Meio Ambiente; Amazônia rumo à extinção

Total da área desmatada na Amazônia em 2020 já é maior que cidade de São Paulo

Desmatamento acumulado na Amazônia apenas nos primeiros 4 meses do ano já é superior à cidade de São Paulo. Foto: Bernardo Câmara

Em abril, o desmatamento na Amazônia teve um aumento de 171% em relação ao mesmo período de 2019. Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que registrou 529 km² de área desmatada no bioma no mês de abril, contra 195 km² no mesmo mês do ano passado. O acumulado dos primeiros quatro meses de 2020, de acordo com o SAD, já é de 1.703 km², uma área maior que a cidade de São Paulo (1.521 km²) e um número 133% maior que o mesmo período em 2019, quando o sistema registrou o desmatamento de 460 km².

Segundo as informações do SAD, divulgadas nesta segunda-feira (18), o estado que liderou o desmatamento em abril foi o Pará, com 171 km², o equivalente a 32% do total desmatado. Em seguida aparecem Mato Grosso, com 135 km² (26%); Rondônia, com 98 km² (19%); Amazonas, com 96 km² (18%); Roraima, com 20 km² (4%); e o Acre, com 6 km² (1%). Tocantins e Amapá tiveram 2 km² e 1 km² desmatados, respectivamente, e juntos somaram 0,5% do total desmatado na Amazônia no mês.

O Pará foi o estado com o maior crescimento do desmatamento para o mês de abril quando comparado com o mesmo mês em 2019, quando registrou 32 km², um aumento de 434% para 2020. Os dois municípios com os maiores índices de desmatamento também são paraenses, Altamira e São Félix do Xingu, com 72 km² e 44 km² desmatados, respectivamente. Juntos, apenas estes dois municípios respondem por 67,8% do desmatamento em todo o estado e 21,9% do total desmatado na Amazônia.

As cidades de Porto Velho e Candeias do Jamari, em Rondônia, também aparecem entre os municípios que mais desmataram segundo o SAD, com 31 km² e 14 km², respectivamente. Ambos os municípios integram o território da Floresta Nacional do Jacundá, unidade de conservação onde foi realizada a primeira ação da Operação Verde Brasil 2, de acordo com informações divulgadas pelo vice-presidente General Hamilton Mourão. Apesar de Mourão ter comentado em coletiva cedida à imprensa na última semana de que a operação havia sido um sucesso, ainda não foram divulgados dados oficiais sobre os resultados da operação coordenada pelas Forças Armadas.

O relatório produzido pelo Imazon indica ainda que 60% do desmatamento registrado ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, 22% em unidades de conservação, 15% em assentamentos e 3% em Terras Indígenas.

Fonte: Relatório Imazon
Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD)

O mês de abril foi marcado pela expectativa da votação da Medida Provisória 910, que foi pauta na Câmara dos Deputados apenas em maio e não obteve consenso entre os parlamentares para prosseguir com a votação. A MP, que perde a validade nesta terça (19), ficou conhecida como a MP da Grilagem, pois especialistas apontaram que o texto incentivava a invasão de terras ao anistiar as invasões ocorridas até 2018. O tema da regularização fundiária, entretanto, volta ao Congresso como o Projeto de Lei nº 2633/2020 e pode ser votado já nesta quarta-feira (20), caso haja pedido de tramitação em regime de urgência .

A MP 910 tinha o apoio de representantes do governo, como do vice-presidente Mourão, que também coordena o Conselho da Amazônia, e o próprio Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ambos defendem que a regularização fundiária e o zoneamento econômico-ecológico na região amazônico são passos fundamentais para combater o desmatamento no longo prazo e que a MP seria um instrumento para isso.

De acordo com a pesquisadora do Imazon, Brenda Brito, o ponto crucial não é a regularização fundiária e sim o ordenamento territorial na região. “Existem áreas públicas não destinadas que estão sendo ocupadas, muitas delas desmatadas, e você precisa ordenar isso territorialmente. Precisa definir se aquela é uma área que pertence à comunidade, à povos indígenas, à agricultura familiar ou à conservação. E com as áreas que sobrarem decidir se será feita a privatização ou não daquele território. Esse deveria ser o raciocínio do ponto de vista da legislação”.

“O que a gente ouve nessas coletivas é esse argumento de que você precisa regularizar e titular quem está na área, para poder saber quem é e punir. Isso não faz o menor sentido do ponto de vista da legislação ambiental. Não existe nenhum ponto na legislação que diga que você só pode punir quem é dono de uma área. Você pune quem pratica o crime ambiental”.

A pesquisadora, especialista em gestão fundiária, acredita que a mensagem passada pelo próprio governo ao encaminhar uma proposta como a MP 910 é a de impunidade às infrações ambientais. “Na prática a mensagem é: continue invadindo e desmatando que que lá na frente vocês serão beneficiados. Esta é uma história que a gente está vendo ocorrer na Amazônia, vimos ela acontecer há três anos quando a lei foi modificada e aumentou o prazo de quem poderia receber o título [até 2011] e agora estão querendo fazer isso de novo. Infelizmente o recado é o contrário do que o governo deveria fazer”, opina.

Sessão na Câmara sobre a MP 910 não chegou em consenso sobre a votação da medida, que deve voltar com novo texto em PL.
Foto: Najara Araujo/Câmara dos Deputados

Além disso, Brenda ressalta que mesmo sem a legislação de fato, somente o discurso adotado pelo governo de Bolsonaro já é um dos grandes motores para o aumento do desmatamento na Amazônia. “Honestamente, o que adianta você fazer uma mega operação, se você está estimulando o desmatamento, impedindo a fiscalização do órgão ambiental, retirando os fiscais que estão trabalhando, estimulando o garimpo ilegal dizendo que vai legalizar e impedindo a destruição de máquinas? É uma contradição você colocar o Exército para combater algo que está sendo também estimulado pelas próprias declarações de quem representa os órgãos. É uma conta que não vai fechar” analisa a pesquisadora.

Em abril deste ano, o até então Diretor de Proteção Ambiental do IBAMA, Olivaldi Azevedo, foi exonerado por Salles e substituído pelo Policial Militar de São Paulo, coronel Olímpio Ferreira Magalhães. A exoneração de Olivaldi ocorreu logo após uma mega operação do IBAMA contra o garimpo ilegal em Terras Indígenas no Pará, noticiada pela Rede Globo no Fantástico. Além de Olivaldi, dois coordenadores de fiscalização do órgão envolvidos na ação foram exonerados logo em seguida.

“Você não precisa reinventar a roda, as ações já existem e foram feitas no passado, o que você precisa é aplicar com consistência e coordenação, porque se não tiver não adianta, você pode colocar todo o Exército lá que o desmatamento vai continuar”, resume Brenda Brito.

A pesquisadora lembra a queda histórica no desmatamento de 2004 a 2012, quando o total desmatado caiu de 27.772 km² para 4.571 km² (Fonte: PRODES/INPE) em 8 anos. No período, o governo federal combateu o desmatamento com medidas com o Sistema de monitoramento DETER, feito pelo INPE, que fornece alertas quase em tempo real de desmatamentos, aumentando a eficácia das operações de fiscalização do IBAMA; e o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm); ambos criados em 2004.

O biólogo especialista em políticas públicas ambientais, André Aroeira, reforça que um dos principais trunfos para um combate efetivo ao desmatamento é a coordenação conjunta entre ministérios e órgãos. “Tem vários instrumentos que estão sendo subutilizados no atual governo, como o PPCDAm que foi crucial durante aquela fase [2004 – 2012] em que o combate ao desmatamento foi bem-sucedido.

O Plano perdeu muita força já no governo Dilma, quando saiu da Casa Civil e foi pro Ministério do Meio Ambiente e hoje está desmobilizado, perdeu a coordenação que havia entre os vários ministérios e órgãos, todos trabalhando em conjunto no combate ao desmatamento. Quando você perde essa coordenação, o combate fica muito mais fraco. Não é só o Ministério mandando equipe para campo, tem que ter as imagens do INPE, tem que ter Polícia Federal fazendo investigações em cima das cadeias criminosas, tem que ter Ministério Público, a Polícia Rodoviária Federal. Todo mundo tem que estar junto para ser um esforço bem-sucedido”.

