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Por que um cientista nascido há 250 anos ainda é relevante no século 21?

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Retrato de Alexander von Humboldt . Por Joseph Karl Stieler (1843). Reprodução/Wikipédia.

Plantas, animais, uma corrente marinha que corre ao longo das costas chilena e peruana, uma geleira na Groenlândia, uma cordilheira na Antártica, a universidade de Berlim e até mesmo uma cratera na lua recebem o seu nome. Hoje, no entanto, além de especialistas ou fãs da história da ciência, poucos se lembram do naturalista prussiano Alexander von Humboldt. Em 2019 comemorou-se o 250º aniversário do nascimento deste explorador, geógrafo e cientista que fez observações e elaborou reflexões ainda fundamentais em muitos campos da pesquisa, da geologia ao estudo do clima.

Quase desconhecido hoje, Humboldt era uma celebridade em sua época, a ponto de seus contemporâneos o chamarem de homem mais famoso do mundo depois de Napoleão. Nasceu em Berlim em 14 de setembro de 1769, em uma família aristocrática rica e morreu na mesma cidade, em 1859. Durante sua vida, Humboldt teve relações com os homens mais importantes de sua época, de escritores como Goethe ao presidente americano Thomas Jefferson.

Ele era uma figura eclética, com muitos interesses. Os estudiosos concordam que sua contribuição mais importante é ter compreendido a profunda interconexão dos sistemas naturais, do clima à natureza e às sociedades humanas.

Como o historiadora alemã Andrea Wulf escreve em seu livro A invenção da natureza: A vida e as descobertas de Alexander von Humboldt, devemos a Humboldt o conceito de “natureza” como o entendemos hoje. Ou seja, as origens do pensamento ecológico estão nas páginas de seu Cosmos: Um Esboço da Descrição Física do Universo, obra monumental em cinco volumes que publicou entre 1845 e 1862.

A celebridade de Humboldt começou a ser construída entre 1799 e 1804, quando ele empreendeu uma fantástica viagem às antigas colônias espanholas do Peru e de Nova Granada (atuais Equador, Colômbia e Venezuela). Humboldt foi o primeiro naturalista-viajante, pesquisador que saiu ao mundo em busca de espécimes da flora e da fauna (e da geologia) para criar coleções que viriam a formar boa parte dos acervos de pesquisa dos grandes museus de história natural europeus (no caso de Humboldt, suas coleções estão na Universidade Humboldt de Berlim).

O mais perto que Humboldt chegou do Brasil foi no alto rio Orinoco, onde descobriu que o canal Casiquiare permitia uma ligação entre as bacias do Orenoco e do rio Negro. Humboldt não chegou a penetrar nas selvas da antiga colônia do Brasil por não ter conseguido obter permissão da metrópole portuguesa para tanto. Apesar disso, encantado com a majestade e a exuberância amazônicas, foi Humboldt que começou a usar o termo Hileia para denominar a maior floresta equatorial do planeta.

O exemplo de Humboldt foi seguido por uma legião de naturalistas-viajantes ao longo do século 19, que exploraram as selvas, desertos, cordilheiras e litorais das Américas, África, Ásia e Oceania.

“ Encantado com a majestade e a exuberância amazônicas, foi Humboldt que começou a usar o termo Hileia para denominar a maior floresta equatorial do planeta.”

Apenas para citar o exemplo brasileiro, as aventuras de Humboldt influenciaram e impulsionaram as viagens de Auguste de Saint-Hilaire, Spix e Martius, Wied-Neuwied e tantos outros. O naturalista dinamarquês Peter Lund, por exemplo, conta em suas cartas como a leitura dos relatos de viagem de Humboldt foi decisiva para a sua vinda ao Brasil em 1835, onde descobriu os primeiros fósseis do tigre dentes-de-sabre ao lado dos restos dos homens de Lagoa Santa (MG) – e de onde nunca mais saiu, morrendo em Minas Gerais em 1880.

