A pandemia e a pena de morte nas prisões brasileiras

Com a pandemia, o quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento nas prisões tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

As prisões são o lugar onde as violências e desigualdades sociais revelam sua mais brutal expressão. No Brasil, trata-se de celas lotadas e sem ventilação, instalações elétricas com remendos e potencialmente perigosas, comida racionada e de péssima qualidade, muitas vezes estragada, água escassa para o banho, para a limpeza das celas e mesmo para beber.

Os relatos são assustadores e as doenças são uma presença constante nesse universo insalubre. De acordo com dados do próprio Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão do governo federal responsável pela gestão do sistema prisional, em dezembro de 2019 havia no sistema penitenciário 748 mil pessoas privadas de liberdade no país. Nesse universo, verificava-se um quadro de 170% de déficit de vagas, ou seja, uma realidade de absoluta superlotação.1

Os negros são a maioria nesse sistema e estão expostos a uma taxa de encarceramento 1,5 vez maior do que a de um homem branco,2 o que confirma a seletividade da polícia nas abordagens e prisões em flagrante e o viés discriminatório nas decisões dos juízes, que reproduzem tanto estereótipos racializados quanto uma média maior de condenação para mulheres e homens negros.3

Com a pandemia, esse quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

Como forma de propor medidas que contivessem a propagação do vírus nas prisões, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Recomendação n. 62, que exortou os juízes a adotar medidas para a reavaliação das prisões provisórias, a contenção de novas ordens de prisão preventiva, a concessão de saída antecipada dos regimes fechado e semiaberto para presos que não tivessem cometido crimes com violência ou grave ameaça e a transferência de presos do grupo de risco para prisão domiciliar. Entretanto, a despeito dos esforços do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do CNJ e das manifestações de apoio à agenda de desencarceramento para pessoas do grupo de risco da Covid-19, a Recomendação n. 62 continuou sendo duramente criticada pelo Ministério da Justiça e pelo governo federal e foi acolhida apenas parcialmente pelo Ministério Público e pela magistratura no Brasil.

O ex-ministro Sérgio Moro dedicou-se pessoalmente a deslegitimar a orientação do Conselho e a conceder reiteradas entrevistas afirmando que tudo estava sob controle no âmbito do Departamento Penitenciário Nacional e que, portanto, não era necessário que os juízes adotassem medidas que pusessem presos perigosos em liberdade.4

No âmbito do Poder Judiciário, reiteraram-se decisões com indeferimento de pedidos de habeas corpus coletivos e sucessivas diligências que impediam a soltura de presos integrantes do grupo de risco. De modo ilegal, juízes recusaram-se a conceder pedidos de liberdade com o argumento genérico de que se tratava de presos perigosos ou que haveria nas prisões condições para a prevenção e o tratamento adequado ao coronavírus. Os juízes brasileiros optaram por contrariar as evidências médicas, a recomendação do CNJ e os apelos e alertas de organizações de direitos humanos, dos próprios presos e de seus familiares, e não concederam a maioria dos pedidos formulados por integrantes das defensorias públicas e pelos advogados particulares.

Em pesquisa realizada entre março e maio de 2020 pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, verificou-se que, desde a edição da Recomendação n. 62, houve um aumento dos habeas corpus concedidos; porém, o estudo apurou também que 67% dos presos soltos estavam detidos em caráter preventivo, ainda sem julgamento, por causa de crimes cometidos sem violência, e que dos 783 soltos apenas 37 se encontravam condenados a regime fechado de prisão.5

No mesmo sentido, um trabalho realizado por pesquisadoras do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito de São Paulo constatou que, das 6.781 decisões de habeas corpus (entre 18 de março e 4 de maio de 2020) que mencionaram a Covid-19, apenas 12% tiveram o pedido concedido,6 o que também corrobora a tendência já apontada no relatório produzido pelo Conselho Nacional de Justiça, que afirma que 26,9% dos Tribunais de Justiça não apresentaram alteração nas concessões de liberdade de réus presos em regime fechado.7

Os argumentos adotados para negar os pedidos de liberdade revelam total desapreço pela obrigação estatal de zelar pela vida e pela integridade daqueles que se encontram sob sua custódia (ou seja, sob total e absoluta responsabilidade do próprio Estado). Algumas sentenças circularam na mídia e nas redes sociais como maus exemplos em termos de fundamentação constitucional e de respeito a valores éticos e a princípios de direitos humanos.

Um dos episódios mais trágicos foi o do juiz Camilo Léllis, da 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que decidiu não alterar o regime da pena de um preso para o aberto, afirmando que o risco de contágio pelo coronavírus pode ser maior fora do sistema prisional do que dentro e que não seria razoável a determinação, de forma monocrática, de imediata remoção para o regime domiciliar de todos os presos que eventualmente se encontrem no chamado “grupo de risco”. O preso em questão encontrava-se na Penitenciária Compacta de Pracinha, que custodia 1.605 presos, tendo sido projetada para receber no máximo 844 internos.8

Mas por que os juízes decidem assim? Por que, apesar de todas as evidências, eles continuam mandando pessoas para cadeias superlotadas, com grande risco de contaminação e nas quais provavelmente vão morrer?

As respostas a essas perguntas passam, sem dúvida, pela constatação do peso do racismo em nossas relações sociais e do brutal processo de desumanização a que pessoas negras estão submetidas em nossa sociedade. Na prática, as condutas do governo federal e de parte da magistratura brasileira em relação à questão da Covid-19 nas prisões representam condenações à pena de morte na vigência do estado democrático de direito.

São escolhas políticas que constroem um itinerário de violência cujo desfecho letal é iminente e revela o peso do racismo no Brasil e sua força como esquema de anulação das possibilidades de vida e de acesso a direitos para as pessoas negras nos mais diferentes campos da vida social.


Felipe da Silva Freitas é doutor em Direito pela Universidade de Brasília, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana e integrante do projeto Infovírus (www.instagram.com/infovirusprisoes).

1 Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Relatório Sintético – Sistema de Informações do Departamento Penitenciário Nacional, Brasília, 2019.

2 Mapa do Encarceramento: Jovens do Brasil, Brasília, SNJ, 2015.

3 Sérgio Adorno, “Discriminação racial e justiça criminal em São Paulo”, Novos Estados, n.43, 1995; e Marcelo Paixão, Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, Rio de Janeiro, Garamond, 2008.

4 Sérgio Moro e Fabiano Bourguion, “Prisões, coronavírus e solturavírus”, Estadão, 30 mar. 2020.

5 Ricardo Balthazar, “Juízes tratam presos com rigor ao analisar pedidos de soltura na pandemia”, Folha de S.Paulo, 7 jun. 2020.

6 A pesquisa foi coordenada por Maíra Machado e Natália Pires e os resultados finais ainda não foram publicados. Essas informações foram obtidas pela apresentação realizada no webinar “Covid-19 nas prisões”, promovido pelo Insper em 11 de junho de 2020. Ver: https://www.insper.edu.br/agenda-de-eventos/covid-19-nas-prisoes-decisoes-do-tjsp-em-habeas-corpus/.

7 Monitoramento CNJ, Covid-19 Efeitos da Recomendação n. 62/2020. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2020/06/Monitoramento-CNJ-Covid-19-Abril.20.pdf.

8 Caio Spechoto, “Juiz diz que risco de pegar Covid-19 pode ser maior fora do que dentro da cadeia”, Poder 360, 13 jun. 2020.

As surpreendentes semelhanças entre o coronavírus e a peste bubônica

Novas pesquisas da Universidade de Barcelona analisam os paralelos entre a atual pandemia e a doença que varreu o Império Bizantino, há 1.500 anos

A pandemia se originou em uma terra estrangeira e se estendeu rapidamente por todos os portos onde os passageiros infectados chegaram – assintomáticos ou não. Não havia cura médica disponível para detê-lo, todos os moradores estavam confinados em suas casas para evitar contágio, a economia parou, o exército foi colocado nas ruas, os médicos exaustos se esforçaram até os ossos e havia milhares de vítimas cujos corpos ficaram sem enterro “por dias a fio, porque escavadores não podiam trabalhar rápido o suficiente …”

Este não é um relato da pandemia de coronavírus de 2020. É a crônica fornecida pelo historiador Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que ocorreu no mundo conhecido entre 541 e 544, sob o imperador bizantino Justiniano I. A doença varreu vasto território, da China às cidades portuárias da Hispânia, como os romanos chamavam de Península Ibérica.

PROCÓPIO HISTÓRIADOR DE CAESAREA
Um novo estudo chamado La Plaga de Justinià, Segons el Testimoni de Procopi (ou A praga de Justiniano segundo o testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, ​​acrescenta nova relevância a esse conto antigo escrito 1.500 anos atrás.

“A partir de 1º de abril de 2020, certas semelhanças e paralelos observados no comportamento humano em relação a um vírus e suas conseqüências parecem tão familiares e contemporâneas que, apesar da tragédia que todos estamos enfrentando pessoalmente, permanece uma fonte de espanto como a história se repete. , Escreve este arqueólogo e historiador Sales Carbonell, que trabalha no Instituto de Pesquisa de Cultura Medieval da universidade.

