviço” ao presidente Jair Bolsonaro. E iniciou uma crise internacional. Naquele mês, o número de queimadas na Amazônia foi o maior em sete anos – o triplo do registrado no mesmo mês do ano passado. Foi o maior número de focos da queimada registrado num mês de agosto desde o início da queda no desmatamento que não esteve associado a nenhum evento de El Niño ou seca extrema.

O governo reagiu primeiro tentando desqualificar o dado (eram “fogueiras de acampamento”, nas palavras imorredouras do chanceler), depois relativizá-lo e, por fim, quando a realidade tornou-se inescapável, restou culpar as ONGs e os índios pelas queimadas. Mas todos os dados científicos mostravam que as chamas nada mais eram do que a etapa final do desmatamento da floresta, que havia acelerado no segundo semestre, como vinha mostrando o Inpe. Em setembro, Bolsonaro determinou a contragosto que o Exército fosse deslocado para combater o fogo. A presença dos militares, aliada ao retorno das chuvas, fez o número de focos cair em outubro. Mas o desmatamento teve um repique em novembro, tão logo o Exército saiu de campo. Na estação seca, toda essa floresta derrubada queimará novamente.

11 – Califórnia em chamas

Os incêndios florestais devastadores no Estado americano da Califórnia tornaram-se endêmicos, como os cientistas previam há 30 anos. Em outubro de 2019 os californianos assistiram a mais uma temporada grave de fogo, mas menos severa do que nos anos de 2017 e 2018, os piores da história, quando mais de uma centena de pessoas morreram. Neste ano, a estação de fogo veio acompanhada de blecautes maciços (algo comum nas grandes cidades brasileiras, mas inédito nos EUA). A ligação entre a infraestrutura de transmissão de eletricidade e o início dos incêndios fez a distribuidora de energia PG&E decretar falência, tornando-se a primeira falência relacionada à mudança climática no mundo.

12 – Austrália em chamas

Bombeiro resgata coala na Nova Gales do Sul, Austrália.

Do outro lado do Pacífico, a Austrália vive dias de terror desde novembro devido ao fogo, à estiagem e as altíssimas temperaturas. Enquanto esta retrospectiva era escrita, as queimadas mais devastadoras da história arrasavam o continente, cacatuas caíam mortas das árvores pelo calor e aborígenes da região central australiana eram forçados a sair de suas terras – os primeiros refugiados climáticos australianos. Em novembro, centenas de coalas morreram nos incêndios, levando a manchetes exageradas sobre a espécie estar “funcionalmente extinta”. Em 18 de dezembro, o país teve a temperatura mais alta da história: uma média nacional de 41,9oC, o que significa que em algumas localidades os termômetros bateram os 50oC. O serviço de meteorologia australiano mudou até o código de cores de seus mapas de temperatura, usando um marrom para simbolizar as regiões mais quentes – à falta de tons mais escuros de vermelho. Em 10 de novembro, a Austrália registrou, também pela primeira vez em sua história, um dia sem chuvas em parte alguma de seus 7,9 milhões de quilômetros quadrados.

O governo australiano aparentemente acha que se trata de castigo divino ou de uma “variabilidade do sistema”. O premiê australiano, Scott Morrison – eleito numa disputa apertada que tinha como um dos temas principais a crise do clima –, é um negacionista climático que quer manter a lucrativa indústria do carvão mineral. Já a ciência não hesita em classificar os incêndios e o calorão como decorrência direta da mudança do clima. Talvez os eleitores australianos ouçam a ciência da próxima vez.

13 – Fiasco madrileno

Foto: Kiara Worth / IISD.

A COP que não deveria ter sido foi, e o resultado só faz provar que ela não deveria ter sido. Rejeitada pelo Brasil, abraçada pelo Chile e desviada de última hora para a Espanha após a Primavera Chilena, a COP25 tinha duas missões: completar a negociação sobre mercados de carbono, fechando o chamado “livro de regras” do Acordo de Paris, e arrancar dos governos um compromisso forte de aumentar a ambição de suas metas de corte de emissão (NDCs) para 2020. Fracassou fragorosamente em ambas. O chamado artigo 6 do acordo (as regras para os mercados) não fechou e a exortação sobre ambição foi genérica e, digamos, pouco ambiciosa.

