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A ESQUERDA LATINO-AMERICANA PRECISA DAR UMA RESPOSTA SOBRE A AMAZÔNIA: SERÁ QUE ELA CONSEGUE REJEITAR PETRÓLEO, PECUÁRIA E MINERAÇÃO?

O CAPÍTULO DA história da América Latina que teve início em 1998 com celebrações na Venezuela terminou com um golpe e violência na Bolívia. Como ocorre com todas as ondas, a “maré rosa” recua para revelar um terreno transformado. O cenário do movimento de esquerda que produziu governos socialistas variados em uma dúzia de países está quebrado e desiludido. As Américas Central e do Sul enfrentam uma direita ressurgente e o retorno da austeridade, muitas vezes por meio de ataques com gás lacrimogêneo. Esse estado de desordem marca também o terreno literal do continente: as florestas e montanhas foram abertas e rasgadas, seus minerais e hidrocarbonetos enviados para portos e embarcados para o exterior em nome de um projeto socialista cujas realizações se mostraram frágeis, temporárias e superficiais.

Compreensivelmente, nos últimos tempos, a preocupação global com o futuro da Amazônia se concentrou no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro acelerou a destruição da floresta tropical com alegria fascista. Mas, sob o arrepiante desprezo desse regime pela natureza, tratando-a como sendo apenas um estoque de recursos a serem colhidos, existe uma verdade inquietante: sua agenda de extração desenfreada representa uma diferença de grau e estilo, e não de tipo, daquela adotada nas últimas duas décadas por todos os principais países amazônicos. Isso inclui os governos da maré rosa de Venezuela, Bolívia, Equador e Brasil, que promoveram a mineração, a extração de petróleo e a agricultura industrial com a mesma diligência que seus colegas neoliberais no Peru e na Colômbia.

Examinar esse legado não é descartar os ganhos sociais que ele tornou possível, ainda que brevemente. Esses ganhos foram reais e, em alguns casos, impressionantes. Os novos gastos estatais em saúde, educação e programas de subsídios por bloco melhoraram a vida de muitos milhões de pessoas em uma região definida pela imensa desigualdade e uma profunda pobreza endêmica. E, no entanto, como muitos observaram desde o início, esses ganhos só poderiam ser efêmeros, com base nos aumentos orçamentários de um boom de commodities único de uma década impulsionado pela China e, em menor grau, pela Índia. Mesmo antes dos preços do minério e do petróleo começarem a cair em 2012, as coalizões por trás de muitos governos da maré rosa começaram a desmoronar sob as contradições e trocas do que o cientista social uruguaio Eduardo Gudynas, um crítico precoce e influente da maré rosa à esquerda, chamado “neoextrativismo”. Acabou que essa versão do extrativismo, apesar de defendida de varandas de palácios ornadas com bandeiras socialistas e anti-imperialistas, não era tão diferente do modelo praticado por séculos de domínio colonial, militar e neoliberal. Sua principal inovação foi negociar cortes maiores nas crescentes exportações de recursos primários.

Campo de mineração de ouro informal Esperança IV, perto do território indígena Menkragnoti, no Pará, em 28 de agosto de 2019.

Campo de mineração de ouro informal Esperança IV, perto do território indígena Menkragnoti, no Pará, em 28 de agosto de 2019.
Foto: João Laet/AFP via Getty Images

Os rendimentos dos pontos percentuais extras foram muito bons enquanto duraram. Eles também obscureceram o fracasso em avançar um projeto de esquerda democrática para desafiar cinco séculos de espoliação, desapropriação e dependência sistêmicas. O neoextrativismo “possibilitou formas importantes de inclusão socioeconômica e empoderamento político para as massas, ao mesmo tempo em que prejudicou transformações mais radicais”, conclui Thea Riofrancos em “Resource Radicals” (Radicais de recursos), seu próximo estudo sobre a política do extrativismo da maré rosa.

Na Bolívia e no Brasil, as florestas estão em chamas.

No lugar dessas transformações mais radicais, o neoextrativismo acelerou o ciclo de destruição exigido pelo papel histórico da região na economia global. As consequências políticas e ecológicas disso foram mais acentuadas nas florestas tropicais, florestas secas e nas cordilheiras ocidentais que são as fontes do sistema amazônico. À medida que os leilões de mineração e petróleo se multiplicavam, as coalizões de trabalhadores urbanos, pequenos agricultores e povos indígenas se separaram.

“Esquerda ou direita, a ideologia é a mesma: roube nossa terra e destrua o meio ambiente”, disse José Gregorio Díaz Mirabal, coordenador venezuelano da federação de organizações indígenas da Amazônia, ou Coica. “Na Bolívia e no Brasil, as florestas estão em chamas.”

O RELATO DESSA história ocorre, como tudo agora, à luz da crise climática. Como o extrativismo condena a floresta amazônica, um bioma central para qualquer solução concebível para essa crise, uma nova esquerda latino-americana terá de rejeitá-la.

Essa ideia não é nova. Os debates sobre como a América Latina poderia costurar suas veias e criar alternativas a um modelo de “desenvolvimento” ocidental baseado nas exportações de commodities foram centrais para o firmamento de movimentos sociais que os partidos da maré rosa levaram ao poder. Durante os anos 1990, ativistas, estudiosos e figuras políticas da região se empenharam em buscar críticas à globalização e à armadilha extrativista. Antes de Hugo Chávez anunciar a chegada do nacionalismo de recursos “anti-imperialista”, assegurando a estatura da Venezuela e financiando programas antipobreza com rendimentos do petróleo e de projetos de mineração no sul do país, as figuras mais inspiradoras da esquerda latina e global foram os zapatistas no sul México, que exigiam um “mundo onde cabem muitos mundos”. Em centenas de reuniões em cidades pequenas e grandes capitais – das quais o Fórum Social Mundial era apenas o maior –, as bandeiras de arco-íris de grupos indígenas recém-politizados misturavam-se a símbolos socialistas e bolivarianos nos debates sobre como construir uma nova América Latina, que seria socialmente justa e ecologicamente sábia.

Cerca de 30 mil pessoas se reúnem em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 2002, em uma marcha para inaugurar oficialmente o Fórum Social Mundial de cinco dias.

Cerca de 30 mil pessoas se reúnem em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 2002, em uma marcha para inaugurar oficialmente o Fórum Social Mundial de cinco dias. Foto: Douglas Engle/AP

O novo pensamento encontrou sua expressão mais completa no conceito de buen vivir. Como princípio político ou ideologia organizadora, “viver bem” é uma espécie de fusão de ideias indígenas e ocidentais sobre limites, solidariedade, fontes de felicidade humana e equilíbrio da natureza. A expressão sugere uma forte crítica ao mercado, ao pensamento de curto prazo, o materialismo e a exploração das pessoas e do meio ambiente. Foi promovida e adotada pelos governos de Cuba, Venezuela, Argentina, Paraguai, Uruguai e Peru, mas está mais estreitamente associado à Bolívia e ao Equador. Os ex-presidentes Evo Morales e Rafael Correa fizeram campanha em plataformas buen vivir e consagraram o conceito em suas respectivas constituições da maré rosa.

O uso de símbolos e ideias indígenas estava dilapidado quando conheci Alberto Acosta em uma marcha de protesto na cidade de Zamora, no sul do Equador, no final de 2012. Economista de alta estatura, com uma postura um tanto severa, Acosta foi o primeiro ministro de minas e energia de Correa e presidiu a convenção que ganhou as manchetes globais pela inclusão do buen vivir e seus semelhantes “direitos da natureza” na constituição de 2008. Três anos depois, Acosta havia deixado o governo e, desde então, presidiu diferentes tipos de conferências, como a “Movimentos sociais pela democracia e pela vida”, reunidas para organizar a oposição de esquerda a Correa e ao neoextrativismo da maré rosa.

Na manhã em que o entrevistei, ele falou enquanto marchava atrás da bandeira de sete partidos aliados de esquerda que haviam sido fundados em oposição ou deixado a coalizão “Unidade” de Correa. “Não há nada de novo no plano de desenvolvimento de Correa”, ele me disse. “Ele cita os teóricos das escolas dependentista, mas sua ideia é o mesmo modelo econômico de periferia central de exportação de matérias-primas. Ele substituiu o tio Sam pelo tio Chen” – a China – “para sustentar seus programas sociais e sua posição política à custa do desenvolvimento real. Nós resistimos a esse modelo da mesma forma como resistimos ao neoliberalismo.”

Como o extrativismo condena a floresta amazônica, uma nova esquerda latino-americana terá de rejeitá-la.

Eu estava no Equador na época fazendo uma reportagem que ilustrava a crítica. O governo de Correa havia aprovado planos para uma megamina de cobre e ouro a céu aberto na Cordilheira do Condor, um importante ponto biológico, corredor de espécies e divisor de águas no noroeste da Amazônia que abrigava milhares de povos indígenas, majoritariamente Shuar, e agricultores mestiços. A mina, então nos estágios iniciais de construção por um conglomerado chinês chamado ECSA, já estava deslocando comunidades. Quando concluída, deslocaria muito mais e poluiria a terra e a água de quem lá permanecesse. Correa criminalizou a oposição ao projeto e atacou seus críticos como patetas e agentes imperialistas. Em Quito, um ativista da ONG Clínica Ambiental me mostrou o nome de centenas de ativistas que estavam na prisão ou encarcerados. “Como Correa representa a esquerda, fazer oposição a ele rende acusações de se estar apoiando o antigo regime que levou todos à falência. Mas ele provou ser neoliberal com toques redistributivos. Ele evitou pactos com os EUA, mas vendeu o país para a China.”

Na Bolívia, uma versão mais suave da mesma dinâmica começou a ocorrer em 2012. A expansão da mineração e da agricultura industrial pelo governo de Morales causou deserções precoces de figuras-chave nos movimentos sociais forjados durante as chamadas guerras de água e gás do início dos anos 2000, antes de levar Morales ao poder. A grande oportunidade veio em 2011, quando Morales anunciou planos para construir uma estrada de 300 quilômetros através das florestas tropicais primárias do território indígena Isiboro Sécure. O governo alegou que seu objetivo era fornecer melhores serviços sociais para aldeias remotas, mas os grupos indígenas bolivianos entenderam corretamente a rodovia como parte de um projeto de longo prazo para industrializar as florestas de terras baixas, eventualmente conectando-as à rede de transporte da Amazônia encontrada nos documentos de planejamento de um superprojeto liderado pelo Brasil chamado Iniciativa para a integração da infraestrutura regional da América do Sul, ou IIRSA. (A rodovia é financiada pelo BNDES e acompanha de perto as terras sobre as quais a gigante petrolífera brasileira Petrobras detém direitos de exploração.) À medida que a resistência se espalhava, Morales invadiu os escritórios de grupos indígenas que se opunham à rodovia e substituiu à força os líderes por aliados seus. Ele acusou publicamente seus críticos, incluindo o antigo presidente da Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia Adolfo Chávez de serem “agentes da USAID” – a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional – e os acusou de crimes graves. Eles se esconderam até que a Suprema Corte do país reverteu as acusações.

Da esquerda para a direita: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente do Equador, Rafael Correa, chegam a um desfile militar em comemoração aos 200 anos do início do movimento de independência da Bolívia em La Paz, em 16 de julho de 2009.

Da esquerda para a direita: o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente do Equador, Rafael Correa, chegam a um desfile militar em comemoração aos 200 anos do início do movimento de independência da Bolívia em La Paz, em 16 de julho de 2009.
Foto: Patricio Crooker/AP

“Nós apoiávamos Morales e Correa porque os partidos de esquerda prometeram respeitar nossos direitos, mas eles quebraram as promessas e enfraqueceram nossas organizações”, disse-me Chávez recentemente. “Tínhamos um plano coerente para ajudar o governo a construir indústrias sustentáveis que protegessem as florestas e os rios. Os padrões nunca mudaram. Ainda estamos sujeitos a transnacionais que têm igualmente relações com partidos de esquerda e direita igualmente.”

