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Roma: “No fim das contas, os fascistas nunca desapareceram”

Capital italiana reflete caos social e político do país, com resquícios do passado na arquitetura e nas cabeças. E quando Salvini adota retórica ultradireitista, nostálgicos do fascismo se sentem cada vez mais à vontade.    

Estátua de homem no Foro Italico de RomaForo Italico, ex-Foro Mussolini, evoca tempos de política ameaçadora

“As pessoas aqui não estão interessadas em entender o que está acontecendo em torno delas, elas só querem viver a própria vida”, diz o proprietário Pietro Di Placidi, fumando um cigarro à sombra da Hostaria Lo Sgobbone, mantida por sua família no bairro Flaminio, em Roma.

Assim como outros residentes críticos desse distrito construído durante o regime fascista (1922-1943), ele acredita que uma mistura de individualismo, cultura arraigada e complexas estruturas de poder estão entravando uma mudança positiva na capital italiana.

As principais reivindicações dos romanos, sob a prefeita Virginia Raggi, do antissistema Movimento Cinco Estrelas, são infraestrutura eficiente e sistema de coleta de lixo eficaz. Em julho, médicos alertaram sobre os riscos de saúde decorrentes da continuada emergência de resíduos, que também afetou zonas mais abastadas do norte da metrópole, como Flaminio.

Como costuma ocorrer em Roma, o bairro é uma mistura de épocas diferentes. Por um lado, abriga dois locais culturais de ponta: o complexo Parco della Musica, projetado por Renzo Piano, e o MAXXI (Museu Nacional de Arte do Século 21), de Zaha Hadid.

Italien Rom Spuren des Mussolini-Faschismus (DW/S. Matalucci)Dono de restaurante Pietro Di Placido critica relação de compatriotas com realidade italiana

Contudo Flaminio também está pleno de arquitetura fascista e racionalista. Para parte dos moradores, retornar ao passado é um modo de encontrar resquícios de glórias antigas em tempos adversos.

Umas centenas de metros afastado do restaurante Lo Sgobbone, vê-se o Obelisco a Benito Mussolini, com “Mussolini Dux” ainda gravado no mármore branco. O monumento de 17 metros de altura se localiza perto de uma rua popular, por onde centenas de transeuntes passam todos os dias. A apenas três minutos a pé, está Foro Italico, o estádio da cidade, denominado Foro Mussolini durante a era fascista.

O debate sobre se as autoridades deveriam intervir para remover a gravação do obelisco, é recorrente. Alguns até já propuseram demolir o complexo esportivo. Ali foi celebrada a lenda do tênis Rafael Nadal como “Imperador”, em maio, após vencer seu nono título.

Obelisco Mussolini em RomaDizeres “Mussolini Dux” no obelisco são pedra no sapato de muitos romanos – e motivo de orgulho para outros

“Não creio que derrubar monumentos ou obras arquitetônicas de valor vá nos proteger do fascismo ou do neofascismo”, duvida Alessandra Tarquini, docente de história contemporânea na Universidade La Sapienza. “Se é praticável, podemos pô-los em museus, se não, como no caso do Foro Italico ou da EUR [outro bairro erguido durante o fascismo], devemos deixá-los onde estão.”

Edifícios fascistas são encontrados por todo o país. Em julho, Roberto Canali, prefeito de extrema direita de Predappio, no centro da Itália, local de nascença de Mussolini, anunciou plano de abrir a cripta do ditador aos turistas durante todo o ano. No momento, os visitantes, em grande parte neofascistas, só podem visitar o local três vezes por ano. Canali alega que a medida ajudaria o comércio local.

“Não acho que o que estamos vivenciando na Itália, no nível político, seja fascismo”, avalia Tarquini. “Os políticos atuais me parecem populistas de direita, comprometidos em defender um mundo que não existe mais, preocupados em perder a identidade, soberania e poder aquisitivo.”

Benito Mussolini em 1945Benito Mussolini governou a Itália de 1922 até sua morte, em 1945

Nos últimos meses, fizeram manchete em Roma diversos crimes relacionados ao radicalismo de direita. Em junho, um homem do Gâmbia teve que ficar hospitalizado um mês, após ser agredido no centro da capital por dois homens ligados à ultradireita.

Em 7 de agosto, o torcedor de futebol Fabrizio Piscitelli – autoproclamado fascista conhecido como “Diabolik” ou “rei do ultras de extrema direita” –, foi abatido a tiros num parque do sudeste da cidade. Nos últimos 12 meses, grupos militantes têm repetidamente pichado slogans como “Fascismo vive” nos escritórios do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda.

“Fato é que [o ministro do Interior Matteo] Salvini não é um fascista”, afirma Tarquini. “No entanto, quando um membro destacado do governo, como Salvini, usa o léxico fascista, dando uma piscadela para o eleitorado radical de direita, é provável que os saudosistas do fascismo se sintam mais livres para expressar suas opiniões.”

Stefano Moreschini, dono de uma banca de jornais em Flaminio, não tem os calendários de Mussolini tradicionalmente vendidos na capital italiana no fim do ano. Entretanto ele compra e vende discos com discursos do ditador, velhas canções fascistas e música de Richard Wagner, assim como revistas ultradireitistas.

Revistas e discos sobre temas fascistas e nazistasDe revistas a hinos patrióticos e música de Wagner, não faltam suvenires para os saudosistas nazi-fascistas em Roma

“Há muitos nostálgicos nas vizinhanças. Não só os mais velhos, mas também quarentões. Eles reagem desse jeito porque a política nacional tornou o país irreconhecível”, explica Moreschini, acrescentando que diversificou a oferta de sua banca para incluir suvenires fascistas por causa da queda de faturamento.

“Uns anos atrás, eu vendia 150 exemplares do [jornal publicado em Roma] Il Messaggero, agora são uns 50. Mas sempre vendo todas as cópias do Primato Nazionale“, relata, referindo-se ao jornal mensal de extrema direita nacionalista fundado em Milão há seis anos.

Não é possível prever se pode ocorrer um retorno dos fascistas, mas está claro que as atuais fragilidades políticas, associadas a emergências regionais e a claudicante economia italiana, estão aumentando a visibilidade das ideias ultradireitistas.

“No fim das contas, os fascistas nunca desapareceram de verdade”, pontifica Pietro Di Placidi, enquanto limpa a Hostaria Lo Sgobbone, depois que a freguesia da hora de almoço se foi.

Deus Vult,Extrema Direita,Política,Blog do Mesquita

Deus vult: uma velha expressão na boca da extrema direita

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Foto Agência Pública BRUNO FONSECA

Historiador Paulo Pachá explica conceitos ligados às Cruzadas que contagiaram bolsonaristas

“Deus vult”, expressão do latim que em português significa “Deus quer”, vem estampando camisetas, textos, tatuagens e tweets da extrema direita mundial desde que Donald Trump resolveu se lançar candidato à presidência dos EUA, em 2016. O termo, que data do início do milênio passado (1095), faz referência ao grito do povo em resposta ao papa Urbano II, quando do anúncio da Primeira Cruzada pelo pontífice, explica Paulo Pachá, professor de história medieval da Universidade Federal Fluminense (UFF) nesta entrevista à Pública.

Pachá, autor do artigo Por que a extrema direita brasileira ama a Idade Média europeia, avalia que esse discurso medieval envolve uma série de preconceitos como racismo, homofobia, islamofobia e machismo. “Essa Idade Média aparece como um passado idealizado por esses grupos, onde você teria uma sociedade que é majoritariamente, se não exclusivamente, branca, cristã e patriarcal.”

No Brasil, essa referência cruzadista tem sido utilizada por bolsonaristas na esteira da direita alternativa norte-americana, também conhecida como alt-right. “Está decretada a nova cruzada. Deus vult!”, comemorou no Twitter o analista político Filipe Garcia Martins quando da vitória de Bolsonaro. Aluno de Olavo de Carvalho e atual assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Martins escreveu durante a posse: “A nova era chegou. É tudo nosso! Deus vult!”.

Além dele, outros apoiadores bolsonaristas têm feito uso da expressão. “Precisamos de um São Bernardo de Claraval [abade encarregado pelo papa de pregar a Segunda Cruzada] para animar novas Cruzadas. CHEGA”, escreveu o tuiteiro e youtuber Bernardo P. Küster, após ataques de terroristas muçulmanos contra cristãos no Sri Lanka em 21 de abril deste ano.

A produtora Brasil Paralelo, por exemplo, autora do documentário que relativiza o golpe militar, 1964 – O Brasil entre armas e livros, produziu recentemente uma série documental chamada Brasil – A última Cruzada, na qual apresenta uma interpretação de personalidades e pesquisadores de direita sobre a história brasileira. Também o portal Senso Incomum publicou no início de abril o podcast “Deus vult – As Cruzadas salvaram o mundo”, narrado pelo influenciador digital Flávio Morgenstern.

Apesar de estudar um período longínquo, Pachá acredita que “o discurso sobre o passado não é inócuo, ele tem consequências no nosso presente” e explica a seguir esse fenômeno que avalia não como revisão, mas sim negação da história e da ciência.

Vemos recorrentemente no discurso da extrema direita referências às Cruzadas e a uma “nova Cruzada” que estaria ocorrendo hoje. O que eles querem dizer com isso?

Paulo Pachá é professor de história medieval da Universidade Federal Fluminense.
Paulo Pachá é professor de história medieval da Universidade Federal Fluminense. ARQUIVO PESSOAL
A primeira coisa é entender qual é o papel da Cruzada ou dessa nova Cruzada no pensamento da extrema direita, que é semelhante no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. Isso vem aparecendo de maneira congruente, o que é um pouco assustador.

Essas ideias de Cruzada e de Idade Média têm a ver com uma visão bastante idealizada e bastante parcial do que foi o período. O que atrai esses grupos é pensar que foi um tempo patriarcal, branco e cristão. Essa Idade Média nunca existiu, mas tem esse papel no pensamento desses grupos.

As Cruzadas são especialmente exaltadas porque são um momento no qual esses três elementos [patriarcal, cristã e branca] estão muito bem representados. Nessa visão das Cruzadas, você teria um movimento bélico liderado por um grupo visto como majoritariamente masculino; um elemento que envolve a questão religiosa — as Cruzadas como primordialmente um conflito religioso entre cristianismo e islamismo — e, além disso, a ideia de uma disputa plurissecular entre Ocidente e Oriente.

Recuperar as Cruzadas é desenvolver [uma narrativa sobre] como esses três elementos desempenharam papel fundamental durante a Idade Média. Você teria uma defesa da religião cristã contra o islamismo, um movimento militar — e, aí, todas as características de masculinidade, de virilidade, de força — e essa questão Oriente versus Ocidente, que leva à construção de uma ideia de civilização ocidental.

Pergunta. O que de fato são as Cruzadas?

