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Depois da madeira vem o gado: o desmatamento em Santo Antônio do Matupi

Bem ao sul do estado do Amazonas, perto das fronteiras de Rondônia e Mato Grosso, o  vilarejo de Santo Antônio do Matupi tem 23 oficinas mecânicas, 11 bares e restaurantes, 9 lojas de  produtos agropecuários, 8 hotéis, 4 farmácias e 3 postos de combustível. Toda essa estrutura parece incompatível com o vilarejo de cerca de 10 mil habitantes, à beira da BR 230, a estrada Transamazônica. Conhecido também pelo apelido de 180, em referência ao quilômetro da rodovia em que se localiza, Matupi é um distrito do município de Manicoré.
Matupi registra uma das maiores taxas de desmatamento do Amazonas, o que explica o disparate entre sua pequena população em comparação com sua abundante atividade econômica. Aqui o movimento começa cedo, com caminhonetes 4×4 circulando entre as fazendas. Nas chamadas agropecuárias, lojas de produtos agrícolas, a atividade também é intensa. Os clientes vêm em busca de rações, vermífugos, botas, borrifadores de agrotóxicos e o que mais for preciso para o trabalho no campo. Nas madeireiras, a fumaça sai das chaminés de grandes fornalhas e árvores gigantescas transformam-se em pilhas de madeira. A estrada é poeirenta quando faz sol e barrenta quando chove, mas o trânsito de caminhões carregando gado e madeira não para.

A origem do vilarejo reflete uma história comum da Amazônia nos últimos 50 anos. Os primeiros moradores chegaram junto com a Transamazônica, nos anos 1970, atraídos pela oferta infinita de terras a preço zero. Naquela época, para ganhar o título de propriedade bastava marcar uma área e desmatá-la. Manuel Vieira Alves, 72, chegou em 1990 e conseguiu seu pedaço de chão, depois de passar por Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso. Segundo ele, a vila começou a crescer de verdade com a chegada das madeireiras, nos anos 2000: “Vieram as serrarias para cá e aí começou a atrair gente. Foi quando desenvolveu mais”.

Em 1995, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) criou o assentamento Santo Antônio do Matupi, que deu nome à localidade e atraiu migrantes vindos principalmente do sul do país.

Madeira, depois pecuária

Moradores contam que Matupi já teve mais de 50 madeireiras, a maioria ilegais. Os altos índices de desmatamento colocaram o distrito no radar da fiscalização ambiental. Houve operações do Ibama em 2009 – quando o órgão apreendeu 160 caminhões de madeira – em 2011 e 2013. Outras 9 ações de fiscalização ocorreram desde 2017. A mais recente foi em setembro de 2019, quando duas serrarias foram desmontadas. A repressão não conseguiu acabar com a atividade, mas reduziu o número de madeireiras à metade. Hoje, segundo o Ibama, existem 26 autorizadas a atuarem no distrito. Nem por isso a economia de Matupi parou de crescer. Faz alguns anos, a pecuária tomou a frente como principal atividade econômica. O distrito concentra praticamente todo gado de Manicoré – 115 mil cabeças – o que o torna o quarto maior rebanho do Amazonas. Entre 2004 e 2018, o número aumentou 800%, passando de 12,8 mil para 115 mil animais. No mesmo período, foi desmatada uma área equivalente a 82 mil campos de futebol.

José Carlos da Silva, 53, tem mais de 3 mil cabeças de gado. Sua família foi uma das primeiras a chegar a Matupi, em 1978, vinda do município de Xambrê, no interior do Paraná. Daquela época, ele lembra apenas da fome e da malária. Hoje, mora com a família em uma casa ampla e confortável, tudo graças à pecuária. “O pessoal até fala que gado é um negócio abençoado, e eu acredito que é. […] Tem os vegetarianos, né? Tem um monte de nome que eles falam lá, mas pra cá eu ainda não vi esse pessoal. Pra cá, as pessoas querem comer carne mesmo”. Da Silva acompanhou a transformação da economia local, da madeira para o gado:  “É um processo. Sempre nos lugares em que está começando, a madeira chega primeiro. Depois, vem o desmate da pecuária. Anda junto, a madeira com a pecuária”. As duas atividades também funcionam de forma parecida na hora de fugir da fiscalização ambiental. “Quantas vezes não saí correndo quando tava fazendo desmate?”, reclama Silva.

Atualmente, os bois criados em Santo Antônio do Matupi são vendidos para o abate em Manaus, Humaitá e Manicoré. Para chegar até Manaus, os animais são levados por 190 quilômetros em caminhões de boi até Humaitá, onde são colocados em barcaças, e viajam por 4 ou 5 dias pelo Rio Madeira. Outra opção é percorrer cerca de 100 km até o porto de Prainha e escoar pelo Rio Aripuanã.

O crescimento do rebanho local já atraiu a atenção de investidores. Hoje, há 2 frigoríficos em construção no distrito. Um deles pertence a um empresário local e deve ficar pronto no final de 2020. A unidade terá capacidade para abater 560 animais por dia, uma planta classificada como de porte médio. O segundo frigorífico está quase pronto e pertence ao grupo Frigonosso, dona de abatedouros em Cacoal e Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e Boca do Acre (AM). A empresa foi a primeira a ser multada por descumprimento do TAC da Carne, um Termo de Ajustamento de Conduta em que os frigoríficos se comprometem a não comprar carne oriunda de desmatamento ilegal. Em ação judicial de outubro deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) pediu o pagamento de uma multa de R$ 3,8 milhões de reais, diante da “total ausência de esforços para cumprir as obrigações assumidas” pela empresa na sua unidade de Boca do Acre. Apesar da multa, o Frigonosso se prepara para abrir seu novo frigorífico em Santo Antônio de Matupi,  onde, nos últimos 10 anos, o Ibama já embargou 452 áreas de fazenda por ilícitos ambientais.

((o))eco entrou com contato com o representante do Frigonosso em Santo Antônio do Matupi, mas ele negou receber a reportagem. Também foi solicitada uma entrevista através do email institucional da empresa, sem resposta.

20 fazendas e R$ 80 milhões em multas

Se os primeiros fazendeiros a chegar aqui, nos anos 1970, chegaram com uma mão na frente e outra atrás, hoje Matupi atrai gente graúda. Douglas Pereira Louzada Neves, maior fazendeiro da região, tem 20 fazendas em seu nome, que somam 70,8 mil hectares (mais de 70 mil campos de futebol), situadas em Manicoré e no município vizinho, Novo Aripuanã. As informações constam no documento anexado a uma das 6 ações que o Ministério Público Federal abriu contra Neves, que denunciam o desmatamento ilegal de 1.661 hectares. No Ibama, Neves também se destaca pelo número de autuações: foram 40 vezes, com 8 propriedades embargadas. Somando multas do Ibama e pedidos de indenizações do MPF, o total é de R$ 79,8 milhões.

Mas quando recebeu ((o))eco em sua casa, em Santo Antônio do Matupi, Neves admitiu um patrimônio mais modesto, de 3 mil hectares de terra e 3 mil cabeças de gado. Homem de poucas palavras, explicou que veio de Colorado, em Rondônia, em busca de terras mais baratas. Questionado sobre as multas do Ibama, alertou: “Sua reportagem tá começando a ir pro lado errado. Daí, já vou desanimar de você”.

A chegada de grandes investidores como Douglas Neves à Matupi é um dos fatores que impacta a formação do assentamento original do Incra, onde agora é difícil encontrar os primeiros assentados. A maioria vendeu a propriedade para grandes fazendeiros vindos de outros estados, principalmente Rondônia: “Tem muito pouca gente daquele tempo. Uns venderam aquele lotinho e compraram área maior para fora. Tem assentado do Incra aí que vendeu aqui por R$ 10 mil e foi lá pra frente e comprou 3 vezes mais terra do que ele tinha aqui”, explica Manuel Vieira Alves.

Uma dinâmica que mantém ativa a engrenagem do desmatamento. Quem vem na frente consegue a terra quase de graça, mas arca com as dificuldades de chegar em um lugar sem infraestrutura e onde o Estado é inexistente. Quem vem atrás paga um pouco mais caro, mas chega com mais dinheiro e melhores condições de investimento. Um processo que faz parte da história de ocupação da Amazônia, como explica Gabriel Cardoso Carrero, pesquisador sênior associado do Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia): “É um processo que poderia ser chamado de matogranização de Rondônia, e depois de rondonização do Amazonas. São pessoas que têm esse perfil de trabalharem mais com pecuária do que com agricultura, e que vão atrás de terras desocupadas, sem nenhuma infraestrutura. Quando a infraestrutura chega, estas terras valorizam e essas pessoas acabam por vender a terra e vão mais à frente na fronteira”.

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Por que vítimas de incêndios estão iradas com premiê da Austrália: ‘Não quero apertar sua mão’

Morrison foi criticado na internet por forçar uma mulher a apertar sua mão

“Eu realmente não quero apertar sua mão.”

“Você não vai conseguir nenhum voto aqui, parceiro. Você está fora.”

“E as pessoas que morreram, senhor primeiro-ministro? E aquelas que não têm para onde ir?”

Em visita a uma cidade devastada por incêndios nesta quinta-feira (2), o primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, foi duramente questionado pela população local.

Em Cobargo, no Estado de New South Wales, a raiva era palpável. Mas mais constrangedores — e, por isso, alvo de maior atenção — foram dois encontros menos barulhentos.

“Eu só vou cumprimentá-lo se você der mais dinheiro ao RFS [o corpo de bombeiros rural]. Tantas pessoas perderam suas casas”, disse ela.

“Eu entendo”, ele respondeu. Enquanto ele se afastava, ela acrescentou: “Precisamos de mais ajuda”.

Depois que um bombeiro também se recusou a apertar sua mão, Morrison disse a seus assessores: “Digam àquele rapaz que eu sinto muito. Tenho certeza de que ele está apenas cansado”. Ele, então, ouviu de uma autoridade local: “Não, não, ele perdeu sua casa”.

As interações, todas filmadas e bastante compartilhadas online, voltaram a colocar Morrison no centro da ira popular pela forma como ele vem lidando com os incêndios florestais sem precedentes que atingem o país.

O primeiro-ministro é acusado de estar sendo negligente perante a crise — passou, inclusive, alguns dias de férias no Havaí — e também tem sido criticado por subestimar os efeitos do aquecimento global nos incidentes.

Incêndios do tamanho de pequenos países

Desde setembro, os incêndios já deixaram 19 mortos, destruíram mais de 1.200 casas e devastaram milhões de hectares. Embora a atenção esteja centrada em New South Wales, o Estado mais atingido, todas as regiões do país foram afetadas.

A fumaça se espalhou por cidades do sudeste, a área mais populosa da Austrália, prejudicando a qualidade do ar para milhares de pessoas. Estima-se que milhões de animais tenham morrido, e que o custo econômico do desastre seja gigantesco.

Bombeiros atravessam túnel de fogo durante incêndio florestal na Austrália

O apoio popular aos bombeiros — em sua maioria voluntários —, que vêm lutando contra chamas em regiões cujo tamanho se assemelha ao de pequenos países, tornou-se unanimidade no país. Três deles morreram em serviço.

Chefes dos corpos de bombeiros locais, como o comissário Shane Fitzsimmons em NSW, tornaram-se os rostos da crise.