Não foram apenas os autodeclarados países bolivarianos da maré rosa que adotaram o neoextrativismo. No Brasil, os governos do Partido dos Trabalhadores de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff reforçaram as proteções em grandes áreas da Amazônia, ao mesmo tempo em que adotaram a visão de longo prazo da IIRSA: uma região pontilhada de barragens para abastecer as operações de mineração e conectada por estradas e ferrovias para facilitar o fluxo cada vez maior de matérias-primas para os portos nas costas do Atlântico e do Pacífico. Nas duas administrações, a mineração se expandiu por todo o país, inclusive na Amazônia. Mas foi outra expansão mais silenciosa que provavelmente teve o maior impacto climático: o “deserto verde” da agricultura industrial continuou a consumir as florestas secas e savanas remanescentes do Cerrado, um sumidouro de carbono que antes era maciço, mas que desaparece rapidamente, que se espalha por meia dúzia de estados no planalto central do Brasil.

O desafio enfrentado por uma esquerda pós-extrativista transformacional é assustador. Para tomar e manter o poder, precisará responder à acusação de Correa de que os defensores do pós-extrativismo querem que os pobres do continente vivam como “mendigos em um saco de ouro”. Será necessária uma visão e um plano para resolver o enigma proposto pelo acadêmico de esquerda e crítico de Correa, Pablo Ospina Peralta: “Como se revoluciona a economia quando o governo depende da saúde da economia que procura revolucionar?”
Quaisquer que sejam as especificidades da resposta, o caso se beneficiará das falhas de séculos de extrativismo. A América Latina, onde foi concebido o condomínio fechado, é a região mais desigual do mundo, com profunda pobreza estrutural cada vez mais agravada pela poluição e pelos efeitos da crise climática. O fato de que essas questões podem ser fortemente emparelhadas ficou visível no mês passado nas ruas de Quito, no Equador. Após uma greve de 11 dias em protesto contra um pacote de austeridade anunciado, o presidente Lenin Moreno, que sucedeu Correa em 2017, cedeu ao encontro com líderes indígenas que estavam à frente dos protestos de rua em oposição à proposta de cortes sociais e reformas trabalhistas – e pelo fim da exploração de petróleo e da mineração na Amazônia. No Chile, onde a devastação causada por décadas de mineração desenfreada tornou-se impossível de ignorar, manifestantes urbanos estão agitando bandeiras mapuches, cujo simbolismo colorido de buen vivir retrata sangue indígena, terra, sol, montanhas cobertas de neve e esperança.

A América Latina detém quase metade do cobre e da prata do mundo, um quarto do níquel e da bauxita, e reservas dispersas de metais “tecnológicos” usados em computadores, painéis solares e células de combustível de última geração.

“Algo está se agitando”, disse Arturo Escobar, estudioso colombiano-americano cujo livro de 1995 “Encountering Development (Encontrando o desenvolvimento)”, deu forma a debates emergentes sobre desenvolvimento e crescimento. “Existem fissuras visivelmente crescentes no consenso dominante sobre o modelo político, econômico e de desenvolvimento, incluindo o ‘consenso sobre commodities’ dos anos 2000 e 2010 que causou uma devastação ecológica maciça. As pessoas estão novamente falando de uma crise civilizacional, que, na melhor das hipóteses, leva à possibilidade de uma nova época que questione as antigas suposições e se mova em direção a uma política de buen vivir – com orientação mais comunitária, ecológica e espiritual.”

Pode parecer absurdo que possa surgir um movimento para construir uma nova ordem social e satisfaça as necessidades humanas enquanto protege e regenera os rios e florestas. Mas não é mais irrealista do que acreditar que uma economia baseada no consumo e no crescimento possa alcançar o equilíbrio ecológico.

Dragas no rio Madre de Dios, no território indígena de Tacana, perto de La Paz, na Bolívia, em 31 de agosto de 2019.

Dragas no rio Madre de Dios, no território indígena de Tacana, perto de La Paz, na Bolívia, em 31 de agosto de 2019.
Foto: Ernesto Benavides/AFP via Getty Images

As chances de sucesso de tal movimento dependerão do sucesso de movimentos aliados em outros lugares. Os mercados de commodities escreveram grande parte da história da América Latina, e a demanda global por matérias-primas continuará a exercer uma poderosa influência. Isso será verdade mesmo em uma versão “esverdeada” do sistema atual. Uma mudança global dos combustíveis fósseis pouparia a Amazônia de mais devastação do desenvolvimento de petróleo e gás, mas não de ser aberta para monoculturas ou destruída na busca por metais raros para construir iPhones com carregamento solar atualizados anualmente e o mais recente SUV de desempenho totalmente elétrico da Jaguar. Um sistema baseado em crescimento que funcione em uma rede descarbonizada ainda exigirá insumos massivos dos materiais primários encontrados nos solos e rochas dos nove países da Amazônia. A América Latina detém quase metade do cobre e da prata do mundo, um quarto do níquel e da bauxita (alumínio), e reservas dispersas de metais “tecnológicos” usados em computadores, painéis solares e células de combustível de última geração. Em um artigo recente sobre a indústria de lítio da Bolívia para a New Republic, a colaboradora do Intercept, Kate Aronoff, observa que alimentar a economia atual com energias renováveis consumiria as reservas mundiais de lítio em um período muito curto de tempo. Tentar manter uma versão “verde” da sociedade de consumo global pode levar a uma disputa por metais raros capaz de fazer com que as ondas de extrativismo anteriores pareçam suaves em comparação.

Se a América Latina se recusasse a abrir suas veias para esses recursos, encerraria seu papel como banco de recursos global, que começou de maneira não consensual com as economias escravistas do século XVI, que carregavam navios europeus com ouro, prata e açúcar. Existem pequenos precedentes para essa recusa. El Salvador proibiu toda a mineração de metais em 2017 para proteger sua água. A Costa Rica há muito tempo aplica uma proibição limitada de mineração. Em todos os países onde a mineração é desenfreada, os movimentos estão se organizando por trás de agendas pós-extrativistas, guiadas pelos valores ecossocialistas do buen vivir.

Os grupos indígenas são apenas parte deste projeto, mas estão na frente e desempenham um papel único. Eles trazem um conhecimento vivo de alternativas e são os que estão ameaçados mais diretamente com a extinção. Uma das vozes indígenas mais proeminentes de um curso diferente é Juan Carlos Jintiach, coordenador de planejamento econômico da COICA e, muitas vezes, a única voz indígena presente em ambientes como a Convenção sobre Diversidade Biológica, as Nações Unidas e o Banco Mundial. Ele não é ingênuo nem resignado, mas se concentra nas gestações das emergências sobrepostas do momento.

“Este é um momento confuso e arriscado”, disse Jintiach. “É um momento que exige mobilizações sociais que transcendam esquerda e direita e nos conectem uns aos outros e com a terra. O buen vivir contém os conceitos, mas é uma linguagem que a outra sociedade nem sempre entende. Estamos construindo alianças para mostrar que há outra maneira. Não é nossa luta, é de todos. Neste momento, há uma tempestade, uma forte tempestade. Mas, no momento em que acordarmos, veremos o céu.”

Alexander Zaitchik/ITB-Tradução: Cássia Zanon

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A “direita de verdade”: lições aplicadas em deformação da história

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Caminhos e Quartéis

A paralisação dos caminhoneiros em 2018 forneceu um cenário perfeito para acertar alguns ponteiros. Houve muitas discussões sobre a natureza dessa paralisação (se foi um greve ou um locaute) e a clara tentativa de captura dessa movimentação por grupos de extrema-direita que clamam por um golpe militar – eufemisticamente chamado de intervenção.

Mas eu não vou falar sobre a paralisação em si, nem sobre a emergência, cada vez mais descarada, de gente tentando dar um golpe à direita. Recomendo aos ouvintes que escutem o Anticast #339, que tem um ótima discussão sobre combustíveis e a Petrobrás no contexto nacional e internacional, obrigado ao Thales Nogueira e ao Leandro Tavares e à Jaqueline Ganzert; o Política em Transe #14, onde o Rafael Saddi fala coisas muito interessantes sobre trabalho precarizado e sobre a experiência dele junto a um dos pontos de mobilização da greve; e finalmente, o Revolushow #18 onde o Zamiliano e a Marília Moscovitch discutem questões sobre greve e locaute e discutem também o legado de repressão aos movimentos grevistas durante a ditadura.

A paralisação deixa um monte de lições sobre o Brasil e nossa atuação situação política. Sobre o declínio de valores democráticos no cenário global e sobre a miopia de certas posturas diante de uma situação que exige mais política de Estado que qualquer outra coisa.

Mas ela também abriu cisões e discussões dentro da própria direita brasileira. Discussões sobre que variavam da defesa do funcionamento da Petrobras num molde estritamente compatível com o de uma companhia privada (mais comum entre os liberais), e outros defendendo que combustíveis em alto valor oneram o empresariado e seriam ruins. No meio disso tudo a direita nacionalista a lá Enéas Carneiro quase gritando “o petróleo é nosso” tentando capturar um discurso clássico nas esquerdas.

Bolsonaro deu apoio aos grevistas e chegou a prometer indulto a eles caso fosse eleito. Mais tarde voltou atrás, mas só depois de toda alta cúpula militar enviar mensagens nas quais demonstraram não ter desejo de corresponder aos anseios dos intervencionistas. Outros candidatos à direita variaram sua opinião Alvaro Dias, Geraldo Alckmin,

E aí logo se instaurou todo tipo de discussão. Apoiar grevista é coisa que um conservador deve fazer? Intervenção militar é coisa de coletivista? Um verdadeiro direitista não deveria dar mais crédito a Pedro Parente, suas políticas de preços aos preceitos do mercado?

E aqui, eu peço que o leitor me deixe fazer uma abstração, uma especulação. Eu não gosto de especular para produzir um argumento porque é uma tática fácil e preguiçosa. No entanto, par o ponto desse específico desse texto  eu peço licença para fazê-lo, especialmente diante do que nós vamos discutir a partir de agora.

Imaginem que num futuro próximo essa massa de bolsonaristas e viúvas da ditadura consegue instaurar um regime ditatorial no Brasil. Primeiro tentam guiar tudo com um ar de normalidade e depois, em nome da superioridade moral que defendem, esses grupos cometem crimes horrendos tanto com o aval do Estado quanto à revelia dele. Anos e pilhas de cadáveres depois, a ditadura acaba, e o Brasil – ou o que restou dele – entram novamente em vias de ensaiar uma democracia.

E aí novamente temos os conservadores buscando seu lugar no discurso público, alguns deles egressos do regime ou mesmo perseguidos por ele. Nos primeiros anos os últimos produzem obras onde tentam descrever como tudo saiu do controle naquela situação…. e anos mais tarde os primeiros começam a fomentar uma ideia muito absurda (mas muito familiar para os tempos de agora): essa ditadura foi violenta porque não era guiada por princípios conservadores, ela era de esquerda.

Vejam como é simples. Para conseguir justificar seu ponto eles vão usar dados reais (por exemplo, esse apoio de políticos de direita a grevistas), o discurso nacionalista de parte da direita, o mesmo descontentamento da esquerda e da direita no Brasil com meios de comunicação.

Também vão usar muito habilmente o fato de que o guru do conservadorismo que fundamentou o golpe de estado tinha, ele próprio, sido um comunista na juventude! E que sua retórica era totalmente impregnada de discursos revolucionários sobre “organizar as massas” e várias linhas escritas contra as “elites globalistas”.

E depois disso escreverão livros dizendo que os princípios conservadores são outros: o de uma cautela com a mudança brusca, do respeito às liberdades individuais, entusiasmo pelo livre mercado, entre tantos outros.