Resposta. As Cruzadas são um processo histórico extremamente complexo. A princípio, quando se fala em Cruzadas, se fala do movimento que envolve a retomada de antigos territórios do Império Bizantino, mas há uns 20, 30 anos outros movimentos de expansão cristã também vêm sendo enquadrados por historiadores como parte disso, como, por exemplo, a chamada Reconquista, na península Ibérica.

Então a Cruzada foi parte do processo de expansão da cristandade. Isso é diferente da ideia de um movimento de expansão do cristianismo. Essas coisas não estão diretamente vinculadas. A gente pensa na sociedade da cristandade como um todo maior, onde um elemento muito importante é o cristianismo, mas não necessariamente ele é o elemento central, que possa ser isolado dos demais.

A gente costuma ver isso sobre a Primeira Cruzada, que é mais requisitada por esses grupos e talvez a mais famosa de todas. E como esses grupos apresentam a Primeira Cruzada? Como um movimento pregado pelo papa Urbano II e promovido pelos grandes aristocratas [senhores] “europeus” — entre aspas — para defender o Império Bizantino contra o avanço muçulmano e “reconquistar” Jerusalém.

O problema é que essa é uma forma extremamente simplificada e bastante danosa de observar qualquer processo histórico, mas mais especificamente esse. O que esse tipo de visão ignora? Não existe consenso historiográfico sobre um movimento de expansão muçulmana intenso e centralmente dirigido. Existe, sim, uma longa guerra entre bizantinos e muçulmanos que dura várias décadas, nas quais houve momentos de expansão bizantina e momentos de expansão muçulmana.

A perspectiva bizantina também fica completamente ausente da narrativa da extrema direita. Você tem uma disputa claríssima, durante as Cruzadas, entre cristãos católicos [da Igreja Católica Apostólica Romana] e bizantinos [da Igreja Ortodoxa Grega], inclusive com conflitos militares em determinados momentos.

Outra coisa que fica perdida [nessa narrativa da extrema direita] é a questão do antissemitismo. A gente vai ter, nesse momento da Primeira Cruzada, massacres de comunidades judaicas pela Europa. Você tem um momento de efervescência religiosa cristã na qual uma das manifestações é a Cruzada e uma outra manifestação, o antissemitismo.

P. Por que você diz “europeus”, entre aspas?

R. Porque ainda não existia Europa nesse período. Falar em povo europeu durante a Primeira Cruzada não faz nenhum sentido, pois as pessoas não se reconheciam como europeus. E quando a extrema direita fala em povo “europeu” ela coloca [dentro disso] o povo bizantino, que tampouco se reconhecia como parte do mesmo grupo. O que se pode falar é de cristandade, um grande grupo que professava a religião cristã, mas mesmo dentro disso a gente vai ter divisões. Essa suposta unidade absoluta do cristianismo na Idade Média é falsa. E ainda dentro desse território a gente vai ter inúmeras outras religiões, além do cristianismo.

P. Você diz que na Europa a ideia de identidade única europeia nunca existiu, mas ao menos há uma proximidade geográfica e histórica. No Brasil, faz algum sentido essa percepção de que o Brasil também é fundado por essa sociedade que era branca, cristã e patriarcal?

R. Eu diria que não. A ideia de civilização ocidental é uma construção conceitual, que tem de fato uma origem na Europa e olha para esse passado “europeu” e constrói essa ideia de uma sociedade idealizada. Isso nunca existiu na Europa, e a civilização ocidental é ela mesma uma construção. Se faz sentido esses grupos da extrema direita brasileira requisitarem o seu lugar nessa civilização ocidental, recorrendo a um suposto direito de origem, via o nosso vínculo com Portugal? Eu diria que não, isso não faz sentido nenhum do ponto de vista histórico.

P. A partir de quando esse discurso passou a ser usado pela extrema direita?

R. É uma questão difícil de ser respondida. Esse fenômeno da extrema direita não está ainda bem estudado. No Brasil, talvez nos últimos dez anos, temos uma junção de certos grupos que até então estavam bastante separados. Por exemplo, quem é que recorre a essa narrativa idealizada sobre a Idade Média? Grupos cristãos conservadores. Então a Idade Média vai ser uma referência para esses grupos. Monarquistas vão tomar esse período como uma referência positiva também. Conservadores, de uma maneira geral.

A gente começa a ver hoje grupos se opondo ao Iluminismo, por mais absurdo que isso pareça, e nesse movimento de oposição volta a visão idealizada da Idade Média.

Mas quando isso começa a acontecer é difícil saber, já que a Idade Média sempre foi alvo de disputa entre agentes diversos. A própria criação de uma ideia de Idade Média está envolvida numa relação entre determinado presente e seu passado imediato. O termo “Idade Média”, que por si só já é pejorativo, nasce de uma necessidade de negativar o passado medieval para positivar um presente que se apresentava como renascimento. E aí, ao longo dos séculos XVIII e XIX, a gente vai ter um resgate, uma nova positivação da Idade Média com o romantismo, por exemplo. Então a Idade Média está sempre sujeita a ser apropriada e reapropriada de acordo com as demandas do presente.

P. Como esse discurso de idealização da Idade Média é adaptado à realidade do Brasil?

R. Isso é interessante, porque a princípio parece um contrassenso que a Idade Média desempenhe um papel tão central no debate político do Brasil. Mas isso começa a ficar mais claro, mais razoável, quando a gente pensa em como a identidade brasileira se construiu e vem sendo desenvolvida por grupos conservadores. A ideia, aqui, é pensar que o Brasil é essencialmente europeu; que, por ter sido colonizado por Portugal, de alguma maneira essa identidade europeia chega até o Brasil e se desenvolve aqui também.

O curioso é que justamente não tem nenhuma grande diferença na forma como isso é colocado na Europa, nos EUA e no Brasil, porque a ideia é de que o Brasil, ou pelo menos uma parte dele, é “branca”. Essa parte seria europeia, então ela também tem esse vínculo com a Europa medieval via Portugal. Essa ideia aparece de maneira escandalosamente clara em um texto do atual chanceler Ernesto Araújo, no qual ele fala com todas as letras que o Brasil é uma realização de Portugal e, portanto, a gente não poderia esquecer nosso berço. Eu não estou citando exatamente o que ele falou, mas o sentido é esse.

P. Você chega a citar no seu artigo a série de vídeos do Brasil Paralelo “Brasil – A última Cruzada”. Seria um pouco nessa lógica de que o Brasil foi a última Cruzada, a conquista final de certa forma?

R. Aquele vídeo do Brasil Paralelo é supostamente um documentário sobre a história do Brasil. No entanto, o primeiro episódio é uma história da Europa, principalmente uma história da Europa medieval. O principal ali, a ideia-chave, é a questão da civilização ocidental. A Grécia clássica é mencionada, a Roma antiga é mencionada. Daí a gente fecha na questão da Europa, em que tem uma parte sobre expansão islâmica, para fechar então na península Ibérica e depois progressivamente em Portugal, que é a assim chamada Reconquista. Então a ideia é — e eles estão embarcando nisso — que a chamada Reconquista na península Ibérica seria uma Cruzada. Então, essas questões sobre as Cruzadas no Mediterrâneo oriental teriam acontecido também na península Ibérica, e Portugal seria parte disso.

Uma vez posta em movimento essa expansão, que no documentário é vista primordialmente como uma expansão da fé cristã, os movimentos de expansão marítima e conquista colonial seriam parte dessa mesma lógica. A colonização do Brasil não aparece lá como um processo histórico extremamente complexo que envolve diversos elementos. Aparece primordialmente como um processo de expansão da fé cristã. E essa expansão também daria as bases para essa percepção de identidade europeia.

P. Quando a extrema direita recupera referências da Cruzada, como a expressão “Deus vult”, é sempre numa perspectiva de guerra. No episódio das Cruzadas, a guerra seria contra o islamismo. Mas, no Brasil, qual seria a ameaça contra a qual eles estão lutando quando usam essas referências?

R. Isso aí talvez seja a questão mais interessante, porque não faz sentido a gente pensar em islamofobia no Brasil. Se a islamofobia em outros lugares do mundo está associada a um contato muito intenso com populações que professam o islamismo, isso — infelizmente inclusive — não é uma realidade no Brasil. Não há esse fluxo migratório tão grande de uma população que professe o islamismo. Isso sempre me pareceu uma questão bastante curiosa. Contra quem? Quem é esse inimigo construído? Se essa narrativa sobre a Cruzada parte de uma suposta oposição entre Oriente e Ocidente, entre cristianismo e islamismo, como isso pode ser trazido para o Brasil e frutificar?

Uma hipótese que me parece correta é que essa questão no Brasil tem mais a ver com a esquerda. Por motivos variados, a gente tem, ao longo da segunda metade do século XX, a construção de certo modelo de solidariedade entre a esquerda brasileira e a Palestina. Isso em algum momento ganhou certa solidez e passa a ser visto como uma coisa mais ou menos automática. Um caminho para explicar essa ideia é pensar que falar contra o Islã, no Brasil, seria de certa forma falar contra a esquerda. Tem muitos elementos que vão entrar no meio desse bolo, e é difícil pensar como eles se encaixam, mas claramente existe uma relação. O maior é essa aproximação recente da extrema direita com Israel, que vai colocar a gente justamente nesse contexto do massacre perpetrado pelo Estado de Israel em cima da Palestina.

P. Se no Brasil a questão do Islã é menos presente, na Europa isso é bem presente com as imigrações. Eles enxergam que há uma nova expansão do Islã e o cristianismo precisa rebater isso de alguma forma?

R. Essa questão é bastante presente na retórica da direita europeia e, de maneira um pouco diferente, na retórica da direita norte-americana também. E é o tipo de ideologia que, por exemplo, fundamentava o atirador deste último massacre na Nova Zelândia. A ideia, por mais absurda que seja, é de uma substituição populacional, onde essa população “efetivamente” europeia estaria sob ameaça, agora não mais através de uma expansão militar, mas da imigração.

No Brasil, isso não faz sentido. O Brasil recebe um número ínfimo, ridículo, de imigrantes. Mas a gente teve um momento de emergência, com mais ênfase, dessa questão antimigratória com a crise da Venezuela. A gente assistiu a vários episódios de ataques contra imigrantes, e por aí vai. Há um tempo teve uma pesquisa que mostrou que o brasileiro tem uma percepção de que o Brasil recebe muito mais imigrantes do que efetivamente recebe, e isso também existe na Europa.

Então eu não acho que essa retórica anti-imigração seja diretamente aplicável ao Brasil, o que não quer dizer que a gente não tenha nenhum evento disso acontecendo, ainda que pequeno.

É que determinadas questões que são centrais para Europa a extrema direita brasileira tenta de alguma maneira trazer pro Brasil. Mas isso importa pouco, porque a retórica pode ser a mesma.