O resultado foi em parte responsabilidade da presidência fraca da ministra chilena Carolina Schmidt, mas em grande parte culpa dos grandes países emissores. Um em especial teve um papel particularmente deletério: o Brasil. O ministro Ricardo Salles (aquele mesmo que dizia que COPs eram apenas férias de luxo para funcionários públicos e que tentou impedir a Climate Week, uma espécie de “miniCOP” latino-americana na Bahia, alegando tratar-se de mera oportunidade para turismo gastronômico) passou duas semanas em Madri chefiando a delegação brasileira, algo inédito, já que ministros só participam dos últimos dias de negociação. Entre uma ida às compras e outra, Salles fez bullying em diplomatas brasileiros e tentou chantagear os outros países a dar dinheiro ao Brasil em troca de destravar negociações. De forma inédita, o Brasil vetou menções a direitos humanos e a emergência climática nos textos em negociação – e, na plenária de encerramento, ficou isolado ao tentar retirar a menção a oceanos numa manobra em defesa dos ruralistas. As mudanças de orientação do Brasil acabaram dando palco a países como a Austrália para melar toda a negociação, e o resultado foi um fiasco como não se via desde 2009 numa COP. A atuação deu ao Brasil o antiprêmio Fóssil do Ano, concedido pelas ONGs aos países que mais atrapalham as negociações. Em mais uma profecia autorrealizável e com o decoro que lhe é peculiar, Salles botou a culpa no processo e nos outros por uma derrocada que ele mesmo protagonizou.

14 – Etanol na vala comum

Tereza, Jair e Paulo (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil).

Alguém se lembra do etanol, aquele biocombustível vendido pelo Brasil como sustentável porque não aumentava o desmatamento nem competia por terra com culturas alimentares? Em 6 de novembro ele foi jogado na lama pelo governo Bolsonaro. E justamente pelas mãos de dois ministros considerados “técnicos” e “razoáveis”: Tereza Cristina (Agricultura) e Paulo Guedes (Economia). Numa canetada, os dois e o presidente extinguiram uma proibição em vigor há dez anos do plantio de cana na Amazônia e no Pantanal. Desta vez, tiveram o apoio da Unica, o lobby sucroalcooleiro que um ano atrás se manifestara contra o fim da proibição (um desejo antigo de alguns ruralistas) por achar que isso gerava muito dano de imagem para pouco proveito econômico concreto (achavam certo: as áreas designadas no país como aptas ara a cana equivalem a seis vezes tudo o que o Brasil plantou dessa gramínea em 500 anos, ou seja, não há nenhuma necessidade de plantar na Amazônia e no Pantanal). O decreto de novembro parece ser mais uma demonstração de poder dos ruralistas, que querem eliminar qualquer regulação sobre sua atividade. E traz um sinal para outros setores, como o da soja e o da carne, de que nenhuma restrição, estatal ou voluntária, deverá valer mais para as commodities brasileiras.

15 – Investidores reagem

Queimada em Porto Velho, Rondônia – Foto: Victor Moriyama / Greenpeace.

A política antiambiental de Bolsonaro não passou incólume a dois grupos de pessoas que se informam por outros canais que não os grupos de WhatsApp do Carluxo: os investidores e os mercados internacionais. Em agosto, 18 marcas internacionais, incluindo Vans, Timberland e The North Face reunidas sob a VF Corporation, anunciaram boicote ao couro brasileiro devido à situação da Amazônia. Em setembro foi a vez da H&M, uma das maiores redes varejistas do mundo. Também em agosto, grupos de investidores com US$ 16 trilhões em ativos pediram ao governo providências concretas contra as queimadas na floresta e demandaram às empresas que expliquem como estão lidando com o problema. Em dezembro, 87 grandes corporações, incluindo a Tesco e o Carrefour, escreveram a Bolsonaro pedindo a manutenção da moratória da soja, em vigor há 13 anos, depois que os produtores, reunidos na Aprosoja, prometeram derrubá-la.