Vocês já leram algo parecido? Pois.

Esse é o mesmo tipo de recurso retórico usado para dizer, por exemplo, que o nazisfascismo seria um movimento de esquerda, e que hoje representa a base para toda uma filosofia política do mundinho paralelo construído por uma nova direita  nos Estados Unidos e no Brasil.

Isso é algo muito fácil de fazer, especialmente quando se parte de uma posição fixa sobre o que é esquerda ou direita no mundo e na história. Eu poderia dizer que esquerda é aquela que respeita direitos civis e liberdades e falar que o camarada Stálin foi um conservador e traidor dos preceitos do verdadeiro socialismoOu que sua supressão dos dissidentes impediu que os trabalhadores voltassem a poder se organizar e que ele traiu os preceitos do marxismo leninismoOu poderia escrever um livro dizendo que ele era um centrista nacionalista, por suas alianças táticas com o conservador Churchill e o liberal Roosevelt. Há tantos fatos, que se eu for selecionar todos eles com cuidado (enfatizando e omitindo conforme a conveniência) eu posso transformar Joseph Stálin num tipo alienígena, fora do ideal de esquerda que eu ou outro descrevemos como ideal. Especialmente, como disse antes, se partir de um pressuposto qualquer sobre o que seria esquerda e direita.

E isso seria um erro, claro, porque eu acredito que o stalinismo representa um tipo de despotismo que poderia acontecer numa situação de revoluções, guerras e centralização de poder.

A direita que ascende ao poder no mundo guarda tantas similaridades com o espectro do nazifascismo que parte mandatória de seu funcionamento está na criação de uma novilíngua que permita dizer que essas ideologias derrotadas na 2a Guerra seriam uma criação da esquerda. Não interessa a essa suposta “inteligência conservadora” que os neo nazistas de Charlottesville marchem com suásticas, apoiem Donald Trump e digam defender valores conservadores.

Quando Charlottesville e outras marchas neonazistas aconteceram nos EUA, a inteligência conservadora da nova direita correu para dizer que o “nazifascimo é de esquerda”. Incapazes de explicar por que os nazifascistas defendem e apoiam o mesmo presidente que eles elogiam, outros ainda produziram uma versão ainda mais cretina: o bilionário filantropo George Soros é quem financiado a quela manifestação.

Há elementos e correntes na nova direita que querem adotar partes do projeto nazifascista (anticomunismo violento, nacionalismo étnico, ultraconservadorismo), usar as teorias da conspiração do nazifascismo (como a do marxismo cultural), quer o apoio eleitoral de mobilização dos nazifascistas (vejam como Trump sempre é incapaz de condená-los) e por isso PRECISAM desesperadamente criar uma narrativa que os separe dos regimes autoritários que iniciaram a maior guerra da história e quase destruíram, de fato, a Civilização Ocidental que tal direita diz proteger.

A fronteira e o trumpismo brasileiro

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Texto de uma coluna antiga no Viracasacas.

Donald Trump lançou sua candidatura nas primárias do partido Republicano dizendo que o México não estava mandando as melhores pessoas para os EUA. Mexicanos que cruzavam a fronteira ou permaneciam no país após o vencimento de vistos temporários eram, segundo ele, criminosos (traficantes, estupradores) e, alguns, segundo ele eram boas pessoas.

Anos antes, em 2000, Trump havia anunciado que ia concorrer às primárias do Partido Reformista, algo que havia saído de uma ala mais extremista do Partido Republicano, mais focado em nacionalismo extremo, conservadorismo cultural e outras agendas que haviam feito parte da administração Reagan mas não eram sua principal agenda. O partido havia saído dos esforços da candidatura independente de Ross Perot, que na campanha de 1992 conseguira 8% do voto popular e, dizem as más línguas, teria tirado votos do eleitorado Republicano e ajudado na eleição de Bill Clinton para a Casa Branca.

Perot tinha um discurso familiar: era um empresário bem-sucedido, conservador, anti-imigração e também contra o NAFTA que, segundo ele, sugaria os empregos dos norte-americanos em direção ao México. Dizia que a imigração ilegal estaria destruindo os Estados Unidos. O partido Reformista também tinha em suas fileiras o paleoconservador Pat Buchanan (sem parentesco com James Buchanan), que é uma das figuras centrais na guinada do conservadorismo norte-americano de volta ao nacionalismo racista. Como várias das figuras que emprestam sua expertise intelectual a essa nova classe de demagogos de direita, Buchanan integrou o mainstream conservador nos EUA – tanto que aparece brevemente como personagem na versão cinematográfica de Watchmen.

Quando Donald Trump ingressa na campanha pelas primárias do Partido Republicano ele carrega consigo Perot e Buchanan, e soma ambos a sua longa carreira como personagem de tabloides, escândalos e reality shows. Seu retorno aos holofotes depois de uma série de negócios malsucedidos tinha vindo não apenas do sucesso de O Aprendiz, mas de seu papel central numa campanha difamatória contra o então presidente Barrack Obama que, segundo Trump, não seria norte-americano e também seria secretamente um muçulmano.

Trump passou a campanha inteira demonizando muçulmanos, latinos e ativistas pelos direitos dos afro-americanos. Contra essa legião de estrangeiros que ousa tentar entrar nos Estados Unidos, prometeu construir um muro na fronteira com o México – já extremamente militarizada desde a década de 1990 – e disse que obrigaria o país vizinho a pagar os custos.

Trump congregou em torno de si uma porção de ativistas e lobistas que, nas entranhas do Partido Republicano, espalhavam alarmismo e passavam a tratar imigrantes como hordas invasoras. Steve Bannon talvez tenha se tornado a mais famosa dessas figuras, considerado o patrono do “conservadorismo cultural” que engendrou uma série de movimentos neofascistas nos Estados Unidos – acabou desligado da Casa Branca, não por sua postura política, mas pela oposição a Jared Kushner e Ivanka Trump (o genro e a filha do presidente, respectivamente).

Stephen Miller é outro desses republicanos. A atual política de separação mandatória de famílias que cruzam a fronteira foi obra dele, mesmo agora ele diz que o ultraje provocado pela decisão é uma virtude, não um problema. Para Miller, é bom que os americanos estejam pensando em imigração ao ir votar nas eleições de 2018, onde vão eleger governadores, senadores, congressistas e prefeitos.

Miller começou sua carreira como secretário de imprensa para congressistas Republicanos. Mas foi sob Jeff Sessions, então senador pelo Estado do Alabama, que ele brilhou. Teve um papel central na derrota da proposta de reforma da imigração apoiada por políticos Democratas e Republicanos da chamada Gang of Eight, escrevendo muitos dos discursos que Jeff Sessions viria a proferir contra a reforma. Miller e Sessions desenvolveriam ali o que Miller chamaria de “populismo nacional”, em contraponto ao liberalismo social, à globalização e à imigração.

Antes disso, quando estudava Ciência Política na Universidade de Duke, Miller era conhecido por suas diatribes contra estudantes latinos, chegando dizer que eles não deveriam falar outra língua que não o inglês. Enquanto denunciava movimentos de minorias étnicas e imigrantes por uma suposta pregação de “superioridade racial”, Miller integrava a União Conservadora da Universidade de Duke com ninguém mais ninguém menos que Richard Spencer – o nazista que levou um soco na cara. Ambos trabalharam para promover um debate entre Peter Laufer, um ativista por fronteiras abertas, e o jornalista Peter Brimelow. Brimelow era um ativista conservador, que naquele momento dizia se opor à imigração por motivos econômicos mas que também se tornaria uma figura central no renascimento do nacionalismo racista nos Estados Unidos. Spencer descreve que Miller e ele eram próximos quando eram estudantes mas Miller nega qualquer relação dessa natureza.

Jeff Sessions, o senador do Alabama que viria a ser o procurador geral do governo Trump, tinha sido nomeado por Reagan para o cargo de juiz do Distrito Sul do Alabama. Sessions não assumiu o cargo porque, segundo um bocado de testemunhas, não apenas demonstrava um claro viés contra afro-americanos como dizia que organizações como a NAACP (Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor) e a ACLU (União pelas Liberdades Civis Americanas) seriam “anti-americanas” e “inspiradas pelo comunismo”. Sessions acabou não assumindo o cargo, mas viria a ser Procurador Geral do Alabama (onde ia defender um modelo inconstitucional de verbas para a educação que iria beneficiar imensamente distritos ricos e majoritariamente brancos e prejudicar distritos pobres e majoritariamente negros). Entre 1997 e 2017, Sessions ocuparia a cadeira de Senador pelo Estado do Alabama.

E então nós chegamos nesse momento. A administração Trump diz que quer combater a imigração ilegal, atividade que segundo eles é culpada por todos os males que se abatem sobre os Estados Unidos – reais e imaginários. A decisão de implementar uma política de “tolerância zero” e processar criminalmente o maior número possível de adultos que cruzam a fronteira foi do uma decisão anunciada várias vezes em 2017 – inclusive a decisão de retirar as crianças de seus pais ou acompanhantes. Implementada em 28 abril desse ano pelo procurador geral Jeff Sessions, tal política vergonhosa e suas consequências se tornaram públicas e foram objeto de ultraje no mundo inteiro.

Diante disso a administração Trump disse apenas estar cumprindo a lei e, como já fez inúmeras vezes, culpou o Partido Democrata por uma política gestada e implementada no interior do poder executivo e do aparato de segurança nacional. Depois negou que a política existisse, depois disse que ela tinha sido implementada por Barack Obama. Durante a era Obama, dezenas de milhares de crianças e menores de idade foram apreendidos cruzando a fronteira desacompanhadas, ou sob a guarda de estranhos (Coyotes), e chegaram a ser detidas por até 20 dias. A maioria das pessoas que cruzam as fronteiras dos EUA hoje em dia estão fugindo de conflitos e violência em Honduras, El Salvador e outras nações da América Central. E naquela época, a 4 anos atrás, a imagem de crianças e adolescentes detidos também causou ultraje – e foi utilizada tanto pela esquerda como por conservadores, como Glenn Beck, para atacar sua administração.

As diretrizes de deportação da era Obama tornavam prioritários os casos de elementos considerados perigosos – como os tais membros de gangues. Assim que tomou posse, Trump revogou essas diretrizes abrindo caminho para as políticas que adota hoje.

Mas o trumpismo, como toda a Nova Direita, é calcado numa máquina de negação e distorção de fatos. Trump, como todo bom líder de um movimento de idiotas, deve ser louvado como autoridade moral, cujas decisões são sempre perfeitas, nem que para isso seja necessário apagar ou reescrever o passado. Se ele ameaça um conflito nuclear e mais tarde decide negociar outra solução, torna-se merecedor do Nobel da Paz. Se adota uma política desumana que separa crianças migrantes de seus pais e mais tarde volta atrás deve ser louvado como um líder benevolente que acabou com uma política vil e imoral da qual sua administração seria incapaz.

Quando Trump compara migrantes a animais, ou diz que eles infestam os Estados Unidos, que fariam parte de um plano sinistro do Partido Democrata para garantir eleitorado, basta dizer que não foi bem assim… ele estava falando da gangue MS-13 que hoje aterroriza El Salvador. Ele perdeu o voto popular? É culpa dos supostos ilegais que votaram. Sua cerimônia de posse estava vazia? É mentira da mídia fake news.

E aqui surge a criatura mais peculiar em toda essa história: o trumpista brasileiro. Mestre no contorcionismo, essa criatura vai endossar toda e qualquer narrativa da Casa Branca e dos comentaristas profissionais que cercam Trump. Nesse mundo paralelo, toda a América Central está sob domínio comunista, o que explicaria os refugiados, e Trump é uma espécie de campeão contra um bloco comunista imaginário.

