Cresce aversão ao Brasil no mercado mundial

Empresas que querem exportar ou captar financiamento no exterior vivem momentos difíceis. Visto como pária por sua política ambiental, país é cada vez mais criticado. Opção pelo isolamento vai custar caro à economia.

É fascinante como nas últimas semanas o empresariado brasileiro vem discutindo aspectos ambientais de maneira séria e intensa. A cúpula sobre o clima promovida pelos EUA na semana passada acelerou isso. Nela, o presidente Bolsonaro quis se apresentar como um ambientalista convertido. Disse que o Brasil será climaticamente neutro já em 2050, que o desmatamento ilegal na Amazônia será zerado até 2030 e que imediatamente dobrará o orçamento para as autoridades ambientais. Mas a tal virada fracassou.

Era evidente que quem falava era o capitão da reserva e não um ambientalista. “Falta credibilidade à coisa toda”, diz Fábio Alperowitch, chefe da Fama Investimentos, uma das pioneiras entre os fundos para investimentos sustentáveis ​​no Brasil. Ele diz que Bolsonaro aponta metas distantes, mas sem um plano de ação.

Solidão

Após cerca de dois anos e meio no cargo, Bolsonaro fica cada vez mais solitário no mundo. Depois que Donald Trump deixou o poder nos EUA, ele é o único chefe de governo de um grande país que não dá a mínima para as mudanças climáticas. Mas agora sobretudo o empresariado está incomodado com o papel de pária ambiental do Brasil.

Porque, além da falta de reformas e da fraca gestão da crise, que empurra a esperada recuperação econômica cada vez mais para 2022, existe agora a ameaça de pressão adicional do exterior por causa da desastrosa política ambiental. Isso é algo que já vem sendo sentido por fundos e investidores que dependem de empréstimos externos.

Com isso, o banqueiro Armínio Fraga teve que suspender a captação de um multibilionário fundo de private equity antes do esperado, devido à falta de investidores, principalmente do exterior. “O pessoal está meio em greve”, lamenta o ex-presidente do Banco Central.

Aversão ao Brasil

Guilherme Leal, empresário e ex-candidato a vice-presidente do Partido Verde, também sente resistência do exterior. Os investidores não querem mais ir ao Brasil por causa da política ambiental. A controladora da rede de cosméticos Natura teme que a aversão dos consumidores ao redor do mundo aos produtos do Brasil saia do controle. “Parceiros comerciais estão com uma série de ruídos. E existe um risco disso chegar aos consumidores, e aí não tem quem controle”, afirma.

Essa crítica cada vez maior ao Brasil acaba ofuscando outros aspectos. Por suas usinas hidrelétricas, biocombustíveis e fontes alternativas de energia como solar, biogás e eólica, o Brasil possui uma das produções de energia mais sustentáveis ​​entre os principais países do mundo.

O Brasil é criticado mundialmente exclusivamente por causa da destruição florestal e do governo que nada está fazendo para evitá-la. “O Brasil tem a matriz energética mais sustentável entre as principais economias do mundo. Poderíamos ser uma referência neste mundo da descarbonização”, diz Markos Jank, um dos maiores especialistas em agroindústria do Brasil.

Papel do setor privado

Mas a falta de credibilidade é um obstáculo. Isso também se aplica a parte do próprio empresariado brasileiro. Jank defende, por exemplo, que o setor privado se torne mais ativo na proteção do meio ambiente, que sobretudo os agricultores façam mais para combater o desmatamento ilegal.

Para o investidor financeiro Alperowitch, o discurso nada convincente de Bolsonaro na cúpula do clima e as reações negativas a ele são um alerta para as empresas brasileiras listadas em bolsa de valores. “Greenwashing não ajuda nada, só prejudica!”

Compensação de carbono usada por grandes companhias aéreas com base em sistema falho, alertam especialistas

Floresta,Desmatamento,Amazônia,Brasil,Meio Ambiente,EcologiaFlorestas em todo o mundo estão ameaçadas de desmatamento. O parque nacional Tapantí, na Costa Rica, é cuidadosamente protegido como parte dos planos do governo para chegar a zero líquido até 2050. Fotografia: REUTERS / Alamy

O mercado de compensação de carbono de proteção florestal usado por grandes companhias aéreas para reivindicações de voos neutros em carbono enfrenta um problema significativo de credibilidade, com especialistas alertando que o sistema não é adequado para o propósito, descobriu uma investigação.

O dinheiro das compensações de carbono pode fornecer suporte financeiro vital para projetos que buscam proteger e restaurar alguns dos mais belos ecossistemas ameaçados em todo o mundo. Dado que as soluções baseadas na natureza podem dar uma contribuição significativa para a mitigação do clima necessária para estabilizar o aquecimento global, um canal de financiamento funcional será importante para o progresso da mudança climática e, particularmente, para os países em desenvolvimento.Mas uma investigação conjunta sobre os esquemas de compensação usados ​​por algumas das maiores companhias aéreas do mundo realizada pelo Guardian and Unearthed, braço investigativo do Greenpeace, descobriu que embora muitos projetos florestais estivessem fazendo um trabalho valioso de conservação, os créditos que eles geraram ao prevenir a destruição ambiental aparecem para ser baseado em um sistema falho e muito criticado, mesmo que esses créditos estivessem sendo usados ​​para apoiar alegações de “vôo neutro em carbono” e compromissos líquidos zero.

Analisamos 10 esquemas de proteção florestal que as companhias aéreas estavam usando antes da pandemia, que foram credenciados pela Verra, uma organização sem fins lucrativos dos EUA que administra o padrão de crédito de carbono líder mundial, VCS (Verified Carbon Standard). Os projetos estimam as emissões que evitaram, prevendo quanto desmatamento e desmatamento teriam ocorrido sem eles. As reduções são então vendidas como créditos. Descobrimos que suas previsões eram frequentemente inconsistentes com os níveis anteriores de desmatamento na área e, em alguns casos, a ameaça às árvores pode ter sido exagerada.

Além disso, existem preocupações sobre o problema inerente de olhar para o futuro e prever quais árvores seriam ou não abatidas, e de provar a adicionalidade – que o próprio projeto fez uma diferença para o resultado – que atrapalhou o sistema de compensação de seu início. Embora tenha havido trabalho para abordar essa questão fundamental, descobrimos que as preocupações permaneceram.

As descobertas foram duramente criticadas pela Verra, que afirma que os métodos por eles endossados ​​contribuíram para a luta contra as mudanças climáticas e o desmatamento, e transformaram as economias locais para melhor.
As descobertas foram duramente criticadas pela Verra, que afirma que os métodos por eles endossados ​​contribuíram para a luta contra as mudanças climáticas e o desmatamento, e transformaram as economias locais para melhor.

Thales West, um cientista e ex-auditor de projetos, conduziu um estudo sobre esquemas na Amazônia brasileira que descobriu que os projetos costumavam exagerar nas suas reduções de emissões. Ele disse que as metodologias “não são robustas o suficiente”, o que significa que “há espaço para projetos gerarem créditos que não tenham nenhum impacto no clima”.

Arild Angelsen, professor de economia da Universidade Norueguesa de Ciências da Vida e especialista em Redd + (redução das emissões do desmatamento e degradação florestal), disse que embora as metodologias da Verra para reivindicar créditos fossem uma tentativa séria de medir as reduções de emissões decorrentes da redução do desmatamento, eles eram atualmente não é robusto o suficiente.

Britaldo Soares-Filho, especialista em modelagem de desmatamento e professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais, disse ao Guardian que, no sistema atual, calcular reduções genuínas de emissões depende da capacidade de prever o futuro com precisão. “Os modelos não são bolas de cristal. Os modelos são um sinal para ajudar a formular políticas e avaliar as opções de políticas ”.

O software de uso da terra que ele projetou, Dinamica EGO, é frequentemente usado por projetos para prever onde o desmatamento teria ocorrido. Soares-Filho disse, em sua experiência, os projetos tendem a aumentar as ameaças à floresta e as atuais abordagens de modelagem resultam em “créditos de carbono fantasma”.
Alexandra Morel, uma cientista do ecossistema da Universidade de Dundee que esteve envolvida na criação de um dos 10 projetos em questão, acredita que foi difícil julgar se as reduções de emissões reivindicadas pelos projetos eram reais.

“É impossível provar um contrafactual”, disse ela. “Em vez de apenas avaliar quais florestas estão realmente lá, que estão ativamente fornecendo um sumidouro ou armazenamento de carbono agora, temos que supor quais florestas ainda estariam aqui contra quais são as florestas bônus que foram poupadas do machado teórico.”

Margaret Kim, CEO da Gold Standard, outra organização que certifica compensações de carbono, disse ao Guardian e à Unearthed que sua organização não certificou projetos Redd + porque ela acreditava que a forma como foi criada não funcionava. “Um projeto pode realmente selecionar áreas de proxy. Portanto, uma região de referência pode ser configurada para ser mais conveniente para um projeto para maximizar sua taxa de desmatamento de linha de base. ”

A Verra, que atesta os projetos estudados nesta investigação, apontou que muitos dos benefícios proporcionados por esses projetos eram difíceis de medir. “A Verra canaliza financiamento, tecnologia e conhecimento para comunidades rurais dependentes da floresta que, de outra forma, carecem de recursos. Esses projetos enfrentam o desmatamento de maneiras cada vez mais novas e criativas.”Em todo o mundo, terras agrícolas, como a plantação de óleo de palma vista aqui, estão devorando a floresta original. Os projetos florestais buscam reduzir o desmatamento usando uma variedade de métodos. Fotografia: Willy Kurniawan / Reuters

Eles criam empregos criando guardas para vigiar a extração ilegal de madeira; eles apóiam os agricultores locais que desejam mudar para práticas mais sustentáveis; melhoram o acesso à água e à educação. “Em suma, os projetos estão trabalhando para transformar as economias locais para que não tenham mais que depender do corte da floresta.” Alguns dos projetos apontaram que estavam lidando com pecuaristas e madeireiros agressivos, funcionários públicos corruptos, plantações de coca e cartéis de drogas locais e pobreza extrema, bem como mudança climática.