Operações do IBAMA são cruciais para combater o desmatamento de forma efetiva. Foto: Marcio Isensee

Aroeira ressalta também que fortalecer o IBAMA, órgão responsável pela fiscalização ambiental no país, é crucial. “Com o DETER, a partir de 2004, o IBAMA conseguiu pegar os desmatamento enquanto eles estavam ocorrendo e não só depois do estrago feito, quando só chegava para embargar e multar. O uso das imagens com inteligência para planejar as ações em campo foi muito eficiente. E nessa época o IBAMA era muito mais forte. O órgão começou a perder força no governo Dilma, perdeu escritórios regionais, perdeu gente, e no governo Bolsonaro isso se intensificou. O último concurso do IBAMA foi há 20 anos e nesse meio-tempo muitas pessoas se aposentaram ou saíram, e o quadro não foi reposto. Hoje nós temos um IBAMA com muito menos gente, muito menos dinheiro e muito mais preso nas capitais, com menos penetração nos territórios”, analisa o biólogo.

Outro mecanismo importante de acordo com Aroeira é a criação de áreas protegidas, tanto unidades de conservação quanto Territórios Indígenas. Desde sua campanha, Bolsonaro adotou um discurso contrário a essas áreas, chegou a dizer que “no que depender de mim, não tem mais demarcação de Terra Indígena” e lamentou não poder alterar os limites ou mesmo extinguir unidades de conservação diretamente com decretos presidenciais.

“Até 2008, o Brasil era o país que mais criava áreas protegidas no mundo, que são territórios que tendem a conter o desmatamento. Nós temos verdadeiras barreiras de áreas protegidas e o Arco Desmatamento está batendo agora nessas barreiras. É uma política muito efetiva, porque além de serem territórios legalmente protegidos, eles também não tem infraestrutura como uma estrada que facilite o acesso e a prática dos crimes ambientais”, explica Aroeira.

Desmatamento nas unidades de conservação e Terras Indígenas

De acordo com o Imazon, em abril de 2020, cerca de 116 km² foram desmatados dentro de unidades de conservação, 22% do total; e aproximadamente 16 km ² em Terras Indígenas, o equivalente a 3% do acumulado no mês.

Entre as unidades de conservação (UCs), o desmatamento é encabeçado pela Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no Pará, com 46 km² desmatados; seguida pela Floresta Extrativista Rio Preto-Jacundá, em Rondônia, com 37 km². A Reserva Extrativista Jaci-Paraná (RO) com 8 km², a Floresta Nacional do Jamanxim (PA) com 6 km² e a Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt com 4 km² desmatados – todas categorias de UCs de uso sustentável, onde a exploração dos recursos naturais é permitida de forma manejada.

Na lista, chama atenção a presença de uma reserva biológica (Rebio), unidade de proteção integral e de caráter mais restritivo, entre as UCs com maior índice de desmatamento. Em oitavo lugar no ranking, a Rebio Nascente da Serra do Cachimbo, localizada no sul do Pará, teve 4 km² desmatados apenas no mês de abril, o equivalente a 400 campos de futebol.

Com relação às Terras Indígenas, de acordo com o SAD, as duas que mais registraram desmatamento foram a Terra Indígena Mundurucu, no Pará, ocupada pelos povos Apiaká, Isolados do Alto Tapajós e Munduruku, onde houve 4 km² desmatados; e a Terra Indígena Yanomami, na fronteira entre Roraima e Amazonas, onde vivem os povos Isolados da Serra da Estrutura, Isolados do Amajari, Isolados do Auaris/Fronteira, Isolados do Baixo Rio Cauaburis, Isolados Parawa u, Isolados Surucucu/Kataroa, Yanomami e Ye’kwana, registrou 2 km² de desmatamento.

Pespectivas para 2020

De acordo com o monitoramento feito pelo PRODES, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), desde 2015, a área desmatada anualmente na Amazônia se mantém acima dos 6 mil km². Ano passado, o total desmatado somou 9.762 km², um crescimento de 30% em relação a 2018.

“Tem várias análises que indicam que, no rumo que estamos indo, podemos ter uma taxa de desmatamento superior a do ano passado, que já foi alta em relação aos anos anteriores. E infelizmente eu não vejo nenhum comprometimento que indique que iremos mudar essa trajetória. Não existe um plano real de combate ao desmatamento. Ano passado os estados se articularam no combate ao desmatamento, mas infelizmente esse ano estamos numa situação muito complicada na Amazônia com a pandemia do coronavírus e colapso dos sistemas de saúde estaduais. Como a gente pode esperar que os governos estaduais possam lidar com todas essas crises ao mesmo tempo sem o apoio consistente do governo federal?”, analisa Brenda Brito, do Imazon.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Aroeira também não acredita que o ritmo do desmatamento vá desacelerar tão cedo. “É complexo avaliar, mas a tendência de crescimento, na minha opinião, é irreversível. Nós tivemos quase 10.000 km² desmatados ano passado, e esse ano os alertas do DETER já estão indicando um aumento de 90% de agosto até agora, e nós estamos entrando no período mais crítico agora e a resposta do governo é bem fraca, porque essa GLO [Garantia da Lei e Ordem na Amazônia Legal] ela não passa muita segurança de que é para valer. Ela é muito menos eficiente do que um IBAMA forte, por exemplo”, diz o biólogo. “Acho difícil conseguirmos reverter essa tendência de crescimento tanto nesse ano quanto no próximo, porque esse combate ao desmatamento passa por políticas estruturantes e uma mensagem clara do governo, e essas coisas você não consegue no curto prazo”.

Desmatamento avança, enquanto Brasil enfrenta coronavírus

O país, epicentro sul-americano da pandemia, vê crescer o número de casos e mortes por covid-19, e pouca atenção sobra para a perda da mata amazônica, que já avançou 55% a mais do que no mesmo período de 2019.

Mata devastada por fogo em Rondônia, agosto de 2019

Imagens recentes de satélite mostram que o desmatamento na Amazônia está crescendo em 2020: cerca de 1.202 quilômetros quadrados de floresta foram destruídos entre janeiro e abril, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
As cifras, divulgadas nesta sexta-feira (08/05), representam um acréscimo de mais de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior, além de serem as mais altas para os quatro primeiros meses do ano, desde 2015. O fato é especialmente preocupante porque nesse período do ano, de chuvas abundantes, as perdas ambientais são normalmente menores.

Drive-thru contra covid-19 em Manaus

A devastação é causada tanto por incêndios florestais quanto por atividades destrutivas ilegais. “Infelizmente, parece que devemos esperar para este ano mais quebras de recordes de incêndios e desflorestamento”, antecipa o ativista do Greenpeace Romulo Batista.

O estado do Amazonas tem sido um dos mais atingidos pela covid-19. Num país que se tornou o epicentro da pandemia na América do Sul, computando quase 150 mil casos e mais de 10 mil mortes, grande parte dos recursos nacionais tem ido para o combate ao vírus, o que, segundo os ativistas, implica dar-se menos atenção à deflorestação predatória.

O presidente Jair Bolsonaro tem sido alvo de críticas por seus parcos esforços em defesa de um dos ecossistemas mais diversificados do mundo. No início de maio, ele enviou o Exército para coibir a extração de madeira, agricultura e mineração ilegais, embora ambientalistas insistam que seria mais eficaz apoiar as agências ambientais brasileiras, as quais têm sofrido duros cortes desde o começo do mandato do político populista.

Em 2019, primeiro ano do negacionista da mudança climática na presidência, 10 mil quilômetros quadrados de mata sucumbiram a incêndios e desflorestamento ilegal, a grande maioria dos quais ocorridos entre maio e outubro. Ativistas do clima afirmam que o pior para o meio ambiente no Brasil ainda está por vir.

A resposta ao COVID-19 está mostrando o poder da fé

A fé está ajudando muitos na pandemia de coronavírus – e também pode ser fundamental na proteção do clima, dizem Inger Andersen, do PNUMA, e Azza Karam, do Religions for Peace, do PNUMA, em um comentário de um convidado.

A fé fornece apoio espiritual e prático a bilhões de pessoas, especialmente em tempos de crise. Estamos vendo isso em ação mais uma vez, enquanto igrejas, mesquitas, templos, outros locais de culto e organizações religiosas em todo o mundo oferecem apoio, comida, moradia, doações e serviços médicos durante a pandemia. Essa solidariedade é extremamente necessária, pois milhões sofrem o impacto físico, econômico e emocional do COVID-19.
Mas as religiões e aqueles que as lideram têm um papel maior a desempenhar. Eles podem e devem ajudar a impedir que piores crises ocorram no futuro, exercendo sua enorme influência para melhorar a administração do planeta pela humanidade.

Inger Andersen, diretor executivo do PNUMA, diz que a resposta à pandemia precisa consertar nosso relacionamento com o planeta

O COVID-19, juntamente com muitas doenças anteriores que foram transmitidas de animais para seres humanos, é o resultado de como gerenciamos mal nosso habitat natural e os seres vivos nele. Se você olha para esta pandemia, os recentes incêndios florestais australianos, o janeiro mais quente já registrado ou o pior surto de gafanhotos no Chifre da África em décadas, o planeta está nos enviando uma mensagem urgente: Se não cuidarmos da natureza, não podemos cuidar de nós mesmos.

