“Barões evangélicos são parceiros de projeto ultraconservador de Bolsonaro”, diz pastor

Ronilso Pacheco, da Comunidade Batista de São Gonçalo, afirma que política e religião sempre se misturam, mas que é “melhor fazer opção que contribua para os direitos humanos”.

Bolsonaro e Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e aliado do presidente

As igrejas evangélicas poderosas, que dispõem de presença na mídia e influência política , são hoje parceiras de um projeto “ultraconservador” do governo Jair Bolsonaro, que nega direitos e explora a fé dos mais pobres. Os “barões da fé”, porém, não representam a totalidade do público evangélico, e parte desses fiéis adota no seu cotidiano práticas de acolhimento e respeito das diferenças, na opinião do teólogo Ronilso Pacheco.

Nascido em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, Pacheco é pastor auxiliar da Comunidade Batista na sua cidade e ativista de direitos humanos. Autor do livro Ocupar, Resistir, Subverter: Igreja e teologia em tempos de racismo, violência e opressão, é hoje  pesquisador da Fundação Ford e está terminando o mestrado em teologia na Universidade Columbia, em Nova York.

Em entrevista à DW Brasil, Pacheco afirma que o vínculo entre igrejas evangélicas e a atuação política conservadora no país data da sua fundação, no século 19, por americanos brancos e racistas que perderam a Guerra da Secessão, migraram ao Brasil em missão evangelizadora e se aproximaram das elites locais. O vínculo com o poder fortaleceu-se na ditadura, consolidou-se na democracia e atingiu maior radicalismo sob Bolsonaro.

“Há um conglomerado dos barões da fé, parceiros de um projeto ultraconservador e fundamentalista, negador de direitos e que se recusa ao diálogo interreligioso. São parceiros de um projeto de poder que exclui os pobres, explorador da fé dos pobres”, afirma Pacheco. Segundo ele, a atuação desses setores da igreja só é possível “traindo” a história de Jesus Cristo registrada na Bíblia, como alguém resistente à hierarquia do poder e movido pela missão de “destituir os poderosos, tirar a riqueza dos ricos e dar aos pobres”.

Pacheco identifica uma novidade na relação entre o que chama de igreja evangélica hegemônica e o poder sob a gestão Bolsonaro. Além dos tradicionais parlamentares da bancada evangélica, que buscam prestígio e espaço para as suas igrejas, houve a chegada de líderes religiosos interessados em fazer uma “guerra cultural” para influenciar a construção da identidade da sociedade brasileira.

São representantes desse movimento no governo o ministro da Educação, Milton Ribeiro, pastor presbiteriano calvinista, o ministro da Justiça, André Mendonça, pastor presbiteriano, e a ministra Damares Alves, “uma evangélica pentecostal fundamentalista e ultraconservadora na condução de direitos humanos”, diz Pacheco. “Tudo atravessado pela afirmação de uma supremacia cristã conservadora”.

Ele afirma, porém, que há na comunidade evangélica muitos exemplos de igrejas e pessoas que, por mais que não se identifiquem com a agenda de partidos de esquerda, adotam práticas progressistas no seu dia a dia. Para Pacheco, um “esforço metodológico e pedagógico” e uma abordagem “afetiva” poderia aproximar mais os evangélicos de agendas como direitos LGBT, liberalização de drogas e legalização do aborto.

“Política e religião, queira ou não, sempre se misturam. Por isso, é melhor reconhecer isso e fazer uma opção que contribua para uma política que respeite os direitos humanos e a liberdade”, diz.

DW Brasil: Qual é o papel da religião na esfera pública?

Ronilso Pacheco: No contexto da América Latina e do Brasil, tem um papel fundamental para a formação da identidade da sociedade e da tradição popular. A religião serve como uma espécie de pano de fundo e orientadora de decisões, e pode ser determinante para legitimar ou deslegitimar uma determinada política.

Isso não se choca com a laicidade do Estado?

Não, pois laicidade do Estado não é a neutralização da presença da religião, mas a harmonia e o diálogo entre diferentes expressões religiosas. O que fere a laicidade do Estado é a perspectiva de superioridade de uma determinada religião em detrimento da outra, o que tem sido um pouco a nossa tradição.

Religião e política devem se misturar?

A ideia da separação entre religião e política tem muita influência da perspectiva iluminista, da idade da razão, europeia, onde essas distinções são bem marcadas. Mas não faz sentido, por exemplo, se levarmos em consideração a sociedade indígena, que tem uma forma de viver a política indissociável da perspectiva transcendental. Também é impossível separar o que é a vida política da perspectiva religiosa em algumas sociedades do continente africano.

Mesmo em contextos em que se prega um distanciamento entre a religião e a política, a perspectiva religiosa já se impregnou de maneira decisiva na política. A religião é um pano de fundo da perspectiva constitucional e da organização da sociedade. E também da perspectiva de luta e resistência, de pensar em alternativas. Nos assentamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) ou do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) há uma religiosidade forte, com ênfase na mística.

O movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos é indissociável de grandes lideranças das igrejas, principalmente das igrejas negras. Na América Latina não é diferente, se você pensar nos conflitos no Peru ou na Colômbia, e o papel que as igrejas têm de acolher e organizar a comunidade.

Política e religião, queira ou não, sempre se misturam. Por isso, é melhor reconhecer isso e fazer uma opção que contribua para uma política que respeite os direitos humanos e a liberdade, do que tentar fazer com que isso seja dissociável.

Ronilso Pacheco é pastor auxiliar da Comunidade Batista de São Gonçalo, pesquisador e ativista de direitos humanos

Você mencionou o MST e o MTST, que são movimentos de esquerda. Ao mesmo tempo, há movimentos e partidos de direita e extrema-direita vinculados a igrejas. A Bíblia abrange essas duas perspectivas ou é questão de interpretação?

Não é uma questão de interpretação, é uma questão de escolha das histórias que você quer dar ênfase. A Bíblia contém diversas narrativas sobre como Deus interage com as pessoas, ou como os povos interagem com Deus. Ambas [as perspectivas políticas] se expressam na Bíblia, ali há o contexto do mundo real, marcado por pessoas solidárias mas também por déspotas, marcado por traidores e gente muito violenta, mas também por gente disposta a lutar por justiça.

Se você escolhe dar ênfase às histórias do Novo Testamento, às histórias de Jesus, não há crises de interpretação. Ao contrário, você é confrontado em como as opções de algumas lideranças [religiosas] são traidoras da memória de Jesus que está nos Evangelhos.

Não é passível de interpretação que Jesus foi acolhedor, alimentando a multidão e estimulando a partilha. Não é a questão de interpretação como Jesus foi resistente à ideia de superioridade, de uma hierarquia de poder. No Evangelho de Lucas, Jesus fala que veio para libertar os cativos, para acolher os pobres. Não é passível de interpretação a fala de Maria, quando está grávida de Jesus e diz como que ele seria, de maneira bem expressa: ele virá para destituir os poderosos, tirar a riqueza dos ricos e dar aos pobres. A única maneira de burlar isso não é interpretação, é você trair essa memória.

Agora, você pode voltar ao Antigo Testamento e escolher, por exemplo, quando o povo de Israel invadiu um determinado território e assassinou seus habitantes para tomar conta dele. Você pode escolher usar isso para legitimar uma pretensão de poder. Mas as histórias em que Jesus está envolvido não são passíveis de interpretação, e são diferentes de qualquer perspectiva de superioridade e dominação.

Por que a igreja evangélica é hoje predominantemente identificada com a direita?

Eu diria que é a igreja hegemônica [evangélica]. Eles têm tanto poder comunicacional, um império de mídia, que tomam conta da noção sobre o que é a identidade e a estratégia evangélica. Há um conglomerado dos barões da fé, parceiros de um projeto ultraconservador e fundamentalista, negador de direitos e que se recusa ao diálogo interreligioso. São parceiros de um projeto de poder que exclui os pobres, explorador da fé dos pobres.

Esse grupo acabou se tornando um rosto do que seria a igreja evangélica no Brasil, mas a igreja evangélica é muito maior e mais complexa que isso. Ela está presente de maneira cotidiana nas periferias das cidades. E, sem se olhar no espelho e dizer “sou progressista”, sua prática diária está mais direcionada a agendas progressistas, no sentido do acolhimento, da solidariedade social, do respeito à diversidade, porque está numa periferia com uma complexidade de pertencimentos.

Não que não existam igrejas e lideranças ultraconservadoras a fundamentalista nas periferias. Mas não diria que isso é a igreja evangélica no Brasil, pois seria desonesto com muitos esforços no território nacional, desde nas comunidades evangélicas do sertão a igrejas importantes nos grandes centros urbanos, que fazem um caminho completamente diferente, inclusive pagando um alto preço por isso.

Como se deu a aliança entre a igreja evangélica hegemônica e a direita? Há paralelos com o que ocorreu nos Estados Unidos?

Os paralelos são muitos. A presença evangélica no Brasil tem uma herança do universo evangélico conservador dos Estados Unidos. A formação da nossa igreja evangélica se dá com uma imigração significativa de evangélicos cristãos do sul dos Estados Unidos, que perdem a Guerra de Secessão [1861-1865] e vão fazer missões no Brasil. Eles têm um projeto de evangelismo, conquistar territórios, povos, converter almas, abrir novas igrejas. E é um um projeto profundamente conservador, inclinado à escravidão como parte da economia. É uma igreja que cresce associada à perspectiva elitista e de poder. Claro que há fissuras, mas há essa influência.

No início do século 20, sobretudo com a ampliação do campo pentecostal, mais ligado à Assembleia de Deus, eles constroem uma relação com governadores, presidentes, e isso se intensifica durante a ditadura militar. Há um apoio forte à ditadura de algumas igrejas, como as convenções da Assembleia de Deus. Essa parceria atravessa a ditadura e entra na redemocratização. O [deputado] Mateus Iansen, da Assembleia de Deus, foi o autor da emenda que permitia a prorrogação do mandato de José Sarney de quatro para cinco anos. Em seguida, foi beneficiado com uma concessão de rádio. Tudo isso para dizer que estamos falando de uma longa jornada, não é algo do governo Bolsonaro.

O que há de novo na aproximação de parte da igreja evangélica com a extrema direita de Trump e Bolsonaro?

Nos Estados Unidos, há uma convicção do nacionalismo cristão de que ele deve pautar a identidade nacional. Há um mito, sobretudo entre os evangélicos brancos do sul dos Estados Unidos, que eles foram um vencedor moral da Guerra de Secessão, pois têm os valores mais nobres, respeitam os valores cristãos, têm amor à Bíblia e à família. A extrema direita nos Estados Unidos foi construída a partir desse nicho.