No ano de 541, sob o governo bizantino Justiniano, houve um surto de peste bubônica no império. “O alarme soou no Egito, de onde a infecção se expandiu rápida e letalmente.” Procópio refletiu isso em seu livro History of the Wars, onde contou as campanhas militares de Justiniano na Itália, norte da África e Hispânia, e como os soldados espalharam a doença pelos portos em que pararam – fundamentalmente na Europa, norte da África, Império Sasaniano (Pérsia). ) e de lá até a China.

Como consultor jurídico de Belisarius, principal comandante militar de Justiniano, Procópio acompanhou as campanhas deste último e, assim, tornou-se uma “testemunha privilegiada” dos efeitos de uma pandemia que passou a ser conhecida como a Praga de Justiniano.

Continua sendo uma fonte de espanto como a história se repete.

“Surgiu uma epidemia que quase aniquilou toda a raça humana e é impossível encontrar uma explicação com palavras, nem mesmo com pensamentos, exceto para atribuí-la à vontade de Deus”, escreveu Procópio. “Essa epidemia não afetou uma porção limitada da Terra, nem um conjunto específico de homens, nem foi reduzida a uma estação específica do ano […], mas se espalhou e atacou toda a vida humana, não importa quão diferente os indivíduos podem ser, sem levar em conta a natureza ou a idade. ” A doença atingiu “todos os cantos do mundo, como se tivesse medo de perder um lugar”.

Um ano após a primeira detecção, a praga atingiu a capital do império, Bizâncio (atual Istambul), devastando-a por quatro meses. “Houve confinamento e isolamento completos”, escreve Sales Carbonell em seu estudo. “Era absolutamente obrigatório para pessoas doentes. Mas havia também um tipo de autocontrole espontâneo e intuitivamente voluntário, amplamente motivado pelas circunstâncias. ”

“Não foi nada fácil ver alguém em espaços públicos, pelo menos em Bizâncio; em vez disso, todos que estavam saudáveis ​​estavam em casa, cuidando dos doentes ou chorando por seus mortos ”, escreveu Procópio.

Enquanto isso, a economia estava em queda livre. “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todo o trabalho que estavam fazendo.” Ao contrário de hoje, no entanto, as autoridades não conseguiram garantir o fornecimento de serviços essenciais. “Parecia muito difícil obter pão ou qualquer outro tipo de alimento, de modo que, no caso de alguns pacientes, o fim de sua vida foi sem dúvida prematuro devido à falta de itens essenciais”, escreveu Procópio em History of the Wars.

“Muitos morreram porque não tinham ninguém para cuidar deles”, acrescentou. Os cuidadores da época “caíram de exaustão porque não conseguiam descansar e estavam sofrendo constantemente. Por causa disso, todos sentiram mais pena deles do que dos doentes.”

Patrulhas nas ruas

À luz da situação desesperadora, o imperador enviou grupos de guardas do palácio para patrulhar as ruas e os corpos de pessoas que morreram sozinhos foram enterrados às custas dos cofres imperiais, escreveu o historiador. Até o próprio Justiniano foi vítima da peste, mas a superou e continuou a reinar por mais de uma década.

Os picos de mortalidade aumentaram de 5.000 para 10.000 vítimas por dia e mais, de modo que, “embora, a princípio, todos cuidassem de seus mortos em casa, o caos se tornou inevitável e cadáveres também foram jogados dentro dos túmulos de outros, furtivamente ou usando violência. ” Com o tempo, os corpos começaram a se acumular dentro das torres e não havia serviços funerários para eles.

Quando a pandemia finalmente terminou, uma coisa positiva surgiu.

“Os que apoiaram as várias facções políticas abandonaram as acusações mútuas. Mesmo aqueles que haviam sido dados anteriormente a atos baixos e maus abandonaram todo o mal em suas vidas cotidianas, porque necessidades imperiosas os fizeram aprender sobre a honestidade ”, escreveu Procópio.

“Esse elemento da poesia oferece um pouco de esperança de que talvez possamos superar isso e não tropeçar novamente na mesma pedra”, diz Sales Carbonell, parecendo mais esperançoso do que certo de si mesma.

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Meio Ambiente: O ar que você respira pode agravar a pandemia

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O Brasil, até 3 de junho de 2020, havia atingido mais de 580 mil casos e 32 mil óbitos confirmados por Covid-19. O país já é o 2º com maior número de casos, após os EUA; o 4º com maior mortalidade, e o 10º em número de mortes por 100 mil habitantes.

Pesquisas recentes apontam que a poluição do ar pode levar ao aumento de número de novos casos e mortes por Covid-19, revelando ainda mais a estreita relação da saúde com os impactos da ação humana no meio ambiente. O Brasil, até 3 de junho de 2020, havia atingido mais de 580 mil casos e 32 mil óbitos confirmados por Covid-19. O país já é o 2º com maior número de casos, após os EUA; o 4º com maior mortalidade, e o 10º em número de mortes por 100 mil habitantes.

Como agravante deste cenário, pesquisadores da Universidade de São Paulo averiguaram o aumento de 30% (6.061) do número de mortes nas cinco cidades brasileiras mais acometidas pelo coronavírus em relação aos anos anteriores e revelaram ainda que, deste total, mais de 60% delas não se devem aos casos de Covid-19 e sim por outras causas. Trata-se do número mais relevante para entender o impacto real da pandemia na sociedade por dois motivos: a subestimação nos números oficiais de óbitos por Covid-19, principalmente devido à falta de testes diagnósticos e; a ampliação de mortes por outras causas como reflexo da sobrecarga no sistema de saúde.

Enquanto a Universidade Imperial College, da Inglaterra, mostrava que o Brasil possui o maior índice de transmissibilidade do vírus entre 48 países, estimativas de uma pesquisa liderada pelo “Grupo Covid-19 Brasil”, formado por cientistas de mais de 10 universidades brasileiras, apontam que o número de casos da doença é 14 vezes maior que os registros oficiais – mais de 1,6 milhão – ultrapassando os Estados Unidos, – dados que colocam o Brasil como o atual epicentro global da pandemia.

Ao encontro desse contexto o que se vê é uma situação caótica em muitas cidades do país no qual pelo menos 8 unidades federativas, como tentativa de conter o avanço da epidemia e controlar o colapso nos hospitais – decretarem o lockdown. São elas: Rio de Janeiro, Paraná, Roraima, Pernambuco, Pará, Tocantins, Amapá e Roraima. O Estado e o município de São Paulo decretaram 3 dias de feriados antecipados pelo mesmo motivo. A cidade de São Paulo alcançou mais de 90% de ocupação dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva.

O novo coronavírus evidencia como as precárias condições de saneamento, moradia, renda e o acesso a serviços públicos de boa parte dos brasileiros colocam as populações mais vulneráveis em maior risco. Ademais, também reflete as situações de eventos extremos que a humanidade passa a enfrentar de forma mais frequente, como já vinha sendo pontuado no debate sobre o aquecimento global. Tais observações aceleraram as frentes de pesquisas que associam as mudanças ambientais e a Covid-19, como as que agora revelam que a poluição atmosférica pode ser um agravante na pandemia.

Como isso pode ocorrer? Pela demonstração das correlações entre a poluição do ar e o aumento dos números de novos casos de Covid-19 e de mortes pela doença, influenciando em sua pior incidência e letalidade. Recentes evidências foram publicadas em estudos científicos, tais quais:

Efeitos da exposição a curto prazo (2 semanas) da população à poluição do ar e o aumento do número de casos da Covid-19.Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Zhu e outros pesquisadores estudaram a correlação entre o aumento de cinco poluentes no ar (material particulado MP2.5 e MP10, dióxido de enxofre SO2, monóxido de carbono CO, dióxido de nitrogênio NO2 e ozônio O3) e o número de novos casos da doença pelo coronavírus em 20 cidades na China. A observação da concentração dos poluentes ocorreu nas duas semanas anteriores à contabilização dos novos casos. Ou seja, analisaram o aumento de casos novos após a exposição da população aos poluentes por duas semanas, considerada uma exposição de curto prazo.

Os resultados mostraram que o aumento da concentração PM2.5 e PM10, aumentou, respectivamente em 2,2% e 1,8% o número de novos casos diários de Covid-19. No entanto o maior impacto foi observado para NO2 e O3, que aumentaram o surgimento de novos casos diários em, respectivamente, 6,9% e 4,7%.

Han e outros pesquisadores também demonstraram os efeitos benéficos da redução das concentrações de poluição do ar (MP2.5 e MP10, SO2, CO, NO2 e O3) experimentados durante as medidas de isolamento domiciliar na redução do número de casos confirmados de Covid-19, em Wuhan e outras 30 províncias da China. O que quer dizer que a redução de poluentes, por si só, independente do fator isolamento (redução do tráfego de veículos), levou à uma diminuição do surgimento de casos novos de Covid-19.