Uma das conquistas mais famosas e quase lendárias de Humboldt foi a subida, na companhia do botânico francês Aimé Bonpland, ao vulcão Chimborazo, no Equador, considerada na época (com seus mais de seis mil metros) a montanha mais alta do mundo. Os dois exploradores documentaram mudanças na vegetação durante o empreendimento, à medida que a altitude aumentava, das florestas tropicais à base da montanha, até o ponto em que as árvores deram lugar a rochas e líquens. Dessa maneira, lançaram as bases para a ideia de que o princípio que molda as diferentes comunidades de plantas e animais em diferentes altitudes e latitudes é o clima, um conceito que não era de todo óbvio na época.

Embora o trabalho de classificação de Humboldt e Bonpland não seja preciso pelos padrões atuais, a comparação ainda serve para estabelecer uma conclusão básica: em 200 anos os efeitos induzidos pelas mudanças climáticas são visíveis e impressionantes.

Na era do Antropoceno, ou seja, os últimos 250 anos, período geológico mais recente na história da Terra durante o qual a humanidade se tornou o principal agente modificador do clima, da geografia e da vida no planeta, torna-se cada vez mais inevitável enfrentar o impacto dramático do homem no meio ambiente e na natureza.

Neste sentido, o conteúdo central do pensamento de Humboldt parece premonitório: tudo está conectado. Na rede de relacionamentos que distingue a vida no planeta Terra, nada do que fazemos permanece sem consequências.

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Fuga de cérebros: os doutores que preferiram deixar o Brasil para continuar pesquisas em outro paí

Fuga de cérebrosDireito de imagem CEMILE BINGOL/GETTY

Comunidade acadêmica aponta espécie de diáspora que vem preocupando comunidade científica nacional, por causa das consequências disso para o desenvolvimento do Brasil

Os jovens pesquisadores brasileiros Bianca Ott Andrade, Eduardo Farias Sanches, Gustavo Requena Santos e Renata Leonhardt têm mais em comum do que apenas o pouco tempo de carreira e a nacionalidade.

Todos são doutores recentes e resolveram deixar o país em busca de melhores oportunidades para desenvolver seu trabalho em um ambiente mais favorável à ciência. Eles seguem uma tendência, não registrada nas estatísticas oficiais, mas que aparece nos muitos relatos de migração de talentos para outros países que vem aumentando, conforme pesquisadores chefes de grupos no país e jovens que foram embora, ouvidos pela BBC Brasil. Uma espécie de diáspora de cérebros, que vem preocupando a comunidade científica nacional, por causa das consequências disso para o desenvolvimento do Brasil.

Não há dados oficiais sobre esta fuga, porque os jovens doutores que deixam o país o fazem com bolsas das universidades ou centros de pesquisa do exterior que os contratam, e não das instituições brasileiras, como a Capes ou o CNPq.

A pesquisadora Ana Maria Carneiro, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) está iniciando uma pesquisa pesquisa que tentará entender as trajetórias de migração da diáspora brasileira de Ciência, Tecnologia e Inovação e também as motivações e locais de inserção. “Entretanto, não há fontes de dados sistemáticas que permitam mensurar o tamanho deste fenômeno, pois é necessário ter informações sobre a saída, local de estabelecimento, tipo de inserção profissional e perfil sociodemográfico, especialmente a escolaridade”, explica.

Está prevista no projeto a realização de um levantamento sobre o fenômeno, mas provavelmente não haverá informação quantitativa exaustiva que permita afirmar quantos brasileiros de alta qualificação vivem no exterior e se houve um movimento de ampliação, diz. “Será possível, no entanto, ter pistas qualitativas sobre a migração de pessoas altamente qualificadas.”