Esses exercícios de ficção são muito úteis: servem para esconder o que está por detrás das decisões do governo Trump e como essas políticas estão sendo desenhadas para exercer crueldade desnecessária aqueles que Donald Trump elegeu seus inimigos desde o primeiro discurso de campanha. O trumpista brasileiro, seja o comentarista conservador profissional, seja o idiota útil que acha que Trump liga pra suas convicções morais ou religiosas, é incapaz até mesmo de se comover com crianças brasileiras separadas dos pais. O problema passa a ser a infração da lei e não a penalidade obscena e desproporcional. É a mesma turma que diz que defende a família, mas assim que as forças de segurança matam uma criança em alguma favela do Rio de Janeiro, começam a difamar a vítima e dizer que ela era do tráfico – mesma estratégia que usaram contra a memória da vereadora Marielle, depois de seu assassinato.

Quando crianças são mortas em bombardeios no Oriente Médio, diga que eram terroristas, quando forem detidas nas fronteiras, lembre-se das gangues.

Não esperem nada diferente, afinal de contas já nos ensinaram que o mal é banal.

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Roma: “No fim das contas, os fascistas nunca desapareceram”

Capital italiana reflete caos social e político do país, com resquícios do passado na arquitetura e nas cabeças. E quando Salvini adota retórica ultradireitista, nostálgicos do fascismo se sentem cada vez mais à vontade.    

Estátua de homem no Foro Italico de RomaForo Italico, ex-Foro Mussolini, evoca tempos de política ameaçadora

“As pessoas aqui não estão interessadas em entender o que está acontecendo em torno delas, elas só querem viver a própria vida”, diz o proprietário Pietro Di Placidi, fumando um cigarro à sombra da Hostaria Lo Sgobbone, mantida por sua família no bairro Flaminio, em Roma.

Assim como outros residentes críticos desse distrito construído durante o regime fascista (1922-1943), ele acredita que uma mistura de individualismo, cultura arraigada e complexas estruturas de poder estão entravando uma mudança positiva na capital italiana.

As principais reivindicações dos romanos, sob a prefeita Virginia Raggi, do antissistema Movimento Cinco Estrelas, são infraestrutura eficiente e sistema de coleta de lixo eficaz. Em julho, médicos alertaram sobre os riscos de saúde decorrentes da continuada emergência de resíduos, que também afetou zonas mais abastadas do norte da metrópole, como Flaminio.

Como costuma ocorrer em Roma, o bairro é uma mistura de épocas diferentes. Por um lado, abriga dois locais culturais de ponta: o complexo Parco della Musica, projetado por Renzo Piano, e o MAXXI (Museu Nacional de Arte do Século 21), de Zaha Hadid.

Italien Rom Spuren des Mussolini-Faschismus (DW/S. Matalucci)Dono de restaurante Pietro Di Placido critica relação de compatriotas com realidade italiana

Contudo Flaminio também está pleno de arquitetura fascista e racionalista. Para parte dos moradores, retornar ao passado é um modo de encontrar resquícios de glórias antigas em tempos adversos.

Umas centenas de metros afastado do restaurante Lo Sgobbone, vê-se o Obelisco a Benito Mussolini, com “Mussolini Dux” ainda gravado no mármore branco. O monumento de 17 metros de altura se localiza perto de uma rua popular, por onde centenas de transeuntes passam todos os dias. A apenas três minutos a pé, está Foro Italico, o estádio da cidade, denominado Foro Mussolini durante a era fascista.

O debate sobre se as autoridades deveriam intervir para remover a gravação do obelisco, é recorrente. Alguns até já propuseram demolir o complexo esportivo. Ali foi celebrada a lenda do tênis Rafael Nadal como “Imperador”, em maio, após vencer seu nono título.

Obelisco Mussolini em RomaDizeres “Mussolini Dux” no obelisco são pedra no sapato de muitos romanos – e motivo de orgulho para outros

“Não creio que derrubar monumentos ou obras arquitetônicas de valor vá nos proteger do fascismo ou do neofascismo”, duvida Alessandra Tarquini, docente de história contemporânea na Universidade La Sapienza. “Se é praticável, podemos pô-los em museus, se não, como no caso do Foro Italico ou da EUR [outro bairro erguido durante o fascismo], devemos deixá-los onde estão.”

Edifícios fascistas são encontrados por todo o país. Em julho, Roberto Canali, prefeito de extrema direita de Predappio, no centro da Itália, local de nascença de Mussolini, anunciou plano de abrir a cripta do ditador aos turistas durante todo o ano. No momento, os visitantes, em grande parte neofascistas, só podem visitar o local três vezes por ano. Canali alega que a medida ajudaria o comércio local.

“Não acho que o que estamos vivenciando na Itália, no nível político, seja fascismo”, avalia Tarquini. “Os políticos atuais me parecem populistas de direita, comprometidos em defender um mundo que não existe mais, preocupados em perder a identidade, soberania e poder aquisitivo.”

Benito Mussolini em 1945Benito Mussolini governou a Itália de 1922 até sua morte, em 1945

Nos últimos meses, fizeram manchete em Roma diversos crimes relacionados ao radicalismo de direita. Em junho, um homem do Gâmbia teve que ficar hospitalizado um mês, após ser agredido no centro da capital por dois homens ligados à ultradireita.

Em 7 de agosto, o torcedor de futebol Fabrizio Piscitelli – autoproclamado fascista conhecido como “Diabolik” ou “rei do ultras de extrema direita” –, foi abatido a tiros num parque do sudeste da cidade. Nos últimos 12 meses, grupos militantes têm repetidamente pichado slogans como “Fascismo vive” nos escritórios do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda.

“Fato é que [o ministro do Interior Matteo] Salvini não é um fascista”, afirma Tarquini. “No entanto, quando um membro destacado do governo, como Salvini, usa o léxico fascista, dando uma piscadela para o eleitorado radical de direita, é provável que os saudosistas do fascismo se sintam mais livres para expressar suas opiniões.”

Stefano Moreschini, dono de uma banca de jornais em Flaminio, não tem os calendários de Mussolini tradicionalmente vendidos na capital italiana no fim do ano. Entretanto ele compra e vende discos com discursos do ditador, velhas canções fascistas e música de Richard Wagner, assim como revistas ultradireitistas.

Revistas e discos sobre temas fascistas e nazistasDe revistas a hinos patrióticos e música de Wagner, não faltam suvenires para os saudosistas nazi-fascistas em Roma

“Há muitos nostálgicos nas vizinhanças. Não só os mais velhos, mas também quarentões. Eles reagem desse jeito porque a política nacional tornou o país irreconhecível”, explica Moreschini, acrescentando que diversificou a oferta de sua banca para incluir suvenires fascistas por causa da queda de faturamento.

“Uns anos atrás, eu vendia 150 exemplares do [jornal publicado em Roma] Il Messaggero, agora são uns 50. Mas sempre vendo todas as cópias do Primato Nazionale“, relata, referindo-se ao jornal mensal de extrema direita nacionalista fundado em Milão há seis anos.

Não é possível prever se pode ocorrer um retorno dos fascistas, mas está claro que as atuais fragilidades políticas, associadas a emergências regionais e a claudicante economia italiana, estão aumentando a visibilidade das ideias ultradireitistas.

“No fim das contas, os fascistas nunca desapareceram de verdade”, pontifica Pietro Di Placidi, enquanto limpa a Hostaria Lo Sgobbone, depois que a freguesia da hora de almoço se foi.

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Deus vult: uma velha expressão na boca da extrema direita

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Foto Agência Pública BRUNO FONSECA

Historiador Paulo Pachá explica conceitos ligados às Cruzadas que contagiaram bolsonaristas

“Deus vult”, expressão do latim que em português significa “Deus quer”, vem estampando camisetas, textos, tatuagens e tweets da extrema direita mundial desde que Donald Trump resolveu se lançar candidato à presidência dos EUA, em 2016. O termo, que data do início do milênio passado (1095), faz referência ao grito do povo em resposta ao papa Urbano II, quando do anúncio da Primeira Cruzada pelo pontífice, explica Paulo Pachá, professor de história medieval da Universidade Federal Fluminense (UFF) nesta entrevista à Pública.

Pachá, autor do artigo Por que a extrema direita brasileira ama a Idade Média europeia, avalia que esse discurso medieval envolve uma série de preconceitos como racismo, homofobia, islamofobia e machismo. “Essa Idade Média aparece como um passado idealizado por esses grupos, onde você teria uma sociedade que é majoritariamente, se não exclusivamente, branca, cristã e patriarcal.”

No Brasil, essa referência cruzadista tem sido utilizada por bolsonaristas na esteira da direita alternativa norte-americana, também conhecida como alt-right. “Está decretada a nova cruzada. Deus vult!”, comemorou no Twitter o analista político Filipe Garcia Martins quando da vitória de Bolsonaro. Aluno de Olavo de Carvalho e atual assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Martins escreveu durante a posse: “A nova era chegou. É tudo nosso! Deus vult!”.

Além dele, outros apoiadores bolsonaristas têm feito uso da expressão. “Precisamos de um São Bernardo de Claraval [abade encarregado pelo papa de pregar a Segunda Cruzada] para animar novas Cruzadas. CHEGA”, escreveu o tuiteiro e youtuber Bernardo P. Küster, após ataques de terroristas muçulmanos contra cristãos no Sri Lanka em 21 de abril deste ano.

A produtora Brasil Paralelo, por exemplo, autora do documentário que relativiza o golpe militar, 1964 – O Brasil entre armas e livros, produziu recentemente uma série documental chamada Brasil – A última Cruzada, na qual apresenta uma interpretação de personalidades e pesquisadores de direita sobre a história brasileira. Também o portal Senso Incomum publicou no início de abril o podcast “Deus vult – As Cruzadas salvaram o mundo”, narrado pelo influenciador digital Flávio Morgenstern.

Apesar de estudar um período longínquo, Pachá acredita que “o discurso sobre o passado não é inócuo, ele tem consequências no nosso presente” e explica a seguir esse fenômeno que avalia não como revisão, mas sim negação da história e da ciência.

Vemos recorrentemente no discurso da extrema direita referências às Cruzadas e a uma “nova Cruzada” que estaria ocorrendo hoje. O que eles querem dizer com isso?

Paulo Pachá é professor de história medieval da Universidade Federal Fluminense.
Paulo Pachá é professor de história medieval da Universidade Federal Fluminense. ARQUIVO PESSOAL
A primeira coisa é entender qual é o papel da Cruzada ou dessa nova Cruzada no pensamento da extrema direita, que é semelhante no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. Isso vem aparecendo de maneira congruente, o que é um pouco assustador.

Essas ideias de Cruzada e de Idade Média têm a ver com uma visão bastante idealizada e bastante parcial do que foi o período. O que atrai esses grupos é pensar que foi um tempo patriarcal, branco e cristão. Essa Idade Média nunca existiu, mas tem esse papel no pensamento desses grupos.

As Cruzadas são especialmente exaltadas porque são um momento no qual esses três elementos [patriarcal, cristã e branca] estão muito bem representados. Nessa visão das Cruzadas, você teria um movimento bélico liderado por um grupo visto como majoritariamente masculino; um elemento que envolve a questão religiosa — as Cruzadas como primordialmente um conflito religioso entre cristianismo e islamismo — e, além disso, a ideia de uma disputa plurissecular entre Ocidente e Oriente.

Recuperar as Cruzadas é desenvolver [uma narrativa sobre] como esses três elementos desempenharam papel fundamental durante a Idade Média. Você teria uma defesa da religião cristã contra o islamismo, um movimento militar — e, aí, todas as características de masculinidade, de virilidade, de força — e essa questão Oriente versus Ocidente, que leva à construção de uma ideia de civilização ocidental.

Pergunta. O que de fato são as Cruzadas?

