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“Denúncia contra Glenn Greenwald é aventura arbitrária”

Em entrevista, especialista em direito constitucional aponta afronta à liberdade de imprensa e ao devido processo legal na denúncia do MPF contra jornalista do Intercept, acusado de conluio com hackers.    

Glenn Greenwald“Glenn e o Intercept estão cobrindo um tema de interesse público, e a Constituição assegura o sigilo da fonte”, diz especialista

Mais do que ameaçar a liberdade de imprensa, a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept, é uma tentativa de criminalização da atividade jornalística, na opinião do professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Daniel Sarmento, especialista em direito constitucional. Em entrevista à DW Brasil, ele associa o caso a um contexto mais amplo de crise democrática no Brasil.

“É triste ver o Ministério Público Federal fazendo esse papel. Aliás, foi o mesmo procurador que denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por ter denunciado o ministro Sergio Moro, chegando a pedir sua destituição do cargo, outra ação absurda”, diz.

“São casos que mostram o quadro de degradação das instituições do país. Infelizmente, a qualidade da nossa proteção à liberdade de imprensa está se deteriorando”, opina.

DW: Glenn Greenwald não era investigado pela Justiça nem havia sido indiciado pela Polícia Federal, que afirmou não ter encontrado evidências de crimes cometidos pelo jornalista. Mesmo assim, ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal. Trata-se de uma ação arbitrária?

Daniel Sarmento: Eu vejo dessa forma. Em primeiro lugar, há uma ameaça à liberdade de imprensa. O Glenn e o Intercept estão cobrindo um tema com enorme interesse público. A Constituição assegura o sigilo da fonte, e a denúncia coloca uma ameaça sob a cabeça de jornalistas investigativos, que ousam noticiar o que desagrada às autoridades. O caso tem várias singularidades. Uma delas é o fato de não estar sendo sequer investigado. Outra é o claro descumprimento de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), proferida pelo ministro Gilmar Mendes, que vedou qualquer tipo de responsabilização do Glenn pela recepção, obtenção ou transmissão de informações publicadas em veículos de imprensa. É uma clara afronta à Constituição, especialmente à liberdade de imprensa e às regras do devido processo legal, que exigem a abertura de investigação e a oportunidade para que o investigado dê sua versão antes da denúncia.

Tendo em vista o envolvimento de figuras públicas nas mensagens vazadas para o Intercept, que limites a Constituição estabelece para a a atuação jornalística?

O Intercept não poderia, por exemplo, encomendar uma gravação ilícita, ou associar-se à prática de interceptação telefônica. Agora, no momento em que o site recebe o material, tem o direito de publicá-lo, pois a população tem o direito de conhecer o conteúdo. Não tem uma disposição clara na Constituição sobre esse ponto. Mas o standard importante é o relevo público e a importância das informações para a sociedade.

A Suprema Corte dos EUA julgou um caso muito parecido, que envolveu o jornal Washington Post, pela publicação dos Pentagon Papers, documentação relativa a irregularidades do governo estadunidense na Guerra do Vietnã. Uma fonte obteve o material e vazou para o jornal, que publicou o conteúdo, apesar da tentativa do governo de impedir a publicação. O tribunal decidiu a favor do jornal, da liberdade de imprensa e do direito da sociedade à informação. É um dos grandes precedentes no Direito global sobre essa matéria, que se aplica perfeitamente à atuação do Intercept.

Além de apontar a interceptação de comunicações e invasão de dispositivo informático, a denúncia do MPF acusa o jornalista de associação criminosa. Pode-se falar em uma tentativa de criminalização da atividade jornalística?

Claramente. É triste ver o Ministério Público Federal fazendo esse papel. Aliás, foi o mesmo procurador que denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por ter denunciado o ministro Sergio Moro, chegando a pedir sua destituição do cargo, outra ação absurda. São casos que mostram o quadro de degradação das instituições do país. Infelizmente, a qualidade da nossa proteção à liberdade de imprensa está se deteriorando. É importante que as próprias instituições de Estado percebam isso na hora de decidir, e que não se permita a continuidade dessa aventura arbitrária contra o Glenn Greenwald.

O caso evidencia um desvio de função do MPF?

O MPF age em nome da sociedade. Embora seja parte, não pode estar do lado incondicional do governo ou possíveis vítimas de crimes, e deve fazer uma avaliação pautada no Direito. Claramente não foi o caso. Li a denúncia, que contém a transcrição de um diálogo do Glenn que serviu de base para a ação. É preciso ter muita criatividade para extrair dali um estímulo ao crime ou associação à prática do crime. É evidente que não foi isso.

Há precedentes de iniciativas tão agressivas contra a liberdade de imprensa no período democrático mais recente?

Em primeiro lugar, tenho confiança de que o Poder Judiciário não vai embarcar nisso. A gente tem tido decisões muito ruins, mas que, em geral, têm sido revertidas. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) reformou uma decisão do presidente do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ) que autorizou a apreensão de revistas que traziam um beijo gay. Houve também uma decisão muito equivocada do Supremo que censurou a revista Crusoé por uma matéria contrária ao tribunal, com reação muito negativa, que levou o ministro ao voltar atrás. Nem sempre o Judiciário acerta.

Neste mês, um caso no TJ-RJ levou à censura judicial de um blog. A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) pediu para entrar no processo como amicus curiae contra a censura, e o desembargador não só manteve a censura, como negou o pedido da ABI e condenou a entidade por litigância de má fé. Ou seja, censurou a própria ABI. Com muita frequência, o Judiciário brasileiro falha nessa matéria. O caso do Glenn é muito grave, e espero que não falhe desta vez.

São casos isolados ou se encaixam em um contexto mais amplo de cerceamento de liberdades?

Infelizmente, a segunda opção. É um caso extremo. Quase todas as pessoas razoáveis vão concordar que é algo com que não se pode transigir. Mas não acho que seja um ato isolado. A gente vive um momento de crise democrática no Brasil, com muitas instituições do Estado participando de sua formação. Eu tenho visto duas leituras bastante distintas da situação brasileira, e nenhuma das duas está totalmente certa, a meu ver.

Uma diz que as instituições estão funcionando e conseguindo conter os arroubos autoritários do governo. Outra, que não somos mais uma democracia. Algumas das instituições estão funcionando razoavelmente bem, mas muitas delas estão contaminadas. A polícia está matando mais, a atuação dos órgãos de fiscalização ambiental está muito pior, e aumentou a discriminação na sociedade. Acredito também que os críticos do governo estejam se sentindo mais ameaçados. São impactos reais, e as instituições não bastam para contê-los integralmente.

Na matéria indígena, o presidente da República disse que não ia demarcar nem um centímetro de terra indígena e tirou, inicialmente, a atribuição da Funai e passou para o Ministério da Agricultura. Após alguma hesitação, o Supremo derrubou isso. O governo, então, esvaziou totalmente a Funai, colocou um ruralista na presidência e proibiu a autarquia de pagar diárias para os funcionários que vão para áreas não demarcadas. Nos últimos dias, houve uma decisão escandalosa que sustava o fornecimento de cestas básicas para os povos indígenas que não estejam em áreas demarcadas, tirando o direito à subsistência. O Supremo vai por um caminho, e o governo esvazia por outro lado. Não é possível barrar os retrocessos só com algumas instituições. Agora, eu concordo que o Brasil ainda não virou uma Turquia, uma Hungria. Ainda temos um parlamento que freia excessos do governo, um Poder Judiciário que freia alguns excessos e atos democráticos. Não é o cenário em que está tudo normal, pois vivemos, de fato, uma crise democrática, mas também não é o cenário em que o Brasil já virou uma ditadura.
WD

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Como morre um jornal local?

Se para os grandes veículos de comunicação é um desafio permanente fazer um bom jornalismo e manter o equilíbrio econômico-financeiro diante do impacto das transformações tecnológicas que afetam os processos de produção e difusão da notícia, para os jornais locais esse desafio é ainda maior.

Os efeitos desse cenário de convergência midiática e de crise econômica acentuam-se na queda de circulação e de assinantes e na redistribuição das verbas publicitárias, que tendem a migrar com o leitor para outras plataformas. São fatores decisivos para a viabilidade financeira das empresas de mídia, principalmente nas cidades de pequeno e médio porte, cuja economia patina, sem crescimento real.

Não conheço as causas que levaram à decisão de encerramento das atividades do jornal Comércio do Jahu — uma notícia avassaladora —, mas é preciso lançar um olhar sobre alguns aspectos para compreender o panorama atual e o papel da imprensa, que não é o de oferecer tão somente um produto de consumo diário, mas uma prestação de serviço aos cidadãos, imprescindível numa sociedade democrática.

Os ventos neoliberais que sopram de novo sobre o país chegam, na verdade, como o bafio de uma velha política que se transveste de nova — trazem promessas enganosas com o ímpeto reformista que, na prática, passa por cima de direitos e destrói o arcabouço constitucional de nosso incipiente estado de bem-estar social.

A hegemonia da ideologia capitalista não admite contestação, uma vez que transforma a capacidade humana de duvidar em simples falta de convicção — e a quem falta convicção ou adesão voluntária e acrítica está vedada a entrada no paraíso das promessas (nem sempre ou quase nunca atingíveis) de consumo. Esgarçam-se nesse processo as relações de solidariedade de classe e de cooperação em favor da ferocidade do individualismo exacerbado.

É preciso dizer que na esteira da desmedida produção capitalista em sua lógica de rentabilidade a curto prazo está posta a financeirização das economias, do capital que reproduz a si mesmo, sem fronteiras ou barreiras, impondo sua temporalidade, que é a do mercado, e atravessando o próprio Estado.

O Estado cede sua capacidade de gerir, de fomentar a economia e garantir direitos e serviços básicos, como educação, saúde, transportes, aposentadoria etc., tornados mercadorias. A exemplo do canto da sereia da reforma previdenciária que entrega a seguridade social ao mercado, sob a justificativa deficitária das contas (tornadas sigilosas pelo governo) e um iminente colapso do sistema.

Não é conveniente aos arautos reformistas revelar, no entanto, que os juros e amortizações da dívida pública consomem mais de 42% do orçamento da União, conforme dados de 2018, enquanto a Previdência Social ficou em 22,69%, sendo que desse montante a Desvinculação da Receita da União (DRU) permitiu remanejar verbas para outras áreas, inclusive pagamento dos juros.

Uma dívida que o governo contrai em forma de empréstimo por meio do Banco Central para “enxugamento” dos recursos que os bancos (coitados!) não põem no mercado, que não financiam as atividades econômicas devido às altas taxas de juros que inviabilizam as (não tão livres) iniciativas privadas. Ao contrário do que se pensa, esses “empréstimos” não se transformam em investimentos, não aquecem a economia nem geram empregos, tampouco voltam reinvestidos em serviços públicos de qualidade.

E a quem está se perguntando qual a relação que esses aspectos têm com o papel da imprensa ou com a questão do Comércio do Jahu, basta juntar os pontos para se ter ideia do contexto de transformações, dificuldades, pressões e cerceamentos a que todos estamos submetidos.

Se o capitalismo, em suas formas de reprodução e dominação, atravessa Estados, por que não nos atravessaria? É o próprio campo onde agimos e somos “regidos” (em menor ou maior grau) por suas demandas e temporalidade.

Uma temporalidade marcada pela aceleração contemporânea e que se põe em conflito com a temporalidade política das democracias, confiscados o “espaço da experiência” e o “horizonte de expectativas”, passado e futuro dos indivíduos. E isso impossibilita a construção de uma memória representável, o que é um risco para as sociedades e para o próprio exercício democrático.

A imprensa não escapa da razão mercadológica e dessas contradições, mas não deixa de ser a arena onde os embates sociais se dão. De sua pluralidade de vozes depende a liberdade democrática, especialmente nesse momento de disseminação de “verdades alternativas”, de mesquinhez intelectual, de maniqueísmos e popularismo vulgar. É preciso encontrar novos caminhos e modelos de negócios, com reflexão e profundidade, diante de tantos desafios.

De qualquer forma, abre-se uma lacuna com o encerramento das atividades do Comércio do Jahu, que deixa de reportar a história imediata, mas não de ser o repositório dos últimos 110 anos de história de nossa cidade.

Guerra Híbrida: Qual o verdadeiro peso das notícias falsas?

Estima-se que, durante as eleições americanas, informações mentirosas tiveram mais de 8 milhões de compartilhamentos no Facebook.Tecnologia,Computadores,Blog do Mesquita

Especialista afirma que fenômeno pode, sim, influenciar a opinião pública.