Embora não tenha sido abordado especificamente os impactos na saúde da população, estudos recentes mostraram que a redução compulsória da atividade econômica e da circulação de veículos nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Barcelona revelaram decréscimo da concentração de poluentes. Em São Paulo foram observadas as diminuições de NO (até -77,3%), NO2 (até -54,3%) e CO (até -64,8%) na área urbana. Por outro lado, houve um aumento de aproximadamente 30% nas concentrações de ozônio.

Efeitos da exposição a longo prazo (10 ou mais anos) da população à poluição do ar e o agravamento da Covid-19.

Ao avaliarem a poluição do ar nos últimos 15 anos, em 3.000 cidades americanas, pesquisadores de Harvard concluíram em seu estudo que uma pequena diferença na exposição de populações a longo prazo à poluentes – concentração anual de 1 μg/m3 maior do MP2.5 que outras cidades – acarretará 15% de aumento na taxa de mortalidade por Covid-19. Isso significa uma magnitude 20 vezes maior que o observado para todas as demais causas de mortalidade. Concluem ressaltando a importância de continuar a aplicar os regulamentos de poluição do ar existentes (a agência americana ambiental afrouxou a fiscalização das medidas de licenciamento durante a pandemia) para proteger a saúde humana durante e após a crise da Covid-19.

Yaron Ogen, um pesquisador alemão, revelou que 78% de mortes por Covid-19 analisadas em seu estudo (4.443 óbitos em 66 regiões administrativas da Itália, Espanha, França e Alemanha) ocorreu no norte da Itália e no centro da Espanha. Regiões onde se mostraram as maiores concentrações de NO2 combinadas com uma dispersão ineficiente da poluição do ar.

Nossa falta de ar não é apenas o coronavírus

O fenômeno da pandemia colocou em evidência, ainda mais, a tortuosa relação da sociedade com o meio ambiente, em especial no contexto econômico contemporâneo, e como estes desequilíbrios passam a trazer riscos para a existência humana. Um alerta que já vinha sendo feito pela Organização Mundial de Saúde ganha destaque neste cenário: 7 milhões de pessoas morrem anualmente por problemas decorrentes da má qualidade do ar e a emissão de gases de efeito estufa está colocando em risco a existência na Terra de forma irreversível.

Organizações da sociedade civil reunidas na Coalizão Respirar, grupo que atua em defesa da qualidade do ar no Brasil, redigiram um manifesto intitulado Queremos respirar no “novo agora”, chamando atenção para pontos como a necessidade urgente de diminuição das queimadas, a mudança na matriz energética dos transportes e a demanda por atualização nas leis – O Brasil até hoje ainda não aprovou um Plano Nacional de Qualidade do Ar.

Agora, além da ausência de infraestrutura e acesso à serviços públicos, evidências científicas apontam que a poluição do ar se revela como um potencial coeficiente para o agravamento da doença – sendo fundamental a descoberta ou elucidação de novos agravantes da infecção por Covid-19, de modo a serem combatidos. A poluição do ar – um agente ambiental essencialmente decorrente da atividade humana e cujas causas podem ser alvo da ação do Estado por meio de políticas públicas emergenciais – revela-se um fator que demanda muito mais atenção da sociedade brasileira do que se deu até o presente momento.

Evangelina Vormittag é diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, médica, especialista em microbiologia e doutora em Patologia pela Faculdade de Medicina da USP. Camila Acosta Camargo é responsável pela comunicação do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Relações Públicas, professora, mestre e doutoranda em Ciências da Comunicação na USP. Hélio Wicher Neto é responsável pelo advocacy do Instituto Saúde e Sustentabilidade, advogado e cientista social, especialista em Direito Urbanístico, Fundiário e Ambiental e mestre em Planejamento e Gestão do Território.

“Estamos vivendo a primeira crise econômica do antropoceno”

Antropoceno, a era geológica marcada pela ação humana.

Se toda a história da Terra fosse condensada em apenas um dia, estaríamos nos últimos 20 segundos. Não se engane: não faz muito tempo que habitamos este planeta!

A exploração dos recursos fósseis provocou o nascimento de uma nova era geológica na Terra – uma proeza levada a cabo pelas nações industrializadas e por suas elites, as quais basearam sua supremacia em trocas ecológicas desiguais.

Apesar de os seres humanos não habitarem a Terra há muito tempo, já deixaram uma marca difícil de apagar.

O que está em jogo é a troca entre atividade econômica e morte. Não podemos dizer que não fomos avisados. Desde o famoso relatório Limites ao Crescimento, realizado pelo clube de Roma em 1972, especialistas vêm destacando as forças naturais que podem interromper o caminho triunfante do crescimento econômico.

Esqueça o efeito borboleta, este é o efeito morcego – nossa influência sobre a natureza desencadeou o surto de coronavírus. E a pandemia está nos forçando a repensar como administrar nosso mundo em rede.

Todo mês de abril, Washington DC recebe as reuniões da primavera do FMI e do Banco Mundial. Mas, no mês passado, a diretora administrativa do FMI, Kristalina Georgieva, se dirigiu a seus colegas em vídeo. O mundo estava enfrentando, declarou ela, uma “crise como nenhuma outra”. Pela primeira vez desde o início dos registros, toda a economia mundial está se contraindo, tanto os países ricos quanto os pobres.

Mas não é apenas o impacto imediato que torna essa crise econômica sem precedentes. É a sua gênese. Isso não é 2008, que foi desencadeado por um colapso do setor bancário do Atlântico Norte. E não é a década de 1930; um terremoto que se originou nas linhas de falha deixadas pela primeira guerra mundial.

A emergência econômica Covid-19 de 2020 é o resultado de um grande esforço global para conter uma doença desconhecida e letal. É uma demonstração surpreendente de nosso poder coletivo de parar a economia e um lembrete chocante de que nosso controle da natureza, sobre o qual repousa a vida moderna, é mais frágil do que gostamos de pensar. O que estamos vivendo é a primeira crise econômica do Antropoceno.

Esta é a época em que o impacto da humanidade na natureza começou a nos afetar de maneira imprevisível e desastrosa. A grande aceleração que definiu o Antropoceno pode ter começado em 1945, mas em 2020 estamos enfrentando a primeira crise em que o blowback desestabiliza toda a economia. É um lembrete de quão abrangente e imediato é esse desafio. Enquanto a linha do tempo da emergência climática tende a ser medida em anos, o Covid-19 circulou o mundo em questão de semanas.

E o choque é profundo. Ao questionar nosso domínio da vida e da morte, a doença sacode a base psicológica de nossa ordem social e econômica. Coloca questões fundamentais sobre prioridades; altera os termos do debate. Nem na década de 1930 nem depois de 2008, havia qualquer dúvida de que levar as pessoas de volta ao trabalho era a coisa certa a fazer.

Salientar a natureza sem precedentes do choque do Covid-19 não significa que os problemas expostos pela crise financeira de 2008 ainda não estão conosco hoje. Com o aumento da pandemia em março de 2020, a fragilidade dos mercados financeiros ficou aparente demais. Se os bloqueios forem seguidos por uma recessão prolongada, como é mais do que provável, os bancos sofrerão danos graves. A ênfase na singularidade do choque covarde também não implica que as tensões geopolíticas entre a China e os EUA não importem. Eles fazem. O conflito sino-americano coloca o futuro da economia mundial em questão e isso é ainda mais alarmante, à medida que crescem as tensões sobre a política do vírus todos os dias.

Mas o ponto crucial é que a estabilidade financeira e a geopolítica estão agora entrelaçadas com um desafio que, como afirmou o presidente francês Emmanuel Macron, é antropológico: o que está em jogo é a troca entre atividade econômica e morte. Uma mutação casual na panela de pressão ambiental da China central colocou em risco toda a nossa capacidade de realizar nossos negócios diários. É uma versão maligna do efeito borboleta. Chame isso de efeito morcego.Desespero … trabalhadores da saúde protestando na região de Piemonte, na Itália. Fotografia: Alberto Ramella / AGF / REX / Shutterstock

Como circulou pelo mundo, o Covid-19 escalou a linha do tempo do progresso. Hospitais sofisticados na China, Itália e EUA foram reduzidos ao desespero caótico e impotente. As enfermeiras de Nova York passaram a se embrulhar em sacos de lixo. Máscaras faciais foram fabricadas à mão em máquinas de costura. Empilhamos os mortos em caminhões de geladeira.

Temos que enfrentar a possibilidade de estarmos vivendo em um intervalo encantador. No século desde a gripe espanhola de 1918-19, o aumento entrelaçado da globalização e dos estados de bem-estar nacional ocorreu no contexto de condições de doenças relativamente benignas. Graças à melhoria da nutrição, saneamento e habitação, saúde pública, farmacologia e medicina de alta tecnologia, observamos um progresso notável na expectativa de vida humana. A conquista da varíola em 1977 foi emblemática.