Há alguns números de outras fontes, entretanto, que podem lançar luz sobre o problema. Embora não discrimine por profissão ou ocupação a saída definitiva de brasileiros para a o exterior, a Receita Federal mostra que o número passou 8.170 em 2011 para 23.271 em 2018, ou crescimento de 184%. Em 2019, até novembro, 22.549 pessoas fizeram declaração de saída definitiva do país. O crescimento foi mais acentuado a partir de 2015, quando o número foi de 14.981. Em 2016, pulou para 21.103, crescendo para 23.039 em 2017.

Entre esses migrantes, estão muitos cientistas, de acordo com o relato de acadêmicos ouvidos pela BBC News Brasil.

Segundo o geólogo Atlas Correa Neto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) “é um dreno geral”, que inclui doutores mais antigos além de candidatos ao mestrado e também ao doutorado. Não se trata apenas de pessoas indo para realizar um curso, uma especialização ou realizar um projeto de pesquisa.

“Trata-se de saída em definitivo”, diz. “Quem tem possibilidade está indo, mesmo sem manter a ocupação de cientista. Esse movimento não se restringe à área tecnológica e também afeta as ciências sociais. Aliás, se eu pudesse, se tivesse condições financeiras e sociais adequadas, iria embora também.”

Debandada em áreas tecnológicas

bióloga Bianca Ott Andrade em pesquisa de campoDireito de imagem ARQUIVO PESSOAL
Temendo ficar desempregada, bióloga Bianca Ott Andrade mudou-se para os Estados Unidos, onde faz pós-doutorado na Universidade do Nebraska-Lincoln

De acordo com o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luís da Cunha Lamb, que atualmente é secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia do seu Estado, o fenômeno é mais intenso nas áreas que ele chama de “portadoras de futuro e com impacto econômico visível”.

“Notadamente em ciência da computação, algumas áreas das engenharias, biotecnologia e medicina, por exemplo”, diz. “Em particular, com o crescimento e o impacto da inteligência artificial em todas as atividades econômicas, os profissionais desta área têm oportunidades no mundo inteiro. Estamos perdendo jovens em áreas científicas, que são portadoras de futuro. Mundo afora, dominar setores como computação, estatística e matemática tem muito valor no mercado.”

O biólogo Glauco Machado, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), também enumera algumas razões pelas quais a saída de pesquisadores está ocorrendo.

“Ela tem a ver com a redução do número de bolsas, o baixo valor das de mestrado e doutorado, que não são reajustadas há vários anos, e o pessimismo em relação a uma futura contratação — especialmente para as áreas em que o principal empregador é a própria academia -, que é fruto da recessão econômica que aflige o país há pelo menos cinco anos”, diz.

Em nota, a Capes informou que há 7.699 bolsas congeladas e um total de 87.018 bolsas ativas. O CNPq, por sua vez, suspendeu em agosto, 4,5 mil bolsas que não estavam sendo usadas, segundo a instituição.

Ele acrescenta que, ao mesmo tempo, é importante olhar para o que está acontecendo fora do Brasil.

“Várias universidades no exterior estão criando programas de atração de talentos internacionais”, diz.

É o caso, por exemplo, das universidades de Genebra, na Suíça, e Saskatchewan, no Canadá.

“O investimento em pesquisa e tecnologia tem crescido em vários países desenvolvidos e as oportunidades de bolsas e eventualmente trabalho em algumas áreas são maiores no exterior do que aqui. Portanto, sair do país é algo bastante atrativo para um profissional no início de sua formação.”

Eduardo Farias Sanches, de 39 anos, que o diga. Ele considera que teve sorte de receber um convite para ir embora em um momento oportuno, “devido ao incessante ataque do governo federal às universidades (especialmente as públicas) e o corte de despesa em pesquisa e desenvolvimento, o que é uma lástima para a nova geração de pesquisadores que, assim como eu, está tentando se firmar no meio científico”.

“Fico muito triste com essa situação, ao ver que muitos bons pesquisadores não terão um horizonte razoável no Brasil”, lamenta. “Infelizmente para o país, a tendência é essa debandada aumentar”.