16 – 408, 7.6, 1.1, 0.6 – os números do ano

Enquanto os políticos falham em responder à altura à crise do clima, a ciência segue contabilizando a catástrofe em relatórios anuais que mostram quão longe a humanidade está de um clima seguro. Neste ano, a Organização Meteorológica Mundial mostrou que a temperatura média do planeta (continentes e oceanos) deve fechar em 1,1ºC, o que tornará 2019 o segundo ou terceiro ano mais quente da história. A OMM também divulgou mais um recorde das concentrações de CO2 na atmosfera: 407,8 partes por milhão em 2018, 47% acima dos níveis pré-industriais. O IPCC, que lançou dois relatórios especiais (um sobre terra e outro sobre oceanos e criosfera) neste ano, mostrou que, sobre os continentes, o aquecimento global já bateu o limite de 1,5oC preconizado pelo Acordo de Paris. E, no fim do ano, o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) publicou a nova edição de seu relatório Emissions Gap, segundo a qual a humanidade precisa cortar emissões em 7,6% por ano todos os anos daqui a 2030 – algo que não está nem próximo do horizonte – se quiser ter uma chance razoável de evitar a ultrapassagem da barreira do 1,5oC. A “boa” notícia ficou por conta do consórcio Global Carbon Project: em 2 de dezembro, eles publicaram sua estimativa anual das emissões globais por combustíveis fósseis, mostrando que em 2019 elas cresceram “apenas” 0,6%, metade do ritmo verificado no ano anterior. Lembrando que deveriam ter caído 7,6%.

17 – Adieu, Paris

No dia 5 de novembro, surpreendendo a um total aproximado de zero pessoa, o presidente dos EUA, Donald Trump, mandou à ONU a carta de denúncia do Acordo de Paris, iniciando formalmente o processo de saída do tratado. A notificação afirma que o acordo climático é “oneroso” para os Estados Unidos, mas deixa em aberto a possibilidade – vista como infâmia pela comunidade internacional – de retornar caso Paris seja “renegociado” nos termos que Trump deseja. De acordo com as regras do pacto, a saída se efetiva um ano após a notificação. Ou seja, os EUA estarão fora em 4 de novembro, um dia após a eleição presidencial que pode apear Trump do poder.

Sem os Estados Unidos, o clima de cooperação internacional visto em 2015 em Paris e fundamental para o sucesso da implementação do acordo não deve se repetir. Países em desenvolvimento, por exemplo, tendem a fazer corpo mole com suas metas de corte de emissão, já que a promessa de financiamento climático dos países ricos fica mais difícil de cumprir sem o aporte do mais rico de todos eles. Por outro lado, as emissões dos EUA já estão em queda devido a mudanças tecnológicas na geração de energia – e isso dificilmente se reverterá, por mais que Trump goste do carvão mineral.

18 – #ÓleonoNordeste

Em 2019, os brasileiros quase tiveram saudades do tempo em que a coisa mais sinistra que aportava misteriosamente nas praias eram latas de maconha. No final de agosto, manchas de óleo começaram a aparecer em algumas praias nordestinas, no que se tornaria o maior desastre ambiental do litoral brasileiro: 4.500 km de praias foram contaminados, do Rio de Janeiro ao Maranhão. Em setembro, grandes quantidades de óleo tomaram praias icônicas, como a Praia dos Carneiros, em Pernambuco, e Itapoã, na Bahia, além de estuários e manguezais. Apesar das declarações do secretário da Pesca, Jorge Seif Jr., sobre a cognição avançada dos peixes, a indústria pesqueira nordestina sofreu um baque que ainda não pôde ser calculado, com a contaminação de pescado por substâncias tóxicas no óleo. O governo levou 41 dias para acionar o plano de contingência contra vazamentos, que o ministro do Meio Ambiente só descobriu que existia no fim de setembro. Os dois comitês que gerenciavam a resposta rápida haviam sido extintos. A limpeza das praias foi feita por voluntários, que colocaram a própria saúde em risco, e por funcionários locais do Ibama. Até hoje não se sabe de onde o óleo veio, nem quando vai parar de chegar às praias. Na dúvida, o ministro Ricardo Salles adorou a estratégia do chefe e culpou o Greenpeace pelo vazamento – e levou um processo. O episódio mostra mais um risco da dependência de combustíveis fósseis e indica quão preparado o Brasil não está para lidar com vazamentos de grandes proporções no pré-sal.

19 – Grile, que o Jair garante

Paulo Lopes/Futura Press.