A sensação de que doenças infecciosas eram coisa do passado sustentava uma promessa de proteção. Com o Covid-19, o custo dessa proteção aumentou bastante. Em uma horrível distorção da mente, as economias avançadas de repente se vêem diante dos tipos de dilemas habitualmente enfrentados pelos países pobres. Nós não temos as ferramentas. No mundo pobre, o resultado diário é que as crianças são atrofiadas e as famílias empobrecidas. Milhões morrem por falta de tratamento. O Covid-19 entregou uma amostra disso ao mundo rico.

Não podemos dizer que não fomos avisados. Desde o famoso relatório Limites ao Crescimento, realizado pelo clube de Roma em 1972, especialistas vêm destacando as forças naturais que podem interromper o caminho triunfante do crescimento econômico. Após os choques do petróleo na década de 1970, o esgotamento de recursos foi uma grande preocupação. Nos anos 80, a crise climática assumiu o controle. Mas, no mesmo momento, o choque do HIV / Aids despertou a consciência de um tipo diferente de blowback da natureza: a ameaça de “doenças infecciosas emergentes” e, especificamente, as geradas por mutações zoonóticas.

Partindo de uma famosa conferência na Universidade Rockefeller em 1989, foi argumentado repetidamente que isso não é coincidência. É o resultado da incorporação incansável da humanidade da vida animal em nossa cadeia alimentar. HIV / Aids, Sars, gripe aviária, gripe suína e Mers podem ser atribuídos a esse apetite perigoso. Como a crise climática, as epidemias não são meramente acidentes da natureza. Eles têm drivers antropogênicos.

Recomendo a leitura. Assim se aprende o que o Antropoceno

As implicações desta análise são radicais. Mas os médicos e epidemiologistas que o fazem não são revolucionários. O que eles insistentemente pediram é uma infraestrutura global de saúde pública proporcional aos riscos que a globalização acarreta. Se quisermos manter enormes estoques de animais domesticados e invadir cada vez mais profundamente os últimos reservatórios remanescentes de vida selvagem; se vamos nos concentrar em cidades gigantes e viajar em números cada vez maiores, isso traz riscos virais.

Meio Ambiente,Fauna,Flora,Agrotóxicos,Abelhas,Vida Selvagem,Poluição.Agricultura,Alimentos,Crimes Ambientais,Natureza,Blog do Mesquita Se desejamos evitar desastres, devemos investir em pesquisa, monitoramento, saúde pública básica, produção e armazenamento de vacinas e equipamentos essenciais para nossos hospitais.

Obviamente, isso exigiria considerável coordenação política e algum investimento. Mas sempre ficou claro que a recompensa seria enorme. A pandemia de gripe de 1918, que se acredita ter matado 50 milhões de pessoas, define um nível alto. Se uma pandemia surgisse e tivesse que ser contida em quarentena, era sempre óbvio que os custos chegariam aos trilhões de dólares.

Com a crise climática, sabemos o que impede uma reação adequada. Os combustíveis fósseis são essenciais para o nosso modo de vida. Poderosos interesses comerciais têm um grande interesse na negação do clima. Os interesses estratégicos dos EUA, Arábia Saudita e Rússia são todos investidos em petróleo. A descarbonização é cara, tecnicamente complicada e os benefícios são difusos e de longo prazo.Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Em relação à política global de saúde, existem rivalidades burocráticas entre diferentes agências nacionais e globais. Existem diferenças de abordagem entre especialistas em segurança global em saúde e humanitários biomédicos. A indústria farmacêutica não investirá em medicamentos, a menos que obtenha lucro. Os hospitais preocupados com os custos querem minimizar os gastos com camas. Mas tudo isso parece cerveja pequena em comparação com os riscos envolvidos.

Embora se possa razoavelmente dizer que estruturas gigantes como o capitalismo e a geopolítica impedem a crise climática, o mesmo não ocorre com Covid-19. O custo de vacinar o mundo inteiro é estimado em cerca de US $ 20 bilhões. Isso equivale a aproximadamente duas horas do PIB global, uma pequena fração dos trilhões que a crise está custando. O fato de esse vírus ter se tornado uma crise global não é explicável em termos de interesses opostos em massa. É antes de tudo um fracasso do governo.

 Acontece que podemos fazer uma pausa na economia mundial. Mas agora enfrentamos a incrível responsabilidade de reabri-lo

Por serem relativamente baratos e a escala do risco ser enorme, todos os principais países tinham, de fato, preparativos para uma pandemia. Nenhuma era tão ampla quanto poderíamos desejar agora. Mas em lugares como Coréia do Sul, Taiwan e Alemanha, eles trabalharam. Fazer bons planos, segui-los e fazer as coisas básicas corretamente acaba importando. Enfrentar a crise climática coloca o grande desafio de desacelerar todo o sistema. O que Covid-19 ensina é que não é apenas a grande figura que importa. O nosso sistema global é tão unido que pequenas falhas de governança em alguns nós cruciais podem afetar todos no planeta.

O mais notável do Covid-19 é que ele traz os riscos do Antropoceno para cada um de nós individualmente. Os bloqueios não foram simplesmente uma medida governamental de cima para baixo. Foram as próprias pessoas que decidiram em massa sua própria resposta à ameaça, frequentemente à frente de seus governos. Isso se refletiu mais dramaticamente nos mercados financeiros, que começaram uma corrida global pela segurança. Foi isso que acionou primeiro os bancos centrais e depois os parlamentos e governos. Acontece que somos capazes de pausar a economia mundial.

Mas agora enfrentamos a incrível responsabilidade de reabrir. Se Georgieva está certo de que esta é uma crise como nenhuma outra, o mesmo ocorre com o problema do reinício. As apostas dificilmente poderiam ser maiores. Por um lado, estão os enormes riscos médicos; por outro, uma crise econômica desastrosa. Como podemos fazer o trade-off? É tentador rejeitar a escolha como impossível ou falsa. Não apenas isso não é verdade, mas também nega o fato de que, em circunstâncias normais, nos envolvemos rotineiramente em trocas de vida e morte. Mesmo nas sociedades mais ricas, são tomadas diariamente decisões motivadas financeiramente que decidem as chances de morte devido a acidentes de trabalho, poluição, acidentes de carro, financiamento hospitalar, aquisição de medicamentos e seguro de saúde.

Mas nunca antes a questão foi colocada em termos tão diretos para nações inteiras. O resultado é previsivelmente divisivo. Atualmente, os EUA estão embarcando em um teste de colisão, com estados republicanos do sul, como a Geórgia, avançando apesar dos testes inadequados ou do apoio médico. Incitadas pelo próprio presidente, milícias armadas ocupavam a capital do estado de Michigan exigindo “libertação” do bloqueio. Enquanto isso, na Alemanha, Angela Merkel reprisou seu papel na crise da zona do euro, tentando reprimir qualquer discussão. Não foi um momento para “orgias de debate sobre reabertura”, ela insistiu. Margaret Thatcher “não há alternativa” era, mais uma vez, a ordem do dia.

A bala mágica seria uma solução médica – testes de anticorpos, tratamentos eficazes, uma vacina. Foram necessários cinco anos para desenvolver uma vacina contra o Ebola, embora recursos muito maiores estejam sendo lançados para esse problema. Mas o que estamos contando não deve ser confundido com os negócios, como de costume. Nunca desenvolvemos com sucesso uma vacina corona. Estamos apostando não na ciência normal, mas em uma maravilha moderna, um “milagre científico”. E, mesmo na melhor das hipóteses, se uma vacina for lançada em 2021, não podemos escapar da lógica da sociedade de risco. Agora sabemos o que esse tipo de ameaça pode fazer. Sabemos que perdemos uma grande fatia de 2020. Como avançamos a partir daqui?

A solução óbvia é fazer os investimentos em saúde pública global exigidos pelos especialistas desde os anos 90. Haverá obstáculos políticos e comerciais a serem superados. China e EUA estão em desacordo e parecem determinados a politizar a pandemia. Além disso, o vasto custo financeiro da crise ficará sobre nós. Dívidas enormes provavelmente incentivarão a conversa sobre austeridade. Desde a década de 1990, as políticas econômicas voltadas para o mercado no setor público enfraqueceram os sistemas de saúde em todo o mundo. Em última análise, a política será decisiva e os últimos seis meses trouxeram derrotas esmagadoras para a esquerda em ambos os lados do Atlântico. O teor político predominante da crise, até agora, tem sido conservador e nacionalista.

Diante da crise, Jair Bolsonaro e Donald Trump reduziram números absurdos. Mas eles expressam um profundo desejo de negar o significado do choque.

Quem não preferiria pensar que isso era simplesmente gripe? Diante dessa tentação, o que devemos evitar não é uma exibição aberta de negação, mas a alternativa suave. O Covid-19, como os furacões sem precedentes e os incêndios devastadores de 2019, será descartado como uma aberração da natureza. Isso é reconfortante. Será bom para os negócios no curto prazo. Mas isso nos prepara para outra crise. Se é certo que o Covid-19 é uma crise como nenhuma outra, o que deve ser temido é que haverá mais chances de ocorrer.