Mas a Verra também acredita fortemente em seu programa Redd + e argumentou que a análise de nossa investigação foi “profundamente falha”. Ele ressaltou que, desde nosso contato inicial com ele, havia iniciado o processo de alteração de seu padrão com um conjunto abrangente de atualizações que acredita representar “nosso compromisso em garantir que a contabilização das reduções de emissão dos esforços de preservação florestal seja o mais precisa possível , incorpora de forma consistente as melhores práticas científicas mais recentes e apóia esforços liderados pelo governo para impedir o desmatamento ”.

Crystal Davis, diretora do Global Forest Watch do World Resources Institute, defendeu fortemente a utilidade dos mecanismos de financiamento da conservação e destacou que “as florestas tropicais não podem perder o Redd + como mecanismo de financiamento da conservação em escala”.

Ela não acha que a análise da McKenzie Intelligence Services (MIS), uma empresa com sede em Londres especializada em análise e inteligência de imagens geoespaciais, mostrou que os projetos estavam inflando suas projeções, mas concordou que “a avaliação post-facto da integridade das linhas de base é realmente difícil de fazer.

“Isso é um grande problema. Eu não acho que o Redd + jamais alcançará todo o seu potencial como um mecanismo de financiamento da conservação se não pudermos criar mais transparência e responsabilidade voltadas para o público no sistema.” Ela acrescentou que foi incentivada a ver grandes esforços em andamento para alcançar isso.
Já se passou bem mais de uma década desde que os governos mundiais surgiram com um plano para desacelerar e até parar o desmatamento como parte da ação internacional sobre a crise climática. O plano era simples: os países em desenvolvimento seriam, basicamente, pagos para não derrubar árvores. A ideia, assinada em 2007, foi batizada de Redd +.

Esperava-se que as reduções de emissões alimentassem um sistema cap-and-trade para o clima, um método baseado no mercado que se provou bem-sucedido algumas décadas antes em lidar com a chuva ácida (e depois a camada de ozônio), estabelecendo limites sobre quanto dióxido de enxofre cada empresa poderia emitir. Se você precisava emitir mais do que seu limite, você comprava créditos de uma empresa que havia conseguido emitir menos. Os benefícios de emitir menos e o custo de emitir mais rapidamente reduziram as emissões. O plano era fazer o mesmo com os gases do efeito estufa em escala global.

Mas 13 anos depois, a intensa discordância sobre o mercado global de carbono que sustentaria o Redd + e outros sistemas de mitigação do clima significa que é a única parte do livro de regras do acordo de Paris que os governos ainda não concordaram. Na ausência de um sistema robusto e internacionalmente aceito, projetos de proteção florestal não regulamentados em pequena escala surgiram em todo o mundo, geralmente conhecidos como “Redd + voluntário”.

Não existe um sistema de certificação oficial, mas o mais utilizado é o Verra. Empresas como companhias aéreas, empresas de sorvete, bancos – qualquer um que emita carbono e queira compensar suas próprias emissões – dão dinheiro às ONGs para continuar protegendo a floresta.

Até agora, o mercado de compensação de carbono tem sido pequeno, cerca de US $ 300 milhões (£ 215 milhões) em 2019. Mas, durante os últimos dois anos, uma grande onda de estratégias corporativas líquidas de zero e reivindicações de neutralidade de carbono mudaram a necessidade de contabilidade de carbono rigorosa para créditos Redd +. O ex-governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, está liderando uma força-tarefa para transformar a compensação de carbono em um mercado anual de bilhões de libras. O chanceler, Rishi Sunak, anunciou sua intenção de fazer de Londres um centro de comércio global para compensações voluntárias.

Para que estes projetos cumpram o papel que lhes foi delineado na descarbonização do mundo desenvolvido, proporcionando compensações para grandes empresas e ajudando a contribuir para a jornada da rede zero, é vital que as metodologias que utilizam para calcular o a redução das emissões são rigorosas e precisas.A extração ilegal de madeira – como este carregamento apreendido pela Polícia Militar da Amazônia no Brasil no ano passado – é uma ameaça crítica para as florestas. Fotografia: Ricardo Oliveira / AFP / Getty Images

Atualmente, a Verra tem uma série de requisitos para projetos que concordará em certificar e existem várias metodologias que podem ser utilizadas. Geralmente, cada projeto Redd + deve medir o desmatamento e as mudanças no uso da terra em uma região de referência, uma área muito maior que é considerada representativa do esquema que geralmente inclui o projeto. Eles também devem documentar as ameaças ambientais de áreas próximas, suas atividades de conservação, a composição ecológica da área e o provável efeito do projeto Redd + nas comunidades que vivem dentro e ao redor dele, em muitos casos projetando tendências históricas no futuro.

O número de créditos de carbono gerados por um projeto depende da diferença entre sua previsão de desmatamento e o que realmente acontece. A Verra diz que suas metodologias são conservadoras por design para garantir que as previsões contrafactuais sejam realistas. As reivindicações são então verificadas por um auditor terceirizado aprovado para ver se eles seguiram a metodologia corretamente.

The Guardian and Unearthed analisaram 10 projetos, que fornecem créditos a seis grandes companhias aéreas, incluindo a British Airways e a easyJet, para avaliar, da melhor forma que pudemos com a ajuda de especialistas e análises de satélite encomendadas, exatamente o quão realistas eram suas previsões. Embora esta não seja uma análise abrangente de projetos voluntários do Redd +, esses projetos constituem 10 dos 79 que Verra supervisiona, portanto, uma análise dará algumas dicas úteis sobre o funcionamento do setor maior. Vimos as ferramentas que eles usaram para suas previsões e os resultados até o momento.

A investigação encontrou um uso inconsistente de métodos e ferramentas preditivas. Dois dos projetos usaram o Dinamica EGO para estimar onde o desmatamento ocorreria devido às ameaças ao meio ambiente. Soares-Filho advertiu contra seu uso para projetos Redd +, e disse que a abordagem de modelagem para calcular linhas de base prospectivas resultou em “créditos fantasmas” porque o software não foi projetado para prever o futuro com precisão.

Dois modelaram o desmatamento e a mudança no uso da terra usando uma ferramenta que lhes permite supor um aumento maciço na taxa de desmatamento em comparação com a taxa histórica.

Um projeto usou um modelo simples de variável única, que previu um grande aumento no desmatamento na ausência do projeto. Outros dois construíram seus próprios modelos – um alegando que toda a floresta tropical teria desaparecido sem eles, outro alegando que cerca de um quarto iria desaparecer. Outro adotou uma linha de base do governo nacional. Um disse que evitaria grandes quantidades de desmatamento com cultivo sustentável de nozes, outro com uma mistura de extração planejada de madeira e proteção florestal.

Vimos as taxas de desmatamento anteriores dentro e ao redor dos projetos e as comparamos com as taxas previstas. Aqui, descobrimos que, onde pudemos comparar, os projetos geralmente previam taxas de desmatamento que pareciam inconsistentes com as taxas anteriores.

Um projeto previu uma taxa anual que era o triplo do pior ano antes de começar. Um em uma parte remota e inacessível da selva baseava suas previsões na taxa de desmatamento de cada lado de uma estrada principal. Outro estava cuidando de uma área que havia sido transformada em parque nacional e onde não ocorria desmatamento ilegal há anos. Apesar disso, previu um grande aumento no desmatamento se o projeto não estivesse lá.

Um tinha taxas muito baixas de desmatamento antes do início do projeto, mas previa altas taxas anuais sem ele, enquanto outro havia adotado uma abordagem geralmente conservadora. Não foi possível avaliar as projeções de cinco projetos devido às limitações técnicas e metodológicas utilizadas.
Quatro esquemas haviam feito previsões de desmatamento sobre sua área de projeto e uma região de referência circundante que poderíamos facilmente examinar. Pedimos à MIS que avaliasse a perda de cobertura de árvores nas áreas de referência de todos os quatro projetos, excluindo as áreas do projeto (por uma série de razões, não era apropriado ou possível examinar todas as 10). Se a cobertura de árvores for menor nessa área, isso pode indicar que as previsões originais eram imprecisas e as linhas de base do desmatamento foram infladas.

No entanto, como Verra, GFW e alguns dos projetos nos indicaram, isso também pode indicar que os projetos foram muito mais bem-sucedidos do que o inicialmente esperado, e que o trabalho para reduzir o desmatamento dentro dos projetos se espalhou para a área circundante, reduzindo o desmatamento na região.

A análise do MIS, de fato, descobriu que o desmatamento nas regiões de referência foi muito menor do que o previsto; em dois projetos, a taxa real de desmatamento, de acordo com os números do MIS, ficou em torno de um terço da taxa prevista. Em outro era metade, enquanto em um terço era apenas um quinto. Mas a dificuldade em avaliar o significado dessas informações destaca um problema fundamental com o sistema contábil.

Conversamos com todos os projetos sobre seus desafios e benefícios de seu trabalho. “[Estamos lidando com] pecuaristas e madeireiros agressivos, funcionários públicos corruptos, plantações de coca e cartéis de drogas locais, pobreza extrema, tempestades tropicais, incêndios florestais, políticas perversas de uso da terra e agora mudanças climáticas”, disse um projeto.