Em 11 de dezembro, com a COP25 em pleno curso, Jair Bolsonaro deu um presentão de Natal para os criminosos que desmatam a Amazônia: baixou uma Medida Provisória liberando a regularização de terras griladas até 2018, atendendo a seus eleitores que invadiram, devastaram e ocuparam florestas públicas para especular com a terra, apostando na impunidade. A MP repete, ampliando, a anistia à grilagem que já havia sido dada por Michel Temer e que é objeto de uma ação de inconstitucionalidade no STF.

A ocupação de terras públicas é o principal motor do desmatamento na Amazônia – e, portanto, a principal causa individual de emissões de carbono do Brasil: 35% do desmatamento visto em 2019 ocorreu em terras devolutas ou sem informação sobre posse. Diferentemente do que alega o governo, a grilagem é feita em sua esmagadora maioria por quadrilhas bem organizadas e bem financiadas, muitas vezes comandadas desde São Paulo – e não por pequenos agricultores pobres. O limite de 2.500 hectares dado pela MP de Bolsonaro para tornar um imóvel passível de regularização também mostra que são os latifundiários que se beneficiam da medida presidencial.

Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Quem paga a conta do combate às mudanças climáticas?

Foto: Pixabay.

A COP25 Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que deve trazer como questão central a seguinte pergunta: quem paga a conta do combate às mudanças climáticas? A urgência em se manter a temperatura global no limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais e zerar as emissões até 2050 aponta a necessidade de se mudar o tom do debate. Isto porque o patamar de investimento em iniciativas climáticas prometido aos países em desenvolvimento (US$ 100 bilhões investidos por ano, em 2020) ainda está longe de ser atingido. Um relatório da OCDE de 2018 mostrou que os gastos foram de apenas US$ 48,5 bilhões em 2016 e de US$ 57,6 bilhões em 2017. Uma das formas de financiamento do combate à crise climática dará o tom das discussões nesta COP. Serão negociadas novas regras para os mercados de carbono, visto que o consenso em torno do funcionamento desse mecanismo não foi alcançado na última cúpula, em Katowice, na Polônia.

Essa disposição de discutir medidas mais efetivas esteve presente na ultima Semana do Clima de Nova York, realizada em setembro. Mais do que um “call to action”, foi um “recall to action”. A chamada para a ação já foi feita: é preciso agora que governos, empresas e sociedade partam, de fato, para a ação. O quadro apresentado foi de falta de avanços nos compromissos e de ações não implementadas, e da necessidade de atuação conjunta. No lugar de iniciativas isoladas de governos, são urgentes ações como a da União Europeia, que está regulamentando uma lei para que os países do bloco só possam importar produtos de cadeias livres de desmatamento. A lei deverá entrar em vigor em 2022, e pode se tornar uma má notícia para o Brasil, que acaba de liberar a plantação de cana-de-açúcar na Amazônia e ainda assiste a um movimento de produtores para suspender a moratória da soja, um dos principais compromissos de combate ao desmatamento em cadeias produtivas.

“É inegável que existem movimentos por parte de grandes companhias para estabelecer compromissos junto a fornecedores e ampliar a rastreabilidade de suas cadeias produtivas”.

Do lado das empresas, as iniciativas também precisam ser conjuntas. É inegável que existem movimentos por parte de grandes companhias para estabelecer compromissos junto a fornecedores e ampliar a rastreabilidade de suas cadeias produtivas. Mas, por maiores que elas sejam, não conseguem sozinhas mudar o cenário de forma estrutural. E a maioria ainda permanece imóvel ou faz muito pouco, por receio de perder competitividade. É preciso que haja uma estratégia coletiva por parte de setores empresariais, o que permitirá que todos seus membros caminhem na mesma direção, com segurança. As cadeias produtivas são longas e é preciso conhecer a origem das matérias-primas  por completo, acabando com ilegalidades. Soluções para o uso responsável do solo pelos produtores já existem, mas é necessário investimento para que haja maior capacitação, adoção das práticas e monitoramento. O quanto as empresas estão dispostas a pagar por isso ainda é uma incógnita. Se, por força de uma decisão setorial, uma petroleira tiver que investir em combustíveis renováveis ou uma grande empresa energética precisar aumentar seu portfólio de fontes de energias limpas, elas o farão com certeza de que não vão perder mercado por conta disso. Pode ser um empurrão importante.

