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Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog doMesquita 11

Lendo uma carta de Em Busca do Tempo Perdido de Albert Camus

Alguns escritores nos falam
pela janela de seu tempo

Precisamos voltar para onde eles pertenciam para realmente focar na forma de suas idéias – e alguns nos falam permanentemente, pulando, com fluidez de buraco de minhoca, de seus tempo para o nosso.

Os últimos são um grupo imprevisível, e sua presença não parece depender de uma certa qualidade de pensamento tanto quanto de uma espécie de lucidez de espírito. Temos que trabalhar duro, por exemplo, para entender os escritos filosóficos de Jean-Paul Sartre, com sua mistura estranha da teoria alemã e da política francesa contemporânea. Lê-los é um trabalho (gratificante).

Mas Albert Camus, o grande colega e rival de Sartre, ainda nos fala diretamente, embora seu tempo seja tão distante do nosso quanto o de Sartre. Camus não era um pensador amplo – ou mesmo, em certo sentido, um original -, mas ganhou a qualidade que as crianças costumavam descrever, admiradamente, como “profunda”. (Como em “Leonard Cohen é profundo.”) O que ele dizia sobre todo assunto era sempre simples e profundo, e geralmente correto. Nós o lemos como nosso contemporâneo, e ele raramente nos decepciona. Ele ainda é imensamente popular, como disse sua filha Catherine há pouco tempo, porque escreve não na tentativa de encontrar o enredo na história e entrar no lado direito, mas em nome das vítimas da história.

Esse pensamento é desencadeado pela descoberta, no ano passado, na França, de uma carta anteriormente desconhecida de Camus, encontrada nos arquivos de Charles de Gaulle pelo biógrafo e estudioso Vincent Duclert, que Camus havia enviado de Paris a Londres em algum momento em 1943. Não assinado, mas instantaneamente identificável pelo tom e pelo contexto, é intitulado “De um intelectual resistente” e foi extraído pelo jornal Le Figaro no mês passado; com o acordo de Catherine Camus, também aparece em um novo livro, de Duclert, sobre seu pai.

É uma carta estranha e muito francesa: um relato filosófico sonoro da crise da resistência francesa e seu futuro, percorrendo delicadamente vários campos minados de solidariedade entre resistências, e ainda uma carta que, embora intensamente enraizada em seu próprio tempo, ainda assim administra , com estranha presciência, para falar sobre algumas das nossas disputas.

Camus, um franco-argelino de nascimento, passou a guerra primeiro em Lyon, onde escreveu rascunhos de seu romance “The Stranger“, e depois em Paris, onde escreveu editoriais para o jornal de resistência underground Combat. (De fato, o tom e o estilo da carta são tão próximos dos editoriais que instantaneamente se destacam como os dele.) A forma da circunstância é bem conhecida.

A Resistência, num padrão complicado, foi ostensivamente liderada em Londres por um líder militar de direita, De Gaulle, mas lutou na França por uma coalizão de forças conservadoras, católicas, patrióticas e ferozmente anti-nazistas – junto com forças inquietas e hostis. assembléia suspeita de forças “liberais” republicanas, incluindo socialistas dos velhos tempos, apoiada por um forte componente de comunistas que, tendo ficado de fora do início da guerra, na época do pacto de Stalin-Hitler, entraram feroz e bravamente em resistência armada uma vez que a União Soviética foi invadida.

Na carta, Camus escreve primeiro a fundação da “elite” – a classe intelectual e administrativa e até militar que eram o orgulho da meritocracia francesa. Ele começa com uma nota de visão equilibrada que, difícil de manter na melhor das hipóteses, era heroicamente difícil de manter em um momento de estresse tão existencial. “Aqui, muito brevemente, resumi os sentimentos de um intelectual francês”, escreve ele, “diante da situação atual, como pode ser observado de dentro para fora. Em outras palavras, os primeiros sentimentos seriam de angústia. Minha profunda convicção é que a forma de guerra adotada pela região metropolitana da França e na qual estamos todos envolvidos pode levar ao renascimento desse povo ou à sua queda definitiva.”

As falhas dessa elite foram, ao que parecia, responsáveis pela “estranha derrota” da França, como colocou o historiador Marc Bloch. (Como Picasso comentou com Matisse, os generais franceses eram “os professores de Belas-Artes” – ou seja, parte do mesmo quadro administrativo cego.)