Graduado em Fisioterapia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 2007, com mestrado (2014) e doutorado (2015) na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Sanches foi contemplado com uma bolsa de excelência do governo suíço, para desenvolver um projeto de pesquisa na Universidade de Genebra com duração de um ano.

Depois desse período, foi convidado por seu chefe, Stéphane Sizonenko, a permanecer lá, mas optou por retornar ao Brasil, onde tinha compromisso com seu antigo orientador. Ficou dois anos aqui, período em que o convite anterior para retornar a Suíça foi refeito. Dessa vez, ele aceitou e voltou para lá, em setembro de 2019.

Pesou na escolha a possibilidade de melhores salários. “Aqui na Suíça, além de ser levada muito a sério, a pesquisa científica é considerada profissão, ou seja, contribuo com impostos e tenho direito a aposentadoria”, conta.

“Além disso, há melhores condições de trabalho, que são inegavelmente ótimos atrativos a deixar o meu país. No Brasil, a ciência e a cultura não são estimuladas e a inserção de pessoas altamente capacitadas no mercado de trabalho, por não haver incentivo à pesquisa e desenvolvimento, se torna muito difícil. É triste admitir que seremos uma nação meramente exportadora de commodities e importadores de tecnologia de ponta.”

Procurados pela reportagem, o Ministério da Educação e a Casa Civil da Presidência da República disseram que quem poderia comentar o tema era a Capes, que, em nota, respondeu:

“A Capes aumentou em 9,1% o seu orçamento de 2018 para 2019, que subiu de R$ 3,84 bilhões para R$ 4,19 bilhões. Atualmente, há 95,4 mil bolsistas no País e 8,7 mil no exterior. Também foram lançados 21 editais de cooperação internacional e mais R$ 80 milhões para pesquisas de pós-graduação na Amazônia Legal, além de 1.800 bolsas que auxiliam no desenvolvimento regional. Para 2020, o Ministério da Educação busca meios para recompor o orçamento com outras ações orçamentárias. Nenhuma bolsa será cortada e todos os programas da CAPES serão mantidos.”

O CNPq, por sua vez, respondeu, também por meio de nota:

“O êxodo dos pesquisadores brasileiro para outros países é uma preocupação, que norteia uma série de iniciativas que o CNPq tem fomentado para aperfeiçoar e ampliar mecanismos de fixação de nossos profissionais da ciência e tecnologia. Dentro das limitações orçamentárias e legais que se aplicam ao CNPq, a agência investe, por exemplo, em programas que, em parceria tanto com instituições públicas quanto a iniciativa privada, incentivam a realização de projetos de pesquisa científica, tecnológica e de inovação dentro de empresas e indústrias.

O objetivo é, além de contribuir com a formação de recursos humanos mais qualificados, garantir empregabilidade dos pesquisadores. Importante ressaltar que em países como Japão, Coreia do Sul, Israel, EUA e China, mais de 60% do total de seus pesquisadores estão alocados em empresas, segundo dados de 2018 da OCDE. No Brasil, esse percentual é de apenas 18%.”

Procurado pela BBC News Brasil, o MCTIC não retornou a solicitação até a conclusão desta reportagem.

Medo do desemprego ou de interrupção das bolsas

Renata LeonhardtDireito de imagem ARQUIVO PESSOAL
Geóloga formada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Renata Leonhardt recebeu uma bolsa da Universidade de Saskatchewan, uma das 15 melhores universidades do Canadá em pesquisa

Bem mais jovem, com 23 anos e cursando um mestrado, a geóloga Renata Leonhardt, formada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com estágio em empresas do setor petrolífero, igualmente partiu do Brasil em busca de melhores oportunidades e salários. Ela recebeu uma bolsa da Universidade de Saskatchewan, uma das 15 melhores universidades do Canadá em pesquisa.