Resposta. As Cruzadas são um processo histórico extremamente complexo. A princípio, quando se fala em Cruzadas, se fala do movimento que envolve a retomada de antigos territórios do Império Bizantino, mas há uns 20, 30 anos outros movimentos de expansão cristã também vêm sendo enquadrados por historiadores como parte disso, como, por exemplo, a chamada Reconquista, na península Ibérica.

Então a Cruzada foi parte do processo de expansão da cristandade. Isso é diferente da ideia de um movimento de expansão do cristianismo. Essas coisas não estão diretamente vinculadas. A gente pensa na sociedade da cristandade como um todo maior, onde um elemento muito importante é o cristianismo, mas não necessariamente ele é o elemento central, que possa ser isolado dos demais.

A gente costuma ver isso sobre a Primeira Cruzada, que é mais requisitada por esses grupos e talvez a mais famosa de todas. E como esses grupos apresentam a Primeira Cruzada? Como um movimento pregado pelo papa Urbano II e promovido pelos grandes aristocratas [senhores] “europeus” — entre aspas — para defender o Império Bizantino contra o avanço muçulmano e “reconquistar” Jerusalém.

O problema é que essa é uma forma extremamente simplificada e bastante danosa de observar qualquer processo histórico, mas mais especificamente esse. O que esse tipo de visão ignora? Não existe consenso historiográfico sobre um movimento de expansão muçulmana intenso e centralmente dirigido. Existe, sim, uma longa guerra entre bizantinos e muçulmanos que dura várias décadas, nas quais houve momentos de expansão bizantina e momentos de expansão muçulmana.

A perspectiva bizantina também fica completamente ausente da narrativa da extrema direita. Você tem uma disputa claríssima, durante as Cruzadas, entre cristãos católicos [da Igreja Católica Apostólica Romana] e bizantinos [da Igreja Ortodoxa Grega], inclusive com conflitos militares em determinados momentos.

Outra coisa que fica perdida [nessa narrativa da extrema direita] é a questão do antissemitismo. A gente vai ter, nesse momento da Primeira Cruzada, massacres de comunidades judaicas pela Europa. Você tem um momento de efervescência religiosa cristã na qual uma das manifestações é a Cruzada e uma outra manifestação, o antissemitismo.

P. Por que você diz “europeus”, entre aspas?

R. Porque ainda não existia Europa nesse período. Falar em povo europeu durante a Primeira Cruzada não faz nenhum sentido, pois as pessoas não se reconheciam como europeus. E quando a extrema direita fala em povo “europeu” ela coloca [dentro disso] o povo bizantino, que tampouco se reconhecia como parte do mesmo grupo. O que se pode falar é de cristandade, um grande grupo que professava a religião cristã, mas mesmo dentro disso a gente vai ter divisões. Essa suposta unidade absoluta do cristianismo na Idade Média é falsa. E ainda dentro desse território a gente vai ter inúmeras outras religiões, além do cristianismo.

P. Você diz que na Europa a ideia de identidade única europeia nunca existiu, mas ao menos há uma proximidade geográfica e histórica. No Brasil, faz algum sentido essa percepção de que o Brasil também é fundado por essa sociedade que era branca, cristã e patriarcal?

R. Eu diria que não. A ideia de civilização ocidental é uma construção conceitual, que tem de fato uma origem na Europa e olha para esse passado “europeu” e constrói essa ideia de uma sociedade idealizada. Isso nunca existiu na Europa, e a civilização ocidental é ela mesma uma construção. Se faz sentido esses grupos da extrema direita brasileira requisitarem o seu lugar nessa civilização ocidental, recorrendo a um suposto direito de origem, via o nosso vínculo com Portugal? Eu diria que não, isso não faz sentido nenhum do ponto de vista histórico.

P. A partir de quando esse discurso passou a ser usado pela extrema direita?

R. É uma questão difícil de ser respondida. Esse fenômeno da extrema direita não está ainda bem estudado. No Brasil, talvez nos últimos dez anos, temos uma junção de certos grupos que até então estavam bastante separados. Por exemplo, quem é que recorre a essa narrativa idealizada sobre a Idade Média? Grupos cristãos conservadores. Então a Idade Média vai ser uma referência para esses grupos. Monarquistas vão tomar esse período como uma referência positiva também. Conservadores, de uma maneira geral.

A gente começa a ver hoje grupos se opondo ao Iluminismo, por mais absurdo que isso pareça, e nesse movimento de oposição volta a visão idealizada da Idade Média.

Mas quando isso começa a acontecer é difícil saber, já que a Idade Média sempre foi alvo de disputa entre agentes diversos. A própria criação de uma ideia de Idade Média está envolvida numa relação entre determinado presente e seu passado imediato. O termo “Idade Média”, que por si só já é pejorativo, nasce de uma necessidade de negativar o passado medieval para positivar um presente que se apresentava como renascimento. E aí, ao longo dos séculos XVIII e XIX, a gente vai ter um resgate, uma nova positivação da Idade Média com o romantismo, por exemplo. Então a Idade Média está sempre sujeita a ser apropriada e reapropriada de acordo com as demandas do presente.

P. Como esse discurso de idealização da Idade Média é adaptado à realidade do Brasil?

R. Isso é interessante, porque a princípio parece um contrassenso que a Idade Média desempenhe um papel tão central no debate político do Brasil. Mas isso começa a ficar mais claro, mais razoável, quando a gente pensa em como a identidade brasileira se construiu e vem sendo desenvolvida por grupos conservadores. A ideia, aqui, é pensar que o Brasil é essencialmente europeu; que, por ter sido colonizado por Portugal, de alguma maneira essa identidade europeia chega até o Brasil e se desenvolve aqui também.

O curioso é que justamente não tem nenhuma grande diferença na forma como isso é colocado na Europa, nos EUA e no Brasil, porque a ideia é de que o Brasil, ou pelo menos uma parte dele, é “branca”. Essa parte seria europeia, então ela também tem esse vínculo com a Europa medieval via Portugal. Essa ideia aparece de maneira escandalosamente clara em um texto do atual chanceler Ernesto Araújo, no qual ele fala com todas as letras que o Brasil é uma realização de Portugal e, portanto, a gente não poderia esquecer nosso berço. Eu não estou citando exatamente o que ele falou, mas o sentido é esse.

P. Você chega a citar no seu artigo a série de vídeos do Brasil Paralelo “Brasil – A última Cruzada”. Seria um pouco nessa lógica de que o Brasil foi a última Cruzada, a conquista final de certa forma?

R. Aquele vídeo do Brasil Paralelo é supostamente um documentário sobre a história do Brasil. No entanto, o primeiro episódio é uma história da Europa, principalmente uma história da Europa medieval. O principal ali, a ideia-chave, é a questão da civilização ocidental. A Grécia clássica é mencionada, a Roma antiga é mencionada. Daí a gente fecha na questão da Europa, em que tem uma parte sobre expansão islâmica, para fechar então na península Ibérica e depois progressivamente em Portugal, que é a assim chamada Reconquista. Então a ideia é — e eles estão embarcando nisso — que a chamada Reconquista na península Ibérica seria uma Cruzada. Então, essas questões sobre as Cruzadas no Mediterrâneo oriental teriam acontecido também na península Ibérica, e Portugal seria parte disso.

Uma vez posta em movimento essa expansão, que no documentário é vista primordialmente como uma expansão da fé cristã, os movimentos de expansão marítima e conquista colonial seriam parte dessa mesma lógica. A colonização do Brasil não aparece lá como um processo histórico extremamente complexo que envolve diversos elementos. Aparece primordialmente como um processo de expansão da fé cristã. E essa expansão também daria as bases para essa percepção de identidade europeia.

P. Quando a extrema direita recupera referências da Cruzada, como a expressão “Deus vult”, é sempre numa perspectiva de guerra. No episódio das Cruzadas, a guerra seria contra o islamismo. Mas, no Brasil, qual seria a ameaça contra a qual eles estão lutando quando usam essas referências?

R. Isso aí talvez seja a questão mais interessante, porque não faz sentido a gente pensar em islamofobia no Brasil. Se a islamofobia em outros lugares do mundo está associada a um contato muito intenso com populações que professam o islamismo, isso — infelizmente inclusive — não é uma realidade no Brasil. Não há esse fluxo migratório tão grande de uma população que professe o islamismo. Isso sempre me pareceu uma questão bastante curiosa. Contra quem? Quem é esse inimigo construído? Se essa narrativa sobre a Cruzada parte de uma suposta oposição entre Oriente e Ocidente, entre cristianismo e islamismo, como isso pode ser trazido para o Brasil e frutificar?

Uma hipótese que me parece correta é que essa questão no Brasil tem mais a ver com a esquerda. Por motivos variados, a gente tem, ao longo da segunda metade do século XX, a construção de certo modelo de solidariedade entre a esquerda brasileira e a Palestina. Isso em algum momento ganhou certa solidez e passa a ser visto como uma coisa mais ou menos automática. Um caminho para explicar essa ideia é pensar que falar contra o Islã, no Brasil, seria de certa forma falar contra a esquerda. Tem muitos elementos que vão entrar no meio desse bolo, e é difícil pensar como eles se encaixam, mas claramente existe uma relação. O maior é essa aproximação recente da extrema direita com Israel, que vai colocar a gente justamente nesse contexto do massacre perpetrado pelo Estado de Israel em cima da Palestina.

P. Se no Brasil a questão do Islã é menos presente, na Europa isso é bem presente com as imigrações. Eles enxergam que há uma nova expansão do Islã e o cristianismo precisa rebater isso de alguma forma?

R. Essa questão é bastante presente na retórica da direita europeia e, de maneira um pouco diferente, na retórica da direita norte-americana também. E é o tipo de ideologia que, por exemplo, fundamentava o atirador deste último massacre na Nova Zelândia. A ideia, por mais absurda que seja, é de uma substituição populacional, onde essa população “efetivamente” europeia estaria sob ameaça, agora não mais através de uma expansão militar, mas da imigração.

No Brasil, isso não faz sentido. O Brasil recebe um número ínfimo, ridículo, de imigrantes. Mas a gente teve um momento de emergência, com mais ênfase, dessa questão antimigratória com a crise da Venezuela. A gente assistiu a vários episódios de ataques contra imigrantes, e por aí vai. Há um tempo teve uma pesquisa que mostrou que o brasileiro tem uma percepção de que o Brasil recebe muito mais imigrantes do que efetivamente recebe, e isso também existe na Europa.

Então eu não acho que essa retórica anti-imigração seja diretamente aplicável ao Brasil, o que não quer dizer que a gente não tenha nenhum evento disso acontecendo, ainda que pequeno.

É que determinadas questões que são centrais para Europa a extrema direita brasileira tenta de alguma maneira trazer pro Brasil. Mas isso importa pouco, porque a retórica pode ser a mesma.

Eu analisei que vários memes brasileiros têm uma retórica islamofóbica e anti-imigração, que não faz sentido no ponto de vista brasileiro, mas não importa, porque tem certa unidade político-ideológica entre esses grupos de maneira global. Talvez isso seja o mais assustador desse desenvolvimento.

P. Além dessa islamofobia e xenofobia, esse discurso esbarra em algum outro preconceito quando ele combate a esquerda?

R. Com certeza. Acho que essa visão sobre as Cruzadas dá um tom de se associar a uma ideia de cristianismo, não mais a um cristianismo medieval, mas a um cristianismo brasileiro, onde você vai ter católicos conservadores e evangélicos no mesmo barco. E aí a pauta moral, dos costumes, tem muita força dentro disso.