Eu analisei que vários memes brasileiros têm uma retórica islamofóbica e anti-imigração, que não faz sentido no ponto de vista brasileiro, mas não importa, porque tem certa unidade político-ideológica entre esses grupos de maneira global. Talvez isso seja o mais assustador desse desenvolvimento.

P. Além dessa islamofobia e xenofobia, esse discurso esbarra em algum outro preconceito quando ele combate a esquerda?

R. Com certeza. Acho que essa visão sobre as Cruzadas dá um tom de se associar a uma ideia de cristianismo, não mais a um cristianismo medieval, mas a um cristianismo brasileiro, onde você vai ter católicos conservadores e evangélicos no mesmo barco. E aí a pauta moral, dos costumes, tem muita força dentro disso.

Há essa representação da questão da masculinidade, das Cruzadas sendo vistas como um evento essencialmente militar, que envolve toda uma ideia de virilidade. Então, uma coisa que vai ser expressa por esses grupos é a homofobia. De maneira clara, explícita. Eu comecei há mais ou menos um ano uma pesquisa sobre como comunidades brasileiras no Facebook produzem memes sobre a Idade Média. Nos EUA é mais comum, há uma maior quantidade, mas isso existe no Brasil também. E todas as questões que a gente vem desenvolvendo aparecem aí. A centralidade dessa ideia de Cruzada e a homofobia explícita. Há uma ideia de que na Idade Média existiam, entre muitas aspas, “homens de verdade”, e agora não mais. A ideia de que a nossa sociedade estaria fragilizada para combater qualquer tipo de ameaça bélica é um elemento central desses memes.

A outra questão que também vai ser um alvo claro para esses grupos é o feminismo. Esses grupos vão numa versão parcial e absurda da Idade Média e procuram um passado idealizado. Para eles, na Idade Média os homens eram viris, eram efetivamente masculinos, poderosos, podiam defender a sociedade. E as mulheres eram, entre muitas aspas, “mulheres de verdade”, mulheres que eram submissas aos homens, que estavam preocupadas em cuidar da família. Isso reaparece nesses memes.

E um outro elemento, talvez mais importante fora do Brasil, mas que aqui vem crescendo de maneira clara, é a questão do racismo. A visão da Idade Média — que não só esses grupos, mas que de maneira geral o senso comum tem — é a visão de um mundo de pessoas brancas. Todas essas formas de opressão contra minorias vão voltar à Idade Média para encontrar lá um passado que nunca existiu, uma sociedade que nunca existiu, e usar isso como forma de legitimar determinados pensamentos no presente e projetar uma ideia de sociedade no futuro.

P. A gente vê muito nas redes sociais, mas isso chega à vida real? Que perigos esse discurso carrega?

R. Acho que é extremamente perigoso. Acho que hoje em dia a gente não pode mais ter a visão de que um discurso que aparece na internet e nas redes sociais está necessariamente restrito à internet e às redes sociais. A gente já teve vários exemplos de como as redes sociais, ainda que estejam restritas a uma parte menor da população, têm um discurso poderoso. E tem um discurso que, existindo nas redes sociais, aparece em outros âmbitos da sociedade. Se está nas redes sociais, pode aparecer na televisão, nas escolas e em comunidades variadas, nas igrejas etc. Acho que o fato de um discurso estar, inicialmente, na internet não deveria ser um conforto.

P. Já que você falou de escolas, no discurso dessa extrema direita há também um ataque à maneira como a história nos é ensinada nas escolas, no ensino básico. Na sua opinião, a história medieval ensinada no currículo básico é a ideal?

R. Pergunta bem interessante. A pesquisa sobre história medieval no Brasil é bastante recente. E mesmo a historiografia sobre a Idade Média foi até muito recentemente — não só no Brasil, mas no mundo como um todo — mais conservadora. Isso vem mudando lentamente, ainda que hoje em dia já tenha uma historiografia muito grande. Já temos muita gente trabalhando com isso no mundo todo e então vemos outras posições aparecendo.

Mas isso significa que, nas escolas de ensino básico no Brasil, a Idade Média ainda é ensinada de maneira bem tradicional. Então essas questões que a gente abordou, por exemplo a ideia de que a Idade Média não era majoritariamente branca, não é nem considerada nos livros didáticos. Ainda que isso não precise ser falado, nenhum professor vai dizer que a Idade Média era majoritariamente branca; é uma questão que está pressuposta, as pessoas já carregam essa ideia, e ela não é nem discutida.

A visão de uma proeminência do cristianismo também é quase que automática. A questão da sociedade patriarcal, que tem a ver com um papel muito reduzido das mulheres na vida social como um todo, isso tudo já está pressuposto, porque a Idade Média é vista de maneira muito tradicional. E tradicional não no sentido de conservador [no espectro político], mas no sentido de como era feito antigamente, há 50 anos ou há 100 anos. Os avanços historiográficos que aconteceram nos últimos 50 anos chegaram pouco no ensino básico.

Quando a gente tem essa história de rever o nazismo, ou de rever o golpe militar, não está falando como uma disputa na esfera pública. As pessoas tiveram aulas sobre esses temas e tiveram contato com versões historiográficas mais recentes. E aí esse discurso: ‘Ah, o seu professor de história não contou tudo, só uma parte’. Isso não acontece com a Idade Média, porque o contato que a maior parte das pessoas tem com essa temática no ensino médio é dado de maneira tradicional. Isso cria um solo fértil onde essa narrativa da extrema direita, que também é tradicional e ultrapassada, pode frutificar.

P. Então a idealização da Idade Média seria um discurso mais forte que o revisionismo do golpe militar e de o nazismo ser de esquerda?

R. Me parece que até agora sim. Essa questão do golpe é sempre uma questão central nas aulas de história do ensino básico. Existe um debate sobre esse tema na sala de aula, e o professor pode apresentar esse debate, e os alunos sabem que isso existe e conseguem entender por que é golpe e não revolução. Com Idade Média não, justamente porque é apresentada de maneira muito tradicional.

Acho que isso vem mudando e provavelmente vai mudar bastante nos próximos anos, porque nas universidades brasileiras, nos cursos de licenciatura em história, existe cada vez mais uma percepção sobre a história medieval de que esse passado tem um uso político no nosso presente e que a gente precisa estar atento a isso e abordar essa questão. A partir do momento em que isso começa a ser pensado na universidade, chega no ensino básico. Mas isso leva algum tempo. O ideal é que isso seja pensado também no ensino básico, em paralelo à universidade.

P. O que todos esses revisionismos históricos da ditadura militar, golpe de 64 e Idade Média têm em comum?

R. Uma coisa que eu acho importante pontuar é que, apesar de ser o termo mais utilizado, o mais adequado não é “revisionismo”, mas negacionismo. Porque a história, a historiografia, é essencialmente revisionista. A gente está o tempo todo revisando e reinterpretando as nossas ideias sobre o passado. A questão desses movimentos todos em relação à Idade Média, ao nazismo e ao golpe de 64 não é exatamente uma revisão, mas é negar o conhecimento histórico que existe atualmente sobre esses processos históricos.

Em relação à Idade Média, diferentemente dos outros, não é revisionismo, porque não está se propondo nada novo, mas uma interpretação que está completamente ultrapassada. A ideia, aqui, não é que a gente tem uma ideia de Idade Média diversa e complexa e está se propondo algo completamente diferente disso. O que está se propondo é voltar ao entendimento que foi abandonado com o desenvolvimento da pesquisa histórica sobre o período. E aí o que talvez seja mais interessante: essas pessoas negam todos os especialistas que estão habilitados para falar sobre isso. Por isso negacionismo.

Não é só uma negação de determinadas visões ou determinadas interpretações sobre processos e movimentos históricos. É uma negação da ciência histórica como um todo. Se formos olhar, vamos encontrar movimentos como o da terra plana ou antivacinas, e me parece que tudo isso está bastante conectado.

P. Tem mais algum ponto que você gostaria de abordar?

R. O discurso sobre o passado não é inócuo, ele tem consequências no nosso presente. O que estamos vendo nos últimos anos é como essas visões falsas e parciais sobre a Idade Média vêm sendo requisitadas para justificar atos de terror, massacres e todo tipo de opressão contra minorias. Se um discurso como esse frutificar, as consequências são essas. Existe certa responsabilidade social que envolve historiadores, mas também outros grupos, outros profissionais na sociedade, em relação a esse tipo de negacionismo sobre o passado.

 

Queima de livros,Nazismo,Fascismo,Berlim,Blog do Mesquita

Começa assim; A praça da ignorância

Queima de livros,Nazismo,Fascismo,Berlim,Blog do Mesquita

De praça, quase não tem nada: não há banco para descanso, árvore ou gramado. Parece mais um calçadão, que liga a avenida Unter den Linden à rua Behrenstrasse. No meio da Bebelplatz, no entanto, algo chama a atenção dos mais atentos: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão. Dentro dele, prateleiras brancas vazias.

O monumento lembra um dos episódios mais emblemáticos do período nazista. Em 10 de maio de 1933, livros de intelectuais considerados críticos ou que não se encaixavam no padrão pregado pelo regime de extrema direita comandado por Adolf Hitler foram queimados em praças públicas em várias cidades da Alemanha.

Em Berlim, o palco deste ato de intolerância foi a Bebelplatz, que na época era chamada de Praça da Ópera. Em frente à praça estava o prédio da Universidade Humboldt de Berlim. Muitos universitários participaram deste ato de barbárie. Os livros queimados pertenciam principalmente às bibliotecas públicas e universitárias.

Para não esquecer: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão; dentro, prateleiras vaziasPara não esquecer: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão; dentro, prateleiras vazias

Entre os autores dos livros queimados estavam Karl Marx, Friedrich Engels, Sigmund Freud, Stefan Zweig, Thomas Mann, Bertold Brecht, Erich Kästner, e Ricarda Huch. A maior parte da “lista negra” dos extremistas de direita era composta por obras de Ciências Humanas. Deveriam ser banidos, sobretudo, livros de filosofia, sociologia, história e ciências políticas que colocassem em xeque a ideologia do regime ou abrissem espaço para um debate.

A queima dos livros marcou o auge da perseguição aos intelectuais, que havia começado lentamente e vinha sendo praticamente ignorada pela opinião pública por muito tempo. A propaganda era alma do negócio para atrair seguidores.

Primeiro foi publicado um manifesto defendendo a cultura alemã e pregando acabar com supostas mentiras. Logo em seguida veio a perseguição a professores. Estudantes deveriam denunciar professores judeus, comunistas e aqueles que fizessem críticas ao regime ou a Hitler.

Depois veio a decisão de banir livros de intelectuais que “alienavam a cultura alemã”. Obras foram saqueadas de bibliotecas e, em 10 de maio de 1933, jogadas em fogueira pública. Em Berlim, o ato símbolo da intolerância contou com a presença de Joseph Goebbels – o ministro da Propaganda do regime nazista.