No Brasil, se for apontar algo novo, é a maneira como o grupo neocalvinista e calvinista conservador conseguiu fazer parte desse governo [Bolsonaro] de uma maneira significativa, dando outro tom para a atuação da extrema direita. Se já tínhamos a forma mais tradicional dessa influência com a bancada evangélica, com políticos que vêm de longas décadas e têm o objetivo de manter seu poder e influência, o grupo neocalvinista e calvinista conservador traz outro elemento, conectado com o que acontece nos Estados Unidos: assumir uma guerra cultural. Mais do que ter poder e recursos para sua igreja, é como influenciar na construção da identidade da sociedade brasileira. Então a disputa está na educação, na cultura.

Por isso, mais do que tomar conta do Legislativo, o importante é fazer as disputas certas nesses lugares e estar na área da educação, na área da cultura, na Suprema Corte, para construir uma identidade cultural que marque a supremacia cristã conservadora. O governo Bolsonaro deu espaço a essa investida, surgiu a oportunidade de não ter vergonha de assumir que a disputa é por uma supremacia cristã. Há a volta do discurso da cristofobia e um presidente que verbaliza isso, inclusive na ONU.

Há postos-chave do governo ocupados por nomes que se orientam por essa lógica. Você tem um pastor presbiteriano calvinista no Ministério da Educação [Milton Ribeiro], um pastor presbiteriano no Ministério da Justiça [André Mendonça], um católico ultraconservador no Ministério das Relações Exteriores [Ernesto Araújo] e uma evangélica pentecostal fundamentalista e ultraconservadora na condução de direitos humanos [Damares Alves], fazendo a disputa do que é direitos humanos e do que não é direitos humanos. Tudo atravessado pela afirmação de uma supremacia cristã conservadora, indiferente ao debate da tolerância e do diálogo interreligioso.

Qual é a representatividade da visão progressista hoje na igreja evangélica?

É um número muito significativo, mas conceituo o evangélico progressista de maneira mais aberta. Se você perguntar se ele é progressista, ele provavelmente vai dizer que não, ou que não sabe o que é isso. Me oriento mais pela prática e pela ética de movimentos e grupos de pessoas do que propriamente um compromisso com uma agenda.

Há muitas comunidades importantes em várias localidades, sobretudo nas periferias. Como por exemplo a Igreja Batista do Pinheiro, que fica em Maceió e foi expulsa da Convenção Batista Brasileira porque passou a aceitar casais homoafetivos na sua congregação e dar a eles o direito de participar da liturgia do culto. Há evangélicos fazendo isso sem alarde, que são acolhedores com o povo LGBTQI+. Há comunidades que têm relação de amizade com lideranças religiosas de outras tradições, como de matriz africana, à revelia dos ataques diários sofridos por muitos terreiros. Essa rede de solidariedade está além dos debates, por exemplo, sobre o aborto. Quando a realidade do aborto chegar, a comunidade vai pensar no que fazer. Ela não está dentro de um debate de legalizar ou não legalizar o aborto.

E como avalia a relação atual entre os partidos políticos de esquerda e centro-esquerda com o público evangélico?

Esse grupo ainda está meio perdido. As derrotas têm sido sucessivas, e há impossibilidade de comunicar e construir alternativas desde o fim da era Lula. No primeiro mandato Lula, houve uma participação mais expressiva de evangélicos progressistas.

Também tem um pouco de uma mentalidade iluminista da esquerda, no sentido de ser dona da razão, de saber propor e apontar os caminhos, de decidir o que é melhor na disputa pelos direitos humanos. Ou de empurrar determinadas agendas que são difíceis de entender, se você não gastar tempo em como tornar aquilo acessível e mostrar que é importante para a sociedade.

O campo progressista de esquerda está com muito receio desse diálogo, há muito pisar em ovos, mas está aberto a aprender que caminhos podem ser construídos.

O campo progressista tem chance de ampliar seu apoio entre os evangélicos se continuar defendendo pautas como direitos da comunidade LGBT e liberalização das drogas e do aborto, ou teria que reduzir o apoio a esses temas?

Não tem como como reduzir o apoio, porque essa é a identidade progressista, são agendas das quais não se pode abrir mão. É muito mais como pensar em como fazer isso ser compreendido e importante no dia a dia.

Alguns lidam com isso na realidade do dia a dia, como em relação à liberação das drogas. Há pessoas que perderam o filho, vizinhos, parentes, amigos. Mas não é imaginar que você vai fazer uma cartilha sobre a liberação das drogas com uma linguagem voltada para o público evangélico e isso vai resolver o problema de comunicação. Precisa estar vinculada à construção de uma relação afetiva.

O campo fundamentalista conservador tem uma aproximação em uma linguagem mais afetiva, e o campo progressista tem uma linguagem mais estética. E, às vezes, a estética não comunica. Precisa de um esforço metodológico e pedagógico de se aproximar e aderir às diversas camadas da comunidade e de fazer com que uma agenda seja compreendida. A mesma coisa com relação à questão do aborto e à questão LGBT.

Os superpoderes da Anajure, a associação de juristas evangélicos que quer um Brasil teocrático

Os superpoderes da Anajure, a associação de juristas evangélicos que quer um Brasil teocrático
Com apoio de Bolsonaro, entidade fundada por Damares tem influência decisiva na Defensoria Pública, no MEC e no Itamaraty.

Bolsonaro recebe em seu gabinete o defensor público-geral da União, Daniel Pereira, indicado pela Anajure. Foto: Reprodução

A DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO, órgão federal que presta assistência jurídica gratuita aos mais pobres, mudou a maneira como escolhe seu chefe após a chegada do bolsonarismo. Antes, os defensores públicos elegiam uma lista tríplice e a submetiam ao presidente da República, que obrigatoriamente deveria escolher um dos três nomes. Mas uma nova etapa foi introduzida nesse processo seletivo. Agora, os candidatos precisam passar pelo crivo de uma entidade representativa dos evangélicos, a Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), cuja fundação contou com a presença da ministra Damares Alves, que ocupou o cargo de diretora de Assuntos Legislativos no Conselho Diretivo Nacional da entidade.

Os três candidatos da lista tiveram que passar por uma sabatina terrivelmente evangélica promovida pela entidade. Essa sabatina, claro, não faz parte oficialmente do processo de escolha do novo chefe da DPU, mas isso não importa. O bolsonarismo não trabalha com esse tipo de formalidade. A chancela evangélica virou algo tão fundamental, que todos os três candidatos fizeram questão de participar e demonstrar alinhamento ideológico à turma. Após entrevistar os candidatos, a Anajure escolheu Daniel Macedo Pereira, o segundo da lista, e enviou um ofício ao presidente da República fazendo a recomendação. Bolsonaro acatou prontamente. A Anajure discorda que tenha “simbiose com o governo federal” ou “pretensões de aparelhamento estatal”, conforme nota enviada ao Intercept em resposta a esta coluna (leia a nota na íntegra abaixo).

Uma reportagem da Piauí deste mês contou em detalhes como funciona o lobby evangélico comandado pela Anajure e o alcance do seu poder dentro do governo Bolsonaro. Nesse ofício enviado ao presidente, fica claro que o principal critério de escolha dos juristas evangélicos para chefiar a DPU foi a defesa intransigente “do direito à vida desde a concepção” — a velha obsessão com o aborto. Informaram o presidente que Daniel Macedo tinha se comprometido a criar “um grupo de trabalho em defesa dos direitos do nascituro”. A DPU é um órgão que historicamente apoia mulheres em situação de risco que, muitas vezes, recorrem ao aborto legal. Esse é o principal motivo da predileção da Anajure pelo aparelhamento do órgão.

O grupo é tão obcecado com o tema aborto, que emitiu nota congratulando o presidente dos EUA pela escolha de uma juíza antiabortista para a suprema corte: “Dra. Barret é juíza de carreira, cristã, conservadora, mãe de sete filhos e defende que a vida deve ser protegida desde a concepção, posição que a Anajure tem defendido ao longo dos últimos anos.”

A Anajure tem cerca de 700 membros e não representa a totalidade dos evangélicos. É um grupo fundado por calvinistas, uma corrente evangélica que se difere das demais por entender que a cultura cristã deve se impor sobre a sociedade. A Anajure é controlada por líderes de igrejas conhecidas como protestantes históricas, principalmente a Presbiteriana, a Batista e a Metodista.

De acordo com o teólogo Ronilso Pacheco, “a diferença principal dos evangélicos calvinistas dos demais é sua compreensão de que o cristianismo deve reivindicar sua hegemonia sobre a cultura”. Nem todos os calvinistas pensam assim, mas esses grupos ligados a Bolsonaro, como a Anajure, pensam. Diferentemente dos neopentecostais, que são mais histriônicos e atuam de maneira ostensiva na política em defesa dos seus interesses, os calvinistas são mais discretos e silenciosos. Eles atuam nos bastidores não por cargos mais cobiçados, onde está o dinheiro, mas por cargos jurídicos nos quais valores morais são disputados, como é o caso da DPU, a PGR, a AGU e o STF. Enquanto a opinião pública se volta para a histeria de felicianos e malafaias, a Anajure vai silenciosamente pautando a esfera pública, aparelhando o judiciário e violando a laicidade do estado.

Os dois ministros da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro e o atual, André Mendonça, sempre tiveram boa relação com a Anajure e se tornaram figurinhas carimbadas nos eventos da entidade. Mendonça, que se tornou chefe da Advocacia Geral da União, a AGU com apoio da Anajure, era o nome preferido do grupo para assumir a última vaga no STF. Dessa vez, porém, Bolsonaro não seguiu a tropa evangélica e escolheu Kassio Nunes Marques, que não come na mão da turma.

uzi-anajureEx-ministro Sérgio Moro recebendo carta de apoio ao projeto anticrime das mãos do diretor executivo da Anajure, Uziel Santana. Foto: Divulgação/Anajure
Apesar de contrariá-los com a decisão, o presidente fez questão de mandar um afago: “A segunda vaga, em julho do ano que vem, com toda certeza, mais que um terrivelmente evangélico, se Deus quiser nós teremos lá dentro um pastor”. Detalhe: André Mendonça, o nome dos sonhos da Anajure, é pastor da Igreja Presbiteriana. Há poucos meses, a Anajure já tinha feito um lobby muito bem sucedido para um outro pastor da Igreja Presbiteriana comandar um cargo importante. Me refiro a Milton Ribeiro, outra figurinha carimbada desse convescote evangélico, que foi escolhido por Bolsonaro para comandar o MEC.

A Anajure tem uma máquina articulada criada para difundir seus valores e encontrar meios de boicotar a laicidade do estado.
Para ser escolhido como procurador-geral da República, Augusto Aras teve que beijar a mão da Anajure. Além de ser o único candidato a assinar a carta de princípios enviada pela entidade, Aras chegou a telefonar para o presidente da Anajure para confirmar seu alinhamento ideológico. Ao assinar a carta de princípios, Aras concordou que “a instituição familiar deve ser heterossexual e monogâmica, as doutrinas religiosas não podem ser enquadradas como discurso de ódio e todo homossexual deve ter liberdade para tornar-se paciente em tratamento de reversão sexual”.