Como alguém pode pensar nessa elite agora, a carta pergunta, e como ela deve reconstituir depois que a guerra foi vencida – se foi vencida? Camus escreve que uma nação morre, porque sua elite derrete literalmente. Mas essa elite pode ser refeita não da classe tradicional de examinadores administrativos, mas de uma nova elite dos resistentes, cuja experiência está enraizada na “experiência real” e que mantêm sua realidade sobre eles.

Ele reclama que a resistência direta e armada dentro da França ainda não recebeu ação militar externa – superestimando, talvez, os recursos do Exército francês no exílio, mas impaciente pela “segunda frente” que há muito foi prometida, mas que foi entregue apenas em junho de 1944.

Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 05

Karl Jaspers – Orientar filosoficamente a vida

O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica.

Rodney Smith,Arte,Fotografia,Blog do Mesquita
A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?

Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.

Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.

Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.

Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosóficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão.

Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.

São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da acção, do colóquio ou do silêncio.

Karl Jaspers, in ‘Iniciação Filosófica’
Fotografia de Fotografia de Rodney Smith

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita (9)

Immanuel Kant – Reflexões

A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que submeter-se.

A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame.

Sêneca – O necessário não é propriamente um bem

O necessário não é propriamente um bem.Artes Plásticas,Escultura,Máscara de Dança Ritual, Alaska,Blog do Mesquita

Toda a vida, em meu entender, é uma mentira: já que és tão engenhoso, criticá-la e reconduzí-la ao caminho da verdade. Ela considera como necessárias coisas que em grande parte não passam de supérfluas; e mesmo as que não são supérfluas não contribuem em nada para nos dar bem estar e felicidade. Pelo fato de ser necessária, uma coisa não é, desde logo, um bem; ou então degradamos o conceito de “bem”, dando este nome ao pão, à polenta e a tudo o mais imprescindível à vida.

Tudo o que é bem, é, por isso mesmo, necessário, mas o que é necessário não é forçosamente um bem: há muita coisa necessária e, simultaneamente, de baixo nível.

Ninguém é tão ignorante da dignidade do bem que degrade o conceito ao nível dos objetos de uso diário. Pois bem, não seria melhor que te aplicasses antes a mostrar todo o tempo que se perde na busca de superfluidades, a apontar como tanta gente desperdiça a vida na busca do que não passa de meios auxiliares? Observa os indivíduos, considera a sociedade: todos vivem em função do amanhã! Não sabes que mal há nisto? O maior possível.

Essa gente não vive, espera viver, e vai adiando tudo. Ainda que lhe déssemos toda a atenção a vida ultrapassar-nos-ia; se andarmos assim à deriva, ela passa por nós como uma estranha; termina com o nosso último dia, mas vai-se quotidianamente perdendo.

Sêneca

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Giovanni Papini – O triunfo dos imbecis

O Triunfo dos ImbecisArte,Blog do Mesquita

Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o gênio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.

Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas – os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles.

Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a atuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.

Giovanni Papini

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Jean-Jacques Rousseau – Filosofia

O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo.

Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: ‘Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém’

Jean-Jacques Rousseau

Pintura de Denis Sarazhin

Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 05

Arthur Schopenhauer – Ações e omissões

Arthur Schopenhauer,FilosofiaPara as nossas acções e omissões, não é preciso tomar ninguém como modelo, visto que as situações, as circunstâncias e as relações nunca são as mesmas e porque a diversidade dos carácteres também confere um colorido diverso a cada acção.

Desse modo, duo cum faciunt idem, non est idem (quando duas pessoas fazem o mesmo, não é o mesmo). Após ponderação madura e raciocínio sério, temos de agir segundo o nosso carácter. Portanto, também em termos práticos, a originalidade é indispensável; caso contrário, o que se faz não combina com o que se é.

Nada pode ser mais insensato do que querer propositadamente ser algo diferente do que se é: porque isso constitui uma contradição direta da vontade consigo mesma. Imitar as qualidades e características de outrem é muito mais vergonhoso do que vestir roupas alheias: pois trata-se do juízo da própria nulidade expresso por si mesmo.