Desde a surpreendente vitória de Donald Trump nas eleições para a Casa Branca, a atenção da mídia se voltou para o fenômeno das notícias falsas, numa tentativa de entender o seu impacto no processo eleitoral americano.

No Facebook, entre agosto e 8 de novembro, data da eleição americana, as “fake news” ganharam mais atenção do que os sites de notícias convencionais, de acordo com o editor-fundador da empresa de notícias digitais Buzzfeed, Craig Silverman.

Foram “notícias” como “papa declara apoio a Trump” ou “agente do FBI que expôs e-mails de Hillary é encontrado morto”. Textos com correções também circularam, mas nada comparado às dezenas de milhares de vezes em que as mentiras foram compartilhadas – muitas vezes inadvertidamente – nas redes sociais.

Segundo Silverman, que cita dados coletados do Facebook, as notícias falsas tiveram 8,7 milhões de compartilhamentos na rede social, reações e comentários, enquanto as notícias convencionais obtiveram 7,3 milhões.

Na ânsia de se detectar as influências da polarizada eleição americana, rapidamente, surgiram na rede social e nos sites de notícias acusações afirmando que as “fake news” teriam sido usadas para enganar deliberadamente o eleitorado. Isso levou o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, a anunciar novas medidas para combater o fenômeno.

“Após as eleições, muitas pessoas estão se perguntando se as notícias falsas contribuíram para o resultado e qual seria a nossa responsabilidade em impedir elas se espalhem. Essas são questões muito importantes e eu me importo profundamente em corrigi-las”, postou Zuckerberg.

O fundador do Facebook afirmou que “mais de 99% do que as pessoas veem é autêntico”, referindo-se aos feeds de notícias dos usuários da rede social.

“Dito isso, não queremos nenhuma fraude no Facebook. Nosso objetivo é mostrar às pessoas o conteúdo que elas vão achar mais significativo, e os usuários querem notícias precisas. Já começamos a trabalhar para que a nossa comunidade possa identificar fraudes e notícias falsas, e há mais coisas que podemos fazer”, explicou Zuckerberg.

Alguns críticos afirmam que a política editorial poderia filtrar conteúdo considerado importante para movimentos sociopolíticos, como o “alt-right”, um grupo de ideologia de direita visto como uma força motriz por trás da vitória eleitoral de Trump.

Mas dúvidas relativas a seus objetivos políticos surgiram na esteira da bem-sucedida campanha de Trump, que muitas vezes chegou próxima do incitamento ao ódio contra minorias nos EUA, condenando notícias convencionais como tendenciosas.

Mudar, manipular, deslegitimar

Bart Cammaerts, professor de mídia e comunicação na London School of Economics, diz que a ameaça das notícias falsas está na sua capacidade de espalhar sentimentos populistas e transformar a opinião pública, minando as regras da mídia tradicional.

“A diferença entre a paródia e as notícias falsas está na intenção. A produção de ‘fake news’ não se destina a criticar ou zombar de algo, mas serve antes a objetivos que são inerentemente manipuladores, muitas vezes para mudar a opinião pública ou deslegitimar algo ou alguém”, explica Cammaerts.

“Isso tende a ir de mãos dadas com o populismo, com a promoção de várias teorias de conspiração, a rejeição de especialistas e uma rigorosa crítica dos meios de comunicação, que em todas as partes tende a enfatizar o factual em suas reportagens”, acrescenta.

O professor da London School of Economics aponta para um fenômeno similar na Alemanha, onde grupos anti-imigração e de extrema direita, como a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o Pegida, acusam a mídia tradicional de distorcer propositadamente as suas posições, chamando-a de die Lügenpresse – “a imprensa da mentira”.

“Como os alemães são mais conscientes, esse surgimento da política pós-factual, e tudo que vem junto, não é novidade. Ele remete a uma época fascista e antiliberal, que também foi racista, autoritária e acusava a mídia de ser ‘die Lügenpresse'”, aponta Cammaerts.

Na Europa, problema já é combatido

Em 2015, o órgão fiscalizador dos direitos da mídia na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) publicou uma reportagem criticando a propaganda disfarçada de noticiário, que acabou prejudicando a aproximação entre a Ucrânia e a Europa após a saída do presidente Viktor Yanukovich.

A propaganda em questão empregou táticas semelhantes às usadas pelos sites de notícias falsas durante as eleições americanas, incluindo manchetes enganosas, citações fabricadas e declarações incorretas, o que levou a União Europeia (UE) a criar uma força-tarefa para “abordar as campanhas de desinformação em curso por parte da Rússia.”

Segundo Cammaerts, notícias falsas têm sido usadas para angariar apoio a várias causas políticas e representam uma grave ameaça para as sociedades democráticas, seja na Europa, nos EUA ou em qualquer outro país do planeta. Mesmo o direito à liberdade de expressão, muito elogiado pelos seguidores de sites de notícias falsas, tem os seus limites, afirma.

“A liberdade de expressão nunca é uma liberdade absoluta, nem mesmo nos EUA com sua doutrina da Primeira Emenda. Embora espalhar e fazer circular notícias falsas seja parte da liberdade de expressão de alguém, é uma obrigação democrática das organizações de mídia expor esse fato e se opor ativamente contra isso, o que pode significar também a recusa à sua divulgação”, diz o professor.

“Acho que o Facebook e Twitter têm responsabilidades editoriais, e por isso é válido que eles ativamente combatam a propagação de notícias falsas. Mas tais decisões editoriais devem ser transparentes”, conclui.

A longa história das notícias falsas

Utilização política das mentiras começou muito antes das redes sociais, e a construção de outras realidades era uma constante na Grécia antiga

Soldados alemães durante a quarta batalha de Ypres, em outubro de 1918.
Soldados alemães durante a quarta batalha de Ypres, em outubro de 1918. PAUL THOMPSON GETTY IMAGES

A primeira vítima da guerra é a verdade, afirma um velho ditado jornalístico. Embora o mais correto fosse dizer que a verdade é vítima recorrente em qualquer sociedade organizada, porque a mentira política é uma arte tão velha quanto a civilização. A verdade é um conceito fugidio na metafísica e mutante nas ciências – uma nova descoberta pode anular o que se dava como certo –, mas no dia-a-dia o assunto é bem diferente: há coisas que aconteceram, e outras que não; mas os fatos, reais ou inventados, influenciam a nossa percepção e opinião.

Desde a Antiguidade, verdade e mentira se misturaram muitíssimas vezes, e essas realidades falsas influenciaram nosso presente. Assim já escreveu o grande historiador francês Paul Veyne em seu ensaio Os Gregos Acreditavam em Seus Mitos? (Unesp): “Os homens não encontram a verdade, a constroem, como constroem sua história”.

Chegados a este ponto, convém fazer uma distinção entre notícias falsas e propaganda: ambas crescem e se multiplicam no mesmo ecossistema, mas não são exatamente iguais. A propaganda procura convencer, ser eficaz, e para isso pode recorrer a todo tipo de instrumento, da arte e do cinema aos pasquins e redes sociais. As notícias falsas, um dos ramos da propaganda, são diferentes: procuram enganar, criar outra realidade. A preocupação com a perpetuação desses equívocos e com os mecanismos que os criam e multiplicam não é nova: Réflexions d’Un Historien Sur les Fausses Nouvelles de la Guerre, (“reflexões de um historiador sobre a notícias falsas das guerra”, Allia, 2012) é o título de um pequeno e influente ensaio que Marc Bloch publicou originalmente… em 1921.

Esse historiador, assassinado pelos nazistas em 1944, foi um dos mais influentes do século XX. Impulsionou a Escola dos Anais, que mudou o foco da pesquisa do passado para a vida cotidiana, e retornou das trincheiras da Primeira Guerra Mundial alucinado com a importância que as notícias falsas haviam tido. Isso o levou a refletir sobre sua origem e difusão, num texto que poderia ter sido escrito na era do Brexit, de Vladimir Putin e de Donald Trump, nestes tempos das redes sociais e de mensagens virais. “As notícias falsas mobilizaram as massas. As notícias falsas, em todas as suas formas, encheram a vida da humanidade. Como nascem? De que elementos extraem sua substância? Como se propagam e crescem?”, escreve, para afirmar um pouco mais adiante: “Um erro só se propaga e se amplifica, só ganha vida com uma condição: encontrar um caldo de cultivo favorável na sociedade onde se expande. Nele, de forma inconsciente, os homens expressam seus preconceitos, seus ódios, seus temores, todas as suas emoções”. Em outras palavras, as notícias falsas necessitam de gente que queira acreditar nelas.

Mudar a história

O século XX e o que já vivemos do XXI são a era das mentiras em massa. Três dos grandes conflitos em que os Estados Unidos se meteram neste período começaram com invenções: a guerra de Cuba (1898), com a manipulação dos jornais; a guerra do Vietnã (1955-1975), com o incidente do golfo de Tonkin, e a invasão do Iraque de 2003, com as inexistentes armas de destruição em massa de Saddam Hussein. “A guerra contra a Espanha [em 1898] foi obra de Hearst e de Pulitzer”, escreveu o repórter Manuel Leguineche em seu ensaio sobre o nascimento do jornalismo sensacionalista, Yo Pondré la Guerra (“eu porei a guerra”, El País Aguilar). “Foi sua grande oportunidade de mudar a história, de criar uma psicose de guerra, de fabricá-la, por meio de sensacionalismo, tiragem, circulação milionária, venda maciça, chute no estômago do leitor”.

Ao mesmo tempo em que surgiam os jornais de circulação maciça, nascia também um certo ceticismo em relação a eles. Era como se alguns se empenhassem em demonstrar que a verdade estava em outro lugar. Essa desconfiança se prolonga até nossos dias, com aqueles que acreditam erroneamente que a imprensa conta mentiras, e que as redes sociais oferecem verdades. Com o telégrafo, chegou a possibilidade de enviar rapidamente histórias através de longas distâncias; com o linotipo foi possível imprimir maciçamente; e com os novos meios de transporte essas publicações puderam ser distribuídas em numerosos lugares. Mas nesse mesmo momento, no final do século XIX, surgiu a desconfiança quanto àquilo que contavam, a mesma que nutre agora os que procuram essa outra verdade no Facebook, que para alguns é a única janela para o mundo. É muito significativa, nesse sentido, uma cena de Um Estudo em Vermelho, o primeiro romance de Sherlock Holmes, publicado em 1887, em que o detetive e Watson repassam os diferentes jornais – The Daily TelegraphDaily NewsStandard – e todos contam uma versão falsa do crime que estão investigando, impulsionada por motivos políticos: uns culpam os europeus, outros os estrangeiros, ou os liberais. Nenhum cita uma pista confiável.

Uma das grandes tragédias do século XX, as matanças maciças promovidas pelos grandes totalitarismos, conseguiu se esconder detrás de notícias falsas. As ditaduras nazista e soviética não só fabricaram falsidades tremendas como também foram capazes de construir outra realidade, em que o verdadeiro e o falso eram elementos acessórios. Como apontou o escritor francês Emmanuel Carrère, “na URSS não se aboliu a propriedade privada, aboliu-se a realidade”. Agora pode parecer quase incrível que enquanto Stálin assassinava e deportava milhões de pessoas a bondade do socialismo se mantinha como um dogma em grandes setores do Ocidente. Muita gente achou, de boa ou má fé, que a realidade era, nesse caso, uma notícia falseada. Assim explicava o historiador Tony Judt em Pensando o Século XX (Objetiva): “Os que entenderam corretamente o século tiveram que imaginar um mundo para o qual não existiam precedentes. Tiveram que supor que essa situação insólita e claramente absurda estava acontecendo na realidade, em vez de dar como certo, como todos os demais, que era grotescamente inimaginável”.

Mensageiros do desastre

A historiadora francesa Annette Becker estudou a influência que a propaganda da Primeira Guerra Mundial teve sobre a Segunda. As notícias falsas difundidas contra os alemães entre 1914 e 1918, quando eram acusados de todo tipo de brutalidades com fins propagandísticos, tiveram um efeito negativo na percepção das atrocidades que foram efetivamente cometidas entre 1939 e 1945, sobretudo em relação ao Holocausto. Um exemplo disso foi a descrença que recaiu sobre os primeiros agentes poloneses que trouxeram a notícia do extermínio de judeus por parte dos nazistas. Em seu livro Messagers du Désastre(“mensageiros do desastre”, Fayard), que acaba de sair na França, Becker relata a história do Jan Karski, um herói polonês que arriscou a vida para levar a notícia do Holocausto a Londres. Não acreditaram nele quando informou aos aliados sobre o que ocorria. Um alto oficial britânico lhe explicou: “Senhor, durante a Primeira Guerra Mundial difundimos a propaganda de que soldados alemães esmagavam crianças belgas contra os muros. Acredito que fizemos bem. Isso nos ajudou a debilitar o moral do inimigo, a aumentar o ódio contra os alemães. Precisamos de relatos como o seu”. Karski acrescentou: “Notava-se claramente que ele não acreditava em mim”. De novo, uma notícia verdadeira era percebida como falsa.