Seríamos sábios em atender a esse chamado. Nossa resposta a longo prazo ao COVID-19 deve ser a de fixar nosso relacionamento com o planeta. Esse trabalho de reparo deve ser uma resposta de todo o sistema composta por várias partes.

Os pacotes de estímulo à recuperação econômica devem apoiar investimentos em energia renovável, edifícios e infraestrutura inteligentes, transporte verde e público.
Nos últimos anos, o desmatamento na floresta amazônica atingiu seu nível mais alto em mais de uma década.O mercado mundial de animais, onde milhares de espécies são compradas e vendidas a cada ano, é uma séria ameaça à biodiversidade

Precisamos mudar nossos hábitos de produção e consumo – comprando menos, desperdiçando menos e reaproveitando mais – como muitos de nós estamos fazendo durante as restrições de bloqueio. Devemos restaurar nossas florestas e investir em áreas protegidas. E devemos combater o comércio ilegal de animais selvagens e recursos florestais e melhorar as condições de higiene no comércio legal.

Pressionando para um envolvimento proativo

Os líderes e comunidades religiosos estão se mostrando cruciais para todas essas mudanças sistêmicas porque têm autoridade para impactar o comportamento e as atitudes de bilhões de pessoas. Suas instituições estão entre as mais antigas e mais antigas e prestam serviços essenciais a bilhões de pessoas em todo o mundo, tornando-as parceiras essenciais em tempos normais e em situações de emergência.

As organizações religiosas possuem um grande número de instituições educacionais, para que possam liderar esforços para aumentar a conscientização sobre os vínculos entre a saúde humana e a saúde planetária. Em todas as partes do mundo, eles possuem e gerenciam instituições de saúde que combatem a atual pandemia, fornecendo assistência médica às comunidades mais difíceis de alcançar.Azza Karam, da Religions for Peace, diz que líderes religiosos e comunidades podem influenciar como as pessoas tratam o planeta

Um exemplo de engajamento proativo e colaboração entre países é a Interfaith Rainforest Initiative, uma parceria global que inclui o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e Religions for Peace, trabalhando para proteger as florestas tropicais remanescentes do mundo e os direitos dos povos indígenas que servem como guardiões.

Tais iniciativas são um bom começo, mas podemos fazer mais.

Como estão as coisas, a humanidade, em sua arrogância, está destruindo a casa que muitos acreditam que seu criador forneceu. Os líderes religiosos precisam continuar a usar sua considerável influência para impulsionar um planeta saudável, assim como os crentes devem atender ao chamado para cuidar da criação contida nas escrituras de todas as religiões e na tradição de todas as crenças.

A resposta ao COVID-19 está mostrando o poder da fé. Agora devemos aproveitar esse poder, juntos, para criar um futuro sustentável para nós e para todas as outras espécies que compartilham este planeta.

Meio Ambiente – Captura de carbono

O corte de florestas contribui para as mudanças climáticas. Mas restaurar a natureza – em todos os tipos de paisagens – é uma ferramenta poderosa na corrida para parar as mudanças climáticas.

As florestas da Serra da Mantiqueira, no Brasil – ou pelo menos o que resta delas – podem levar a julgamento precipitado. Estendendo-se por 320 quilômetros perto da fronteira com o estado de São Paulo, a região da Mantiqueira faz parte da outrora vasta Mata Atlântica. Séculos atrás, essa floresta tropical famosa por sua diversidade cobria uma área com o dobro do tamanho do Texas, em uma faixa norte-sul paralela à costa. Hoje, as encostas das montanhas da Mantiqueira ficam praticamente sem árvores, cobertas por pastagens e campos agrícolas.

“Temos apenas 12% da Mata Atlântica original”, diz Rubens Benini, cientista da Nature Conservancy que trabalha há 22 anos para restaurar as florestas do Brasil. “E é muito fragmentado.”

A história da região da Mantiqueira é um conto clássico de destruição ambiental generalizada em nome do progresso econômico. Mas a história das florestas tropicais da região ainda não acabou.

Mais de uma década atrás, o governo de Extrema, um município da região da Mantiqueira, iniciou um programa de plantio de árvores como parte de um esforço para ajudar a garantir o abastecimento de água. O nome Mantiqueira vem de uma palavra indígena que significa “onde estão as nuvens”. Os picos das montanhas abrigam milhares de nascentes e córregos, cursos de água que abastecem São Paulo e Rio de Janeiro. As florestas ajudam a reter a água nos solos e retardam o escoamento das chuvas em córregos e rios. Sem florestas, os córregos da Mantiqueira agora mudam drasticamente de altos fluxos na estação chuvosa para baixos fluxos em tempos secos. Depois que o trabalho em Extrema ajudou a moderar alguns fluxos, os agricultores e pecuaristas locais se uniram aos esforços de reflorestamento – assim como a TNC. Desde 2005, o projeto replantou quase 5.000 acres de floresta e o plantio continua.

Em 2016, o Brasil assinou o Acordo de Paris e prometeu reduzir suas emissões para 43% abaixo do nível de 2005 até 2030. Para Benini, esse compromisso colocou o esforço de Extrema sob uma nova luz. Extrema havia replantado árvores para proteger sua água, mas essas mesmas árvores também absorviam dióxido de carbono todos os dias. E se houvesse dezenas de mais Extremas? Centenas? O Brasil poderia cumprir parte de seu compromisso climático e suportar melhor as secas futuras colocando árvores de volta em terras marginais que antes eram florestas.

Desde então, o Brasil estabeleceu uma meta de reflorestar 30 milhões de acres em seu território, parte de um crescente reconhecimento global de que a própria natureza pode ajudar as nações a cumprir seus compromissos climáticos. Gerenciados de forma inteligente, florestas, pântanos e solos têm a capacidade de armazenar carbono. Os próprios pesquisadores da Conservancy foram os primeiros a analisar de maneira abrangente o quanto as mudanças na conservação e no gerenciamento da terra poderiam fazer, não apenas nas florestas, mas em todos os tipos de paisagens.

A resposta, ao que parece, é muita.

Benini agora lidera a estratégia de restauração florestal da TNC para a América Latina. Ele permanece na vanguarda de uma iniciativa ambiciosa para ajudar o Brasil a levar o modelo Extrema para outros 283 municípios e, assim, restaurar quase 3 milhões de acres de floresta. Fazer isso exigirá ajuda de financiadores internacionais, mas esse investimento valerá a pena, diz Benini. A iniciativa retirará aproximadamente 280 milhões de toneladas de excesso de dióxido de carbono da atmosfera em 30 anos – o equivalente às emissões de mais de 55 milhões de carros – e cumprirá 10% da meta de reflorestamento do Brasil.

“Esta é uma nova maneira de olhar a paisagem”, diz Benini. “Quando estamos falando de restauração, não estamos falando apenas de trazer a floresta de volta. Estamos falando de enfrentar as mudanças climáticas “.A replantação de florestas – como Vinicius Uchoa faz aqui nas montanhas da Mantiqueira – é uma poderosa estratégia climática. Foto de Robert Clark
Em uma caminhada em um dia de primavera perto de sua casa em Harrisonburg, Virgínia, Bronson Griscom fala sobre as descobertas de pesquisa de sua equipe da maneira que alguém ainda acorda de um sonho profundo. Ecologista de florestas tropicais em treinamento, o diretor de ciência do carbono florestal da TNC há muito pressentia que a natureza era uma grande parte da solução para as mudanças climáticas.

A Griscom encontrou um corpo substancial de pesquisa publicada avaliando uma ou outra maneira específica de usar a natureza para combater as mudanças climáticas, seja restaurando florestas ou cultivando de maneiras que imitem mais a natureza. Mas ele diz: “Eu estava examinando essa [pesquisa], pensando: ‘Todo mundo está olhando para isso de diferentes ângulos, mas ninguém está realmente pregando a pergunta: como tudo isso se encaixa?’ Essa pergunta realmente não tinha sido respondida. em um nível abrangente. ”

Em 2014, Justin Adams, diretor-gerente global de terras da TNC, fez a mesma pergunta em uma reunião. Griscom se aproximou dele depois. “Eu estava tipo, ‘Devemos fazer um pequeno trabalho de revisão sobre isso'”, diz Griscom. Ele se lembra de ter pensado: “Vai ser divertido. Nada demais. Apenas execute alguns números.

Adams insistiu com ele – mas aconselhou, como Griscom coloca: “Isso é um grande negócio, e precisamos fazer isso da maneira certa”.

A busca para acertar os números rapidamente assumiu a sensação de uma expedição científica. Os sistemas naturais são muito mais confusos do que os projetados. Segundo Griscom, calcular quanto carbono, digamos, um hectare de pastagem de estepe seco pode absorver, “é muito mais complicado do que calcular os benefícios climáticos de uma turbina eólica”.

Foi preciso contratar uma equipe de funcionários adicionais e dois anos de horas atrasadas e fins de semana – além de um mergulho em técnicas estatísticas esotéricas, como simulações de Monte Carlo, curvas de custo de redução marginal e o método Delphi para obtenção de especialistas – para finalmente obter uma resposta.

Em 2017, Griscom e sua equipe calcularam, na Proceedings da Academia Nacional de Ciências, que as soluções climáticas naturais podem fornecer 37% das reduções de carbono necessárias para atender às metas do acordo climático de Paris – além de fornecer ar limpo, água e habitat para animais selvagens.

“Nós tendemos a pensar na natureza como uma vítima”, diz Griscom. “Mas houve menos atenção à resiliência fenomenal e ao poder da natureza para curar. A capacidade da natureza de resolver problemas simplesmente não recebe atenção suficiente. ”

As conclusões destacam as ações em três grandes linhas (“O caminho verde para um clima estável”, oposto). Um abraça o que muitos conservacionistas supuseram intuitivamente: na maioria dos lugares, simplesmente manter a natureza intacta ajuda a absorver o carbono da atmosfera. Deixe as florestas tropicais em pé, deixe os pântanos costeiros subdesenvolvidos, e a vegetação nesses lugares continuará crescendo e armazenando carbono.

Uma segunda estratégia intrigante centra-se no gerenciamento de áreas de trabalho – como fazendas, fazendas e bosques – com o carbono em mente. A contribuição em termos de carbono é menor que a de restauração, mas a estratégia pode ser aplicada em grandes áreas sem tirar terras da produção ou prejudicar as economias locais. O truque é encontrar a combinação certa de incentivos para convencer os produtores agrícolas e proprietários de terras a mudar a maneira como gerenciam as propriedades sob seus cuidados.

A terceira estratégia é restaurar sistemas naturais que foram danificados ou destruídos, assim como Benini e seus colegas esperam fazer no Brasil. A replantação de florestas oferece um enorme potencial para capturar carbono. Mas restaurar outras terras – pradarias, pântanos, manguezais costeiros e até ervas marinhas – também ajuda significativamente a imagem climática.

Além disso, o documento chega a uma verdade esquecida sobre os objetivos do acordo climático de Paris: eliminar as emissões de gases de efeito estufa de combustíveis fósseis é muito importante, mas reduzir as emissões por si só não será suficiente para manter a temperatura subir bem abaixo de 2 graus Celsius por 2030. A humanidade precisa descobrir como absorver muito carbono que já está na atmosfera, e Griscom acredita que suas descobertas oferecem um caminho claro para a ação.

É preciso ir além do norte de Nova York para encontrar um exemplo de como a análise da Griscom pode ser transformada em prática. Aqui, a TNC está ajudando o Albany Water Board a encontrar uma maneira de aumentar lucrativamente a capacidade de armazenamento de carbono em cerca de 6.500 acres de floresta pertencente à cidade, cujo único potencial de geração de dinheiro no passado era como madeira.

“Historicamente, a floresta era usada para preencher buracos fiscais”, diz Troy Weldy, gerente sênior de conservação da TNC em Nova York. Albany dificilmente está sozinho nessa prática, observa ele. Muitas cidades registram suas propriedades por dinheiro para complementar seus orçamentos.

Após a decisão dos EUA de se retirar do Acordo de Paris em 2017, no entanto, a prefeita de Albany Kathy Sheehan comprometeu-se a assumir parte da promessa que o governo dos EUA havia acabado de abandonar. Ao mesmo tempo, a TNC procurava parceiros para ajudá-la a criar um novo modelo de como os proprietários de florestas gerenciam suas propriedades florestais.

Sob um novo plano focado em carbono desenvolvido pela TNC, a floresta de Albany começou a parecer menos madeira em pé e muito mais créditos de carbono. “Mantemos as árvores no solo por um longo período de tempo, para que cultivemos árvores maiores”, diz Weldy. “E à medida que a floresta amadurece, ela absorve e armazena mais carbono”. Usando certificação de terceiros e mercados de carbono existentes, como os da Califórnia e Quebec, a Albany pode ganhar créditos pelo carbono extra que está armazenando e vendê-los a compradores que buscam compensar suas próprias emissões.

Além de ganhar créditos, as árvores maiores também significam maiores lucros com as vendas de madeira cuidadosamente planejadas que acontecem. As árvores maiores podem ser utilizadas de maneira muito melhor como madeira para construção. “Se você registra uma árvore e ela é moída e colocada em uma casa, o carbono ainda é armazenado”, diz Weldy. “O ciclo de vida de uma casa será de 100 a 200 anos, e esse carbono ainda está bloqueado durante esse período.” Por outro lado, a colheita de árvores menores geralmente é para lenha, que retorna imediatamente o carbono armazenado para a atmosfera quando queimado.

Está se transformando em uma mudança que faz sentido financeiro. Quando a TNC calculou as receitas potenciais para a autoridade hídrica, diz Weldy, “nossa estimativa conservadora foi de meio milhão de dólares em 10 anos, permitindo que as árvores crescessem por mais tempo”. Agora, com um inventário florestal mais detalhado em mãos e a decisão de Albany de incluir mais terras, Weldy acredita que o novo esquema de manejo pode realmente ser mais próximo
US $ 1 milhão para os cofres da cidade.A Julia Wangari faz parte de um projeto da TNC que está testando 10 variedades de bambu, novos fornos a carvão e fogões com eficiência energética para produzir um combustível de madeira mais sustentável.
Foto de Tate Drucker

Observar os esforços de conservação através de uma lente climática pode levar os projetos a novas direções, dependendo dos fatores econômicos que afetam as decisões de uso da terra.

Em locais com extensas florestas, manter as árvores em pé torna-se extremamente importante – e isso deu nova atenção ao empoderamento das comunidades indígenas para gerenciar suas terras tradicionais. Na Colúmbia Britânica, por exemplo, a Great Bear Rainforest possui uma das maiores lojas de carbono do mundo. Aqui, a TNC trabalhou com 27 Primeiras Nações para ajudá-las a obter direitos para gerenciar grande parte de seus territórios tradicionais e treinar uma nova geração de líderes e empresários no manejo florestal sustentável. Essas comunidades indígenas finalizaram um acordo com os governos canadenses e provinciais em 2016, após mais de uma década de planejamento e negociação. O acordo coloca 9 milhões de acres de floresta tropical fora do alcance da exploração madeireira e coloca milhões de acres mais sob estritas diretrizes de manejo florestal.

Na Indonésia, onde a silvicultura teve um papel importante no crescimento econômico nas últimas cinco décadas, o Griscom da TNC ajudou a desenvolver técnicas para minimizar a quantidade de carbono emitida durante as operações legais de extração de madeira. Mudanças simples, mais notavelmente garantindo que apenas árvores comercialmente valiosas sejam cortadas, podem reduzir as emissões pela metade. Este ano, o governo indonésio adotou o sistema para uso em todo o país e a TNC está adaptando-o para uso no México, Peru, Gabão e Suriname.

Fazendas e fazendas também oferecem muito potencial. “Isso não requer repensar fundamentalmente o que está sendo produzido em áreas de trabalho”, diz Griscom. “Mas precisamos repensar nossas práticas nessas terras”.

Por exemplo, práticas como plantar plantas de cobertura entre as estações de crescimento aumentam a quantidade de carbono armazenada nos solos. De longe, os maiores ganhos de baixo custo na agricultura poderiam vir simplesmente do uso correto de fertilizantes. As plantas podem consumir apenas uma certa quantidade de nitrogênio; portanto, quando os agricultores aplicam muito fertilizante à base de nitrogênio, isso desnecessariamente custa tempo e dinheiro. Pior, o fertilizante reage com o ar e forma óxidos nitrosos, que são um potente gás de efeito estufa.

Da mesma forma, mudanças pragmáticas no manejo de pastagens – por exemplo, permitindo que a grama se recupere entre os episódios de pastoreio – podem ajudar. No Quênia, a TNC trabalha com o Northern Rangeland Trust há uma década para criar normas apoiadas pela comunidade em torno de como as pastagens comunitárias são gerenciadas. Ao dar mais tempo para as pastagens se recuperarem, os proprietários de gado acumulam a quantidade de grama no chão – um resultado bom para o rebanho, bom para as pastagens e mensurável para armazenar mais carbono. Os trabalhadores no Quênia colhem bambu maduro. Iniciativas favoráveis ​​ao clima como esta ajudam a melhorar a saúde e os meios de subsistência humanos. Foto de Tate Drucker

A equação do carbono deu a muitos conservacionistas um zelo renovado pela proteção do habitat. As zonas úmidas costeiras, por exemplo – manguezais, manguezais e gramíneas marinhas – armazenam carbono nos solos, onde a água a sela. Drene ou desenvolva essas áreas e “são milhares de anos de carbono sendo liberados na atmosfera”, diz Emily Landis, Estratégia da zona úmida costeira da TNC.

Por outro lado, manter intacto o mesmo habitat faz sentido para o clima. As florestas de mangue podem armazenar até quatro vezes mais carbono por hectare do que as florestas terrestres. Os manguezais também ajudam a proteger as comunidades costeiras de tempestades.

Nesse sentido, proteger os manguezais – assim como usar menos fertilizante nos campos agrícolas – melhora a vida das pessoas.

No Brasil, Rubens Benini viu essa dinâmica. Apenas quatro anos depois de iniciar o trabalho de restauração no terreno nas montanhas da Mantiqueira, Benini começou a ver evidências de grandes mamíferos como pumas voltando para as áreas reflorestadas.

“Passei quase uma vida inteira trabalhando nisso”, diz ele. “Quando vemos os animais que imaginávamos terem desaparecido completamente desta região, é uma sensação muito agradável. Mas quando você entra em uma floresta restaurada e vê os animais, a água limpa e os rios – o cenário todo – a sensação é completamente incrível. ”

Amazônia; Número de queimadas cai; desmatamento dispara

Desaceleração das queimadas com relação ao mesmo período de 2019 não é suficiente para desligar o alerta vermelho na Amazônia.
Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

Enquanto os sistemas que monitoram a Amazônia confirmam o aumento do desmatamento no mês de março e no primeiro trimestre de 2020, com relação ao ano anterior, o número de focos de queimadas no bioma caiu cerca de um terço no acumulado dos três primeiros meses. De acordo com os dados do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no mês de março a queda foi ainda maior, de cerca de 50% no número de queimadas. Os dados apurados não são, entretanto, motivo de comemoração, pois seguem acima da média para o período.

Em 2019, a queimada na Amazônia virou assunto internacional. O ano passado bateu recordes de focos de queimadas em março e abril, com 3.383 e 1.702 focos respectivamente. Em 2020, houve uma desaceleração de cerca de 50% no mês de março, com registro de “apenas” 1.641 focos. Apesar da redução, o número ainda está acima da média histórica para o período. Em abril, até o dia 22 (data anterior ao fechamento desta reportagem), o monitoramento havia registrado 595 focos.

“No contexto geral, eu diria que o cenário não é tão animador assim. Caiu, mas ainda está acima da média. Então também é preocupante. O ano de 2019 foi um ano muito complicado do ponto de vista das queimadas. Então a queda de queimadas em relação ao ano anterior não significa que o número de focos está baixo, até porque os dados do INPE mostram que os números de 2020 ainda estão acima da média, com exceção de janeiro e até o momento abril, mas ainda faltam 7 dias pro final do mês”, explica o pesquisador do Programa de Queimadas do INPE,  Alberto Setzer.

Gráfico do Programa de Queimadas do INPE com comparativo dos valores do 1º semestre de 2020 de acordo com série histórica.

O pesquisador lembra também que o começo do ano é apenas a ponta do iceberg quando o assunto são as queimadas na Amazônia, pois o auge do fogo na região ocorre historicamente nos meses de julho a outubro, durante a seca.  “O início do ano sempre tem números baixos, pois é o período chuvoso. É mais pro final do ano, com a estiagem, que o povo começa a queimar. 95% do que vai queimar na Amazônia vai acontecer nesse período. É muito cedo para tentar adivinhar o que vai acontecer esse ano”, explica.

Setzer argumenta ainda que o cenário para o ano depende de fatores como o clima, a economia, o setor agropecuário e a própria situação da fiscalização e dos órgãos ambientais.

Os três primeiros meses de 2020 somaram 4.037 focos de queimadas, uma redução de 35% em relação a 2019, quando no mesmo período foram registrados 6.170 focos na Amazônia.

Os índices do desmatamento tiveram um rumo contrários no mesmo período, com crescimento de 63%, de acordo com os dados do DETER (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real), também do INPE. O número saltou de 503 km² desmatados em 2019 para 796 km² no primeiro trimestre deste ano. O sistema do DETER mostra o quanto de desmatamento foi detectado nesses meses e não o que efetivamente foi desmatado no período.

“Esse índice alto de desmatamento agora nos próximos meses pode induzir ao aumento de queimadas ou talvez os desmatadores da Amazônia tenham mudado de estratégia e não estejam mais fazendo queimadas justamente porque era isso que estava acionando vários alarmes de destruição da floresta”, analisa o pesquisador associado do Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica (CEIBAM/Inpa), Lucas Ferrante, em referência à grande mobilização nacional e internacional feita em 2019 quando as queimadas na Amazônia escureceram o céu de São Paulo e chamaram atenção do mundo.

O pesquisador aponta que esses números só expõem ainda mais quão falhas e ineficazes têm sido as ações do governo para tentar mitigar a devastação da floresta. “O Exército Brasileiro foi colocado no combate intensivo às queimadas na Amazônia. Só que a queimada ocorre depois que o desmatamento já foi feito, que é justamente para limpar a área. Isso mostra como as ações do Exército podem ser completamente ineficazes. O desmatamento está explodindo nesse momento, mas as queimadas não, então a destruição da floresta não está mais tão associada à queimada e sim ao desmatamento direto, o corte raso”, completa Lucas.

Na opinião do pesquisador, o governo falha reiteradamente na missão de proteger a floresta, “outro exemplo de ineficácia é o Conselho da Amazônia que foi formado agora pelo Vice-Presidente General Mourão e que é composto por 19 militares e não possui nenhum especialista do Ibama nem de nenhum outro órgão ambiental”, acrescenta.

Efeito quarentena

Pandemia afetará fiscalização? Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Numa análise preliminar, os números, tanto de queimadas quanto do desmatamento, não parecem ter sido muito afetados pela pandemia do coronavírus e do confinamento recomendado. “No começo da quarentena houve uma diminuição significativa no desmatamento, que talvez se justifique pelo menor trânsito de pessoas, mas o que a gente tem observado agora que a quarentena já está consolidada é que os números triplicaram. A gente não tem mais como dizer que a quarentena diminuiu o desmatamento”, pondera Lucas.

Para fins de análise a curva dos números a partir do dia 11 de março, quando a movimentação sobre o coronavírus se acentuou no país e os estados começaram a implementar restrições e estimular a quarentena. Os dados do DETER de avisos de desmatamento entre o dia 11/03 e 09/04 (data da última atualização do sistema), detectaram o desmatamento de 487,96km². O que chama atenção é que, entre os dias 14 e 22 de março, não houve nenhum registro de desmatamento (0km²), o que pode sugerir que de fato houve um freio inicial causado pela prevenção – ou medo – do COVID-19.

O freio, entretanto, não durou muito, e logo após a “retomada”, nos 18 dias que se seguiram (23/março a 09/abril) o desmatamento deu um salto exponencial e foram detectados 411,39km² de solo exposto e floresta derrubada.

As queimadas, entretanto, se mantiveram desaceleradas em relação à 2019. Entre 1º de março de 2020 e 22 de abril (dia anterior ao fechamento desta matéria), o monitoramento do INPE havia registrado 2.236 focos de queimadas na Amazônia, uma queda de 53% com relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 4.798 focos. Quem lidera o número de focos é o Mato Grosso com 1.172 focos. Completam o ranking os estados de Roraima (819 focos), Pará (93), Amazonas (85) e Rondônia (56). A queda mais expressiva foi registrada no estado de Roraima que teve uma redução de mais de 75% no número de focos.

Quando comparado o número de focos a partir do dia 11 de março deste ano, são 1.613 focos até o dia 22 de abril versus 2.236 no mesmo período em 2019.

Apesar dos números em queda, o fato do desmatamento seguir em crescimento acelerado combinado com as medidas pouco eficazes do governo no combate à destruição da floresta são um alerta de que o cenário permanece sombrio.

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) divulgou uma Nota Técnica na qual analisa o fogo e o desmatamento em 2019 e explica que “a análise dos dados do ano passado demonstra o efeito positivo de ações de fiscalização e controle do uso do fogo na Amazônia, principalmente no período da moratória das queimadas (setembro e outubro de 2019). Elas foram necessárias antes e devem ser mantidas agora, especialmente considerando que quase um terço dos focos de calor registrados em 2019 aconteceu em terras públicas sem destinação – ou seja, efeito de grilagem –, que se intensificou no primeiro trimestre de 2020, num verdadeiro roubo de patrimônio público dos brasileiros.

Contudo, ao contrário do que aconteceu em 2019, o esforço em campo deve coibir também o desmatamento, visto que são duas faces de uma mesma moeda. Sem estratégias que mirem ambos os problemas conjuntamente, espera-se pouca efetividade de qualquer plano governamental de controle do fogo na Amazônia”.

A Nota Técnica alerta ainda que a temporada de queimadas deste ano poderá ser igualmente – ou até mais – severa, pois o desmatamento gera um acúmulo excessivo de matéria seca, combustível ideal para as chamas se converterem em incêndios florestais.

Como desenvolver a economia na Amazônia sem desmatar

Autor de livro sobre práticas sustentáveis na Amazônia explica por que associar desenvolvimento econômico ao desmatamento é uma falácia e indica novos caminhos para gerar riqueza sem destruir.

Quem defende o desmatamento de áreas na Amazônia costuma dizer que ele é necessário para levar progresso à região e desenvolvê-la economicamente. Essa foi uma das teses do regime militar para o bioma e segue presente em setores do governo federal e em parte dos empresários do agronegócio. Sob esse lógica, manter a floresta reduz a possibilidade de um país carente como o Brasil gerar riqueza.

O conflito entre preservar a floresta e desenvolver a região, porém, é uma ideia errada e fora de lugar, afirma Ricardo Abramovay, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP). Ele lançou em outubro o livro Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, em que analisa e propõe formas de conservar a mata e gerar crescimento econômico ao mesmo tempo.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

Como desenvolver a região da Amazônia sem desmatar?

Ricardo Abramovay: Primeiro, é necessário corrigir os rumos do que já se faz. Os produtores de soja devem reiterar o compromisso da Moratória da Soja e respeitar a regra de que não se compra soja de terras recentemente desmatadas. A pecuária precisa se tornar racional e sustentável.

Hoje, a pecuária na Amazônia é em grande parte de baixíssima produtividade. E interromper as atividades ilegais ligadas ao garimpo e à exploração clandestina de madeira. Essas são as premissas, não adianta sonhar com outra coisa se não conseguimos nem um mínimo de organização empresarial civilizada em torno daquilo que já existe.

E como ir além disso para gerar mais riqueza na região?

A verdadeira alternativa é a economia da floresta em pé, em substituição à economia da destruição da natureza que predomina hoje. Essa economia do conhecimento da natureza é composta de elementos que já existem de maneira precária ou que ainda não existem, mas são potenciais.

Os que existem de maneira precária e precisam ser desenvolvidos referem-se às cadeias de valor baseadas em produtos da floresta em pé. O açaí é o exemplo mais emblemático, o rendimento de um hectare de açaí é muito superior ao de um hectare de soja [R$ 26,8 mil para o açaí e R$ 2,8 mil para a soja por ano em 2015].

Há outras cadeias de valor relativamente existentes, como castanha do pará, borracha e piscicultura, mas exploradas em condições muito precárias. A piscicultura de peixes de água doce em cativeiro na Amazônia tem a vantagem sobre as formas mais conhecidas de piscicultura em cativeiro, como o salmão. O peixes da Amazônia criados em água doce não são carnívoros, logo o impacto ambiental é mais baixo.

Além disso, o turismo ecológico no mundo cresce 15% ao ano, e na Amazônia ele tem um potencial de crescimento imenso. E você tem também todo um potencial de moléculas da biodiversidade para a produção de fármacos. O Brasil vive o paradoxo de ser o país com a maior diversidade do mundo e ter uma indústria farmacêutica concentrada na produção de genéricos, pouco voltada a inovações para as principais moléstias do século 21. É outro potencial para a valorização da floresta em pé que não estamos aproveitando.

Qual a relação entre desmatamento e crescimento econômico?

Quando o Brasil se destacou pelo combate vigoroso ao desmatamento, reduzido em 80% na Amazônia entre 2004 e 2012, ao mesmo tempo a produção agropecuária da região aumentou devido à tecnologia avançada aplicada nas áreas de produção de soja, sobretudo em Mato Grosso.

Se o desmatamento avança, quais são seus protagonistas? Às vezes dizem que quem desmata são os pobres que não têm alternativa de vida, mas não é assim. Desmatar é caro, exige investimento, máquinas, contratar trabalhadores. O desmatamento hoje é feito por grupos organizados, que, diante da mensagem de que a suposta indústria de multas não vai parar as suas atividades, se organizam na expectativa de terem legalizados direitos que não lhes foram reconhecidos sobre terras públicas. Essa é uma explicação importante para a explosão do desmatamento em 2019.

É claro que no desmatamento a economia cresce de alguma forma, você vende madeira, têm exploração de garimpo, mas é um crescimento baseado em ilegalidade e muito menor do que quando você tem condições legais para exercer as atividades econômicas. Um ambiente institucional que coíba o desmatamento ilegal é um ambiente em que investidores responsáveis poderão agir.

Que políticas públicas o Estado brasileiro deve desenvolver para incentivar a economia da floresta em pé?

A primeira é uma sinalização clara de que haverá fiscalização e que não será tolerada a permanência de atividades ilegais. É importante mudar a narrativa do governo federal, porque ela forma uma cultura empresarial. E a narrativa do governo hoje é que, se a Amazônia não for desmatada, os 25 milhões de pessoas que moram lá vão morrer de fome. Uma narrativa perniciosa que estimula os atores locais a adotarem as piores práticas.

Amazônia brasileira: uma história de destruiçãoDesmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Também é preciso valorizar o trabalho feito por organizações não governamentais, que junto com as populações tradicionais na floresta são os atores dessa economia do conhecimento da natureza. E apoiar a junção entre comunidade científica, organizações não governamentais e empresários voltados à exploração sustentável da floresta. Hoje existem algumas iniciativas fazendo isso, como o Centro de Empreendedorismo da Amazônia, mas sem qualquer tipo de apoio ou sequer entusiasmo governamental.

E também apoiar o multilateralismo democrático, destruído por razões ideológicas pelo atual governo. O Fundo Amazônia era uma das expressões mais emblemáticas da cooperação entre três países democráticos, Noruega, Alemanha e Brasil, para enfrentar o desmatamento.

Qual é o formato para estimular a inovação na exploração sustentável da floresta?

Uma proposta, do Carlos Nobre e do Ismael Nobre, são os laboratórios de inovação da Amazônia, para descentralizar o processo de inovação e multiplicar as possibilidades de junção entre conhecimentos tradicionais e científicos vindo da academia e das organizações que fazem pesquisa. As universidades têm papel importante, mas sozinhas não são capazes de fazer isso. Existe uma comunidade de pessoas com doutorado em municípios da Amazônia que podem ser a base para isso.

Agora, o formato exato ainda ninguém sabe, é por meio da experimentação, que precisa de apoio governamental. Nos Estados Unidos, quando se tem desafios dessa natureza, a Darpa (agência de pesquisa do departamento de Defesa) lança editais com desafios para estimular processos de experimentação. É importante estimular que grupos procurem dar respostas ao desafio.

Há um embate entre setores do agronegócio e ambientalistas sobre o grau de desmatamento a ser admitido na Amazônia: o desmatamento zero versus o desmatamento de até 20% nas áreas privadas, permitido pelo Código Florestal. Qual é a saída?

A pressão institucional para o desmatamento zero, não o desmatamento ilegal zero, é imensa. Ela se baseia na ideia de que os produtores [e consumidores] de soja querem dissociar o produto de qualquer perigo de desmatamento na Amazônia. E existem condições técnicas de a produção de soja se expandir no Brasil e no mundo sem desmatar a Amazônia e o Cerrado.Amazônia,Desmatamento,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Ecocologia,Agronegócio 01

Autorizar algo na Amazônia que não seja a economia da floresta em pé pode satisfazer as necessidades de um produtor individual, mas não os interesses do país e da preservação do ecossistema. Não há razão para não aderir ao desmatamento zero integral. Mas o dado importante é que o desmatamento que ocorreu em 2019 não foi o desmatamento desses 20% [autorizados por lei]: 90% do desmatamento de 2019 foram ilegais.

Como você avalia a postura do agronegócio brasileiro em relação à Amazônia?

Há um conjunto de empresários interessados em interromper a devastação na Amazônia, favoráveis ao desmatamento dos 20% [permitidos], mas apoiam a Moratória da Soja, não apoiam a invasão de terras públicas. Por outro lado, há um conjunto de atores econômicos oportunistas incentivando políticas predatórias. A oposição hoje não é bem agronegócio versus ambientalistas, porque uma parte do agronegócio está junto com os ambientalistas, mas dentro do próprio agronegócio.

Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

A floresta amazônica no Brasil: vivendo nas sombras da violência e do desenvolvimento

No centro do desmatamento e dos conflitos de terra no Brasil, um pequeno agricultor viu o custo pessoal para sua família e comunidade de se manifestar. Seu filho se escondeu para escapar das ameaças de morte.

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Maria Marcia Elpidia de Melo não vê seu filho Elmiro há mais de seis meses. O líder comunitário, de um assentamento agrário no Pará, na Amazônia brasileira, tem sido um crítico franco contra a apropriação de terras na região. No ano passado, seu filho de 20 anos foi espancado e recebeu ameaças de morte por agressores desconhecidos – e então ela o mandou para o esconderijo.

Ela tem 42 anos e mora em Terra Nossa desde 2006 como mãe solteira e com seu único filho em uma casa de tijolos de um andar. Manchava luz pela janela de Melo enquanto ela se inclinava sobre a mesa da cozinha, achando que o trabalho dela colocara sua vida em perigo. O pequeno agricultor e presidente da Associação de Produtores Rurais de Nova Vitória se tornou cada vez mais envolvido com disputas de terras.

“O que eu não posso aceitar é se eles matarem meu filho”, disse ela, com os olhos lacrimejando. “Ele está seguro por enquanto, mas não vou visitá-lo porque tenho medo de alguém me seguir.” Antes de se esconder, Elmiro ajudou a mãe em sua fazenda.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, um órgão de vigilância da violência rural, três habitantes da vila de Melo foram assassinados em 2018 – e desde então 16 pessoas na região receberam ameaças de morte por causa de conflitos de terra.
Árvores destruídas pelo fogo em Novo Progresso, Pará, Brasil em agosto do ano passado.Imagens aéreas de toras cortadas ilegalmente alinhadas na floresta amazônica

Grilagem de terras e ameaças

De Melo relatou vários incêndios provocados pelo homem e minas ilegais na delegacia de Novo Progresso ao longo do ano passado. Mas, em três ocasiões, ela diz, os homens envolvidos na exploração alertaram-na para “parar de protestar ou enfrentar a morte”. A força policial não respondeu a um pedido de comentário sobre as ameaças.

Terra Nossa, um assentamento de 350 famílias cercadas por uma floresta sufocante e acessível apenas por uma estrada de terra, está no epicentro do desmatamento na Amazônia. O município vizinho de Novo Progresso ganhou as manchetes internacionais em agosto do ano passado, quando incêndios florestais gigantescos tomaram conta da região, uma prática agrícola anual agora levada ao extremo pela apropriação de terras.

Cerca de 124 incidentes de incêndios foram registrados pelas autoridades de Novo Progresso em apenas um dia, coordenados em grande parte por um grupo, principalmente agricultores, procurando limpar a terra da floresta e reivindicá-la por si mesmos.

Leis e regulamentos atuais

De acordo com a agência espacial brasileira INPE, o desmatamento entre 1 de agosto e 30 de novembro de 2019 totalizou 4.217 quilômetros quadrados, ou 46.000 campos de futebol americano – mais do que o dobro dos números de 2018 no mesmo período.

Manifestantes no Rio de Janeiro exigem mais proteção para a Amazônia

Especialistas dizem que as leis atuais incentivam um processo interminável de incêndios, desmatamento e apropriação de terras. “Existe um incentivo claro na lei”, disse Brenda Brito, pesquisadora do Instituto Imazon, uma organização de pesquisa com sede no Brasil. “Ele permite que você ocupe terras públicas, finja que as está usando [para trabalho legítimo] e depois reivindique o título da terra”.

Em dezembro do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro afrouxou ainda mais as regulamentações, triplicando a quantidade de terras que podem ser reivindicadas e permitindo que aqueles que ocupam terras desde pelo menos 2014 recebam títulos – anteriormente o limite era 2008.

Apoio ao desenvolvimento

Das estradas de terra que cortam a Terra Nossa, usadas para transportar madeira extraída ilegalmente, surge uma cena de encostas empilhadas com troncos de árvores de décadas. “Era uma vez bonito aqui”, disse Melo. “Antes de todo esse negócio começar.”

Mas a Amazônia é uma das regiões mais pobres do Brasil, com 45% de seus 23 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza. Há raiva de alguns agricultores locais com a sugestão de que a floresta tropical seja priorizada sobre as condições de vida dos trabalhadores normais. Bolsonaro, eleito após fazer campanha para abrir a Amazônia à indústria, acendeu apoio ao desenvolvimento.

Vista aérea da terra limpa em Novo Progresso, Brasil

“O que eles esperam que façamos? Para alimentar nossa família com sujeira?” disse Agamenon da Silva Menezes, líder sindical de agricultores em Novo Progresso.

“Mesmo que a mudança climática seja real, e não tenho certeza se acredito, por que você [o Ocidente] pode ficar rico e esperar que o resto de nós fique feliz por permanecer pobre?” Menezes adicionado.

Conflito com as comunidades locais

Apesar da ampla condenação internacional, Bolsonaro incentivou e defendeu essas práticas. “O desmatamento e os incêndios nunca terminarão”, disse o presidente no ano passado, argumentando que “é cultural”.

Na busca pelo lucro, no entanto, os ocupantes de terras em grande escala – tanto fazendeiros locais ricos como estrangeiros – estão cada vez mais entrando em conflito com as comunidades locais.

“Onde há desmatamento, geralmente há desapropriação e violência”, disse Mauricio Torres, cientista social e especialista em apropriação de terras na Amazônia. “Para desmatar, é necessário remover as comunidades que ocupam essa floresta.”

Alguns argumentam que incêndios, desmatamento e apropriação de terras no Brasil são incentivados por leis e regulamentos.

A apropriação de terras e incêndios na Amazônia tiveram um impacto direto nas comunidades locais no Brasil

Terra Nossa, da casa de Melo, é incomum entre pequenos agricultores que usam a terra e a floresta circundante repleta de açaí e castanha do Brasil de forma sustentável. A onda de ocupação de terras revirou esse modo de vida.

Raione Lima Campos, advogada da Comissão Pastoral da Terra na região, diz que líderes locais como de Melo frequentemente se tornam alvo de madeireiros e fazendeiros quando falam.

Ela acrescenta que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), o órgão nacional para questões de reforma agrária, fez pouco esforço para resolver as questões de invasão e violência de terras. “O INCRA não tem interesse nisso”, acrescentou, referindo-se à falta de ação. “Sempre foi ruim, mas agora a situação piorou.” O INCRA não respondeu a uma solicitação de comentário.

Para De Melo, o resultado é uma mistura estonteante de desconfiança nas instituições públicas que deveriam protegê-la. Mas a apropriação de terras é apenas uma parte do plano de Bolsonaro – juntamente com a ferrovia Ferrograo para transportar soja, barragens hidrelétricas ao longo do rio Tapajós e a rodovia BR-163 através do Pará – projetada para abrir a Amazônia ao agronegócio.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

Passeando pelo jardim da casa de Melo, onde seu filho Elmiro já brincou entre as plantações de caju, pupunha e açaí, há uma sensação de que ela é completamente isolada e vulnerável, mas também no coração pulsante de uma das infra-estruturas mais significativas projetos no mundo.

“Esses grileiros são uma gangue organizada que está em toda parte”, disse ela. “Eles até têm políticos influentes no meio deles. Qualquer problema que eles tenham, como eu, acabará por desaparecer.”

China: indústria de móveis prossegue devastando florestas

As importações de madeira cortada ilegalmente na China estão destruindo algumas das florestas do mundo, de acordo com a Forest Trends.

Os consumidores ocidentais também desempenham um papel importante, afirma o grupo sem fins lucrativos de Washington.

A China está importando madeira bruta para transformá-la em móveis baratos, compensados ​​e outros produtos processados, dos quais 70% exporta para mercados de países ricos.

O relatório diz que isso leva ao esgotamento das florestas do mundo, com conseqüências sociais e ambientais devastadoras.

Os números são enormes.

O estudo diz que as exportações de produtos à base de madeira que vão da China para a Europa e os EUA subiram 900% em apenas oito anos.

As conclusões são o resultado de cinco anos de pesquisa colaborativa de organizações nos EUA, Indonésia e China.

Outros fatores citados incluem um grande aumento na demanda por produtos de madeira na própria China e a decisão da China de impor uma proibição de extração de madeira para proteger suas próprias florestas.

Isso levou a mais importações de madeira ilegal de outros lugares.

Uma ramificação da Academia Chinesa de Ciências em Pequim contribuiu para o relatório

Nos últimos anos, diz o estudo, a China emergiu como o principal importador de árvores tropicais.

O problema é que grande parte dessa madeira é de origem ilegal e pode vir de florestas tropicais e outras áreas sensíveis ao meio ambiente.

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Eles não fazem home office: garimpeiros e grileiros seguem degradando a Amazônia e os indígenas

Já se somam três mortes de índios na região amazônica, vítimas do novo coronavírus. E estas mortes têm a ver com a invasão de suas terras por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros.Amazônia,Blog do Mesquita

Segundo nota da Funai, a primeira morte aconteceu na noite de quinta-feira, dia 9, de um adolescente indígena de apenas 15 anos, Alvanei Xirixana Pereira, morador da Comunidade Boqueira, oriundo da Comunidade Rehebe e havia passado um período na Comunidade Boqueirão, quando teria apresentado os primeiros sintomas. A funai informou que equipes de saúde já ingressaram no local para auxiliar no mapeamento daqueles que mantiveram contato com o jovem, além de realizar o isolamento do grupo para melhor acompanhamento.

Na noite de sábado, dia 11, a Funai confirmou mais duas mortes de indígenas em Manaus, capital que enfrenta uma forte elevação no número de infectados com a doença. Trata-se de um indígena da etnia tikuna, de 78 anos, e de uma indígena Kokama, de 44 anos.

Segundo dados do governo, há mais seis casos confirmados de contaminação. A Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Governo Federal, orientou indígenas a evitarem deslocamentos das aldeias a centros urbanos, assim como não permitirem a entrada de pessoas externas em suas terras.

Garimpeiros no território Yanomami

Segundo Paulo Basta, pesquisador da Fiocruz, existe forte indício do adolescente indígena ter sido contaminado por causa da ação dos garimpeiros e que, atualmente, possui 20 mil garimpeiros ilegais atuando no território Yanomami.

A situação assim, torna-se cada vez mais preocupante, principalmente com os povos indígenas que vivem em territórios invadidos por grileiros, fazendeiros, madeireiros e, principalmente, por garimpeiros. Esse pessoal, como alertou o biólogo Paulo Moutinho, não faz home office.

A presença de invasores ameaça centenas de comunidades indígenas de contágio pelo coronavírus, que estão muito apreensivas com a situação.

Além da condição especial dos indígenas, que, isolados, não desenvolvem imunidade para vírus e bactérias circulantes em áreas não isoladas, tornando-os extremamente vulneráveis, pior quando se trata de um vírus altamente poderoso e sem alternativa farmacológica de cura, mas também porque a cultura de compartilhamento dos locais onde vivem, dormem, cozinham, também dificulta o isolamento dos índios. Casas compartilhadas, utensílios que circulam entre várias pessoas e a dificuldade de acesso à itens como sabão e álcool em gel tornam o combate ao vírus muito mais complexo nessas comunidades.Amazônia,Brasil,Desmatamento,Poluição,Mineração,Meio Ambiente

Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), no final de fevereiro, os indígenas, que estão recebendo informações sobre a Covid-19, já estavam preocupados com o avanço e chegada da doença, e os Yanomami, em Roraima, incendiaram um helicóptero e prenderam os seus ocupantes, ligados ao garimpo clandestino. No início de março, os Kaiapó, no Pará, rebelaram-se contra chefes dos garimpeiros e exigiram a imediata retirada deles.

Segundo informa o ISA, na fronteira do Brasil com a Venezuela, o território Yanomami é a maior terra indígena do país, com área equivalente à de Portugal, vivendo cerca de 26 mil membros dos povos yanomami e ye’kwana, distribuídos em 321 aldeias. O território sempre foi alvo de garimpeiros porque é sabida a existência de ouro na região, desde a década de 1970.

O Instituto também informa que o garimpo já degradou 114 hectares de floresta, o equivalente a 114 campos de futebol, só no mês de março e 2020.

Em nota, o ISA afirma que os povos indígenas estão a mercê de cerca de 20 mil garimpeiros que entram e saem do território sem nenhum controle e que isso é o principal vetor da Covid-19 na terra Indígena Yanomami que, assim como outros grupos, devem ser urgentemente protegidos, sob risco da ocorrência de um genocídio indígena.

Diante do agravamento da situação das invasões e a escalada da pandemia em todo o Brasil, a situação demanda resposta rápida e extraordinária dos órgãos federais e autoridades responsáveis.

Megaoperação para afastar invasores

O Governo Federal informou que montou uma megaoperação para afastar invasores das terras indígenas.

A operação percorreu três terras indígenas no sul do Pará onde vivem cerca de 1.700 índios. Os fiscais cumpriram 14 dias de quarentena preventiva antes de irem para o local e seguem à risca o protocolo sanitário, principalmente quanto à necessidade de não manter contato com os índios.

Em matéria exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, é possível verificar que os garimpeiros fogem assim que notam a presença do helicóptero dos fiscais do IBAMA. Pelo ar, eles localizam e prendem os garimpeiros ilegais. Por terra, eles destroem pontes de acesso na mata e colocam fogos em equipamentos, principalmente retroescavadeiras e outros utilizados nos garimpos. Os fiscais do IBAMA também encontraram armas e munição, além de animais silvestres presos possivelmente para comércio ilegal.

Degradando a Amazônia e os índios

O estrago ambiental já foi feito, e eles estão cada vez mais próximos das aldeias indígenas isoladas.

Imagens de satélite mostram que garimpeiros estão ampliando suas operações dentro da Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas, mesmo durante a pandemia do novo coronavírus.

Na reportagem do Fantástico, um fiscal do Ibama  relata que o aumento das invasões pelos garimpeiros ocorreu porque possivelmente eles acharam que ia haver um relaxamento da fiscalização por causa do novo coronavirus.

Nesse momento, a única solução é o isolamento total dos povos.Amazônia,Desmatamento,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita 06

Segundo a nota da Funai a Fundação em apoio às comunidades, seguirá os protocolos de contingenciamento junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena e aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, além de fornecer o necessário, como alimentação e combustível, para facilitar o atendimento das equipes de saúde no monitoramento dos sintomas e evitar que os indígenas saiam das aldeias.

Desmatamento na Amazônia atinge nível recorde no primeiro trimestre de 2020

O primeiro trimestre de cada ano costuma ser o que apresenta os níveis mais baixos de desmatamento na Amazônia, devido às chuvas fortes que marcam o inverno amazônico e dificultam a propagação de incêndios e a própria operação de desmate.

Este ano, entretanto, nem a chuva impediu que o desmatamento na Amazônia Legal entre janeiro e março alcançasse a marca recorde para o período de 796,08 km², de acordo com os alertas do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os 796 km² desmatados no trimestre, o equivalente a quase 80 mil campos de futebol oficiais, representam um aumento de 51% em relação aos três primeiros meses de 2019 e um recorde para o período desde que o Deter adotou a metodologia atual, há 5 anos. “O mais preocupante é que no acumulado de agosto de 2019 até março de 2020, o nível do desmatamento mais do que dobrou. Isso é o mais preocupante”, ressalta o coordenador-geral do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), Tasso Azevedo.

Entre agosto de 2019 e março de 2020, período referência para o cálculo da taxa anual de desmatamento, o acumulado foi de 5.260,18 km² de área desmatada. No período anterior do ano anterior, entre agosto de 2018 a março de 2019, o acumulado foi de 2.525,5 km².

“Esse aumento no primeiro trimestre tem muito a ver com o ritmo que o desmatamento vinha já desde o ano passado por conta de todas as políticas que afrouxaram a fiscalização, das restrições que houve às operações de fiscalização, da redução do número de multas e tudo mais. O que estamos vendo é um reflexo disso”, analisa o coordenador.

Os estados que lideraram o desmatamento no primeiro trimestre de 2020 foram o Mato Grosso, com 267,07 km² desmatados, e o Pará, com 257,24 km². No Pará também está o município que mais desmatou no trimestre, Altamira, onde foram detectados quase 90 km² de perda de cobertura florestal. Amazonas, Roraima e Rondônia completam o pódio dos 5 estados que mais derrubaram florestas entre 1 de janeiro e 31 de março de 2020.

No ranking das áreas protegidas da Amazônia brasileira com maiores índices de desmatamento em primeiro está a Floresta Nacional do Jamanxim (5,43km²), seguida pela Área de Proteção Ambiental do Tapajós (5,11km²), ambas unidades de conservação localizadas no Pará e, em terceiro, a Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre (3,53km²).

O coordenador do MapBiomas esclarece que os dados levantados pelo DETER mostram o quanto de desmatamento foi detectado nesses meses e não o que efetivamente foi desmatado no período. “Um desmatamento pode ter começado em outubro e terminado em fevereiro, mas o DETER só conseguir detectá-lo em março”.