Para os críticos do primeiro-ministro, esses agentes são um exemplo de liderança. Nesta sexta (3), um membro destacado do partido de Morrison fez uma crítica pública à sua atuação.

“As únicas duas pessoas que estão oferecendo alguma liderança neste momento são Shane Fitzsimmons e [a governadora de New South Wales] Gladys Berejiklian”, disse Andrew Constance, secretário estadual dos transportes.

Ao comentar as interações do primeiro-ministro com a população, Constance afirmou: “Para ser sincero, ele provavelmente teve a recepção que mereceu”.

O que causou a ira da população?

No início da crise, as críticas se centravam na relutância de Morrison em debater como a mudança climática está piorando os incêndios florestais —uma conexão admitida pelo Serviço de Meteorologia da Austrália.

Embora tenha, desde então, admitido a contribuição do fenômeno, o líder conservador ainda sustenta que não há ligação direta entre o fogo e suas políticas para o clima.

O tema continua causando controvérsia em decorrência da dependência energética da Austrália na mineração de carvão.

Mas, conforme o fogo se espalhava, Morrison passou a ser acusado de “desaparecer” ocasionalmente. No mês passado, tirou férias no Havaí com a família enquanto os incêndios se intensificavam —ele se desculpou, mais tarde, pela “grande ansiedade” causada pela viagem.

Ao falar em um evento de críquete no dia do Ano Novo, Morrison foi considerado insensível ao dizer que os australianos se reuniriam em torno de suas TVs para serem “inspirados pelos grandes feitos de nossos atletas”.

Parte da população pede ainda que o governo direcione mais recursos para os corpos de bombeiros do país, amplamente não-remunerados, citando uma pressão extraordinária sobre os recursos e argumentando que comunidades menores são desfavorecidas.

Um grupo de ex-chefes dos serviços defende que o país precisa de uma nova estratégia de longo prazo contra incêndios, e criticam o primeiro-ministro por se recusar a encontrá-los.

O que diz Morrison?

Depois de dizer inicialmente que os bombeiros estão trabalhando “porque querem”, Morrison prometeu compensar financeiramente os voluntários que faltaram a seus trabalhos para ajudar, e disse que direcionará 11 milhões de dólares australianos (US$ 7,7 milhões) para financiar aviões que combatam o fogo.

Ele tem recusado os novos pedidos de recursos, mas elogia a atuação dos bombeiros com frequência. Para o político, uma seca prolongada é a principal razão da proporção tomada pelos incêndios.

Quando questionado nesta sexta-feira sobre o motivo de estar sendo contestado em público, ele afirmou à rádio 3AW: “As pessoas estão tristes e com raiva. Se estão nervosas comigo ou com a situação, o que importa é que estão sofrendo”.

Ele defende que a Austrália vai cumprir suas metas climáticas — afirmação contestada pelas Nações Unidas e outras entidades —, mas diz que medidas adicionais não podem ocorrer às custas de cortes irresponsáveis de vagas de trabalho na indústria de combustíveis fósseis.

Morrison pediu aos australianos que não cedam ao pânico e já disse repetidamente que cada Estado tem de ser responsável por sua estratégia de emergência — a melhor tática é deixar que cada um faça seu trabalho, disse.

Seus apoiadores dizem que ele não pode ser responsabilizado por esse tipo de desastre natural que sempre atingiu a Austrália, nem consertar o problema com mudanças bruscas e reativas nas políticas públicas.

‘Você será julgado’

Morrison foi reconduzido ao cargo em maio após vitória surpreendente nas urnas, levando-o a ser elogiado por muitos como um político perspicaz e instintivo. Mas, para alguns, sua reação aos incêndios despertou incredulidade.

“Estamos assistindo à destruição de um líder político, e dessa vez pelas suas próprias mãos”, tuítou o comentarista político Barrie Cassidy. O também comentarista Hugh Riminton escreveu: “Nunca vi um primeiro-ministro tão publicamente desprezado durante um desastre nacional”.

Vista aérea de cidades afetadas pelo fogo

Nem todos os comentários, porém, foram tão críticos. O governador de Victoria, Daniel Andrews, um político trabalhista, agradeceu a Morrison pelo auxílio fornecido ao Estado. Liz Innes, prefeita de um condado perto de Cobargo, pediu desculpas ao primeiro-ministro em nome daqueles que o contestaram, segundo a ABC.
BBC

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Meio Ambiente: Degradação da Amazônia já chegou a ponto irrecuperável

Pesquisa conduzida por cientista brasileiro aponta que desmatamento e mudanças climáticas podem aumentar área atingida por queimadas, transformando floresta de sumidouro em fonte de carbono.    

Trecho da Amazônia atingido por queimadas perto de Porto velho, em foto de agosto de 2019Trecho da Amazônia atingido por queimadas perto de Porto velho, em foto de agosto de 2019

Professor na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, o engenheiro florestal brasileiro Paulo Brando costuma usar uma analogia simples do mundo financeiro para explicar a importância da preservação da Amazônia. Ele convida o interlocutor a imaginar uma conta poupança. “Bem grande, cujos juros geram bastante dinheiro. Mas em vez de dinheiro, nela há um estoque de carbono. Ou seja, os juros são a capacidade de absorção de mais carbono.” Quanto mais você tira o dinheiro, menos juros essa conta rende. No caso das queimadas na Amazônia, estamos tirando a capacidade de absorção do carbono. Então basicamente os incêndios florestais somos nós queimando dinheiro”, compara o cientista.

Nesta sexta-feira (10/01), o periódico científico Science Advances traz uma pesquisa conduzida por Brando, na qual ele modelou os cenários da floresta brasileira diante das queimadas e do aquecimento global. E o futuro não é nada animador. A Amazônia caminha para o colapso, diz o pesquisador.

“No pior dos cenários, 16% da floresta serão queimados daqui para a frente até 2050. Junto a outros fatores de degradação, isso vai interagir com o clima”, afirma ele, à DW Brasil. “Estamos jogando uma roleta russa ambiental. Não sabemos qual é o número [a data exata do colapso], mas estamos chegando cada vez mais perto. Se chegarmos, a coisa vai para o buraco. O fogo é catalisador do processo.”

A pesquisa mostra que os níveis de desmatamento e o cenário previsto para o aquecimento global irão contribuir para intensificar ainda mais as queimadas na Amazônia.

Em agosto do ano passado, a floresta brasileira teve uma quantidade de incêndios bem acima da média. No período, foram registrados 30.901 focos de incêndio – a média registrada entre 1998 e 2018 para o mesmo mês era de 25.853. Comparando somente com o mês de agosto do ano anterior (10.421 focos de incêndio), a alta foi de 196%.

“O resultado desse processo é que, com a intensificação do fogo, haverá mais emissão de carbono na atmosfera. O desmatamento interage com mudanças climáticas e pode aumentar ainda mais a área queimada e as emissões pelo fogo”, comenta Brando. Trata-se de um ciclo vicioso, diz.

“Nosso estudo prevê o impacto disso na floresta. A Amazônia se protege do fogo porque tem um sub-bosque úmido, que não deixa as folhas secarem. A proteção da floresta é este sub-bosque. Quando há uma seca, uma temperatura mais alta, as plantas podem ficar estressadas hidricamente e jogar folhas para reduzir esse estresse. Com isso, entra mais luz, seca o sub-bosque e acaba essa proteção.” Então, conforme explica o cientista, o fogo gerado nas zonas desmatadas, por ação humana, “escapam e invadem a área de floresta primária”.

Segundo Brando, o estágio desse processo já é tão grave que, mesmo se todo o processo de desmatamento fosse interrompido hoje, o índice de incêndios prováveis para as próximas décadas seria reduzido em apenas 50%. “Se compararmos a Amazônia que existia na primeira década dos anos 2000 e a que deve existir em 2050, a área queimada quase dobra”, afirma.

De acordo com a pesquisa, a degradação da Amazônia já chegou a um ponto irrecuperável. “Em nossas simulações, a floresta não consegue se recuperar totalmente mais, mesmo em uma condição sem nenhum fogo”, pontua. “Mesmo que haja, na natureza, uma tendência de recuperação, [no atual estágio] isso não é suficiente, porque as mudanças climáticas não permitem. Então tem mais carbono ficando na atmosfera.”

Ciclo vicioso

“Os cenários futuros de clima gerados por modelos climáticos, que têm incertezas, sugerem que, no futuro, devido ao aumento de temperatura de de concentração de dióxido de carbono, a floresta pode entrar em colapso, por não conseguir mais absorver mais carbono – e passar a emitir carbono”, comenta o climatologista e meteorologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Segundo ele, isso significa a transformação de uma floresta sempre verde numa área florestal do tipo secundária ou mesmo na chamada savanização da Amazônia, ou seja, numa “vegetação tipo cerrado”.

“[Esse cenário] pode agravar a situação atual de aquecimento global”, completa o climatologista. “Podemos ter um clima mais seco, quente. E isso pode favorecer mais o risco de fogo e queimadas, que no final liberam ainda mais dióxido de carbono.”

De acordo com o climatologista Carlos Nobre, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), a floresta “não perturbada” tem absorvido nas últimas décadas uma quantidade que varia entre 1 bilhão e 2 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano.

“Globalmente, as atividades humanas emitem cerca de 40 bilhões de toneladas por ano”, afirma ele. “Portanto, a Amazônia retira da atmosfera entre 2,5% e 5% de todo o dióxido de carbono emitido. Se ela se tornar uma fonte de carbono, tanto pelo seu desmatamento, pelo aumento da destruição da floresta pelo fogo, quanto pelo próprio aumento da morte de árvores devido às mudanças climáticas, perde-se este importantíssimo serviço ecossistêmico para o planeta.”

Ação humana

Os incêndios ocorridos em 2019, concordam os especialistas, estiveram diretamente ligados à ação humana. “2019 não foi um ano anormalmente seco, como foi 2016, na Amazônia. Ainda assim, os desmatamentos e as queimadas induzidas diretamente por ações humanas aumentaram muito. O número de queimadas e a área queimada na Amazônia brasileira quase dobraram em 2019 em relação a 2018 e foram até bem maiores do que em 2016, ano de uma seca extrema”, diz Nobre.

“Isto é, o aumento de queimadas não pode ser atribuído somente a fatores de secas extremas. A ação humana em desmatar e colocar fogo para abrir novas áreas para a agropecuária contribuem muito para o aumento das queimadas”, acrescenta.

Segundo o climatologista, também o tradicional uso do fogo na agricultura tropical contribui para uma maior ocorrência de queimadas. “Muitas das áreas de florestas que pegam fogo são contíguas a áreas de agricultura. É o fogo para limpar a pastagem ou resíduos de culturas agrícolas escapam e propagam pelo chão da floresta. Podem propagar por centenas de metros no chão da floresta, queimando a biomassa da serrapilheira, mas também afetando árvores e aumentando a mortalidade de muitas árvores, que vão morrendo em anos subsequentes”, explica.

“As queimadas na Amazônia são maiormente geradas pelo homem, e com atmosfera e superfície secas o fogo se propaga rapidamente. O ano 2019 é sim uma mostra do que pode acontecer se aquecimento global aumenta e se desmatamento aumenta, mas não podemos dizer que a situação de 2019 vai se repetir em todos os anos seguintes”, acrescenta Marengo.