Mas as regras que Marc Bloch intuiu há um século – que as notícias falsas precisam de uma sociedade disposta a acreditar nelas – começaram a ser aplicadas muito antes da era da comunicação de massas, já desde os criadores do pensamento histórico, primeiro Heródoto e depois Tucídides. “A democracia ateniense tem uma espécie de momento institucional, de marco crucial, que na verdade foi uma genial construção narrativa”, afirma o helenista Óscar Martínez, professor de grego, presidente da delegação de Madri da Sociedade Espanhola de Estudos Clássicos e autor de roes que Miran a los Ojos de los Dioses(“heróis que olham nos olhos dos deuses”, Edaf).

“Trata-se do elogio dos tiranicidas Harmódio e Aristógito, que são mostrados como os fundadores heroicos da democracia, já que assassinaram o tirano de Atenas. Mas quando Heródoto e Tucídides narram este episódio, se vê claramente que há coisas que não batem: não mataram o tirano, e sim o seu irmão, e a tirania durou quatro anos. E deixam expresso que as causas do magnicídio foram mais um assunto pessoal, inclusive amoroso”, prossegue Martínez. Com a vontade de investigar – a palavra que Heródoto emprega é historie – nasceu a luta contra as notícias falsas.

Na antiga Roma, os governantes estavam muito conscientes da importância da informação e de como era essencial adaptá-la às suas necessidades políticas, independentemente da realidade. “Em Roma, as notícias se transmitiam fundamentalmente através das imagens”, explica o pesquisador Néstor F. Marqués, que publicou recentemente Un Año en la Antigua Roma: La Vida Cotidiana de los Romanos a Través de su Calendario (Espasa). “Nem todo mundo sabia ler ou escrever, por isso a informação visual era muito importante. A forma mais rápida de difundir a chegada de um novo imperador era cunhar moedas com sua cara”, prossegue. E aí Marqués encontra um exemplo típico de notícia falsa: “O imperador Septímio Severo, nascido em Leptis Magna e que nada tinha a ver com seu antecessor, o malogrado Cômodo, para legitimar seu poder decidiu espalhar a ideia de que ele próprio era o irmão perdido de Cômodo, filho ilegítimo de Marco Aurélio, e por isso a pessoa mais adequada para ocupar o cargo. Nas primeiras moedas que cunhou, se fez retratar com traços muito parecidos com os de Marco Aurélio”.

Profanação de um crucifixo (‘Família de Hereges Açoitando um Crucifixo’), de Francisco Rizi.
Profanação de um crucifixo (‘Família de Hereges Açoitando um Crucifixo’), de Francisco Rizi. MUSEO NACIONAL DEL PRADO
Notícias e jograis

Também na Idade Média as notícias se propagavam com surpreendente eficácia, embora as condições materiais não acompanhassem o movimento informativo. Claude Gauvard, professora emérita da Sorbonne, investigou as formas de transmissão de informação nesse período: “Um cavalo podia percorrer 30 quilômetros por dia, mas o tempo que se levava para transmitir uma informação podia se acelerar dependendo do interesse da notícia”, conta por e-mail. As ordens mendicantes tinham um papel importante na disseminação de informações, assim como os jograis, os peregrinos e os vagabundos, porque todos eles percorriam grandes distâncias. As cidades também tinham correios organizados e selos para lacrar mensagens e tentar certificar a veracidade das correspondências. Graças a tudo isto, a circulação de boatos era intensa e politicamente relevante. Gauvard cita como exemplo de fake news clássica da era medieval a história do rei, conde ou senhor que desaparece na batalha e reaparece muito depois, idoso e transformado.

Um dos motivos para a construção de notícias falsas naquele período era tentar justificar atos que, de outra forma, seriam intoleráveis, como o magnicídio. “O duque de Borgonha, depois de encarregar em 1407 o assassinato do duque de Orleans, levou a cabo uma campanha epistolar: dirigiu-se às cidades do reino, aos príncipes, à Igreja, até ao Papa. Nessas cartas, argumentava que o duque de Orleans era um tirano que tentou assassinar a família real”, diz Gauvard, acrescentando que houve muitos outros casos de campanhas certeiras de desinformação, que chegaram inclusive a afetar Joana d’Arc. Mas a historiadora acredita que o exemplo mais claro para demonstrar a importância das mentiras são as caças às bruxas e as calúnias contra os judeus, autênticas campanhas de desinformação com resultados catastróficos. “Podem ter sido movimentos populares, mas foram manipulados pelas autoridades”, afirma.

Em um livro recém-lançado, Crimen e Ilusión. El Arte de la Verdad en el Siglo de Oro (Marcial Pons), Felipe Pereda, professor de arte espanhola na Universidade Harvard, estudou a fundo outro escandaloso e apaixonante caso em que a construção de uma notícia falsa teve implicações políticas. Ocorreu na Madri do século XVII, e é um exemplo claro de perseguição antissemita. “Em 1632 ocorreu um auto de fé em que foram queimados quatro marranos (judeus convertidos) portugueses, e outros foram enviados às galés. Todos eles eram acusados de terem profanado um crucifixo dois anos antes. As autoridades sustentavam que o objeto teria resistido a ser queimado e que inclusive teria falado com essas pessoas. Aquele foi um dos grandes escândalos do primeiro Governo do conde-duque de Olivares, acusado de favorecer os banqueiros marranos em detrimento dos genoveses”, explica Pereda.

A perseguição na rua das Infantas, onde viviam aqueles judeus, teve motivações políticas. Como explica o investigador do antissemitismo na Espanha Uriel Macías, o eco daquele caso foi tamanho que Calderón de la Barca escreveu uma obra, El Nuevo Palacio del Retiro, e Quevedo redigiu um furioso panfleto antissemita, Execración Contra los Judíos. Em 1650, Quevedo também publicou La Isla de los Monopantos, uma obra em que pela primeira vez se fala de um complô universal judaico para dominar o mundo, teoria que seria explorada a fundo pelos Protocolos dos Sábios do Sião, uma das grandes falsificações da história, que encontrou ampla difusão no começo do século XX. Historicamente o antissemitismo foi um terreno fértil para plantar mentiras.

A Inquisição se aproveitava dele e ao mesmo tempo o estimulava. “Na imensa maioria das lendas antissemitas é facilmente identificável como as mentiras são forjadas”, diz Macías, relatando que, depois do auto de fé de 1632, foram convocados concursos literários sobre o tema, e a Inquisição distribuiu panfletos anticristãos, supostamente escritos por judeus, que tinham sido integralmente falsificados para agitar e convencer o povo. Aquele processo contra os marranos não só se baseou em provas inventadas como também foi um arremedo jurídico: a única testemunha era uma criança menor de 10 anos, com graves problemas cognitivos, algo teoricamente inaceitável pela Inquisição, que violou suas próprias normas.

As casas dos judeus foram destruídas, e em seu lugar foi construído o convento dos Capuchinos da Paciência de Cristo, com uma capela situada exatamente no mesmo espaço onde ocorreu o sacrilégio imaginário. Ali foram instaladas quatro pinturas enormes, feitas por Francisco Rizi, Francisco Camilo, Andrés de Vargas e Francisco Hernández. “Os quadros reconstroem com documentadíssimo cuidado a cena do crime, descrevem os detalhes dos fatos, identificam cada um de seus protagonistas e, o que é mais importante, transformam os espectadores em testemunhas dos acontecimentos”, escreve Pereda em seu ensaio. O ponto de vista é o da única testemunha da profanação. Três dos quadros se encontram no acervo do Museu do Prado, já que a capela foi destruída no século XIX. Não foram necessárias naquela época as redes sociais para construir do zero a mentira perfeita, para criar uma realidade incontestável, embora falsa.

Outro exemplo da eficácia da Inquisição na disseminação de histórias falsas é o caso do Santo Menino da Guarda, ocorrido em Toledo. Vários judeus e convertidos foram acusados de assassinar um menino que nunca existiu (e que, apesar disso, continua sendo venerado atualmente). Politicamente esse fato inventado em 1490 teve um impacto formidável: foi um dos pretextos para a expulsão dos judeus em 1492. “Nunca ninguém deu pela falta de menino nenhum, nem se encontrou qualquer corpo”, conta a historiadora Mercedes García-Arenal, do Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC). “Mas montou-se um processo com confissões sob tortura, e vários judeus e judeus convertidos foram queimados. Este fato serviu para sossegar as vozes rebeladas contra a Inquisição e para decretar a expulsão dos judeus.”

Os dividendos políticos das notícias falsas são elevados, e já era assim bem antes da Internet, mas elas sempre necessitaram de um bom caldo de cultivo. As mentiras que se espalham e convencem as massas não surgiram com as redes sociais.
GUILLERMO ALTARES

 

Alberto Dines: Entre o cosmo sangrento e a alma pura

O jornalismo pátrio hoje é basicamente reativo. Da política à cultura, passando pela economia. E o recurso mais efetivo faz-se fora do jornalismo – com pesquisas apressadas, metodologicamente levianas, concebidas e realizadas por profissionais que obedecem a uma ética diametralmente oposta à dos jornalistasAlberto Dines,Blog do Mesquita

Estou ligado ao Observatório da Imprensa desde outubro de 1996 quando seus idealizadores aceitaram meu convite, em nome da empresa, e ele estreou como parte do conteúdo do UOL, seis meses depois de surgir na internet. Inovador, nasceu cem por cento online, sem se entregar ao suporte papel. Foi pioneiro numa realidade que começava a ser chacoalhada pela disrupção nas comunicações. Ou pior, chacoalhada pela disrupção no próprio jornalismo.

Em duas décadas, vi-o crescer no UOL e ser abatido no UOL, onde eu mesmo fui um dos abatedores. Vi-o ressurgir no concorrente iG e também ser abatido no iG. Vi-o crescer em sua vida fora dos grandes portais e se multiplicar nas redes sociais.

Também o vi crescer no rádio, quando abrigado na Rádio Cultura onde acabou igualmente abatido. Vi-o crescer tanto na TV Cultura quanto na TV Brasil. Vejo-o agora na perspectiva de uma história incomparável, de um trabalho único na complexa arquitetura da crítica da mídia – sem nunca ter-se rendido ao nobre pacto entre o cosmo sangrento e a alma pura.

Sui generis, o Observatório é “o” veículo de crítica. É o lugar da resistência da análise do jornalismo realizada a despeito do suporte. Daquele jornalismo que pretende vencer a disrupção e se manter independente, abrangente, crítico, investigativo – capaz de mediar os fatos com credibilidade junto ao seu público. Daquele jornalismo eleito sistematicamente pelos leitores, ouvintes, telespectadores ou internautas que o consomem minuto a minuto, diariamente ou semanalmente, ao escolhê-lo como sua fonte de informação.

Mais importante em tudo isso é que o Observatório tem uma alma. E a sua alma tem um nome: Alberto Dines.

O seu corpo tem inúmeros nomes, muitos dos quais estarão aqui neste mesmo Observatório para situá-lo no tempo e no espaço da observação midiática. No entanto, o Observatório não existe sem o Dines, sem sua presença inconfundível, sem a sua essência tão bem desenhada no discurso intransigente de Dines.

Conheci o Dines, pessoalmente, numa sexta-feira nervosa, 25 de abril de 1980, quando fui ao Rio conversar com ele sobre o Leia Livros, um book review que eu secretariava e para o qual ele vinha colaborando com gosto. O mensário era de propriedade do editor Caio Graco Prado, da Brasiliense, e do Cláudio Abramo, um dos mais competentes jornalistas que o Brasil já viu.

Dines trabalhava na sucursal da Folha de S.Paulo no Rio, da qual já fora o chefe, e passava por um momento de litígio com o jornal. Morava com sua mulher, Norma Couri, no condomínio Povoado das Canoas, em São Conrado, num casa afastada da cidade, acolhedora, repleta de livros e totalmente envolvida pela densa flora da Floresta da Tijuca com seus pássaros e seus macacos.