Além de avançar sobre a área jurídica, a Anajure exerce forte influência sobre o Itamaraty. Não é de hoje que a entidade demonstra interesse em alçar voos internacionais em defesa do cristianismo que, segundo eles, é perseguido no Brasil e no mundo. Graças ao seu poderoso lobby, a Anajure se tornou a primeira entidade de juristas evangélicos a ter assento na Organização dos Estados Americanos (OEA), que conseguiu graças ao diálogo que manteve com o governo Dilma. A bandeira que ela diz defender nesses avanços internacionais é a da liberdade religiosa, mas, na prática, trata-se de uma luta pela hegemonia cultural dos valores cristãos sobre o mundo. Um diplomata com mais de duas décadas de carreira ouvido pela reportagem da Piauí afirmou: “A gente passa vergonha o tempo todo. Essa bandeira de liberdade religiosa não traz ganho objetivo nenhum, não amplia comércio, não produz nada. É algo que só funciona no campo da ideologia, da representação.”

O Itamaraty agora tem ajudado a Anajure no lobby diplomático por uma vaga no Comitê sobre ONGs da ONU, que ainda não foi conquistada graças às objeções levantadas pela China. Antes de aprovar a entrada do grupo, os chineses pediram explicações sobre as atividades exercidas por ela em países como Portugal, EUA e Jordânia.

Além da sua influência sobre o governo Bolsonaro, a Anajure tem uma máquina articulada criada para difundir seus valores e encontrar meios de boicotar a laicidade do estado. A Academia Anajure, criada há três anos, oferece um curso de “cosmovisão cristã” para estudantes e bacharéis em direitos. Em um dos textos do grupo sobre o assunto, há conceitos bizarros do ponto de vista jurídico, que colocam o cristianismo como o único caminho para a justiça entre os homens:

“Por que é tão importante ter uma cosmovisão cristã? Porque o cristianismo nos dá um mapa para a realidade, um esboço do mundo do jeito que ele realmente é: a ordem moral e física de Deus.”

“No caso do Direito, especificamente, somente a cosmovisão cristã pode erigir um sistema de justiça, igualdade e dignidade da pessoa humana.”

Na sede em Brasília, a Anajure tem um sistema que monitora todas os Diários Oficiais dos três poderes e as publicações de partidos e movimentos que eles consideram anticristãos. Segundo a reportagem da Piauí, um software vigia pemanentemente 600 sites e produz relatórios diários. Toda vez que o software detecta a publicação de uma palavra-chave considerada uma ameaça para os valores cristãos, a equipe jurídica do grupo é acionada. Eles não estão pra brincadeira.

Como se vê, a Anajure não é simplesmente uma entidade de juristas evangélicos em defesa da liberdade religiosa e dos interesses do seu grupo religioso, o que seria legítimo. Essa é só a fachada. Na realidade, trata-se de um lobby religioso poderoso, de caráter fundamentalista, que tem como objetivo impor seus valores ao conjunto da sociedade aparelhando o Judiciário e pisoteando a laicidade do estado. O avanço da entidade sobre os órgãos públicos é gravíssimo e, de pouquinho em pouquinho, vai se desenhando a formação de um estado teocrático.

Esclarecimento, 29/10, 15h16:

Em resposta ao Intercept, a Anajure alega que Damares não é uma fundadora do grupo por não ter assinado a ata de fundação. Essa informação estava no nosso texto. A ministra esteve presente na cerimônia de fundação e foi homenageada na ocasião. Diversas publicações na imprensa, como esta, esta, esta e esta, tratam Damares como fundadora da Anajure. Por meio de nota, a Anajure afirma que Damares “apenas manifestou apoio e esteve presente na solenidade de lanc?amento da associac?a?o, em 2012. Por breve peri?odo de tempo, ela chegou a ocupar o posto de li?der departamental de assuntos legislativos , cargo posteriormente deixado. Tais elementos, no entanto, na?o a caracterizam como membro fundadora, na?o sendo possi?vel lhe imputar a responsabilidade pela idealizac?a?o, articulac?a?o e conduc?a?o dos trabalhos iniciais executados pela Anajure.” O Intercept reformulou a frase.

Correção, 29/10, 15h16:

Diferentemente do publicado, a Anajure não é formada exclusivamente por calvinistas. Ela foi fundada por três advogados calvinistas, mas hoje é formada por diferentes vertentes teológicas, segundo a própria entidade. O texto foi atualizado.

“Você queimará no inferno!”: O caso do professor condenado por ensinar a teoria de Darwin

Há 95 anos, o professor de biologia John Thomas Scopes foi preso e acusado de ter ensinado “uma teoria que nega a história da Criação Divina do Homem, conforme explicado na Bíblia”.

O processo foi um escândalo e eles chamaram de “The Monkey Trial“. Foi uma batalha entre fé e ciência, quatro séculos após os incêndios da Inquisição e quase três séculos após a punição de Galileu Galilei.

John Thomas Scopes era um professor de biologia de 24 anos que queria ensinar aos alunos a teoria de Darwin em 1925 (Wikipedia: Smithsonian Institute)

“Quem cria perturbações em sua casa herdará o vento, e o tolo se tornará servo dos sábios de coração” (Livro de Provérbios 11:29, palavras do rei Tiago)

Como todos os dias em junho, Dayton, Tennessee, duas mil almas, acordaram naquela segunda-feira em 1925, envoltas em um vapor de chumbo derretido.

Às dez da manhã, o professor John Thomas Scopes, de 24 anos, professor de biologia, álgebra, química e física, exibiu uma imagem mostrando a evolução no quadro de sua sala de aula na Rhea Country Central High School, do homem de um pequeno macaco que se arrastava em seus quatro membros para um espécime maior, ereto e errante, de semelhança evidente e indiscutível com um ser humano.

Mesmo assim, semelhante a qualquer um dos habitantes de Dayton, embora muitos deles, a partir daquele dia, parecessem duvidosamente homo sapiens. Especialmente para a segunda palavra …

Quase sete décadas antes, em 1859, o cientista e naturalista inglês Charles Robert Darwin (1802–1889) sacudiu a colméia humana com seu livro A Origem das Espécies, que postulava evolução e seleção natural – adaptação ao ambiente, sobrevivência da natureza. mais forte – como uma chave para o quanto o ser vivo nasceu, cresceu, se reproduziu e morreu no planeta Terra.

Inconscientemente, os inocentes escopos naquela manhã violaram a Lei Butler, que considerava “ilegal em qualquer estabelecimento educacional no estado do Tennessee qualquer teoria que negasse a história da Criação Divina do Homem, conforme explicado na Bíblia, e a substituísse pela ensinando que o homem descende de uma ordem inferior de animais “.

Três dias depois, Scopes estava na prisão e o banco do acusado estava esperando por ele. Mas ninguém, no desconhecido Dayton e no mundo, imaginou que essa classe e aquela imagem eram o começo de um furacão.

O julgamento colocou dois advogados importantes: William Jannings Bryan, três vezes candidato à presidência – e um fanático religioso – na acusação, e uma estrela do seu tempo, Clarence Darrow, na defesa, notória por suas vitórias sobre casos perdidos anteriormente. Quase um mito do fórum.

O julgamento começou em 10 de julho de 1925 sem que o verão brutal desse trégua. Já em tribunal, e contra os rígidos costumes da época, os dois advogados obtiveram permissão do juiz do caso, John Raulston, para remover seus casacos e receber, do preguiçoso e antigo ventilador de teto, uma lâmina de ar …

O Juiz que enfrentou outro problema inicial e não um problema menor. Apoiado, como quase todas as pessoas, William Bryan, concedeu a ele o título de coronel honorário da milícia local. O que menos para o cavaleiro cruzado que defenderia a Palavra Sagrada contra o ateísmo diabólico semeado por Scope na sala de aula e nas almas de seus alunos?

É claro que Darrow protestou:

–Por que esse privilégio? Para o júri e o público, o “coronel” Bryan é alguém superior ao seu rival. Aumenta, ao mesmo tempo que diminui minha figura.

O juiz hesitou por alguns minutos antes da discussão irrefutável e retirou da galeria a lenda do rei Salomão e das duas mulheres que alegavam ser criança:

-Bem. Então, à minha direita, também nomeio Coronel Honorário da milícia local … Advogado Darrow!

E reinou (embora por pouco tempo), a paz …

Lá fora, enquanto isso, as ruas e praças se tornaram um circo. Os gritos dos vendedores de sorvete e limonada foram confundidos com as hosannas e aleluias dos místicos, os insultos contra Scopes e Darrow … “enviados do diabo!”, Os cânticos religiosos em coro e a agitação de pôsteres com macacos pintados de forma grosseira. e a lenda “Este não é meu pai”. Alguém até se atreveu a andar enjaulado, um pobre macaco açoitado pelos gritos e pelo calor …

Dadas as notícias incomuns – não havia esse antecedente na história do país -, um jornal de Nova York nomeou um enviado especial para escrever sobre o caso e transmitir por telefone cada instância do processo, que do outro lado do país. e conectada a um alto-falante, alcançou o público – cada vez mais numeroso – reunido na rua.

Até então, o caso Scopes, já batizado e entrando na história como “O Julgamento do Macaco”, era uma guerra sem um possível armistício entre aqueles que acreditavam serem filhos da evolução e os criacionistas, que se recusavam a admitir que haviam partido ” de um lago imundo, um caldo fedorento de insetos e vermes, e não das mãos doces de Deus, nosso senhor ”, como uma das testemunhas se ouviu dizer.

Em 10 de julho de 1925, o julgamento começou com o advogado William Bryan – sentado no centro atrás dos microfones – e com o réu John Thomas Scopes.

Na realidade, o julgamento foi uma farsa, uma armadilha armada para derrotar Darrow, “o maior ateu do país” (um novo título adquirido durante os debates) e demonizar o mestre com faixas furiosas: “Escopos, você queimará no inferno!” .

O juiz foi um cúmplice absoluto dos criacionistas. Proibiu a aparência de cientistas, biólogos, geólogos e todos os especialistas apresentados pela defesa, enquanto a multidão – trezentos por dentro, mais de mil por fora – aplaudia o nome de Deus.

Mas Darrow, também um defensor dos pobres, trabalhadores, homossexuais, vítimas do poder, levou seu último ás na manga:

–”Muito bem, Bryan.” Então vamos jogar em seu campo.

E, para surpresa de todos, ela o chamou para o stand.

–Você é especialista na Bíblia?

–Absolutamente. Eu conheço cada uma de suas palavras.