Ciências,Terraplanistas,Blog do Mesquita

Por que o Polo Norte Magnético da Terra está migrando do Canadá para a Rússia

O campo magnético da Terra é gerado em seu núcleo externo

Um grupo de cientistas europeus acredita que finalmente descobriu porque o Polo Norte magnético está se deslocando.

Nos últimos anos, ele se afastou do Canadá e seguiu para a Sibéria, na Rússia.

O deslocamento foi tão rápido que tem obrigado os cientistas a fazer atualizações mais frequentes nos sistemas de navegação por GPS, incluindo aqueles que são usados nos mapas dos smartphones.

A equipe, liderada pela Universidade de Leeds, na Inglaterra, diz que o comportamento é explicado pela competição entre duas massas magnéticas no núcleo externo da Terra.

Mudanças nos fluxos de material derretido no interior do planeta têm alterado a força das áreas de fluxo magnético negativo.

“Essa mudança no padrão de fluxos enfraqueceu a parte abaixo do Canadá e aumentou ligeiramente a força da faixa abaixo da Sibéria”, explicou Phil Livermore. “É por isso que o Polo Norte deixou sua posição histórica sobre o Ártico canadense e cruzou a Linha Internacional de Data. O norte da Rússia está vencendo o cabo de guerra”.

O campo magnético da Terra está mudando rapidamente
Direito de imagem GETTY

Três polos

A Terra tem três polos na sua parte superior.

Um Polo Geográfico, que é o ponto na superfície do eixo de rotação do planeta. O Polo Geomagnético, que é o local que melhor se encaixa a um dipolo clássico (sua posição muda pouco).

E depois há o Polo Norte magnético, onde as linhas de campo são perpendiculares à superfície. Este é o que está se movendo.

Foi identificado pela primeira vez na década de 1830 pelo explorador James Clark Ross quando este se encontrava em Nunavut, território autônomo no nordeste do Canadá.

Naquela época, esse polo não se movia muito longe, nem muito rápido.

Mas, nos anos 1990, começou a se mover para latitudes cada vez mais altas, cruzando a Linha Internacional de Data no final de 2017. No processo, ficou a algumas centenas de quilômetros do Polo Geográfico.

O modelo anterior não se encaixava

Usando dados de satélites que têm medido e acompanhado a evolução do campo magnético da Terra nos últimos 20 anos, Livermore e seus colegas tentaram modelar as oscilações do Polo Norte Magnético.

Dois anos atrás, quando apresentaram suas ideias pela primeira vez na reunião da União Geofísica Americana, no Estado de Washington, sugeriram que poderia haver uma conexão com um jato (fluxo em alta velocidade) de ferro derretido na região mais externa do núcleo do planeta avançando em alta velocidade rumo a oeste sob o Alasca e a Sibéria.Direito de imagem GETTY

Os sistemas de navegação são baseados no campo magnético.

Mas os modelos não se encaixavam completamente e a equipe agora revisou sua avaliação para se alinhar com um outro regime de fluxo.

“O jato está ligado a latitudes setentrionais muito altas e a alteração do fluxo no núcleo externo, responsável pela mudança na posição do polo, está, na realidade, mais ao sul”, explica Livermore.

“Há também o problema do momento das ocorrências. A aceleração do jato ocorre nos anos 2000, enquanto a aceleração do polo começa nos anos 90”.

O modelo mais recente da equipe indica que o polo continuará avançando em direção à Rússia, mas, em algum momento, começará a ir mais lento. Em sua velocidade máxima, ele percorre de 50 a 60 km por ano.

“Ninguém sabe se isso retrocederá ou não no futuro”, disse o cientista britânico à BBC.

O recente deslocamento do polo levou o Centro Nacional de Dados Geofísicos dos Estados Unidos e o Serviço Geológico Britânico a emitir uma atualização antecipada do Modelo Magnético Mundial em 2019.

Este modelo é uma representação do campo magnético da Terra em todo o mundo. Ele é incorporado a todos os dispositivos de navegação, incluindo smartphones modernos, para corrigir erros de bússola.

Livermore e seus colegas se apoiaram fortemente nos dados registrados pelos satélites da missão Swarm da Agência Espacial Europeia.

A equipe publicou sua pesquisa na revista Nature Geoscience.

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Coronavírus: ‘Fui preso por fingir ter covid-19 no Facebook’

Brandin postou notícia falsa no Facebook como ‘experimento social’ – Direito de imagem GABINETE DO XERIFE DO CONDADO DE TYLER/ GETTY

O americano Michael Lane Brandin sabia que seu post no Facebook causaria rebuliço. O que ele não imaginava era que seria preso, perderia o emprego e enfrentaria um julgamento caro que pode mantê-lo atrás das grades.

Era uma tarde monótona em março e o debate sobre como lidar com o possível surto de covid-19 estava por todos os lados na sua timeline.

Então ele decidiu, em suas palavras, “fazer um experimento social”.

Michael postou que havia sido diagnosticado com o coronavírus e que os médicos haviam dito que o vírus era transmitido pelo ar.

No Facebook, seu relato foi recebido com um misto de empatia e choque.

“O post gerou muitas reações e muitos amigos me mandaram uma mensagem para perguntar se eu estava bem, então eu disse a eles que era tudo mentira”, diz ele.

Mas o que estava acontecendo offline era muito mais sério.

O boato começou a se espalhar velozmente pelo condado de Tyler, no Estado americano do Texas, onde Michael morava.

Isso ocorreu dias antes de qualquer medida de isolamento social ter sido decretada. Pessoas ligando incessantemente ao hospital perguntando se as notícias eram verdadeiras e o que elas poderiam fazer para se proteger do “assassino invisível”.

Mandado de prisão

A polícia entrou em contato com Michael e disse-lhe para alterar seu post para deixar claro que ele estava fazendo um experimento social, o que ele prontamente fez.

No entanto, o boato já havia se tornando uma bola de neve. E o próximo post no Facebook acabou vindo da delegacia de polícia. “Dando prosseguimento a uma queixa oficial do promotor criminal do distrito, o juiz do Condado Jacques Blanchett emitiu um mandado de prisão para Brandin pelo crime de alarme falso, uma contravenção classe A.”

Brandin se entregou. Sua fiança foi estabelecida em US$ 1 mil (cerca de R$ 5,4 mil).

“Eles disseram que eu tinha que passar a noite na prisão, porque tinha que esperar a chegada do juiz no dia seguinte. Estava morrendo de ansiedade”, diz Brandin.

No comunicado enviado ao público, a delegacia de polícia disse que sua ação foi motivada pela “crescente preocupação do coronavírus nos Estados Unidos e pela emissão de declarações de emergência / desastre pelo presidente (Donald) Trump e pelo governador Abbott (Greg Abbott, governador do Texas)”.Direito de imagem MICHAEL LANE BRANDIN

Fiança de Brandin foi estabelecida em US$ 1 mil

Brandin agora está de volta à sua casa esperando uma data para seu julgamento. Apesar da seriedade de sua situação, ele diz que ainda tem sentimentos contraditórios sobre se lamenta ou não ter escrito o post.

“Sou bacharel em comunicação em massa e fiz isso para provar como é fácil alguém postar algo online e causar pânico. Eu queria provar que é importante que as pessoas estejam bem informadas e façam suas próprias pesquisas antes de acreditar em tudo o que leem ou escutam.”

“Mas, por causa de uma postagem no Facebook, perdi meu emprego, meu plano de saúde, e não pude iniciar meu programa de mestrado a tempo devido à falta de dinheiro. Isso criou um fardo financeiro para toda a minha família, porque todos estão tentando me ajudar a pagar minhas contas.”

“Apesar de tudo de ruim que aconteceu, sinto que meu argumento foi provado e isso me faz sentir bem.”

Fake news

Os EUA não são o único lugar onde espalhar informações falsas nas redes sociais sobre o vírus pode levar à prisão.

Prisões por espalhar as chamadas fake news estão sendo noticiadas na Índia, Marrocos, Tailândia, Quênia, Camboja, Somália, Etiópia, Cingapura, Botsuana, Rússia e África do Sul.

Em alguns casos, são rumores espalhados com malícia. Em outros, observadores de direitos humanos disseram à BBC que estão preocupados com o fato de as circunstâncias extraordinárias da pandemia estarem atribuindo às autoridades poderes sem precedentes para reprimir discordâncias ou críticas.

No Quênia, Robert Alai está sob fiança e pode enfrentar uma possível pena de prisão de 10 anos por um tuíte sobre o vírus.Direito de imagem ROBERT ALAI

Alai foi mantido em cela com outros presos, sem distanciamento social

O homem de 41 anos já passou três dias em uma cela apertada, por um post em que alegou ter ouvido falar de um surto no porto local de Mombaça.

De acordo com as autoridades, a medida violou a Lei de Uso Indevido de Computadores e Crimes Cibernéticos de 2018.

Alai foi preso em uma sexta-feira e mantido em uma cela no fim de semana até que um juiz pudesse vê-lo. Ele alega que, durante sua detenção, não foram implementadas medidas de distanciamento social, até que ele próprio chamasse atenção para o assunto.