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19 fatos que marcaram o clima em 2019

A ativista Greta Thunberg com sua placa de “greve escolar pelo clima” (Foto: Cherwell.org).

Aquele que caminha para ser o segundo ou terceiro ano mais quente da história também foi quente para o noticiário ambiental. Em 2019, o mundo despertou para a emergência climática, jovens tomaram as ruas, idosos famosos foram presos em atos pelo clima e governos mostraram que não conseguem responder aos apelos da população.

No Brasil, o governo de Jair Bolsonaro promoveu a agenda ambiental a inimiga, paradoxalmente dando a ela uma visibilidade pública inédita. Atravessamos uma crise ambiental crônica chamada Ricardo Salles, com episódios agudos: recorde de queimadas em agosto, recorde de derramamento de óleo em setembro, recorde de desmatamento em novembro. Em janeiro, o Brasil teve o desastre ambiental mais fatal de sua história, com 270 mortos após o rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho. O governo aparentemente está respondendo à falha de regulação que permitiu esse crime com menos regulação. Em agosto, as queimadas na Amazônia botaram o país no centro de uma crise internacional, reforçada pelo pico no desmatamento confirmado em novembro.

Nesta retrospectiva, selecionamos alguns dos eventos que marcaram a luta contra a mudança do clima e os combustíveis fósseis neste ano.

1 – Pirralha porreta

Greta Thunberg encara Trump na ONU (Foto: reprodução de TV)

Em dezembro de 2018, uma adolescente loira de tranças aparentando menos que os 15 anos que tinha caminhava incógnita pelos corredores da conferência do clima de Katowice, na Polônia. Um ano depois, Greta Thunberg não conseguiria repetir as aparições discretas na COP de Madri: elevada a status de celebridade global, a ativista sueca, 16, arrasta multidões e fieiras de câmeras aonde quer que vá. Suas greves solitárias às sextas-feiras, quando matava aula para sentar-se diante do Parlamento sueco cobrando mais ação contra a crise climática, se transformaram em 2019 num movimento global, o Fridays For Future. Greta proferiu discursos furiosos sem aliviar para os adultos no Fórum Econômico Mundial, em fevereiro (“Eu não quero a esperança de vocês. Quero que vocês entrem em pânico”) e na Assembleia Geral da ONU, em setembro (“Como ousam?”). Inspirou milhões de jovens a participarem da maior marcha pelo clima da história, em 20 de setembro. Atraiu a ira de néscios, sobretudo da extrema-direita. E tornou-se a pessoa do ano da revista Time por ter capturado como nenhum ativista antes dela a hipocrisia do discurso da esperança e o abismo entre as boas intenções declaradas dos governos e seus atos reais contra os gases de efeito estufa – um dia depois de ser chamada de “pirralha” por Jair Bolsonaro.

O movimento de jovens foi reforçado por diversos movimentos de adultos. Na Europa, o coletivo Extinction Rebellion promoveu atos de desobediência civil que pararam Londres por dias (e terminaram com um monte de gente na cadeia). Nos EUA, celebridades como a atriz Jane Fonda iniciaram em outubro protestos na frente do Congresso. Fonda, 81, disse que sua meta era ser presa uma vez por semana. Até 20 de dezembro, ela já havia sido detida quatro vezes em 11 atos.

2 – Desmatamento em alta

Foto: Reprodução Facebook MCTIC.

A taxa de desmatamento na Amazônia cresceu 29,5% no período medido entre agosto de 2018 e julho de 2019. Trata-se do maior desmatamento em uma década e do terceiro maior incremento na taxa desde que o Inpe começou a fazer as medições do sistema Prodes, em 1988.

A escrita já estava no muro desde agosto do ano passado, quando o candidato Jair Bolsonaro prometia acabar com o Ibama e com as ONGs, estimulando desmatadores na Amazônia – no período eleitoral, o desmatamento cresceu 50%. Após um primeiro quadrimestre chuvoso, o desmate começou a mostrar aceleração forte em maio, batendo recordes sucessivos em junho (98% de aumento em relação a julho anterior), julho (274%) e agosto (223%). O sistema Deter, do Inpe, precisou mudar duas vezes a escala dos gráficos em sua página na internet, para acomodar taxas mensais sem precedentes. O ministro do Meio Ambiente chamou a divulgação dos dados de “sensacionalismo”, depois encomendou a seu fiel escudeiro Evaristo de Miranda um PowerPoint mostrando supostos “furos” no Deter, que justificariam a contratação de um sistema privado para “complementar” as informações do Inpe. Quando o Prodes saiu, mostrando a perda de 9.762 km2 de floresta e confirmando os alertas do Deter, o ministro tentou fugir para a frente e culpar os países ricos por não darem dinheiro para a conservação.

3 – Brasil negacionista

O chanceler Ernesto Araújo, que nega o aquecimento da Terra (Foto: Arthur Max/MRE).

Havia um tempo em que os brasileiros podiam se gabar de não precisarem discutir em praça pública se o aquecimento global é real ou não. Aceitávamos a ciência e dávamos risadinhas arrogantes do mundo anglo-saxão, onde o debate público foi capturado pelo lobby fóssil, o que atrasou em 20 anos a tomada de providências contra a crise do clima.

Isso mudou com a eleição de 2018.

O Brasil de Bolsonaro entrou para o grupo dos países nos quais o negacionismo climático é política de Estado. Por via do escritório de importação ideológica instalado na Virgínia, compramos o pacote fechado dos movimentos obscurantistas dos EUA. O ministro das Relações Exteriores professa a variante xucra do negacionismo, segundo a qual a ciência climática é uma invenção da esquerda para destruir o Ocidente e criminalizar o consumo de carne (e o sexo heterossexual). O ministro do Meio Ambiente é um mais alinhado com o negacionismo “prafrentex”, do século 21: admite que a mudança climática existe, mas questiona se é causada pelos humanos. Os ministros não estão sozinhos: o Senado brasileiro agora convoca negacionistas para audiências públicas e tem um negacionista como presidente da comissão mista de… Mudanças Climáticas. Para além da vergonha alheia, tal disseminação do negacionismo significa que nenhuma ação real no clima deverá ser adotada por este governo.

4 – RIP Fundo Amazônia

Logomarca Fundo Amazônia – Logo Floresta.

O que você faz quando tem uma floresta de 4 milhões de quilômetros quadrados para preservar e países ricos te dão quase R$ 3,5 bilhões para isso? Se você é o ministro Ricardo Salles, a resposta é simples: você chuta tudo para o alto porque tem birrinha de ONG.

Desde fevereiro, Salles tem tentado controlar o Fundo Amazônia, uma iniciativa bem-sucedida de pagamentos por redução de desmatamento (REDD+) em vigor desde 2008 numa parceria entre BNDES e os governos da Noruega e da Alemanha. O objetivo do ministro era cortar todos os recursos repassados à sociedade civil e distribuir o dinheiro a seus amigos do agro. Sugeriu, sem nunca ter provado, que ONGs estariam malversando a verba. Ou que o fundo não tinha critérios. Ou que o BNDES, um banco, não sabia gerenciar dinheiro. Tentou aparelhar os comitês gestores do fundo. Só que os doadores nunca toparam. #Xatiado, Salles extinguiu os comitês e desde então vem declarando que a retomada do fundo está “em negociação”. Na prática, o Fundo Amazônia está morto. Governadores da Amazônia, que juntamente com a União recebiam a maior parte do recurso, já estão atrás de doações diretas.

5 – Galvão não se dobra

Foto: Google.

Em 19 de julho, diante das notícias sobre a explosão do desmatamento na Amazônia em junho, Jair Bolsonaro inventou uma mentira para escapar à responsabilidade. Chamou a imprensa internacional para dizer que os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais eram “mentirosos” e que o diretor do Inpe, o físico Ricardo Galvão, 72, devia estar “a serviço de alguma ONG”. O presidente só não contava com a reação de Galvão. No dia seguinte, Galvão declarou ao jornal O Estado de S.Paulo que a atitude de Bolsonaro foi “pusilânime e covarde”. A declaração lhe custou o cargo, mas ajudou a preservar o Inpe, instituição que mede desmatamento na Amazônia por satélite há mais de 30 anos. Os holofotes da opinião pública passaram a ficar tão em cima do instituto que qualquer tentativa do governo de manipular os dados seria imediatamente percebida. A integridade do cientista e sua decisão de peitar o governo tornaram Galvão um herói nacional. Em dezembro, ele abriu a lista da prestigiosa revista Nature das dez pessoas que fizeram a diferença na ciência no mundo em 2019.

6 – O fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente

Da esq. para a dir.: José Carlos Carvalho, Sarney Filho, Izabella Teixeira, Rubens Ricupero, Marina Silva, Edson Duarte e Carlos Minc em reunião de ex-ministros (Foto: OC).

Em dezembro de 2018, quando Ricardo Salles foi escolhido para ser ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, o Observatório do Clima alertou que o movimento visava extinguir na prática o Ministério do Meio Ambiente sem o ônus de fechá-lo formalmente. A nomeação de um ruralista e então réu (ora condenado) por improbidade realizava o desejo de subordinar o MMA à pasta da Agricultura. Gostaríamos de estar errados quanto a isso.

Mas o primeiro ano da gestão Salles foi exatamente o que se esperava: o de desmonte acelerado do ministério, denunciado inclusive por oito dos nove ex-ministros vivos. O desmonte começou na própria estrutura da pasta, que no primeiro dia de governo perdeu a secretaria de Clima e Florestas (responsável por implementar os compromissos do Brasil no Acordo de Paris), a Agência Nacional de Águas e o Serviço Florestal Brasileiro. Aprofundou-se com a militarização do ICMBio, o esvaziamento das chefias do Ibama e dos cargos de chefia do próprio ministério, o aparelhamento do Conama, a mordaça às comunicações e a execução orçamentária pífia, mesmo com dinheiro em caixa e um monte de problemas ambientais para resolver. Até 25 de novembro, o empenho orçamentário da administração direta do MMA havia sido de menos de R$ 3 milhões, contra R$ 35,8 milhões em 2018.

7 – A “foice no Ibama”

Multado em 2012 por pesca ilegal numa unidade de conservação em Angra dos Reis, Jair Bolsonaro passou o primeiro ano de governo usando a Presidência para promover uma vendeta contra o Ibama, que ele chama de “indústria da multa”. Sob a batuta do ministro Ricardo Salles e execução do presidente Eduardo Bim, a autarquia passou a perseguir os próprios fiscais, abandonou estratégias de inteligência contra o crime ambiental, deixou a maioria de suas superintendências nos Estados acéfalas, censurou as comunicações com a imprensa – um elemento importante de dissuasão de crimes ambientais –, divulgou locais de operação na internet, alertando os criminosos, perdeu recursos para áreas estratégicas como combate ao fogo e viu a mais alta figura da República ordenar o fim da destruição de equipamentos apreendidos de bandidos em áreas protegidas federais. Funcionou: o Ibama aplicou em 2019 o menor número de multas em 15 anos, de acordo com dados públicos obtidos pelo OC e publicados no relatório The Worst is Yet to Come (“O Pior Ainda Está por Vir), lançado na COP25. O número de multas por desmatamento na Amazônia (3.445) foi o menor desde 2012, e o desmatamento foi o maior desde 2008.