–Em caso de dúvida, o que você faz?

–Pergunto ao Senhor, e ele me responde.

–Senhores … Deus fala com Bryan! Eu apresento a você o profeta de Nebraska!

Houve algumas risadas …

– Tudo o que diz que a Bíblia deve ser interpretado literalmente?

-Assim é.

–(Mostrando lhe un objeto) Quantos anos tem essa pedra? A ciência diz que alguns milhões de anos …

–Não estou interessado na idade das rochas, mas na Rocha das Eras. Mas é impossível. Tem menos de seis mil anos, porque o bom bispo James Usher marcou a data da criação: 23 de outubro de 4004 aC às nove da manhã.

“Hora leste ou oeste?”

Mais risadas na sala.

– Aquele primeiro dia teve 24 horas?

–A Bíblia diz que foi um dia.

–Mas era impossível medir o tempo. Um dia de vinte e quatro horas, trinta, um mês ou milhões de anos?

-Não sei. Foram períodos.

– Eles poderiam durar muito tempo?

-Talvez…

Darrow viu a luz do triunfo. Ele perguntou a seu rival se era possível, de acordo com a Bíblia, que o sol tivesse parado.

–Se o Senhor queria que ele parasse, Ele parou.

“Mas, se o fizesse, os mares teriam enlouquecido e até as montanhas teriam colidido.” Como essa catástrofe escapou de você? Por que a Bíblia não menciona isso?

O duelo entre os dois advogados – amigos por muitos anos – continuou a favor de Darrow com perguntas sobre a lenda de Jonah e a baleia, o dilúvio universal e outros mistérios de resposta impossível. Em uma sala provisória, Bryan deixou o posto. Ele era diabético, comia com a fome de um náufrago e, já que para os criacionistas ele era o campeão de Deus na Terra, eles o convidavam para festas constantes e festas que agravavam sua condição.

O julgamento foi um escândalo e nas ruas as pessoas gritaram “Você queimará no inferno!”
Na terça-feira, 25 de julho de 1925, Scopes foi considerado culpado por um júri de maioria absoluta criacionista. Mas, na ausência de um registro – foi o primeiro caso desse teor – ele não foi para a prisão. Ele foi punido com uma multa de cem dólares, depois reduzido … para apenas um dólar. Com um final triste. Cinco dias depois, domingo, Bryan foi dormir e dormiu até a morte.

O caso era grande demais e atravessava fronteiras: nos últimos estágios do julgamento havia jornalistas europeus e norte-americanos. Era difícil entender uma luta semelhante entre fé e ciência … 472 anos após as primeiras fogueiras da Inquisição contra “hereges, feiticeiros, feiticeiros”, 292 do julgamento contra Galileu Galilei por apoiar a teoria de Copérnico (“A Terra gira em torno do Sol” ) e 242 dos vinte enforcados em Salem, Massachusetts, por “bruxaria e relações com Lúcifer”.

Scopes continuou a ensinar até sua morte em 1970. Ele foi enterrado na Louisiana com o rito católico à vontade de sua esposa e dois filhos. Porque esse era o paradoxo. Em Dayton, aquela pequena cidade do sul, nunca houve um conflito entre crentes e ateus antes. Todos, quase sem exceção, eram devotos do Senhor, além das nuances entre mórmons, testemunhas de Jeová, episcopalianos, adventistas etc. O próprio Scopes, o pelourinho de bode expiatório por exibir uma imagem da evolução, era cristão, assim como o grupo de estudantes que o defendiam e era marginalizado pelo fanatismo cego dos demais.

O que foi apenas um mal-entendido em uma cidade pequena, terminou em um grande grotesco, mesmo com episódios de violência: paus, pedras e punhos dos inimigos de Darwin – mesmo que oitenta por cento das almas de Dayton desconheciam sua existência – contra os “demônios” evolutivos.

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Arquitetura: Os mosteiros mais belos no inverno russo

Fundado em 1337, o Mosteiro da Trindade-São Sérgio está situado em Sérguiev Possad, a 70 km de Moscou. É considerado lar espiritual da Igreja Ortodoxa Russa e tem mais de 300 monges residentes.

Mosteiro Budista Shad Tchup Ling, fundado em 1995, no topo do Monte Katchkara, perto da cidade de Katchkanar, Montes Urais, a 1.707 km de Moscou.

O Mosteiro Belogorski está localizado a 85 km da capital regional de Perm. Devido ao clima, a catedral inteira fica coberta com geada durante o inverno, como se fosse um castelo açucarado de conto de fadas. A primeira igreja de madeira foi construída no local em 894.

Localizado na cidade de Istra, a uns 40 quilômetros de Moscou, o Mosteiro de Nova Jerusalém foi fundado em 1656 pelo Patriarca Ortodoxo Russo Nikon. O local foi escolhido porque, segundo o patriarca, assemelha-se à Terra Santa. O Rio Istra e os edifícios representam, de forma simbólica, o rio Jordão e Jerusalém, respectivamente.

O Mosteiro Svenski, situado na confluência dos rios Desna e Sven, está a 5 km de Briansk. Segundo a lenda, foi fundado pelo Conde Roman Mikhailovitch em 1288.

Convento da Trindade, em Murom. Na década de 1640, o rico comerciante Taras Borissov financiou o Convento da Trindade, cuja Igreja da Santíssima Trindade é decorada com telhas cerâmicas.

Convento Novodevitchi, também conhecido como Mosteiro Bogoroditse-Smolenski, é um dos conjuntos arquitetônicos mais belos da capital. Finalizado em 1524, este convento de edifícios (com bairros residenciais, edifícios administrativos, campanários e igrejas) foi erguido sobre uma espécie de península no rio Moscou.

O Mosteiro Scheglovski da Santa Mãe de Deus é um monastério masculino perto da cidade de Tula, a 180 km de Moscou. Sua principal catedral, que exibe o ícone de Maria, a doadora de leite, foi inaugurada em 1860 e hoje só abre durante as orações. Existem várias estruturas menores dentro do complexo, além de um tranquilo jardim. De um modo geral, sente-se um espírito de século 19 nesse lugar.

O Mosteiro Visokopetrovski é o mais próximo da Praça Vermelha (2 km). Situado na rua de Petrovka, foi provavelmente fundado por São Piotr, em 1315.

O Monastério Kirillo-Belozerski, à beira do lago Siverskoie, foi fundado no fim do século 14. Seu fundador, São Cirilo, era descendente da nobre família moscovita Veliaminov. Ele passou de monge para arquimandrita (título dado aos hegúmenos, ou aos sacerdotes celibatários que sejam dignos de honra pelos seus serviços prestados) no Mosteiro Simonov, em Moscou, mas recusou esta alta posição e, aos 60 anos, se mudou para a região do lago Branco, onde fundou um mosteiro.

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Geopolítica Medieval: Uma Teoria Completa do Poder Papal Medieval

Por Andrew Latham

O desenvolvimento da teoria do absolutismo papal analisando os pontos de vista de Henricus de Segusio, ou Hostiensis, como ele ficou conhecido depois de ter sido criado o cardeal bispo de Ostia em 1262.

Hostiensis desenvolveu o conceito de plenitudo potestatis mais completamente do que qualquer um de seus predecessores canonistas. Por meio de comentários sobre Quanto Personam , de Innocent III , e sobre decretais inocentes subsequentes, como Cum ex illo, Inter corporalia, Proposuit, Magnae devotionis e Cum ad monasterium (nos quais Innocent aplicou os conceitos principais primeiro articulados em Quanto Personam a diferentes casos jurídicos) ele introduziu uma série de inovações conceituais que trouxeram as sementes plantadas por Inocente à plena floração.

Basicamente, Hostiensis refinou e ampliou a idéia de vicarius Christi – vigário de Cristo. Os decretistas e os primeiros decretalistas não haviam aproveitado muito essa idéia, concentrando suas atenções na ideia de pro ratione voluntas. Mas, nas mãos de Hositiensis, a idéia de que o papa compartilhasse e exercesse a autoridade divina de Cristo tornou-se a pedra angular de um absolutismo papal mais irrestrito do que o próprio Tancredo de Bolonha havia adotado. Seu argumento era simples, mesmo que tipicamente expresso em linguagem extravagante. Toda autoridade política é derivada de Deus; portanto, todos que exercem essa autoridade podem governar por mandato divino. Mas a autoridade do papa, ele argumentou, era qualitativamente diferente da de outros príncipes. Ecoando a linguagem usada por Inocente e baseando-se em muitos dos mesmos textos que Laurêncio, Hostiensis argumentou que o papa não governava por mandato divino; ao contrário, ele governou como um agente divino. Como vigário de Cristo, ele agiu no lugar de Cristo. Portanto, ele concluiu em seu glossário sobre Quanto Personamsempre que o papa age de desejo , ele exerce a autoridade divina de Cristo e, portanto, seus atos são ipso facto lícitos. O único fator que limitava o exercício papal dessa autoridade divina era o pecado: dado que Cristo estava sem pecado, argumentou Hostiensis, o papa simplesmente não poderia estar agindo no lugar de Cristo se estivesse agindo pecaminosamente.

Inscrição em frente à Arquibasílica de São João de Latrão, igreja catedral do Bispo de Roma: Sacros (anc), Lateran (ensis) eccles (ia) omnium urbis et orbis ecclesiarum mater et caput, que significa “Santíssima Igreja Lateranense, de todas as igrejas em a cidade e o mundo, a mãe e a cabeça ”- Foto: Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons

Com esse entendimento de vicarius Christi , Hostiensis passou a desenvolver conceitos jurídicos precisos para substituir as formulações um tanto confusas de Innocent. Talvez o mais importante seja que, onde Innocent havia escrito vagamente sobre plenitudo potestatis papal , e onde os decretistas haviam tentado concretizar o pensamento de Innocent de maneiras retoricamente expansivas, mas conceitualmente imprecisas, Hostiensis decidiu enumerar os poderes legais específicos inerentes à plenitude de poder do papa. Uma maneira de fazer isso foi tentar analisar a vaga frase “acima da lei” ( supra ius ou supra omnia iura ) que tinha sido cada vez mais utilizada pelos canonistas desde o Decreto de Inocência de Proposta de Inocência.. Segundo Hostiensis, o papa poderia agir supra ius de duas maneiras. Por um lado, sob a doutrina do que ele (seguindo Inocente) chamava suppletio defectuum , o papa poderia corrigir qualquer deficiência de fato, lei ou procedimento legal. Como Watt colocou, o suppletio era um ato de poder absoluto para remediar defeitos que surgiram pela não observância da lei existente ou porque a lei existente era inadequada para atender às circunstâncias particulares. ‘ Por outro lado, Hostiensis argumentou que o poder de agir supra implicava a autoridade de dispensar a lei. Mais uma vez citando Watt, a dispensação “era um uso do poder absoluto para anular a lei existente”. Para ter certeza, Hostiensis acreditava que o papa exigia uma causa ou razão válida para agirsupra ius . Mas ele também acreditava que, em última análise, era o próprio papa quem tinha o poder de determinar se tal causa ou razão existia em um determinado caso.