“Dormi no chão de concreto com muitos outros presos. Não recebi uma máscara ou algo assim. Não posso ser preso por colocar vidas em perigo e depois ser mantido assim durante a pandemia. Reclamei e acabaram me separando do restante dos presos.”Direito de imagem ROBERT ALAI

Alai está sob liberdade condicional

Alai é um conhecido blogueiro de oposição ao governo, com mais de 1 milhão de seguidores no Twitter.

A polícia não respondeu aos questionamentos da BBC, mas publicou detalhes no Twitter de um caso semelhante cinco dias antes de sua prisão.

A Diretoria de Investigações Criminais do Quênia disse que um homem havia sido preso em Mwingi “por publicar informações enganosas e alarmantes sobre o coronavírus… ele será indiciado por publicar informações falsas que resultem em pânico em violação à seção 23 da lei de Uso Indevido do Computador”.

As autoridades quenianas apelaram repetidamente ao público para parar de compartilhar informações falsas e rumores.

No dia anterior à detenção de Alai, o ministro da Saúde do país, Mutahi Kagwe, disse: “Esses rumores devem parar… mas, como sei que apelos vazios não funcionarão, prosseguiremos e prenderemos vários deles para provar nosso argumento”.

Alai está convencido de que as informações recebidas eram verdadeiras e que ele não infringiu a lei, embora a BBC não tenha conseguido verificar independentemente sua alegação.

Alai foi preso várias vezes antes por fazer comentários controversos. Ele alega que a polícia está usando a pandemia para perseguir os críticos do governo.

“Eles prenderam outros blogueiros por coisas semelhantes e parece-me que qualquer tuíte de coronavírus ou qualquer outra informação nas redes sociais agora é considerado um crime grave. Não estou dizendo que eles não devem prender pessoas e acho muito importante a polícia pode fazer seu trabalho, mas acho que eles precisam se concentrar nas pessoas certas”.

Se condenado, Alai pode ter que pagar uma multa de 5 milhões de xelins quenianos (cerca de R$ 250 mil) ou 10 anos de prisão.

Mais prisões

Na Índia, Sikandar Cuttrack também está aguardando julgamento por questionar as autoridades locais no Twitter.

“Apenas tentei informar a polícia e o governo sobre um paciente suspeito de covid-19”, diz ele.

“Fiz vários tuítes sobre isso, mas a polícia me prendeu dizendo que criei pânico. Não acho que cometi um erro. Acredito que a polícia tenha tomado uma ação desnecessária. A situação da pandemia tornou a polícia mais poderosa. “Direito de imagem SIKANDAR CUTTRACK

Sikandar Cuttrack também foi detido por post no Twitter

Cuttrack pode ser sentenciado a até três anos de prisão. Ele é um ativista político e acredita que sua prisão pode estar parcialmente ligada à sua oposição ao governo local.

É uma alegação que a polícia nega. O comissário de polícia de Odisha diz que está trabalhando para impedir a propagação do pânico causado pela desinformação nas redes sociais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que há uma “infodemia” ocorrendo online e que há riscos altos para autoridades de todo o mundo que tentam lidar com notícias falsas de pandemia.

Direito de imagem DR LI WENLIANG
Médico chinês alertou autoridades sobre vírus; ele acabou morrendo da doença

Ameaça às liberdades

Em um relatório no mês passado, a ONG Human Rights Watch reconheceu que a pandemia ultrapassou o limiar de ser “uma grave ameaça à saúde pública e emergência pública”, que pedia uma “restrição a alguns direitos” justificada.

No entanto, a organização disse estar preocupada que polícia e governos usem os poderes emergenciais decorrentes da pandemia para calar a liberdade de expressão.

Segundo a Human Rights Watch, “em vários países, os governos fracassaram em defender o direito à liberdade de expressão, perseguindo jornalistas e profissionais de saúde”.

O relatório inclui exemplos de quando a supressão de informações nas redes sociais prejudicou a luta contra o coronavírus, como no início de janeiro, quando o médico chinês Li Wenliang foi convocado pela polícia por “espalhar boatos” depois que ele alertou sobre o novo vírus em uma sala de bate-papo online.

Ele acabou sendo liberado e morreu de covid-19 semanas depois.

O equilíbrio entre permitir a liberdade de expressão nas mídias sociais e proteger as pessoas do pânico é algo que todo país está enfrentando.

Há poucas dúvidas de que esse período da história será estudado por gerações, à medida que a pandemia se desenrola, tanto online quanto offline.

Cenas de uma pandemia de 1.500 anos atrás que se repetem hoje

Pesquisa da Universidade de Barcelona destaca as surpreendentes semelhanças entre a pandemia do coronavírus e a praga de Justiniano que assolou o mundo em 541.

Mosaico do século VI do imperador Justiniano e sua corte, na Basílica de San Vital em Ravena.GETTY IMAGES

Uma pandemia que chegou do estrangeiro e que se espalhava rapidamente dos portos onde chegavam os passageiros infectados ― assintomáticos ou não ―, sem nenhum medicamento que pudesse pará-la, todos os habitantes confinados em suas casas para evitar contágios, a paralisação total da economia, o exército vigiando as ruas, médicos infectados trabalhando à exaustão, milhares de mortos diários sem enterrar durante “muitos dias porque os que cavavam já não davam conta…”.

Não é a crônica do coronavírus que afeta o mundo em 2020. É o relato feito por Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que assolou o mundo conhecido entre 541 e 544: da China às costas da Hispânia. O estudo La plaga de Justinià, segons el testimoni de Procopi (A Praga de Justiniano, segundo o Testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, devolveu à atualidade esse relato de 1.500 anos atrás, com moral da história. “Em 1 de abril de 2020, determinadas semelhanças e paralelismos do comportamento humano frente a um vírus e suas consequências nos parecem tão próximas e atuais que, apesar da tragédia que estamos vivendo em primeira pessoa, nunca podemos deixar de nos maravilhar de como a história se repete” escreve a arqueóloga e historiadora do Institut de Recerca en Cultures Medievals (Instituto de Pesquisa em Culturas Medievais).

Em 541, durante o reinado do bizantino Justiniano, explodiu um surto de peste bubônica no império. “O alarme surgiu no Egito, onde a infecção se expandiu de modo rápido e letal”. Procópio falou sobre isso em seu livro História das Guerras, no qual relatou as campanhas militares de Justiniano pela Itália, África do Norte, Hispânia… e como os soldados espalhavam a pandemia pelos diversos portos em que chegavam, fundamentalmente da Europa, África do Norte, o Império Sassânida (Pérsia) e, de lá, à China.

Procópio, como conselheiro do general bizantino Belisário, a quem acompanhou em suas campanhas, se transformou assim em “testemunha privilegiada” de uma pandemia que recebeu o nome de praga de Justiniano: “Foi declarada uma epidemia que quase acabou com todo o gênero humano da qual não há forma possível de dar nenhuma explicação com palavras, sequer de pensá-la, a não ser nos remitir à vontade de Deus”, escreveu o historiador bizantino. “Essa epidemia”, continuou, “não afetou uma parte limitada da Terra, um grupo determinado de homens e se reduziu a uma estação concreta do ano […], e sim se espalhou e se alimentou em todas as vidas humanas, por diferentes que fossem as pessoas das outras, sem excluir naturezas e idade”. Desse modo, a doença não tinha limites, “até aos extremos do mundo, como se tivesse medo de que algum recanto escapasse”.

Um ano após ser detectada, a peste chegou à capital do Império, Bizâncio (atual Istambul), “assolando-a durante quatro meses”. “O confinamento e o isolamento eram totais”, descreve Sales Carbonell, “já que era mais do que obrigatório aos doentes. Mas também se impôs uma espécie de autoconfinamento espontâneo e intuitivamente voluntário para o restante, em boa parte motivado pelas próprias circunstâncias”. De fato, “não era nada fácil ver alguém nos locais públicos, pelo menos em Bizâncio, uma vez que todos os saudáveis ficavam em casa, cuidando dos doentes e chorando os mortos”, de acordo com Procópio. E o faziam “com roupas comuns, como simples particulares”, o que a historiadora da Universidade de Barcelona traduz com certa ironia “como o moletom da época”.

A economia, enquanto isso, desabou: “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todos os empregos e os trabalhos dos quais se ocupavam”. Mas ao contrário de hoje em dia, as autoridades foram incapazes de organizar serviços essenciais. “Parecia muito difícil conseguir pão e qualquer outro alimento, de modo que, para alguns doentes, o desenlace final da vida foi sem dúvida prematuro, pela falta de artigos de primeira necessidade”, escreveu o bizantino em História das Guerras. “Muitos morriam porque não tinham quem cuidasse deles”, já que as pessoas responsáveis pela emergência “caiam esgotadas por não poder descansar e sofrer constantemente. Por isso, todos se compadeciam mais delas do que dos doentes”.

Vigilância nas ruas
Justiniano, pela situação desesperada, distribuiu “pelotões de guardas do palácio” pelas ruas e nomeou seu chefe de gabinete autorizado, que “com o dinheiro do tesouro imperial e até colocando de seu próprio bolso sepultava os corpos dos que não tinham ninguém que os ajudasse”. O próprio imperador se infectou, mas superou a doença e continuou governando durante mais uma década.