8 – Indígenas viram alvo

Paulo Paulino Guajajara, guardião indígena assassinado (Foto: Jesus Pérez-chuseto.com).

Terras indígenas na Amazônia estocam o equivalente a 42 bilhões de toneladas de gás carbônico, sendo portanto fundamentais para o equilíbrio climático global. Mas elas também ajudam a manter o ciclo de chuvas no Brasil e conservar a biodiversidade – além, claro, de garantir a sobrevivência de mais de 170 povos.

Apoiado pela ala militar, pelos liberais e pelos evangélicos, Jair Bolsonaro abriu a temporada de caça às terras indígenas, vistas como um entrave ao “desenvolvimento” (que é como eles chamam a exploração de produtos primários vendidos a preço de banana no mercado internacional) e uma ameaça à “soberania”. Bolsonaro tem prometido abrir essas terras ao garimpo, à agropecuária e à extração de madeira. Na ponta, as promessas vêm sendo entendidas como um “liberou geral”. De janeiro a setembro, o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) registrou 160 invasões a terras indígenas, contra 111 no ano passado. O desmatamento em TIs subiu 65%. E líderes indígenas vêm sendo assassinados, como o guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara, morto numa emboscada em novembro na TI Arariboia, invadida por madeireiros (mais dois guajajaras foram mortos no começo de dezembro na mesma terra). O estímulo às invasões levou Bolsonaro a ser denunciado por genocídio ao Tribunal Penal Internacional.

9 – ONGs viram alvo

Os #4deSantarém deixam a prisão.

Durante a campanha, Jair Bolsonaro prometeu “acabar com todo tipo de ativismo” no Brasil. Em seus discursos, o presidente tem incluído as ONGs na mesma categoria do pessoal que tem de ir para a tal “ponta da praia”. O ministro Ricardo Salles tem tentado cumprir a promessa presidencial sufocando financeiramente as ONGs: primeiro com o ofício (ilegal e do qual teve de recuar) determinando a suspensão de todos os convênios do ministério com organizações do terceiro setor; depois, congelando o Fundo Amazônia. Em abril, um decreto presidencial eliminou centenas de colegiados com participação da sociedade civil em todo o Executivo, limitando o controle social da administração federal. Em seguida, o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) foi alterado, mais uma vez para limitar a participação social e aumentar o controle do governo.

A nova fase da eliminação do ativismo parece ser a criminalização. No final de novembro, quatro brigadistas voluntários foram presos e o escritório do Projeto Saúde e Alegria foi invadido pela Polícia Civil de Santarém (PA), sob a acusação surreal de que os ambientalistas estariam por trás dos incêndios feitos por grileiros numa área de proteção em Alter do Chão. Numa omissão inexplicável do governador Helder Barbalho (MDB), os quatro foram indiciados na semana do Natal.

10 – Amazônia em chamas

Incêndio em Alter do Chão em setembro (Foto: Eugênio Scannavino).

Em 10 de agosto, fazendeiros da região de Novo Progresso, no Pará, combinaram por WhatsApp um “Dia do Fogo”, uma espécie de queimadaço coletivo de áreas que eles haviam derrubado. A queima tinha o objetivo declarado de “mostrar serviço” ao presidente Jair Bolsonaro. E iniciou uma crise internacional. Naquele mês, o número de queimadas na Amazônia foi o maior em sete anos – o triplo do registrado no mesmo mês do ano passado. Foi o maior número de focos da queimada registrado num mês de agosto desde o início da queda no desmatamento que não esteve associado a nenhum evento de El Niño ou seca extrema.

O governo reagiu primeiro tentando desqualificar o dado (eram “fogueiras de acampamento”, nas palavras imorredouras do chanceler), depois relativizá-lo e, por fim, quando a realidade tornou-se inescapável, restou culpar as ONGs e os índios pelas queimadas. Mas todos os dados científicos mostravam que as chamas nada mais eram do que a etapa final do desmatamento da floresta, que havia acelerado no segundo semestre, como vinha mostrando o Inpe. Em setembro, Bolsonaro determinou a contragosto que o Exército fosse deslocado para combater o fogo. A presença dos militares, aliada ao retorno das chuvas, fez o número de focos cair em outubro. Mas o desmatamento teve um repique em novembro, tão logo o Exército saiu de campo. Na estação seca, toda essa floresta derrubada queimará novamente.

11 – Califórnia em chamas

Os incêndios florestais devastadores no Estado americano da Califórnia tornaram-se endêmicos, como os cientistas previam há 30 anos. Em outubro de 2019 os californianos assistiram a mais uma temporada grave de fogo, mas menos severa do que nos anos de 2017 e 2018, os piores da história, quando mais de uma centena de pessoas morreram. Neste ano, a estação de fogo veio acompanhada de blecautes maciços (algo comum nas grandes cidades brasileiras, mas inédito nos EUA). A ligação entre a infraestrutura de transmissão de eletricidade e o início dos incêndios fez a distribuidora de energia PG&E decretar falência, tornando-se a primeira falência relacionada à mudança climática no mundo.

12 – Austrália em chamas

Bombeiro resgata coala na Nova Gales do Sul, Austrália.

Do outro lado do Pacífico, a Austrália vive dias de terror desde novembro devido ao fogo, à estiagem e as altíssimas temperaturas. Enquanto esta retrospectiva era escrita, as queimadas mais devastadoras da história arrasavam o continente, cacatuas caíam mortas das árvores pelo calor e aborígenes da região central australiana eram forçados a sair de suas terras – os primeiros refugiados climáticos australianos. Em novembro, centenas de coalas morreram nos incêndios, levando a manchetes exageradas sobre a espécie estar “funcionalmente extinta”. Em 18 de dezembro, o país teve a temperatura mais alta da história: uma média nacional de 41,9oC, o que significa que em algumas localidades os termômetros bateram os 50oC. O serviço de meteorologia australiano mudou até o código de cores de seus mapas de temperatura, usando um marrom para simbolizar as regiões mais quentes – à falta de tons mais escuros de vermelho. Em 10 de novembro, a Austrália registrou, também pela primeira vez em sua história, um dia sem chuvas em parte alguma de seus 7,9 milhões de quilômetros quadrados.

O governo australiano aparentemente acha que se trata de castigo divino ou de uma “variabilidade do sistema”. O premiê australiano, Scott Morrison – eleito numa disputa apertada que tinha como um dos temas principais a crise do clima –, é um negacionista climático que quer manter a lucrativa indústria do carvão mineral. Já a ciência não hesita em classificar os incêndios e o calorão como decorrência direta da mudança do clima. Talvez os eleitores australianos ouçam a ciência da próxima vez.

13 – Fiasco madrileno

Foto: Kiara Worth / IISD.

A COP que não deveria ter sido foi, e o resultado só faz provar que ela não deveria ter sido. Rejeitada pelo Brasil, abraçada pelo Chile e desviada de última hora para a Espanha após a Primavera Chilena, a COP25 tinha duas missões: completar a negociação sobre mercados de carbono, fechando o chamado “livro de regras” do Acordo de Paris, e arrancar dos governos um compromisso forte de aumentar a ambição de suas metas de corte de emissão (NDCs) para 2020. Fracassou fragorosamente em ambas. O chamado artigo 6 do acordo (as regras para os mercados) não fechou e a exortação sobre ambição foi genérica e, digamos, pouco ambiciosa.

O resultado foi em parte responsabilidade da presidência fraca da ministra chilena Carolina Schmidt, mas em grande parte culpa dos grandes países emissores. Um em especial teve um papel particularmente deletério: o Brasil. O ministro Ricardo Salles (aquele mesmo que dizia que COPs eram apenas férias de luxo para funcionários públicos e que tentou impedir a Climate Week, uma espécie de “miniCOP” latino-americana na Bahia, alegando tratar-se de mera oportunidade para turismo gastronômico) passou duas semanas em Madri chefiando a delegação brasileira, algo inédito, já que ministros só participam dos últimos dias de negociação. Entre uma ida às compras e outra, Salles fez bullying em diplomatas brasileiros e tentou chantagear os outros países a dar dinheiro ao Brasil em troca de destravar negociações. De forma inédita, o Brasil vetou menções a direitos humanos e a emergência climática nos textos em negociação – e, na plenária de encerramento, ficou isolado ao tentar retirar a menção a oceanos numa manobra em defesa dos ruralistas. As mudanças de orientação do Brasil acabaram dando palco a países como a Austrália para melar toda a negociação, e o resultado foi um fiasco como não se via desde 2009 numa COP. A atuação deu ao Brasil o antiprêmio Fóssil do Ano, concedido pelas ONGs aos países que mais atrapalham as negociações. Em mais uma profecia autorrealizável e com o decoro que lhe é peculiar, Salles botou a culpa no processo e nos outros por uma derrocada que ele mesmo protagonizou.

14 – Etanol na vala comum

Tereza, Jair e Paulo (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil).

Alguém se lembra do etanol, aquele biocombustível vendido pelo Brasil como sustentável porque não aumentava o desmatamento nem competia por terra com culturas alimentares? Em 6 de novembro ele foi jogado na lama pelo governo Bolsonaro. E justamente pelas mãos de dois ministros considerados “técnicos” e “razoáveis”: Tereza Cristina (Agricultura) e Paulo Guedes (Economia). Numa canetada, os dois e o presidente extinguiram uma proibição em vigor há dez anos do plantio de cana na Amazônia e no Pantanal. Desta vez, tiveram o apoio da Unica, o lobby sucroalcooleiro que um ano atrás se manifestara contra o fim da proibição (um desejo antigo de alguns ruralistas) por achar que isso gerava muito dano de imagem para pouco proveito econômico concreto (achavam certo: as áreas designadas no país como aptas ara a cana equivalem a seis vezes tudo o que o Brasil plantou dessa gramínea em 500 anos, ou seja, não há nenhuma necessidade de plantar na Amazônia e no Pantanal). O decreto de novembro parece ser mais uma demonstração de poder dos ruralistas, que querem eliminar qualquer regulação sobre sua atividade. E traz um sinal para outros setores, como o da soja e o da carne, de que nenhuma restrição, estatal ou voluntária, deverá valer mais para as commodities brasileiras.

15 – Investidores reagem

Queimada em Porto Velho, Rondônia – Foto: Victor Moriyama / Greenpeace.

A política antiambiental de Bolsonaro não passou incólume a dois grupos de pessoas que se informam por outros canais que não os grupos de WhatsApp do Carluxo: os investidores e os mercados internacionais. Em agosto, 18 marcas internacionais, incluindo Vans, Timberland e The North Face reunidas sob a VF Corporation, anunciaram boicote ao couro brasileiro devido à situação da Amazônia. Em setembro foi a vez da H&M, uma das maiores redes varejistas do mundo. Também em agosto, grupos de investidores com US$ 16 trilhões em ativos pediram ao governo providências concretas contra as queimadas na floresta e demandaram às empresas que expliquem como estão lidando com o problema. Em dezembro, 87 grandes corporações, incluindo a Tesco e o Carrefour, escreveram a Bolsonaro pedindo a manutenção da moratória da soja, em vigor há 13 anos, depois que os produtores, reunidos na Aprosoja, prometeram derrubá-la.