Hostiensis também procurou refinar o conceito de plenitudo potestatis , trazendo maior precisão ao conceito um tanto confuso de Innocent de “poder divino” papal. Ele o fez baseando-se nas obras de teólogos do início do século XIII, como Godfrey de Poitiers, Guilherme de Auxerre e Alexandre de Hales, os quais haviam distinguido entre duas facetas do poder divino de Deus: Seu poder absoluto ( potestas absoluta ) e Seu poder ordinário. poder ( potestas ordinata ). Segundo esses teólogos, potestas absoluta se referia ao poder abstrato ou teórico de Deus para fazer o que quisesse, enquanto potestas ordinatareferia-se ao poder limitado ou ordenado que ele realmente escolheu exercer. Aplicando esses conceitos teológicos à idéia de autoridade papal introduzida por Inocente em Quanto Personam , Hostiensis argumentou que o papa também exercia dois tipos de poder. Aqui, no entanto, ele alterou dramaticamente o significado da distinção introduzida pelos teólogos. Onde eles entenderam essa distinção como referindo-se à diferença entre “o que Deus poderia ter feito além das coisas que ele escolheu fazer”, Hostiensis entendeu o poder absoluto do papa ou potestas absoluta como uma forma de poder divino. Na sua opinião, o poder ordinário do papa ou potestas ordinata era seu poder humano de agir dentro e com base na lei, enquanto suas potestas absolutaera seu poder divino de transcender a lei – isto é, seu poder de agir além das leis que definiam e limitavam suas potestas ordinata .

Reunindo essas duas linhas de pensamento, Hostiensis elaborou ainda mais sua idéia de potestas absoluta em seus comentários sobre outros dois decretais papais, o Ex publico de Alexandre III (que trata da lei do casamento) e Cum ad monasterium de Innocent III (que trata de votos solenes). No primeiro deles, Hostiensis argumentou que o papa poderia “permitir que um cônjuge se separasse de um parceiro relutante, exercendo seu poder absoluto”. No segundo, ele defendeu que o papa poderia usar suas potestas absolutadispensar da regra monástica, mas apenas com justa causa. Tomados em conjunto, esses comentários revelam que Hostiensis passou a acreditar que, embora o papa não pudesse promulgar a lei divina e estivesse de fato sujeito a ela, ele poderia dispensá-la em certos assuntos estritamente prescritos. Esse era um novo elemento das potestas absolutas papais .

Os decretistas decretistas de Hostiensis e até os descristalistas argumentaram que o papa poderia, em certas circunstâncias, suplementar ou dispensar a lei positiva, mas ninguém chegou ao ponto de afirmar que o papa poderia dispensar a lei superior. Mas Hostiensis agora alegava que, como vigário de Cristo, o papa também poderia exercer a autoridade de Deus para anular a lei natural e divina no que se refere ao casamento e aos votos. Nos comentários subsequentes sobre o decretal Sicut unire de Celestine III (lidando com o poder do papa de unir visões episcopais), Hostiensis foi ainda mais longe, argumentando que o poder de dispensar a lei divina não estava limitado ao casamento e aos votos, mas também poderia ser usado para regular o status ecclesiaeem si. Ao fazê-lo, rompeu com seus antecessores, que argumentavam que o papa estava vinculado à constituição fundamental da Igreja e não podia alterar nem abolir o status ecclesiae .

Mas se Hostiensis rompeu com seus predecessores em relação aos limites específicos da potesta absoluta papal , ele não rompeu com eles em relação ao princípio geral de que o poder papal era de fato limitado. Para Hostiensis, o conceito de plenitudo potestatis não implicava ou implicava poder desenfreado ou arbitrário. Para ter certeza, como Inocente havia argumentado em sua proposta decretal, Hostiensis acreditava que a potesta absoluta do papa lhe permitia agir supra iuscom respeito ao direito positivo, simplesmente com base em sua vontade. Mas mesmo Hostiensis aceitou que o papa só poderia agir acima da lei natural ou divina ‘com causa’, argumentando que o papa só poderia agir supra ius se fosse necessário para o bem público. Como ele colocou em seu comentário sobre o decreto Magnae devotionis de Innocent III :

Se a causa não está presente ou não é suficiente, não é apropriado que o papa se desvie da lei.

E, como outros juristas da época, Hostiensis também acreditava que, embora não seja obrigado pela lei, o papa deveria, no entanto, se sujeitar a ela, exceto em raras ocasiões.

Livro impresso do século XVI dos escritos de Hostiensis

Uma genealogia completa da idéia medieval tardia / moderna de soberania implicaria traçar a evolução de todos os seus conceitos constituintes ( iurisdictio; legibus solutus; plenitudo potestatis; potesta absoluta; potesta absoluta; pro ratione voluntas; persona ficta ; e dominium ) em vários locais distintos de teorização política (direito canônico; direito romano; várias literaturas polêmicas; e obras de teólogos e filósofos) ao longo de vários séculos (1075-1576). Também implicaria traçar a evolução da crença generalizada de que o coração da suprema autoridade para comandar, legislar e julgar estava adequadamente investido em reinos e outros principados que não reconheciam superioridade nesses mesmos locais e no mesmo espaço de séculos.

Finalmente, implicaria traçar a evolução da idéia de que a fonte da autoridade política suprema algum tipo de síntese do “povo” e de Deus. Neste breve ensaio, no entanto, meu objetivo era um pouco menos ambicioso: demonstrar a plausibilidade de tal genealogia, rastreando a evolução de três conceitos-chave de soberania ( plenitudo potestatis; potesta absoluta ; e pro ratione voluntas ) em um local específico de teorização (direito canônico) durante um século específico (o décimo terceiro). O argumento que desenvolvi foi que, em Quanto Personam, decretais relacionados e seus glos, Innocent e os canonistas fizeram uma série de contribuições importantes para a idéia de autoridade suprema – idéias que acabariam sendo captadas pelos primeiros pensadores modernos como Jean Bodin e trabalhadas em suas teorias de soberania. O papa estabeleceu que o ofício papal era o único locus de autoridade suprema dentro da Igreja e que, como vigário de Cristo, somente o papa exercia o que ele chamava de “poder divino” na terra.

Com base nisso, os canonistas começaram a reimaginar o caráter jurídico da autoridade papal, primeiro localizando a fonte do direito canônico na vontade do papa e depois perdendo o papa de quase todas as restrições da lei positiva, natural e divina (em menos em determinadas circunstâncias). No processo, eles desenvolveram e refinaram uma série de conceitos – pro ratione voluntas; plenitudo potestatis; potesta absoluta – que, nos séculos seguintes, seria transferida do papa como governante da Igreja para governantes temporais de reinos e outros principados.

Andrew Latham é professor de ciência política no Macalester College em Saint Paul, Minnesota. Ele é o autor, mais recentemente, de  A idéia de soberania na virada do século XIV . Você pode visitar o site de Andrew em  www.aalatham.com ou seguir Andrew no Twitter @aalatham 

Pedras e Flor,Blog do Mesquita

O Deus de Schopenhauer

Pedras e Flor,Blog do MesquitaTrechos de Arthur Schopenhauer em O mundo como vontade e representação (cap. 34) (Contraponto). Tradução de M. F. Sá Correia.

Quando, elevando-se pela força da inteligência, se renuncia a considerar as coisas do modo vulgar; quando se deixa de procurar (à luz das diferentes expressões do princípio da razão) apenas as relações dos objetos entre si, relações que se reduzem sempre, em última análise, à relação dos objetos com nossa própria vontade, isto é, quando já não se considera nem o lugar, nem o tempo, nem o porquê, nem o para que das coisas, mas única e simplesmente sua natureza; quando, além disso, já não se permite nem ao pensamento abstrato, nem aos princípios da razão ocupar a consciência mas, em vez de tudo isto, se dirige todo o poder do espírito para a intuição; quando aí nos submergimos inteiramente e se enche toda a consciência com a contemplação tranquila de um objeto natural atualmente presente: paisagem, árvore, rochedo, edifício ou qualquer outro; ora, desde o momento em que nos perdemos neste objeto, como dizem com profundidade os alemães, isto é, desde o momento em que nos esquecemos da nossa individualidade, da nossa vontade e só subsistimos como puro sujeito, como claro espelho do objeto, de tal modo que tudo se passa como se só tal objeto existisse, sem ninguém que o percebesse, ou seja: que fosse impossível distinguir o sujeito da própria intuição e que ambos se confundissem numa único ser, numa única consciência inteiramente ocupada e preenchida por uma visão única e intuitiva; quando, enfim, o objeto se liberta de toda relação com o que não é ele, e o sujeito, de toda a relação com a [própria] vontade, então, aquilo que é conhecido deste modo já não é a coisa particular enquanto particular, mas a ideia, a forma eterna, a objetividade imediata da vontade [natural].

Neste grau, por conseguinte, aquele que é arrebatado nesta contemplação já não é um indivíduo (visto que o indivíduo se aniquilou nesta mesma contemplação), mas o sujeito que conhece, puro, liberto da [sua] vontade, da dor e do tempo. Esta preposição que parece surpreendente confirma, sabe-se muito bem, o aforismo que provém de Thomas Payne: “Do sublime ao ridículo há apenas um passo”; mas, graças ao que se segue, ela vai-se tornar mais clara e parecer menos estranha.

A mente é eterna, visto que concebe os fatos sob a forma de eternidade
Era também isso que, pouco a pouco, [Benedito] Espinosa descobria, quando escrevia: “A mente é eterna, visto que concebe os fatos sob a forma de eternidade” (Ética, 5, prop. 31, escólio).

[…] O indivíduo que conhece, considerado como tal, e a coisa particular conhecida por ele estão sempre situados em pontos definidos do espaço e da duração [do tempo]; são elos das cadeias de causas e efeitos. O puro sujeito que conhece e o seu correlativo, a ideia, estão libertos de todas estas formas do princípio da razão: o tempo, o lugar, o indivíduo que conhece e aquele que é conhecido não significam nada para eles.

É apenas quando o indivíduo que conhece se eleva da maneira acima mencionada, se transforma em sujeito que conhece e transforma por este fato o objeto considerado como representação, [e este lhe] aparece puro e inteiro, é então, apenas, que se produz a perfeita objetivação da vontade [natural], visto que a ideia é apenas a sua objetividade adequada.