Vários disseram que estavam protegendo ecossistemas preciosos com vida selvagem rara e suas atividades ajudaram a sustentar sua sobrevivência. “Contamos com o mercado voluntário de carbono para pagar as comunidades da floresta pelos serviços ambientais que prestam à comunidade global, que incluem a proteção da floresta e a redução das emissões de carbono”, disse outro. “Usamos a melhor ciência disponível e cumprimos os protocolos acordados e verificados por terceiros para produzir créditos de carbono que atestam os serviços ambientais que estão sendo prestados.”

Os créditos de carbono foram uma fonte vital de financiamento para quase todos os projetos. Um disse que eles preencheram a lacuna depois que o financiamento de doadores ocidentais acabou. Outro disse que o dinheiro dos créditos ajudava a apoiar comunidades que, de outra forma, não teriam uma fonte externa de renda. Alguns projetos Redd + eram esquemas com fins lucrativos e diziam que as críticas ao sistema eram ideológicas.

Infelizmente, nenhuma avaliação científica abrangente foi publicada sobre como os projetos de compensação de carbono com base em florestas afetam o desmatamento. Este ano, os pesquisadores da Universidade de Cambridge devem publicar um estudo inédito para avaliar o quão bem os projetos Redd + param e reduzem o desmatamento.

O estudo de 2020 da West, que foi publicado no PNAS, avaliou 12 esquemas Redd + aprovados pela Verra na Amazônia brasileira para analisar como as reduções de emissões alegadas combinavam com a realidade.

Para fazer isso, os pesquisadores compararam as tendências de desmatamento em projetos Redd + com grupos de controle com características semelhantes, descobrindo que os esquemas rotineiramente exageraram em suas reduções de emissões. O estudo descobriu que as reduções no desmatamento foram quase todas devido a políticas em nível nacional, como a moratória da soja de 2006 na Amazônia, que causou quedas espetaculares no desmatamento, não os projetos.

Embora os 12 projetos reivindicassem 24,8 milhões de toneladas de reduções de emissões usando metodologias Verra, as taxas de desmatamento em 11 deles não mostraram nenhuma diferença com os grupos de controle no estudo. Para o único projeto que o fez, os autores disseram que 40% das emissões declaradas foram exageradas.

Em um comunicado, a Verra disse estar preocupada que o Guardian não entendesse como suas metodologias funcionavam, ou as regras do VCS, a investigação era “fatalmente falha” e não havia produzido jornalismo baseado em fatos, ignorando seu sucesso na preservação de árvores em pé. A organização contestou a independência da investigação e a descreveu como um “hit” por causa da oposição do Greenpeace aos créditos de carbono, acrescentando que muitas das críticas estavam desatualizadas e não refletiam o que estava acontecendo atualmente com os créditos de carbono Redd +. Por fim, Verra disse que o jornalismo era perigoso, pois ameaçava as finanças para preservar as florestas em pé e era mais parecido com uma campanha política.

A Verra está fazendo mudanças substanciais na forma como os projetos geram créditos para cumprir as mudanças prováveis ​​se as divergências sobre o livro de regras do acordo de Paris que cobre o Redd + em nível nacional forem resolvidas. Os projetos serão “aninhados” em sistemas nacionais e regionais e derivarão créditos de uma linha de base alocada nacionalmente. A organização desenvolveu uma nova ferramenta de mapeamento de risco para destacar as áreas de maior risco de desmatamento. Verra disse que os créditos gerados com as metodologias anteriores não seriam retirados.

Em resposta aos resultados da investigação, as companhias aéreas disseram que confiavam na qualidade dos créditos Redd + que usavam para compromissos climáticos, que muitas vezes eram obtidos por meio de terceiros. A EasyJet, que compensa as emissões de combustível em nome de todos os clientes para “voos neutros em carbono”, disse que era uma medida provisória enquanto a tecnologia de emissão zero era desenvolvida e a companhia aérea estava confiante de que os projetos que apoiou estavam efetivamente evitando a perda de floresta.

A British Airways disse que está comprometida com as emissões líquidas zero até 2050 e que a compensação continua sendo uma parte importante de seu plano de curto prazo, enquanto alternativas aos combustíveis fósseis são desenvolvidas.

Delta disse que as metodologias da Verra são rigorosas e baseadas na ciência, acrescentando também que está investindo em tecnologias de baixo carbono. Outras companhias aéreas ecoaram esses comentários e disseram que o uso de compensações era uma medida intermediária.

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Desmatamento ameaça cortar ao meio faixa de floresta que mantém umidade na Amazônia

A derrubada de árvores desenfreada ameaça dividir ao meio o Corredor de Áreas Protegidas do Xingu, que conecta a parte da floresta densa no Pará com uma região de transição nas cabeceiras do Xingu, muito importante para a regulação do clima e chuvas.

Imagens de satélite mostram que o processo de destruição se intensificou entre os anos de 2018 e 2020, principalmente, durante o Governo Bolsonaro. O sistema de monitoramento de desmatamento Sirad X, da Rede Xingu+, detectou a devastação de 513,5 mil hectares de floresta no período, área equiv alente a 5x o município de Belém (PA). É como se a cada minuto, 149 árvores fossem derrubadas.

“Por meio do monitoramento do Sirad X, foi possível acompanhar de perto a evolução do desmatamento das Áreas Protegidas e seu entorno na bacia do Xingu nos últimos três anos, período em que houve a transição de governo e mudanças nas políticas ambientais”, conclui o relatório “Xingu sob Bolsonaro”.

Discursos favoráveis pela redução inconstitucional de terras indígenas e a legalização de atividades destrutivas como o garimpo, além do enfraquecimento das ações de fiscalização, promovem um cenário de total impunidade.

A divisão em duas partes desse grande maciço que forma um dos maiores mosaicos contínuo de Terras Indígenas e Unidades de Conservação preocupa quanto às perdas de biodiversidade e ampliação de áreas desmatadas, pois ele tem um papel crucial na proteção da Amazônia e do clima.

Espécies animais também correm risco com o empobrecimento da floresta que vai fragilizar ainda mais sua capacidade de resistir às mudanças ao seu redor. Se a Amazônia atingir um ponto de não-retorno, dará lugar a uma vegetação mais seca e vulnerável, sem capacidade para continuar exercendo sua condição de provedora de chuva, essencial para toda américa do sul.

Proteção ambiental

A região presta serviços ambientais inestimáveis ao planeta, da proteção de rios e nascentes à regulação do clima a nível local, regional e global. Suas vastas florestas representam uma das maiores e mais estáveis reservas de carbono na Amazônia oriental, estocam aproximadamente 16 bilhões de toneladas de CO2.

Estima-se que suas árvores lancem para a atmosfera, por meio da evapotranspiração e da produção de compostos orgânicos voláteis que atuam como núcleos de condensação de chuva, de 880 milhões a 1 bilhão de toneladas de água por dia, um volume similar ao que o rio Xingu despeja no Amazonas no mesmo período.

A água é transportada pelos chamados “rios voadores” para as regiões centro-oeste, sudeste e sul do Brasil, fornecendo a chuva para cidades e campos, essencial para a manutenção da atividade agropecuária.

Com 23 Terras Indígenas e nove Unidades de Conservação, o Corredor é considerado uma das regiões com maior sociobiodiversidade no mundo, abrigando 26 povos indígenas e centenas de comunidades ribeirinhas.

Há séculos esses povos tradicionais manejam e protegem suas florestas, que comportam um imenso conjunto de espécies de plantas e animais, algumas ainda desconhecidas pela ciência. Com uma área de mais de 26,5 milhões de hectares, o Corredor tem um papel crucial na proteção da Amazônia e do clima.

Xingu sob Bolsonaro

O relatório expõe também a situação desoladora das comunidades indígenas que vivem na região, pois com a pressão do desmatamento, são ameaçadas por outros tipos de agressões indissociáveis a esse cenário, como a invasão de terras, grilagem, impacto de grandes obras de infraestrutura e mineração ilegal.

Entre 2018 e 2020, verificou-se o aumento do desmatamento dentro das Terras Indígenas e Unidades de Conservação, evidenciado, principalmente, no ano de 2019, em decorrência da intensificação de invasões de Áreas Protegidas e do recrudescimento da mineração ilegal.

Atualmente, o Xingu é a bacia mais ameaçada da Amazônia brasileira, concentrando as Áreas Protegidas recordistas em desmatamento dos últimos anos como a APA Triunfo do Xingu e as Terras Indígenas Cachoeira Seca, Ituna Itatá e Apyterewa.

A região paraense da bacia concentrou os maiores índices de desmatamento, devido, principalmente, à contribuição dos municípios de Altamira e São Félix do Xingu.

Altamira compreende áreas intensamente desmatadas devido à pressão de grandes empreendimentos de infraestrutura como a UHE de Belo Monte, e São Félix do Xingu é o município que mais emite gases de efeito estufa do Brasil, tanto pelas altas taxas de derrubada de floresta como pelo maior rebanho bovino do país.

Os discursos do governo favoráveis à redução de Áreas Protegidas, a expectativa da legalização de atividades criminais, como o garimpo mecanizado dentro de Terras Indígenas (PL 191/2020), assim como a ostensiva diminuição das ações de fiscalização, foram um fator importante na atração de invasores nas TIs Apyterewa, Cachoeira Seca, Ituna Itatá, Trincheira Bacajá e Kayapó.