Ele estava preocupado naquele dia e expressou isso quando me pegou em frente ao hotel. A rigor, eram duas as preocupações. Uma delas (a outra você verá mais adiante) se devia à rocambolesca falha da operação de resgate dos 53 reféns norte-americanos no Irã. Um avião Hércules C-130 da força aérea se chocara com um helicóptero, ambos da força aérea americana, no deserto, e assim abortara a tentativa de resgate dos reféns. Um fracasso do governo Jimmy Carter. Tinha passado o dia acompanhando os desdobramentos – que acabaram levando à não reeleição de Carter. Qualquer conflito no Oriente Médio era para ele uma fonte enorme de angústia.

Sionista, Dines repetiu isso várias vezes. Em 2001 ele registrou: “Além de sionista, sou também um palestinista – desde meados dos anos 40 defendo a criação de dois estados na antiga Palestina, um árabe e outro judeu autônomos, laicos e democráticos.” Foi além. “Também sou tibetista (pela libertação do Tibete do jugo chinês), curdista (pela criação de um Estado Curdo com pedaços da Turquia, Irã e Iraque), libanista (contra a ocupação militar síria no Líbano) e um convicto cubista (contra o cerco americano a Cuba). Militei como timorista (pela libertação de Timor Leste do jugo indonésio) e como bengalista, pois cobri a guerra de libertação do Bangladesh (então Paquistão Oriental) torcendo a favor.” Esse é o Dines.

Jantamos e falamos muito. Ou melhor, eu ouvi muito. Acho que bebemos um vinho, não me recordo bem, mas me lembro estar diante de um mito. Eu havia lido na faculdade o seu livro O papel do Jornal, um estudo seminal sobre a liberdade de imprensa, a transparência e o jornalismo de interesse público, escrito depois de uma temporada dele na Universidade Columbia, em Nova York, logo após ter sido demitido do Jornal do Brasil – o jornal que ele ajudou a se transformar em referência de mais de uma geração de jornalistas.

Eu fora também leitor assíduo de sua coluna dominical de crítica da mídia na Folha, intitulada “Jornal dos Jornais”. Eu não sabia, vim a saber muito tempo depois (com a ajuda do Luiz Egypto, outro baluarte deste Observatório), qual tinha sido a reação do “seu” Frias (Octávio Frias de Oliveira, Publisher da Folha) ao saber que o Dines queria escrever uma coluna de crítica da mídia.

Os argumentos de Dines eram pungentes:

“Nós estamos com a imprensa sob censura. Já que vamos fazer uma revolução, temos que começar a falar sobre a imprensa! Isso é importantíssimo! O processo começa com a própria imprensa.”

”Dines, não te mete nisso! Você vai ganhar inimigos. Eles vão te matar. Essa gente é vingativa, não te mete nessa coisa“ – foi a desalentadora reação de Frias.

Apesar de tudo, Dines conquistou espaço na sexta página da edição dominical da Folha e lá ficou de julho de 1975 até setembro de 1977.

Foi um sucesso. Mas não durou.

O Jornal da Cesta

Luiz Egypto esclarece os motivos da destituição da coluna. Conta que em 17 de setembro de 1977, Cláudio Abramo foi afastado da direção de Redação da Folha. O cronista Lourenço Diaféria tinha sido enquadrado na Lei de Segurança Nacional porque escrevera, e a Folha publicara, uma crônica sobre um sargento que morreu no zoológico de Brasília ao pular num poço de ariranhas para salvar a vida de um menino. “Prefiro esse sargento ao duque de Caxias. O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. (…) O povo está cansado de espadas e cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal” – escreveu o cronista.

Enfim, Diaféria foi preso e o jornal passou a publicar a sua coluna em branco. Os militares se irritaram e o general Hugo Abreu, então chefe da Casa Militar do governo Geisel, telefonou ao Frias e pediu a cabeça de Cláudio Abramo, que foi alijado da redação. Não havia mais espaço para contestações.

Alberto Dines teve interrompida então a publicação do seu “Jornal dos Jornais”. Também parara de escrever a coluna política, do Rio de Janeiro, na segunda página. Mas continuou na sucursal do Rio onde fui encontrá-lo em 1980 no auge de uma outra crise que nada tinha a ver com o Oriente Médio, ou seja, havia uma segunda preocupação quando o conheci naquela aflita sexta-feira no Rio de Janeiro.

Dines havia retomado seu artigo na segunda página da Folha em 1978. Retirara-se da chefia da sucursal depois da greve dos jornalistas de São Paulo, em maio de 1979, mas mantivera-se como articulista na página dois e assinava com as iniciais, AD.

No entanto, no começo de 1980 alguns de seus artigos começaram a ser recusados. A ditadura continuava em pleno vigor e os nervos seguiam à flor da pele. No auge de uma greve dos metalúrgicos do ABC paulista, no mesmo abril de 1980, Dines escreveu o artigo “São Paulo e os dois Paulos” (referência a Paulo Maluf e d. Paulo Evaristo Arns, cardeal de São Paulo). Não foi publicado. Egypto relata: em seguida escreveu outro, sobre o mesmo tema, com outro título. Não saiu. Insistiu no assunto pela terceira vez; também não saiu. Decidiu então publicar no Pasquim.

O próprio Dines explicou: “Eu era muito ligado ao pessoal do Pasquim, que sempre me perguntava se eu não queria escrever para eles, e tive uma ideia: (…) criei, naquela hora, uma seção, que depois eu continuei, chamada ‘Jornal da Cesta’, com uma frasezinha que atribuí a Shakespeare, porque no Pasquim você podia fazer isso, dizendo: ‘A história da imprensa não se faz só com o que sai publicado, mas com o que vai para a cesta’. Botamos o artigo, paginado como se fosse a página 2 da Folha, escrito embaixo: AD.” O “Jornal da Cesta” virou coluna no Pasquim. Acabou demitido da Folha.

Tudo isso para dizer que seu desejo pela crítica da mídia era incontornável.

Dines fez muitíssimas coisas entre o começo dos anos 1980 e o início do Observatório, em 1996. Voltou à Folha, saiu da Folha, escreveu livros, entre os quais a irrepreensível biografia de Stefan Zweig, dirigiu a revista Exame, da Abril, em Portugal, pesquisou na Torre do Tombo, escreveu em outros jornais, manteve coluna sindicalizada, deu palestras, deu e dá aulas. É um ser humano multicêntrico.

Ninguém se dedicou ao Observatório como ele, onde se espalha muito além do verdadeiro predecessor histórico do ombudsman da Folha que foi. Quando assumi a função de ombudsman, em 1989, a primeira pessoa a qual consultei para saber o que fazer foi o Dines. Antes, reli todos os textos de “O Jornal dos Jornais”.

Na primeira semana no cargo (setembro de 1989) recebi, via correio, um bilhete manuscrito do Dines. No bilhete, a rigor uma pequena carta, ele cumprimentava o jornal pela iniciativa e me dava um conselho inesquecível, daqueles que só pessoas que gostam de você conseguem expressar com clareza: “Não cometa o erro de deixar-se envolver pela ira sagrada ou pela missão salvacionista. Isto custou-me uma dúzia de ferrenhos inimigos sem que eu tivesse conseguido quebrar o bezerro de ouro”.

Sábio conselho. Só que não, como se diz hoje nas redes. Dines exercia nele o estilo faça o que eu mando e não faça o que eu faço. Pois não é que o Dines continuou e continua desrespeitando sistematicamente este conselho com sua ira sagrada e sua eterna missão salvacionista?

Salve o Observatório! Salve o Dines!

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Caio Túlio Costa é jornalista.

Como os jornais e as redes sociais atuaram na retomada do poder pela direita

O jornalismo no Brasil é controlado por empresas familiares.

SObre a servidão moderna,blog do Mesquita

Empresa familiar

 É o que afirma a pesquisa Monitoramento da Propriedade da Mídia (Media Ownership Monitor ou MOM), realizada em conjunto com as ONGs brasileiras Intervozes e Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

De acordo com a publicação, 50% da mídia brasileira é controlada por cinco famílias e se “somados o grupo Estado, do jornal O Estado de S.Paulo; o grupo Abril, da revista Veja; e o grupo Editorial Sempre Editora, do jornal O Tempo, são oito famílias controlando 32 dos 50 maiores veículos, ou 64% da lista.”. (LIMA, José Antônio, 2017).

Tais famílias são também oligarcas em outros setores importantes da nossa sociedade, como bancos, igrejas e faculdades.

“Além de controlar as empresas de comunicação, os proprietários da mídia no Brasil mantêm fundações privadas que oferecem serviços educacionais e empresas no setor de educação. São ativos nos setores financeiro, de agronegócios, imobiliário, de energia e de saúde / empresas farmacêuticas. (…)

A família Macedo, que controla o grupo Record e a Igreja Universal do Reino de Deus, também domina um partido político, o Partido Republicano Brasileiro (PRB), que conta com um ministro no governo federal, um senador, 24 deputados federais, 37 deputados estaduais, 106 prefeitos e 1.619 vereadores. “ (FRONTEIRAS, 2017)

Coronelismo eletrônico

A pesquisa também revelou que apesar da expressa proibição de que políticos controlem empresas de mídia presente na nossa Constituição Federal, “32 deputados federais e oito senadores controlam meios de comunicação, ainda que não sejam seus proprietários formais.” (FRONTEIRAS, 2017).

“Na maioria dos casos, no entanto, os laços entre políticos e meios de comunicação de massa são forjados por meio de estruturas de rede e acordos comerciais em que grandes radiodifusores nacionais sublicenciam sua marca e seu conteúdo para empresas no nível estadual. Esses afiliados atuam como redistribuidores, mas, mais importante, são um veículo de co-propriedade para homens (muito raramente mulheres) poderosos em seus estados e municípios. Em vários estados, as afiliadas das grandes redes são controladas por empresas que representam diretamente políticos ou famílias com uma tradição política, geralmente proprietárias de empresas em mais de um setor da mídia. Como reproduz a concentração da propriedade da terra no Brasil, esse fenômeno é definido, por pesquisadores, como coronelismo eletrônico.” (FRONTEIRAS, 2017).

Coronelismo eletrônico foi o termo cunhado por teóricos da área de comunicação social a fim de caracterizar o uso político dos meios de comunicação por grupos familiares das elites políticas locais ou regionais.

É certo que esse coronelismo eletrônico está alinhado com ideais conservadores de direita. Segundo levantamento realizado pelo projeto Donos da Mídia, que cruzou informações da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), entre os anos 1987 e 2008, “O DEM é o partido que possui o maior número de políticos ligados a empresas de comunicação com 58 parlamentares ou 21,4%; em seguida vem o PMDB com 48 políticos ou 17,71%; em terceiro lugar aparece o PSDB 43 políticos ou 15,87%.” (HAILER, 2015).

O think tank e as fake news

O Partido dos Trabalhadores (PT) governou o Brasil por 13 anos seguidos. Luiz Inácio Lula da Silva elegeu-se duas vezes Presidente da República Federativa do Brasil e governou de 1º de janeiro de 2003 até 31 de dezembro de 2010. Dilma Vana Rousseff iniciou seu mandato em 1º de janeiro de 2011 até o famigerado impeachment em 31 de agosto de 2016.

Durante esse período tivemos uma invasão de organizações estrangeiras ultraliberais no Brasil, em especial a Atlas Network (1), que, de acordo com o seu site oficial, tem parceria com oitenta e duas instituições na América Latina e Caribe, sendo treze apenas no Brasil. O Estado com maior número de parceiros é São Paulo, são cinco ao todo: Instituto de Formação de Líderes, Instituto Liberal de São Paulo, Instituto Ludwig Von Mises Brasil, Centro Mackenzie de Liberdade Econômica e o Students for Liberty Brasil. O Rio de Janeiro conta com três: Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista, Instituto Liberal e Instituto Millenium. A capital mineira, Belo Horizonte, com dois: Estudantes Pela Liberdade e Instituto de Formação de Líderes. Porto Alegre, também dois: Instituto de Estudos Empresariais e Instituto Liberdade. E o último fica em Vitória (ES): Instituto Líderes do Amanhã.