Arthur Schopenhauer

Palhaço,Tristeza,Blog do Mesquita 02

Fatos & Fotos – O dia todo sendo atualizado – 20/01/2020

Embalando o meio dia desta segunda-feira com Gal Costa “Força Estranha”, de Caetano Veloso


Embalando esta manhã de segunda-feira com Céu & Herbie Hancock “Tempo De Amor”


“Davos verde debate reforma do capitalismo” Hahahahahaha.
Reforma? Hahahahahahahaha.
Reforma do Capitalismo? Hahahahahahahahah.
Hilários esses filhotes de Hayek.
Só muito marafo para ostentar uma alucinação desta.Rodando o globo terresre,Capitalismo,Economia,Humor,Trabalho,Escravos,Blog do Mesquita


Direto da caixa de produzir idiotas

Ana Maria Braga acaba de proferir uma “pérola” na Globo: “O estreito de Gibraltar liga o Oceano Atlântico ao Pacífico!’Certamente ela dirá que o Canal do Panamá liga o Atlântico ao Mar Mediterrâneo’.”
“K-ralho!” “Imprecionante”. Diria o Sinistro da Deseducação
Nem a Roseana Collor com as Pirâmides do Egito em Paris, consegue competir com essa Ana Ameba Praga.

Filosofia,Literatura,Blog do Mesquita 03

Espinosa: Deus e natureza, dualismo ou unidade?

Ou não existe nada ou um ente absolutamente infinito também existe necessariamente” – Espinosa, Ética I, prop. 11, dem alt.

Houve uma época em que espinosismo era sinônimo de ateísmo, mas em vão acusaremos Espinosa de ateu (veja aqui). Sua principal obra, Ética, dedica toda a primeira parte  na definição do que é Deus e qual sua essência. Contudo, a natureza divina para Espinosa é muito particular e difere absolutamente das definições judaico-cristãs de seu tempo.

Deus é causa imanente, e não transitiva, de todas as coisas” – Espinosa, Ética I, prop. 18

Deus não está separado do mundo como um grande legislador. Não existe uma entidade criadora do mundo que agora o observa à distância, julgando-o e decidindo seu destino final. Até hoje não conseguimos definir a natureza de Deus porque sempre o confundimos com um ser à nossa imagem e semelhança. Os teólogos, claro, mas também os filósofos. Não surpreende pois o objetivo dos teólogos sempre foi a obediência. A escritura é mandamento. A tradição descreve Deus como se fosse um homem, um rei, um déspota: com vontades, sentimentos, objetivos, e atributos corporais.

Esta visão é exageradamente antropomórfica e confessa uma ingenuidade para entender a essência das coisas. Por uma visão utilitarista, somos levados a crer que a natureza, e nós mesmos, temos um objetivo a ser cumprido, e concluímos que fomos criados com um destino a se cumprir. Sendo assim, achamos que um ser que nos criou à sua imagem e semelhança tem certo desígnios para nós. Mas Espinosa argumenta que se fosse dada a um triângulo a chance de definir Deus, este o faria dizendo que Ele possui três lados e a soma de seus ângulos internos resultam em 180 graus. E assim o homem, por ignorar as causas de seu conhecimento, o faz: Deus vê tudo, ouve tudo, sabe tudo, pode tudo e nos deu mandamentos que não podem ser quebrados.

Isto está de todo errado. Deus é o mundo, Deus é a Natureza. São dois nomes para uma única e mesma coisa. É preciso conhecer a natureza, o máximo que pudermos, se quisermos conhecer Deus. Ele não é exterior, ele é a causa interior de tudo que existe. A causa da essência e da existência de tudo, a causa imanente, não transitiva, ou seja, agindo em nós. Deus não gera o mundo por livre vontade, ele é o mundo por pura necessidade de sua essência. “Deus não produz porque quer, mas porque é” (Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 69).

Por causa de si entendo aquilo cuja essência envolve a existência” – Espinosa, Ética I, Def 1

Esta é a definição formal de Deus, ou nada existe ou existe um ser necessariamente infinito e nada mais. O ser, a existência, é puro ato de sua afirmação. O infinito, em todas as suas modalidades é o que constitui sua essência. A causa incausada, origem de si mesmo. Deus é o único que existe em virtude de seu próprio ser, é o único que existe necessariamente numa relação intrínseca com sua essência. Tudo devém de Deus, tudo está em Deus, nós também. Ele não criou o mundo, ele existe por sua própria natureza que envolve a capacidade de existir. E de Deus se seguem infinitas coisas. Como a substância é infinitamente infinita, isso significa ela possui infinitos atributos, que em si mesmo são infinitos. Os atributos são expressões, não apenas uma coisa passiva, muito pelo contrário, o atributo é atribuidor; como verbos, a essência é exprimida. Esta substância infinita manifesta-se de várias formas, mas conhecemos duas delas apenas: extensão e pensamento.