Outra oportunidade de mercado que foi discutida na Semana do Clima de Nova York e deverá fazer parte dos debates na COP são os pagamentos por serviços ambientais, recompensando aqueles que preservam seus ativos e contribuindo diretamente para o sequestro de carbono por meio da manutenção de recursos hídricos, reservas naturais e biodiversidade. Ao valorizar financeiramente a manutenção de áreas que conciliam conservação e produção, governos e iniciativa privada podem contribuir para reverter a lógica da exploração e destruição, criar uma nova fonte de renda para quem produz e conserva e estimular o desenvolvimento de uma economia da floresta em pé.

”O poder que o setor privado tem em mãos pode ser até maior que o de governos nacionais, pois conseguem mobilizar cadeias produtivas que ultrapassam fronteiras.”

Os mercados financeiros também são um ator fundamental. São os gestores de grandes bancos ou fundos de investimentos que decidem onde serão aportados milhões em aplicações. Na Semana do Clima, por exemplo, foi debatido o papel do mercado de investimentos e fundos de pensão ao financiar o crédito agrícola ou a compra e venda de terras, sendo assim peça-chave para o desenvolvimento sem novos desmatamentos e de práticas de baixo carbono. Mais uma vez, a decisão não deve estar atrelada apenas à visão de curto prazo. Recentemente, um grupo de 230 fundos de investimentos responsáveis pela administração de US$ 16 trilhões (valor maior que o PIB da China, de US$ 13 trilhões) emitiram um comunicado em que pediam ao Brasil ações concretas para conter o avanço do desmatamento e das queimadas na região da Floresta Amazônica. Pelo tamanho e alcance do grupo envolvido, é uma atitude considerável. A iniciativa não foi baseada em “bom-mocismo”, mas sim na preocupação deles com os possíveis impactos financeiros e de reputação nas empresas investidas, que poderiam ter dificuldade de acesso a mercados caso se vissem envolvidas com desmatamento em suas cadeias de suprimentos.

O poder que o setor privado tem em mãos pode ser até maior que o de governos nacionais, pois conseguem mobilizar cadeias produtivas que ultrapassam fronteiras. Mas é preciso que esse olhar para investimentos responsáveis seja a prática comum, não uma exceção em momentos de crise aguda. O preço para lidarmos com as mudanças climáticas hoje está dado. Mas, se não aproveitarmos a COP para definirmos como vamos arcar com ele, mais tarde teremos que rever a conta para cima.
Marina Piatto

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Desmatamento e mudança climática, em 10 imagens – Fotografias

As consequências da ação do homem sobre a natureza estão em discussão na COP25, conferência da ONU que ocorre em Madri