Hoje na Bebelplatz, próximo ao monumento que lembra deste episódio histórico, há uma placa com a frase do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” A frase, escrita décadas antes, soa como uma premonição dos horrores que estavam por vir nos anos seguintes…

A Bebelplatz ganhou esse nome após a Segunda Guerra Mundial, mas poderia muito bem ser chamada de praça da ignorância. Afinal, marca o episódio que visava combater o conhecimento, a capacidade de reflexão proporcionada pela leitura e silenciar qualquer debate crítico. Ao acusar intelectuais, o regime nazista buscava a hegemonia de seu viés ideológico de extrema direita e promovia a ignorância como meio de manipulação da população.

Clarissa Neher é jornalista da DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã.

Nazismo,Ruth Weiss,Literatura,Blog do Mesquita

“2019 não está muito longe de 1930”, diz escritora judia sobrevivente do nazismo

Nazismo,Ruth Weiss,Literatura,Blog do MesquitaApós fugir dos nazistas quando criança, Ruth Weiss se mudou para a África do Sul. Agora a autora de 94 anos está em turnê, com o sexto volume de sua saga sobre a família judaica Löw. A DW a encontrou para uma conversa.

Ruth Weiss nasceu em 26 de junho de 1924 em Fürth, Baviera, como Ruth Löwenthal. Em 1936, sua família emigrou para a África do Sul e abriu uma mercearia em Johanesburgo. Como jornalista, ela lutou contra o apartheid, motivo por que foi forçada a deixar o país em 1966. Morou na então Rodésia do Sul (atual Zimbábue), na Zâmbia e em Londres. Em 1992 retirou-se para a Ilha de Wight para escrever. Dez anos mais tarde retornou para a Alemanha, morando em Lüdinghausen, na região de Münster. Desde 2015 vive com o filho, na Dinamarca.

Aos quase 95 anos, ela se encontra em turnê pela Alemanha, onde acaba de ser lançado o sexto volume de seu ciclo de romances, Die Löws – Nachspiel. Eine jüdische Familiensaga in Deutschland.  (literalmente: “Os Löws – Postlúdio. Uma saga familiar judaica na Alemanha”). A DW a entrevistou sobre o país antes e agora.

DW: O novo volume de sua grande saga familiar, contada ao longo de 350 anos, acaba de ser publicado. Esse livro nos leva até o ano de 2015: neonazistas, a morte de uma requerente de asilo. O que a senhora queria contar com a história de Pippa, a bisneta do judeu alemão Adolph Löw?

Ruth Weiss:  Que há uma grande ruptura entre a geração de hoje e o que aconteceu no passado. É um longo tempo, embora não se tenham passado nem 100 anos desde o início do nazismo. Os descendentes são como a personagem principal do meu romance, que se muda para uma casa herdada sem se preocupar a quem ela pertencia antes. Só um incêndio lhe dá o impulso de investigar. É então a primeira vez que ela é confrontada com a história de sua família.

O assunto também é reconciliação?

Sim, se trata de reconciliação. A compreensão surge através de histórias particulares, não da grande política.

A senhora vai continuar sua narrativa?

Depende da editora. A princípio, na verdade, meu ciclo de romances não foi concebido como uma saga familiar. Depois que me aposentei, estive em Fürth, onde nasci, e comecei a ler histórias judaicas do passado, começando no século 17. Foi quando eu descobri que os judeus sem teto naquela área tinham um grande problema na época: não podiam permanecer num lugar por mais de 72 horas. Então vagavam de uma comunidade judaica para outra. Mas por causa do grande número de propriedades dos governantes, e por eles terem que pagar algo cada vez que cruzavam a fronteira, era um fardo enorme para essas pessoas pobres. Comecei a escrever minha história, e depois do primeiro volume a editora quis uma continuação.

Capa da edição alemã de Os Löws – Postlúdio. Uma saga familiar judaica na Alemanha, de Ruth WeissCapa da edição alemã de “Os Löws – Postlúdio. Uma saga familiar judaica na Alemanha”

A senhora tem programação cheia nesta turnê: leitura numa escola pela manhã, entrevista extensa à tarde, à noite mais uma leitura e bate-papo. Por que ainda considera tão importante contar sua história pessoal e outras narrativas na forma de romance?

Não sou sobrevivente de nenhum campo, claro. Sou uma sobrevivente que teve a tremenda sorte de emigrar e também de poder escrever. Isso significa que aprendi a comunicar como era na época – e foi realmente muito tempo atrás. Acredito que isso é importante, sobretudo para os jovens. Enquanto puder, quero seguir fazendo isso.

Como reagem os jovens, em geral?

Surpreendentemente interessados. Nos dias em que estive em turnê de leitura, não tivemos transtornos, ninguém se levantou, foi embora ou se comportou mal. Pelo contrário: desta vez houve muito mais perguntas do que o usual. Acho que tem a ver com a atual situação política, que hoje em dia também haja refugiados, muito mais do que no meu tempo.

A senhora cresceu num vilarejo perto de Nurembergue. Com a tomada do poder pelos nazistas, a vida se tornou insuportável para a sua família. A senhora se mudou para Fürth, onde frequentou a escola secundária judaica. Quais são suas lembranças desses dias?

Os anos no vilarejo e na escola foram muito bons. Nós, as crianças, estávamos completamente integradas. Meus pais, é claro, não pertenciam ao lugar. Havia um assentamento, e é lá que vivíamos, éramos os únicos judeus. Logo ao lado morava o professor. O que ignorávamos é que ele era um membro do NSDAP [o partido nacional-socialista]. A influência dos nazistas foi tão grande que, mesmo no vilarejo, a mudança se deu de forma muito rápida.

Comício nazista em NurembergueComício nazista em Nurembergue

Em 1936, aos 12 anos, a senhora emigrou com sua família para a África do Sul. Por que esse país?

Em abril de 1933, meu pai tinha perdido o emprego. Ele tinha parentes emigrados para a África do Sul no início do século 20 e que estavam dispostos a afiançá-lo. Naquela época, a África do Sul ainda estava aberta a imigrantes, havia demanda de brancos. Pelo menos até perceberem que tínhamos a cor da pele certa, mas a religião errada.

Primeiro a senhora trabalhou num escritório de advocacia, depois na livraria de seu primeiro marido, o jornalista Hans Weiss, também numa seguradora e, em Londres, numa editora. Como chegou ao jornalismo?

Devido ao paternalismo. Weiss tinha sido jornalista do Berliner Tageblatt, e eu trabalhava numa companhia de seguros. Não pude estudar, pois não havia dinheiro. Então, logo após me formar, comecei a trabalhar. A partir dos anos 50, Hans Weiss era correspondente da Deutsche Presseagentur no sul da África. Quando começou, ainda havia o VWD [Serviços Econômicos Unidos], responsável pela seção de negócios. Como eu tinha um cargo muito alto no setor de seguros e, portanto, algo a ver com economia, Hans disse para eu tomar conta disso. Então, no começo escrevia apenas as histórias de negócios – sob o nome dele.

Na época, a África do Sul era bastante interessante para as mídias alemã e inglesa, mas não o suficiente para render reportagens verdadeiramente longas. Isso significava que ele também tinha que atuar em outros países africanos. Meu querido Hans fez isso algumas vezes, até que disse: “Acho que você faria isso melhor.” Então acabei viajando para a África muito cedo, ainda na era colonial, e essa foi a minha sorte. Quando a companhia de seguros em que eu trabalhava se aproximou demais do Partido Nacional, eu não quis mais ficar. E então pensei: vou tentar o jornalismo.

O que a senhora sentiu ao voltar para a Alemanha pela primeira vez?

Voltei aqui pela primeira vez por causa dos meus sogros, que haviam sobrevivido, já em 1950, o que era incomum para judeus alemães. Isso significa que conheci a Alemanha num momento em que a destruição da guerra era visível por toda parte. Uma época devastadora. Em meus encontros com os alemães de então, encontrei muitos “combatentes da resistência”. Era muito claro que os alemães não conseguiam lidar adequadamente com o passado recente. Mas, como trabalhamos desde muito cedo para a mídia alemã, pudemos acompanhar a política nacional bem de perto. O que, como disse anteriormente, não costumava ser o caso dos judeus alemães emigrantes. Nos anos 70, quando eu trabalhava na Deutsche Welle em Colônia, minha irmã não me visitou, nós nos encontramos na Suíça.

Entre 1975 e 1978 a senhora trabalhou como redatora-chefe da redação africana na Deutsche Welle. Por que acabou desistindo e indo para Londres?

Quando estava em Londres, passei muito tempo me perguntando por que tinha ido embora. Eu tinha direito a aposentadoria e, até os meus 60 anos, teria tido um trabalho muito bom. Mas na época eu não me sentia muito bem na Alemanha. Desde o primeiro momento, assim que cheguei em Colônia, enfrentei situações que remetiam ao passado.

Um exemplo: no período entre o Natal e o Ano Novo, estávamos à procura de um hotel. Encontramos uma pequena pensão e conversamos com a proprietária. Ela imediatamente me contou sobre a falência de um banco e disse: “São os judeus novamente.” Perguntei então a meus colegas da Deutsche Welle sobre o tal banco: ele não tinham nada a ver com os judeus. Era esse o clima…

Seu filho Alexander nasceu em 1966 em Londres, após uma gravidez de risco tanto para a senhora quanto para o bebê. Aos quase 42 anos, a senhora o criou sozinha, seu segundo marido, Karl, não assumiu o papel de pai. Tem orgulho de seu desempenho como mulher emancipada, com carreira profissional, como mãe solteira?

Eu não colocaria dessa forma. Mas gostaria de acrescentar outra coisa. Desde muito cedo, devido à minha atuação na área de seguros, comecei a trabalhar numa esfera masculina, e isso se manteve, por eu trabalhar em economia. Muitas vezes eu era a única mulher, e quando decidi que queria ter um filho desse relacionamento, fui arrogante o suficiente para achar que ganharia o suficiente para isso.

Autobiografia de Ruth Weiss Caminhos no capim duro – Lembranças da Alemanha, África do Sul e Inglaterra, com prólogo da sul-africana, Prêmio Nobel da Literatura, Nadine GordimerAutobiografia de Ruth Weiss “Caminhos no capim duro – Lembranças da Alemanha, África do Sul e Inglaterra”, com prólogo da sul-africana, Prêmio Nobel da Literatura, Nadine Gordimer

Após décadas em vários países africanos – África do Sul, Rodésia/Zimbábue, Zâmbia – e em Londres, a senhora retornou à Alemanha em 2002. Onde está morando, agora?

Atualmente moro com meu filho na Dinamarca. Já não sou mais tão jovem assim, e achei que em alguma deveria estar com outras pessoas. Em algum momento o fim chega, e eu gostaria de estar junto de meu filho e sua família. E este é o caso, agora.