O medo de ficar desempregada depois de formada foi outro motivo que a levou a ir embora.

“Até pouco tempo antes de me formar, o setor de óleo e gás ainda estava na expectativa de se recuperar da última crise”, diz Renata. “Mas depois, as oportunidades na minha área ficaram um tanto escassas, mesmo para recém-formados que haviam estagiado anteriormente e buscavam contratação, como era o meu caso.”

O atual cenário político brasileiro também foi levado em conta por Renata em sua decisão. “Ele não está muito favorável para a ciência”, explica. “Eu temia, por exemplo, ficar sem bolsa no meio do curso — algo que era crucial para que eu continuasse a pesquisa.”

Em agosto, o CNPq chegou a anunciar que havia risco de não pagamento dos seus mais de 80 mil bolsistas a partir de outubro. Isso não ocorreu, no entanto. O governo conseguiu cumprir o compromisso.

Essas também foram algumas das razões da bióloga Bianca Ott Andrade, formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), para se mudar para o exterior, no caso, Estados Unidos, onde faz pós-doutorado, na Universidade do Nebraska-Lincoln.

“No Brasil, eu tinha uma bolsa de pesquisadora de pós-doutorado, que ia se encerrar no final de 2019, mas havia grandes chances de ficar desempregada”, conta.

Além disso, contribuiu para a decisão de Bianca a atuação do atual governo nas áreas de ciência e educação, com menos incentivo ao ensino superior e a políticas ambientais.

“Eu trabalho com ciência e educação, é isso o que eu amo, é o que eu sei fazer. Sinto que não tem espaço pra mim, pelo menos não agora. Decidi dar um tempo para minha cabeça.”

No caso de Gustavo Requena Santos, razões pessoais e profissionais se somaram para que ele decidisse se mudar para o exterior.

“Sou casado com um americano e no final da minha bolsa de pós-doutorado na USP, em meados de 2017, ele obteve uma oferta de trabalho para voltar aos EUA e decidimos nos mudar”, conta.

“Entretanto esta não foi a maior razão pela qual saímos do Brasil. Foi uma oportunidade para mudarmos para um local com melhores condições e perspectivas para o futuro.”

Ele diz ainda que, como profissional, apesar de quase 10 anos de experiência em pesquisa, se sentia desvalorizado, sem benefícios ou vínculo empregatício. “O cenário ficou insustentável”, explica. “Por isso, resolvi me mudar.”

Menos valor para a economia

Seja qual for o motivo de cada um para ir embora, o certo é que o Brasil está perdendo jovens doutores, quando o número deles, em qualquer idade, já é menor que a média internacional. De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 0,2% da população brasileira possui doutorado, enquanto a média dos países pertencentes à organização e de 1,1%.

Segundo dados do CNPq, o Brasil tem hoje 7,6 doutores por 100 mil habitantes, índice que está estabilizado.

“Esse número não é suficiente, haja vista que países desenvolvidos têm um número muito superior”, diz a bioquímica Ângela Wise, da UFRGS, membro titular da Academia Mundial de Ciências e secretária regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no Rio Grande do Sul.

“Como é o caso do Japão, que é o país desenvolvido com o menor número de doutores: 13 por 100 mil habitantes. O Reino Unido, por sua vez, tem atualmente 41, enquanto Portugal, 39,7; Alemanha, 34,4; e os Estados Unidos, mais de 20.”

É muito pouco, segundo o engenheiro cartográfico Antonio Maria Garcia Tommaselli, do campus de Presidente Prudente, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), cujo grupo de pesquisa já perdeu três doutores para instituições europeias.

“Para um país com uma economia complexa como a do Brasil e que precisa agregar valor tecnológico aos seus produtos, em vez de apenas exportar matérias-primas, o ideal seria dobrar ou triplicar o atual número de doutores”, diz.

Apesar de ver aspectos positivos na diáspora, no cômputo geral, Tommaselli a considera prejudicial ao país.