“ (…) em 2006, foi lançado oficialmente o principal think tank da direita no Brasil, o Instituto Millenium. Armínio Fraga (escolhido para ser ministro da Fazenda de Aécio Neves se ele vencesse as eleições) é sua figura mais conhecida no campo econômico. Seus mantenedores são a Gerdau, a editora Abril e a Pottencial Seguradora, uma das empresas de Salim Mattar, dono da locadora de veículos Localiza. A Suzano, o Bank of America Merrill Lynch e o grupo Évora (dos irmãos Ling) também são parceiros. William Ling participou da fundação do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) em 1984, que, formado por jovens líderes empresariais, organiza o Fórum (2) desde a primeira edição; seu irmão, Wiston Ling, é fundador do Instituto Liberdade do Rio Grande do Sul; o filho, Anthony Ling, é ligado ao grupo Estudantes pela Liberdade, que criou o MBL. O empresário do grupo Ultra, Hélio Beltrão, também está entre os fundadores do Millenium, embora tenha o próprio instituto, o Mises Brasil.” (AMARAL, 2015).

Com a popularização da Internet e dos smartphones essas organizações encontraram nas redes sociais o veículo perfeito para propagar seus ideais políticos, através das chamadas fake news. “Levantamento realizado por pesquisadores do Instituto da Internet da Universidade de Oxford mostra que grupos conservadores de extrema direita são os maiores responsáveis pela disseminação de notícias falsas (“fake news”) nas redes sociais.” (RAM e BLOOD, 2018).
O propósito dessas fake news de extrema direita é que grupos ultraliberais divulguem suas teorias, travestidas de notícias, de forma mais ampla, não mais segmentada, alcançando um maior número de pessoas nas redes sociais.
“Antes um território quase exclusivo das esquerdas, as redes sociais têm sido invadidas por uma série de páginas consideradas de direita. Mais que isso, a direita está conseguindo algo que parecia improvável há alguns anos: impor a sua narrativa, não apenas para uma audiência de mais idade, mas também para os mais jovens.” (FUCS, 2017).
Atualmente, o Facebook é a maior rede social do mundo e a mais utilizada entre os brasileiros. De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia 2015, “Entre as redes sociais e os programas de trocas de mensagens instantâneas mais usadas (1º + 2º + 3º lugares), estão o Facebook (83%), o Whatsapp (58%), o Youtube (17%), (…).” (SECOM, 2014).
A maioria desses usuários está em busca de noticias. “76% das pessoas acessam a internet todos os dias, (…). Eles estão em busca, principalmente, de informações (67%) — sejam elas notícias sobre temas diversos ou informações de um modo geral.” (Secom, 2014). O problema é que o conteúdo dessas notícias é muitas vezes falso.

“As notícias falsas tornaram-se a erva daninha que ganhou terreno fértil na era digital. Imitam o estilo jornalístico, mas sem o menor compromisso com a realidade. Ao contrário. São criadas a partir de personagens conhecidos mas com suas falas distorcidas, ou inventadas, para confundir leitores, e amplificar sentimentos de rejeição ao alvo escolhido. Assim, as fake news têm colaborado para piorar a qualidade da política e das relações sociais mundo afora.” (EL PAÍS, 2017).
As notícias falsas tornam-se virais porque os internautas não checam a informação antes de compartilhá-la.
“Estudo realizado pela agência Advice Comunicação Corporativa, por meio do aplicativo BonusQuest, em novembro do ano passado, indicou que 78% dos brasileiros se informam pelas redes sociais. Destes, 42% admitem já ter compartilhado notícias falsas e só 39% checam com frequência as notícias antes de difundi-las.” (GOMES e PEREIRA, 2017)

Hoje, golpes de estado são arquitetados com táticas em manipulação da opinião pública por meio digital.

“Os bots utilizados para a manipulação política também são ferramentas eficazes para fortalecer a propaganda on-line e as campanhas de ódio. Uma pessoa, ou um pequeno grupo de pessoas, pode usar um exército de robôs políticos no Twitter para dar a ilusão de um consenso de grande escala”, afirma a equipe da Oxford. E concluem: “A propaganda informática é agora uma das ferramentas mais poderosas contra a democracia” e é por isso que as plataformas digitais “precisam ser significativamente redesenhadas para que a democracia sobreviva às redes sociais”. (SALAS, 2017).

O lawfare no jornalismo

lawfare, uso da lei para fins políticos, está para o jornalismo impresso assim como as fake news estão para as redes sociais.

Com a Operação Lava Jato, o coronelismo eletrônico encontrou sua arma política. De acordo com o site do Ministério Público Federal “A Lava Jato começou em 2009 com a investigação de crimes de lavagem de recursos relacionados ao ex-deputado federal José Janene, em Londrina, no Paraná.” Mas atualmente está intimamente relacionada a um processo de criminalização do PT e principalmente do ex-presidente Lula. “Levantamento realizado pela empresa Ipsos, especialista em pesquisa de mercado, aponta que o PT é o partido mais associado à corrupção no âmbito da Operação Lava Jato.” (Ferraz, 2017).

De acordo com John Comaroff, especialista em lawfare e professor na Universidade Harvard, a “Operação Lava Jato viola a lei para criar “presunção de culpa” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. O antropólogo ainda “defende a substituição do juiz Sergio Moro para dirimir questionamentos sobre sua isenção nas ações que pesam contra o petista.” E explica que “’Ao vazar conversas privadas, mesmo que envolvam 20 pessoas, se Lula está entre elas, você sabe que é dele que a mídia falará. Isso é ‘lawfare’. Você manipula a lei e cria uma presunção de culpa’” (BILENKY, 2016).

Sem esquecer-se do jogo político, “Comaroff relacionou as denúncias contra Lula ao impeachment de Dilma, que também ‘causou uma grande discussão sobre sua legitimidade, não procedimental, mas política’”. E levantou uma importante questão: “’Quem se beneficia dos ataques contra Lula também é objeto de reflexão, internacionalmente. Não estou julgando, mas há muito questionamento em torno especialmente do papel do Judiciário nesse caso, que parece muito ansioso por condená-lo’”. (BILENKY, 2016).

Veículos do jornalismo tradicional, como Folha de São Paulo, O Globo e Estado de São Paulo deram uma cobertura bastante espetacularizada do impeachment e da Lava Jato, aproximando-se de um jornalismo marrom de propagação de boatos, sem provas e com uso de fontes anônimas.

Textos como “Deus salve a Rainha!” do jornalista Noblat do O Globo traziam trechos como: “Um dia, Dilma não gostou da arrumação dos seus vestidos. E numa explosão de cólera, jogou cabides em Jane. Que, sem se intimidar, jogou cabides nela.” (NOBLAT, 2015).

Estudo realizado pela jornalista Cileide Alves, especializada em política e mestre em História pela Universidade Federal de Goiás, compara os editoriais dos três maiores jornais do país: Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo nas crises de 1964, 1992 e 2016. Neste trabalho utilizaremos o recorte do impeachment de 2016, apenas.

De acordo com o levantamento, o jornal Estadão publicou 83 editoriais e foi o mais duro contra o governo Dilma, Lula e o PT. O jornal publicou editoriais como:

“O asceta de Guaranhuns, em que diz ser ‘notável o atrevimento com que o personagem [Lula], que ficou rico na política, se apresenta como monopolista das mais pristinas virtudes’. (21/1/16). Repete o ataque em 29 de janeiro: ‘Lula sempre foi conhecido pela liberalidade e indulgência com que trata questões éticas’ e em A farsa desmontada (2/2/16), ao dizer que Lula não é o homem honesto que dizia ser. Usa e abusa de expressões como sandices, demagógicos, populistas, truculência, lulopetismo, bolivarianismo, falta de vergonha e histérica (se referindo à presidente). Escreveu que Lula e Dilma vivem “aos berros”. Referiu-se aos militantes petistas e de movimentos sociais pró-governo como “tigrada”; acusou o governo de tentar um “golpe de Estado” com a nomeação de Lula para ministro-chefe da Casa Civil e Dilma de promover uma ‘guerra ao Estado de Direito’ por se dizer vítima de um golpe. Nem de longe a posição editorial do Estadão lembra os cuidados e preocupações de 1992”. (IMPRENSA, 2016).

A jornalista continua e afirma que O GLOBO publicou 29 editoriais e

“Foi igualmente duro na escolha dos adjetivos e no tom dos ataques. Usou bastante as expressões lulopetismo, sempre em tom pejorativo, e bolivarianismo, para definir ideologicamente o governo e o PT. Em 25 de janeiro, afirmou que o governo realizava o ‘projeto de equiparar o Brasil à Venezuela’. Escreveu que ‘impeachment não é golpe’ em mais de um editorial. Lendo esses textos, impossível não lembrar o esforço do Estadão em 1964 para explicar que ‘revolução não era golpe’. Disse que ‘vale-tudo empurra Dilma e Lula para a ilegalidade’ e que a presidente fala de um ‘país imaginário’. (IMPRENSA, 2016).

Por fim analisou os editoriais do jornal Folha de S.Paulo

“A Folha de S.Paulo foi o único dos três que teve uma postura mais próxima da de 1992. Como há 24 anos, também publicou com antecedência um editorial na capa, dizendo que ‘não lhe restará (a Dilma), caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente o cargo que ocupa’ (Última chance, 13/9/15). Em outras palavras defendeu a renúncia como fizera com Collor. E o fez em uma segunda vez em Nem Dilma nem Temer (02/04/16) quando pediu a renúncia da presidente e do vice-presidente Michel Temer. Ao longo do período pesquisado, a Folha, que publica dois editoriais diários, fez duras críticas ao governo e seus aliados em 23 textos.” (IMPRENSA, 2016).

Considerações Finais

Percebe-se que as empresas de comunicação visam o lucro e a defesa dos interesses políticos e econômicos dos seus donos. Sendo assim, o jornalismo vira uma arma política de manipulação da opinião pública.

Conclui-se que, além das fake news, o próprio jornalismo impresso foi propagador de discursos de ódio, contribuindo para o impeachment e para o atual clima de hostilidade e rivalidade política na sociedade brasileira.

Nota-se a importância e oportunidade do tema, aqui apresentado, para outros estudos, inclusive sobre a cobertura da mídia nas próximas eleições de 2018.

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Mirela Araújo Filgueiras é graduada em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade de Fortaleza – Unifor (2007) e Especialização em Teorias da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará – UFC (2009). Tem experiência nas áreas de webjornalismo, assessoria, rádio e televisão. Estuda as relações entre cibercultura e jornalismo.

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NOTAS

1. “Atlas Network (nome fantasia da Atlas Economic Research Foundation desde 2013) é uma espécie de meta think tank, especializada em fomentar a criação de outras organizações liberalistas no mundo, com recursos obtidos com fundações parceiras nos Estados Unidos e/ou canalizados dos think tanks empresariais locais para a formação de jovens líderes, principalmente na América Latina e Europa oriental.” (AMARAL, 2015)

2. 28ª edição do Fórum da Liberdade ocorrido na PUC-RS em 2015, que teve como convidado Alejandro Chafuen, Presidente da Atlas Network.Além de nomes reconhecidos na mídia como da direita no Brasil: Senador Ronaldo Caiado (DEM/GO), o jornalista William Waack (ex-Globo) e Rodrigo Constantino (presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Liberal e ex-blogueiro da revista Veja ex-colunista do jornal O Globo), dentre outros.

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REFERÊNCIAS

AMARAL, Marina. A nova roupa da direita. . Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/politica/a-nova-roupa-da-direita-4795.html>. Acesso em: 22 ago.2017.

BILENKY, Thais. Professor de Harvard vê ‘presunção de culpa’ contra Lula na Lava Jato. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/11/1829175-professor-de-harvard-ve-presuncao-de-culpa-contra-lula-na-lava-jato.shtml>. Acesso em: 21 ago.2017.

FERRAZ, Adriana. PT é o partido mais associado à Lava Jato, diz pesquisa. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,pt-e-o-partido-mais-associado-a-lava-jato-diz-pesquisa,70001872025>. Acesso em: 16 mar. 2017.

FRONTEIRAS, Repórteres sem. Oligopólios de mídia controlados por poucas famílias. A Repórteres sem Fronteiras e o Intervozes lançam o Monitoramento da Propriedade da Mídia no Brasil. Disponível em: <https://rsf.org/pt/noticia/oligopolios-de-midia-controlados-por-poucas-familias-reporteres-sem-fronteiras-e-o-intervozes-lancam>. Acesso em: 16 mar. 2018.

FUCS, José. Estado de São Paulo. A ‘máquina’ barulhenta da direita na internet. Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,a-maquina-barulhenta-da-direita-na-internet,70001714254>. Acesso em: 21 ago.2017.