A expectativa de regularização das terras griladas (PL 2633/20 e PL 510/21) também têm impulsionado invasões nas UCs Flona de Altamira, FES do Iriri, Esec da Terra do Meio e na APA Triunfo do Xingu. Sem plano de manejo nem zoneamento, a APA Triunfo do Xingu é a Unidade de Conservação mais desmatada de todo o Brasil nos últimos 10 anos, sendo epicentro de pressões e ameaças para as Áreas Protegidas em seu entorno.

Fonte: ISA/Rede Xingu+

Doc Amazônia 4.0: floresta em pé é mais lucrativa que agronegócio

Já está disponível na Plataforma Grape ESG o filme Amazônia 4.0 – The Reset Begins.

Foto Rodrigo Baleia / Greenpeace

O documentário alerta sobre a proximidade de um ponto de devastação sem retorno. Mas a produção audiovisual lançada no Dia da Terra, revela que também há espaço para otimismo, ao apresentar alternativas para o desenvolvimento sustentável da Floresta Amazônica. Mas é preciso agir rápido.

O pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Nobre, diz que é preciso avaliar uma outra perspectiva econômica para a região. Ele afirma que a agricultura e a pecuária, principalmente esta última, foram reveladas como fontes de baixa produtividade. Perde o meio ambiente e perdem as populações: “mais de 60% da população da Amazônia é pobre. Desmatamos e não trouxemos benefícios para as populações”.

O filme idealizado com o objetivo de provocar e inspirar discussões oportunas, positivas, e com visão de futuro, envolvendo empresas, executivos e a ciência, é lançado num momento em que a Cúpula de Líderes de 40 nações foca em amenizar e frear os impactos climáticos para o planeta.
Carlos é um dos importantes nomes da ciência, academia, organismos internacionais e dos negócios, que participam como entrevistados do documentário. No início do filme, ele revisita o passado para demonstrar que o modelo atual de desenvolvimento econômico precisa ser revisto.

Ele revela que a prática de devastação das florestas tropicais tem origem na colonização europeia. “Desde que chegaram na América do Sul, há 520 anos, jamais viram o valor das florestas. Vieram de um continente de baixa diversidade. Isso fez com que eles trouxessem um modelo de utilização da terra que não via valor nas florestas”.

E assim, o modelo se replicou por ano, sem que os governantes brasileiros vissem a natureza tropical como um fator econômico de desenvolvimento.
“Desmatamos 80% da Mata Atlântica, 50% do Cerrado e a Amazônia, 20%. A visão do governo militar do final dos anos 60 e início dos anos 70 apresentava a floresta como obstáculo de desenvolvimento. Queima-se a floresta para gerar a fertilização dos pastos para o gado. E como sabemos, as emissões de gases do efeito estufa são muito altas”. Segundo ele 50% vem do desmatamento da Amazônia.

“Precisamos encontrar um outro paradigma para manutenção dos nossos biomas e principalmente, para salvar a Amazônia, pois o clima está mudando. A estação seca já está muito mais longa no Sul da Amazônia, a floresta já não recicla tanta água e não absorve mais tanto carbono da atmosfera. Estamos arriscando a torna-la uma savana”.

Ele alerta que é preciso pensar rápido sobre a restauração de uma enorme área já desmatada e muito abandonada. “23% de toda área foi abandonada pela agricultura e pecuária, então, precisamos inovar, enxergar a riqueza da floresta em outra perspectiva, o grande potencial que o país tem como a maior biodiversidade do planeta”.
A propósito, o filme foi inspirado por um artigo do estudioso, publicado no The New York Times em outubro de 2020, onde ele trata dos princípios da bioeconomia, reforçando que a região Amazônica pode acomodar tantos os seres humanos quanto a biodiversidade.

Cúpula do Clima: Brasil precisa diminuir desmatamento da Amazônia ainda neste ano para não receber sanções

O cientista Carlos Nobre defende que o grande potencial econômico da floresta é mantê-la em pé, mas que é preciso um forte combate ao crime organizado para zerar a degradação o quanto antes.

O cientista Carlos Nobre na Reserva Ecológica de Cuieiras, a 100 quilômetros de Manaus, na área de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).TORE MARKLUND / DIVULGAÇÃO

O climatologista Carlos Nobre é uma das principais vozes da ciência que alertam para os riscos de savanização da Amazônia caso o desmatamento não seja freado e zerado até, no máximo, 2030. Em entrevista o cientista afirmou que ou o Governo Jair Bolsonaro muda sua conduta ou corre o risco de sofrer sanções econômicas. “Se o Brasil quiser deixar de ser o pária ambiental do planeta, não dá para ficar em cima do muro nem deixar para mudar de postura depois, para a COP-26”, explica o cientista, referindo-se à conferência do clima da ONU que será realizada em novembro deste ano, em Glascow (Escócia). “Eu acho que vai ter muita sanção econômica. Podem enterrar de vez o acordo entre Mercosul e União Europeia, por exemplo. Por isso, é muito importante que o desmatamento caia ainda neste ano. Já se sabe que não vai cair muito, mas não pode crescer”, alerta ele.

Atualmente, pouco mais de 80% da cobertura original da Amazônia está preservada. O número parece alto, mas estudos científicos indicam que a floresta está “na beira do precipício da savanização”: a estação seca está três ou quatro semanas mais longa no sul da região e a floresta absorve menos carbono e recicla menos água, explica Nobre. “Há colegas meus que dizem que savanização ja começou. Eu ainda acho que dá para evitar o pior se a gente zerar rapidamente o desmatamento e restaurar grandes áreas, gerando chuvas e diminuindo temperaturas. Mas isso tem que acontecer a jato”. Para salvar a Amazônia, o mundo também precisa ter sucesso na aplicação do Acordo de Paris e não deixar que a temperatura do planeta suba mais que 1,5 grau celsius. Caso contrário, todo esforço de preservação será em vão, explica Nobre. Os desafios são enormes.

Durante seu discurso de três minutos na Cúpula do Clima nesta quinta-feira, Bolsonaro garantiu que o Brasil tem a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030. De acordo com Nobre, mais de 90% de todo o desflorestamento da Amazônia é ilegal e não tem a ver com produção agrícola, mas sim com o mercado de terra. Para mudar esse quadro, é preciso combater o crime organizado, o que praticamente zeraria toda a degradação da floresta, explica. Em sua fala, Bolsonaro reconheceu que medidas de comando e controle são parte da reposta. “Apesar das limitações orçamentárias do Governo, determinei o fortalecimento dos órgãos ambientais, duplicando os recursos destinados a ações de fiscalização”, assegurou o presidente. As metas apresentadas pelos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, foram elogiadas pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em seu discurso de encerramento nesta sexta.

Porém, um dia depois do pronunciamento de Bolsonaro, aconteceu exatamente o inverso do que ele prometeu diante de 40 líderes internacionais: entre os vetos no Orçamento de 2021, o Governo federal cortou nesta sexta-feira 19,4 milhões de reais do Ibama, sendo que 11,6 milhões seriam destinados para atividades de controle e fiscalização ambiental e seis milhões para a prevenção e controle de incêndios florestais. Bolsonaro também retirou sete milhões do ICMBio, outro braço da fiscalização ambiental, que seriam destinados à criação, gestão e implementação de unidades de conservação. Também cortou 4,5 milhões do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima. No total, os cortes do Ministério do Meio Ambiente somam 240 milhões de reais para o ano de 2021.

“Tem que haver um esforço de guerra para acabar ou diminuir o crime na Amazônia. Não pode ser só um discurso de tolerância zero, porque na prática o crime continua acontecendo”, enfatiza Nobre. Os anos de 2019 e 2020 registraram um importante aumento no desmatamento. Em 2021, o mês de março foi o pior dos últimos 10 anos. “O general Mourão [vice-presidente e responsável pelo Conselho da Amazônia] afirmou que o Exército iria sair da Amazônia no dia 30 de abril e que o Ibama iria contratar 700 fiscais temporários. Até agora não contratou nenhum. Muitos fiscais foram aposentados por idade ou estão fora de campo com a pandemia”, alerta o cientista, que teme novo aumento do desmatamento a partir de maio, quando começa o período mais seco na região amazônica.

Nobre explica que o desmatamento das florestas tropicais representa 15% das emissões de gás carbônico no planeta, enquanto que a maior parte, 70%, vem dos combustíveis fósseis. Porém, o objetivo global de zerar as emissões até 2050 passa, necessariamente, por zerar o desmatamento ao mesmo tempo que se investe “em um mega projeto de restauração florestal em todos os trópicos para retirar gás carbônico da atmosfera”. Além disso, proteger as florestas significa, também, proteger a biodiversidade. “Existe um simbolismo imenso na proteção da Amazônia”, explica o cientista. Para ele, Biden percebeu essa preocupação dos consumidores de todo o mundo com a proteção da Amazônia. “E o Brasil tem a maior parte da floresta, o maior desmatamento, a maior incidência do crime organizado, de grilagem de terra, de roubo de madeira… Em função dos dois últimos anos de discurso do Governo federal contrário à proteção das florestas tropicais, o país se tornou o centro das atenções.”

Novo modelo econômico para a Amazônia

Nobre defende que a restauração da Amazônia não deve acontecer para compensar novas áreas desmatadas. Zerar o desmatamento e promover a restauração de áreas devem andar juntos. “Há áreas degradadas e baixa produtividade sem valor econômico. Há estudos indicando que poderíamos aumentar 35% da produção agropecuária reduzindo em 25% as áreas de pastagens. Só nessa brincadeira poderíamos liberar 150.000 quilômetros quadrados de áreas ruins que poderiam ser restauradas”, explica. Ele defende que parte dessa restauração seja feita para construir sistemas agroflorestais, “que são florestas com uma densidade maior de espécies com valor econômico”. Como exemplo cita a cooperativa de Tomé-Açu, no Pará, que gera “140 produtos diferentes a partir de 70 espécies, sendo a mais conhecida o açaí”.