A senhora é uma judia praticante, uma judia alemã. Faz alguns anos, o antissemitismo vem ressurgindo no país: neonazistas bradam slogans racistas impunemente. O que a senhora acha: os judeus na Alemanha estão novamente em perigo?

Isso eu não sei dizer, porque não moro na Alemanha. De fora, no entanto, entendo quando dizem que, de novo, vivemos de malas sempre prontas. Essa é uma expressão que ouvi de muitos judeus nas décadas de 60 e 70. Nos anos 80 e 90, isso simplesmente não estava em questão. Mas hoje é novamente assim. Isso é muito perigoso, não só para os judeus, mas também para o povo alemão.

Com a populista Alternativa para a Alemanha (AfD), mais uma vez um partido de direita, em parte de extrema direita, está fortemente representado no parlamento federal alemão. Isso a preocupa?

Sim, pelo mesmo motivo. Em meus 20 anos de turnês de leituras, e também no tempo em que vivi na Alemanha, quando questionada sobre como me sentia no país, eu tinha uma resposta muito simples: a Alemanha de hoje não é a de 1930. Mas não posso mais dizer isso. Hoje, só posso dizer que 2019 não está muito longe de 1930. E isso é muito angustiante.

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“Nazismo de esquerda”: o absurdo virou discurso oficial em Brasília

Como chanceler, Ernesto Araújo repete tese, propagada nas mídias sociais, considerada desonesta e sem sentido por acadêmicos e diplomatas. Historiadores europeus se impressionam: “Uma asneira e um disparate”.Itamaraty,Ernesto Araújo,Diplomacia,Brasil,Idade Média

Uma recente declaração do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sugere que uma tese tida como absurda e desonesta por acadêmicos e diplomatas europeus se incorporou ao discurso oficial do governo Jair Bolsonaro: a de que o nazismo foi um movimento de esquerda.

A declaração, dada em longa entrevista a um canal simpático à extrema direita no Youtube, repete um discurso que esteve em alta nas mídias sociais brasileiras durante as eleições, mas que jamais foi levada a sério por acadêmicos na Alemanha. A posição de Araújo impressionou historiadores.

Na entrevista, questionado sobre a diferença entre o nacionalismo que defende e o pregado pelos regimes autoritários passados da Alemanha, Itália e Rússia, o ministro respondeu que o sentimento nacional teria sido distorcido por grupos que o utilizaram para chegar ao poder.

“Uma coisa que eu falo muito é dessa tendência da esquerda de pegar uma coisa boa, sequestrar, perverter e transformar numa coisa ruim. É mais ou menos o que aconteceu sempre com esses regimes totalitários. Isso tem a ver com o que eu digo que fascismo e nazismo são fenômenos de esquerda”, destacou Araújo, na entrevista divulgada em março pelo “Brasil Paralelo”, grupo que propaga a linha de pensamento do ideólogo Olavo de Carvalho.

Foi a primeira vez que Araújo, como ministro, classificou o nazismo como um suposto movimento de esquerda – ele já o fizera em um texto publicado em 2017 em seu blog. A teoria vai contra o amplo consenso acadêmico e político sobre o tema na Alemanha, onde a disputa sobre a classificação da ideologia nazista é inexistente entre historiadores renomados.

“Quando um ministro do Exterior faz esse tipo de afirmação, considero altamente problemático diplomaticamente e um absurdo cientificamente”, afirma a historiadora Stefanie Schüler-Springorum, diretora do Centro para Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim.

O historiador Wulf Kansteiner, da Universidade de Aarhus, deixa claro que os nazistas jamais seguiram políticas de esquerda. “Ao contrário, propagavam valores da extrema direita, um extremo nacionalismo, um extremo antissemitismo e um extremo racismo. Nenhum especialista sério considera hoje o nazismo de alguma forma um fenômeno de esquerda. Por isso, da perspectiva acadêmica histórica, essa declaração é uma asneira”, afirma.

Segundo Kansteiner, tanto o entrevistador quanto o ministro jogam com a palavra totalitarismo e, durante sua argumentação, Araújo tenta com ela traçar uma fronteira entre o nacionalismo, que seria algo bom, e o socialismo, que seria algo ruim. “Historicamente isso é um disparate”, ressalta o especialista, que também é autor do livro In pursuit of German memory (Em busca da memória alemã, em tradução livre).

Peter Carrier, coordenador de um projeto de pesquisa da Unesco sobre o ensino do Holocausto, promovido pelo Instituto alemão Georg Eckert, acrescenta que o ministro comete erros ao fazer referências à teoria do totalitarismo.

“Se Araújo tivesse lido precisamente os teóricos do totalitarismo e fosse fiel a suas teses, ele deveria condenar tanto a direita quanto a esquerda, pois o totalitarismo implica que regimes autoritários de direita e de esquerda são igualmente ruins”, afirma.

A estratégia de tentar classificar o nazismo como uma ideologia de esquerda não é nova e chegou a ocorrer no passado em vários países. Mas nunca chegou a virar um debate sério entre especialistas.

Na Alemanha, durante as pesquisas e debates sobre o Terceiro Reich, iniciadas nos anos 1960, chegou a haver tentativas de classificar esse regime como um movimento socialista, no entanto, há décadas não restam mais dúvidas, nos âmbitos acadêmico, social e político, sobre a natureza de extrema direita do nazismo.

Segundo Schüler-Springorum, essa estratégia era uma posição clássica da extrema direita após a Segunda Guerra Mundial numa tentativa de proteger o “verdadeiro nacionalismo” e se distanciar do nazismo: “Na política e ciência, porém, está mais do que consolidado que o nazismo é um movimento de extrema direita, porque rejeita a democracia e os direitos humanos, além de dividir pessoas em grupos e hierarquizá-las”.

O debate sobre o nazismo como uma ideologia de esquerda foi levantado no Brasil a partir dos anos 2000 por Olavo de Carvalho. A visão rapidamente se espalhou por páginas de direita brasileiras, ganhando adesão também entre contas de viés liberal que adotaram posições conservadoras. Entre os adeptos está o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e atual presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

No país, os atuais defensores da visão “nazismo de esquerda” costumam se basear no nome oficial da agremiação nazista, chamada de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. A presença da palavra “socialista” revelaria a linha ideológica do regime. Historiadores internacionais de renome, porém, destacam que essa nomenclatura e a inclusão de políticas tidas como de esquerda no programa de governo apresentado antes das eleições de 1933 não passaram de uma estratégia eleitoral para atrair a classe trabalhadora.

“Na prática, isso não teve significado algum. O partido nazista se associou rapidamente e de maneira efetiva com as forças de direita da República de Weimar e, depois da tomada do poder, se juntou com as forças de direita da sociedade. Hitler nunca seguiu uma política socialista”, destaca Kansteiner, lembrando o episódio que ficou conhecido como Noite das Facas Longas, em junho de 1934, quando integrantes de uma ala mais à esquerda do NSDAP foram mortos.

Apesar de circular há algum tempo entre grupos de direita, essa distorção histórica chamou a atenção na Alemanha apenas no ano passado, quando um vídeo publicado pela embaixada alemã em Brasília no Facebook sobre como a sociedade alemã lida com o nazismo e o Holocausto virou alvo de ataques de militantes direitistas brasileiros.

Em entrevista à DW, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, afirmou na época que a discussão sobre o “nazismo de esquerda” não tinha uma base honesta.

“Há muitas pessoas que não sabem muito sobre o nazismo. E nós queremos informar. Uma pessoa informada vai fazer de tudo para evitar uma volta do nazismo. Mas parece que há outros que têm um interesse político de reinterpretar o nazismo para encaixá-lo de acordo com seus objetivos imediatos. Esses grupos políticos fazem tentativas desonestas de mover a responsabilidade do Holocausto para o colo de outros”, disse então Witschel.

Ideologia,Ideologia de Gênero,Blog do Mesquita

“Ideologia de gênero”: o combate a um campo científico

Expressão, que não tem base acadêmica, ficou popular no Brasil na boca de Bolsonaro e seus seguidores. Ela tenta desqualificar pesquisas que ajudam a corrigir desigualdades e discriminações no cotidiano.    

Em março de 2018, mulheres protestam na França contra a violência de gêneroEm março de 2018, mulheres protestam na França contra a violência de gênero

A ministra Damares Alves iniciou seu mandato à frente da nova pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos gerando controvérsia, ao comemorar uma suposta “nova era”  no país: meninos vestiriam azul, e meninas, rosa. Ao se justificar, disse que a frase seria uma “metáfora” ao que ela chama de “ideologia de gênero”.

A expressão não é nova, mas ganhou destaque durante a campanha eleitoral passada, sendo popularizada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus filhos. Muito antes de se tornar candidato, o ex-deputado já havia incorporado o termo no seu discurso político e se tornado um de seus principais propagadores no país.

O termo, porém, não possui base acadêmica. A suposta “ideologia de gênero” surgiu como uma expressão pejorativa para desqualificar os estudos de gênero, um campo científico interdisciplinar que analisa e investiga todo o tipo de questão relacionada ao gênero. Isso inclui, por exemplo, processos sociais e relações de poder envolvendo homens e mulheres, além da própria construção do gênero e suas representações.

“Os estudos de gênero surgiram porque a ciência predominante pesquisava somente a história e a vida dos homens. Assim, ela não era objetiva, mas unilateral. Esse campo se ocupa de questões, temas e pessoas que eram frequentemente esquecidas ou omitidas. Ao ampliar a perspectiva científica, contribuiu para aumentar a objetividade”, afirma Henning von Bargen, diretor do Instituto Gunda Werner para Feminismo e Democracia de Gênero, ligado à Fundação Heinrich Böll.

Originado nos estudos da mulher que se desenvolveram nos EUA a partir da década de 1970 com o avanço do movimento feminista, os estudos de gênero começaram a tomar forma a partir de meados dos anos 1980. Sua abordagem científica parte do princípio de que gênero é principalmente uma construção social, e não restrito apenas ao sexo biológico.

Ou seja, a sociedade, ao impor padrões que caberiam ao homem e à mulher, acaba determinando o que é entendido como característico do masculino e do feminino. Um exemplo seria o azul como cor de menino e rosa de menina ou que meninas devem brincar de bonecas e meninos de carro.

Os estudos de gênero não negam fundamentalmente o sexo biológico, mas rejeitam o entendimento somente biológico do gênero. Eles pesquisam, entre outras coisas, essa construção de categorias de diferenciação de pessoas, que são mutáveis. No início do século 20, por exemplo, rosa era a cor dos meninos, e azul, das meninas. Esses padrões sociais e culturais geram, sobretudo, desigualdades e discriminações no cotidiano, que também são analisadas neste campo de pesquisa.

“O gênero é um conceito analítico que não tem relação com uma concepção de mundo. É uma categoria de análise para observar melhor e entender melhor a sociedade, pois ela se organiza muito nas diferenças entre os gêneros”, acrescenta Regina Frey, do Instituto para Assistência Social e Pedagogia Social.