GOMES, Rodrigo e PEREIRA, Tiago. Divulgação de notícias falsas nas redes sociais pode ter consequências graves. Disponível em: <http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/127/divulgacao-de-noticias-falsas-nas-redes-sociais-pode-ter-consequencias-graves>. Acesso em: 21 ago.2017.

HAILER, Marcelo. Coronelismo eletrônico: partidos contra a regulação da mídia são os campeões de concessão em rádio e tv. Disponível em: <https://www.revistaforum.com.br/digital/179/coronelismo-eletronico-partidos-contra-regulacao-da-midia-sao-os-campeoes-de-concessao-em-radio-e-tv/. Acesso em: 16 mar. 2018.

IMPRENSA, Observatório da. Jornais apoiam o impeachment de Dilma? Disponível em: < http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/jornais-apoiam-o-impeachment-de-dilma/>. Acesso em: 16 mar. 2017.

Noblat, Ricardo. Deus salve a Rainha! Disponível em: <http://noblat.oglobo.globo.com/meus-textos/noticia/2015/04/deus-salve-rainha.html>. Acesso em: 16 mar. 2018.
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RAM, Aliya e BLOOD, David. Ultradireita lidera ‘fake news’ nas redes. Disponível em: <http://www.valor.com.br/internacional/5311355/ultradireita-lidera-fake-news-nas-redes>. Acesso em: 16 mar. 2017.
SALAS, Javier. O obscuro uso do Facebook e do Twitter como armas de manipulação política. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/19/tecnologia/1508426945_013246.html>. Acesso em: 21 ago.2017.
SECOM, Secretaria de Comunicação Social. Presidência da República. Pesquisa brasileira de mídia 2015 : hábitos de consumo de mídia pela população brasileira. Brasília: Secom, 2014. Disponível em: < http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/pesquisa-brasileira-de-midia-pbm-2015.pdf>. Acesso em: 21 ago.2017.

Mirela Araújo Filgueiras

Possui graduação em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade de Fortaleza – Unifor (2007) e Especialização em Teorias da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará – UFC (2009). Tem experiência nas áreas de webjornalismo, assessoria, rádio e televisão. Estuda as relações entre cibercultura e jornalismo.

Frustradas, revistas ficam sem a foto de Lula preso em suas capas

O que resta de uma história quando todos os recursos para manter a atenção foram desperdiçados?*

O que sobra de uma narrativa quando seu ápice chega, mas o suspense se esticou tanto que se esgarçou? O resultado são ecos, gritos dispersos, fragmentos de uma trama cujo arremate não foi nem sombra do que se prometeu até então. Fica o anticlímax, a frustração, o enfado. É isso que se pode conferir nas capas das principais revistas semanais de informação do país neste final de semana, logo após a decisão que sacramentou o destino do ex-presidente Luis Inacio Lula da Silva.

Condenado em duas instâncias judiciais, com negativas de habeas corpus e outros recursos e apelações, o fim da história seria a prisão, o início do cumprimento de uma pena de doze anos e um mês. Popular, controverso, carismático, falastrão, contraditório, amado e odiado, Lula é o maior personagem político do Brasil desde Getúlio Vargas. Sua origem e trajetória pessoal são lembradas e enaltecidas por jornalistas, especialistas e historiadores dentro e fora do país. Nada na vida dele parece ser comum, tudo parece ser superlativo ou extraordinário. É desses que transcendem fronteiras, confundem sentimentos, abalam estruturas e desafiam quem se destina a escolher palavras para descrevê-los.

Isto ÉVeja e Época acompanham o personagem Lula há décadas e a julgar por algumas das capas nos últimos anos, poderíamos esperar uma carnificina midiática nas bancas neste final de semana. Após a derrota no Supremo Tribunal Federal e um ágil mandado de prisão expedido, todas as cabeças se voltaram para os relógios numa contagem regressiva que apontava para um lance espetacular às 17 horas da sexta, 6 de abril. Quando o ex-presidente vai ser preso? Onde? Como? Teremos imagens? Será ao vivo? Vai ter streaming nas redes sociais? Como se sabe, Lula não aceitou a deferência do juiz da 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba, frustrando muita gente, inclusive jornalistas que fechariam as edições das revistas semanais. Sem fotos do ex-presidente se apresentando aos policiais federais, sem imagens que poderiam ser exploradas para humilhar Lula e saciar a malta raivosa que pede sua cabeça, as revistas tiveram que apelar a outros recursos gráficos. Veja veio com uma edição especial sem chamada de texto e com um desenho mostrando o rosto de Lula atrás de grades. Isto É aplicou uma sombra do ex-presidente atrás de grades e a chamada: “Lula Preso — Tremei, políticos corruptos, a sua hora também vai chegar. A esperança venceu a corrupção e, agora, a sociedade espera que Lula puxe a fila dos poderosos condenados à cadeia”. Época apontou os holofotes para o caso Marielle Franco e não trouxe nenhuma palavra sobre Lula…

A erosão do mito em Veja

Uma rápida olhada nas capas de Veja e Isto É mostra como Lula foi do céu ao inferno em poucos anos. Em 29 de outubro de 2014, Veja veio com uma capa em fundo preto mesclando os rostos de Dilma Rousseff e Lula da Silva e a chamada “Eles sabiam de tudo”. Em 29 de julho de 2015, a revista decretava: “A vez dele”. Em 9 de março de 2016, a mesma publicação trouxe “Lula e a Lei”, com o depoimento a partir de sua condução coercitiva. Na semana seguinte, 16 de março, vestiu a cabeça do ex-presidente com serpentes em alusão típica à mitológica Medusa sobre o título “O desespero da jararaca”. Em 21 de setembro do mesmo ano, a cabeça de Lula virou polêmica capa de Veja, agora derretendo e praticamente decepada. Na edição de 26 de abril de 2017, uma foto do político aparece rasgada com um lacônico “Acabou”. Em 19 de julho, Lula aparece preocupado, sustentando o rosto, carimbado com “Culpado”. Em 24 de janeiro deste ano, a revista reúne na capa o ex-presidente e seus algozes do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e a chamada “Lula a um passo do abismo”. Uma semana depois, Veja une duas fotos e força a comparação histórica: Lula, fichado pelo DOPS em 1980, e ele, na atualidade, com uma placa de condenado. “O que falta para Lula ser preso”, promete a revista.

Com uma narrativa como essa, o desfecho natural seria colocar-lhe algemas, vesti-lo com uniforme de presidiário e trancafiá-lo numa jaula. Era o esperado para este final de semana, mas não deu…

De Homem do Ano a sabotador do Brasil

Nas capas de Isto É, a trajetória vitoriosa de Lula despenca em poucos anos. Se na edição de 9 de dezembro de 2009, ele era “o brasileiro do ano” e se em 15 de fevereiro de 2012 era um “mito que se renova”, em 29 de abril de 2016, o ex-presidente e Dilma Rousseff foram tachados de “sabotadores do Brasil”. O “Crepúsculo do Lulismo” foi vaticinado em 15 de abril de 2015, e o “cerco a Lula” em 9 de setembro de 2016. Em 12 de maio de 2017, Isto É afirmaria que o político “Não é inocente”, e em 23 de junho do mesmo ano, faria clara alusão ao Poderoso Chefão dos cinemas com a chamada “A hora da condenação de Lula”. Em 14 de julho de 2017, Isto É perguntou: “Você votaria em um condenado para presidente?” Na edição de 19 de janeiro de 2018 ainda estava em dúvida: “Por que ninguém consegue prendê-lo?” E uma semana depois, tinha todas as certezas do mundo e decretaria: “O cara acabou!”.

Mais uma vez, pode se ver que os narradores foram alimentando uma história de deterioração rápida de um personagem, transformando o herói num monstro, tornando o símbolo de esperança numa figura abjeta, repugnante, cujo desfecho só pode ser um: sua ruína. Era o resultado esperado, imaginado, trabalhado nas capas da revista Isto É. A fotografia do mito algemado e abatido, que poderia colocar um ponto final em sua biografia, não veio…

Essa apoteose foi frustrada porque Lula não executou os movimentos esperados, impondo um novo roteiro às autoridades policiais, à mídia e ao Brasil. Sua presença no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo atraiu uma multidão, dificultando o acesso da polícia e de jornalistas, e vários meios de comunicação recorreram a helicópteros para captar imagens. A negociação para sua entrega fez com que as redações tivessem que reprogramar suas edições (o que é comum no jornalismo), mas também gerou episódios inusitados como a transmissão em tempo real de uma missa-comício e uma explosão na audiência de canais alternativos como Mídia Ninja e TVT, emissora ligada à CUT, desconhecida da maioria do público. Mais uma vez, Lula não só dominou o noticiário, como o pautou, desarmando as certezas dos analistas que se escandalizavam com a insurgência do político. Emissoras tiveram que recorrer a drones e a poderosa Globo reproduziu imagens da TVT. Ao mesmo tempo, as redes sociais faziam circular imagens épicas de Lula cercado por populares, sendo carregado por mãos anônimas, abastecendo a elétrica e caótica indústria de memes.

Contrariando a lógica, uma das imagens que mais circulou no sábado não foi a da prisão de Lula, mas a dele cercado pela multidão numa espécie de abraço coletivo. O flagrante foi feito por um jovem fotógrafo, Francisco Proner Filho, e que saiu até no The Guardian. Uma iconografia muito diferente da esperada pelos narradores do cadafalso de Luis Inácio.

Na noite do sábado (7), após momentos de ansiedade e tensão, Lula cumpriu o mandado judicial. Helicópteros das emissoras de TV, do céu como abutres, seguiram o comboio, fazendo engolir em seco seus apoiadores e fazendo salivar os que rangiam os dentes.

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Rogério Christofoletti é professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS.

As engrenagens da desinformação

Medo e hipocrisia minam combate às fake newsFake News,Blog do Mesquita,Mídia,Imprensa

Publicado originalmente pelo objETHOS.

Não é mais novidade para ninguém que a guerra contra as notícias falsas se converteu na principal preocupação do meio jornalístico. Em todas as partes, surgem iniciativas para checagem de dados e para desmentir declarações e números falsos. Pela primeira vez em muito tempo, a discussão deixou de ser um novo modelo de negóciou um revolucionário software, e os profissionais e as organizações passaram a debater rigor na apuração, verificação de versões e técnicas para qualificarem suas notícias. Por conta disso, cheguei a dizer que as fake news não eram uma notícia tão ruim para o jornalismo, pois nos obrigaram a pensar nossas próprias práticas. Mas passados poucos meses desse diagnóstico, vejo que o combate às notícias falsas corre riscos sérios e eles vêm justamente de quem menos se esperaria, aqueles que declararam guerra às fake news. Dois fatores primordiais contribuem para isso: alguma hesitação em enfrentar o problema e doses generosas de hipocrisia e marketing a envolver certas iniciativas.

Levantamento recente do Duke Reporter’s Lab mapeou 149 empreendimentos de checagem de dados no planeta. Mais de 70% deles estão na América do Norte e na Europa, e só os Estados Unidos contam com 47 projetos do tipo. O Brasil é o segundo país no mundo com mais checadores: 8 iniciativas entre as 15 detectadas na América do Sul. Essa posição privilegiada pode ser resultado de diversos fatores que vão do senso de oportunidade comercial de seus líderes à preocupação genuína sobre a crescente influência ilegítima de bots espalhadores de notícias falsas no debate público. No ano passado, uma pesquisa da GlobeScan já apontava o Brasil como o país mais preocupado com as fake news. O cenário se deteriorou ainda mais nos últimos meses, a ponto de a tradicional pesquisa da Edelman sobre confiança apontar que 75% dos brasileiros temem que as fake news sejam usadas como “armas”. Em um ano, a confiança na mídia local caiu 5 pontos, conforme o estudo, e quase metade dos ouvidos disse não saber em que empresas do setor confiar. Dos 28 países pesquisados, a mídia está em território de desconfiança em 22.

Receio e timidez

Reagir a uma paisagem hostil como esta é necessário e urgente. Iniciativas como Aos Fatos e Lupa têm se mostrado cada vez mais visíveis à medida que oferecem ao público os resultados de suas checagens. É um trabalho importante, útil e procurado, criando terreno fértil para iniciativas regionais, como a recente campanha de financiamento coletivo para aimplantação do Filtro, no Rio Grande do Sul. A exemplo de outras tantas, é um projeto bem-intencionado, com profissionais comprometidos e com nítido interesse público – fazer verificações durante a campanha eleitoral – mas sem base financeira que venha a sustentá-la de forma perene. Essa vulnerabilidade atinge a medula do projeto, pois é determinante para sua criação. Se os recursos projetados não forem arrecadados, o Filtro pode simplesmente não funcionar.