Assim, ele reforça que “o grande potencial econômico da Amazônia” é mantê-la em pé. Também rebate a ideia, muito propagada pelo Governo, de que os mais 20 milhões de habitantes da região recorrem ao desmatamento para poderem sobreviver. “Os empregados do garimpo e da extração de madeira estão em semiescravidão e não ganham nem um salário mínimo por mês. São paupérrimos, estão na classe E. Não podemos dizer que isso é um modelo econômico”, argumenta. Além disso, argumenta que o minério e a madeira extraídos ilegalmente são contrabandeados. Não pagam impostos e nem geram riqueza ao país. “E veja o açaí, movimenta um bilhão de dólares [cerca de 5,5 bilhões de reais] na região e muitos produtores estão na classe C”.

O custo maior da mudança de modelo econômico seria na restauração florestal, garante Nobre. Com pouco investimento, afirma, é possível dobrar ou triplicar a produtividade da pecuária. Ele acredita que no setor privado o momento é positivo, com as grandes companhias de carne investindo em rastreabilidade para não comprar de áreas desmatadas. Sabem que o risco é perder mercados internacionais e investimentos. “O que precisamos, agora, é de uma grande mudança de postura nas políticas públicas, de efetividade no combate ao crime e na valorização da bioeconomia”, destaca.

Governo Bolsonaro: Apesar do recorde de desmatamento em 2020, cada vez menos fiscais atuam na Amazônia

Sob Bolsonaro, a maior floresta tropical do mundo perdeu no último ano 11.088 quilômetros quadrados de área, o recorde em 12 anos. Ibama, que em sua ‘melhor fase’, em 2009, tinha 1.600 pessoas zelando pelo cumprimento da legislação ambiental brasileira, agora não tem nem 700.

Entre os fatores que impulsionam o desmatamento da Amazônia há os clássicos e os menos óbvios, como a taxa de câmbio. Um dólar alto (a 5 reais), como agora, incentiva o corte ilegal de árvores, seja pela febre do ouro ou para limpar espaços que sirvam depois para pastos e cultivos. A maior floresta tropical do mundo perdeu no último ano 11.088 quilômetros quadrados de área florestal, o recorde em 12 anos.

Perseguir os crimes ambientais na Amazônia brasileira sempre foi um desafio descomunal, porque é mais extensa que a soma dos 27 países da União Europeia, mas com o presidente Jair Bolsonaro isso fica ainda mais difícil. Quando as nuvens permitem, os satélites exercem há anos um papel valioso no combate ao desmatamento, mas antes ou depois dele são necessários inspetores ambientais que atuem no terreno. Sempre foram poucos, e agora estão prestes a se tornar mais uma espécie em extinção.

Isso significa um punhado de homens com alguns barcos e helicópteros em um território hostil, com poucos aeroportos e estradas, e onde explorar ilegalmente as riquezas da terra é um dos raros negócios realmente lucrativos. Um veterano fiscal do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) fazia em plena pandemia, as seguintes contas sobre sua equipe: descontados os que por idade ou doença pré-existentes foram afastados pelo coronavírus, os aptos a participar das operações de fiscalização são pouco mais de 20 no Estado do Amazonas, o maior do Brasil. A eles se soma um punhado de investigadores de polícia e algumas dezenas de soldados do batalhão ambiental da PM. Isso para cobrir uma área equivalente a três vezes a Espanha.

Sobretudo na última década, os dados dos satélites “ajudam o Ibama a priorizar as áreas de atuação, porque a mão de obra é limitada”, diz o professor Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais, cujo doutorado abordou justamente o papel da tecnologia neste âmbito. Mas o acadêmico acrescenta que esses funcionários “dependem muito do trabalho de campo, sobretudo nas áreas indígenas, em unidades de conservação, onde existe um desmatamento muito agressivo”. É preciso chegar até lá porque o satélite é capaz de detectar indícios de crime, mas não de neutralizá-lo. Isso implica se apresentar no local para confiscar e destruir os instrumentos usados para cometer o crime ambiental (escavadoras, caminhões, motosserras…).

Segundo Rajão, coordenador do Laboratório de Gestão de Serviços Ambientais, são cada vez mais raras as operações que reúnem na Amazônia fiscais do Ibama vindos de todo o Brasil para perseguir suspeitos importantes em momentos críticos, como secas ou picos de desmatamento.

Quando no começo do século o Brasil tomou consciência da gravidade do desmatamento, agiu contra ele e conseguiu reduzi-lo até atingir um mínimo histórico em 2012. Mas desde então voltou a crescer, acompanhando a grave crise política que culminou na destituição de Dilma Rousseff. E depois veio a recessão.

O problema mais urgente já não é a cuidadosa logística necessária para combater o desmatamento, ou o seu custo. É a falta de vontade política. Ao chegar ao poder, dois anos atrás, Bolsonaro tentou criminalizar as ONGs ambientalistas, nomeou como ministro do Meio Ambiente um defensor do lobby pecuarista e sojicultor, Ricardo Salles, e, como se não bastasse, substituiu ambientalistas veteranos da direção do Ibama por comandantes da PM que pouco ou nada sabem de mudança climática ou biodiversidade.

O professor Rajão observa que uma das consequências disso é que a destruição de equipamentos dos criminosos, “um processo muito importante na luta contra o desmatamento, passou a ser um tabu dentro da instituição. E isso é nefasto porque priva os fiscais do Ibama de um instrumento muito importante”.

Um dos motivos para a falta de fiscais é que desde 2012 não há concurso para o cargo; outro é que a rígida burocracia brasileira impede contratações extraordinárias. O resultado é que, se o Ibama teve em seus melhores anos, por volta de 2009, até 1.600 pessoas zelando pelo cumprimento da ambiciosa legislação ambiental brasileira, agora não chegam a 700, segundo a informação obtida pela Fiquem Sabendo, uma agência especializada em transparência. Sua distribuição territorial é um mistério.

Um veterano da luta contra o desmatamento, que pede para ficar no anonimato por medo de represálias, argumenta que viver longe das zonas mais quentes dos crimes ecológicos reduz os riscos aos quais os fiscais estão expostos —muito maiores se estivessem nas regiões onde agem os madeireiros ilegais. Por isso, não acha ruim que residam em Estados distantes da Amazônia e viajem para lá quando há operações.

Mas não cabe mais ao Ibama dirigir a luta contra os crimes ambientais. Transformado em vilão ambiental do planeta com os incêndios na Amazônia no inverno de 2019, Bolsonaro recorreu às Forças Armadas. Agora são elas que decidem onde e quando os fiscais do Ibama agirão. Também fornecem soldados e aeronaves que, segundo os críticos, na verdade atrapalham operações que exigem o sigilo e a discrição que um batalhão ou um comboio de caminhões dificilmente oferecem.

Outro dos efeitos da chegada de Bolsonaro à presidência é que as multas por crimes ecológicos batem recordes negativos. Se antes o problema era recebê-las, agora não são nem emitidas. O Ibama proibiu todos os seus funcionários de falarem com a imprensa. Os indígenas se queixam de que é cada vez mais frequente que as autoridades façam ouvidos surdos às denúncias de invasão de suas terras e corte das suas árvores. É verdade que denunciar, na Amazônia, nunca foi tarefa simples. Para isso é preciso se dirigir a um lugar que tenha linha telefônica ou Internet, ou fazer uma viagem que pode durar dias.

Não foi surpresa a notícia, no começo de dezembro, de que o desmatamento bateu um novo recorde, segundo a medição oficial do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A União Europeia e o próximo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pressionam o Brasil para que atue com firmeza contra a destruição da Amazônia, num momento em que a mudança climática vai recuperando o protagonismo que a pandemia lhe roubou.

Obstáculo para o acordo comercial UE-Mercosul

O desmatamento agrava o aquecimento climático e, em termos político-econômicos, é o grande obstáculo para que se materialize o tratado comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Vários países, com a França à cabeça, não querem nem ouvir falar de ratificá-lo enquanto a destruição da Amazônia persistir neste ritmo.

Para o embaixador da UE em Brasília, Ignacio Ybañez, os 11.088 quilômetros quadrados destruídos no último ano são “cifras ruins”. Para salvar este acordo, negociado durante duas décadas e selado há um ano e meio, a UE exige do Governo do Brasil “um compromisso político que permita restabelecer a confiança, que garanta que as cifras não vão se repetir e que haverá uma mudança de tendência”. A União, que já decidiu não tocar nos termos do acordo, pretende obter garantias do Brasil para dissipar as dúvidas dos sócios reticentes, e que a Comissão Europeia possa apresentar o acordo ao Conselho e ao Parlamento Europeu para avançar no processo de ratificação.

O que tira o sono dos especialistas em clima?

De físicos a climatologistas e entomologistas, diversos cientistas falam sobre que aspecto da mudança climática mais os preocupa, à medida que o planeta vai se aquecendo inexoravelmente.

Jovens manifestantes do movimento Greve pelo Futuro

O que faz realmente meu estômago virar quando penso na mudança climática? O degelo do permafrost. Um quadro em que ele se derrete todo, liberando copiosas quantidades de dióxido de carbono e metano (o também chamado pergelissolo contém atualmente duas vezes mais carbono do que a atmosfera). E não há retorno.

Mas o que está no topo da lista de apreensões para os próprios cientistas do clima, aqueles que estudam como a mudança climática está progredindo, nas camadas de gelo do solo e nas esquinas urbanas, nos oceanos e campos arados?