Esta resume em si, e na mesma qualidade, objeto e sujeito (visto que eles constituem a sua forma única); mas ela mantém entre eles um perfeito equilíbrio: por um lado, com efeito, o objeto é apenas a representação do sujeito; por outro lado, o sujeito que se esgota [ou se dissolve] no objeto da intuição torna-se esse mesmo objeto, atendendo a que a consciência é, daqui para a frente, a mais clara imagem dele. Este consciência constitui, para falar com propriedade, a totalidade do mundo considerado como representação.

[…] Do mesmo modo que na ideia, quando ela aparece, o sujeito e o objeto são inseparáveis, visto que é preenchendo-se com uma igual perfeição um ao outro que eles fazem nascer a ideia, a objetividade adequada da vontade, o mundo considerado como representação; também, do mesmo modo, no conhecimento particular, o indivíduo que conhece e o indivíduo conhecido permanecem inseparáveis, enquanto coisas em si, visto que se fizermos a abstração completa do mundo considerado verdadeiramente como representação, não nos resta mais nada a não ser o mundo considerado como vontade; a vontade [natural] constitui o “em si” da ideia, a qual é a objetividade perfeita da vontade; a vontade constitui do mesmo modo o “em si” da coisa particular e do indivíduo que a conhece, os quais são apenas a objetividade imperfeita da vontade.

Considerada como vontade [natural], independente da representação e de todas as suas formas, a vontade é uma só e idêntica no objeto contemplado e no indivíduo que ao elevar-se a esta contemplação toma consciência de si mesmo como puro sujeito; ambos, por conseguinte, se confundem, visto que eles são, em si, apenas a vontade [natural] que se conhece a si mesma; quanto à pluralidade e à diferenciação, elas só existem a título de modalidades do conhecimento, isto é, apenas no fenômeno e em virtude da sua forma, no princípio da razão.

Do mesmo modo que sem objeto nem representação não sou sujeito que conhece, mas simples vontade cega, também sem mim, sem sujeito que conhece, a coisa conhecida não pode ser objeto e permanece simples vontade, esforço cego. Esta vontade é, em si, isto é, fora da representação, uma só e idêntica a minha: é apenas no mundo considerado como representação, submetido, em todo caso, à sua forma mais geral que é a distinção do sujeito e do objeto, é somente no mundo assim considerado que se opera a distinção entre o indivíduo conhecido e o indivíduo que conhece.

Uma vez que se suprime o conhecimento, o mundo considerado como representação, não resta em definitivo mais do que simples vontade, esforço cego. Se a vontade se objetiva e se torna representação, ela coloca imediatamente o sujeito e o objeto; se, além disso, esta objetividade se torna uma pura e perfeita objetividade da vontade, ela coloca o objeto como ideia, liberto das formas do princípio da razão. Ela coloca o sujeito como puro sujeito que conhece liberto da sua individualidade e da sua servidão diante da vontade.

Mergulhemos na contemplação da natureza, tão profundamente que já só existamos como puro sujeito que conhece.

Absorvamo-nos, portanto, e mergulhemos na contemplação da natureza, tão profundamente que já só existamos como puro sujeito que conhece: sentiremos imediatamente por isso mesmo que somos, nessa qualidade, a condição, por assim dizer, o suporte do mundo e de toda a existência objetiva, visto que a existência objetiva só se apresenta, a partir de agora, a título de correlativo de nossa própria existência. Puxamos assim toda a natureza para nós, tão bem que ela já nos parece ser um acidente da nossa substância. É neste sentido que [Lorde] Byron diz:

Montanhas, ondas e céu, não serão uma parte de mim mesmo, uma parte da minha alma? Não serei eu, eu também, uma parte de tudo isso?
(Childe Harold, 3, 75)

E, como poderia aquele que sente tudo isso crer-se absolutamente mortal, em contradição com a natureza imortal? Não; mas ele será vivamente penetrado por essa palavra dos Upanixades, nos Vedas:

Eu sou todas as criaturas como um todo, e fora de mim não existe nenhum outro ser.
(Upanixades, 1, 122)

***

Comentário
E ainda lhe chamam de “filósofo do pessimismo”… Ora, este que foi um dos raríssimos a quem Nietzsche chamou de mestre, grande filósofo alemão, nada mais fez do que uma leitura ocidental dos textos ancestrais da antiga Índia. O pensamento de Schopenhauer está muito acima da mera filosofia, ele se encontra até hoje ancorado em algo eterno, mas a Academia reluta em admitir a profundidade do seu misticismo – talvez por simplesmente não o haver compreendido.
Assim como Espinosa, que chegou a compreensão de que “uma substância não pode criar a si mesma”, e assim como tantos outros antes dele, Schopenhauer se deu conta de uma ideia muito simples: não existe nada fora de Deus.
Ocorre que “Deus” é ainda somente uma palavra, e palavras nada mais são do que cascas de sentimento. De nada adianta ler o filósofo alemão de forma acadêmica, é preciso uma certa poesia no olhar e na leitura, é preciso ir além das cascas das palavras. O que quer que seja que cada um compreende por “Deus”, fato é que somos todos formados por sua substância. Seja tal substância a poeira estelar que forma nosso corpo, ou elementos mais etéreos e fugidios, como o próprio pensamento, fato é que o mundo de Schopenhauer se reduz a vontade e a representação, e se disto não decorre um entendimento exato da “substância em si”, talvez tenhamos de abandonar por um momento a nossa razão, e deixar que nossa mente “se eleve pela força da inteligência, e renuncie a considerar as coisas de modo vulgar” (e, ainda aqui, ele está citando os Vedas).
Assim, quem sabe, talvez possamos quebrar um pequeno graveto de madeira, levantar uma pedra do chão, e sentir, vividamente, que também somos parte de tudo o que há. Não existe absolutamente nenhum “pessimismo” em se pensar assim. Ou melhor, talvez seja mesmo necessário o pessimismo do ego, para que o otimismo da alma possa vir, finalmente, à tona…

***

Crédito da imagem: Google Image Search/SmsRead

A sangrenta história das traduções da Bíblia

John Wycliffe (1330-1384) foi um dos principais pensadores ingleses do século XIV
Em 1427, o papa Martinho 5º ordenou que os ossos de John Wycliffe fossem exumados de seu túmulo, queimados e jogados em um rio. Wycliffe morrera havia 40 anos, mas a fúria causada por sua ofensa ainda permanecia viva.

Teólogo de profissão, ele foi chamado para assessorar o Parlamento em suas negociações com Roma.

Naquela época, a igreja era todo-poderosa, e quanto mais contato Wycliffe tinha com Roma, mais indignado ele se sentia. Em sua visão, o papado estava envenenado por corrupção e interesses pessoais. E ele estava determinado a fazer algo sobre isso.

Wycliffe começou a publicar panfletos argumentando que, em vez de buscar riqueza e poder, a igreja deveria se preocupar com os pobres.
Em uma ocasião, descreveu o papa como “o anticristo, o sacerdote mundano de Roma e o mais amaldiçoado dos batedores de carteira”.

Em 1377, o bispo de Londres exigiu que Wycliffe aparecesse perante sua corte para explicar as “coisas surpreendentes que brotaram de sua boca”John Wycliffe,Blog do Mesquita,Religião,Biblia
O julgamento de Wycliffe na Catedral de São Paulo, em Londres, ocorreu em 3 de fevereiro de 1377.

A audiência foi uma farsa do começo ao fim.

Tudo começou com uma briga violenta sobre se Wycliffe deveria sentar-se ou não. Juan de Gaunt, filho do rei e aliado de Wycliffe, reiterou que os acusados permanecessem sentados; já o bispo exigiu que ele se levantasse.

Quando o Papa ouviu falar sobre o fiasco do julgamento, emitiu uma bula [carta ou documento oficial papal] em que acusou Wycliffe de “vomitar do calabouço sujo de seu coração as mais perversas e condenáveis heresias”.

Wycliffe foi acusado de heresia e colocado em prisão domiciliar. Mais tarde, acabou forçado a deixar seu posto como professor do Balliol College, em Oxford.

‘Emancipação dos pobres’
Wycliffe dizia acreditar firmemente que a Bíblia deveria estar disponível para todos. Via a alfabetização como a chave para a emancipação dos pobres.

Naquela época, embora partes da Bíblia já tivessem sido traduzidas para o inglês, ainda não havia uma tradução completa do livro sagrado.

As pessoas comuns, que nem falavam latim nem podiam ler, só podiam aprender com o clero. E muito do que eles achavam que sabiam, ideias como o fogo do inferno e o purgatório, não faziam parte das Escrituras.

Assim, com a ajuda de seus assistentes, Wycliffe produziu uma Bíblia em inglês, durante 13 anos, começando em 1382.

Era inevitável que uma reação violenta eclodisse: em 1391, antes que a tradução da Bíblia fosse concluída, um projeto de lei foi apresentado ao Parlamento para proibir a Bíblia em inglês e prender qualquer pessoa que possuísse uma cópia do livro sagrado.

O projeto de lei não foi aprovado – John de Gaunt cuidou disso no Parlamento -, mas a igreja retomou sua perseguição contra Wycliffe.

Mas Wycliffe havia morrido 7 anos antes, em 1384.

Sem alternativas, o melhor que podiam fazer era queimar os ossos [em 1427], de modo que seu túmulo não fosse reverenciado.

O arcebispo de Canterbury disse que Wycliffe tinha sido “aquele canalha pestilento, de memória condenável, sim, o precursor e discípulo do Anticristo que, além de sua maldade, inventou uma nova tradução das Escrituras em sua língua materna”.

Jan Hus
Em 1402, Jan Hus, um recém-ordenado padre tcheco, foi designado para celebrar missas em Praga.

Inspirado pelos escritos de Wycliffe, que então circulavam pela Europa, Hus usou sua posição para fazer campanha pela reforma administrativa e pelo fim da corrupção na Igreja.

Como Wycliffe, Hus dizia acreditar que a reforma social só poderia ser alcançada por meio da alfabetização.

Sendo assim, dar às pessoas uma Bíblia escrita em tcheco, em vez de latim, se tornou imperativo.

Hus reuniu uma equipe de estudiosos e em 1416 surgiu a primeira Bíblia tcheca.

A publicação do livro foi considerada uma provocação direta àqueles que ele chamou de “os discípulos do anticristo” e a consequência era previsível: Hus foi preso por heresia.

O julgamento de Hus, que ocorreu na cidade de Constança (atual Alemanha), é um dos mais espetaculares da história.

A audiência teve a presença de quase todos os manda-chuvas da Europa.

Um arcebispo chegou com 600 cavalos; 700 prostitutas ofereceram seus serviços; 500 pessoas se afogaram no lago; e o papa caiu da carruagem em cima da neve.

O entorno era tão apoteótico que a eventual condenação e execução brutal de Hus poderia ser considerada um anticlímax nesta história.

Hus foi condenado como herege e morreu queimado vivo.

Sua morte desencandeou uma revolta popular. Sacerdotes e igrejas foram atacados. Houve retaliação por parte das autoridades. Em poucos anos, a Boêmia entrou em guerra civil.

Tudo porque Jan Hus teve a coragem de traduzir a Bíblia.

William Tyndale
Em relação à Bíblia inglesa, William Tyndale foi outro tradutor famoso que perdeu a vida por causa do livro sagrado.

Ele vivia na Inglaterra do século 16, governada pelo rei Henry VIII.

A tradução da Wycliffe ainda estava proibida e, embora as cópias dos manuscritos estivessem disponíveis no mercado negro, eram difíceis de encontrar e caras de adquirir. A maioria das pessoas ainda não tinha ideia do que a Bíblia realmente dizia.

Mas a impressão em papel estava se tornando mais comum, e Tyndale achou que era o momento certo para uma tradução acessível e atualizada.

Ele sabia que poderia criar uma. Tudo o que ele precisava era do financiamento e da bênção da igreja.

No entanto, rapidamente se deu conta de que ninguém em Londres estava disposto a ajudá-lo. Nem mesmo seu amigo, o bispo de Londres, Cuthbert Tunstall.

Mas o clima religioso parecia menos opressivo na Alemanha.

Lutero já havia traduzido a Bíblia para o alemão; a Reforma Protestante estava se acelerando e Tyndale achava que teria mais sucesso com seu projeto ali. Então, viajou a Colônia e começou a imprimi-la.

Sua iniciativa provou-se um erro. Colônia ainda estava sob o controle de um arcebispo leal a Roma.

Quando estava no meio da impressão do Evangelho de São Mateus, descobriu que as autoridades estavam prestes a invadir a gráfica. Rapidamente, pegou seus originais e fugiu.

Essa história se repetia várias vezes. Tyndale passou os anos seguintes esquivando-se de espiões ingleses e de agentes romanos.

Mas ele conseguiu concluir sua Bíblia e as cópias logo inundaram a Inglaterra ─ ilegalmente, é claro.

O projeto estava completo, mas Tyndale era um homem marcado pelas autoridades. E ele não era o único.

O cardeal Wolsey estava fazendo campanha contra a Bíblia de Tyndale. Ninguém próximo a Tyndale estava a salvo.

Thomas Hitton, um padre que conheceu Tyndale na Europa, confessou ter contrabandeado duas cópias da Bíblia para a Inglaterra. Ele foi acusado de heresia e queimado vivo.

Um advogado que mal conhecia Tyndale, Thomas Bilney, também foi jogado nas chamas em 1531.

Richard Bayfield, um monge que havia sido um dos primeiros apoiadores de Tyndale, foi torturado incessantemente antes de ser amarrado à estaca e queimado. E um grupo de estudantes em Oxford foi confinado em uma masmorra, usada para armazenar peixes salgados, até a morte.

O fim de Tyndale não foi menos trágico.
Ele foi traído em 1535 por Henry Phillips, um jovem aristocrata que roubara o dinheiro do pai e o perdera em apostas.

Tyndale estava escondido em Antuérpia, sob a proteção quase diplomática da comunidade mercantil inglesa. Phillips tornou-se amigo de Tyndale e o convidou para jantar. Quando deixaram a casa do comerciante inglês juntos, Phillips fez um gesto a criminosos para que Tyndale fosse preso.

Foi o último momento de sua vida em liberdade.

Tyndale foi acusado de heresia em agosto de 1536 e queimado na fogueira algumas semanas depois.

Em Antuérpia, a cidade onde Tyndale acreditava estar seguro, Jacob van Liesveldt produziu uma Bíblia em holandês.

Como tantas outras traduções do século XVI, seu ato foi tanto político quanto religioso.

Sua Bíblia foi ilustrada com xilogravuras: na quinta edição, ele representou Satanás com a aparência de um monge católico, com pés de bode e um rosário.

Foi um passo longe demais.

Van Liesveldt foi preso, acusado de heresia e condenado à morte.

Uma era assassina
O século XVI foi, de longe, o período mais sangrento para os tradutores da Bíblia.

Mas as traduções sempre geraram – e continuam a gerar – fortes emoções.

Em 1960, a Reserva da Força Aérea dos EUA alertou os recrutas contra o uso da Versão Padrão Revisada recém-publicada na época porque, segundo eles, 30 pessoas em seu comitê de tradução haviam sido “afiliadas às frentes comunistas”.

Em 1961, o americano TS Eliot, um dos principais poetas do século XX, opôs-se à Nova Bíblia em inglês e escreveu que “assusta sua combinação do vulgar, do trivial e do pedante”.

E tradutores da Bíblia ainda estão sendo mortos. Não necessariamente por causa da tradução do livro sagrado, mas por suas atividades como missionários cristãos.

Em 1993, Edmund Fabian foi assassinado na Papua Nova Guiné por um homem local que o ajudara a traduzir a Bíblia.

Em março de 2016, quatro tradutores da Bíblia que trabalhavam para uma organização evangélica dos EUA foram mortos por militantes em um local não revelado no Oriente Médio.

Traduzir a Bíblia pode parecer uma atividade inofensiva, mas a história mostra que não.

*O escritor britânico Harry Freedman é especializado em história da religião. É autor do livro The Murderous History of Bible Translations (A História Assassina das Traduções da Bíblia, em tradução livre).

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Bem-vindos à era do Evangelho Segundo Pinóquio – Quanto maior a mentira mais as pessoas acreditam nela

Damares,Bolsonaro,Ministros,Brasil,Blog do Mesquita,Direitos HumanosSer um crente na década de 1980 não era fácil. A metade católica da família não entendia porque a outra metade havia se convertido a uma religião diferente. As avós achavam um absurdo que as crianças não fossem batizadas nos primeiros anos de vida, que não tivessem madrinhas e padrinhos. “E se esses meninos morrerem antes do batismo?”. Na escola vez ou outra alguém fazia uma piada, quase sempre “crente do do rabo quente”. Muita gente falava em “pastor safado”, “pastor ladrão” e se perguntava o que aquelas figuras faziam com o dinheiro do dízimo.

Mas as coisas não eram tão ruins. Os parentes mais velhos, todos convertidos, contavam coisas mais absurdas, violentas até, que aconteciam nas décadas passadas. Um irmão que fora agredido na rua. A pequena igreja do outro bairro que precisava realizar seus cultos a porta fechadas porque muitas vezes a molecada jogava pedras lá dentro. Algumas coisas daquela época não mudaram. As pessoas viviam pulando de igreja em igreja: da Batista para a Metodista, da Presbiteriana para a Quadrangular. Diante de uma indagação a respeito de qual era a religião a resposta era “sou evangélico”. Todos haviam se convertido numa mesma igreja mas anos depois ninguém mais a frequentava.

A Bíblia Ilustrada em vários volumes decorava a maior estante da casa. Dividia espaço com aqueles aquelas coletâneas do Reader’s Digest, uma enciclopédia Barsa, uma enciclopédia da Editora Abril. As histórias da Bíblia eram contadas ora como fatos históricos, ora como parábolas, os sofrimento dos hebreus como “povo de Deus” frequentemente era comparado ao sofrimento dos evangélicos. Estes estariam destinados a ser os mártires num futuro próximo, no qual o mundo seria governado pelo anticristo.

A obsessão com o anticristo e seu “governo global” eram uma constante em algumas igrejas que eu frequentava. Diziam que a revolução sexual, o divórcio, as drogas e, vejam só, a astrologia eram parte de um plano maligno para corromper as famílias e afastar as pessoas de Deus. E como a vida era dividida entre “a Igreja” e “o Mundo”, puro e impuro, espírito e carne, havia muitas discussões sobre a natureza das coisas. Carnaval? Nem pensar! Era o símbolo maior da devassidão, o período onde vidas e famílias seriam destruídas. Cerveja? Do diabo, leva ao alcoolismo. Heavy Metal? Leva ao satanismo. A lista de coisas demoníacas e impuras variava consideravelmente e podia incluir novelas, quadrinhos de super-heróis e, para os mais ousados, até mesmo coisas banais como o programa do Chaves ou o Fofão. Não por causa do conteúdo mas alguém sempre dizia ter grandes evidências de que os atores tinham pacto com o diabo.

Religiões afro-brasileiras e o kardecismo também eram alvos constantes de ataques. Quem fosse a uma igreja neopentecostal teria a chance de ver alguém falando de sua experiência como babalorixá e como os orixás seriam demônios. Se tivesse sorte mesmo poderia até assistir a uma possessão e um exorcismo. Os ataques ao catolicismo também aconteciam, destacando o “culto a imagens” o qual os católicos supostamente fariam.

Mas esses detalhes prosaicos da fé não eram o principal elemento na vida de um crente. A escola dominical, o culto e a leitura da Bíblia eram o centro de uma vida que deveria ser vivida com virtude. Não lembro de tanta gente pregando que os postulados científicos seriam necessariamente incompatíveis com os escritos Bíblicos. E se havia algum preconceito contra o crente havia também algum reconhecimento desse esforço em viver na retidão. O pastor podia ser safado mas o crente não raro era considerado honesto, trabalhador, dedicado. Isso numa época na qual os evangélicos não passavam de 10% da população.

Até o final da década de 1990 muito disso já havia mudado. Testemunhos de conversão e redenção falavam cada vez mais sobre o diabo e o dinheiro. A teologia da prosperidade havia se misturado a essa demonologia de “combate espiritual”. Imersos numa retórica de guerra, os cultos traduziam questões religiosas para um esforço bélico: não apenas combater o mal, na figura de Satanás, como também atacar seus supostos servos. Cresceu o mercado gospel, de música, livros e shows. Toda essa mídia, é claro, não era “do Mundo” e era apresentada aos crentes como algo seguro de se consumir.

Eu já era reticente a muitos aspectos da igreja, mesmo quando criança. A maioria dos pastores nas igrejas que eu frequentava era bem formada e prudente, mas aqueles que ensinavam nas escolas dominicais, os irmãos que vinham dar testemunho e os missionários que nos visitavam eram diferentes. Os que haviam passado por cursos de teologia tinham alguma defesa contra a enchente de lixo conspiracionista que chegava no Brasil vinda de igrejas dos Estados Unidos. Mas mesmo ali era possível escutar coisas absurdas: maluquices sobre satanistas que envolviam Xuxa e os Cavaleiros do Zodíaco, pessoas que reclamavam que a escola preparava seus filhos para o reinado do anticristo, pregações sobre como os desenhos da Disney estimulavam crianças a se tornarem homossexuais…

Tudo isso era permeado por uma retórica muito perturbadora que condenava qualquer um que não aceitasse Jesus Cristo à danação eterna ao mesmo tempo que absolvia aqueles que se autodeclaravam cristãos de quaisquer pecados ou crimes cometidos “em nome de Jesus”. Quando perguntei a um missionário se os trambiques de pastores televisivos não seriam nocivos recebi como resposta que o Evangelho deveria ser pregado através de quaisquer meios e isso era o que importava. A vigilância mútua entre irmãos caminhava de mãos dadas com uma hipocrisia crescente. Durante o ano no qual frequentei uma dessas igrejas cujos cultos parecem shows não demorou para que eu entendesse que a performance estava no centro da preocupações, muito acima de questões de fé. E como a lista de “coisas do Mundo” não parava de crescer ela logo englobava a quase totalidade das coisas pelas quais eu nutria interesse. Ser um bom cristão, vejam só, era consumir entretenimento gospel.