No estado vizinho, outra boa iniciativa surgiu no grupo NSC, que assumiu as operações da RBS em Santa Catarina. O Prova Real se explica como “uma iniciativa de fact-checking e debunking”, o que significa que verifica fatos e faz desmentidos, adotando “metodologia certificada para comparar os ditos com os fatos e classificar quanto ao nível de veracidade”. Segundo a página especialmente criada para o projeto (bastante didática!), “o objetivo é promover a informação correta, e não criar rótulos ou manchar reputações. O Prova Real checa o grau de veracidade de declarações públicas e publicadas, notícias falsas e imagens. Também checa o cumprimento de leis e contratos”. A equipe de jornalistas responsável pelas verificações foi treinada pela Agência Lupa, conta com manual próprio e a iniciativa vai abastecer veículos impressos, online, de rádio e de TV do Grupo NSC, o que é bastante promissor.

Apesar desses esforços, dois detalhes fragilizam a iniciativa, a meu ver. Os conteúdos checados são classificados conforme quatro etiquetas: Exato, Não é Bem Assim, É Chute, Não Fecha. Perceba que o Prova Real não carimba que uma notícia é falsa ou mentirosa, por exemplo. Não se trata apenas de nomenclatura. Um projeto que assume a função de desmentir ou desmascarar dados ou declarações não pode medir palavras quando a informação não condiz com o que foi verificado. Afirmar que um conteúdo é falso é necessário para, diante do público, separar o joio do trigo, e o Prova Real não faz isso, impedido pelas próprias etiquetas que criou e segue.

O serviço de checagem do Washington Post tem uma escala de um a quatro pinóquios para classificar o grau de falsidade dos conteúdos!

Outro fator que reduz o ímpeto da iniciativa é que, ao final das checagens, o Prova Real reproduz o contraponto de quem foi checado. Assim, a última palavra não fica com a equipe checadora, mas com a fonte cuja declaração foi questionada. Foi assim quando o projeto foi apurar fala do governador Eduardo Pinho Moreira sobre número de tornozeleiras eletrônicas em Santa Catarina. Após verificar que a informação “não fechava” – era falsa, portanto! -, o Prova Real publicou no final da checagem “o que diz o governo do estado”. Resumo da ópera: mesmo tendo falado coisas distantes da verdade, o governador ficou com a palavra final. Isso se deu em outras tantas oportunidades, e os veículos da NSC simplesmente abriram mão de atuarem como agentes de certificação das informações corretas, respaldados por suas próprias equipes de checagem.

A meu ver, o Prova Real incorre em dois erros: não afirma com todas as letras que um conteúdo é falso e renuncia à condição de agente certificador da informação. Com isso, expõe desnecessariamente seus profissionais, e não necessariamente separa o que é real e o que não é…

Hesitações como essa reduzem o poder de fogo dos fact-checking. Mas não só.

Em 27 de março, o concorrente Notícias do Dia publicou o editorial “Informação confiável” em que reafirmava seu “pacto” com leitores e assinantes “como antídoto para a propagação das fake news”. Na mesma edição, passou a publicar uma série de três reportagens sobre motivação e prejuízos com as notícias falsas, sobre o papel dos usuários nas redes sociais, e com dicas de como identificar material impostor e como verificar sua autenticidade.

Mostrar como as engrenagens da desinformação funcionam é muito importante e esse gesto alimenta o que os especialistas chamam de media literacy, a educação para um consumo crítico da mídia. Mas, convenhamos, não basta produzir reportagens e escrever editoriais para reduzir as notícias falsas. Se os próprios veículos convencionais contribuem para espalhar mentiras – a exemplo da Folha de S.Paulo no caso Marielle Franco, criticado pela ombudsman do jornal), jornalistas e meios precisam fazer mais para combater as fake news. As redações têm as condições objetivas para evitar publicações falsas e para aprimorar a qualidade de suas notícias à medida que adotam procedimentos mais rigorosos e cuidadosos.

Só piora!

Se estamos mesmo em guerra contra as notícias falsas, hesitação, receio, medo ou bom-mocismo não vão nos ajudar a vencê-las. As dificuldades são muitas para quem quer soterrar informações errôneas e fazer prevalecer as que têm correspondência com fatos e dados.

Notem que a própria noção de fake news é complicada, e vem sendo revista por quem se dedica a pensar sobre o assunto. Claire Wardle, do First Draft, critica a expressão, dizendo que ela não dá conta da variedade e complexidade do fenômeno: não são apenas notícias falsas, há paródias e outras formas de manipulação. Por isso, ela aponta para o que chama de “ecossistema de desinformação”.

O jornalista britânico James Ball, autor de “Post-Truth: how bullshit conquered the world” (Pós-verdade: como a besteira conquistou o mundo), evita a expressão “fake news” e adota “bullshit”, que poderíamos traduzir como besteira, bobagem, e que sinaliza para algo além das mentiras e boatos. Segundo Ball, não são apenas os políticos a espalharem o lixo por aí. Velha mídia, nova mídia, empresas especializadas em produzir material enganoso, redes sociais, plataformas digitais, pessoas comuns, todos ajudam a borrar as fronteiras entre verdadeiro e falso. E serviços de checagem de dados, sozinhos, não solucionarão a questão.

Em regiões mais organizadas, normativas estão sendo pensadas. No início de março, a Comissão Europeia publicou um relatório que encomendou a especialistas para orientar seus países sobre o tema. Não se trata apenas de um diagnóstico do problema, mas também de princípios para ajudar os formuladores de políticas a propor leis e incentivar boas práticas.

Embora haja iniciativas que até automatizem as checagens, o cenário bem distópico. Em levantamento de Aos Fatos, leitores até desconfiam das notícias recebidas por WhatsApp, mas não verificam suas autenticidades, e as coisas só tendem a piorar, já que têm surgido técnicas muitíssimo sofisticadas para manipular áudios e vídeos. A situação é tão complicada que até mesmo o Tribunal Superior Eleitorial – preocupado com as fake news nas eleições deste ano – embarcou em notícia falsa para justificar que está preocupado em combater as tais notícias falsas, conforme conta o jornalista Leonardo Sakamoto.

1º de abril

No momento em que escrevo essas linhas, esbarro numa peça publicitária da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) que mais parece deboche. “Verdade seja dita: a mentira não merece nem mais um dia”, brada retumbante o anúncio que continua: “Nesses tempos de tantas notícias falsas com trânsito livre pela internet, mentira deixou de ser coisa de um dia e virou companheira de todas as horas. Mas, para azar dela, continuamos aqui. Dedicados, diariamente, a estragar essa festa”…

Por alguns segundos, a ANJ esquece que seus associados também estão na internet – nas versões online dos jornais impressos – e que eles também contribuem para um ambiente de confusão informativa. Basta acessar qualquer site jornalístico e ver que, no entorno das notícias, também figuram “links recomendados”, “links patrocinados” e anúncios que emulam a linguagem jornalística. Ora, esses conteúdos são publicidades (mal) disfarçadas, que vendem soluções mágicas para problemas de saúde, que apelam para os instintos mais básicos dos leitores e que só sobrevivem se fertilizarem um ambiente de conteúdos viralizantes. Para sintetizar: as notícias falsas e suas variantes de desinformação contaminaram tanto o ecossistema informativo que são estruturantes de seu modelo de negócio.

Neste sentido, eu vejo com muita desconfiança quando iniciativas de fact-checking ou de promoção de qualidade jornalística são patrocinadas por gigantes da tecnologia, como Facebook e Google. Faz parte do modelo de negócio dessas plataformas gerar, impulsionar e fazer circular os conteúdos com alto potencial viralizante, não importando se eles são verdadeiros, ambíguos ou falsos. Quantos mais cliques, melhor. Quanto mais reações e compartilhamentos, maior o alcance desses materiais, mais pessoas terão acessado seus conteúdos, e a grande roda estará girando, distribuindo centavos aqui e ali.

Veja o caso do projeto Credibilidade. Ele é uma coalizão de empresas jornalísticas para enfrentar o problema da queda de confiança na mídia de forma prática, fomentando discussões nas organizações e formulando práticas e ferramentas que possam ser usadas por seus membros. Capítulo brasileiro do projeto Trust, iniciado na Universidade de Santa Clara nos Estados Unidos, o Credibilidade tem entre seus parceiros nomes de peso como a Folha de S.Paulo e O Globo, e conta com patrocínio de ninguém menos que… Google! É muito importante que os veículos brasileiros estejam juntos e empenhados em aperfeiçoar suas práticas, produtos e serviços, mas por que tal iniciativa precisa ser dependente de recursos de uma corporação de tecnologia que vive à base do tráfego de dados? Por que jornais, revistas e demais meios não investem seu próprio capital para redesenhar seus procedimentos, já que os resultados de tais mudanças irão incidir diretamente em seus negócios? É como se uma rede de supermercados topasse financiar um plano de saúde para as vacas dos pecuaristas de uma região. Com a medida, o leite e o queijo ficariam melhores, mas os criadores conseguiriam vender seus produtos para outros supermercados além da rede patrocinadora?

Trust e seu capítulo brasileiro Credibilidade não são os únicos a padecerem desse mal. O Cross Check, iniciativa da First Draft, que fez um ótimo trabalho de checagem nas eleições francesas do ano passado, é patrocinado pelo Google News Lab! Aliás, o projeto está sendo gestado no Brasil, mas enfrenta dificuldades internas para se impor…

Mas é claro que, no livre mercado, Google pode investir seus milhões onde bem quiser e talvez haja até justificativas de sua responsabilidade pela sanidade do meio digital. Mas por que empresas de mídia não colocam suas fichas nesse jogo também? E mais grave: ao aceitarem uma ajudinha dessas empresas de tecnologia, não ficam dependentes de sua boa vontade de financiamento? Reféns do capital high-tech, conseguirão os veículos de mídia ter independência editorial para cobrir esse setor com rigor e compromisso? Por acaso, você já viu alguma checagem de dados desses veículos sobre Google ou Facebook?

Sejamos francos: plataformas como Facebook e Google não querem acabar com as fake news. Se quisessem, estimulariam conteúdos de qualidade em detrimento de falsidades, mas não fazem isso porque fake news e bizarrices são mais virais que matérias jornalísticas ou informativas. Se quisessem acabar com as fake news, as plataformas restringiriam a dispersão indiscriminada e mudariam seus próprios modelos de negócio, abrindo mão das vantagens financeiras vindas da publicidade mentirosa, da confusão, das manipulações e apelações. Em outras palavras: elas se beneficiam com as besteiras, com a desinformação.

A mesma hipocrisia que sustenta a campanha da ANJ embasa os movimentos das gigantes de tecnologia na cruzada contra as fake news. Não passa de discurso, de estratégia de marketing, de slogans e verbas dispendidas para serem apresentadas em seus balanços sociais. É investimento em imagem tão somente.

A declarada guerra contra as notícias falsas exige mais de profissionais e organizações jornalísticas. Se quiserem mesmo se contrapor ao ecossistema de desinformação, precisarão capacitar equipes, aprimorar procedimentos de apuração, contratar jornalistas especializados, e desenvolver ferramentas e sistemas próprios para desmentir e desmascarar falsidades. Precisarão assumir o protagonismo de certificação dos fatos, refinando seus critérios editoriais e investindo maciçamente em coberturas de qualidade. Não poderão terceirizar suas funções mais básicas de verificação e checagem. Terão que afastar o medo, o marketing e a hipocrisia, e eleger a coragem e o compromisso com o público para produzir jornalismo de qualidade nítida e cristalina. É só a credibilidade do sistema jornalístico que está em jogo. Só.

É preciso arregaçar as mangas e avançar para além do que já foi oferecido. Sim, ontem, foi o dia da mentira, e embora isso desagrade à ANJ, está longe de ser o último.

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Rogério Christofoletti é professor da UFSC e pesquisador do objETHOS.

Cidadania e “Fake News”

Fake News,Blog do Mesquita,Mídia,ImprensaO assassinato de Marielle Franco: a cobertura “palaciana” e fake da Folha e do Estadão*

Passadas quase duas semanas do covarde (e cruel) assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de Anderson Gomes, motorista da parlamentar, é possível refletir criticamente sobre a cobertura dos dois maiores jornais impressos do país (Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo).