16 – 408, 7.6, 1.1, 0.6 – os números do ano

Enquanto os políticos falham em responder à altura à crise do clima, a ciência segue contabilizando a catástrofe em relatórios anuais que mostram quão longe a humanidade está de um clima seguro. Neste ano, a Organização Meteorológica Mundial mostrou que a temperatura média do planeta (continentes e oceanos) deve fechar em 1,1ºC, o que tornará 2019 o segundo ou terceiro ano mais quente da história. A OMM também divulgou mais um recorde das concentrações de CO2 na atmosfera: 407,8 partes por milhão em 2018, 47% acima dos níveis pré-industriais. O IPCC, que lançou dois relatórios especiais (um sobre terra e outro sobre oceanos e criosfera) neste ano, mostrou que, sobre os continentes, o aquecimento global já bateu o limite de 1,5oC preconizado pelo Acordo de Paris. E, no fim do ano, o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) publicou a nova edição de seu relatório Emissions Gap, segundo a qual a humanidade precisa cortar emissões em 7,6% por ano todos os anos daqui a 2030 – algo que não está nem próximo do horizonte – se quiser ter uma chance razoável de evitar a ultrapassagem da barreira do 1,5oC. A “boa” notícia ficou por conta do consórcio Global Carbon Project: em 2 de dezembro, eles publicaram sua estimativa anual das emissões globais por combustíveis fósseis, mostrando que em 2019 elas cresceram “apenas” 0,6%, metade do ritmo verificado no ano anterior. Lembrando que deveriam ter caído 7,6%.

17 – Adieu, Paris

No dia 5 de novembro, surpreendendo a um total aproximado de zero pessoa, o presidente dos EUA, Donald Trump, mandou à ONU a carta de denúncia do Acordo de Paris, iniciando formalmente o processo de saída do tratado. A notificação afirma que o acordo climático é “oneroso” para os Estados Unidos, mas deixa em aberto a possibilidade – vista como infâmia pela comunidade internacional – de retornar caso Paris seja “renegociado” nos termos que Trump deseja. De acordo com as regras do pacto, a saída se efetiva um ano após a notificação. Ou seja, os EUA estarão fora em 4 de novembro, um dia após a eleição presidencial que pode apear Trump do poder.

Sem os Estados Unidos, o clima de cooperação internacional visto em 2015 em Paris e fundamental para o sucesso da implementação do acordo não deve se repetir. Países em desenvolvimento, por exemplo, tendem a fazer corpo mole com suas metas de corte de emissão, já que a promessa de financiamento climático dos países ricos fica mais difícil de cumprir sem o aporte do mais rico de todos eles. Por outro lado, as emissões dos EUA já estão em queda devido a mudanças tecnológicas na geração de energia – e isso dificilmente se reverterá, por mais que Trump goste do carvão mineral.

18 – #ÓleonoNordeste

Em 2019, os brasileiros quase tiveram saudades do tempo em que a coisa mais sinistra que aportava misteriosamente nas praias eram latas de maconha. No final de agosto, manchas de óleo começaram a aparecer em algumas praias nordestinas, no que se tornaria o maior desastre ambiental do litoral brasileiro: 4.500 km de praias foram contaminados, do Rio de Janeiro ao Maranhão. Em setembro, grandes quantidades de óleo tomaram praias icônicas, como a Praia dos Carneiros, em Pernambuco, e Itapoã, na Bahia, além de estuários e manguezais. Apesar das declarações do secretário da Pesca, Jorge Seif Jr., sobre a cognição avançada dos peixes, a indústria pesqueira nordestina sofreu um baque que ainda não pôde ser calculado, com a contaminação de pescado por substâncias tóxicas no óleo. O governo levou 41 dias para acionar o plano de contingência contra vazamentos, que o ministro do Meio Ambiente só descobriu que existia no fim de setembro. Os dois comitês que gerenciavam a resposta rápida haviam sido extintos. A limpeza das praias foi feita por voluntários, que colocaram a própria saúde em risco, e por funcionários locais do Ibama. Até hoje não se sabe de onde o óleo veio, nem quando vai parar de chegar às praias. Na dúvida, o ministro Ricardo Salles adorou a estratégia do chefe e culpou o Greenpeace pelo vazamento – e levou um processo. O episódio mostra mais um risco da dependência de combustíveis fósseis e indica quão preparado o Brasil não está para lidar com vazamentos de grandes proporções no pré-sal.

19 – Grile, que o Jair garante

Paulo Lopes/Futura Press.

Em 11 de dezembro, com a COP25 em pleno curso, Jair Bolsonaro deu um presentão de Natal para os criminosos que desmatam a Amazônia: baixou uma Medida Provisória liberando a regularização de terras griladas até 2018, atendendo a seus eleitores que invadiram, devastaram e ocuparam florestas públicas para especular com a terra, apostando na impunidade. A MP repete, ampliando, a anistia à grilagem que já havia sido dada por Michel Temer e que é objeto de uma ação de inconstitucionalidade no STF.

A ocupação de terras públicas é o principal motor do desmatamento na Amazônia – e, portanto, a principal causa individual de emissões de carbono do Brasil: 35% do desmatamento visto em 2019 ocorreu em terras devolutas ou sem informação sobre posse. Diferentemente do que alega o governo, a grilagem é feita em sua esmagadora maioria por quadrilhas bem organizadas e bem financiadas, muitas vezes comandadas desde São Paulo – e não por pequenos agricultores pobres. O limite de 2.500 hectares dado pela MP de Bolsonaro para tornar um imóvel passível de regularização também mostra que são os latifundiários que se beneficiam da medida presidencial.

Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

Amazônia está sob ataque

Entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento da Amazônia cresceu 30%, com quase 10.000 km² desmatados – o equivalente a 1,4 milhão de campos de futebol, segundo dados do Prodes, medido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A destruição que se intensificou em 2019 é resultado de uma política antiambiental que estimula atividades predatórias, como queimadas, desmatamento e garimpo em áreas protegidas, e aumenta ainda mais a violência contra os povos que vivem e dependem da floresta.

Nosso futuro e a possibilidade de vida no planeta estão sendo destruídos junto com a floresta

A Amazônia é vital para combater a emergência climática que bate à nossa porta. Esta é uma batalha que não podemos nos dar ao luxo de perder.

Enquanto a Amazônia é devastada, o governo não só ignora sua responsabilidade em garantir a proteção da floresta, como também estimula mais destruição.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03
Elencamos aqui as reais medidas que devem ser tomadas para evitar ainda mais fogo na floresta e salvar a Amazônia da destruição:

  1. Reverter o desmonte das políticas ambientais e garantir a capacidade do Estado brasileiro em combater os crimes ambientais

  2. Implementar políticas de combate e mitigação das mudanças climáticas, de proteção à biodiversidade e de criação e implementação de áreas protegidas
  3. Fortalecer iniciativas que levam à redução do desmatamento, como é o caso da Moratória da Soja na Amazônia e de outros compromissos que visam excluir desmatamento de cadeias produtivas
  4. Retomar a demarcação das Terras Indígenas e garantir o respeito dos direitos constitucionais dos povos indígenas
  5. Fim da grilagem de terras, da exploração ilegal de madeira, da mineração e autorizações de queimadas, especialmente em áreas protegidas e terras indígenas 
  6. Nenhuma nova hidrelétrica e fim da exploração de petróleo na Amazônia 
  7. Garantir um processo de licenciamento ambiental efetivo para todos os projetos de infraestrutura que proteja as pessoas e o meio ambiente
  8. Garantir a transparência das informações produzidas pelas instituições brasileiras para controle social
  9. Restaurar a participação da sociedade nos processos políticos
  10. Garantir um ambiente seguro para ativistas e lideranças comunitárias no Brasil

Amazônia,Desmatamento,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita 06

TODOS PELA AMAZÔNIA

Sem floresta, sem vida. Sem floresta, sem água. Sem floresta, sem comida. Sem floresta, sem futuro.

A Amazônia é o coração pulsante do nosso planeta, vital para regular o clima global e garantir o futuro da vida na Terra. A floresta também é lar de milhares de pessoas, incluindo diversos povos indígenas e comunidades tradicionais, além de abrigo para incontáveis espécies de animais e plantas, algumas ainda desconhecidas pela ciência.

A importância da maior floresta tropical do mundo é reconhecida no mundo todo, porém, neste exato momento, ela corre um grave perigo. O desmatamento já destruiu quase 20% da Amazônia e responde por cerca de metade das emissões de gases de efeito estufa pelo Brasil.

Em vez de fortalecer medidas de proteção à floresta e garantir nosso futuro, o governo está liderando um verdadeiro desmonte da política ambiental brasileira, enfraquecendo os órgãos de combate aos crimes contra a natureza e premiando aqueles que destroem o meio ambiente. Como resultado, estamos vendo a floresta virar fumaça com grandes queimadas e os índices de desmatamento dispararam.Amazônia,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita,Alter do Chão,Brasil,Pará

Não há mais tempo a perder. Grandes marcas globais (como Nestlé, Mondellez e Unilever) se comprometeram a tirar o desmatamento de suas cadeias produtivas para salvar o clima, mas dez anos depois, quase nada foi feito. Diante da emergência climática em que nos encontramos, proteger a Amazônia não é mais uma opção, é uma necessidade urgente. Empresas e governos precisam agir para salvar as florestas, nosso clima e nosso futuro. Este é um manifesto e um movimento. Cada assinatura representa mais um elo na corrente. Juntos, formaremos uma rede de proteção à floresta e seus povos.

Precisamos de você e de todo mundo. Agora mais do que nunca.

Faça parte desse movimento. #TodosPelaAmazônia

Fortaleza,Árvores,Blog do Mesquita 2

Fortaleza está virando um deserto

Fortaleza,Árvores,Blog do Mesquita 2Por Sérgio Quixadá – Arquiteto Paisagista e Historiador

Não importa apenas o que o termômetro marca. Importa também a sensação térmica, que pode ter diferença de muitos graus com relação ao termômetro.
Costumo explicar a sensação térmica da seguinte maneira: em um dia de muito calor você coloca duas pessoas sentadas a um metro de distância uma da outra e coloca um ventilador apontado para apenas uma delas. Uma estará confortável enquanto a outra sofre com o calor. Mas se você colocar um termômetro na parede, pouco acima da cabeça de cada uma delas, verá que os termômetros marcam a mesma temperatura, embora a sensação térmica percebida por cada uma seja completamente diferente.

Quando fiz meu MBA em Políticas Públicas Inovadoras, meu trabalho de conclusão de curso teve como título: “Arborização Urbana – Uma questão além da estética”.
Para isso bebi na fonte de vários cientistas e pesquisadores do Brasil e do mundo.
O subtítulo “Uma questão além da estética”, se deve ao fato de durante as minhas pesquisas eu ter descoberto que a arborização não apenas embeleza e faz sombra, mas tem influência na economia de energia, no comércio, no turismo, nas enchentes, nas secas, na biodiversidade, na segurança de trânsito e na saúde física e mental.Fortaleza,Árvores,Blog do Mesquita 3

As pessoas me perguntam: Por que hoje em dia chove em Fortaleza e não refresca?
A resposta é: pelo mesmo motivo que jogar água em uma chapa quente não irá refrescar a cozinha.
O concreto durante a noite, libera de 50 a 55% do calor que recebeu durante o dia. O asfalto de 90 a 95%. É um sol sem luz de baixo para cima. E A brisa, originalmente fresca, corre sobre o asfalto e entre concretos, qual tubulação de aquecedor, tornando-a quente.