  • O solo é um elemento essencial nos ecossistemas, pois ajuda a regular processos importantes, como absorção de nutrientes, decomposição e disponibilidade de água, básicos para o desenvolvimento da vegetação. Nesta imagem, uma ameaça de chuva em uma área punida pela seca em Graaf Reinet, na África do Sul.
    O solo é um elemento essencial nos ecossistemas, pois ajuda a regular processos importantes, como absorção de nutrientes, decomposição e disponibilidade de água, básicos para o desenvolvimento da vegetação. Nesta imagem, uma ameaça de chuva em uma área punida pela seca em Graaf Reinet, na África do Sul. MIKE HUTCHINGS REUTERS
  • Segundo a ONU, a frequência e magnitude dos incêndios florestais, algo que ocorria anteriormente sazonalmente, está aumentando devido às mudanças climáticas com efeitos devastadores que resultam na perda de vidas, propriedades, recursos para subsistência e biodiversidade. Na foto, um policial tenta combater um incêndio em Riau, na Indonésia, em 4 de outubro.
    Segundo a ONU, a frequência e magnitude dos incêndios florestais, algo que ocorria anteriormente sazonalmente, está aumentando devido às mudanças climáticas com efeitos devastadores que resultam na perda de vidas, propriedades, recursos para subsistência e biodiversidade. Na foto, um policial tenta combater um incêndio em Riau, na Indonésia, em 4 de outubro. BARCROFT MEDIA GETTY
  • O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estima que em agosto deste ano foram queimados 2,5 milhões de hectares na Amazônia. A queima intencional de florestas para uso agrícola marcou um ano desastroso para o grande pulmão do nosso planeta. Neste ano, o presidente Jair Bolsonaro disse que "queima controlada" é uma "tradição" em algumas partes do país. Na foto, o agricultor Hélio Lombardo Do Santos e seu cachorro, em uma área de floresta queimada em Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil, em 26 de agosto.
    O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estima que em agosto deste ano foram queimados 2,5 milhões de hectares na Amazônia. A queima intencional de florestas para uso agrícola marcou um ano desastroso para o grande pulmão do nosso planeta. Neste ano, o presidente Jair Bolsonaro disse que “queima controlada” é uma “tradição” em algumas partes do país. Na foto, o agricultor Hélio Lombardo Do Santos e seu cachorro, em uma área de floresta queimada em Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil, em 26 de agosto. CARL DE SOUZA AFP
  • Um dos animais mais afetados pelo desmatamento na Ásia são os orangotangos, além de outras espécies como tigres, elefantes e rinocerontes. Nesta imagem, trabalhadores resgatam um orangotango de Sumatra de uma plantação de óleo de palma para entrar em uma área mais segura em Geulagang Gajah, na província de Aceh, na Indonésia, em 3 de agosto de 2018.
    Um dos animais mais afetados pelo desmatamento na Ásia são os orangotangos, além de outras espécies como tigres, elefantes e rinocerontes. Nesta imagem, trabalhadores resgatam um orangotango de Sumatra de uma plantação de óleo de palma para entrar em uma área mais segura em Geulagang Gajah, na província de Aceh, na Indonésia, em 3 de agosto de 2018. BARCROFT MEDIA GETTY
  • Vista aérea de um incêndio em 25 de agosto deste ano em Porto Velho, Rondônia, Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o número de incêndios detectados por satélite no Brasil é o mais alto desde 2010.
    Vista aérea de um incêndio em 25 de agosto deste ano em Porto Velho, Rondônia, Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o número de incêndios detectados por satélite no Brasil é o mais alto desde 2010. VICTOR MORIYAMA GETTY IMAGES
  • Incêndio voluntário da floresta virgem da Amazônia para a criação de áreas de gado no Brasil em uma imagem de 2017.
    Incêndio voluntário da floresta virgem da Amazônia para a criação de áreas de gado no Brasil em uma imagem de 2017. HANS SILVESTER GETTY
  • Mais de 10 milhões de pessoas no Chifre da África estão sendo afetadas pela pior seca em 60 anos. Segundo um relatório publicado pelas Nações Unidas, a escassez de chuvas no leste da África está causando uma grave crise alimentar e um aumento nas taxas de desnutrição em muitos países. Na imagem, o corpo de um búfalo deitado no Parque Nacional Mana Pools, no Zimbábue.
    7Mais de 10 milhões de pessoas no Chifre da África estão sendo afetadas pela pior seca em 60 anos. Segundo um relatório publicado pelas Nações Unidas, a escassez de chuvas no leste da África está causando uma grave crise alimentar e um aumento nas taxas de desnutrição em muitos países. Na imagem, o corpo de um búfalo deitado no Parque Nacional Mana Pools, no Zimbábue. TSVANGIRAYI MUKWAZHI AP
  • Uma mulher se desespera durante um incêndio em Pampilhosa da Serra, em Portugal, em 18 de junho de 2017. Incêndios, tsunamis e furacões fazem parte do cenário que a crise climática atraiu nos últimos anos e está muito presente nas discussões da COP25, convenção do clima que ocorre em Madri.
    Uma mulher se desespera durante um incêndio em Pampilhosa da Serra, em Portugal, em 18 de junho de 2017. Incêndios, tsunamis e furacões fazem parte do cenário que a crise climática atraiu nos últimos anos e está muito presente nas discussões da COP25, convenção do clima que ocorre em Madri. PAULO NOVAIS EFE
  • A Califórnia tem sido uma das áreas dos Estados Unidos mais afetadas por grandes incêndios. Os dois maiores incêndios dos últimos anos, o de outubro de 2017 em Santa Rosa (23 mortos quando um bairro inteiro foi arrasado) e o de novembro de 2018 em Paradise (85 mortos em poucas horas), tiveram origem em falhas na infraestrutura elétrica. Na foto, um bombeiro trabalha na extinção de um incêndio em Somis, Califórnia, em 31 de outubro deste ano.
    A Califórnia tem sido uma das áreas dos Estados Unidos mais afetadas por grandes incêndios. Os dois maiores incêndios dos últimos anos, o de outubro de 2017 em Santa Rosa (23 mortos quando um bairro inteiro foi arrasado) e o de novembro de 2018 em Paradise (85 mortos em poucas horas), tiveram origem em falhas na infraestrutura elétrica. Na foto, um bombeiro trabalha na extinção de um incêndio em Somis, Califórnia, em 31 de outubro deste ano. MARCIO JOSÉ SÁNCHEZ AP
  • A Austrália tem sofrido uma seca insistente nos últimos três anos, e também uma das mais devastadoras desde que os registros foram feitos. Cerca de 98% de Nova Gales do Sul sofre com a seca e, na mesma situação, dois terços da vizinha Queensland. Segundo dados oficiais, a seca causou prejuízo de cerca de 5.000 milhões de dólares australianos (3.000 milhões de euros). Na imagem, vista aérea de fazendas afetadas pela seca, no sudoeste do país.
    A Austrália tem sofrido uma seca insistente nos últimos três anos, e também uma das mais devastadoras desde que os registros foram feitos. Cerca de 98% de Nova Gales do Sul sofre com a seca e, na mesma situação, dois terços da vizinha Queensland. Segundo dados oficiais, a seca causou prejuízo de cerca de 5.000 milhões de dólares australianos (3.000 milhões de euros). Na imagem, vista aérea de fazendas afetadas pela seca, no sudoeste do país. DAVID GRAY REUTERS
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Mudanças climáticas forçam 20 milhões por ano a deixarem suas casas