“O lado positivo é que ela significa que formamos cientistas de classe internacional”, explica.

“O dramático é que estamos perdendo os melhores pesquisadores e que nos substituiriam no futuro, levando consigo todo o investimento feito com recursos públicos e o conhecimento altamente especializado que eles detêm. Um erro estratégico que será sentido em alguns anos, com o apagão científico em várias áreas”, ressalva.

Mas não é só isso. “O mais grave é que o governo atual não tem qualquer política para reter estes cientistas, ao contrário, entende como remédio reduzir a formação de doutores”, critica Tommaselli.

“Encontramos o mesmo cenário em vários grupos de pesquisa brasileiros de expressão internacional e as consequências futuras serão muito ruins para a economia, que se baseia em conhecimento”, acrescenta.

Segundo Atlas, não haverá renovação do quadro de pesquisadores e professores de nível superior.

“Ou, sendo menos pessimista, ela será aquém da necessária”, diz. “Haverá déficit de cientistas. E eles e os educadores terão menos conhecimento. Seremos piores. Sem investimentos, sem incentivos, será feita ciência de baixa qualidade, os avanços serão pífios. Novas tecnologias não serão desenvolvidas, as já existentes não serão aperfeiçoadas. Nos tornaremos ainda mais dependentes de outros países e de multinacionais em termos de ciência, tecnologia e cultura.”
Evanildo da Silveira/BBC

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Rússia anuncia sucesso em teste de internet ‘desplugada’ do resto do mundo

Rússia testou com sucesso a Runet, uma alternativa nacional à internet global, anunciou o governo do país.

Os detalhes divulgados sobre os testes são vagos, mas, de acordo com o Ministério das Comunicações, os usuários não notaram nenhuma alteração. Os resultados serão agora apresentados ao presidente Vladimir Putin.

Os especialistas continuam preocupados com a tendência de alguns países de criarem redes próprias desconectadas da internet global.

“Infelizmente, as medidas tomadas pela Rússia são apenas mais um passo no crescente desmembramento da internet”, disse Alan Woodward, cientista da computação da Universidade de Surrey, no Reino Unido.

A internet é composta por milhares de redes digitais pelas quais a informação viaja. Essas redes estão conectadas por pontos de roteamento de dados – e eles são, sabidamente, o elo mais fraco desta cadeia.

 

Isso permite criar um sistema de censura em massa semelhante ao que ocorre na China e no Irã, que tentam bloquear qualquer conteúdo considerado proibido.

“Cada vez mais, países autoritários que desejam controlar o que os cidadãos veem estão se espelhando no que Irã e China já fizeram. Isso significa que as pessoas não terão acesso ao diálogo sobre o que está acontecendo em seu próprio país, serão mantidas dentro de uma bolha”, diz Woodward.

O que foi testado?

Pessoa digitando em computadorDireito de imagem GETTY IMAGES
Rússia quer ter sob seu controle os pontos pelos quais passem os dados que entram ou saem do país

A Rússia faz parte de um número crescente de nações insatisfeitas com uma internet construída e controlada pelo Ocidente. O país fala publicamente sobre uma “internet soberana” desde 2011.

No início deste ano, o país estabeleceu as mudanças técnicas necessárias e forneceu recursos para que as empresas as implementassem a fim de que a internet russa seja operada de forma independente.

Os testes previam que os provedores demonstrassem ser capazes de direcionar dados para pontos de roteamento controlados pelo governo e filtrar o tráfego para entre os cidadãos russos e para qualquer computador estrangeiro.

Agências de notícias locais noticiaram declarações do vice-ministro de Comunicações dizendo que os testes da Runet foram executados conforme o planejado.

“Os resultados mostraram que, em geral, tanto as autoridades quanto as operadoras de telecomunicações estão prontas para responder efetivamente a riscos e ameaças emergentes, para garantir o funcionamento estável da internet e da rede de telecomunicações unificada na Federação Russa”, disse Alexey Sokolov.