Há essa representação da questão da masculinidade, das Cruzadas sendo vistas como um evento essencialmente militar, que envolve toda uma ideia de virilidade. Então, uma coisa que vai ser expressa por esses grupos é a homofobia. De maneira clara, explícita. Eu comecei há mais ou menos um ano uma pesquisa sobre como comunidades brasileiras no Facebook produzem memes sobre a Idade Média. Nos EUA é mais comum, há uma maior quantidade, mas isso existe no Brasil também. E todas as questões que a gente vem desenvolvendo aparecem aí. A centralidade dessa ideia de Cruzada e a homofobia explícita. Há uma ideia de que na Idade Média existiam, entre muitas aspas, “homens de verdade”, e agora não mais. A ideia de que a nossa sociedade estaria fragilizada para combater qualquer tipo de ameaça bélica é um elemento central desses memes.

A outra questão que também vai ser um alvo claro para esses grupos é o feminismo. Esses grupos vão numa versão parcial e absurda da Idade Média e procuram um passado idealizado. Para eles, na Idade Média os homens eram viris, eram efetivamente masculinos, poderosos, podiam defender a sociedade. E as mulheres eram, entre muitas aspas, “mulheres de verdade”, mulheres que eram submissas aos homens, que estavam preocupadas em cuidar da família. Isso reaparece nesses memes.

E um outro elemento, talvez mais importante fora do Brasil, mas que aqui vem crescendo de maneira clara, é a questão do racismo. A visão da Idade Média — que não só esses grupos, mas que de maneira geral o senso comum tem — é a visão de um mundo de pessoas brancas. Todas essas formas de opressão contra minorias vão voltar à Idade Média para encontrar lá um passado que nunca existiu, uma sociedade que nunca existiu, e usar isso como forma de legitimar determinados pensamentos no presente e projetar uma ideia de sociedade no futuro.

P. A gente vê muito nas redes sociais, mas isso chega à vida real? Que perigos esse discurso carrega?

R. Acho que é extremamente perigoso. Acho que hoje em dia a gente não pode mais ter a visão de que um discurso que aparece na internet e nas redes sociais está necessariamente restrito à internet e às redes sociais. A gente já teve vários exemplos de como as redes sociais, ainda que estejam restritas a uma parte menor da população, têm um discurso poderoso. E tem um discurso que, existindo nas redes sociais, aparece em outros âmbitos da sociedade. Se está nas redes sociais, pode aparecer na televisão, nas escolas e em comunidades variadas, nas igrejas etc. Acho que o fato de um discurso estar, inicialmente, na internet não deveria ser um conforto.

P. Já que você falou de escolas, no discurso dessa extrema direita há também um ataque à maneira como a história nos é ensinada nas escolas, no ensino básico. Na sua opinião, a história medieval ensinada no currículo básico é a ideal?

R. Pergunta bem interessante. A pesquisa sobre história medieval no Brasil é bastante recente. E mesmo a historiografia sobre a Idade Média foi até muito recentemente — não só no Brasil, mas no mundo como um todo — mais conservadora. Isso vem mudando lentamente, ainda que hoje em dia já tenha uma historiografia muito grande. Já temos muita gente trabalhando com isso no mundo todo e então vemos outras posições aparecendo.

Mas isso significa que, nas escolas de ensino básico no Brasil, a Idade Média ainda é ensinada de maneira bem tradicional. Então essas questões que a gente abordou, por exemplo a ideia de que a Idade Média não era majoritariamente branca, não é nem considerada nos livros didáticos. Ainda que isso não precise ser falado, nenhum professor vai dizer que a Idade Média era majoritariamente branca; é uma questão que está pressuposta, as pessoas já carregam essa ideia, e ela não é nem discutida.

A visão de uma proeminência do cristianismo também é quase que automática. A questão da sociedade patriarcal, que tem a ver com um papel muito reduzido das mulheres na vida social como um todo, isso tudo já está pressuposto, porque a Idade Média é vista de maneira muito tradicional. E tradicional não no sentido de conservador [no espectro político], mas no sentido de como era feito antigamente, há 50 anos ou há 100 anos. Os avanços historiográficos que aconteceram nos últimos 50 anos chegaram pouco no ensino básico.

Quando a gente tem essa história de rever o nazismo, ou de rever o golpe militar, não está falando como uma disputa na esfera pública. As pessoas tiveram aulas sobre esses temas e tiveram contato com versões historiográficas mais recentes. E aí esse discurso: ‘Ah, o seu professor de história não contou tudo, só uma parte’. Isso não acontece com a Idade Média, porque o contato que a maior parte das pessoas tem com essa temática no ensino médio é dado de maneira tradicional. Isso cria um solo fértil onde essa narrativa da extrema direita, que também é tradicional e ultrapassada, pode frutificar.

P. Então a idealização da Idade Média seria um discurso mais forte que o revisionismo do golpe militar e de o nazismo ser de esquerda?

R. Me parece que até agora sim. Essa questão do golpe é sempre uma questão central nas aulas de história do ensino básico. Existe um debate sobre esse tema na sala de aula, e o professor pode apresentar esse debate, e os alunos sabem que isso existe e conseguem entender por que é golpe e não revolução. Com Idade Média não, justamente porque é apresentada de maneira muito tradicional.

Acho que isso vem mudando e provavelmente vai mudar bastante nos próximos anos, porque nas universidades brasileiras, nos cursos de licenciatura em história, existe cada vez mais uma percepção sobre a história medieval de que esse passado tem um uso político no nosso presente e que a gente precisa estar atento a isso e abordar essa questão. A partir do momento em que isso começa a ser pensado na universidade, chega no ensino básico. Mas isso leva algum tempo. O ideal é que isso seja pensado também no ensino básico, em paralelo à universidade.

P. O que todos esses revisionismos históricos da ditadura militar, golpe de 64 e Idade Média têm em comum?

R. Uma coisa que eu acho importante pontuar é que, apesar de ser o termo mais utilizado, o mais adequado não é “revisionismo”, mas negacionismo. Porque a história, a historiografia, é essencialmente revisionista. A gente está o tempo todo revisando e reinterpretando as nossas ideias sobre o passado. A questão desses movimentos todos em relação à Idade Média, ao nazismo e ao golpe de 64 não é exatamente uma revisão, mas é negar o conhecimento histórico que existe atualmente sobre esses processos históricos.

Em relação à Idade Média, diferentemente dos outros, não é revisionismo, porque não está se propondo nada novo, mas uma interpretação que está completamente ultrapassada. A ideia, aqui, não é que a gente tem uma ideia de Idade Média diversa e complexa e está se propondo algo completamente diferente disso. O que está se propondo é voltar ao entendimento que foi abandonado com o desenvolvimento da pesquisa histórica sobre o período. E aí o que talvez seja mais interessante: essas pessoas negam todos os especialistas que estão habilitados para falar sobre isso. Por isso negacionismo.

Não é só uma negação de determinadas visões ou determinadas interpretações sobre processos e movimentos históricos. É uma negação da ciência histórica como um todo. Se formos olhar, vamos encontrar movimentos como o da terra plana ou antivacinas, e me parece que tudo isso está bastante conectado.

P. Tem mais algum ponto que você gostaria de abordar?

R. O discurso sobre o passado não é inócuo, ele tem consequências no nosso presente. O que estamos vendo nos últimos anos é como essas visões falsas e parciais sobre a Idade Média vêm sendo requisitadas para justificar atos de terror, massacres e todo tipo de opressão contra minorias. Se um discurso como esse frutificar, as consequências são essas. Existe certa responsabilidade social que envolve historiadores, mas também outros grupos, outros profissionais na sociedade, em relação a esse tipo de negacionismo sobre o passado.

 

Queima de livros,Nazismo,Fascismo,Berlim,Blog do Mesquita

Começa assim; A praça da ignorância

Queima de livros,Nazismo,Fascismo,Berlim,Blog do Mesquita

De praça, quase não tem nada: não há banco para descanso, árvore ou gramado. Parece mais um calçadão, que liga a avenida Unter den Linden à rua Behrenstrasse. No meio da Bebelplatz, no entanto, algo chama a atenção dos mais atentos: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão. Dentro dele, prateleiras brancas vazias.

O monumento lembra um dos episódios mais emblemáticos do período nazista. Em 10 de maio de 1933, livros de intelectuais considerados críticos ou que não se encaixavam no padrão pregado pelo regime de extrema direita comandado por Adolf Hitler foram queimados em praças públicas em várias cidades da Alemanha.

Em Berlim, o palco deste ato de intolerância foi a Bebelplatz, que na época era chamada de Praça da Ópera. Em frente à praça estava o prédio da Universidade Humboldt de Berlim. Muitos universitários participaram deste ato de barbárie. Os livros queimados pertenciam principalmente às bibliotecas públicas e universitárias.

Para não esquecer: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão; dentro, prateleiras vaziasPara não esquecer: uma placa de vidro cobrindo um buraco no chão; dentro, prateleiras vazias

Entre os autores dos livros queimados estavam Karl Marx, Friedrich Engels, Sigmund Freud, Stefan Zweig, Thomas Mann, Bertold Brecht, Erich Kästner, e Ricarda Huch. A maior parte da “lista negra” dos extremistas de direita era composta por obras de Ciências Humanas. Deveriam ser banidos, sobretudo, livros de filosofia, sociologia, história e ciências políticas que colocassem em xeque a ideologia do regime ou abrissem espaço para um debate.

A queima dos livros marcou o auge da perseguição aos intelectuais, que havia começado lentamente e vinha sendo praticamente ignorada pela opinião pública por muito tempo. A propaganda era alma do negócio para atrair seguidores.

Primeiro foi publicado um manifesto defendendo a cultura alemã e pregando acabar com supostas mentiras. Logo em seguida veio a perseguição a professores. Estudantes deveriam denunciar professores judeus, comunistas e aqueles que fizessem críticas ao regime ou a Hitler.

Depois veio a decisão de banir livros de intelectuais que “alienavam a cultura alemã”. Obras foram saqueadas de bibliotecas e, em 10 de maio de 1933, jogadas em fogueira pública. Em Berlim, o ato símbolo da intolerância contou com a presença de Joseph Goebbels – o ministro da Propaganda do regime nazista.

Hoje na Bebelplatz, próximo ao monumento que lembra deste episódio histórico, há uma placa com a frase do poeta alemão Heinrich Heine (1797-1856): “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.” A frase, escrita décadas antes, soa como uma premonição dos horrores que estavam por vir nos anos seguintes…

A Bebelplatz ganhou esse nome após a Segunda Guerra Mundial, mas poderia muito bem ser chamada de praça da ignorância. Afinal, marca o episódio que visava combater o conhecimento, a capacidade de reflexão proporcionada pela leitura e silenciar qualquer debate crítico. Ao acusar intelectuais, o regime nazista buscava a hegemonia de seu viés ideológico de extrema direita e promovia a ignorância como meio de manipulação da população.

Clarissa Neher é jornalista da DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã.

Nazismo,Ruth Weiss,Literatura,Blog do Mesquita

“2019 não está muito longe de 1930”, diz escritora judia sobrevivente do nazismo

Nazismo,Ruth Weiss,Literatura,Blog do MesquitaApós fugir dos nazistas quando criança, Ruth Weiss se mudou para a África do Sul. Agora a autora de 94 anos está em turnê, com o sexto volume de sua saga sobre a família judaica Löw. A DW a encontrou para uma conversa.

Ruth Weiss nasceu em 26 de junho de 1924 em Fürth, Baviera, como Ruth Löwenthal. Em 1936, sua família emigrou para a África do Sul e abriu uma mercearia em Johanesburgo. Como jornalista, ela lutou contra o apartheid, motivo por que foi forçada a deixar o país em 1966. Morou na então Rodésia do Sul (atual Zimbábue), na Zâmbia e em Londres. Em 1992 retirou-se para a Ilha de Wight para escrever. Dez anos mais tarde retornou para a Alemanha, morando em Lüdinghausen, na região de Münster. Desde 2015 vive com o filho, na Dinamarca.