Desconheço qualquer investigação jornalística de ambos — nada foi anunciado ou informado aos seus leitores. O rumo da cobertura, passado o momento de comoção nacional e repercussão internacional, parece seguir a dimensão “palaciana” (chapa-branca, no jargão profissional), como havia identificado alguns dias depois a jornalista Paula Cesarino Costa (ombudsman da Folha), em sua coluna de 18/03/2018 (Leia aqui):

“São diversas as dimensões da morte de Marielle Franco: a dimensão palaciana, a dimensão política, a dimensão institucional da democracia, a dimensão policial, a dimensão dos moradores da favela, a dimensão movimento negro, a dimensão LGBT, a dimensão da mulher na política.

Folha parece estar distante de várias delas. Perdeu a dimensão das comunidades, das manifestações, do que se convencionou chamar de voz das ruas. Sem essa voz, ficou — como sempre — no aspecto palaciano, na modorrenta narrativa dos gabinetes de Brasília.”

Com efeito, no dia seguinte à execução de Marielle, a Folha deixara no ar apenas uma reportagem em sua home, intitulada “Assassinato de Marielle mobiliza Planalto para combater desgaste”. Mesmo assim, ouvido pela ombudsman do seu jornal, o jornalista Vinicius Mota, secretário de Redação, avaliava o saldo da cobertura como “positivo”, reconhecendo apenas as “falhas” como a “baixa visibilidade dada ao crime na noite do dia 14 e o pouco destaque na capa do impresso do dia 15”. Do ponto de vista das lacunas do conhecimento jornalístico sobre o caso ou ainda o grotesco erro de avaliação da repercussão mundial, Mota não emitiu uma única palavra.

Ao desprezar as várias dimensões possíveis noticiosas (e humanas) do trágico acontecimento o executivo da Folha refletiu, ao naturalizar que sua cobertura fora “positiva” mais que uma simplória visão de mundo — um estranho tipo de conteúdo jornalístico sem conhecimento. Não se trata apenas de um erro de viés, ditado por uma lente ideológica conservadora. Ora, se das várias dimensões apontadas por Paula Cesarino (dimensão política, institucional da democracia, policial, a dos moradores da favela, do movimento negro, LGBT, da mulher na política) restou apenas a “palaciana”, a Folha abandonou seus leitores à própria sorte, ao sabor das fakes news que ela mesma alimentaria na edição (em papel) de 17 de março.

Samba de uma nota só…

Com igual viés, ditado por um olhar sobre a realidade que não consegue contemplar outras visões na sociedade plenas de legitimidade, seu concorrente O Estado de S. Paulo, três dias após o crime bárbaro, já assumia em editorial intitulado “O assassínio da vereadora” seu papel de porta-voz dos movimentos e correntes políticas à direita, que polarizam com entidades e partidos do campo progressista. Seu ponto de partida elementar foi acusar o “inimigo” comum: “não à toa, o PT tratou logo de explorar o caso”.

Contra todas as evidências de execução, subtraindo a figura pública, bandeiras de luta, compromissos com as lutas das favelas, e em defesa dos direitos da mulher e da comunidade LGBT, o Estadão apresenta um perverso requinte de falsa equivalência, num primor de raciocínio rastaquera. Afirma o editorial (cit.):

“É claro que não se pode pretender, ante a comoção nacional, que o assassínio de Marielle seja tratado como um crime qualquer. Por outro lado, seu caso não pode ser considerado mais importante do que, por exemplo, o assassínio do policial militar Jean Felipe de Abreu Carvalho, de 29 anos, cometido poucas horas depois, na zona oeste do Rio. Jean Felipe estava de folga e foi baleado por assaltantes. Com isso, chegaram a 27 os PMs mortos no Estado do Rio somente neste ano — no ano passado, foram mais de 130 — e nenhum deles teve a notoriedade post mortem da vereadora Marielle.”

No fundo, o diário impresso da Família Mesquita defende uma forma de naturalização da execução de Marielle, buscando desqualificar a mobilização e repercussão, com base no obtuso raciocínio da falsa equivalência, o tratamento igual para casos desiguais. Evidente que o assassinato de qualquer pessoa, seja qual for seu papel na sociedade, deve ser tratado com indignação e busca pela justiça. No caso de Marielle Franco há um conjunto de questões colocadas que não podem ser ignoradas, sob nenhuma hipótese: ela foi assassinada porque é mulher, negra, LGBT, de esquerda e comprometida com os direitos humanos e as reivindicações das comunidades empobrecidas do Rio de Janeiro. Seu assassinato é uma manifestação inconteste do Estado de Exceção que vivemos, na capital carioca, e no país, com o despertar das bestas-feras que comandam uma “operação”, supostamente contra a corrupção, seletiva e ideológica, que já dura quatro anos.

Folha alimenta as fake news

A opção pela cobertura “palaciana” (para usar uma expressão de Paula Cesarino) provocou outro impacto condenável no caso Marielle. Na edição de 17 de março (impressa), o jornal estampou o seguinte título: “Magistrada diz que Marielle tinha elo com bandidos”, com uma linha fina devastadora à memória e reputação da parlamentar assassinada: “Desembargadora diz que Marielle estava engajada com bandidos e é ‘cadáver comum’”. O jornal repercutia, sem apurar minimamente, uma postagem feita pela desembargadora Marilia Castro Neves (TJ/RJ) em rede social.

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Samuel Lima é professor e pesquisador do Departamento de Jornalismo e do Posjor/UFSC. É pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS).

Crise na Imprensa: Guerra perdida

Jornais,tecnologia,Blog do MesquitaQual o peso de vencer uma batalha se a guerra está sendo perdida?

Veículos de imprensa decidiram bater de frente contra Google e Facebook. Para aproximar a relação, os gigantes do Vale do Silício chegaram a sinalizar com parcerias, mas alteração nos algoritmos vai deixar a vida dos noticiários ainda mais difícil.

O faturamento das empresas jornalísticas despencou do patamar dos US$ 90 bilhões para cerca de US$ 50 bilhões nos últimos dez anos, de acordo com um estudo elaborado pela empresa de publicidade GroupM. Enquanto isso, Google e Facebook, juntos, faturaram US$ 117,1 bilhões em publicidade digital em 2017.

O número é mais do que o dobro do registrado há cinco anos, segundo a consultoria PwC. Mas o que poderia ser um visto como um feito para as duas companhias de tecnologia foi a gota d’água para grande parte das empresas de mídia.

Mesmo antes do fim de 2017, a organização News Media Alliance — que reúne quase 2 mil empresas de mídia de EUA e Canadá, incluindo jornais como The Washington PostThe Wall Street Journal e The New York Times — foi ao Congresso americano pleitear uma autorização para negociar diretamente com Google e Facebook. A alegação era que os dois gigantes do Vale do Silício usam e distribuem o conteúdo de qualidade criado pelas companhias de mídia, sem qualquer contrapartida.

Coincidência ou não, a pressão provocada pelo grupo que representa as publicações teve reflexos. Após a reclamação, as duas empresas californianas anunciaram uma série de medidas que, de alguma forma, até poderiam estar sendo preparadas para a implementação, mas, naquele momento, serviram como um contra-ataque às críticas dos veículos de imprensa. A primeira delas foi tomada pelo Google ao acabar com a política do “primeiro clique grátis”.

Conhecido pela expressão inglesa first click free, desde 2005, o Google exigia que sites de notícias disponibilizassem um determinado número de artigos grátis aos leitores que chegassem ao portal dos veículos através do buscador do Google. Isso permitia, por exemplo, acesso ao conteúdo, mesmo em sites cuja cobrança por leitura estivesse em vigor, o chamado paywall de notícias. Mas, aos poucos, as queixas foram aumentando, até que a empresa de Cupertino encerrou a prática no ano passado. Sendo assim, ponto para a mídia online.

Combate às fake news para valorizar a imprensa

E os motivos para os jornais e revistas comemorarem não pararam por aí. Em agosto, a empresa do americano Mark Zuckerberg convidou os veículos para fazer o upload de suas logomarcas para que usuários identificassem, logo no link, a origem da informação. A estratégia visava combater fake news, que tanto colocaram o Facebook em cheque pela postura passiva que teve durante as eleições americanas, em 2016, quando uma enxurrada de informação falsa circulou na News Feed de usuários. Paralelamente, a empresa também resolveu desenvolver algoritmos para reconhecer notícias compartilhadas por robôs — artifício muito utilizado na viralização de fake news — para facilitar a exclusão de conteúdo falso.

O Google também entrou para o time de combate às notícias mentirosas. Resolveu criar um selo para indicar publicações confiáveis e mudou as regras para evitar que sites propagadores de boatos continuassem a lucrar com o AdSense — o serviço de publicidade da empresa.

Da euforia à depressão: os jornais perdem um de seus maiores canais de distribuição

Nas redações mundo afora, o estreitamento da parceria de Google e Facebook com os veículos de mídia era motivo de empolgação, uma vez que jornais e revistas vinham ganhando uma “batalha” importante contra as “gigantes do Vale”. Só que tudo começou a voltar à estaca zero no final de outubro. Argumentando que se tratava de um teste, o Facebook decidiu fazer uma alteração nos algoritmos de quem usava a rede social na Bolívia, Guatemala, Eslováquia, Sérvia, Sri Lanka e Camboja. Nos seis países, na News Feed tradicional sobraram apenas posts de amigos e familiares, além de anúncios.

A consequência disso foi uma queda brutal no alcance orgânico das fanpages de marcas e, claro, de veículos de imprensa. O impacto pode ser sentido na queda do engajamento de usuários em relação às notícias e, consequentemente, no tráfego vindo da rede social para os sites de cada veículo.

Para ilustrar isso, o jornalista eslovaco Filip Struhárik postou um gráfico no qual mostra interações em 60 fanpages da Eslováquia antes e depois da atualização. Os dados evidenciam que as páginas tiveram quatro vezes menos interações (comentários, curtidas e compartilhamentos) após a mudança.

Gráfico mostra interações em 60 fanpages da Eslováquia antes e depois da atualização. (Fonte e crédito: CrowdTangle/Filip Struhárik)

Questionado por Struhárik, o chefe de News Feed do Facebook, Adam Mosseri, respondeu, na época, que a mudança era apenas um teste e que não havia planos de lançar a novidade em outros países. O problema é que o teste passou para a fase 2: a implementação — e no mundo. A alegação para tal atitude, segundo especialistas, é que foi uma tentativa de combate ao fenômeno das notícias falsas.

Não é difícil prever que, com as mudanças promovidas por Zuckerberg, os jornais já perderam, no caso dos primeiros seis países, e vão perder, no mundo, um dos principais canais de distribuição de notícias. A partir de agora, captar a audiência presente na rede social não só ficará cada vez mais difícil, como também mais custoso, pois será preciso pagar por impulsionamentos para levar notícias às timelines dos leitores. E, caso não haja investimento para isso, os mais de 2 bilhões de usuários vão ter menos informação de qualidade na rede social.

Censura do Google?

Já o Google, segundo um relatório publicado, em outubro, pela World Socialist Web Site (WSWS) — um site de notícias com viés socialista — tornou mais difícil encontrar sites de esquerda no buscador mais famoso do mundo. A mudança ocorreu depois de uma alteração nos algoritmos da empresa americana, que visava combater as fake news. Só que a alteração — sob o conhecimento da companhia ou não —, ao mesmo tempo, tornou menos relevante o conteúdo de sites menores de esquerda que falavam, por exemplo, sobre temas progressistas, ações anti-guerra e direitos humanos. Segundo a WSWS, os índices de busca no Google tiveram um declínio de mais de 60% após a mudança.

A empresa se defendeu alegando que o principal objetivo da mudança era permitir que a companhia tivesse um controle maior na identificação de conteúdos “questionáveis”. Neste caso, os jornais e revistas mais conhecidos e acessados passaram ilesos às alterações promovidas pelo Google, mas o exemplo escancara o quanto uma empresa consegue ditar o ritmo do tráfego mundial sem fazer esforço.

Em meados do ano passado, Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e do Fórum Mundial de Editores, declarou que entre 40% a 50% dos usuários consomem informação digital a partir do duopólio Google-Facebook. O número é alto e incomoda qualquer veículo. O caminho para reverter isso é sinuoso, seja criando modelos de assinaturas mais atraentes, seja desenvolvendo qualquer outra estratégia que ajude o jornalismo a ficar mais independente das redes. O tempo urge, já que, apesar de batalhas vencidas, a “guerra” parece cada vez mais perdida.

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Renan França é jornalista, e foi repórter de O Globo e das revistas Exame e Veja Rio