Os picos de mortalidade subiram de 5.000 a 10.000 vítimas por dia, e até mais. De tal maneira que, “ainda que em um primeiro momento cada um se ocupava dos mortos de sua casa, o colapso e o caos se tornaram inevitáveis e os cadáveres também eram jogados nas tumbas dos outros, às escondidas e com violência”. Mesmo os ilustres, lembra Procópio, “permaneceram insepultos durante muitos dias”, de modo que “os corpos se amontoaram de qualquer maneira nas torres das muralhas”. Não havia cortejos e rituais funerários para eles.

Quando por fim a pandemia foi superada surgiu, lembra a historiadora, um aspecto positivo: “Os que haviam sido partidários das diversas fações políticas abandonaram as críticas mútuas. Mesmo aqueles que antes realizavam ações baixas e malvadas deixaram, na vida diária, toda a maldade, uma vez que a necessidade imperiosa lhes fazia aprender o que era a honradez”, nas palavras de Procópio, ainda que após algum tempo voltaram aos velhos hábitos. “Esse ponto certo de poesia nos faz vislumbrar o otimismo e a esperança de que talvez nos permitam seguir em frente e não voltar a tropeçar novamente na mesma pedra”, finaliza a especialista com mais expectativa do que certeza.

Um longo bloqueio será catastrófico para os países desenvolvidos

As pessoas caminham ao longo de uma estrada para retornar às suas aldeias. Nova Deli, India. REUTERS / Danish Siddiqui

A recessão global iminente e provavelmente duradoura, causada pelo fechamento de nossas economias, prejudicará todos nós – mas será muito, muito pior para aqueles que já estão à beira da fome.

Um relatório do Programa Mundial de Alimentos da ONU (PAM), publicado no início desta semana, mostra uma visão deprimente dos efeitos da pandemia de Covid-19. O relatório sugere que o número de pessoas que enfrentam severa escassez de alimentos – à beira da fome – pode dobrar nos próximos 12 meses, de 130 para 265 milhões. O chefe do PAM, David Beasley, descreveu as possíveis fomes como “bíblicas”. Os debates sobre os bloqueios no Ocidente devem ter em mente os pobres do mundo antes de exigir que as restrições permaneçam em vigor.

O economista-chefe do PMA, Dr. Arif Husain, disse à mídia: “O Covid-19 é potencialmente catastrófico para milhões que já estão presos a um fio. É um golpe de martelo para milhões a mais que só podem comer se ganharem um salário. Os bloqueios e a recessão econômica global já dizimaram seus ovos. É preciso apenas mais um choque – como o Covid-19 – para empurrá-los para além do limite. Devemos agir coletivamente agora para mitigar o impacto dessa catástrofe global. ”

Precisamos aceitar algumas das reivindicações do PMA com um pouco de ceticismo. Quem se especializa em uma área específica sempre acreditará que os problemas são os mais importantes (embora a comida seja claramente a necessidade mais básica). E há sempre um grau de especial apelo a esses relatórios institucionais, com autoridades tentando promover os piores cenários, a fim de obter o maior orçamento possível.

No entanto, há claramente um problema muito grande aqui. A própria doença causará uma perda substancial de vidas e poderá adoecer muitas pessoas produtivas, numa época em que os meios de subsistência já estão à beira da faca. No entanto, também precisamos perceber o quão devastadores os bloqueios generalizados também podem ser.

Como a Índia está usando a catástrofe Covid-19 para começar a consertar seu sistema de saúde em ruínas.
Atualmente, pelo menos um terço da população do mundo vive trancado, incluindo 1,3 bilhão de pessoas somente na Índia. Apesar de anos de crescimento econômico impressionante, se possível exagerado, quase um quarto dos indianos ainda vive com menos de US $ 2 por dia. A situação será muito pior nos países que não desfrutaram do rápido desenvolvimento da Índia.

Os governos do mundo em desenvolvimento vêm copiando políticas em países muito mais ricos. Mas eles necessariamente fazem sentido? No Ocidente desenvolvido, a principal preocupação é que um pico acentuado nos casos sobrecarregue os serviços intensivos de saúde, levando a mortes desnecessárias. No entanto, muitos países mais pobres têm muito poucos ventiladores e médicos e enfermeiros experientes em relação às suas populações. Então, quais são os benefícios dos bloqueios que levarão muitos milhões a mais na pobreza abjeta?

Nas megacidades lotadas do mundo em desenvolvimento – como Mumbai, Cairo, Lagos – o distanciamento social é impraticável. A lavagem básica das mãos com sabão está amplamente indisponível. Do ponto de vista da saúde, as políticas fazem pouco sentido. Pior, estima-se que mais de dois bilhões de pessoas trabalhem na economia “informal” – elas estão fora do radar em termos de ação do governo, como cortes de impostos, benefícios sociais e outras intervenções do governo. Como Husain aponta sem rodeios: para muitas pessoas, se não trabalham, não comem.

Não são apenas os bloqueios no mundo em desenvolvimento que são importantes. As economias dos países em desenvolvimento dependem, em parte, do comércio com nações mais ricas. Se isso for interrompido, os níveis de pobreza aumentarão. Por exemplo, a varejista de roupas britânica Primark quase não tem presença on-line. Portanto, o fechamento de suas lojas na Europa deixou dezenas de milhares de europeus desempregados – mas também atingiu os que trabalham para fabricantes de países mais pobres. A empresa prometeu apoiar os fornecedores por enquanto, mas um longo desligamento deixaria um enorme número de trabalhadores mais pobres em todo o mundo sem trabalho.

De maneira mais ampla, uma consultoria britânica, o Center for Economic and Business Research, estimou que as famílias britânicas poderiam enfrentar uma perda de renda média de £ 515 (US $ 635) por mês ao longo deste ano. Uma fatia substancial desses gastos teria sido usada para comprar mercadorias de países em desenvolvimento. Essa perda de gastos sem dúvida exacerbará as recessões nos países mais pobres.

Esse aspecto dos impactos econômicos dos bloqueios por coronavírus parece ter sido amplamente esquecido. É compreensível que, na reação inicial à pandemia, o foco esteja em lidar com a questão em nível doméstico. Mas agora que temos um certo grau de espaço para respirar e as taxas de infecção parecem estar reduzidas, devemos agora considerar todos os impactos da continuação dos bloqueios, não apenas na saúde e na riqueza das pessoas no mundo rico, mas na parte mais pobre do mundo. mundo também.

No entanto, aqueles como eu, que pedem que as restrições sejam afrouxadas mais cedo ou mais tarde, são rotineiramente denunciados como mais interessados ​​em dinheiro do que em salvar vidas. Na vanguarda dessa demanda está o presidente Trump. Ainda nesta semana, o jornal britânico Guardian poderia publicar um artigo intitulado ‘Consoler-in-Chief? Sem empatia, Trump pesa os custos econômicos, não os humanos.

Quaisquer que sejam as motivações de Trump – e ele pode estar mais preocupado com os empregos americanos do que com os de Bangladesh -, o ponto permanece que serão os mais vulneráveis ​​do mundo que sofrerão se as economias forem fechadas por muito mais tempo. Com Trump na Casa Branca e um governo conservador no Reino Unido, muitas vozes de esquerda na mídia anglo-americana parecem ter adotado uma abordagem perversa e politizada para defender os bloqueios, alegando que estão colocando as pessoas antes dos lucros, quando é necessário. na verdade, os pobres que mais sofrem quando a economia pára.

Os governos ocidentais precisam pensar além de suas próprias fronteiras sobre os impactos dessa pandemia. Enquanto ninguém defende um retorno abrupto à normalidade, todos os esforços devem ser feitos para reduzir os impactos do distanciamento social o mais rápido possível e fazer com que todas as economias do mundo voltem a funcionar.

Inteligência Artificial está ajudando a entender os oceanos

As aplicações de aprendizado de computadores estão se mostrando especialmente úteis para a comunidade científica que estuda as maiores massas de água do planeta.

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Se você tivesse cerca de 180.000 horas de gravações subaquáticas do Oceano Pacífico e precisasse saber quando e onde, nessas horas diferentes, baleias jubarte estavam cantando, você pesquisaria no Google?

Foi o que Ann Allen, ecologista de pesquisa da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, fez. 

Em janeiro de 2018, ela se aproximou do Google e perguntou se eles poderiam ajudá-la a encontrar o sinal de músicas de baleias jubarte em meio a todo o ruído do oceano, como chamadas de golfinhos ou motores de navios. Usando 10 horas de dados anotados, nos quais as músicas das baleias e outros ruídos foram identificados, os engenheiros do Google treinaram uma rede neural para detectar as músicas, com base em um modelo para reconhecer sons nos vídeos do YouTube, disse Julie Cattiau, gerente de produtos do Google.