Estudos indicam que uma grande árvore influencia a temperatura até mesmo a 50 metros de distância da projeção da sua copa.
O que fazia Fortaleza ficar fresca durante dias após uma boa chuva era um fenômeno chamado EVAPOTRANSPIRAÇÃO, que é a junção da evaporação de parte da água que penetrou no solo livre e permeável com a transpiração das árvores em forma de vapor frio.

Com a pavimentação da cidade, quer seja com asfalto, quer seja com concreto, perdemos os benefícios da EVAPOTRANSPIRAÇÃO.
E assim surgem as ILHAS DE CALOR, que são áreas mais quentes do que o seu entorno rural. Mais quentes do que deveria ser em sua localização geográfica.

O grande paisagista Roberto Burle Marx já dizia: “A sombra de uma árvore sempre será mais fresca que a de uma marquise!”

A falta de áreas verdes e a impermeabilização do solo cria múltiplos problemas. Quando chove o solo não absorve a água, provocando inundações. E os poços ficam secos, pois não recebem a água, que corre toda para o mar. As construções em dunas agravaram a questão hídrica, pois elas são grandes coletoras naturais de águas pluviais.

Estudos nos EUA, Canadá, Austrália e Japão, indicam que cidades com ruas e avenidas arborizadas, onde a população frequenta parques, tem menores índices de depressão, suicídios, homicídios e crimes sexuais.

Fortaleza está em uma posição geográfica privilegiada. Em local alto (reparem que descemos para ir à praia, tanto na Beira-mar quanto na Praia do Futuro). Temos um vento constante e com direção previsível. A barreira de edifícios influencia no clima? Sim, influencia, pois são construídos muito próximos uns dos outros, criando a geometria do cânion urbano. Era preferível terem permitido altura maior mas com grandes recuos por todos os lados.Fortaleza,Árvores,Blog do Mesquita

Algumas árvores chegam a absorver um quilo e meio de micropartículas por dia. A falta de árvores e áreas verdes que absorvem a poeira urbana agrava os problemas alérgicos e respiratórios. Quando chegam os meses de agosto e setembro, os postos de saúde ficam lotados de pessoas de todas as idades, com crises de laringite, faringite, asma, rinite e por aí vai. Dizem que é o pólen do cajueiro. Nada disso! O pólen do cajueiro tem o peso específico alto. Ele não voa. E onde é que tem cajueiros hoje em dia? A questão é que agosto e setembro são meses de ventos fortes. E sem áreas verdes, todo o pó fica em suspensão.
Isso sem contar os altos índices de câncer de pele e catarata pela falta de sombra.

Paro por aqui para lançar o meu protesto: Fortaleza está se transformando em uma pedra ao sol. A avenida Antônio Sales não tem árvores. As árvores da Bezerra de Menezes foram cortadas. A avenida Aguanambi também está sem árvores. Quando foram expandir a av. Washington Soares cortaram as árvores e fizeram uma ciclovia de uns 30 km sem sombras. O calçadão da Praia de Iracema e grande parte da Beira Mar não tem árvores. Os bancos ficam expostos ao sol.
E AGORA cortaram as árvores da S. Dumont em direção às dunas. Como se pode caminhar em uma cidade assim?

Estamos ficando pior que as cidades do Norte da África e Oriente Médio, pois lá é subtropical e tem estações frias.

Fortaleza se transforma em um deserto de concreto e asfalto com suas terríveis ilhas de calor. Um verdadeiro inferno ecológico!

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Desmatamento e mudança climática, em 10 imagens – Fotografias

As consequências da ação do homem sobre a natureza estão em discussão na COP25, conferência da ONU que ocorre em Madri

  • O solo é um elemento essencial nos ecossistemas, pois ajuda a regular processos importantes, como absorção de nutrientes, decomposição e disponibilidade de água, básicos para o desenvolvimento da vegetação. Nesta imagem, uma ameaça de chuva em uma área punida pela seca em Graaf Reinet, na África do Sul.
    O solo é um elemento essencial nos ecossistemas, pois ajuda a regular processos importantes, como absorção de nutrientes, decomposição e disponibilidade de água, básicos para o desenvolvimento da vegetação. Nesta imagem, uma ameaça de chuva em uma área punida pela seca em Graaf Reinet, na África do Sul. MIKE HUTCHINGS REUTERS
  • Segundo a ONU, a frequência e magnitude dos incêndios florestais, algo que ocorria anteriormente sazonalmente, está aumentando devido às mudanças climáticas com efeitos devastadores que resultam na perda de vidas, propriedades, recursos para subsistência e biodiversidade. Na foto, um policial tenta combater um incêndio em Riau, na Indonésia, em 4 de outubro.
    Segundo a ONU, a frequência e magnitude dos incêndios florestais, algo que ocorria anteriormente sazonalmente, está aumentando devido às mudanças climáticas com efeitos devastadores que resultam na perda de vidas, propriedades, recursos para subsistência e biodiversidade. Na foto, um policial tenta combater um incêndio em Riau, na Indonésia, em 4 de outubro. BARCROFT MEDIA GETTY
  • O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estima que em agosto deste ano foram queimados 2,5 milhões de hectares na Amazônia. A queima intencional de florestas para uso agrícola marcou um ano desastroso para o grande pulmão do nosso planeta. Neste ano, o presidente Jair Bolsonaro disse que "queima controlada" é uma "tradição" em algumas partes do país. Na foto, o agricultor Hélio Lombardo Do Santos e seu cachorro, em uma área de floresta queimada em Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil, em 26 de agosto.
    O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estima que em agosto deste ano foram queimados 2,5 milhões de hectares na Amazônia. A queima intencional de florestas para uso agrícola marcou um ano desastroso para o grande pulmão do nosso planeta. Neste ano, o presidente Jair Bolsonaro disse que “queima controlada” é uma “tradição” em algumas partes do país. Na foto, o agricultor Hélio Lombardo Do Santos e seu cachorro, em uma área de floresta queimada em Porto Velho, no estado de Rondônia, no Brasil, em 26 de agosto. CARL DE SOUZA AFP
  • Um dos animais mais afetados pelo desmatamento na Ásia são os orangotangos, além de outras espécies como tigres, elefantes e rinocerontes. Nesta imagem, trabalhadores resgatam um orangotango de Sumatra de uma plantação de óleo de palma para entrar em uma área mais segura em Geulagang Gajah, na província de Aceh, na Indonésia, em 3 de agosto de 2018.
    Um dos animais mais afetados pelo desmatamento na Ásia são os orangotangos, além de outras espécies como tigres, elefantes e rinocerontes. Nesta imagem, trabalhadores resgatam um orangotango de Sumatra de uma plantação de óleo de palma para entrar em uma área mais segura em Geulagang Gajah, na província de Aceh, na Indonésia, em 3 de agosto de 2018. BARCROFT MEDIA GETTY
  • Vista aérea de um incêndio em 25 de agosto deste ano em Porto Velho, Rondônia, Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o número de incêndios detectados por satélite no Brasil é o mais alto desde 2010.
    Vista aérea de um incêndio em 25 de agosto deste ano em Porto Velho, Rondônia, Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o número de incêndios detectados por satélite no Brasil é o mais alto desde 2010. VICTOR MORIYAMA GETTY IMAGES
  • Incêndio voluntário da floresta virgem da Amazônia para a criação de áreas de gado no Brasil em uma imagem de 2017.
    Incêndio voluntário da floresta virgem da Amazônia para a criação de áreas de gado no Brasil em uma imagem de 2017. HANS SILVESTER GETTY
  • Mais de 10 milhões de pessoas no Chifre da África estão sendo afetadas pela pior seca em 60 anos. Segundo um relatório publicado pelas Nações Unidas, a escassez de chuvas no leste da África está causando uma grave crise alimentar e um aumento nas taxas de desnutrição em muitos países. Na imagem, o corpo de um búfalo deitado no Parque Nacional Mana Pools, no Zimbábue.
    7Mais de 10 milhões de pessoas no Chifre da África estão sendo afetadas pela pior seca em 60 anos. Segundo um relatório publicado pelas Nações Unidas, a escassez de chuvas no leste da África está causando uma grave crise alimentar e um aumento nas taxas de desnutrição em muitos países. Na imagem, o corpo de um búfalo deitado no Parque Nacional Mana Pools, no Zimbábue. TSVANGIRAYI MUKWAZHI AP
  • Uma mulher se desespera durante um incêndio em Pampilhosa da Serra, em Portugal, em 18 de junho de 2017. Incêndios, tsunamis e furacões fazem parte do cenário que a crise climática atraiu nos últimos anos e está muito presente nas discussões da COP25, convenção do clima que ocorre em Madri.
    Uma mulher se desespera durante um incêndio em Pampilhosa da Serra, em Portugal, em 18 de junho de 2017. Incêndios, tsunamis e furacões fazem parte do cenário que a crise climática atraiu nos últimos anos e está muito presente nas discussões da COP25, convenção do clima que ocorre em Madri. PAULO NOVAIS EFE
  • A Califórnia tem sido uma das áreas dos Estados Unidos mais afetadas por grandes incêndios. Os dois maiores incêndios dos últimos anos, o de outubro de 2017 em Santa Rosa (23 mortos quando um bairro inteiro foi arrasado) e o de novembro de 2018 em Paradise (85 mortos em poucas horas), tiveram origem em falhas na infraestrutura elétrica. Na foto, um bombeiro trabalha na extinção de um incêndio em Somis, Califórnia, em 31 de outubro deste ano.
    A Califórnia tem sido uma das áreas dos Estados Unidos mais afetadas por grandes incêndios. Os dois maiores incêndios dos últimos anos, o de outubro de 2017 em Santa Rosa (23 mortos quando um bairro inteiro foi arrasado) e o de novembro de 2018 em Paradise (85 mortos em poucas horas), tiveram origem em falhas na infraestrutura elétrica. Na foto, um bombeiro trabalha na extinção de um incêndio em Somis, Califórnia, em 31 de outubro deste ano. MARCIO JOSÉ SÁNCHEZ AP
  • A Austrália tem sofrido uma seca insistente nos últimos três anos, e também uma das mais devastadoras desde que os registros foram feitos. Cerca de 98% de Nova Gales do Sul sofre com a seca e, na mesma situação, dois terços da vizinha Queensland. Segundo dados oficiais, a seca causou prejuízo de cerca de 5.000 milhões de dólares australianos (3.000 milhões de euros). Na imagem, vista aérea de fazendas afetadas pela seca, no sudoeste do país.
    A Austrália tem sofrido uma seca insistente nos últimos três anos, e também uma das mais devastadoras desde que os registros foram feitos. Cerca de 98% de Nova Gales do Sul sofre com a seca e, na mesma situação, dois terços da vizinha Queensland. Segundo dados oficiais, a seca causou prejuízo de cerca de 5.000 milhões de dólares australianos (3.000 milhões de euros). Na imagem, vista aérea de fazendas afetadas pela seca, no sudoeste do país. DAVID GRAY REUTERS
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Organizações que atuam na Amazônia relatam medo e intimidação

Lideranças e ONGs denunciam casos de roubo e vigilância e alertam contra o aumento das invasões e da violência em terras indígenas. Grupos condenam prisões injustificadas e veem tentativa de intimidação do governo.    