E ainda tinha a política. O parente dizia que era importante votar no Anthony Garotinho porque ele ia trazer justiça para esse povo tão perseguido que é o evangélico no Brasil. Garotinho foi preso e o parente continua dizendo a mesma coisa, mas agora os candidatos são outros.

A mistura explosiva entre teorias da conspiração, proselitismo político, neopentecostalismo e teologia da prosperidade produziu o que é o Brasil de hoje. A primeira-dama é evangélica, o presidente foi batizado pelo pior tipo de pastor que o protestantismo produziu. Isso, infelizmente, não veio sem um enorme custo: o crente brasileiro se tornou cada vez mais conivente com a mentira e o obscurantismo, se transformando num instrumento de enganadores profissionais que engendram política e religião para benefício próprio.

Ao contrário do que defende o ateísmo militante eu não acho que as religiões são fabricadas a partir de uma mentira. Religiões são feitas de mitologia, tradição e experiência religiosa. A relação entre crer e experimentar é algo muito importante para conseguir entender porque as pessoas aderem a religiões. Muitas pessoas se convertem ou tornam-se dedicadas à religião a partir de um evento onde elas sentem ou experimentam algo sublime, diferente, maior do que elas mesmas. É um tipo relato comum a umbandistas, freiras ou convertidos evangélicos.

A mentira não é uma premissa para a experiência religiosa e, no entanto, ela pode ser um instrumento muito útil para aqueles que desejam conquistar e exercer o poder.

O tipo de proselitismo que se criou no meio evangélico nas últimas décadas é algo patológico. Várias das figuras políticas mais absurdas que o Brasil gestou vieram desse meio, foram eleitas por fiéis, fizeram campanha usando da Igreja. Marco Feliciano, Marcelo Crivella e Magno Malta são exemplos famosos da política feita nas igrejas e, no entanto, é possível que ninguém ilustre mais perfeitamente a estranha trajetória do evangelismo brasileiro do que a Ministra Damares Alves.

Ativista, pastora e, até então, assessora de Magno Malta, Damares é um exemplo perfeito da mistura entre proselitismo político e a mais absoluta falta de pudor ao mentir. E não é por coisas como “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, frase tão óbvia dentro do senso comum do brasileiro a respeito de gênero que chega a ser estranho que tenha causado tanta polêmica. Agora, imaginem o que é a possibilidade de pregar para milhares de pessoas dizendo coisas como: “na Holanda os pais masturbam bebês“; a ex-prefeita Marta Suplicy teria gastado 2 milhões de reais para “ensinar professores em creches a masturbarem bebês”; ou que “turistas vão a hotéis fazenda para transar com animais“. A questão do vídeo sobre “infanticídio indígena” criado e divulgado por uma ONG a qual a ministra integrava envolve outra série de mentiras, algumas contadas para os próprios indígenas que participaram de sua realização. A ministra, que hoje ocupa um ministério responsável pela Fundação Nacional do Índio, nunca procurou as autoridades para tratar da formalização de sua “filha adotiva”, uma menina indígena levada por uma missionária sob a alegação de um “resgate” – mas cuja avó da menina diz ter sido um rapto. Quando essa questão ganhou a capa da revista Época, Damares contornou a situação contrariando a si mesma e negando a existência de qualquer processo de adoção. Também postou fotos com um casal de indígenas que consta na certidão de nascimento como os pais da menina, mas que não seriam seus pais biológicos nem teriam sido responsáveis por sua criação, já que a menina estava sob os cuidados a avó quando foi levada.

Essa quantidade de mentiras óbvias faz parte da nova cara do evangelismo no Brasil. Não basta um ponto de vista conservador ou justificativa bíblica para ser contra a educação sexual nas escolas, não bastam as escrituras para defender a evangelização dos povos indígenas, é preciso que o pastor minta para seus fieis. E, mais do que isso, pastores como Damares trabalham de modo a fundir os ensinamentos bíblicos e o senso comum a essas mentiras. A autoridade pastoral acaba usada para promover o tipo mais rasteiro de proselitismo e pânico moral. Os custos sociais são enormes mas o sucesso desse modelo na política é inegável.
EHVarzea

Fabrício Queiroz,Bolsonaro,Corrupção

É Froidi – Picles & Drops

O Poderoso Queiroz! Faltou novamente.
Será qual a cortina de fumaça que vão jogar agora?
Quarta foi a soltura de presos da segunda instância
Esse aprendeu direitinho a tática do atestado médico pra sumir de onde devia estar.
Caberia uma coletiva – “periculum mora” – , do segmento do MP diretamente envolvido, sobre o assunto. Ou não vem ao caso?
Queiroz está esperando o padrinho tomar posse e mexer os pauzinhos ou melhor as laranjinhas.Fabrício Queiroz,Bolsonaro,Corrupção

 


Infelizmente o país não mudará nunca. Enquanto as pessoas confundirem caráter com opção política, aqui não vai pra frente. Mau caráter tem em todos os lados e partidos infelizmente
Sabem o PM que deu 6 tiros no rosto de um trabalhador no Rio de Janeiro numa briga de trânsito?
Caso aconteceu na manhã desta quinta-feira na Avenida Brasil, em Bangu. O soldado Cleiton de Oliveira Guimarães foi preso na UPP Nova Brasília, onde foi trabalhar como se nada tivesse acontecido. Ele já tinha tentado matar outra pessoa no trânsito.
Na cabeça desse povo matar tá liberado porque nossa justiça mostrou que está morta.
Isso é só o fim.

Design – EscadasArquitetura,Escadas,Design,Blog do Mesquita 3


O brasileiro médio, de todas as classes sociais, emburreceu e alienou-se a tal ponto que boa parte agora defende que a solução contra a corrupção é mais corrupção, contra a violência a solução seria mais violência, contra o desemprego seria também mais desemprego. Haja burrice!


Tostão furado,Blog do MesquitaMajor Vaz? PC Farias? Celso Daniel?

Fabrício Queiroz – ou o que restou dele – faltou mais uma vez à convocação para prestar depoimento no MP-RJ.
Ele e o Adélio devem estar muito preocupados com o futuro.
Quando os “nominhos” sumirem do noticiário, as vidas desses dois não valerão um tostão furado.

Sem humor não dá pra agüentar o tranco nesse hospício.
Campanha #PosteUmFilmeComOQueiroz
Meus títulos. Mandem os seus!:
– Queiroz o oitavo passageiro
– A insustentável leveza do Queiroz
– Corra que o Queiroz vem ai
– Corra Queiroz. Corra
– Apertem o cinto o Queiroz sumiu
– Conduzindo Mrs. Micheque
– O poderoso Queiroz
– O Queiroz do Os
– Queiroz no País da Maravilha
– A Lista do Queiroz
– Queiroz da Arábia
– O labirinto de Queiroz
– Cidadão Queiroz
– Queiroz Gump o contador de estorias
– Queiroz o caçador de androides
– Queiroz Poppins
– Os treze Queiroz
– Fabrício Queiroz e a arca perdida
Blog do Mesquita,Língua


E o Queiroz? Hahaha. Simples, bobinhos.
Vai continuar escondido até que o Bolsonaro tome posse e sua equipe use de todos os meios que estiverem ao alcance deles pra abafar o caso.
Os eleitores que se diziam anticorrupção e se calam nesse episódio assinam seu atestado de cumplicidade, o que não é nenhuma surpresa.

A fábrica de biscoitos da Nabisco foi vendida para a Philippe Morris, por U$ 15 bilhões. Ou seja, a Embraer, maior fabricante de aviões do seu setor, foi vendida com toda a sua tecnologia por pouco mais de 1/3 do valor de uma fábrica de biscoitos. E você aí preocupado com a mamadeira erótica.Brasil,Cabeça pra baixo,Blog do Mesquita


Brasil da série “Só dói quando eu rio”Assessor,Fabrício Queiroz,Bolsonaro,Corrupção,Brasil,Humor,Nani,Blog do MesquitaNetflix – “A Livraria”.
Delicado, terno, amorosamente encantador, e surpreendente.
Põe a nu o secular hábito da burguesia em sufocar qualquer tentativa de liberdade por via da cultura. Ela, a lamacenta burguesia, manipula o poder para se manter no topo da pirâmide.

Brasil,Capitalismo,Blog do Mesquita


Durante a noite até há pouco, pesquisei todas as decisões liminares tomadas pelos Presidentes do STF, durante os períodos de recessos, entre 2006 e 2010. Irei pesquisar, agora no período 2007/2018. Em nenhum caso, um presidente modificou a decisão liminar do relator. Todos aguardaram o referendo do Pleno.


Arquitetura,Escadas,Design,Blog do Mesquita AArquitetura – Escadas


Não precisou nem um cabo e um soldado. Bastou um “presidente” que desconhece a CF e a jurisprudência do STF.
Uma juíza de primeira instância questionando a decisão de um ministro do Supremo.
O Brasil não é uma República.
É uma piada.


Jackson PollockAtes Plásticas,Pintura,Blog do Mesquita, Jackson Pollock

Sim, eu sou Chato, Comunista, Petralha e mais adjetivos desqualificativos infindos, mas… cadê a “*orra” do Queiroz?
Ex-assessor de Flávio Bolsonaro não comparece à depoimento.
O motorista Fabrício Queiroz está há semanas desaparecido.STF,Blog do Mesquita

Arquitetura – Portas e janelasArquitetura,Design,Portas,Janelas,Blog do Mesquita


Sempre existiram idiotas, a tecnologia apenas está dando palco a eles. Temos de usar a tecnologia para tentar mostrar que há mais coisas entre o céu e a terra que a cabeça desse olavo. Com minúscula mesmo.Tragédia, blog do Mesquita,Olavo de Carvalho


– No meu governo combaterei a corrupção e minha equipe só terá gente honesta.

– E fulano?
– Já se arrependeu
– Mas tem sicrano, que tá sendo investigado
– É só investigado
– Beltrano é réu
– Réu? eu também sou. O que não pode é condenado
– Ei, olhe, tem um condenado
– Mas não tá preso

FIM.