Cruzada antigênero

Com a expansão e consolidação deste campo científico, que supostamente estaria ameaçando princípios religiosos, foi lançada uma contraofensiva católica em defesa de sua doutrina e do modelo tradicional de família. Em 1998, numa nota da Conferência Episcopal do Peru, aparece pela primeira vez a expressão “ideologia de gênero”.

Segundo o pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Rogério Diniz Junqueira, no Brasil, religiosos começaram a usar a expressão em 2011. Mas foi somente em 2014 que o termo ganhou destaque ao aparecer nos protestos para a exclusão das expressões gênero e orientação sexual dos planos de educação. A partir de então, “ideologia de gênero” se tornou uma categoria de mobilização política.

“A ‘ideologia de gênero’ é uma invenção, um artifício retórico. Não pode ser confundido com um termo científico. A sua elaboração jamais seguiu princípios e preocupações de ordem científica. O termo aflorou no âmbito de um projeto de poder: decidiu-se utilizar o termo que melhor funcionasse politicamente segundo os objetivos dos atores que fomentam essa ofensiva reacionária”, avalia Junqueira.

Mas não foi somente no Brasil que o termo ganhou popularidade. Diversos grupos políticos e religiosos ultraconservadores iniciaram em vários países uma verdadeira cruzada antigênero, contra não somente a igualdade de gênero e o feminismo, mas também contra a diversidade sexual e de identidade.

“Por trás da mobilização antigênero estão diferentes atores, organizações, partidos, redes religiosas fundamentalistas, que são classificados no espectro político de centro a extrema direita. Com a expressão ‘ideologia de gênero’ se voltam contra avanços da democracia liberal e de uma sociedade aberta”, argumenta Von Bargen.

“Quem questiona o gênero deveria explicar por que ele é negativo e por que homens e mulheres não deveriam ter os mesmo direitos. Isso não é nenhum um pouco explicado com o termo ‘ideologia de gênero’”, acrescenta Frey, que coordenou o segundo relatório sobre equiparação do governo da Alemanha.

Políticas de gênero

Apesar da contraofensiva político-religiosa, os estudos de gênero contribuíram para compreensão de diferenças e desigualdades geradas por essas construções sociais e, desta maneira, auxiliaram no desenvolvimento de políticas públicas para promover a igualdade de gênero e combater a discriminação.

Na União Europeia, desde 1999, a perspectiva de gênero passou a ser um ponto central no desenvolvimento de políticas. Esse conceito, que ficou conhecido como Gender Mainstreaming (transversalização de gênero), busca alcançar a equiparação ao pensar nos impactos que decisões políticas e estruturais causarão para homens e mulheres e como aumentar a igualdade de oportunidades para todos os sexos.

“O objetivo da Gender Mainstreaming é a criação da igualdade de oportunidades efetiva. Essa política não compreende o homem e a mulher como grupos homogêneos, mas leva em conta que dentro desses grupos há uma diversidade de situações de vida e necessidades”, afirma Von Bargen.

Frey destaca que o Gender Mainstreaming não significa que mulheres e homens devem ser iguais e que não busca um reajuste no comportamento, mas a equiparação dos direitos. Ao pensar nos impactos de políticas percebendo e levando em conta as diferenças entre os gêneros, o Estado evita aumentar as desigualdades em direitos e oportunidades.

“Trata-se de estabelecer uma nova forma de pensar sobre todos os níveis que integra o aspecto equiparação como objetivo parcial substancial na política. A categoria gênero não levanta apenas a questão da igualdade de gênero, mas é um fator fundamental para a solução de problemas econômicos, sociais e políticos”, ressalta Von Bargen.

Entre medidas resultantes deste conceito fazem parte projetos para igualar o acesso a cargos de chefia e políticos, de equiparação salarial e de combate à violência sexual.

Carlos Nadalim,Bolsonaro,Blog do Mesquita,Educação

Governo Bolsonaro: Contra ‘ideologia’ na alfabetização

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Para Carlos Nadalim, diretrizes do Ministério da Educação têm ‘preocupação exagerada com a construção de uma sociedade igualitária’ e ‘ignoram evidências científicas sobre como alfabetizar crianças’ Direito de imagem  ARQUIVO PESSOAL

“O trabalho do Carlos Nadalim é a única alternativa aos 80% de analfabetos funcionais das universidades brasileiras”, exalta postagem de 2017 em uma das páginas oficiais de Olavo de Carvalho no Facebook.

Essas elevadas expectativas poderão agora ser testadas na prática. Carlos Nadalim, coordenador pedagógico de uma pequena escola em Londrina (PR) e autor do blog “Como Educar seus Filhos”, estará à frente da nova Secretaria de Alfabetização, criada pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez, outro nome elogiado por Olavo.

Para o novo secretário de alfabetização, uma das causas principais do alto analfabetismo funcional (quando a pessoa reconhece as letras, mas não consegue interpretar textos simples) no Brasil é a prevalência nas diretrizes do Ministério da Educação de métodos de ensino “construtivistas” – abordagem em que a criança é vista como construtora do conhecimento e o aprendizado do alfabeto ocorre de forma integrada com o uso social da leitura e escrita.

Nadalim defende como alternativa o “método fônico”, que apresenta as crianças às letras e aos sons da fala antes de iniciá-las em atividades com textos.

Esse tipo de disputa em torno da melhor forma de ensinar o alfabeto não é exclusiva do Brasil. Em países como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, o conflito ficou conhecido como “reading wars” (guerras da alfabetização) e acabou influenciando debates em outros locais.

Mas o que dizem os especialistas sobre o assunto?

“Vilão da alfabetização”

Em um dos seus vídeos no YouTube, onde tem um canal com mais de 5 milhões de visualizações, o novo secretário Carlos Nadalim argumenta que o que chama de método construtivista “demonstra uma preocupação exagerada com a construção de uma sociedade igualitária, democrática e pluralista, em formar leitores críticos, engajados e conscientes”.

Por outro lado, diz na gravação, as diretrizes do Ministério da Educação (MEC) não trazem “uma orientação clara com base em evidências científicas comprovadas e atualizadas de como alfabetizar as crianças”.

“Há tanta preocupação em fomentar a socialização e em promover uma visão crítica na criança que resta pouco tempo e pouco investimento para ensinar o básico, o fundamental”, conclui Nadalim, após criticar a educadora Magda Soares, professora emérita da UFMG tida como referência nacional em alfabetização.

Crianças em atividade escolarDireito de imagem TÂNIA RÊGO
Novo secretário defende ‘método fônico’ para afalbetização e critica modelo ‘construtivista’ usado em algumas escolas do Brasil

Para o novo secretário, o “letramento”, conceito difundido no país a partir dos anos 1980 pela educadora e usado nos documentos do MEC, é o “vilão da alfabetização” no país.

Como saída, Nadalim e outros adeptos da ênfase na fonética defendem o “método fônico”. Nele, a criança deve primeiro ser exposta a atividades que reforcem a relação entre as letras e os sons da fala (grafemas e fonemas), pois assim aprendem a decodificar e codificar a linguagem escrita, para depois evoluir aos textos. Seus defensores argumentam que estudos internacionais já comprovaram a superioridade dessa abordagem.

Em outro vídeo, Nadalim exemplifica como usar o método usando o livro “O Batalhão das Letras”, de Mario Quintana, que traz grandes desenhos do alfabeto. Ao abrir a página do “F”, ele fala os nomes correspondentes a desenhos enfatizando o início das palavras: “Ffffrades, ffffformigas, ffffiga, fffflor”, recita o secretário.

“Guerrinha de métodos é perda de tempo”

Não se sabe ainda como, mas a expectativa é que Nadalim tentará implementar grandes mudanças nas diretrizes de alfabetização do país. A BBC News Brasil tentou contato com o secretário em seu blog e no MEC, mas a assessoria do ministério disse que a nova equipe ainda não está atendendo pedidos de entrevistas.

Pesquisas deixam claro que há um problema a ser enfrentado. Numa lista de 70 países analisados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), o Brasil está na 59ª posição em leitura e na 66ª colocação em matemática.

Já um estudo realizado no ano passado pelo Ibope Inteligência em parceria com a ONG Ação Educativa estima que 29% dos jovens e adultos brasileiros de 15 a 64 anos (cerca de 38 milhões de pessoas) sejam analfabetos funcionais.

Para estudiosos da alfabetização ouvidos pela BBC News Brasil, no entanto, esse quadro não pode ser atribuído a uma questão de método. Parte dos entrevistados considera, inclusive, que Nadalim tem percepções equivocadas sobre o que seja construtivismo, letramento e a abordagem fônica. E ressaltam que, na prática, o que se vê na sala de aula é um mix de ferramentas teóricas e metodológicas.

“Eu acho uma perda de energia, tempo e neurônios estabelecer essa guerrinha, essa oposição entre método fônico e um método mais global ou construtivista. É absolutamente improdutivo”, afirma a professora Izolda Cela, hoje vice-governadora do Ceará.

criança estudandoDireito de imagem GETTY IMAGES
‘Se a escola usa um método ou outro, não é determinante. O importante é se é bem organizado. O fator de fracasso (da alfabetização no Brasil) é o baixíssimo nível de institucionalidade da escola pública’, acredita professora Izolda Cela, que implementou programa de alfabetização bem-sucedido em Sobral (CE)

Cela esteve à frente do processo que, a partir de 1997, implementou um programa de alfabetização extremamente bem-sucedido em Sobral (CE). No ranking de redes de ensino municipais, a cidade tem os maiores nota no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) para o ensino fundamental. No caso dos anos iniciais (1º ao 5º ano), o Ideb de Sobral é de 9,1, contra 5,5 da média de todas as redes municipais de ensino do país.

Para a vice-governadora, que coordenou o programa e depois se tornou secretária de educação de Sobral e do Ceará, o sucesso do programa não decorre do método, mas de um conjunto de fatores como a valorização e qualificação constante dos professores, o planejamento detalhado das atividades em sala de aula com alinhamento ao material didático, as metas claras de alfabetização e as avaliações externas realizadas pelo município semestralmente para medir a aprendizagem dos estudantes.

No caso de Sobral, disse ainda, o programa aplica tanto princípios do letramento, de Magda Soares, como material didático de abordagem fônica do Instituto Alfa e Beto, fundado por João Batista Oliveira. Quando o modelo foi ampliado para outras cidades do estado, conta, o governo pré-selecionou alguns materiais com diferentes ênfases metodológicas e permitiu que as redes municipais escolhessem o que mais se adequasse as suas necessidades.

Ex-secretário-executivo do MEC (1995) e psicólogo com doutorado em educação pela Florida State University (EUA), Batista Oliveira é um dos principais defensores do método fônico no Brasil, ao lado de Fernando Capovilla, professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo). Ambos são citados por Carlos Nadalim ao disparar suas críticas contra Magda Soares.

“Se a escola usa um método ou outro, não é determinante. O importante é se é bem organizado. O fator de fracasso (da alfabetização no Brasil) é o baixíssimo nível de institucionalidade da escola pública”, acredita Cela.

“Fico apreensiva quando o novo secretário coloca o método como grande questão da alfabetização”, disse ainda.

Mas, afinal, o que é letramento?

A professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Magda Soares está indignada com o que chamou de “forma equivocada e pouco respeitosa” como vem sendo criticada por Nadalim. Aos 86 anos, se recuperando de uma cirurgia, ela ainda assim tem atendido jornalistas para responder ao que classifica como “disparates” do novo secretário.

Seu livro “Alfabetização: a questão dos métodos”, em que faz uma ampla revisão dos estudos na área, ganhou o prêmio Jabuti em duas categorias em 2017: melhor obra de não ficção e de Educação e Pedagogia. Desde 2007, a professora coordena de forma voluntária o programa de alfabetização da prefeitura de Lagoa Santa (MG). De lá pra cá, o Ideb para os anos iniciais do ensino fundamental da rede do município passou de 4,5 para 6,4.

Magda SoaresDireito de imagem A FOCA LISBOA/UFMG
Professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Magda Soares, vencedora de dois prêmios Jabutis por seus livros, virou alvo de ataques do novo secretário de Alfabetização

Soares refuta a discussão em termos de “métodos fônicos” versus “abordagem construtivista”. Ela concorda que a “aprendizagem das relações fonemas-grafemas” é essencial ao processo de alfabetização. Seu entendimento, porém, é que o ensino não deve partir das letras, já que as consoantes são “impronunciáveis isoladamente”, mas primeiro da consciência das palavras e sílabas. Além disso, Soares considera “enfadonhos” exercícios fonéticos dissociados de textos escritos que dialoguem com realidade das crianças.

“As crianças aprendem com mais interesse e entusiasmo quando se alfabetiza com base em palavras e frases de textos reais, lidos pela professora, e em tentativas de escrever, de modo que aprender as relações fonema-grafema ganham sentido”, defende.

À BBC News Brasil Soares ressaltou também que alfabetização e letramento são coisas distintas. O primeiro consiste na “aprendizagem de uma tecnologia”, o sistema alfabético escrito e normas ortográficas, enquanto o segundo é o desenvolvimento de habilidades de interpretação e construção de textos.

“Embora sejam diferentes os processos de aprendizagem e de ensino, a criança se alfabetiza para ler e escrever textos, portanto, é artificial levar a criança a aprender a tecnologia – as relações fonema-grafema – desligada de seu uso. Por isso, a importância de alfabetizar e letrar de forma integrada”, defende.

Disputa global

A disputa em torno da melhor forma de ensinar o alfabeto não é exclusiva do Brasil. Em países como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, o conflito ficou conhecido como “reading wars” (guerras da alfabetização).

Em um amplo estudo publicado no ano passado, pesquisadoras de universidades britânicas e australiana tentaram por fim à disputa. Nele, as cientistas Anne Castles (Macquarie University), Kathleen Rastle (Royal Holloway University of London) e Kate Nation (University of Oxford) sustentam que a fonética é base essencial para se tornar um bom leitor, mas não é suficiente por si só.

“Uma criança não é alfabetizada a menos que possa entender o que está lendo, portanto, a alfabetização bem-sucedida também exige a aquisição de habilidades sofisticadas de compreensão de texto”, disse à BBC News Brasil uma das autoras, Kathleen Rastle.

“Isso não significa que as habilidades devam ser ensinadas ao mesmo tempo. Há um forte consenso na pesquisa científica de que a fonética é base necessária para as habilidades de leitura de alto nível e, portanto, que a instrução inicial deve se concentrar em garantir que o conhecimento fonético da criança seja sólido”, acrescentou.

Já a professora de Harvard Catherine Snow, referência no estudo de abordagens de alfabetização nos Estados Unidos, afirma que o ensino do “princípio alfabético”, ou seja, a compreensão de que as letras representam sons previsíveis, não deve ocorrer dissociado de atividades que insiram as palavras em frases e histórias com sentido.

Catherine SnowDireito de imagem DIVULGAÇÃO/HARVARD
Professora de Harvard Catherine Snow afirma que o ensino do ‘princípio alfabético’, ou seja, a compreensão de que as letras representam sons previsíveis, não deve ocorrer dissociado de atividades que insiram as palavras em frases e histórias com sentido

“Esse processo envolve lembrar o aprendiz que as palavras que ele pode decodificar pela relação letra-som são reais e com significado, que a razão de ler é entender a mensagem, não apenas pronunciar corretamente”, argumenta.

Snow ressalta que os diferentes grupos de pesquisadores em geral concordam “em 90%” do que compõem um bom ensino de leitura e escrita, mas exageram a importância dos 10% de discordância.

“Todos admitem que as crianças precisam entender o princípio alfabético, que precisam ter fortes habilidades de linguagem oral, que devem escutar leituras em voz alta antes que possam ler (por conta própria) e que os materiais de leitura devem ser interessantes e motivadores etc.”, ressalta.

“Ignorar esses pontos de concordância por causa de um nível diferente de ênfase na importância de ensinar explicitamente o princípio alfabético teve efeitos muito negativos na instrução de alfabetização nos Estados Unidos. Espera-se que o Brasil não repita essa história”, crítica.

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O que está por trás do discurso de ódio

A xenofobia, a rejeição da pluralidade, a mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior e a construção de bodes expiatórios se transformaram em tendência mundial. É preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos extremistas. Também é necessário fortalecer a coesão coletiva.Trump,Bolsonaro,Violência,Xenofobia,Ideologia,Preconceito,Ódio,Comportamento
Lamentavelmente, no panorama europeu de renascimento do neofascismo, a Espanha já não é uma exceção. Ela acaba de ser tingida, quase de surpresa, com as pinceladas da cor obscurantista e xenófoba que estão avançando por toda parte no Velho Continente, a cor da ultradireita. Demonstra-se, mais uma vez, a sagacidade da afirmação do grande Dom Quixote: “Não há memória que o tempo não apague”.

Embora a Espanha tenha no momento apenas um grupo minúsculo, o Vox, ele é parte de uma onda de nacional-populismo neofascista que se espalha pelo mundo todo de maneira traiçoeira. Está se abrindo, sem dúvida, uma nova era de desafios importantes e sérios que as democracias terão de enfrentar, provavelmente durante umas décadas. É inegável que a globalização liberal posta em marcha no final do século passado entrou em uma fase crítica, devido à sua patente e consciente desregulação caótica, responsável por suas contradições atuais.

A busca de um novo equilíbrio econômico-social planetário é, portanto, imprescindível. Enfrentar o desafio deste novo período exige imperativamente que as democracias encontrem modelos econômicos e sociais que apostem, de forma efetiva, na eliminação da grande brecha atual da desigualdade, na solidariedade, que são expectativas da imensa maioria da população arraigada na civilização do respeito mútuo e da dignidade. Ao mesmo tempo, no entanto, chama a atenção o aparecimento − como consequência dos efeitos desagregadores da globalização − de camadas sociais reacionárias étnica, cultural e politicamente, que se identificam com um discurso de ódio de experiência remota. Trata-se de uma tendência mundial, cujas características comuns são tão importantes quanto suas diferenças.

Nos EUA, a ascensão de Donald Trump veio acompanhada de uma mudança de fundo, ao mesmo tempo demográfica e racial: os trabalhadores brancos de Kansas, Detroit, Texas e outros lugares do país apoiam o magnata imobiliário porque ele promete frear a chegada dos latinos, não pagar serviços sociais aos afro-americanos, acabar com o relativismo dos valores. Eles não temem apenas perder o emprego por competir com outros países, eles também têm medo dos fundamentos da igualdade institucionalizada, assim como da mistura demográfica e étnica que a política de Barack Obama encarnava. Um temor transformado em combustível político por Trump, com uma ideologia ultrapopulista. É, em suma, um nacional-populismo new wave, que retoma muitos dos ingredientes do fascismo clássico: a rejeição da mestiçagem (da qual subjaz, para muitos, a defesa da “raça branca”), a oposição entre quem está nas camadas inferiores e quem está nas superiores, a xenofobia, uma mentalidade paranoica em relação ao mundo exterior, a política da força como método de “negociação”, a denúncia do outro e da diversidade, a hostilidade contra a igualdade de gênero, entre outros.

Outro grande país, o Brasil, também acaba de entrar neste caminho. Falamos aqui de um movimento evangélico que emergiu das entranhas das camadas médias empobrecidas e com medo, também, da liberalização dos costumes, do desaparecimento de valores morais em um país minado pelo cinismo e pela corrupção, por desigualdades crescentes, pelo fiasco da esquerda brasileira que não pôde promover uma sociedade que se voltasse ativamente para o progresso coletivo. Jair Bolsonaro não é um profeta, ele simplesmente soube inverter as promessas da teologia da libertação em teologia do ódio, com o apoio das elites militares e financeiras e dos grandes meios de comunicação.

Lula e Dilma Rousseff perderam o apoio da classe média e depois foram crucificados, além disso com um golpe de Estado tramado por grupos financeiros, dirigentes políticos e alguns setores do Judiciário. A retórica evangélica arroga agora para si o papel de salvadora de um país à beira do abismo, fazendo da luta contra a corrupção seu cavalo de batalha e propondo o modelo de uma sociedade moralmente autoritária, um modelo indevidamente condenado ao fracasso, dada a excepcional diversidade e vitalidade da sociedade brasileira.

Tanto o Estados Unidos de Trump como o Brasil de Bolsonaro são testemunhas diretas e encorajam os movimentos reacionários dessas camadas sociais ameaçadas pelo rumo da globalização neoliberal. O repertório de mobilização se baseia no ideário das reivindicações nacionalistas e sua metodologia rompe com a representação política clássica: as manifestações em massa envolvem rituais extáticos de fusão com o líder, que denuncia, como uma ladainha de golpes de efeito, a decadência moral dos partidos, conclamando à recuperação urgente da grandeza perdida do país.

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SR. GARCÍA
Na Europa, o processo de estancamento da economia há quase duas décadas (ausência de crescimento gerador de empregos) também produziu um enorme retrocesso de direitos sociais e liberdades, uma regressão de identidade que explica o surgimento dos movimentos neofascistas. Embora tenham elementos específicos, todos compartilham a mesma metodologia política em sua conquista do poder: criticam duramente a representação política, instrumentalizando a democracia que a sustenta para conseguir a vitória; reivindicam a liberdade de expressão para expandir suas exigências, mas censuram seus adversários; dirigem a energia política das massas contra um objetivo previamente construído como bode expiatório (os imigrantes, a liberdade de imprensa que põe em xeque seus discursos, etc.). Servem-se desse arsenal demagógico para evitar falar de seu programa econômico concreto. Vale tudo na batalha que travam veementemente contra a civilização (sempre “decadente”, segundo eles) e a igualdade, pois o princípio fundamental da retórica neofascista, exposto (aí sim) em todos os seus programas, é a rejeição da igualdade e da diversidade dos cidadãos.