Relatório alerta que pessoas mais pobres, dos países mais pobres, são as que pagam o preço mais alto. Os desastres climáticos tornaram-se a principal causa da deslocamento de pessoas em todo o mundo na última década e forçaram mais de 20 milhões por ano a deixarem as suas casas, alertou a organização não governamental internacional Oxfam.

Deslocamentos climáticos
Imagem editada e redimensionada de James Beheshti, está disponível no Unsplash

A organização apresentou esta semana o relatório “Obrigados a deixar suas casas” (em tradução livre do original inglês Forced from Home), coincidindo com o início, em Madrid, da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima, que segue até dia 13 e abordará temas como o apoio financeiro às comunidades afetadas pelos desastres naturais, inclusive aos deslocados afetados pela crise climática.

O documento da Oxfam adverte que atualmente é “três vezes mais provável que alguém seja forçado a deixar a sua casa por ciclones, inundações ou incêndios florestais do que por conflitos, e até sete vezes mais do que por terremotos ou erupções vulcânicas”.

Em particular, a Oxfam destacou no relatório que os mais vulneráveis são os cidadãos dos países pobres, que, apesar de serem “os que menos contribuíram para a poluição causada pelo CO2, são os que estão em maior risco”.

De acordo com a organização, o impacto da crise climática no mundo é desigual e a população dos países de rendimento médio-baixo e baixo, como Índia, Nigéria e Bolívia, tem quatro vezes mais probabilidades de ser forçada a deslocar-se como resultado de desastres naturais do que a que vive em países ricos, como os Estados Unidos.

Além disso, sete dos dez países com maior risco de movimentos internos de populações resultantes de fenômenos meteorológicos extremos são pequenos estados insulares em desenvolvimento.

Entre 2008 e 2018, em média, cerca de 5% da população de Cuba, República Dominicana e Tuvalu foi obrigada a deslocar-se, por ano, devido às condições climáticas extremas. “O equivalente a quase metade da população de Madrid”, destacou a Oxfam, acrescentando que as emissões per capita destas áreas são “um terço das emissões de países de rendimento elevado”.

O diretor executivo interino da Oxfam International, José María Vera, disse que são as “pessoas mais pobres, dos países mais pobres, que pagam o preço mais alto”.

Na conferência sobre o clima, espera-se que a ONU conclua a primeira revisão do Mecanismo Internacional de Varsóvia para Perdas e Danos, e ainda que os países em desenvolvimento “impulsionem a criação de um novo fundo para ajudar as comunidades a recuperarem-se e a reconstruírem os seus bens após as emergências climáticas. Os governos podem e devem tornar a Cimeira de Madrid importante. Devem comprometer-se a reduzir as emissões mais rapidamente e com mais força e a criar um novo fundo para perdas e danos que ajudará as comunidades pobres a recuperarem-se das consequências dos desastres climáticos”, concluiu José María Vera.