Aos quase 95 anos, ela se encontra em turnê pela Alemanha, onde acaba de ser lançado o sexto volume de seu ciclo de romances, Die Löws – Nachspiel. Eine jüdische Familiensaga in Deutschland.  (literalmente: “Os Löws – Postlúdio. Uma saga familiar judaica na Alemanha”). A DW a entrevistou sobre o país antes e agora.

DW: O novo volume de sua grande saga familiar, contada ao longo de 350 anos, acaba de ser publicado. Esse livro nos leva até o ano de 2015: neonazistas, a morte de uma requerente de asilo. O que a senhora queria contar com a história de Pippa, a bisneta do judeu alemão Adolph Löw?

Ruth Weiss:  Que há uma grande ruptura entre a geração de hoje e o que aconteceu no passado. É um longo tempo, embora não se tenham passado nem 100 anos desde o início do nazismo. Os descendentes são como a personagem principal do meu romance, que se muda para uma casa herdada sem se preocupar a quem ela pertencia antes. Só um incêndio lhe dá o impulso de investigar. É então a primeira vez que ela é confrontada com a história de sua família.

O assunto também é reconciliação?

Sim, se trata de reconciliação. A compreensão surge através de histórias particulares, não da grande política.

A senhora vai continuar sua narrativa?

Depende da editora. A princípio, na verdade, meu ciclo de romances não foi concebido como uma saga familiar. Depois que me aposentei, estive em Fürth, onde nasci, e comecei a ler histórias judaicas do passado, começando no século 17. Foi quando eu descobri que os judeus sem teto naquela área tinham um grande problema na época: não podiam permanecer num lugar por mais de 72 horas. Então vagavam de uma comunidade judaica para outra. Mas por causa do grande número de propriedades dos governantes, e por eles terem que pagar algo cada vez que cruzavam a fronteira, era um fardo enorme para essas pessoas pobres. Comecei a escrever minha história, e depois do primeiro volume a editora quis uma continuação.

Capa da edição alemã de Os Löws – Postlúdio. Uma saga familiar judaica na Alemanha, de Ruth WeissCapa da edição alemã de “Os Löws – Postlúdio. Uma saga familiar judaica na Alemanha”

A senhora tem programação cheia nesta turnê: leitura numa escola pela manhã, entrevista extensa à tarde, à noite mais uma leitura e bate-papo. Por que ainda considera tão importante contar sua história pessoal e outras narrativas na forma de romance?

Não sou sobrevivente de nenhum campo, claro. Sou uma sobrevivente que teve a tremenda sorte de emigrar e também de poder escrever. Isso significa que aprendi a comunicar como era na época – e foi realmente muito tempo atrás. Acredito que isso é importante, sobretudo para os jovens. Enquanto puder, quero seguir fazendo isso.

Como reagem os jovens, em geral?

Surpreendentemente interessados. Nos dias em que estive em turnê de leitura, não tivemos transtornos, ninguém se levantou, foi embora ou se comportou mal. Pelo contrário: desta vez houve muito mais perguntas do que o usual. Acho que tem a ver com a atual situação política, que hoje em dia também haja refugiados, muito mais do que no meu tempo.

A senhora cresceu num vilarejo perto de Nurembergue. Com a tomada do poder pelos nazistas, a vida se tornou insuportável para a sua família. A senhora se mudou para Fürth, onde frequentou a escola secundária judaica. Quais são suas lembranças desses dias?

Os anos no vilarejo e na escola foram muito bons. Nós, as crianças, estávamos completamente integradas. Meus pais, é claro, não pertenciam ao lugar. Havia um assentamento, e é lá que vivíamos, éramos os únicos judeus. Logo ao lado morava o professor. O que ignorávamos é que ele era um membro do NSDAP [o partido nacional-socialista]. A influência dos nazistas foi tão grande que, mesmo no vilarejo, a mudança se deu de forma muito rápida.

Comício nazista em NurembergueComício nazista em Nurembergue

Em 1936, aos 12 anos, a senhora emigrou com sua família para a África do Sul. Por que esse país?

Em abril de 1933, meu pai tinha perdido o emprego. Ele tinha parentes emigrados para a África do Sul no início do século 20 e que estavam dispostos a afiançá-lo. Naquela época, a África do Sul ainda estava aberta a imigrantes, havia demanda de brancos. Pelo menos até perceberem que tínhamos a cor da pele certa, mas a religião errada.

Primeiro a senhora trabalhou num escritório de advocacia, depois na livraria de seu primeiro marido, o jornalista Hans Weiss, também numa seguradora e, em Londres, numa editora. Como chegou ao jornalismo?

Devido ao paternalismo. Weiss tinha sido jornalista do Berliner Tageblatt, e eu trabalhava numa companhia de seguros. Não pude estudar, pois não havia dinheiro. Então, logo após me formar, comecei a trabalhar. A partir dos anos 50, Hans Weiss era correspondente da Deutsche Presseagentur no sul da África. Quando começou, ainda havia o VWD [Serviços Econômicos Unidos], responsável pela seção de negócios. Como eu tinha um cargo muito alto no setor de seguros e, portanto, algo a ver com economia, Hans disse para eu tomar conta disso. Então, no começo escrevia apenas as histórias de negócios – sob o nome dele.

Na época, a África do Sul era bastante interessante para as mídias alemã e inglesa, mas não o suficiente para render reportagens verdadeiramente longas. Isso significava que ele também tinha que atuar em outros países africanos. Meu querido Hans fez isso algumas vezes, até que disse: “Acho que você faria isso melhor.” Então acabei viajando para a África muito cedo, ainda na era colonial, e essa foi a minha sorte. Quando a companhia de seguros em que eu trabalhava se aproximou demais do Partido Nacional, eu não quis mais ficar. E então pensei: vou tentar o jornalismo.

O que a senhora sentiu ao voltar para a Alemanha pela primeira vez?

Voltei aqui pela primeira vez por causa dos meus sogros, que haviam sobrevivido, já em 1950, o que era incomum para judeus alemães. Isso significa que conheci a Alemanha num momento em que a destruição da guerra era visível por toda parte. Uma época devastadora. Em meus encontros com os alemães de então, encontrei muitos “combatentes da resistência”. Era muito claro que os alemães não conseguiam lidar adequadamente com o passado recente. Mas, como trabalhamos desde muito cedo para a mídia alemã, pudemos acompanhar a política nacional bem de perto. O que, como disse anteriormente, não costumava ser o caso dos judeus alemães emigrantes. Nos anos 70, quando eu trabalhava na Deutsche Welle em Colônia, minha irmã não me visitou, nós nos encontramos na Suíça.

Entre 1975 e 1978 a senhora trabalhou como redatora-chefe da redação africana na Deutsche Welle. Por que acabou desistindo e indo para Londres?

Quando estava em Londres, passei muito tempo me perguntando por que tinha ido embora. Eu tinha direito a aposentadoria e, até os meus 60 anos, teria tido um trabalho muito bom. Mas na época eu não me sentia muito bem na Alemanha. Desde o primeiro momento, assim que cheguei em Colônia, enfrentei situações que remetiam ao passado.

Um exemplo: no período entre o Natal e o Ano Novo, estávamos à procura de um hotel. Encontramos uma pequena pensão e conversamos com a proprietária. Ela imediatamente me contou sobre a falência de um banco e disse: “São os judeus novamente.” Perguntei então a meus colegas da Deutsche Welle sobre o tal banco: ele não tinham nada a ver com os judeus. Era esse o clima…

Seu filho Alexander nasceu em 1966 em Londres, após uma gravidez de risco tanto para a senhora quanto para o bebê. Aos quase 42 anos, a senhora o criou sozinha, seu segundo marido, Karl, não assumiu o papel de pai. Tem orgulho de seu desempenho como mulher emancipada, com carreira profissional, como mãe solteira?

Eu não colocaria dessa forma. Mas gostaria de acrescentar outra coisa. Desde muito cedo, devido à minha atuação na área de seguros, comecei a trabalhar numa esfera masculina, e isso se manteve, por eu trabalhar em economia. Muitas vezes eu era a única mulher, e quando decidi que queria ter um filho desse relacionamento, fui arrogante o suficiente para achar que ganharia o suficiente para isso.

Autobiografia de Ruth Weiss Caminhos no capim duro – Lembranças da Alemanha, África do Sul e Inglaterra, com prólogo da sul-africana, Prêmio Nobel da Literatura, Nadine GordimerAutobiografia de Ruth Weiss “Caminhos no capim duro – Lembranças da Alemanha, África do Sul e Inglaterra”, com prólogo da sul-africana, Prêmio Nobel da Literatura, Nadine Gordimer

Após décadas em vários países africanos – África do Sul, Rodésia/Zimbábue, Zâmbia – e em Londres, a senhora retornou à Alemanha em 2002. Onde está morando, agora?

Atualmente moro com meu filho na Dinamarca. Já não sou mais tão jovem assim, e achei que em alguma deveria estar com outras pessoas. Em algum momento o fim chega, e eu gostaria de estar junto de meu filho e sua família. E este é o caso, agora.

A senhora é uma judia praticante, uma judia alemã. Faz alguns anos, o antissemitismo vem ressurgindo no país: neonazistas bradam slogans racistas impunemente. O que a senhora acha: os judeus na Alemanha estão novamente em perigo?

Isso eu não sei dizer, porque não moro na Alemanha. De fora, no entanto, entendo quando dizem que, de novo, vivemos de malas sempre prontas. Essa é uma expressão que ouvi de muitos judeus nas décadas de 60 e 70. Nos anos 80 e 90, isso simplesmente não estava em questão. Mas hoje é novamente assim. Isso é muito perigoso, não só para os judeus, mas também para o povo alemão.

Com a populista Alternativa para a Alemanha (AfD), mais uma vez um partido de direita, em parte de extrema direita, está fortemente representado no parlamento federal alemão. Isso a preocupa?

Sim, pelo mesmo motivo. Em meus 20 anos de turnês de leituras, e também no tempo em que vivi na Alemanha, quando questionada sobre como me sentia no país, eu tinha uma resposta muito simples: a Alemanha de hoje não é a de 1930. Mas não posso mais dizer isso. Hoje, só posso dizer que 2019 não está muito longe de 1930. E isso é muito angustiante.

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“Nazismo de esquerda”: o absurdo virou discurso oficial em Brasília

Como chanceler, Ernesto Araújo repete tese, propagada nas mídias sociais, considerada desonesta e sem sentido por acadêmicos e diplomatas. Historiadores europeus se impressionam: “Uma asneira e um disparate”.Itamaraty,Ernesto Araújo,Diplomacia,Brasil,Idade Média

Uma recente declaração do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, sugere que uma tese tida como absurda e desonesta por acadêmicos e diplomatas europeus se incorporou ao discurso oficial do governo Jair Bolsonaro: a de que o nazismo foi um movimento de esquerda.

A declaração, dada em longa entrevista a um canal simpático à extrema direita no Youtube, repete um discurso que esteve em alta nas mídias sociais brasileiras durante as eleições, mas que jamais foi levada a sério por acadêmicos na Alemanha. A posição de Araújo impressionou historiadores.

Na entrevista, questionado sobre a diferença entre o nacionalismo que defende e o pregado pelos regimes autoritários passados da Alemanha, Itália e Rússia, o ministro respondeu que o sentimento nacional teria sido distorcido por grupos que o utilizaram para chegar ao poder.

“Uma coisa que eu falo muito é dessa tendência da esquerda de pegar uma coisa boa, sequestrar, perverter e transformar numa coisa ruim. É mais ou menos o que aconteceu sempre com esses regimes totalitários. Isso tem a ver com o que eu digo que fascismo e nazismo são fenômenos de esquerda”, destacou Araújo, na entrevista divulgada em março pelo “Brasil Paralelo”, grupo que propaga a linha de pensamento do ideólogo Olavo de Carvalho.