Cerca de nove meses depois, a Dra. Allen tinha um modelo para identificar canções de baleias jubarte, que ela está usando em sua pesquisa sobre a ocorrência da espécie em ilhas do Pacífico e como ela pode ter mudado na última década. O Google usou algoritmos semelhantes para ajudar o Departamento de Pescas e Oceanos do Canadá a monitorar em tempo real a população da Orca Residente do Sul, em risco de extinção, que tem cerca de 70 animais.

As aplicações de aprendizado de máquina e inteligência artificial estão se mostrando especialmente úteis no oceano, onde existem tantos dados – grandes superfícies, profundidades profundas – e dados insuficientes – é muito caro e não é necessariamente útil coletar amostras de qualquer tipo por toda parte.

A mudança climática também torna o aprendizado de máquina muito mais valioso: muitos dados disponíveis para os cientistas não são mais precisos, pois os animais mudam de habitat, as temperaturas aumentam e as correntes mudam. À medida que as espécies se movem, o manejo de populações se torna ainda mais crítico.

A baleia franca do Atlântico Norte, ameaçada de extinção, cuja população caiu para cerca de 400, é um animal que pode se beneficiar de um monitoramento tecnologicamente mais avançado: provavelmente por causa do aquecimento das temperaturas, essas baleias se mudaram para o norte de seu habitat tradicional do Golfo do Maine para o Golfo de São Lourenço no Canadá. Coincidir com essa mudança é o que a NOAA chamou de “evento incomum de mortalidade”, no qual se sabe que 30 baleias morreram desde 2017 – 21 no Canadá e 9 nos Estados Unidos – a maioria devido a ataques de navios ou emaranhados em equipamentos de pesca.

As baleias francas do Atlântico Norte, como esta mãe e filhote, se mudaram para o norte, e mais delas estão morrendo.

Para proteger as baleias, os cientistas precisam saber onde estão, o que o Charles Stark Draper Laboratory e o New England Aquarium estão fazendo no que chamam de “contar baleias do espaço”. Tomando dados de satélites, sonar, radar, avistamentos humanos, correntes oceânicas e muito mais, eles estão treinando um algoritmo de aprendizado de máquina para criar um modelo de probabilidade de onde as baleias podem estar. Com essas informações, as autoridades federais, estaduais e locais podem tomar decisões sobre rotas de navegação e velocidades e pesca mais rapidamente, ajudando-as a proteger melhor as baleias, de acordo com Sheila Hemami, diretora de desafios globais da Draper.

Muitas populações de peixes também estão se movendo ou estão com sobrepesca ou se aproximando, e grande parte dessa pesca é feita ilegalmente. Em um esforço para conter as atividades ilegais e manter as populações em níveis saudáveis no oceano, o Google também ajudou a iniciar o Global Fishing Watch, uma organização que monitora a pesca em todo o mundo coletando.

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Coronavírus: vírus se espalha. Aumenta o número de mortos

Dentro do laboratório Nos EUA desenvolvendo uma vacina contra o coronavírus

O número de mortos pelo surto de coronavírus aumentou para 170, e um caso confirmado no Tibete significa que atingiu todas as regiões da China continental.

As autoridades de saúde chinesas disseram que havia 7.711 casos confirmados no país em 29 de janeiro.

As infecções também se espalharam para pelo menos 15 outros países.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está novamente se reunindo em Genebra para considerar se o vírus deve ser declarado uma emergência de saúde global.

Vários países implementaram planos de evacuação e quarentena para os cidadãos que desejam retornar da China, onde o surto começou na cidade de Wuhan.

A Rússia decidiu fechar sua fronteira do leste com 4.300 km (2.670 milhas) com a China, na tentativa de impedir o contágio.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, nomeou Alemanha, Vietnã e Japão, como lugares onde as pessoas pegaram o vírus de outras pessoas que visitaram a China.

“Embora os números fora da China ainda sejam relativamente pequenos, eles têm o potencial de um surto muito maior”, disse ele, acrescentando que a transmissão humano a humano é uma preocupação.

Agora, mais pessoas foram infectadas na China do que durante o surto de Sars no início dos anos 2000, mas o número de mortos permanece muito menor. Sars, também um coronavírus, causou doenças respiratórias agudas.

Os pesquisadores estão correndo para desenvolver uma vacina para proteger as pessoas do vírus. Um laboratório na Califórnia tem planos para que uma vacina em potencial entre em testes em humanos em junho ou julho.

O que há de mais recente em evacuações?

As evacuações voluntárias de centenas de estrangeiros de Wuhan estão em andamento para ajudar as pessoas que querem deixar a cidade fechada e retornar aos seus países.

Espera-se que Reino Unido, Austrália, Coréia do Sul, Cingapura e Nova Zelândia coloque todos os evacuados em quarentena por duas semanas para monitorá-los quanto a sintomas e evitar qualquer contágio.

  • Britânicos em Wuhan voltam para casa na sexta-feira

A Austrália planeja colocar em quarentena seus evacuados na Ilha Christmas, a 2.000 km (1.200 milhas) do continente, em um centro de detenção que foi usado para abrigar requerentes de asilo.

The Costa Smeralda cruis ship, seen at port in CivitavecchiaImage copyright REUTERS
O navio Costa Smeralda, com 6.000 pessoas, está preso no porto perto de Roma

Cingapura está instalando uma instalação de quarentena em Pulau Ubin, uma ilha a nordeste do continente da cidade-estado.

Seis mil pessoas a bordo de um navio de cruzeiro na Itália foram impedidas de desembarcar depois que um passageiro chinês era suspeito de ter coronavírus; no entanto, os testes iniciais voltaram como negativos
Os vôos para tirar cidadãos britânicos e sul-coreanos de Wuhan foram adiados depois que permissões relevantes das autoridades chinesas não foram aprovadas.
Dois vôos para o Japão já pousaram em Tóquio. Até agora, três passageiros testaram positivo para o vírus, informou a mídia japonesa
Cerca de 200 cidadãos dos EUA foram levados de Wuhan e estão isolados em uma base militar na Califórnia por pelo menos 72 horas.
Duas aeronaves devem levar cidadãos da UE para casa, com 250 franceses saindo no primeiro voo
A Índia confirmou seu primeiro caso do vírus – um estudante no estado de Kerala, no sul, que estudava em Wuhan.

Japanese aircraft at Tokyo airportImage copyright AFP
Primeiro vôo do Japão com evacuados chegou na quarta-feira

Como a China está lidando com o surto?

Embora tenham sido levantadas questões sobre transparência, a OMS elogiou o tratamento da China pelo surto. O presidente Xi Jinping prometeu derrotar o que ele chamou de vírus do “diabo”.

A província central de Hubei, onde quase todas as mortes ocorreram, está em estado de confinamento. A província de 60 milhões de pessoas abriga Wuhan, o coração do surto.

A cidade foi efetivamente isolada e a China adotou inúmeras restrições de transporte para conter a propagação do vírus.

Woman wearing a face maskImage copyrightGETTY IMAGES
A OMS alerta que o vírus tem potencial para um surto muito maior

As pessoas que estiveram em Hubei também estão sendo instruídas por seus empregadores a trabalhar em casa até que seja considerado seguro retornar.

O vírus está afetando a economia da China, a segunda maior do mundo, com um número crescente de países aconselhando seus cidadãos a evitar todas as viagens não essenciais ao país

Várias companhias aéreas internacionais pararam ou reduziram suas rotas para a China e empresas como Google, Ikea, Starbucks e Tesla fecharam suas lojas ou interromperam suas operações

Houve relatos de escassez de alimentos em alguns lugares. A mídia estatal diz que as autoridades estão “intensificando os esforços para garantir fornecimento contínuo e preços estáveis”.

A Associação Chinesa de Futebol anunciou o adiamento de todos os jogos nos anos 2020.

Coronavirus cases have spread to every province in China. There are now 7711 cases compared to 291 on 20 Jan. Hubei province has more than 4500 cases.
Presentational white space

Quem foi afetado?

Embora tenha havido quase 8.000 infecções, poucas informações detalhadas foram divulgadas sobre os perfis dos pacientes e como a doença os afeta.

A maioria dos casos confirmados envolve pessoas de Wuhan ou que tiveram contato próximo com alguém que esteve lá.

Um novo estudo publicado pela revista médica The Lancet mostra instantaneamente 99 casos do novo coronavírus observado no Hospital Wuhan Jinyintan, de 1 a 20 de janeiro. Revela:

  • Dos 99, 49 haviam sido expostos ao mercado de frutos do mar e animais que se acredita estar no centro do surto.
  • A idade média foi de 55,5 anos e a maioria (67) era do sexo masculino
    Febre e tosse foram os sintomas mais comuns.
  • Dezessete pacientes desenvolveram síndrome do desconforto respiratório agudo e 11 deles morreram por falência de múltiplos órgãos; 31 dos 99 foram liberados do hospital em 25 de janeiro.
  • Os pesquisadores disseram que a infecção parece ter “maior probabilidade de afetar homens mais velhos” com condições médicas adicionais.
  • Dos 99, 51 sofriam de uma condição crônica (principalmente cardiovascular ou cerebrovascular)