Queimada na Amazônia

Alessandra Munduruku, uma das lideranças mais ativas de sua etnia, que habita as margens do rio Tapajós, convive há anos com ameaças. Mas o roubo que sofreu no último sábado (30/11) elevou a tensão: ladrões arrombaram a casa dela, em Santarém, no Pará, e levaram computador, pen drives, celular, cartões de memória e relatórios de atividades e pesquisas do povo munduruku.

Na última semana, eles denunciavam em Brasília o aumento das invasões de madeireiros e garimpeiros nas terras indígenas, que ainda aguardam demarcação.

“Estou preocupada com meus filhos. A gente sabe que corre risco porque faz denúncias e briga pelo nosso território e pelo rio”, disse Alessandra Munduruku à DW Brasil por telefone.

Ela acredita que os grupos de invasores que foram denunciados estejam por trás do roubo. “Antigamente eles tinham medo da represália, da Polícia Federal, do Ibama. Agora eles não têm mais. A situação piorou. Eles estão atacando e querem nos eliminar”, afirma Alessandra, que deve registrar o boletim de ocorrência nesta segunda-feira.

Recentemente, a Indigenistas Associados (INA), associação que reúne servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), emitiu uma nota alertando para a gravidade de várias medidas legislativas e administrativas atualmente em elaboração ou implementação que visam atender interesses de grupos econômicos nacionais e internacionais sobre as terras indígenas.

A organização denuncia ainda o aumento das invasões de terras indígenas e da violência perpetrada por invasores que, segundo a INA, culminou nos assassinatos do cacique Emyra Wajãpi, em julho, do colaborador da Funai Maxciel Pereira dos Santos, em setembro, e do guardião indígena Paulo Paulino Guajajara, em novembro.

Entre diversas organizações não governamentais que defendem os direitos indígenas na Amazônia, o clima é de intimidação. Recentemente, uma delas recebeu telefonemas e uma visita surpresa de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que se disseram interessados em conhecer os projetos da ONG na região. A informação é da própria organização, que prefere não ter o nome divulgado.

Há relatos ainda de advertências sobre o uso de algumas palavras em relatórios de atividades. “Mobilização social”, por exemplo, passou a ser um termo proibido dentro de algumas organizações que trabalham em projetos em parceria com o governo federal. O uso da expressão em relatórios seria reprovado pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, segundo afirmou um membro da equipe em condição de confidencialidade.

Investigação contra ONGs no Pará

Uma semana depois da ação de policiais na sede do Projeto Saúde e Alegria (PSA), Caetano Scannavino, diretor e irmão de um dos fundadores da organização, diz que a situação é a mesma: o grupo continua sem saber do que é acusado.

Em 26 de novembro, policiais armados levaram documentos, notas fiscais e computadores da sede da ONG em Santarém com um mandado policial. “Aquela foi a pior manhã da nossa história. Em 32 anos, nunca passamos por nada parecido”, disse Scannavino à DW Brasil.

No mesmo dia, policiais prenderam quatro brigadistas voluntários de Alter do Chão, no Pará, acusados de terem provocado incêndios na Floresta Amazônica para se beneficiar com doações de dinheiro de ONGs. Um dos voluntários trabalhava no Projeto Saúde e Alegria, organização que já recebeu vários prêmios por sua atuação na Amazônia.

A operação policial foi duramente criticada por outras entidades e por órgãos como o Ministério Público Federal (MPF), por não apresentar provas contra os acusados.

Neste domingo, a ONG Repórter Brasil revelou o conteúdo de mensagens de áudio trocadas entre o prefeito de Santarém, Nélio Aguiar (DEM), e o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). Nelas, Aguiar afirma que o incêndio em Alter do Chão foi causado por “gente tocando fogo para depois fazer loteamento, vender terreno”, e que essas pessoas contam com o apoio de policiais.

“Eu me solidarizo muito com os meninos brigadistas”, diz Scannavino sobre os voluntários acusados sem provas. “Menos mal que agora eles estão soltos, mas eles estão muito abalados. Existe toda uma pressão psicológica, uma humilhação pública. Eles tiveram a cabeça raspada, os passaportes estão apreendidos”, lamenta. “Foi uma coisa que jamais acontece com um grileiro, ou um fazendeiro, quando é preso. Mesmo quando a pessoa é culpada com provas cabais.”

“‘Pirotecnia’ para tirar o foco de problemas graves”

Após a devassa policial na sede do Projeto Saúde e Alegria, mais de 200 entidades assinaram uma nota em defesa da organização.

“Esperamos que essa ação não se trate de mais uma ‘pirotecnia’ para tirar o foco dos graves problemas de desmatamento, queimadas, grilagem de terras e perseguição aos povos tradicionais e agricultores familiares que estão ocorrendo na região oeste do Pará e em toda a Amazônia e, por outro lado, proteger os verdadeiros responsáveis por esse grave crime de degradação sociocultural e ambiental e assim envolver e criminalizar os movimentos sociais, organizações de trabalhadores agroextrativistas e ONGs que sempre estiveram ao lado das lutas populares”, diz trecho da nota.

Sobre o caso em Alter do Chão, Scannavino pede que a sociedade “cobre uma apuração rigorosa dos fatos, com toda a transparência necessária”.

“Num contexto de país polarizado, clamamos para que as autoridades tenham responsabilidade sobre suas falas acusatórias para que possam garantir a segurança de todos nós: dos voluntários, das equipes, dos familiares”, alerta o membro do Projeto Saúde e Alegria.

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Desmatamento em Terras Indígenas sobe 65% e alcança maior cifra em 10 anos

A área desmatada em TIs representa 4% da perda total no bioma Amazônico, no período analisado. Foto: Ibama.

O desmatamento registrado em Terras Indígenas da Amazônia entre 1º de agosto de 2018 e 31 de junho de 2019 foi 65% maior do que o período anterior, saltando de 260 quilômetros quadrados para 429,9 km², segundo dados preliminares disponibilizados na última quinta-feira (21) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), na plataforma TerraBrasilis. Esta é a maior cifra registrada desde 2009. A área desmatada em TIs representa 4% da perda total no bioma Amazônico, no período analisado.

Segundo o Artigo 231 da Constituição Federal, Terras indígenas são bens da União, sendo reconhecido aos índios a posse permanente e o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Historicamente, as TIs são as áreas mais preservadas do bioma e desempenham um papel importante na contenção do desmatamento na Amazônia.

Segundo dados do INPE, as TIs que registraram maior taxa de perda de floresta são: Ituna/Itatá, com 650% de aumento no desmatamento (de 15,89 para 119,92 km²), Apyterewa, com 334% de aumento (de 19,61 para 85,25 km²), e Cachoeira Seca, com 12% de aumento (de 54,2 para 61,2 km²).

As três reservas que encabeçam a lista estão localizadas na região da Terra do Meio, no Pará, Bacia do rio Xingu, em meio ao chamado Arco do Desmatamento da Amazônia. Desde o início do ano, as TIs desta região estão em alerta vermelho, com registros de invasões e violência contra populações tradicionais.

Em março de 2019, o Sistema de Indicação do Desmatamento por Radar da Bacia do Xingu (Sirad-X) já havia indicado o avanço do desmatamento ilegal na TI Ituna/Itatá, com a abertura de uma estrada ao sul do território, que abriga índios isolados.

Esta TI é uma área com restrição de uso para proteção desta comunidade indígena isolada, que impede a circulação de não-indígenas na região e evita contato até mesmo com outros indígenas. Ela ocupa uma área de 142.402 hectares e engloba os municípios de Altamira, Anapu e Senador José Porfírio. Em 9 de janeiro passado, a portaria que cria a restrição de uso da área foi renovada por mais três anos.

No começo do mês, o líder indígena Paulo Paulino Guajajara foi morto a tiros numa emboscada por madeireiros na Terra Indígena Araribóia, no Maranhão. Foto: Foto: Patrick Raynaud/Mídia Índia.

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), cerca de 87% desta Terra Indígena é sobreposta a registros irregulares do Cadastro Ambiental Rural (mecanismo criado para ajudar no ordenamento de terras do Brasil, com registros autodeclaratórios). Algumas áreas dentro da TI chegam a ter cinco registros de CAR, o que indica que o território está sendo disputado por vários grupos.

De acordo com dados do Sirad-X, pelo menos dois grupos estariam promovendo a abertura de clareiras na mata para delimitar regiões de domínio e firmar a ocupação, o que aumenta o risco de conflito violento. De fato, até mesmo uma equipe do Ibama foi alvo de tiros disparados por garimpeiros ilegais, durante uma operação de fiscalização nesta unidade em agosto passado.

Além disso, a TI Ituna/Itatá está localizada a menos de 70 km do principal canteiro de obras da Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte. O início das obras aqueceu o mercado imobiliário rural da região e a destruição das florestas vem aumentando exponencialmente. Uma das condições para a construção da UHE era a implementação de uma base de proteção da Fundação Nacional do Índio (Funai) na TI, o que nunca se concretizou.

O segundo e terceiro maiores desmatamentos dentro de Terras Indígenas, nas TIs Apyterewa e Cachoeira Seca, estão relacionadas majoritariamente ao roubo de madeira, segundo levantamento do ISA. De acordo com dados do INPE divulgados nesta quinta-feira, proporcionalmente, Cachoeira Seca é a que acumula maior perda de floresta (10,6% de sua área total), seguida por Apyterewa (8%) e ituna/Itatá (5,53%).

Discurso anti-indígena X Desmatamento

A desaceleração das demarcações vem desde o Governo de Dilma Rousseff, considerado um dos que menos demarcaram desde a redemocratização do Brasil pela pressão da bancada ruralista. Durante os dois anos de Governo de Michel Temer, a situação se agravou. A única terra que chegou a ser homologada nesse período foi revertida na Justiça. Mas essa questão ganhou barreiras ainda maiores com Bolsonaro, o primeiro a falar abertamente que era contra demarcações.

Mesmo antes de assumir a presidência, Bolsonaro já acumulava declarações anti-indígenas. Durante a campanha, ele chegou a comparar populações indígenas a animais de zoológico e afirmou que não demarcaria “um centímetro a mais” de reservas para índios e quilombolas.

Em julho deste ano, o governo federal anunciou que havia finalizado a minuta de um projeto de lei que prevê a regulamentação da mineração em terras indígenas. Em setembro, o secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia (MME), Alexandre Vidigal de Oliveira, declarou que ainda naquele mês o projeto seria enviado ao Congresso. Até o momento, a matéria ainda não foi enviada para apreciação de deputados e senadores.

Ainda em setembro, em discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, Bolsonaro voltou a atacar a população indígena, referindo-se a elas como “verdadeiros homens das cavernas”. Na ocasião, Bolsonaro declarou que líderes indígenas, como cacique Raoni, que vem mantendo grande protagonismo na defesa das comunidades indígenas e era cotado para o Prêmio Nobel da Paz, “são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia”.