Foi a primeira vez que Araújo, como ministro, classificou o nazismo como um suposto movimento de esquerda – ele já o fizera em um texto publicado em 2017 em seu blog. A teoria vai contra o amplo consenso acadêmico e político sobre o tema na Alemanha, onde a disputa sobre a classificação da ideologia nazista é inexistente entre historiadores renomados.

“Quando um ministro do Exterior faz esse tipo de afirmação, considero altamente problemático diplomaticamente e um absurdo cientificamente”, afirma a historiadora Stefanie Schüler-Springorum, diretora do Centro para Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim.

O historiador Wulf Kansteiner, da Universidade de Aarhus, deixa claro que os nazistas jamais seguiram políticas de esquerda. “Ao contrário, propagavam valores da extrema direita, um extremo nacionalismo, um extremo antissemitismo e um extremo racismo. Nenhum especialista sério considera hoje o nazismo de alguma forma um fenômeno de esquerda. Por isso, da perspectiva acadêmica histórica, essa declaração é uma asneira”, afirma.

Segundo Kansteiner, tanto o entrevistador quanto o ministro jogam com a palavra totalitarismo e, durante sua argumentação, Araújo tenta com ela traçar uma fronteira entre o nacionalismo, que seria algo bom, e o socialismo, que seria algo ruim. “Historicamente isso é um disparate”, ressalta o especialista, que também é autor do livro In pursuit of German memory (Em busca da memória alemã, em tradução livre).

Peter Carrier, coordenador de um projeto de pesquisa da Unesco sobre o ensino do Holocausto, promovido pelo Instituto alemão Georg Eckert, acrescenta que o ministro comete erros ao fazer referências à teoria do totalitarismo.

“Se Araújo tivesse lido precisamente os teóricos do totalitarismo e fosse fiel a suas teses, ele deveria condenar tanto a direita quanto a esquerda, pois o totalitarismo implica que regimes autoritários de direita e de esquerda são igualmente ruins”, afirma.

A estratégia de tentar classificar o nazismo como uma ideologia de esquerda não é nova e chegou a ocorrer no passado em vários países. Mas nunca chegou a virar um debate sério entre especialistas.

Na Alemanha, durante as pesquisas e debates sobre o Terceiro Reich, iniciadas nos anos 1960, chegou a haver tentativas de classificar esse regime como um movimento socialista, no entanto, há décadas não restam mais dúvidas, nos âmbitos acadêmico, social e político, sobre a natureza de extrema direita do nazismo.

Segundo Schüler-Springorum, essa estratégia era uma posição clássica da extrema direita após a Segunda Guerra Mundial numa tentativa de proteger o “verdadeiro nacionalismo” e se distanciar do nazismo: “Na política e ciência, porém, está mais do que consolidado que o nazismo é um movimento de extrema direita, porque rejeita a democracia e os direitos humanos, além de dividir pessoas em grupos e hierarquizá-las”.

O debate sobre o nazismo como uma ideologia de esquerda foi levantado no Brasil a partir dos anos 2000 por Olavo de Carvalho. A visão rapidamente se espalhou por páginas de direita brasileiras, ganhando adesão também entre contas de viés liberal que adotaram posições conservadoras. Entre os adeptos está o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e atual presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

No país, os atuais defensores da visão “nazismo de esquerda” costumam se basear no nome oficial da agremiação nazista, chamada de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. A presença da palavra “socialista” revelaria a linha ideológica do regime. Historiadores internacionais de renome, porém, destacam que essa nomenclatura e a inclusão de políticas tidas como de esquerda no programa de governo apresentado antes das eleições de 1933 não passaram de uma estratégia eleitoral para atrair a classe trabalhadora.

“Na prática, isso não teve significado algum. O partido nazista se associou rapidamente e de maneira efetiva com as forças de direita da República de Weimar e, depois da tomada do poder, se juntou com as forças de direita da sociedade. Hitler nunca seguiu uma política socialista”, destaca Kansteiner, lembrando o episódio que ficou conhecido como Noite das Facas Longas, em junho de 1934, quando integrantes de uma ala mais à esquerda do NSDAP foram mortos.

Apesar de circular há algum tempo entre grupos de direita, essa distorção histórica chamou a atenção na Alemanha apenas no ano passado, quando um vídeo publicado pela embaixada alemã em Brasília no Facebook sobre como a sociedade alemã lida com o nazismo e o Holocausto virou alvo de ataques de militantes direitistas brasileiros.

Em entrevista à DW, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, afirmou na época que a discussão sobre o “nazismo de esquerda” não tinha uma base honesta.

“Há muitas pessoas que não sabem muito sobre o nazismo. E nós queremos informar. Uma pessoa informada vai fazer de tudo para evitar uma volta do nazismo. Mas parece que há outros que têm um interesse político de reinterpretar o nazismo para encaixá-lo de acordo com seus objetivos imediatos. Esses grupos políticos fazem tentativas desonestas de mover a responsabilidade do Holocausto para o colo de outros”, disse então Witschel.

Ideologia,Ideologia de Gênero,Blog do Mesquita

“Ideologia de gênero”: o combate a um campo científico

Expressão, que não tem base acadêmica, ficou popular no Brasil na boca de Bolsonaro e seus seguidores. Ela tenta desqualificar pesquisas que ajudam a corrigir desigualdades e discriminações no cotidiano.    

Em março de 2018, mulheres protestam na França contra a violência de gêneroEm março de 2018, mulheres protestam na França contra a violência de gênero

A ministra Damares Alves iniciou seu mandato à frente da nova pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos gerando controvérsia, ao comemorar uma suposta “nova era”  no país: meninos vestiriam azul, e meninas, rosa. Ao se justificar, disse que a frase seria uma “metáfora” ao que ela chama de “ideologia de gênero”.

A expressão não é nova, mas ganhou destaque durante a campanha eleitoral passada, sendo popularizada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus filhos. Muito antes de se tornar candidato, o ex-deputado já havia incorporado o termo no seu discurso político e se tornado um de seus principais propagadores no país.

O termo, porém, não possui base acadêmica. A suposta “ideologia de gênero” surgiu como uma expressão pejorativa para desqualificar os estudos de gênero, um campo científico interdisciplinar que analisa e investiga todo o tipo de questão relacionada ao gênero. Isso inclui, por exemplo, processos sociais e relações de poder envolvendo homens e mulheres, além da própria construção do gênero e suas representações.

“Os estudos de gênero surgiram porque a ciência predominante pesquisava somente a história e a vida dos homens. Assim, ela não era objetiva, mas unilateral. Esse campo se ocupa de questões, temas e pessoas que eram frequentemente esquecidas ou omitidas. Ao ampliar a perspectiva científica, contribuiu para aumentar a objetividade”, afirma Henning von Bargen, diretor do Instituto Gunda Werner para Feminismo e Democracia de Gênero, ligado à Fundação Heinrich Böll.

Originado nos estudos da mulher que se desenvolveram nos EUA a partir da década de 1970 com o avanço do movimento feminista, os estudos de gênero começaram a tomar forma a partir de meados dos anos 1980. Sua abordagem científica parte do princípio de que gênero é principalmente uma construção social, e não restrito apenas ao sexo biológico.

Ou seja, a sociedade, ao impor padrões que caberiam ao homem e à mulher, acaba determinando o que é entendido como característico do masculino e do feminino. Um exemplo seria o azul como cor de menino e rosa de menina ou que meninas devem brincar de bonecas e meninos de carro.

Os estudos de gênero não negam fundamentalmente o sexo biológico, mas rejeitam o entendimento somente biológico do gênero. Eles pesquisam, entre outras coisas, essa construção de categorias de diferenciação de pessoas, que são mutáveis. No início do século 20, por exemplo, rosa era a cor dos meninos, e azul, das meninas. Esses padrões sociais e culturais geram, sobretudo, desigualdades e discriminações no cotidiano, que também são analisadas neste campo de pesquisa.

“O gênero é um conceito analítico que não tem relação com uma concepção de mundo. É uma categoria de análise para observar melhor e entender melhor a sociedade, pois ela se organiza muito nas diferenças entre os gêneros”, acrescenta Regina Frey, do Instituto para Assistência Social e Pedagogia Social.

Cruzada antigênero

Com a expansão e consolidação deste campo científico, que supostamente estaria ameaçando princípios religiosos, foi lançada uma contraofensiva católica em defesa de sua doutrina e do modelo tradicional de família. Em 1998, numa nota da Conferência Episcopal do Peru, aparece pela primeira vez a expressão “ideologia de gênero”.

Segundo o pesquisador da Universidade de Brasília (UnB) Rogério Diniz Junqueira, no Brasil, religiosos começaram a usar a expressão em 2011. Mas foi somente em 2014 que o termo ganhou destaque ao aparecer nos protestos para a exclusão das expressões gênero e orientação sexual dos planos de educação. A partir de então, “ideologia de gênero” se tornou uma categoria de mobilização política.

“A ‘ideologia de gênero’ é uma invenção, um artifício retórico. Não pode ser confundido com um termo científico. A sua elaboração jamais seguiu princípios e preocupações de ordem científica. O termo aflorou no âmbito de um projeto de poder: decidiu-se utilizar o termo que melhor funcionasse politicamente segundo os objetivos dos atores que fomentam essa ofensiva reacionária”, avalia Junqueira.

Mas não foi somente no Brasil que o termo ganhou popularidade. Diversos grupos políticos e religiosos ultraconservadores iniciaram em vários países uma verdadeira cruzada antigênero, contra não somente a igualdade de gênero e o feminismo, mas também contra a diversidade sexual e de identidade.

“Por trás da mobilização antigênero estão diferentes atores, organizações, partidos, redes religiosas fundamentalistas, que são classificados no espectro político de centro a extrema direita. Com a expressão ‘ideologia de gênero’ se voltam contra avanços da democracia liberal e de uma sociedade aberta”, argumenta Von Bargen.

“Quem questiona o gênero deveria explicar por que ele é negativo e por que homens e mulheres não deveriam ter os mesmo direitos. Isso não é nenhum um pouco explicado com o termo ‘ideologia de gênero’”, acrescenta Frey, que coordenou o segundo relatório sobre equiparação do governo da Alemanha.

Políticas de gênero

Apesar da contraofensiva político-religiosa, os estudos de gênero contribuíram para compreensão de diferenças e desigualdades geradas por essas construções sociais e, desta maneira, auxiliaram no desenvolvimento de políticas públicas para promover a igualdade de gênero e combater a discriminação.

Na União Europeia, desde 1999, a perspectiva de gênero passou a ser um ponto central no desenvolvimento de políticas. Esse conceito, que ficou conhecido como Gender Mainstreaming (transversalização de gênero), busca alcançar a equiparação ao pensar nos impactos que decisões políticas e estruturais causarão para homens e mulheres e como aumentar a igualdade de oportunidades para todos os sexos.

“O objetivo da Gender Mainstreaming é a criação da igualdade de oportunidades efetiva. Essa política não compreende o homem e a mulher como grupos homogêneos, mas leva em conta que dentro desses grupos há uma diversidade de situações de vida e necessidades”, afirma Von Bargen.

Frey destaca que o Gender Mainstreaming não significa que mulheres e homens devem ser iguais e que não busca um reajuste no comportamento, mas a equiparação dos direitos. Ao pensar nos impactos de políticas percebendo e levando em conta as diferenças entre os gêneros, o Estado evita aumentar as desigualdades em direitos e oportunidades.

“Trata-se de estabelecer uma nova forma de pensar sobre todos os níveis que integra o aspecto equiparação como objetivo parcial substancial na política. A categoria gênero não levanta apenas a questão da igualdade de gênero, mas é um fator fundamental para a solução de problemas econômicos, sociais e políticos”, ressalta Von Bargen.

Entre medidas resultantes deste conceito fazem parte projetos para igualar o acesso a cargos de chefia e políticos, de equiparação salarial e de combate à violência sexual.