A DW perguntou a um dezena de especialistas, de setores indo desde entomologia, oceanografia e climatologia até pesquisa do permafrost, o que lhes tira o sono quando o assunto é clima.

A maior incógnita: o ser humano

Nana Ama Browne Klutse analisa a mudança do clima na Universidade de Gana usando modelos digitais. Embora perigos definitivos como o degelo do permafrost a preocupem, sua maior apreensão é como os seres humanos lidarão com as transformações.

“O que você pode fazer, enquanto indivíduo, para evitar o impacto da mudança climática? São necessárias políticas governamentais no sentido da resiliência urbana, construir para a comunidade. Aí precisamos daquela ação global.”

A climatologista Ruth Mottram se ocupa das camadas de gelo da Groenlândia e da Antártida e da elevação do nível marinho no Instituto Meteorológico Dinamarquês. Mas tampouco é a ciência que a deixa em suspense.

“Estou menos preocupada de que estejam ocorrendo processos desconhecidos que não entendemos, e de que alguma catástrofe imprevista possa estar a caminho. Sabemos como será grande parte dos impactos. Acho que o que me deixa acordada à noite, no sentido metafórico, é realmente a interação entre o sistema físico e como as sociedades humanas vão lidar com ele.”

Um exemplo é o nível marinho: ele subirá um metro no século corrente – portanto durante as vidas dos atuais habitantes do planeta e seus filhos – e serão necessárias medidas drásticas em relação às cidades costeiras. Mas a coisa não acaba aí.

“Acho que as sociedades humanas ainda não compreenderam realmente o que isso significa, que se adaptar à subida do nível do mar será um processo longo, e que vamos ter que fazer durante centenas de anos”, observa Mottram, sugerindo que se deve começar a pensar em termos das vidas das cidades (séculos), em vez de apenas vidas humanas.Derretimento do permafrost literalmente afundará comunidades inteiras nos polos

Proteger os mais vulneráveis

Embora Vladimir Romanovsky, professor de geofísica do Laboratório de Permafrost da Universidade de Alaska Fairbanks, saiba que o que acontece na Região Ártica afetará o resto o mundo, suas preocupações são muito mais locais.

“Devemos lembrar que ainda há algumas pessoas vivendo no Ártico”, frisa. Na realidade, aproximadamente 4 milhões teriam que encarar as consequências na vida real, se o chão sólido começar a derreter sob seus pés e suas casas. “Mudanças nesses tipos de climas e meios ambientes locais e regionais afetam essas pessoas, e alguns desses impactos podem ser muito severos.”

Mais próxima do outro polo do planeta, Carolina Vera teme que as desigualdades existentes sejam ainda exacerbadas pelas alterações climáticas, uma vez que “a mudança climática já está impactando os setores mais vulneráveis do nosso planeta”.

Pesquisadora-chefe do Conselho Nacional de Ciência da Argentina, professora da Universidade de Buenos Aires e chefe de gabinete do Ministério argentino de Ciência e Tecnologia, em seu trabalho Vera incorpora coleta de dados e saber local, envolvendo as comunidades que equilibram os problemas do desflorestamento com suas necessidades agropecuárias.

Calor humanamente insuportável

Não surpreende que o aquecimento global seja a principal apreensão para pesquisadores como Dim Coumou, especialista em condições meteorológicas extremas da Universidade Livre de Amsterdã. Especialmente alarmantes são os extremos de calor e humidade dos trópicos.

Sobretudo em áreas de alta densidade demográfica, como África Oriental, Paquistão e Índia, a permanência ao ar livre ficará insuportável. E quando não for mais possível refrescar-se suando, fica inviável o trabalho no campo e, portanto, o cultivo de alimentos. O provável resultado será migração em massa.

O problema não é só dos trópicos: intimamente relacionado ao calor está o agravamento das condições meteorológicas. Os estudos de Coumou e seus colegas mostram que alterações das correntes de jato provocarão tempo extremo na Europa, incluindo inundações e secas.

As intempéries extremas também são a principal preocupação do climatologista Abubakr Salih Babiker: “Uma atmosfera mais quente retém mais água, e as chuvas são mais pesadas, provocando inundações. Um oceano mais quente pode gerar ciclones tropicais mais fortes”, já que esse fenômeno ganha energia do calor da água.

“Temos visto provas de todos esses eventos”, prossegue o colaborador do Centro de Previsão e Aplicação do Clima (ICPAC), em Nairóbi, Quênia. “Os ciclones tropicais mais fortes que atingiram a Península Árabe, a Somália e Moçambique ocorreram nos últimos 20 anos.” Suas pesquisas também confirmaram que os extremos meteorológicos podem acarretar outros desastres ecológicos, como pragas de gafanhotos.Pragas de gafanhotos estão entre consequências secundárias do aquecimento global

“Como minha ciência pode ajudar?”

Pragas, secas e inundações também estão no centro das apreensões da entomologista Esther Ngumbi, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. Seu trabalho com safras resistentes a pragas e secas é motivado pelo destino dos agricultores vulneráveis de países em que faltam redes de segurança social, e uma estação de devastação da colheita por insetos pode resultar em fome e na impossibilidade de pagar pela educação dos filhos.

“Como minha ciência pode ajudar de verdade?”, ela se pergunta. “Isso genuinamente me faz acordar todo dia e ir ao laboratório, para entender como minha pesquisa pode contribuir para as soluções de que precisamos.”

Também para Natasha Picone, climatologista urbana da Universidade Nacional do Centro de Buenos Aires, as soluções são o que ocupam sua mente. “Com a pandemia, eu me dei conta que não estamos fazendo o suficiente para tornar nossas cidades mais habitáveis.”

Sua pesquisa informa planejadores de cidades sobre problemas urbanos como o efeito ilha de calor, a poluição atmosférica e a escorrência superficial que pode ocasionar inundações. “Se não mudarmos esse curso agora, será realmente difícil voltar atrás.”

“As pessoas são a solução”

Uma fonte de ansiedade para a oceanógrafa Renata Hanae Nagai, da Universidade do Paraná, é seu sobrinho de quatro anos e como será a vida dele num mundo mais quente. Porém também lhe dá esperança: durante a visita recente a uma praia, para observar tartarugas pondo ovos, o menino avisou aos outros para deixarem os animais em paz.

Nagai nota o mesmo cuidado entre seus estudantes: aprender sobre os problemas e apresentar soluções. “As pessoas são a solução”, afirma a pesquisadora brasileira. “Nós tentamos, mesmo sob as condições mais duras.”

Para Levke Caesar, física do clima da Universidade de Maynooth, na Irlanda, o que mais preocupa são os indivíduos e organizações que negam a mudança climática. “Para mim, o que eles fazem é totalmente inaceitável, do ponto vista moral: eles mentem. Afinal, você não pode discutir com o clima.” Esse fato, contudo, só a faz se empenhar mais ainda para comunicar o que a ciência mostra.

Gerações mais jovens: fonte de ansiedade e esperança

Eles se preocupam conosco

Um traço comum nesta panorâmica um tanto anticientífica, é que enquanto nós, leigos, nos preocupamos com o que a ciência diz, os profissionais da áreas muitas vezes estão preocupados conosco.

“Os cientistas sempre pensam sobre quais serão os resultados de seus estudos, como serão importantes para as pessoas comuns, normais”, comentou o especialista em permafrost Vladimir Romanovsky. Em sua pesquisa, afirma, ele sempre está refletindo “como isso poderia ser usado para tornar a vida mais fácil e mais previsível”.

Governo Bolsonaro: Ricardo Salles aposta na gestão Arthur Lira na Câmara para avançar mineração na Amazônia

Sob pressão com mudança de poder nos EUA, titular do Meio Ambiente afirma que não está preocupado com possível reforma ministerial sinalizada por Bolsonaro.

O ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, em entrevista do programa Poder em Foco, do SBT.DIVULGAÇÃO/SBT

Ricardo Salles tem oscilado entre altos e baixos no Governo Jair Bolsonaro. Apontado por ambientalistas como um representante de ruralistas no Ministério do Meio Ambiente e visto por alguns diplomatas como um extremista, Salles tenta buscar uma sobrevida para sua permanência na pasta. Para isso, tenta se apoiar no novo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) para emplacar projetos caros ao bolsonarismo, que têm potencial para dizimar regiões florestais e que podem prejudicar a sobrevivência de populações tradicionais. Entre essas propostas estão a regularização fundiária de regiões florestais e a que autoriza a mineração em terras indígenas. Ambas têm tudo para avançar sob a gestão Lira.

A primeira sinalização que o ministro fez para a base de apoio bolsonarista foi a de reclamar que, durante a gestão Rodrigo Maia (DEM-RJ), encerrada no início deste mês, pautas governamentais pouco avançaram. Agora, ele diz estar confiante de que a situação será mais favorável ao Governo. “O que nós vimos ao longo desse período que acabou é que nem sequer as discussões podiam ser feitas. Você mandava um projeto de lei ou até uma medida provisória que caducaram no Congresso, e as discussões não aconteciam”, disse Salles em entrevista ao programa Poder em Foco, do SBT.

Sobre seu apoio ao polêmico projeto de mineração em terras indígenas, o ministro diz que gostaria que houvesse regras claras sobre o tema. “A mineração na Amazônia, seja em terra indígena ou fora da terra indígena, qual é a regra que vai ser imposta? Nós estamos desde a Constituição de 1988 aguardando a solução de uma norma que já previa uma regulamentação e esse assunto vai sendo jogado pra baixo do tapete ano após ano. Então é preciso discutir e encontrar um caminho, a solução não é não ter solução”.