O neofascismo europeu que surge atualmente é, por antonomásia, supremacista, individual e coletivamente. É o projeto de uma sociedade hierárquica de senhores e servos, uma visão de mundo que aceita a necessidade imperiosa de submissão a um líder, sua “servidão voluntária”. Essa submissão fica escondida atrás do sentimento de força e de vingança em relação às “elites”, que a mobilização coletiva confere ao neofascismo militante. E isso funciona porque essa ideologia, sem prejuízo de suas particularidades em cada país, gera, na identidade de seus seguidores, uma poderosa liberação de instintos agressivos e explode os tabus que limitam as expressões primitivas, violentas, nas relações sociais. O grande analista do fascismo George L. Mosse se refere a essa característica como uma liberação da brutalidade em um contexto minado pelo “abrandamento” característico da sociedade democrática.

É uma luta diária a que deve emergir, pois permanente deve ser a defesa dos direitos e liberdades

O discurso da extrema direita propõe, certamente, uma sociedade estritamente homogênea, em pé de guerra contra tudo que possa introduzir diferenças e singularidades dentro do conjunto. A rejeição do pluralismo político – rejeição que ela promove como um projeto de gestão do poder − se baseia também na oposição frontal ao multiculturalismo, e, consequentemente, na rejeição da multietnicidade da sociedade. O modelo é o de um povo em sua essência, um povo etnicamente puro. A cultura obsessiva da pureza está intrinsecamente ligada à desconfiança em relação ao estrangeiro, à atividade crítica do intelectual − e inclusive à arte que não comungue com a estrita linha da moral autoritária vigente −, à liberdade de orientações sexuais e de identidade de gênero, à pluralidade de confissões religiosas. Não é apenas uma coincidência que o islã esteja hoje no olho do furacão neofascista na Europa: a presença de uma população de origem estrangeira que professa a religião muçulmana coloca em questão o conceito essencialista de povo homogêneo tanto no aspecto cultural como no religioso (embora o velho fascismo dos anos trinta não tivesse um apetite particular pela religião).

Uma sociedade democrática pode administrar populações misturadas e destinadas a conviver com suas contribuições mútuas à civilização humana, desde que sejam estabelecidas diretrizes seculares claras para todos. Por outro lado, uma sociedade baseada no conceito substancial de povo, no sentido que o neofascismo lhe dá, tende inevitavelmente à exclusão efetiva da diversidade. Daí que o modelo autoritário procure novamente se legitimar apelando para o perigo de religiões e culturas diferentes, que devem ser vigiadas e perseguidas para que não “contaminem” a identidade do povo.

A Frente Nacional francesa, no início de sua caminhada nos anos oitenta, fez da rejeição ao islã um eixo central de seu programa, escondendo seu tradicional antissemitismo. O partido Alternativa para a Alemanha colocou a islamofobia no centro de sua estratégia de mobilização em 2015, após a crise da chegada em massa de refugiados. Na Áustria, Itália, Bélgica, Holanda e em todos os países do norte da Europa, os refugiados também se transformaram no prato principal das campanhas eleitorais. São, igualmente, alvo da retórica ultracatólica de Viktor Orbán na Hungria e dos programas dos partidos neofascistas do Leste Europeu.

O discurso da extrema direita faz estourar os tabus que limitam as expressões primitivas e violentas

Esses movimentos, que avançam da Espanha até a Suécia, passando pelos países europeus ocidentais e orientais, compartilham, além disso, uma característica de natureza histórica: apelam para o nacional-populismo como uma reação à era da governança supranacional, resultante da ampliação do mercado europeu, dos efeitos da globalização neoliberal e das tentativas de construir instituições representativas europeias pós-nacionais. Daí o consenso em torno do objetivo de pôr em xeque a atual construção europeia, em nomeie da soberania nacional.

O que fazer diante desse desafio? Hoje, os partidos nacional-populistas neofascistas não representam mais do que entre 10% e 20% do eleitorado europeu, mas sua influência ideológica real é mais ampla. Naturalmente, é preciso diferenciar o corpo doutrinário desses partidos das representações mentais, muito menos elaboradas, dos cidadãos que os apoiam. Embora seja verdade que as causas do avanço gradual das correntes ultradireitistas são conhecidas, não existe uma posição comum das forças democráticas na hora de contê-lo.

Há, basicamente, três campos-chave de ação, e o primeiro deles é econômico. Se a democracia não caminhar em prol do progresso social, as vítimas, que são muitas, tenderão sempre a culpá-la por não haver progresso. Portanto, é necessário relançar a máquina econômica de integração profissional, que hoje depende, essencialmente, das capacidades não do mercado, como acredita a Comissão Europeia, mas sim dos Estados para incentivar o emprego. Para isso, eles precisam de uma política orçamentária mais flexível, que gere equilíbrio social. Infelizmente, essa é uma reivindicação que ainda não é levada em conta em Bruxelas.

Em segundo lugar, em face do nacionalismo reacionário e excludente, é preciso levar a sério a questão nacional, não deixá-la nas mãos dos nacionalistas xenófobos. É crucial interpretar bem a reivindicação de segurança de identidade das camadas sociais mais vulneráveis e desestabilizadas pela exclusão do emprego ou pela incapacidade de se adaptar às mudanças da sociedade moderna, que acontecem numa velocidade extraordinária. É necessário fortalecer a coesão coletiva, ou seja, a adesão ao bem comum, sem prejuízo do respeito à diversidade, sob diretrizes comuns e com valores essenciais de referência. É preciso administrar racionalmente os fluxos migratórios, não só para evitar as mentiras e a demagogia desconstrutiva sobre a imigração, como também porque a vida cotidiana se tornou muito mais competitiva e as percepções espontâneas favorecem um imaginário ilimitado de fantasias em um contexto de insegurança profissional. A economia, em todos os países desenvolvidos, precisa da imigração, e isso deve ser regulado com base no respeito pelos direitos humanos. Na Europa, um grande acordo político é imprescindível para desativar o papel que a imigração assumiu como bode expiatório.

Finalmente, deve-se assumir com firmeza a luta contra o neofascismo, explicar claramente à população o perigo que ele representa e propor pactos democráticos antifascistas àqueles que defendem a democracia e o respeito à igualdade e dignidade humana, denunciando, do mesmo modo, os que pisoteiam esses valores por razões eleitorais. Deve ser travada uma luta diária contra o nacional-populismo neofascista, pois a defesa da democracia, do bem-estar social, dos direitos e liberdades tem de ser permanente. Tomara que todos entendam isso, pois se trata do futuro da paz social!

Sami Naïr é catedrático de Ciências Políticas na Universidade de Paris e diretor do Instituto de Cooperação Mediterrâneo-América Latina da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha. É autor, entre outros livros, de ‘La Europa Mestiza’.

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A extrema direita renasce na Espanha

Partido Vox conquista cadeiras no Parlamento regional de Andaluzia, marcando o maior êxito eleitoral ultradireitista desde o fim da ditadura do general Francisco Franco, em 1975.Ditadura,Democracia,Espanha,Fascismo,Ideologia,Extrema direita,

Líder do partido ultradireitista Vox Santiago de Abascal (c) e o candidato regional Francisco Serrano (dir.) comemoram êxito eleitoral em Andaluzia

A Espanha vive um momento de perplexidade política após o partido ultradireitista Vox surpreender nas eleições regionais na Andaluzia neste domingo (02/12) e conseguir pela primeira vez representação em um Parlamento regional espanhol, na maior e mais populosa comunidade autônoma do país.

O partido nacionalista conquistou 12 das 109 cadeiras do Parlamento da região autônoma do sul da Espanha, obtendo o maior êxito eleitoral de um grupo de extrema direita desde a volta da democracia ao país em 1975, com o fim da ditadura do general Francisco Franco.

O resultado faz com que a Espanha deixe de ser um dos últimos países da Europa sem uma agremiação de extrema direita de peso.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que governa a região há 36 anos, foi o mais votado nas eleições regionais, ainda que tenha registrado uma perda de 47 para 33 cadeiras – o pior resultado da história da sigla esquerdista.

Os socialistas deverão ter dificuldades para formar uma coalizão de governo, após todas as demais forças políticas rejeitarem apoiar um executivo liderado pela atual presidente, Suzana Díaz.

Em setembro, Díaz justificou a decisão de convocar eleições antecipadas em razão da falta de estabilidade de seu governo, após perder o apoio do partido Cidadãos, sigla de centro-direita que foi a que mais cresceu nas eleições, passando de 9 parlamentares regionais para 21.

O resultado surpreendente do Vox foi destaque na imprensa espanhola. O jornal El País afirmou se tratar de “um terremoto político de alcance histórico, que ninguém – nem as pesquisas, nem os especialistas – foram capazes de prever”. O jornal afirma que a vitória dos direitistas serve como alerta para outras eleições importantes que ocorrerão na Espanha em 2019.

O Vox foi criado em 2013 com o objetivo de atrair eleitores frustrados com o Partido Popular (PP) do então primeiro-ministro Mariano Rajoy, com um discurso conservador centrado na defesa da família tradicional, da monarquia e da unidade do país frente aos movimentos de independência de regiões como País Basco e a Catalunha. O PP amargou um revés nas eleições andaluzes, diminuindo de 33 para 26 membros de sua bancada no parlamento.

A crise gerada pela declaração unilateral de independência da Catalunha no ano passado aumentou a visibilidade dos ultradireitistas, reforçada pelo aumento da chegada de migrantes do norte da África, que este ano transformou a Espanha no principal destino de refugiados rumo à Europa, superando a Itália. A maioria desses migrantes chega ao país através da Andaluzia.

Um vídeo do Vox divulgado antes das eleições, intitulado “Andaluzia pela Espanha”, viralizou na internet ao mostrar o líder do partido, Santiago de Abascal, em uma cavalgada com um grupo de apoiadores, numa referência à “Reconquista” espanhola dos territórios ocupados pelos muçulmanos nos séculos 13 e 15.

As eleições andaluzes eram consideradas um teste para o governo minoritário socialista, que chegou ao poder há seis meses, e também para a direita, a poucos meses das eleições nacionais e europeias em maio. O primeiro-ministro Pedro Sánchez, que vem tendo dificuldade em aprovar suas políticas em Madri, contava com um reforço do apoio popular.

A Comunidade Autônoma de Andaluzia possui mais de 8 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 87 mil quilômetros quadrados, sendo a segunda maior região da Espanha, atrás de Castela e Leão.

RC/lusa/dpa