Nathalie Maquet

Como Deus é infinito, nada pode existir fora dele. Portanto fazemos parte de sua natureza. Somos modos da substância divina, limitados por extensão e tempo. Nos atributos encontramos os modos, que são uma parcela dos atributos, uma modificação deste. Um modo depende do seu atributo correspondente para existir. Uma pedra depende do atributo extensão, mas a extensão, conjunto de corpos moventes, não depende da pedra para existir. Nós também somos modos, mas em uma complexidade muito maior que a pedra. A essência é um grau de potência, ela também é atuante, ou seja, produz efeitos decorrentes de sua própria essência. Assim como uma ponte que se sustenta por si mesma, achamos que existimos por conta própria; mas Deus é o conjunto de leis e a própria matéria que nos sustenta.

Parte da potência divina se afirma em mim. Eu afirmo o infinito através de minha finitude. Não como marionetes que são conduzidos por cordas divinas ligadas ao céu, isso seria uma visão simplista. Um ‘mestre de marionetes’ dirige fantoches de fora e é assim a ‘causa exterior’. Jostein Gaarder, no Mundo de Sofia, nos compara como “dedos de Deus”, ou seja, parte ativa dele, no cerne do finito e há uma continuidade do finito no infinito.

Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido” – Espinosa, Ética I, prop. 15

Nossos atos individuais não são nada mais que a expressão em ato da potência da substância divina. As coisas existem exclusivamente por causa de Deus, ele é a potência do ser, ele é a própria essência de nossa capacidade de pensar e agir. Não se trata de um comandante, um general, mas sim a potência de criação e manutenção do universo. A própria visão da criação divina como obra de um arquiteto é ingênua: Deus não pode escolher a seu bel prazer entre esta ou aquela disposição, ele age necessariamente e de apenas uma maneira que reflete sua perfeição.

Deus age exclusivamente pelas leis de sua natureza e sem ser coagido por ninguém” – Espinosa, Ética I, prop. 17

A beleza deste pensamento, entre tantas implicações, está em novamente inocentar o mundo e a nós mesmos. Somos perfeitos porque um ser sumamente perfeito faria a si mesmo da melhor maneira possível (e também porque não há outros critérios de comparação). ela simplesmente é, pura afirmação de si. Desta natureza naturante seguem-se os efeitos necessários, a natureza naturada.

Estamos mergulhados na natureza divina, nadando naquilo que necessariamente é e não poderia ser de outro modo. Não falta nada ao mundo, nem ele está buscando perfeição. Isso vale para nós: não há pecados nem imperfeições, bem nem mal, pecado nem mérito; cabe então, dentro de nossa natureza finita, encontrar outras naturezas que  se ajustem, se harmonizem com a nossa, aumentado nossa potência.

Guardador de Rebanhos

Fernando Pessoa

se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe

Espinosa quer entender Deus, sua definição real, para dele poder concluir o que se exprime diretamente dele porque tudo decorre de sua essência. Com sua definição de Deus, Espinosa conquista um objetivo de grande relevância para a filosofia, pôr fim ao Deus transcendente, em larga medida imitação barata do homem, imaginação causada pela ignorância, e abre espaço para um Deus verdadeiramente imanente. Vivemos, agimos e pensamos em Deus. Ele é a condição e o horizonte de uma afirmação ontológica.

Vivendo de acordo com a potência em nós, agimos de acordo com as leis de Deus. Somos parte da causa ativa de uma entidade divina, esta afirmação é Seu ato criador. Daí vê-se a incoerência de acusar Espinosa de ateísmo (entre outras coisas). Seu panteísmo expande Deus a todos os cantos. Sua perfeição pode ser encontrada em toda parte. Apenas um inimigo do livre-pensamento cometeria tal injustiça, distorcendo suas ideias. Apenas uma visão ignorante da correta natureza de Deus descartaria tal explicação por uma antropomórfica.