Nesta montanha-russa da política, Salles esteve fortalecido com o presidente mesmo após seguidas altas dos índices de desmatamento e de queimadas na floresta amazônica e no Pantanal ao longo de 2019 e 2020. O prestígio decaiu depois que, em março do ano passado, foi filmado em reunião ministerial dizendo que o Governo deveria aproveitar a pandemia para “passar a boiada” no afrouxamento de regras ambientais. Ficou um tempo fora das manchetes jornalísticas depois desse episódio. Mais recentemente, voltou a ter seu nome em destaque quando Joe Biden venceu Donald Trump na disputa presidencial dos Estados Unidos e vários analistas apostaram que ele seria demitido.

Manteve-se no cargo porque Bolsonaro estava irritado com seu vice, Hamilton Mourão, que comanda o agora esvaziado Conselho Nacional da Amazônia. O presidente queria ter alguém para se contrapor ao general. Mourão é visto por alguns bolsonaristas como uma ameaça a Bolsonaro, que já acumula mais de 60 pedidos de impeachment. Essa queda de braço tem sido vencida pelo ministro, por enquanto, já que os militares subordinados indiretamente ao conselho deixarão de atuar na fiscalização da região amazônica nos próximos dois meses.

O curioso é que o mesmo Centrão que pode dar sobrevida a Salles com o prestígio junto a Lira é o grupo que pode derrubá-lo, em busca de nacos de poder na Esplanada dos Ministério. O nome de Salles juntamente com o do chanceler Ernesto Araújo, volta a ser apontado como um dos próximos a ser demitido numa iminente reforma ministerial realizada para acomodar políticos do fisiológico Centrão. “O cargo é do presidente (…) Eu não estou preocupado se vai ter reforma, se não vai ter reforma”, disse no programa do SBT.

Primeira reunião com representante de Biden

Ao mesmo tempo em que tenta, mais uma vez, se equilibrar no cargo, Salles busca demonstrar institucionalidade e proatividade. No último dia 18, Salles e Ernesto Araújo se reuniram pela primeira vez, por videoconferência, com o secretário de Estado americano, John Kerry. Na ocasião, levaram uma proposta ao homem forte da área ambiental de Biden na qual pediam mais dinheiro para a proteção ambiental. Segundo interlocutores, o Governo americano não discordou da proposta. Apenas sinalizou que alguma compensação financeira poderia ser apresentada nos próximos meses. A proximidade entre Bolsonaro e Trump, e as declarações de apoio feitas pelo brasileiro antigo presidente americano por ora, tem criado barreiras entre a cúpula dos dois Governos.

A busca de Salles por mais recursos tem várias razões. Uma delas: em 2021, o Ministério do Meio Ambiente se deparará com um de seus menores Orçamentos das últimas décadas. O resultado prático disso será a redução de fiscalização, que está cada vez menor, e o enxugamento administrativo. Ainda assim, mesmo com menos recursos, desde que Bolsonaro chegou ao poder o país abriu mão de receber doações da Noruega e da Alemanha por meio do Fundo Amazônia. Atualmente, há 40 projetos de proteção ambiental com 1,4 bilhão de reais parados nas contas porque Bolsonaro e Salles decidiram alterar as regras de gestão desses recursos. A razão é ideológica. “Ao invés de mandar o dinheiro para projetos e ideias que não necessariamente o governo concorde, dissemos que queríamos ter maior participação nisso e os doadores, Noruega e Alemanha, não concordaram”, justificou-se o ministro.

Como alternativa para suprir esses recursos, Salles disse que o Brasil busca convencer os países ricos a doarem mais para a proteção ambiental. A contrapartida brasileira seria antecipar de 2060 para 2050 o prazo em que se zeraria as emissões de gás carbônico no país. A conta sairia cara para os países ricos, entre eles, os Estados Unidos: 10 bilhões de dólares por ano (algo em torno 53 bilhões de reais). “Pedimos cem Fundos Amazônia por ano”, afirmou na entrevista, gravada no último dia 10.

Enviado de Biden para o clima pede “ações imediatas” de Bolsonaro

John Kerry diz que Washington espera medidas rápidas contra o desmatamento e pede engajamento com indígenas e a sociedade civil. Em carta, senadores americanos acusam Bolsonaro de dar luz verde a criminosos na Amazônia.

Comprometimento de Bolsonaro com fim do desmatamento ilegal é importante, mas queremos ver resultados, diz Kerry

John Kerry, enviado para o clima do governo do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pediu nesta sexta-feira (16/04) que o presidente Jair Bolsonaro tome “ações imediatas” contra o desmatamento, e disse esperar que o governo brasileiro atue ao lado das comunidades indígenas e da sociedade civil nas questões ambientais.

Em mensagem publicada no Twitter, o americano comentava uma carta enviada pelo presidente brasileiro a Biden, na qual ele prometeu eliminar o desmatamento ilegal no Brasil até 2030 e pediu o apoio dos EUA para atingir esse objetivo.

Segundo Kerry, o comprometimento de Bolsonaro com o fim do desmatamento ilegal é “importante”, mas Washington espera ver resultados.

“Esperamos ações imediatas e um engajamento com as populações indígenas e a sociedade civil para que esse anúncio possa gerar resultados tangíveis”, escreveu o enviado para o clima.

A carta de sete páginas afirma que, para o país alcançar a meta de eliminar o desmatamento ilegal até 2030, serão necessários “recursos vultuosos e políticas públicas abrangentes”.

“A magnitude [destes] obriga-nos a querer contar com todo apoio possível, tanto da comunidade internacional, quanto de governos, do setor privado, da sociedade civil e de todos os que comungam desse nobre objetivo”, diz o texto.

“Inspira-nos a crença de que o Brasil merece ser justamente remunerado pelos serviços ambientais que seus cidadãos têm prestado ao planeta”, completa Bolsonaro.

Ele também admitiu a possibilidade de o Brasil antecipar para 2050 o objetivo de longo prazo de alcançar a neutralidade climática, dez anos antes da data anteriormente prometida.

Mudança de tom

Com a mensagem, o presidente pela primeira vez respondeu positivamente a um dos principais apelos do governo americano na questão ambiental, que é o combate ao desmatamento ilegal.

O tom, contudo, diverge da postura adotada até então por Bolsonaro, que chegou a atacar ONGs e ativistas ambientais e a trocar farpas com líderes internacionais que criticaram a política ambiental brasileira e denunciaram o desmatamento da Amazônia quando este atingiu níveis recordes.

Durante a campanha eleitoral, Biden propôs que países forneçam ao Brasil 20 bilhões de dólares para combater o desmatamento e disse que o país deve sofrer repercussões se falhar esse objetivo. Na época, Bolsonaro classificou os comentários de Biden como “lamentáveis” e “desastrosos”.

Carta de senadores americanos

Também nesta sexta-feira, às vésperas da cúpula do clima de Biden, um grupo de senadores democratas enviou uma carta ao presidente americano criticando o péssimo histórico ambiental de Bolsonaro e pedindo a Washington que condicione qualquer ajuda financeira à redução do desmate na Amazônia.

“Dado o histórico de compromissos climáticos não cumpridos, achamos que devemos impor condições para enviar auxílio americano ao Brasil: progresso significativo e sustentado na redução do desmatamento e no fim da impunidade para crimes ambientais e da intimidação e violência contra defensores das florestas”, diz o texto.

A carta foi assinada por 15 influentes parlamentares americanos, incluindo os ex-pré-candidatos à presidência dos EUA Bernie Sanders e Elizabeth Warren, e o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Robert Menendez.

Segundo os senadores, “a retórica e as políticas do presidente Bolsonaro efetivamente deram luz verde para os perigosos criminosos que atuam na Amazônia, permitindo-lhes expandir dramaticamente as suas atividades”.

Eles continuam afirmando que uma parceria entre EUA e Brasil “só é possível se o governo Bolsonaro começar a levar a sério os compromissos climáticos do Brasil – e apenas se proteger, apoiar e envolver de forma significativa os muitos brasileiros que podem ajudar o país a cumpri-los”.

Demanda por energia limpa ameaça uma das regiões mais ricas e férteis na Amazônia


O boom de investidores chineses em 2019 e 2020 desencadeou o caos na extração de Pau-de-balsa no Equador

Poucos meses se passaram desde que de repente, como se nada tivesse acontecido, a chamada febre do Pau-de-balsa arrefeceu no Equador. Mas as consequências de dois anos de extração frenética dessa madeira são visíveis e preocupantes.

A demanda disparou porque investidores chineses, incentivados por um subsídio estatal, chegaram com muito dinheiro em busca de toneladas dessa madeira, usada na fabricação de pás para geradores eólicos.

Investigação revela terras protegidas da Amazônia à venda no Facebook
Desmatamento na Amazônia cresce 9,5% e chega a valor mais alto desde 2008
A urgência em conseguir a matéria-prima e a falta de controle do governo equatoriano diante das restrições devido à pandemia contribuíram para desencadear o caos, dentre outros territórios, na província de Pastaza, uma das áreas de maior riqueza natural da Amazônia e onde se concentram dezenas de milhares de hectares desta espécie.

O boom do Pau-de-balsa encheu o bolso de muitos, mas também deixou problemas para trás.
A extração frenética dos últimos meses ameaçou o habitat de animais protegidos, aumentou a extração ilegal, precarizou o trabalho e dividiu as comunidades indígenas, afirmam diferentes fontes consultadas pela BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

“Foi um desastre”, descreve Pablo Balarezo, coordenador de economia florestal da Fundação Pachamama, no Equador.