Jair Bolsonaro discursa durante a abertura do Debate Geral da 74ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU). Foto: Alan Santos/PR.

As declarações de Bolsonaro na ONU motivaram a publicação de uma “Carta de Repúdio” da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). “Alertamos para o aumento das invasões nos nossos territórios, e consequentemente da violência, contra as nossas lideranças, povos e organizações. E desde já responsabilizamos o Senhor Bolsonaro pelos conflitos que, alimentados por seus discursos publicamente anti-indígenas, possam atentar contra as nossas vidas”, diz a carta da APIB.

De fato, dados parciais do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) revelam que, até setembro de 2019, foram registrados 153 casos de invasão em terras indígenas de 19 estados brasileiros, o que representa mais do que o dobro de todo o ano de 2018, com a ocorrência de invasões de 76 terras indígenas, em 13 estados.

Segundo Ivar Busatto, coordenador geral da ONG Operação Amazônia Nativa (OPAN), primeira organização indigenista fundada no Brasil, o crescimento das pressões sobre as Terras Indígenas – e a consequente alta do desmatamento dentro destes territórios – é resultado do enfraquecimento que órgãos de controle, especialmente a Fundação Nacional do Índio (Funai), vem sofrendo ao longo dos últimos anos, potencializado pelo discurso anti-indígena de Bolsonaro.

“A Funai, nos últimos 5, 6 anos, está passando por um processo muito grande de redução de orçamento, de quadros, de incentivo para acompanhamento da proteção dos recursos dos territórios. É claro que quanto mais frágil é o órgão de defesa, de proteção, de acompanhamento das comunidades indígenas, as áreas ficam mais expostas […] E esse tipo de discurso [do governo Bolsonaro] chama para uma flexibilização ainda maior do controle interno das áreas”, diz.

Atualmente, o orçamento destinado à Funai é da ordem de R$ 78 milhões, por meio do Programa de Proteção e Promoção dos Direitos dos Povos Indígenas, cifra já considerada insuficiente por servidores do órgão. O Projeto de Lei Orçamentária Anual para 2020, enviado em outubro pelo Governo Federal ao Congresso, reduz esse valor para R$ 46 milhões.
Cristiane Prizibisczki

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O ‘assassinato’ da árvore de quase 5 mil anos. Árvore gigante rara de 535 anos foi derrubada em Santa Catarina para virar cerca

Árvore gigante rara de 535 anos foi derrubada em Santa Catarina para virar cerca

policiais ambientais no localDireito de imagem POLÍCIA MILITAR AMBIENTAL DE SC

É um problema cultural do nosso país, onde as pessoas não sabem o valor de uma árvore’, diz especialista sobre derrubada de imbuia, espécie que é símbolo de Santa Catarina

Era alta como um prédio de dez andares, larga a ponto de só poder ser abraçada por seis pessoas juntas e mais antiga que a chegada do navegador Pedro Álvares Cabral ao Brasil.

Essa gigante imbuia, árvore símbolo de Santa Catarina, foi derrubada para virar cerca, segundo o cenário encontrado por policiais militares ambientais.

O crime ambiental foi cometido em um terreno na via Linha Coração, em Vargem Bonita (SC), em fevereiro de 2018, mas só agora uma análise ainda inédita apontou a idade da imbuia gigante: ao menos 535 anos.

“É um problema cultural do nosso país, onde as pessoas não sabem o valor de uma árvore. Aquelas que caem por ação da natureza deveriam ser exploradas de forma mais nobre, virar peça de museu. Mas fazer uma derrubada de uma árvore rara saudável para fazer palanque de cerca é duplamente criminoso”, afirmou o professor Marcelo Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), especialista em árvores gigantes.

A idade foi estimada por Scipioni e outros dois pesquisadores a partir da análise dos anéis de crescimento das árvores, que servem de base para a datação por meio da ciência chamada dendrocronologia.

Como a umidade e outras variações climáticas interferem no tamanho desses anéis de um modo distinto ao longo do tempo, pesquisadores agora buscam outras imbuias antigas para uma análise de construção climática dos últimos séculos que permita determinar com mais exatidão a idade da árvore.

Essa árvore, de nome científico Ocotea porosa, pode ser encontrada em florestas de araucária no Paraná, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A espécie tem madeira de cor que varia do pardo-claro-amarelado ao pardo-acastanhado, folhas de até 10 cm, casca grossa, tronco tortuoso e copa arredondada.

E, por causa da exploração desenfreada, entrou para a lista de espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção.

Ou seja, são proibidos “coleta, corte, transporte, armazenamento, manejo, beneficiamento e comercialização” da imbuia, à exceção dos “exemplares cultivados em plantios devidamente licenciados”.

O policial militar ambiental Teylor Comunello, que dá nome a uma espécie de flor que descobriu em sua pesquisa sobre orquídeas, relata ter sentido tristeza ao ver árvores raras no chão — foram derrubadas uma imbuia e 16 araucárias.

“Nunca tinha visto uma árvore assim, desse tamanho, cortada desse jeito. É bem triste porque, além de ser uma espécie ameaçada de extinção, é centenária e rara. Um desperdício”, afirmou à reportagem. Ele participou do trabalho de remoção da árvore, que agora está exposta na sede da Polícia Ambiental para fins educativos.

Árvore exposta para fins educativosDireito de imagem POLÍCIA MILITAR AMBIENTAL DE SC
Árvore exposta pela Polícia Militar Ambiental de SC na cidade de Joaçaba para fins educativos

O uso em cercas ocorre porque a madeira é bastante resistente a intempéries, e pode resistir no solo por nove anos, em média.

Comunello estima que no mercado ilegal o valor dessa imbuia poderia girar em torno de R$ 4 mil, caso fosse transformada em estaca de cerca, ou passar de R$ 20 mil se fosse vendida à indústria madeireira.

A madeira dessa árvore é moderadamente densa e pode ser usada no manejo autorizado como viga, porta e móveis finos de alta qualidade.

O valor de mercado poderia superar, portanto, a multa de R$ 12.750 aplicada ao proprietário do imóvel, em razão da derrubada desta árvore junto de outros 16 exemplares da também ameaçada araucária (Araucaria angustifolia, ou pinheiro-brasileiro).

amostra da árvoreDireito de imagem MARCELO SCIPIONI
Amostra da árvore sob análise da ciência chamada dendrocronologia

Os agentes chegaram ao local do desmate ilegal após uma denúncia, mas não encontraram pessoas ou equipamentos ali. Nenhum suspeito foi identificado desde então.

Segundo a Polícia Ambiental de SC, a derrubada de árvores teria sido feita à revelia dos donos do terreno, mas estes acabaram multados por serem, em última instância, os responsáveis pela área. A recuperação ambiental do local começou em maio deste ano.

A reportagem não conseguiu localizar os donos do terreno.

estudiosos analisam árvoreDireito de imagem POLÍCIA MILITAR AMBIENTAL DE SC
Derrubada ilegal de 17 árvores raras rendeu multa de R$ 12.750

Mapeamento de árvores gigantes

Se não tivesse sido derrubada, essa imbuia de Vargem Bonita teria entrado para o mapeamento de árvores gigantes no sul do país conduzido pelo professor Scipioni, da UFSC, com auxílio também da Polícia Ambiental de Santa Catarina.

Publicado em 2017, um trabalho liderado por ele percorreu mais de 6,8 mil km ao longo de três anos e identificou as últimas 13 araucárias gigantes (acima de 2 metros de diâmetro nessa espécie) da região.

“Essas árvores gigantes são importantes para os ecossistemas porque geram várias cavidades que são habitats para vários animais, como insetos, aves e mamíferos, e outros seres vivos, como as epífitas, além de contribuir para entendermos o ciclo de vida da espécie e podermos também fazer um manejo sustentável para a exploração madeireira”, explica Scipioni.

professor com árvoreDireito de imagem ARQUIVO PESSOAL
Professor Marcelo Scipioni com parte da imbuia coletada no local

A maior das araucárias, conhecida como “Pinheirão”, fica em São Joaquim (SC) e é a única que supera os 3 metros de diâmetro. Ou seja, precisaria de seis pessoas para ser abraçada.

“A escassez dessa madeira no mercado tornou essas árvores muito atraentes porque o volume de madeira em posições altas do tronco seria suficiente para viabilizar economicamente a exploração na época do ciclo madeireiro. Ela certamente teria sido explorada se o dono atual da fazenda e seus antepassados não tivessem recusado ofertas de madeireiras”, escrevem os autores do mapeamento.

professor analisa amostra de árvoreDireito de imagem MARCELO SCIPIONI
Professor argentino Fidel Roig também atuou na análise da idade da imbuia

As imbuias gigantes passam atualmente por levantamento semelhante, mas, até agora, só foi identificado um exemplar acima de 2 metros de diâmetro.

Essa espécie costuma ser a mais longeva da floresta de araucária, viver mais de 500 anos e superar os 30 metros de altura. Mas o tamanho não tem necessariamente relação com a idade de uma árvore, já que há espécies que crescem rapidamente, como o Eucaliptus regans (que passa de 80 metros de altura), mas não são multisseculares.

Scipioni afirma que o levantamento por enquanto se atém à identificação dessas árvores, mas a análise da longevidade delas demanda mais tempo. Mais informações podem ser encontradas no site do projeto.

O pesquisador também mapeou como esses enormes troncos de árvores se tornaram monumentos em cidades do interior do país. “A maioria das pessoas valoriza mais as árvores mortas do que vivas”, critica Scipioni.

mapeamento de araucáriasDireito de imagem REPRODUÇÃO
Mapeamento de araucárias gigantes feito no Sul do país

O ‘assassinato’ da árvore de quase 5 mil anos

O estudo da idade das árvores também oferece riscos.

Como a análise passa pela contagem dos anéis associada a diversas outras técnicas, identificar a idade de uma árvore viva envolve um tipo de furadeira que permite remover parte do núcleo da árvore sem matá-la.

Mas as coisas podem não ocorrer como esperado.

Nos EUA, em 1964, o então universitário Donald Rusk Currey coletava uma amostra de um pinheiro do tipo bristlecone, mas conta-se que a broca ficou presa na enorme árvore localizada no Estado de Nevada.

Como o equipamento é caro, ele e um guarda florestal teriam derrubado a árvore para recuperar a broca. Há também uma versão da história que aponta que a derrubada visava a retirada por completo de uma amostra da árvore.

De todo modo, autoridades do serviço florestal à época avaliaram que o exemplar não tinha nada de especial e autorizaram a derrubada dele.

Pinheiro BristleconeDireito de imagem GETTY IMAGES
Pinheiro bristlecone na Grande Bacia, no oeste dos Estados Unidos

Só depois é que o estudante de geografia descobriu que aquele exemplar de Pinus aristata, batizado de Prometeu, tinha quase 5.000 anos, vindo a ser a árvore mais antiga já registrada até então.

O episódio trágico teve ao menos dois grandes efeitos positivos: gerou uma onda de medidas de preservação em torno das árvores gigantes e levou a muitos achados científicos que contribuíram para a pesquisa da flora e do clima.

“Em razão da idade, essas árvores funcionam como cofres climáticos, armazenando dados de milhares de anos em seus anéis”, explica o Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos.