Covid-19: por que o objetivo do Reino Unido é agora viver com o vírus – em vez de combatê-lo constantemente

O governo do Reino Unido diz que espera transformar a covid-19 em uma doença administrável, como a gripe.

A vacinação e os novos tratamentos, argumentam os ministros e seus consultores científicos, vão reduzir a taxa de mortalidade e nos permitir conviver com o vírus — em vez de tentar combatê-lo constantemente.

Em entrevista recente ao jornal Daily Telegraph, o secretário de Saúde britânico, Matt Hancock, afirmou esperar que, até o final deste ano, seria possível fazer com que a covid-19 se tornasse “uma doença tratável”. Novos tratamentos sendo desenvolvidos e as vacinas sendo administradas representariam, nas palavras do ministro, “nosso caminho rumo à liberdade”.

Os comentários indicaram que Hancock está descartando a estratégia (veja mais abaixo) conhecida como “covid zero”, cujo objetivo máximo é eliminar o vírus completamente do território britânico.

A ideia foi reforçada pelo parlamentar David Davis, do Partido Conservador (o mesmo do premiê Boris Johnson), que disse à BBC Radio 4 nesta semana: “Chegará um ponto em que haverá uma taxa de mortes por covid-19, mas em um nível normal, e teremos de lidar com isso”.

Erradicar o vírus é quase impossível

Varrer a covid-19 do mapa seria ótimo, é claro, dada a morte e destruição que vem causando. Mas o único problema disso é que a erradicação só foi alcançada antes com um único vírus — o da varíola, em 1980.

Demorou décadas para se chegar a esse ponto, e cientistas e governos só foram capazes de fazer isso por causa de um conjunto bastante singular de circunstâncias. Em primeiro lugar, a vacina era tão estável que não precisava ser refrigerada e, quando foi administrada, ficava imediatamente claro se funcionava ou não — devido ao surgimento de pústulas.

Também era claro quando alguém era infectado — não era necessário fazer teste de laboratório, o que era uma grande vantagem na tentativa de conter os surtos.

A covid-19, como bem sabemos, é completamente diferente.

A estratégia ‘covid zero’

Em contrapartida, o chamado movimento “covid zero” tende a falar sobre eliminação. Isso basicamente significa reduzir os casos para zero (ou perto de zero) em um território e mantê-los nesse patamar.

Um dos mais notórios defensores dessa estratégia é a professora Devi Sridhar, especialista em saúde pública da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Ela acredita que devemos tratar a covid-19 como o sarampo, que foi amplamente eliminado nos países ricos.

Ela argumenta que as restrições contínuas para diminuir o número de casos, combinadas com um sistema de teste e vacinação mais eficaz, podem nos permitir manter o vírus contido, permitindo que o Reino Unido volte a ter uma “vida doméstica um tanto normal” com restaurantes, bares, eventos esportivos e musicais acontecendo.

Mas o preço a pagar, diz ela, seriam as restrições de fronteira limitando as viagens internacionais e “lockdowns curtos e severos” quando os casos inevitavelmente explodissem.

Deepti Gurdasani, epidemiologista clínica da Universidade de Londres, no Reino Unido, é outra defensora dessa estratégia. Ela é um dos mais de 4 mil signatários da petição covid zero, que pede um debate parlamentar sobre a proposta.

“A vida pode voltar ao normal — podemos até abrir corredores de viagens com outros países que sigam esse caminho”, diz ela.

O problema com a abordagem do sarampo

Pode ser uma perspectiva tentadora, mas muitos acreditam que ela está fora de alcance ou que exigiria restrições tão constantes que os custos econômicos e sociais seriam enormes.

“Covid zero não é compatível com os direitos e liberdades individuais que caracterizam as democracias do pós-guerra”, afirma o professor Francois Balloux, diretor do Instituto de Genética da Universidade College London (UCL), no Reino Unido.

Países como Nova Zelândia, Taiwan e Austrália conseguiram isso porque foram capazes de evitar que o vírus se estabelecesse — e todos os sinais são de que, uma vez que sua população seja vacinada, eles começarão a suspender as restrições de fronteira.

Mas nenhum país que viu o vírus se espalhar da maneira como aconteceu no Reino Unido conseguiu reprimi-lo a ponto de eliminá-lo.

As vacinas, em teoria, fornecem uma nova ferramenta para nos ajudar a conseguir isso, como fizeram com o sarampo.

Mas há uma falha significativa nesse argumento, observa a professora Jackie Cassell, especialista em saúde pública da Universidade de Brighton, no Reino Unido.

O sarampo, segundo ela, é um vírus “excepcionalmente estável”. Isso significa que ele não muda de maneira que permita escapar do efeito da vacina. Na verdade, a mesma vacina tem sido usada basicamente desde 1960 — e também fornece imunidade permanente.

Mas está claro que “infelizmente” não é o caso desse coronavírus, acrescenta Cassell.

O desafio é se manter à frente do vírus

As variantes que surgiram na África do Sul e no Brasil permitem, segundo indicam os estudos até agora, que o vírus mude para escapar de parte da imunidade gerada pelas vacinas (o que não significa que elas percam importância).

O vírus que circula no Reino Unido também sofreu uma nova mutação — conhecida como E484 — que permite que isso aconteça.

À medida que mais pessoas são vacinadas, isso só tende a aumentar. Isso porque as mutações que são capazes de contornar a resposta imunológica de alguma forma terão uma vantagem, diz Adam Kucharski, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que realizou pesquisas sobre surtos globais, da zika ao ebola.

“Não podemos fugir disso. Podemos muito bem precisar de atualizações de vacinas.”

O desafio, portanto, é “ficar à frente do vírus”, diz ele.

Mas Kucharski não acredita que seja tão difícil quanto talvez pareça, dada a atenção da imprensa em relação às novas variantes.

Os coronavírus mudam menos que o vírus da gripe, segundo ele, o que significa que as vacinas ainda devem permanecer eficazes em grande medida.

Além disso, o fato de as mutações estarem compartilhando algumas características-chave nos dá uma boa ideia do caminho que estão percorrendo.

“Se poderia esperar que fosse mais fácil de atualizar do que no caso da gripe, em que existem muitas cepas diferentes.”

Ele alerta, no entanto, que deve ser tomado o máximo de cuidado no momento, uma vez que uma população que está desenvolvendo imunidade quando há muita infecção por perto oferece o terreno fértil ideal para as variantes tentarem escapar dessas vacinas.

Ele diz que é muito cedo para dizer se chegaremos ao ponto em que o coronavírus poderá ser tratado como a gripe, já que ainda não vimos totalmente o impacto que as vacinas vão ter.

‘Reduzir o risco’ de covid

Essa cautela é compreensível, já que os cientistas querem primeiro ver as evidências do lançamento do programa de vacinação no mundo real. Um grande estudo da Public Health England, agência governamental de Saúde Pública da Inglaterra, está em andamento para analisar isso — e espera-se que seja publicado antes que as restrições sejam suspensas.

Mas todas as indicações dos testes clínicos e da experiência de Israel, que está liderando a vacinação no mundo, é que elas terão um impacto significativo na redução das infecções — e onde não tiverem, pelo menos ajudarão a prevenir formas graves da doença e as complicações da chamada “covid longa”, assim como mortes.

Para aqueles que permanecerem suscetíveis seja porque se recusam a tomar a vacina ou porque a vacina não funcionou, os avanços nos tratamentos serão vitais.

Isso sugere que podemos chegar ao ponto — nas palavras do principal consultor médico-chefe da Inglaterra, Chris Whitty — em que “reduziremos o risco” da covid.

Isso não significa, porém, que ninguém vai morrer.

Mesmo a gripe continua sendo uma doença capaz de matar em larga escala: em dezembro de 2017, a Organização Mundial da Saúde estimou que até 650 mil pessoas morriam por ano no mundo em decorrência de doenças respiratórias ligadas à influenza sazonal.

“Vivemos ao lado de vírus há milênios”, diz o professor Robert Dingwall, membro do Grupo de Aconselhamento para Ameaças de Vírus Respiratórios Novos e Emergentes do governo.

“Faremos o mesmo com a covid.”

Qual cientista você gostaria de conhecer?

Quem acompanha estas páginas sabe da minha admiração por Isaac Newton (1642-1727), o cientista incomparável que deixou uma marca imperecível na física e na matemática graças ao seu livro Mathematical Principles of Natural Philosophy (1687) e a invenção do cálculo infinitesimal.

Eu o considero a mente mais poderosa que a história conhece, o que, obviamente, não significa que não tenham existido outras pessoas com maior poder intelectual, mas que por razões múltiplas (educação, situação pessoal, sexo …) não puderam desenvolver suas capacidades.

Pensei em Newton novamente por vários motivos. A mais poderosa se deve à leitura de um romance divertido que, seguindo uma tendência bastante frequente nos dias de hoje – usando personagens históricos -, o tem como um de seus protagonistas: Dark Matter (Salamandra, 2020), de Philip Kerr. O cenário e o tempo em que a história se passa são os da época – de 1696 em diante – quando Newton deixou sua cadeira na Universidade de Cambridge aceitando o posto de Diretor da Casa da Moeda; este é “Guardian”, ou “Administrador”, da Casa da Moeda Inglesa, que envolveu uma mudança para viver em Londres e, claro, recompensas magníficas.

Não muito depois, em fevereiro de 1700, Newton ascendeu para se tornar o Mestre (“Diretor”), a posição suprema da Casa da Moeda. Era uma sinecura, mas envolvia obrigações complicadas: desde o início de seu envolvimento com a Casa da Moeda Newton esteve envolvido em um dos episódios mais dramáticos da economia britânica da época, uma re-cunhagem, tarefa em que mergulhou com a energia e habilidade usuais nele.

A sede da Casa da Moeda era a famosa Torre de Londres, circunstância que Kerr utiliza com base em boas informações históricas, agregando apelo ao enredo, no qual Newton aparece como uma espécie de Sherlock Holmes, pessoa dotada de extraordinários poderes de observação e raciocínio lógico, com o qual ele pode solucionar os crimes que, como em quase todas as histórias de detetive, acontecem. Ao mergulhar nos cenários e personagens que percorre esta história (aparecem outros com os quais também estou familiarizado), perguntei-me mais uma vez algumas daquelas perguntas que às vezes nos fazemos, ou são feitas por outros: que personagem histórico faria Eu gostei? Sabe? E em que época do passado você viveu?

Em relação ao personagem, direi que ele não é Newton, por mais que seja minha admiração e mesmo que seja interessante conhecer seu mundo. Ele era um homem com uma personalidade que não me atrai em nada: desconfiado, vingativo, obcecado pela religião – temeroso de seu Deus solitário (ele era ariano e não acreditava na Trindade, ele, um distinto membro do Trinity College, o Colégio de Trinidad) – bem como extremamente ciumento de suas realizações. Foi necessário todo o poder de convicção de Edmund Halley – e paciência e, por falar nisso, dinheiro também, pois ele pagou do bolso a edição – para fazê-lo começar e terminar de escrever o livro mencionado.

Nem seria , outro de meus deuses laicos da ciência. Eu sei muito sobre ele e ficaria um pouco surpreso. Nem, por razões semelhantes, Darwin, o último de minha Trindade científica exclusiva. Eu gostaria de ter conhecido Galileu (1564-1642). Acompanhe-o – e deixe-me dizer o que sentiu – naquela noite fria de 28 de dezembro de 1609, quando avistou com seu telescópio rudimentar quatro pequenas luas que giravam em torno de Júpiter e que ele, ansioso por conquistar os favores dos Médici, batizou de “Estrelas Mediceanas” (hoje as conhecemos como Io, Europa, Ganimedes e Calisto), ou quando ele contemplou a Lua como ninguém antes dele: “imperfeita”, isto é, com montanhas e crateras, não com o imaculado e perfeito redondeza que os aristotélicos pensavam. Compartilhe suas dúvidas, e “cálculos políticos”, sobre se deve arriscar e publicar o Diálogo sobre os dois maiores sistemas do mundo, ptolomaico e copernicano, que tantas crenças misteriosas violaram. Ele fez isso em 1632; dom incomensurável para a humanidade. Discuta com ele se ele deveria se arriscar e ir a Roma para se defender contra as acusações religiosas feitas contra ele por causa daquele livro.

Idiota aquele que saiu da segurança da República de Veneza – um idiota, mais do que um idiota, que pode pensar em confiar num político, mesmo que se disfarce de religioso! – e, confiando na racionalidade do novo Papa, Urbano III, outrora seu amigo, foi para a capital do papado para ser finalmente julgado pela Inquisição e sucumbiu à humilhação de se declarar arrependido por ter defendido que a Terra gira em torno do Sol. Tormento e prisão eram a alternativa. Não há leitura mais triste do que a do texto da declaração que ele assinou para exonerar-se de ter sido forçado a mentir: “Eu, Galileu Galilei […], com setenta anos, julgado pessoalmente por este tribunal, e ajoelhado diante de Vós, Eminentes e Reverendíssimos Cardeais, Inquisidores Gerais da República Cristã contra as depravações heréticas [eu abjuro] a falsa opinião de que o Sol é o centro imóvel do universo, e que a Terra não é o centro do universo e se move … ”. Também gosto de imaginar que em algum momento o teria acompanhado, que teria escutado suas reflexões posteriores, em seu confinamento forçado pela “graça” da Inquisição em sua cidade de Arcetri, quando seus olhos mal recebiam luz , e onde ele morreu.

Ah, e não me esqueço de que não respondi à pergunta de que tempo e lugar eu gostaria de viver. Eu vou fazer isso em breve.

Ciências,Cálculps,Matemática,Blog do Mesquita

A influência mútua que existe entre arte e matemática

Ilustração: Linoca Souza
Reprodução do Blog Ciência Fundamental, da Folha de S.Paulo:
Por Edgard Pimentel

O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo

A matemática tem inspirado e favorecido a arte. Perspectiva, proporção e simetria, por exemplo, são fundamentais nas artes plásticas. E o cravo foi bem temperado com uma boa pitada matemática. As bandeirinhas de Volpi, os azulejos de Athos Bulcão, o cubismo… Mas, e o contrário? Será que a arte inspira a matemática?

Vem do outro lado do Atlântico uma evidência da conexão entre arte e matemática. Segundo Fernando Pessoa, “o binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo”, só que as pessoas não se dão conta disso. Aqui, a arte empresta seus ideais como uma seta que aponta para beleza do objeto matemático. Mas talvez se possa ir adiante.

Em 1954, o Congresso Internacional de Matemáticos (ICM, International Congress of Mathematicians) ocorreu em Amsterdã. Do programa constava uma exposição de Escher, cuja obra tem caráter fortemente geométrico. Basta ver suas escadas finitas que parecem sempre subir. Ou o revestimento de um plano com uma única figura (e.g. um peixinho alado) por meio de transformações matemáticas, sem deixar nenhum espaço vazio. O peixinho é uma região fundamental para um grupo de simetria –transformações do peixinho que resultam nele próprio.

Naquele congresso, Escher teve a oportunidade de se aproximar de cientistas como os matemáticos Harold Coxeter e o vencedor do Nobel Roger Penrose, também físico. A troca de cartas com o primeiro o inspirou a finalizar as obras “círculos-limite”: uma mesma figura se replica no interior de um círculo, ficando cada vez menor à medida que se aproxima das bordas.

Mas o contrário também teria lugar: as obras do artista teriam motivado, ao menos em parte, Roger Penrose e seu pai, Lionel Penrose. Em um artigo de 1958, publicado no The British Journal of Psychology, pai e filho discutem ilusões de ótica e a percepção de formas impossíveis. Uma das duas referências do trabalho é o catálogo da exposição de Escher, aquela de 1954.Talvez Escher e seus “parças” sejam uma via de mão dupla para a inspiração entre arte e matemática.

Por outro lado, será que a matemática poderia responder a alguma pergunta importante da arte?

Datar uma obra que não tem registro cronológico é tarefa relevante para a história da arte. Ou entender se, e como, o estilo de um/a artista se alterou com o tempo. E a matemática pode ajudar a desvendar essas questões. Como? Tratando uma pintura como um objeto matemático, uma função. E decompondo essa função em unidades menores. O estudo dessas unidades menores é uma chave que destrava informações sobre o/a artista em questão.

Uma ferramenta muito eficiente nesse sentido são as ondaletas: funções muito especiais que, como o nome sugere, parecem ondinhas, pequeninas e bem-comportadas. E extremamente poderosa – a ponto de o formato JPEG depender delas. Quando uma pintura é analisada por meio de ondaletas, o resultado é um conjunto de números que carregam informações sobre a pintura.

Na década passada, os museus Van Gogh e Kröller-Müller puseram à disposição de um estudo multidisciplinar mais de cem fotografias de alta resolução das obras de Van Gogh. Combinando ondaletas com aprendizagem de máquina, um grupo de cientistas obteve informações surpreendentes. Eles encontraram evidências, por exemplo, de que o número de pinceladas de Van Gogh é maior no período em que ele está em Paris e não em Arles. Uma das pesquisadoras-líder daquele grupo era a matemática belga Ingrid Daubechies.

Em 2018, o ICM aconteceu no Rio de Janeiro. Na ocasião, Daubechies discorreu acerca do estudo das obras de Van Gogh e de outros problemas da arte que motivaram pesquisas matemáticas. Dentre eles, a pesquisadora falou dos desafios por trás da remoção de rachaduras em uma pintura, capaz de revelar um texto de Tomás de Aquino em uma peça dos irmãos Van Eyck.

Arte, matemática e ciência devem ter muito mais em comum do que nos salta aos olhos – afinal, são formas de elaboração do espírito humano. Tomara que haja cada vez mais gente que se dê conta disso.

Mary Somerville, a gênio autodidata que foi declarada ‘rainha da ciência’ e depois caiu no esquecimento

Mary se destacou em uma época em que era ainda mais difícil para as mulheres estudarem ciência

Getty Images
A escocesa Mary Somerville conseguiu, no século 19, um feito impressionante: traduziu obras científicas e escreveu um livro abarcando diversos campos da ciência, explicando de forma simples e compreensível as partes mais complicadas da física, da química, da astronomia.

Autodidata, fez isso em uma época em que era ainda mais díficil para mulheres terem educação científica.

Isso lhe rendeu o apelido de “rainha da ciência” na época, mas sua história hoje em dia não é tão conhecida.

Nascida em 1780, Mary cresceu passeando pelos campos da Escócia, coletando conchas na praia e observando as aves. Sua educação formal se limitava às disciplinas consideradas “femininas” à época: pintura, música e francês.

No entanto, quando foi alfabetizada — aos dez anos —, começou a ler vorazmente centenas e livros e revistas, basicamente tudo o que pudesse encontrar, incluindo peças de Shakespeare.

O incentivo, contudo, não vinha de casa. Seu pai era um oficial naval que passava longos períodos no mar, enquanto a mãe se interessava apenas por textos religiosos.Mary cresceu na Escócia, onde teve muito contato com a natureza – Getty Images

X e Y

Aos 13 anos, em um dos chás que a mãe organizava para reunir as amigas, uma jovem mostrou a Mary o que descreveu como “uma revista com imagens coloridas de vestidos, charadas e quebra-cabeças”.

“No final de uma página, li o que pensei ser uma simples pergunta aritmética”, escreveu a jovem em seu diário.

“Mas, quando virei a página, fiquei surpresa ao ver números misturados com letras, principalmente X e Y, e perguntei: ‘O que é isso?’ ‘Oh’, disse Miss Ogilvie, ‘é uma espécie de aritmética: eles chamam de álgebra'”.

Depois de insistir para que todos os seus “conhecidos ou parentes” explicassem o que era álgebra, finalmente alguém lhe disse que ela poderia aprender com um livro chamado “Euclides“.As revistas estavam entre os materiais de leitura considerados ‘apropriados’ para as damas – Getty Images

A jovem teve que implorar ao tutor do irmão que lhe comprasse o livro, porque na época se considerava que não era “certo” uma mulher ler “esse tipo de coisa”.

Sem deixar de fazer as atividades “corretas para ela”, isto é, tocando piano, pintando e arrumando roupas, Mary se dedicou a estudar álgebra. Ela lia antes de dormir — já que seus pais não viam com bons olhos seus estudos sobre o tema.

Com medo de que ela acabasse “em uma camisa de força”, eles chegaram a tirar a vela que mantinham em seu quarto para impedi-la de ler à noite. No escuro, Mary revisava mentalmente os seis primeiros livros de Euclides até sentir que os sabia de cor.

O primo errado

O casamento de Mary com Samuel Grieg, um primo distante, foi arranjado por seus pais. A união foi desastrosa para sua vida intelectual.

Sobre o marido, escreveu que ele acreditava que as mulheres tinham baixa capacidade intelectual e “não tinha nenhum conhecimento ou interesse em ciência de nenhum tipo”.

O casal foi morar em Londres e teve dois filhos. Grieg morreu em 1808, quando Mary tinha 28 anos.

Após sua morte, ela voltou para a Escócia e, embora estivesse amamentando, tinha muito tempo para retomar seus estudos, conforme escreveu na época.

“Estudei trigonometria plana e esférica, seções cônicas e astronomia de (James) Fergusson.”

O primo certo

Em Edimburgo, Mary finalmente começou a encontrar pessoas com as mesmas afinidades.

Ela ganhou uma medalha de prata por resolver um problema publicado em uma revista de matemática, levantado por William Wallace, que se tornaria o primeiro professor de matemática da Universidade de Edimburgo.

Ele foi um dos matemáticos respeitados com quem ela se correspondia.

Mary também conheceu pessoas com novas teorias sobre o mundo natural, estendeu seus estudos para astronomia, química, geografia, microscopia, eletricidade e magnetismo e usou a herança que recebeu de Grieg para comprar uma biblioteca de livros científicos.

Quando conheceu seu segundo marido, William Somerville, já estava claro que ela era uma pessoa excepcional.

Somerville também era seu primo e médico, mas, diferentemente de Grieg, tinha uma mente curiosa e estava encantado por ter encontrado uma esposa tão inteligente.

Ele e seus pais incentivaram a pesquisa científica de Mary.Os Somerville frequentavam o Royal Institution, fundado em 1799 para difundir o conhecimento – Getty Images

Eles viveram primeiro em Edimburgo e depois em Londres, e estavam bem conectados com a vibrante cena intelectual da época: eram amigos do pioneiro da computação Charles Babbage, do astrônomo John Herschel, do polímata Thomas Young, que trabalhou com temas tão variados quanto a teoria das ondas de luz ou os hieróglifos.

Finalmente, Mary estava em seu lugar.

Renascimento

Ela teve outros quatro filhos e, enquanto os criava, começou a conduzir seus próprios experimentos sobre luz e magnetismo e a publicar seus próprios artigos científicos.

Os Somervilles viviam no centro de todos os tipos de evento científico e assistiam a conferências da Royal Institution, onde cientistas como Michael Faraday, Alexander Von Humbolt e Humphry Davy conversavam com Mary como iguais. Ela foi nomeada membro honorário da Royal Astronomical Society.

E foi nesse momento que Henry Brougham, um político reformista que havia fundado uma “sociedade para espalhar conhecimentos úteis”, conseguiu um emprego para o qual Mary seria a candidata ideal.

Eles se conheceram em Edimburgo e Brougham não a esqueceu.

Com seu francês fluente e profundo conhecimento de matemática, Mary foi contratada para traduzir o livro que foi aclamado como a maior conquista intelectual desde da descoberta da gravidade por Isaac NewtonMecânica Celeste, do matemático e astrônomo Pierre-Simon Laplace.Mary traduziu o livro de Pierre-Simon Laplace para o inglês
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Mary tinha 51 anos e sua grande carreira como escritora científica best-seller estava prestes a começar.

Mais do que traduzir, explicar

Mary aceitou a proposta de Brougham com a condição de que a sua tradução fosse destruída se ficasse horrível.

“É claro que não ficou”, disse à BBC News Kathryn Neeley, professora de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade da Virgínia e autora do livro Mary Somerville e o Mundo da Ciência.

“Ela era uma das poucas pessoas com conhecimento suficiente para explicar não apenas o que Laplace havia realizado, mas também a série de desenvolvimentos científicos que tornaram isso possível.”

O trabalho necessário não era exatamente uma tradução, mas uma interpretação para tornar o texto compreensível. Uma vez convencido da verdade de um resultado, Laplace tendia a não se dar ao trabalho de explicar o assunto em detalhes.

“Outro tradutor de Laplace havia dito que quando viu a frase ‘está claro’ no texto, ele sabia que tinha horas de trabalho pela frente para entender o que ele quis dizer”, diz Neeley.

“Além disso, era impossível entender o livro sem saber o que precedeu seu trabalho, então Mary começou com uma dissertação magistral – como foi descrita na época – que sintetizava tudo o que acontecera na astronomia física até aquele momento.”A análise que Mary Somerville fez sobre os desvios na órbita de Urano foi a origem da investigação do astrônomo John Couch Adams que levou à descoberta de Netuno em 1846 por Johann Galle e Urbain Le Verrier.
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“A visão de mundo que emergiu no livro de Laplace da astronomia física era deslumbrante.”

“O escopo (do que foi apresentado no livro) o conectou à ciência sublime, a ideia de que, através da Ciência, encontramos uma natureza fantástica e bela”.

Mas tudo isso ficaria preso nas páginas, a menos que a pessoa que traduzisse o trabalho não apenas entendesse as palavras, mas também os conceitos, e pudesse comunicá-las.

Para Lord Brougham, uma das poucas pessoas com essas habilidades era Mary. E ele não estava errado.

Desenhando mundos desconhecidos

Neeley ressalta que um dos talentos de Mary era a pintura.

Isso lhe permitiu desenhar com suas palavras mundos que os leitores não tinham visto, desde o primeiro trabalho, sobre o espaço sideral, até o último, Da Ciência Molecular e Microscópica (1869), que coletou as descobertas mais recentes reveladas pelo microscópio.

Desde sua primeira publicação, Mary tornou-se famosa. Primeiro ficou conhecida entre especialistas. Depois, com seus próximos livros – que não eram apenas traduções, mas textos de sua autoria – ficou cada vez mais famosa entre leitores amantes da ciência.

Seu maior sucesso de vendas foi Geografia Física, publicado em 1848, no qual, dizia ela, seguiu “o nobre exemplo do Barão Humboldt, o patriarca da geografia física”, e adotou uma visão ampla da geografia.

O trabalho incluía a Terra, seus animais, plantas e “as condições atuais e passadas do homem, a origem, os comportamentos e as línguas das nações existentes e os monumentos daqueles que não existem mais”.Mary também publicou trabalhos sobre geografia – Getty Images

O livro lhe rendeu a Medalha Victoria de Ouro da Sociedade Geográfica Real e a admiração de Humboldt, que a escreveu elogiando sua originalidade.

Ninguém teria previsto que Mary Somerville iria tão longe, dadas as condições em que ela cresceu.

Felizmente, ressalta Neeley, ela não era apenas um gênio, mas vivia numa época em que começava a reconhecer a ciência “como um fórum de conhecimento distinto, como uma fonte cultural comum, na qual valia a pena se especializar”.

“As ciências não eram disciplinas ensinadas nas universidades na época em que ela escreveu A Conexão das Ciências Físicas (1834). E era frequente que, nas áreas que estavam surgindo, houvesse espaço para as mulheres”, acrescenta.

“Se ela tivesse tentado participar ativamente alguns anos depois, teria sido muito mais difícil, porque, uma vez solidificada, a Ciência deixou de ser aberta ao seu gênero.”

A rainha

Mary e William Somerville se mudaram para a Itália quando ele se aposentou de seu trabalho como médico no Hospital Chelsea em 1840. Vinte anos depois, William morreu.

A intelectual apoiava causas liberais, como a campanha para as mulheres poderem votar, e uma educação de boa qualidade para as meninas.

E continuou escrevendo.

Com a ajuda de suas filhas, compilou sua autobiografia e pediu aos filhos que ela fosse publicada postumamente.Em um desfile em 1911 em que sufragistas se vestiram como mulheres famosas, uma delas foi de Mary Somerville – Getty Images

Mary viveu até 1872.

Nos seus últimos dias, ela escreveu: “Tenho 92 anos, minha memória para eventos comuns é fraca, mas não para experiências matemáticas ou científicas. Ainda sou capaz de ler livros de álgebra superior por quatro ou cinco horas pela manhã e até de resolver problemas “.

Em seu obituário, o jornal The Morning Post declarou: “Embora tenhamos dificuldade para escolher um rei da ciência em meados do século 19, não há dúvida sobre quem é a rainha”.

Em 1879, o Somerville College da Universidade de Oxford foi nomeado em sua homenagem.

Mas, com o tempo, sua contribuição para a ciência foi quase esquecida. É muito comum que a fama seja dada às pessoas que fazem descobertas, não àquelas que conseguem comunicar brilhantemente essas realizações ao público.

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Os bioterroristas podem sequestrar sistemas de DNA e induzir os cientistas a produzir toxinas mortais, alerta novas pesquisas explosivas

Pesquisadores de cibersegurança estão soando o alarme sobre uma nova e particularmente desagradável ameaça de hackers: um ataque ciber-biológico híbrido no qual biólogos desavisados ​​são induzidos a fabricar toxinas mortais.

Em um novo artigo publicado na revista Nature Biotechnology, pesquisadores cibernéticos da Universidade Ben-Gurion de Negev, de Israel, sugerem que hackers e bioterroristas inescrupulosos podem sequestrar os sistemas amplamente automatizados usados ​​para produzir DNA sintético para experimentos de laboratório.

Ao injetar sub-repticiamente malware no código dos sistemas, esses malfeitores poderiam substituir uma substring de DNA no computador de um cientista – com consequências potencialmente mortais.

Além disso, os bioterroristas poderiam teoricamente comprar DNA perigoso de empresas que não rastreiam de perto as origens dos pedidos, tornando o fornecedor de DNA um cúmplice involuntário de um ataque químico ou biológico.

“Para regular a geração intencional e não intencional de substâncias perigosas, a maioria dos fornecedores de genes sintéticos rastreia pedidos de DNA, que atualmente é a linha de defesa mais eficaz contra esses ataques”, disse Rami Puzis, chefe do Laboratório de Análise de Redes Complexas da universidade.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA emite orientações para provedores de DNA, mas os pesquisadores israelenses descobriram que os protocolos de triagem para quem compra DNA são vulneráveis ​​a técnicas de ofuscação empregadas por hackers, permitindo-lhes inserir DNA produtor de toxinas em solicitações que devem ser rejeitadas imediatamente .

“Usando essa técnica, nossos experimentos revelaram que 16 das 50 amostras de DNA ofuscado não foram detectadas quando selecionadas de acordo com as diretrizes do HHS‘ best-match ’”, diz Puzis.

Os pesquisadores destacam uma facilidade preocupante de acessibilidade a sistemas automatizados vulneráveis ​​usados ​​na esfera da engenharia genética sintética, devido às defesas de segurança cibernética deficientes.

Eles propõem algoritmos de triagem aprimorados, protegendo especificamente o trabalho de edição de genes in vivo no laboratório, para evitar que tais ataques de injeção de DNA jamais ocorram.

“Você queimará no inferno!”: O caso do professor condenado por ensinar a teoria de Darwin

Há 95 anos, o professor de biologia John Thomas Scopes foi preso e acusado de ter ensinado “uma teoria que nega a história da Criação Divina do Homem, conforme explicado na Bíblia”.

O processo foi um escândalo e eles chamaram de “The Monkey Trial“. Foi uma batalha entre fé e ciência, quatro séculos após os incêndios da Inquisição e quase três séculos após a punição de Galileu Galilei.

John Thomas Scopes era um professor de biologia de 24 anos que queria ensinar aos alunos a teoria de Darwin em 1925 (Wikipedia: Smithsonian Institute)

“Quem cria perturbações em sua casa herdará o vento, e o tolo se tornará servo dos sábios de coração” (Livro de Provérbios 11:29, palavras do rei Tiago)

Como todos os dias em junho, Dayton, Tennessee, duas mil almas, acordaram naquela segunda-feira em 1925, envoltas em um vapor de chumbo derretido.

Às dez da manhã, o professor John Thomas Scopes, de 24 anos, professor de biologia, álgebra, química e física, exibiu uma imagem mostrando a evolução no quadro de sua sala de aula na Rhea Country Central High School, do homem de um pequeno macaco que se arrastava em seus quatro membros para um espécime maior, ereto e errante, de semelhança evidente e indiscutível com um ser humano.

Mesmo assim, semelhante a qualquer um dos habitantes de Dayton, embora muitos deles, a partir daquele dia, parecessem duvidosamente homo sapiens. Especialmente para a segunda palavra …

Quase sete décadas antes, em 1859, o cientista e naturalista inglês Charles Robert Darwin (1802–1889) sacudiu a colméia humana com seu livro A Origem das Espécies, que postulava evolução e seleção natural – adaptação ao ambiente, sobrevivência da natureza. mais forte – como uma chave para o quanto o ser vivo nasceu, cresceu, se reproduziu e morreu no planeta Terra.

Inconscientemente, os inocentes escopos naquela manhã violaram a Lei Butler, que considerava “ilegal em qualquer estabelecimento educacional no estado do Tennessee qualquer teoria que negasse a história da Criação Divina do Homem, conforme explicado na Bíblia, e a substituísse pela ensinando que o homem descende de uma ordem inferior de animais “.

Três dias depois, Scopes estava na prisão e o banco do acusado estava esperando por ele. Mas ninguém, no desconhecido Dayton e no mundo, imaginou que essa classe e aquela imagem eram o começo de um furacão.

O julgamento colocou dois advogados importantes: William Jannings Bryan, três vezes candidato à presidência – e um fanático religioso – na acusação, e uma estrela do seu tempo, Clarence Darrow, na defesa, notória por suas vitórias sobre casos perdidos anteriormente. Quase um mito do fórum.

O julgamento começou em 10 de julho de 1925 sem que o verão brutal desse trégua. Já em tribunal, e contra os rígidos costumes da época, os dois advogados obtiveram permissão do juiz do caso, John Raulston, para remover seus casacos e receber, do preguiçoso e antigo ventilador de teto, uma lâmina de ar …

O Juiz que enfrentou outro problema inicial e não um problema menor. Apoiado, como quase todas as pessoas, William Bryan, concedeu a ele o título de coronel honorário da milícia local. O que menos para o cavaleiro cruzado que defenderia a Palavra Sagrada contra o ateísmo diabólico semeado por Scope na sala de aula e nas almas de seus alunos?

É claro que Darrow protestou:

–Por que esse privilégio? Para o júri e o público, o “coronel” Bryan é alguém superior ao seu rival. Aumenta, ao mesmo tempo que diminui minha figura.

O juiz hesitou por alguns minutos antes da discussão irrefutável e retirou da galeria a lenda do rei Salomão e das duas mulheres que alegavam ser criança:

-Bem. Então, à minha direita, também nomeio Coronel Honorário da milícia local … Advogado Darrow!

E reinou (embora por pouco tempo), a paz …

Lá fora, enquanto isso, as ruas e praças se tornaram um circo. Os gritos dos vendedores de sorvete e limonada foram confundidos com as hosannas e aleluias dos místicos, os insultos contra Scopes e Darrow … “enviados do diabo!”, Os cânticos religiosos em coro e a agitação de pôsteres com macacos pintados de forma grosseira. e a lenda “Este não é meu pai”. Alguém até se atreveu a andar enjaulado, um pobre macaco açoitado pelos gritos e pelo calor …

Dadas as notícias incomuns – não havia esse antecedente na história do país -, um jornal de Nova York nomeou um enviado especial para escrever sobre o caso e transmitir por telefone cada instância do processo, que do outro lado do país. e conectada a um alto-falante, alcançou o público – cada vez mais numeroso – reunido na rua.

Até então, o caso Scopes, já batizado e entrando na história como “O Julgamento do Macaco”, era uma guerra sem um possível armistício entre aqueles que acreditavam serem filhos da evolução e os criacionistas, que se recusavam a admitir que haviam partido ” de um lago imundo, um caldo fedorento de insetos e vermes, e não das mãos doces de Deus, nosso senhor ”, como uma das testemunhas se ouviu dizer.

Em 10 de julho de 1925, o julgamento começou com o advogado William Bryan – sentado no centro atrás dos microfones – e com o réu John Thomas Scopes.

Na realidade, o julgamento foi uma farsa, uma armadilha armada para derrotar Darrow, “o maior ateu do país” (um novo título adquirido durante os debates) e demonizar o mestre com faixas furiosas: “Escopos, você queimará no inferno!” .

O juiz foi um cúmplice absoluto dos criacionistas. Proibiu a aparência de cientistas, biólogos, geólogos e todos os especialistas apresentados pela defesa, enquanto a multidão – trezentos por dentro, mais de mil por fora – aplaudia o nome de Deus.

Mas Darrow, também um defensor dos pobres, trabalhadores, homossexuais, vítimas do poder, levou seu último ás na manga:

–”Muito bem, Bryan.” Então vamos jogar em seu campo.

E, para surpresa de todos, ela o chamou para o stand.

–Você é especialista na Bíblia?

–Absolutamente. Eu conheço cada uma de suas palavras.

–Em caso de dúvida, o que você faz?

–Pergunto ao Senhor, e ele me responde.

–Senhores … Deus fala com Bryan! Eu apresento a você o profeta de Nebraska!

Houve algumas risadas …

– Tudo o que diz que a Bíblia deve ser interpretado literalmente?

-Assim é.

–(Mostrando lhe un objeto) Quantos anos tem essa pedra? A ciência diz que alguns milhões de anos …

–Não estou interessado na idade das rochas, mas na Rocha das Eras. Mas é impossível. Tem menos de seis mil anos, porque o bom bispo James Usher marcou a data da criação: 23 de outubro de 4004 aC às nove da manhã.

“Hora leste ou oeste?”

Mais risadas na sala.

– Aquele primeiro dia teve 24 horas?

–A Bíblia diz que foi um dia.

–Mas era impossível medir o tempo. Um dia de vinte e quatro horas, trinta, um mês ou milhões de anos?

-Não sei. Foram períodos.

– Eles poderiam durar muito tempo?

-Talvez…

Darrow viu a luz do triunfo. Ele perguntou a seu rival se era possível, de acordo com a Bíblia, que o sol tivesse parado.

–Se o Senhor queria que ele parasse, Ele parou.

“Mas, se o fizesse, os mares teriam enlouquecido e até as montanhas teriam colidido.” Como essa catástrofe escapou de você? Por que a Bíblia não menciona isso?

O duelo entre os dois advogados – amigos por muitos anos – continuou a favor de Darrow com perguntas sobre a lenda de Jonah e a baleia, o dilúvio universal e outros mistérios de resposta impossível. Em uma sala provisória, Bryan deixou o posto. Ele era diabético, comia com a fome de um náufrago e, já que para os criacionistas ele era o campeão de Deus na Terra, eles o convidavam para festas constantes e festas que agravavam sua condição.

O julgamento foi um escândalo e nas ruas as pessoas gritaram “Você queimará no inferno!”
Na terça-feira, 25 de julho de 1925, Scopes foi considerado culpado por um júri de maioria absoluta criacionista. Mas, na ausência de um registro – foi o primeiro caso desse teor – ele não foi para a prisão. Ele foi punido com uma multa de cem dólares, depois reduzido … para apenas um dólar. Com um final triste. Cinco dias depois, domingo, Bryan foi dormir e dormiu até a morte.

O caso era grande demais e atravessava fronteiras: nos últimos estágios do julgamento havia jornalistas europeus e norte-americanos. Era difícil entender uma luta semelhante entre fé e ciência … 472 anos após as primeiras fogueiras da Inquisição contra “hereges, feiticeiros, feiticeiros”, 292 do julgamento contra Galileu Galilei por apoiar a teoria de Copérnico (“A Terra gira em torno do Sol” ) e 242 dos vinte enforcados em Salem, Massachusetts, por “bruxaria e relações com Lúcifer”.

Scopes continuou a ensinar até sua morte em 1970. Ele foi enterrado na Louisiana com o rito católico à vontade de sua esposa e dois filhos. Porque esse era o paradoxo. Em Dayton, aquela pequena cidade do sul, nunca houve um conflito entre crentes e ateus antes. Todos, quase sem exceção, eram devotos do Senhor, além das nuances entre mórmons, testemunhas de Jeová, episcopalianos, adventistas etc. O próprio Scopes, o pelourinho de bode expiatório por exibir uma imagem da evolução, era cristão, assim como o grupo de estudantes que o defendiam e era marginalizado pelo fanatismo cego dos demais.

O que foi apenas um mal-entendido em uma cidade pequena, terminou em um grande grotesco, mesmo com episódios de violência: paus, pedras e punhos dos inimigos de Darwin – mesmo que oitenta por cento das almas de Dayton desconheciam sua existência – contra os “demônios” evolutivos.

As surpreendentes semelhanças entre o coronavírus e a peste bubônica

Novas pesquisas da Universidade de Barcelona analisam os paralelos entre a atual pandemia e a doença que varreu o Império Bizantino, há 1.500 anos

A pandemia se originou em uma terra estrangeira e se estendeu rapidamente por todos os portos onde os passageiros infectados chegaram – assintomáticos ou não. Não havia cura médica disponível para detê-lo, todos os moradores estavam confinados em suas casas para evitar contágio, a economia parou, o exército foi colocado nas ruas, os médicos exaustos se esforçaram até os ossos e havia milhares de vítimas cujos corpos ficaram sem enterro “por dias a fio, porque escavadores não podiam trabalhar rápido o suficiente …”

Este não é um relato da pandemia de coronavírus de 2020. É a crônica fornecida pelo historiador Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que ocorreu no mundo conhecido entre 541 e 544, sob o imperador bizantino Justiniano I. A doença varreu vasto território, da China às cidades portuárias da Hispânia, como os romanos chamavam de Península Ibérica.

PROCÓPIO HISTÓRIADOR DE CAESAREA
Um novo estudo chamado La Plaga de Justinià, Segons el Testimoni de Procopi (ou A praga de Justiniano segundo o testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, ​​acrescenta nova relevância a esse conto antigo escrito 1.500 anos atrás.

“A partir de 1º de abril de 2020, certas semelhanças e paralelos observados no comportamento humano em relação a um vírus e suas conseqüências parecem tão familiares e contemporâneas que, apesar da tragédia que todos estamos enfrentando pessoalmente, permanece uma fonte de espanto como a história se repete. , Escreve este arqueólogo e historiador Sales Carbonell, que trabalha no Instituto de Pesquisa de Cultura Medieval da universidade.

No ano de 541, sob o governo bizantino Justiniano, houve um surto de peste bubônica no império. “O alarme soou no Egito, de onde a infecção se expandiu rápida e letalmente.” Procópio refletiu isso em seu livro History of the Wars, onde contou as campanhas militares de Justiniano na Itália, norte da África e Hispânia, e como os soldados espalharam a doença pelos portos em que pararam – fundamentalmente na Europa, norte da África, Império Sasaniano (Pérsia). ) e de lá até a China.

Como consultor jurídico de Belisarius, principal comandante militar de Justiniano, Procópio acompanhou as campanhas deste último e, assim, tornou-se uma “testemunha privilegiada” dos efeitos de uma pandemia que passou a ser conhecida como a Praga de Justiniano.

Continua sendo uma fonte de espanto como a história se repete.

“Surgiu uma epidemia que quase aniquilou toda a raça humana e é impossível encontrar uma explicação com palavras, nem mesmo com pensamentos, exceto para atribuí-la à vontade de Deus”, escreveu Procópio. “Essa epidemia não afetou uma porção limitada da Terra, nem um conjunto específico de homens, nem foi reduzida a uma estação específica do ano […], mas se espalhou e atacou toda a vida humana, não importa quão diferente os indivíduos podem ser, sem levar em conta a natureza ou a idade. ” A doença atingiu “todos os cantos do mundo, como se tivesse medo de perder um lugar”.

Um ano após a primeira detecção, a praga atingiu a capital do império, Bizâncio (atual Istambul), devastando-a por quatro meses. “Houve confinamento e isolamento completos”, escreve Sales Carbonell em seu estudo. “Era absolutamente obrigatório para pessoas doentes. Mas havia também um tipo de autocontrole espontâneo e intuitivamente voluntário, amplamente motivado pelas circunstâncias. ”

“Não foi nada fácil ver alguém em espaços públicos, pelo menos em Bizâncio; em vez disso, todos que estavam saudáveis ​​estavam em casa, cuidando dos doentes ou chorando por seus mortos ”, escreveu Procópio.

Enquanto isso, a economia estava em queda livre. “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todo o trabalho que estavam fazendo.” Ao contrário de hoje, no entanto, as autoridades não conseguiram garantir o fornecimento de serviços essenciais. “Parecia muito difícil obter pão ou qualquer outro tipo de alimento, de modo que, no caso de alguns pacientes, o fim de sua vida foi sem dúvida prematuro devido à falta de itens essenciais”, escreveu Procópio em History of the Wars.

“Muitos morreram porque não tinham ninguém para cuidar deles”, acrescentou. Os cuidadores da época “caíram de exaustão porque não conseguiam descansar e estavam sofrendo constantemente. Por causa disso, todos sentiram mais pena deles do que dos doentes.”

Patrulhas nas ruas

À luz da situação desesperadora, o imperador enviou grupos de guardas do palácio para patrulhar as ruas e os corpos de pessoas que morreram sozinhos foram enterrados às custas dos cofres imperiais, escreveu o historiador. Até o próprio Justiniano foi vítima da peste, mas a superou e continuou a reinar por mais de uma década.

Os picos de mortalidade aumentaram de 5.000 para 10.000 vítimas por dia e mais, de modo que, “embora, a princípio, todos cuidassem de seus mortos em casa, o caos se tornou inevitável e cadáveres também foram jogados dentro dos túmulos de outros, furtivamente ou usando violência. ” Com o tempo, os corpos começaram a se acumular dentro das torres e não havia serviços funerários para eles.

Quando a pandemia finalmente terminou, uma coisa positiva surgiu.

“Os que apoiaram as várias facções políticas abandonaram as acusações mútuas. Mesmo aqueles que haviam sido dados anteriormente a atos baixos e maus abandonaram todo o mal em suas vidas cotidianas, porque necessidades imperiosas os fizeram aprender sobre a honestidade ”, escreveu Procópio.

“Esse elemento da poesia oferece um pouco de esperança de que talvez possamos superar isso e não tropeçar novamente na mesma pedra”, diz Sales Carbonell, parecendo mais esperançoso do que certo de si mesma.

Em todo o mundo em 6 objetos artesanais extraordinários

Cobra Azteca

Faz parte de um peitoral de duas cabeças em forma de cobra, feito de madeira de cedro e coberto com mosaico de conchas de ostras espinhosas turquesas e vermelhas. Os dentes nas duas bocas abertas também são casca de molusco.

Estes, e os que temos abaixo, são alguns dos trabalhos escolhidos por Neil MacGregor, diretor do Museu Britânico, para contar “Uma história do mundo em 100 objetos” e nos levar a uma jornada ao redor do mundo e no tempo.

Cada um evoca histórias fascinantes, sejam elas ferramentas mundiais ou obras de arte, todas feitas por mãos humanas em algum momento da história.

E agora que muitos de nossos encontros com o mundo exterior precisam ser virtuais, convidamos você a visitar o Egito antigo e o Império Romano, vislumbrar os tesouros da Turquia, prestar homenagem a um deus maia e se maravilhar com um capacete havaiano.

1. Moeda de Croesus (~ 550BC)
Mais de 2.500 anos atrás, o rei Croesus governou Lydia, um próspero reino no oeste da Turquia, de onde algumas das primeiras moedas do mundo entraram em circulação.

Embora as moedas feitas de eletro (uma mistura de ouro e prata) datem de cerca de um século antes do reinado de Croesus, acredita-se que os lidianos sejam as primeiras pessoas a usar uma moeda bimetálica.

O rio do qual os lidianos obtiveram o metal para suas moedas é aquele em que o rei Midas supostamente “lavou” sua capacidade de transformar em ouro tudo o que tocava.

O leão, um símbolo da realeza, e o touro foram esculpidos nesta linda moeda brilhante com um martelo.

2. Sino de bronze chinês (~ 500 aC)

Este sino de bronze intricadamente decorado é conhecido como bo, e é um instrumento muito sofisticado: levou um milênio inteiro para que sinos desse tamanho aparecessem na música ocidental.

Seu cabo tem a forma de dois dragões, e o corpo do instrumento é adornado com dragões que engolem gansos.

As duas notas produzidas por este bo teriam sido ouvidas na China há cerca de 2.500 anos atrás, e sua música pode até ter sido ouvida por contemporâneos do filósofo político chinês Confúcio.

A China da época era definida por distúrbios e fragmentação política, mas no meio dessa cacofonia, a mensagem de Confúcio era de paz e harmonia, a ser alcançada retornando aos valores tradicionais da virtude.

Confúcio não era apenas um filósofo de renome, ele também era um músico e sentia firmemente que o desempenho da música poderia alcançar a harmonia que ele queria ver na sociedade.

3. A pedra de Roseta (196 aC)

Copyright da imagem © OS TRUSTES DO MUSEU BRITÂNICO
Embora esse pesado pedaço de rocha cinza possa não ser muito atraente para os olhos, a Pedra de Roseta é sem dúvida um dos objetos mais famosos e controversos do Museu Britânico.

Está inscrito um decreto para marcar o status de deus do rei Ptolomeu V no primeiro aniversário de sua coroação em 196 a.C., quando ele tinha 13 anos.

Sendo tão jovem, Ptolomeu estava à mercê de seus sacerdotes, a quem apaziguava com alguns benefícios muito lucrativos, também imortalizados na pedra. Com certeza, ele estabeleceu seus incentivos fiscais.

Embora não seja uma leitura empolgante, o fato de o texto ter sido transcrito para três idiomas: grego, hieróglifos e egípcio demótico (o idioma do dia a dia) é extremamente significativo. O grego era a língua oficial da administração do estado, e permaneceu assim por um milênio.

Nos 500 anos seguintes, a linguagem sacerdotal dos hieróglifos deixou de ser usada, e essa antiga linguagem egípcia tornou-se incompreensível.

A presença do grego, que os estudiosos podiam ler, permitiu a interpretação dos hieróglifos, quando a pedra foi escavada durante a campanha de Napoleão no Egito.

O estudioso francês Jean-François Champollion percebeu que todos os hieróglifos eram pictóricos e fonéticos (eles funcionavam como imagens e sons), e ele finalmente decifrou a pedra de Roseta, tornando acessível o idioma do Egito Antigo pela primeira vez.

4. Estátua Maia do Deus do Milho (~ 700 dC)

Quando as civilizações se tornaram dependentes da agricultura, há cerca de 9.000 anos, surgiram histórias de novos deuses: deuses que garantiam o ciclo das estações e o retorno das colheitas, e deuses da própria comida.

Esta estátua em particular é um deus do milho, uma cultura básica americana que floresceu quando a carne era escassa.

Para os maias, o milho tinha propriedades sagradas, pois os deuses acreditavam ter usado massa de milho para fazer seus antepassados ​​à mão.

No entanto, essa colheita prontamente disponível e adaptável foi um pouco branda, então os agricultores aprenderam rapidamente a cultivar pimentas saborosas para adicionar um pouco de sabor aos carboidratos opacos.

Acredita-se que esta bela estátua de calcário tenha 1.300 anos.

O busto é adornado com um toucado de espiga de milho. Sua cabeça enorme nem pode pertencer ao corpo, pois as estátuas do templo caíram e foram reconstruídas novamente.

Ele agora reside no Museu Britânico, mas foi encontrado nas ruínas de um templo de pirâmide em Copán, uma das principais cidades maias das atuais Honduras.

5. Pimenteira

 

 

Essa linda, ainda que surpreendida, mulher de prata é, de fato, uma pimenteira.

Descrita por Neil MacGregor como “um pouco de kitsch para os ricos”, a própria figura pode ter sido baseada em um rico aristocrata romano tardio, o tipo de mulher que usaria uma pimenteira.

Escavado de um local em Suffolk, Inglaterra, como parte do tesouro Hoxne, este utensílio ornamentado representa um caldeirão de culturas.

Seus proprietários viviam no final do domínio romano na Grã-Bretanha, quando os romanos se misturaram e até se casaram com os nativos. Os moradores se esforçaram para se comportar como os romanos, de suas escolhas de moda à comida que comiam.

Os romanos eram admiradores de comida e o tempero chave em seu arsenal era pimenta.

Mas esse tempero cobiçado não cresceu na Inglaterra, nem mesmo na Europa; os romanos o importaram da Índia.

Estima-se que um navio carregado de pimenta valha 7 milhões de sestércios. Para se ter uma idéia de quão caro era, na época, um soldado romano ganhava cerca de 800 sestércios por ano.

6. Capacete de penas havaianas (1778)

Este impressionante capacete vermelho e amarelo foi apresentado ao capitão Cook, ou a uma de sua tripulação, em 1778, quando ele e seus homens se tornaram os primeiros europeus a visitar o Havaí.

Adornado com as vibrantes penas de milhares de pássaros de gengibre, este capacete provavelmente teria sido usado pelo chefe havaiano de mais alto escalão para se comunicar com os deuses.

Os pássaros eram vistos como mensageiros espirituais, e suas penas eram pensadas para fornecer proteção e poder, de modo que a doação deste capacete teria sido uma grande honra.

Cook passou um período feliz no Havaí consertando seu navio e mapeando a ilha, mas um mês depois de embarcar em sua jornada para o norte, uma tempestade o forçou a voltar.

Dessa vez, os habitantes locais foram menos acolhedores quando entraram na temporada dedicada ao deus da guerra. Eles roubaram um dos barcos de Cook, que, na tentativa de negociar seu retorno, planejava manter um dos chefes, mas um combate corpo a corpo estourou e Cook morreu.

China cria um sistema de comunicação quântica desde o espaço, impossível de ser espionado

País transmite chaves secretas de um satélite para duas estações terrestres separadas por mais de 1.000 quilômetros, 10 vezes mais do que o alcançado antes.

Estação terrestre chinesa se comunica com o satélite de comunicação quântica ‘Micius’.J.-W. PAN/USTC/APS

A China acaba de mostrar seu poderio tecnológico com um marco que tem grandes implicações geoestratégicas: a pulverização do recorde de distância da comunicação quântica. Uma equipe de cientistas do país asiático anunciou nesta segunda-feira a primeira transmissão simultânea de uma mensagem criptografada com tecnologia quântica, enviada de um satélite espacial para dois telescópios terrestres separados por 1.120 quilômetros, uma distância cerca de dez vezes maior do que a alcançada até então.

Os fenômenos quânticos se originam em escalas microscópicas, mas podem ter efeitos significativos no mundo visível. Duas partículas podem estar entrelaçadas de tal modo que o que acontece com uma aconteça com a outra instantaneamente, mesmo se estiverem separadas por bilhões de quilômetros. Se alguém tenta observar essas partículas durante sua transmissão, seu estado muda e o entrelaçamento é rompido. Essa propriedade permite criar um sistema de comunicação teoricamente impossível de ser violado ou hackeado porque a mera observação por parte do espião destrói a mensagem.

Há anos, China, Europa e Estados Unidos planejam desenvolver redes de comunicação quântica para enviar mensagens oficiais ou estabelecer sistemas de segurança cibernética em instalações estratégicas.

Em um estudo publicado hoje na Nature, cientistas chineses detalham a transmissão de uma chave secreta escrita com pares de fótons ―partículas de luz― entrelaçados. Os fótons são emitidos pelo satélite Micius, que orbita a 500 quilômetros da Terra, para duas instalações terrestres construídas com essa finalidade específica nas cidades de Delingha e Nanshan, separadas por 1.120 quilômetros. O uso de um satélite é crucial, já que a transmissão dessas mensagens usando fibra ótica perde muitos fótons, de tal forma que seriam necessários repetidores a cada 100 ou 150 quilômetros aproximadamente. E um repetidor, com todos os seus componentes mecânicos, pode ser hackeado.

Cada bit de informação é codificado usando dois fótons entrelaçados. Desta vez, os chineses mostram a transmissão segura de uma chave secreta de 372 bits. A chave pode ser usada para decifrar uma mensagem criptografada que pode ser transmitida por qualquer outro meio, incluindo Internet e telefonia.

Em seu trabalho, pesquisadores chineses puseram seu sistema à prova de diferentes tipos de ataques e mostraram que é seguro. A velocidade e a eficiência são 100 bilhões de vezes maiores que às da fibra óptica terrestre. “Nosso trabalho lança as bases para uma rede global de comunicação quântica”, destacam os responsáveis ​​pelo estudo.

“Ninguém conseguiu fazer isso a uma distância tão grande”, destaca Juan José García-Ripoll, especialista em comunicação quântica do Conselho Superior de Pesquisa Científica (CSIC), da Espanha. “Este não é um protocolo novo, mas conseguiram algo único do ponto de vista técnico. A China está à frente neste campo”, afirma.

O país passou anos investindo grandes somas de dinheiro em novas tecnologias de comunicação quântica, tanto espaciais como terrestres. Nesta última já havia conseguido conectar Pequim e Xangai com uma rede de fibra óptica para a transmissão de chaves quânticas. Além disso, a China alcançou recordes anteriores em comunicação espacial, como a transmissão em 2017 de uma chave quântica que permitiu manter uma teleconferência não passível de ser hackeada entre Viena e Pequim, a mais de 7.000 quilômetros de distância, também usando o satélite Micius.

“A diferença é que, neste caso, o satélite agiu como uma caixa-forte que guarda a chave enquanto se move do ponto A para o B e, durante esse período, é vulnerável à espionagem”, explica Valerio Pruneri, pesquisador do Instituto de Ciências Fotônicas, em Barcelona. Pruneri é o contato na Espanha da rede internacional de países europeus que está há pouco mais de um ano dando forma a um grande projeto da União Europeia para criar em uma década uma rede de comunicação quântica segura em nível europeu.

“Esta ainda é uma corrida científica, mas está cada vez mais claro que cada continente precisa ter sua própria rede, não pode depender de outros para adquiri-la”, diz Pruneri. O pesquisador lembra que o conceito de comunicação quântica foi cunhado na Europa, onde foram feitos os primeiros experimentos fundamentais, mas há anos a China aposta fortemente em dominar essa tecnologia. O chefe do sistema de comunicação quântica chinês, Jian-Wei Pan, da Universidade de Ciência e Tecnologia da China, se formou na Universidade da Áustria,no final dos anos 90, e depois retornou a seu país para iniciar o desenvolvimento desta tecnologia.

“É uma boa notícia que a China conseguiu isso porque mostra a viabilidade tecnológica”, diz Pruneri. “Isso deve pressionar a Europa a desenvolver sua própria rede com tecnologia própria”, observa.

O próximo grande marco seria o uso de satélites geoestacionários, cuja órbita a cerca de 35.000 quilômetros da Terra permitiria aumentar a distância em que mensagens criptografadas podem ser enviadas com tecnologia quântica, algo que a Europa planeja fazer dentro do programa SAGA da Agência Espacial Europeia.

De onde vem tanta estupidez?

Imaginávamos viver o pico da civilização com a tecnologia e conhecimento, mas nos deparamos com uma progressiva regressão social. A prevalência de crenças ao invés de fatos, falta de empatia e doutrinas extremistas tornam-se mais que frequentes, são aceitas. De onde vem essa necessidade de sempre ter razão? Onde ficou a humildade em nos reconhecer ignorantes?

Estamos sentindo na pele o quanto a popular “burrice” pode ser danosa à sociedade. Os males que uma pessoa burra pode causar representa mais que um atraso do progresso ou retrocesso, nas palavras do historiador e economista Carlo Cipolla, conhecido por seus ensaios sobre a estupidez humana, uma pessoa burra “causa algum dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesmo – ou até mesmo se prejudicando”.

Antes de refletir sobre isso, temos que ter claro que a ignorância é diferente da burrice. “O conhecimento da ignorância é o início da sabedoria” – esse pensamento socrático traz a visão romântica da ignorância, considera o não-saber como único meio de acesso genuíno ao conhecimento. Sócrates exprime essa máxima filosófica quando afirma “só sei que nada sei”, distinguindo a ignorância da burrice. Já o sábio escritor brasileiro Nelson Rodrigues é mais cirúrgico quando diz que “a ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades.

A burrice é uma força da natureza”. E ele tem razão. Ignorar é não saber, enquanto o burro sabe mal. A burrice é um estado de defesa, seria como uma reação à ignorância. Enquanto a ignorância busca conhecer mais, a burrice se fecha na fé de que sabe e não se abre ao aprendizado.Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 07

O lado mais nocivo da burrice é a naturalidade dela se converter em ação. O burro não hesita e tem grande confiança em suas convicções. Nesse ponto há algo interessante a ser observado. Filosoficamente, o pensamento é feito da hesitação. É a capacidade humana de ponderar que nos torna inteligentes. Pois assim conseguimos controlar os instintos advindos de nossa carga genética e tomarmos ações mais plurais, com vista ao bem comum. Essa capacidade de hesitar antes de executar é o que leva o exercício da sabedoria.

Um computador é burro mesmo com sua capacidade de cálculos e operações porque lhe falta justamente essa exclusividade humana que é o parar. Hoje somos bombardeados de estímulos externos e o ócio é algo quase que extinto, dificilmente paramos. O mundo atual obriga as pessoas a serem sempre ativas e otimistas, até o descanso ganhou o nome de “ócio criativo” sempre prevendo produzir algo. Isso é também parte do problema, pois nos impede de hesitar e pensar. Sobre esse ponto aprofundaremos mais à frente com o pensamento do autor do livro “Sociedade do Cansaço”, do sociólogo Byung-Chul Han.

Pesquisas e neurologistas têm explicações do funcionamento do cérebro que indicam porque somos teimosos com nossas crenças e como esses processos químicos se dão em nossa mente, provando que isso é realmente um sistema de defesa do cérebro. Esta complexa máquina que controla o corpo é uma grande contadora de histórias que cria realidades ilusórias que nos convém. Existem, inclusive, cientistas cognitivos como Hugo Mercier e Dan Sperber, de Harvard, que afirmam que a razão não é fruto da reflexão profunda. Segundo eles, ela “altera-se conforme o contexto, e sua grande utilidade é construir acordos sociais – custe o que custar”. Partindo desse princípio, nossos maiores equívocos tendem a ser nossas certezas. Quanto mais certezas temos, mais burros somos.

Einstein nos alerta sobre duas coisas que são infinitas: o universo e a estupidez humana. Em épocas de defesas ferrenhas às próprias opiniões, ninguém se assume ignorante. Inevitavelmente, a pessoa mesmo frente a evidências do contrário daquilo que ela acredita não se diz burro e ainda nega aquela afirmação. Por isso, não à toa, encontramos pessoas em nossos círculos sociais com acesso à informação, instruídas e viajadas colocando opiniões que fogem completamente da lógica e bom senso. Esse comportamento é, na verdade, um fenômeno social, que torna justificável o fato de cérebros sadios e dotados de recursos fazerem escolhas tão… burras.

“No âmbito clínico, a burrice é a pior doença, por ser incurável”, esta é a conclusão dos estudos do psicólogo italiano Luigi Anolli, um dos especialistas que tentam entender melhor como esse “bloqueio” nos afeta fisiologicamente. Evidentemente, a burrice hoje é um fato indiscutível. O crescimento da anticiência, posturas fanáticas, pensamentos fascistas e até mesmo religiões que prometem milagres nos fazem compreender que há um contexto muito mais denso dessa realidade.

A partir dessa percepção, entendemos que a burrice se tornou uma epidemia e afeta toda a espécie humana com danos reais à espécie. Por seu aspecto risível, a burrice foi sempre subestimada, porém hoje se mostra como uma ameaça, principalmente no âmbito político em que decisões tomadas têm rumos irreversíveis. Como entender que há pessoas inteligentes que, vez por outra, têm pensamentos burros? E o mais importante, é possível reverter isso? A definição de Aristóteles que homem é um ser racional, com a capacidade de examinar diversas variáveis e chegar a conclusões importantes e elaboradas, que guiou pensamentos do Iluminismo e Descartes, parece estar em desuso por posturas negacionistas e completamente fechadas em si.

Para ajudar neste embate, o historiador e economista Carlo Cipolla, já citado anteriormente, listou cinco “leis fundamentais da burrice” e destaca o aspecto contagioso deste mal. Isso explica como populações inteiras (a exemplo da Alemanha nazista ou na Itália fascista) são facilmente condicionadas a objetivos insanos. Como exemplo, podemos tomar o caso de não muito tempo, em que após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugestionar que a ingestão de desinfetantes poderia matar o vírus COVID-19, o centro de controle de envenenamento de Nova York recebeu 30 chamadas relacionadas aos produtos nas 18 horas seguintes à declaração.

Outro ponto fundamental, segundo Carlo Cipolla, é que o burro é a pessoa mais perigosa que existe. Grandes pensadores também concordam com isso, como o caso de Ruy Barbosa que atesta a periculosidade da burrice ao afirmar que “A chave misteriosa das desgraças que nos afligem é esta; e somente esta: a Ignorância! Ela é a mãe da servilidade e da miséria”. Goethe diz que “não há nada mais terrível que a Ignorância” e de fato o mundo nos mostra (e será ainda mais incisivo em afirmar isso à humanidade) que nossas ações individuais têm impacto direto em tudo e em todos.

A psicologia tem um termo para explicar essa dissonância cognitiva que transforma a máquina mais incrível da natureza em pura estupidez. Nomeada de “Avareza cognitiva”, esta teoria surgiu em 1984 pelos psicólogos Susan Fiske e Shelley e hoje representa o modelo predominante de cognição social. A teoria afirma que o processamento de informação por parte do nosso cérebro está sujeito a determinados limites para tratar simultaneamente as diversas variáveis do ambiente.

O cérebro seleciona uma pequena parcela destes estímulos que podem ser atendidos e desconsidera a imensa maioria dos elementos presentes. Além disso, trata de forma bastante superficial a informação, favorecendo a utilização de atalhos mentais durante as operações de processamento para “autocompletar” as percepções. Ou seja, nosso cérebro é naturalmente preguiçoso e fará de tudo para poupar energia e chegar as mais fáceis conclusões. Se juntarmos essa característica do cérebro junto com nossa sociedade organizada em “links”, em cliques, essa geração que tudo se resolve com um botão, uma pílula etc. em que temos uma noção supérflua de tudo, porém aprofundada de nada, podemos concluir que estamos atrofiando nosso cérebro ao invés de exercitá-lo.

Para comprovar essa teoria, um estudo de Leonid Rozenblit e Frank Keil, psicólogos da universidade americana de Yale, aponta como as pessoas acreditam que realmente sabem mais do que realmente sabem sobre tudo. Neste experimento, eles convidaram as pessoas a explicar detalhadamente algo que acreditam saber como funciona. O estudo identificou o fenômeno batizado de “ilusão da profundidade de explicação”, em que mostrou que quando as pessoas são forçadas a explicar, elas se viam obrigadas a reconhecer que conheciam muito menos um assunto do que acreditavam. Esses são os pequenos atalhos mentais para disfarçar de nós mesmos a dimensão da nossa ignorância.

Outra pesquisa, do professor Philip Fernbach, da Universidade do Colorado, tentou uma abordagem mais próxima da nossa realidade para explicar como isso acontece nas pessoas. O estudo foi feito com americanos na internet sobre assuntos polêmicos, como sanções ao Irã, reforma do sistema de saúde e soluções para reduzir o aquecimento global. Dois grupos foram separados, em que no primeiro as pessoas foram convidadas apenas a expor sua visão sobre determinado tema, já o segundo grupo tinha algo a mais para fazer: precisavam explicar passo a passo – do começo ao fim – o caminho pelo qual a política que defendiam produziria o resultado que desejavam. Os resultados mostraram que as pessoas do primeiro grupo mantiveram suas posições inalteradas. Já os que precisaram explicar em detalhes suas visões, acabaram adotando posturas menos radicais. A Avareza Cognitiva nos condiciona a não obter profundidade em nossos argumentos.
O homem vive em sociedade. Portanto o fator social é como se fosse o organismo condutor da pandemia da burrice, sendo um ponto fundamental. A sociedade nos contamina e tratá-la não é simples. Neste aspecto, é interessante a interpretação do tempo em que vivemos feita pelo sociólogo coreano Byung-chul Han, em seu ensaio Sociedade do Cansaço. Ele defende que nossos dias são marcados pelo excesso de positividade. Isso nos torna exaustos demais para agir e nos coloca como “empreendedores de nós mesmos”, criando uma “sociedade do desempenho”. Nela, o status quo faz você acreditar que é capaz (como o slogan da campanha presidencial de Barack Obama em 2008: “Yes, we can” – “Sim, nós podemos”). Ao contrário da sociedade de nossos pais, chamada de “Sociedade Disciplinar” (que era regida pelo o medo e negatividade), a Sociedade do desempenho tem a positividade como pano de fundo, que, segundo o autor, gera pessoas depressivas e fracassadas.

Anteriormente falamos da capacidade de hesitar como base do raciocínio filosófico. Neste aspecto, a visão de Byung-chul Han coincide ao afirmar que vivemos um excesso de estímulos que geram estados psíquicos doentes por nos impedir de descansar. Nietzsche afirma que “Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie”, e atualmente o repouso é algo condenável do ponto de vista de produção. A “pressão do desempenho” é o que causa o esgotamento porque neste novo modelo precisamos obedecer somente a nós mesmos. Segundo Byung-chul “a depressão é a expressão patológica do fracasso do homem pós-moderno em ser ele mesmo”.

Se olharmos os dados alarmantes do estado da saúde mental da população mundial, veremos que faz sentido essa interpretação. Não é normal que, segundo os últimos relatórios da OMS, o suicídio cause mais mortes de jovens que homicídios e guerras. Não é normal uma sociedade cuja depressão seja a principal causa de incapacidade em todo o mundo e contribui de forma importante para a carga global de doenças, segundo a OPAS/OMS. Estima-se que 350 milhões de pessoas pelo planeta sofram de depressão, o que corresponde a 5% da população mundial. As crises contemporâneas apenas evidenciam como as desigualdades e as injustiças existem em nossa sociedade e devemos aproveitar que a ferida está aberta para tratar e curar essas chagas.

O que não precisamos são de brasileiros tentando explicar o nazismo para a Alemanha, pessoas contestando a ditadura à historiadores ou ainda recomendações médicas por aqueles que não tem nenhuma ligação com a área da saúde. Esse é o triunfo da burrice. É o estágio em que existe um organismo doente e que começa a se prejudicar. Nesta trilha, existem dois caminhos. O da dor e da consciência. Não entraremos no mérito de como a proliferação de idiotas se deu, precisamos nos concentrar em encontrar uma vacina para esse ódio e ignorância que tem se tornado comum e que tem sido aplaudido.