As comunidades indígenas da região, proprietárias ancestrais de muitos dos hectares onde se extrai o Pau-de-balsa, ativistas e empresários pedem ao Estado que intervenha, regularize mais o setor e o proteja dos anos que alguns temem ser irreversíveis.

O Ministério do Meio Ambiente e Águas do Equador realizou operações para interceptar o deslocamento e a exploração ilegal de Pau-de-balsa, mas várias associações acreditam que o esforço não tem sido suficiente. A BBC News Mundo entrou em contato com o ministério, mas não havia recebido resposta até o momento da publicação desta reportagem.
A falta de controle do Estado durante a pandemia e o aumento da demanda causaram a febre do Pau-de-balsa ao longo do Rio Pastaza, na Amazônia equatoriana

O que é o Pau-de-balsa e para que é usado
O Pau-de-Balsa é uma árvore que cresce nas florestas tropicais, em uma altitude entre 300 e 1.000 metros.

“Na América do Sul, você o encontra na Cordilheira dos Andes, na Amazônia, no Peru, na Colômbia, na Venezuela e no Panamá. Ao norte, você encontra o Pau-de-Balsa na Costa Rica e também no sul do México”, diz Ricardo Ortiz, que se dedica à exportação de Pau-de-Balsa há mais de 25 anos.

Do Pau-de-Balsa se obtém uma madeira leve, e cada árvore oferece um rendimento considerável, uma vez que pode chegar a ter entre 25 e 30 metros de altura. Em geral, ela morre aos 6 ou 7 anos, mas “para tirar o máximo proveito, é derrubada aos 3 ou 4 anos, quando sua madeira atinge a melhor qualidade”, explica Balarezo à BBC News Mundo.

A madeira do Pau-de-Balsa é usada principalmente para fabricar pás de geradores de energia eólica.
O Pau-de-balsa fornece uma matéria-prima leve e forte para a construção de pás de geradores de energia eólica

Ortiz conta que à medida que os países mais ricos buscam fontes renováveis ​​de energia, a demanda por Pau-de-Balsa aumentou no Equador.

“Na última década, ela vem crescendo, mas nada se compara ao que aconteceu nos últimos dois anos, desde que a China entrou com força no mercado. O ano de 2020 foi um frenesi. Ficou fora de controle”, afirma ele à BBC News Mundo.

Febre do Pau-de-balsa
Como diz Ortiz, nos últimos anos a China liberou bilhões em subsídios para incentivar a instalação de painéis solares e geradores de energia eólica em todo o país.

Há muitos geradores eólicos a serem fabricados — e, para isso, é necessário muito Pau-de-Balsa.

O Equador é o maior vendedor de Pau-de-Balsa do mundo. Ortiz estima que o país exporte 75% do total dessa madeira para todo o planeta. China, Estados Unidos e Europa são os principais compradores.

“Em 2019 e 2020, eu vi algo sem precedentes nos 25 anos que estou neste negócio. Os chineses vieram com muito dinheiro para comprar todo o Pau-de-Balsa que pudessem. O preço da matéria-prima triplicou. Muita gente pobre que vive nas áreas de maior concentração da espécie ganhou muito dinheiro”, relata Ortiz.
O preço do Pau-de-balsa triplicou durante a febre de extração de 2019 e 2020

O “frenesi” aumentou ainda mais no segundo trimestre de 2020, quando os lockdowns impostos pela pandemia de covid-19 foram relaxados, a China anunciou a redução dos subsídios e os investidores correram mais do que nunca para se apossar da madeira.

O empresário explica que compradores dos Estados Unidos e da Europa adquirem madeira certificada e cumprem com mais rigor os contratos. Os chineses, diz ele, trabalham mais em ondas e operam de forma um pouco “mais desorganizada”, o que também contribuiu para a enxurrada de demanda.

A necessidade de Pau-de-Balsa e seus lucros inegáveis ​​atraíram muito mais participantes para o negócio do que as empresas tradicionais que já atuavam nele.

As comunidades indígenas também tiram uma renda, e “as máfias fora do Equador atuam como intermediárias e lavam dinheiro para explorar o Pau-de-Balsa”, denuncia Balarezo, da Fundação Pachamama.

Por um pedaço de cerca de um metro e meio dessa madeira, se chegou a pagar entre 10 e 12 dólares.

“Juntou tudo. A demanda, os lucros e a falta de controle do governo devido às restrições da pandemia. Ficou uma bagunça”, acrescenta Balarezo.

Um problema ambiental… e social
A extração do Pau-de-Balsa por si só não é um problema grave de desmatamento. Trata-se de uma espécie primária e cresce tão rápido que, onde há uma árvore derrubada, volta a crescer outra que em cerca de quatro anos chega a 20 metros.

A “preocupação”, concordam empresários, representantes indígenas e ambientalistas, é quando sai do controle sem fiscalização estatal suficiente.

“Com o boom, o Pau-de-Balsa foi explorado sem a técnica necessária. Se desperdiçou madeira, e por acidente e desconhecimento, foram derrubadas outras árvores que, sim, são críticas”, explica Balarezo.

Muitas das áreas de Pau-de-Balsa são habitats de animais protegidos, como onças, tartarugas, várias espécies de pássaros e outros mamíferos.

“O desmatamento sem controle ameaça habitats muito delicados. O ecossistema de Pastaza é um dos mais ricos e conservados do Equador. Estamos brincando com fogo”, alerta Balarezo.
Balarezo afirma que a extração indiscriminada de Pau-de-balsa compromete um dos mais ricos e diversos ecossistemas do Equador

O especialista adverte ainda que as máfias camuflam madeiras nobres de outras árvores em caminhões carregados de Pau-de-Balsa.

“Foi algo que documentei e queria denunciar em fevereiro de 2020, mas eles me viram e me ameaçaram com uma arma no peito. Tive que apagar as fotos. Essa gente é muito perigosa.”

‘Divisão e decomposição dentro das comunidades indígenas’
A febre do Pau-de-Balsa tem gerado conflitos e divisões entre as comunidades indígenas que povoam a bacia do Rio Pastaza.

O negócio rendeu dinheiro, “e muitas comunidades indígenas muito pobres, donas do território, estão aproveitando isso”, diz Ortiz.

Mas o dinheiro “corrompe”, e alguns o estão usando “mal”, gerando problemas de dependência química, alcoolismo e “decomposição” social.
À medida que o mundo migra para fontes de energia mais limpas, as áreas que fornecem matéria-prima sofrem com problemas ambientais e sociais

“Muitos jovens indígenas, com o dinheiro do Pau-de-Balsa, vão às cidades gastar em festa. Não é que o capital do extrativismo esteja sendo utilizado com um bom fundo social”, afirma Andrés Tapia, da equipe de comunicação da Confederação das Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana (Confeniae).

No entanto, não é isso que mais preocupa ele.

“Nossa principal ameaça é a divisão social. Gerou muita polarização entre aqueles que queriam trabalhar por necessidade e os que se opunham ao extrativismo. Muitos se manifestaram contra e proibiram a extração, mas outros, por conta própria, ignoraram esses pronunciamentos”, conta Tapia.

Fonte de renda, mas também de precarização
Balarezo e Tapia reconhecem que o boom de Pau-de-Balsa foi uma importante fonte de renda para muitas famílias, mas também admitem que levou à precarização do trabalho.

“Em muitas ocasiões, as negociações são feitas diretamente com as comunidades indígenas, e estas, por não terem alternativas, aceitam condições injustas”, relata Balarezo.

“É verdade que pagam a eles pela madeira, mas se você levar em conta todo o esforço de mão de obra, o que eles recebem não é justo. Os intermediários que levam o Pau-de-Balsa para cidades como Guayaquil e Quevedo ficam com a maior parte”, acrescenta.
Setores da comunidade indígena extraem a madeira do Pau-de-balsa, que é transportada por intermediários até as grandes cidades para ser exportada

“Meus trabalhadores são formalizados, mas a extração em massa no oriente pelos indígenas não está regularizada de forma alguma”, denuncia Ortiz.

A falta de controle e a penetração de intermediários de cidades grandes em um ano de pandemia também fizeram com que o novo coronavírus se propagasse fatalmente entre as cidades amazônicas, acrescenta Tapia.

Oportunidade econômica, mas se o Estado intervir
Em meio ao que muitos consideram uma crise ambiental e social, as fontes consultadas pela BBC News Mundo concordam que, sendo controlada e administrada pelas autoridades, a exploração de Pau-de-Balsa pode ser uma importante oportunidade econômica.

É verdade que o boom de 2020 já passou, mas por isso mesmo acredita-se que seja o momento ideal para planejar essa atividade.

As principais potências estão buscando obter fontes de energia renováveis ​​e reduzir progressivamente a sua pegada de carbono.
Com investimento e controle, as fontes consultadas pela BBC News Mundo acreditam que a exportação de Pau-de-balsa é uma grande oportunidade econômica para o país

“Diante de tanta demanda, uma árvore como o Pau-de-Balsa, que se regenera rápido, pode oferecer muita rentabilidade sem comprometer gravemente o meio ambiente”, sinaliza Ortiz.

“Se o Estado controlar e a extração de madeira for feita de forma sustentável e amigável, é uma grande oportunidade. Por isso, estamos tentando promover o Pau-de-Balsa amazônico em áreas degradadas e assim diminuir a pressão em territórios que sofreram muito”, diz Balarezo.

Ortiz também pede mais investimentos em infraestrutura.

“A Europa e os Estados Unidos vêm comprando há muito tempo, mas não é que se tenha investido muito no país. É verdade que são necessários dezenas de milhões para plantar e construir, mas a rentabilidade poderia ser espetacular”, afirma o empresário.