Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita 00 B

Lioba Happel – Poesia

Boa noite.
Poema
Lioba Happel

Um pequeno movimento no sono e eu já sabia
que estava sendo odiada

Não soltei as amarras dos pesadelos
nem bradei gritos raiventos de guerra

Nenhuma bandeira quis ser hasteada
nenhum desespero descer nas canoas por entre talos

Nos canaviais espreita aquele que me ama, aquele que me odeia
Ódio, ódio – está gostando coraçãozinho?

Nisso alguém estica a língua pra você
e você não sabe se está morrendo

de medo ou amando
assim ofuscada você leva a mão sobre os olhos –

como se estivesse à procura da verdade
se é amor, e não ódio, amor que mata

Amor, volte para os arbustos
deixe os galhos tragarem você

esconda-se na vegetação rasteira
amor desfaleça, amor apodreça, desfaleça…

Shakespeare – Poesia

Boa noite.
Soneto CXXX
Shakespeare

Não tem olhos solares, meu amor;
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.

Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.

Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslizando,

Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo

Elisa Lucinda – Poesia

Boa noite.
Penetração do Poema das Sete Faces
(A Carlos Drummond de Andrade)

Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.

Arthur Rimbaud – Poesia

Boa noite.
Poema
Arthur Rimbaud

Para mim.
A história das minhas loucuras.
Há muito me gabava de possuir
todas as paisagens possíveis,
e julgava irrisórias as celebridades
da pintura e da poesia moderna.

Gostava das pinturas idiotas,
em portas, decorações, telas circenses,
placas, iluminuras populares;
a literatura fora de moda, o latim da igreja,
livros eróticos sem ortografia,
romances de nossos antepassados,
contos de fadas, pequenos livros infantis,
velhas óperas, estribilhos ingênuos,
ritmos ingênuos.

Sonhava com as cruzadas,
viagens de descobertas de que não existem relatos,
repúblicas sem histórias,
guerras de religião esmagadas,
revoluções de costumes,
deslocamentos de raças e continentes:
acreditava em todas as magias.

Inventava a cor das vogais!
– A negro, E branco, I vermelho,
o azul, o verde.
Regulava a forma e o movimento
de cada consoante, e ,
com ritmos institivos,
me vangloriava de ter inventado
um verbo poético acessível,
um dia ou outro, a todos os sentidos.
Era comigo traduzí-los.
Foi primeiro um experimento.
Escrevia silêncios, noites,
anotava o inexprimível.
Fixava vertigens.

Nuno Júdice – Poesia

Boa noite.
Astronomia
Nuno Júdice

Vou buscar uma das estrelas que caiu
do céu, esta noite. Ficou presa a um
ramo de árvore, mas só ela brilha,
único fruto luminoso do verão passado.
Ponho-a num frasco, para não se
oxidar; e vejo-a apagar-se, contra
o vidro, à medida que o dia se
aproxima, e o mundo desperta da noite.
Não se pode guardar uma estrela. O
seu lugar é no meio de constelações
e nuvens, onde o sonho a protege.
Por isso, tirei a estrela do frasco e
meti-a no poema, onde voltou a brilhar,
no meio de palavras, de versos, de imagens.