A agência de notícias estatal Tass informou que os testes avaliaram a vulnerabilidade dos aparelhos ligados à internet e também testaram a capacidade da Runet de combater “influências negativas externas”.

Como funcionará a Runet?

O uso da Runet significará que os dados enviados por cidadãos e organizações russas circularão apenas dentro do país, em vez de serem roteados internacionalmente.

A Rússia também está buscando desenvolver serviços de rede mais personalizados para seus cidadãos. A empresa anunciou planos para criar sua própria Wikipedia e aprovou uma lei que proíbe a venda de celulares que não possuem software russo pré-instalado.

Como a China, a Rússia espera criar serviços que sirvam de alternativas ao Google e Facebook a longo prazo.

“A ideia é que a internet na Rússia se interconecte com o resto do mundo apenas em alguns pontos específicos sobre os quais o governo possa exercer controle”, disse Woodward.

“Isso efetivamente levaria os provedores de serviços de internet e as empresas de telecomunicações a operar dentro de uma intranet gigantesca.”

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Ele nasceu em 25 de dezembro e mudou a história do mundo: quem foi Isaac Newton

“Que os mortais se regozijem por ter existido tamanho ornamento da raça humana.” Este epitáfio, escrito em latim sobre o seu túmulo, na Abadia de Westminster, em Londres, dá uma ideia da importância de Isaac Newton para a ciência e a humanidade em geral.

Considerado um dos maiores — se não, o maior — cientistas de todos os tempos, ele nasceu em 25 de dezembro de 1642, ano da morte de Galileu Galilei, em Woolsthorpe, perto de Cambridge, na Inglaterra, e morreu em 20 de março de 1727, em Kensington, no mesmo país.

Na verdade, há controvérsias sobre essas datas. Não porque elas estejam erradas, mas por causa da substituição do calendário juliano, implantado pelo imperador romano Júlio César, em 46 a.C., pelo gregoriano, instituído pelo papa Gregório XIII, em 15 de outubro de 1582.

Em artigo publicado pelo Centro de Referência em Ensino de Física (CREF), ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o físico Fernando Lang da Silveira explica que o calendário juliano estava com problemas, pois era sabido que no final do século XVI o equinócio da primavera no Hemisfério Norte, que por este calendário deveria acontecer em 21 de março, ocorria de fato cerca de dez dias depois.

Então, a Igreja Católica patrocinou astrônomos e cientistas para elaborarem um novo calendário, mais preciso. “Entre outras importantes modificações, ele tomou por base que o ano passasse a ter 365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12 segundos”, diz Silveira.

O ano juliano, afirma, era cerca de 11 minutos mais curto e, em consequência disso, havia acumulado uma defasagem de cerca de dez dias entre a data em que o equinócio de primavera deveria ocorrer e efetivamente acontecia um pouco antes da reforma gregoriana.

O calendário gregoriano começou na sexta-feira, 15 de outubro de 1582. O dia anterior, de acordo com a bula papal era quinta-feira, 4 de outubro.

“Portanto, os dias civis que iam de 5 a 14 de outubro simplesmente deixaram de existir em 1582 em todos os países católicos”, conta Silveira, em seu texto. Ele não foi aceito, entretanto, de imediato em países com outras religiões. A Inglaterra e suas colônias, por exemplo, só o adotaram em 1752.

Ou seja, o nascimento de Newton ocorreu quando ainda vigorava o juliano no seu país, isto é, em 25 de dezembro de 1652. Pelo gregoriano, seria 4 de janeiro de 1643 e a morte em 30 de março de 1727.

“Portanto, ambas as datas estão corretas, dependendo do calendário que se tome por base”, conclui Silveira.

Infância complicada

O que é certo é que Newton teve nascimento e infância complicados. Seu pai, um produtor rural analfabeto, havia morrido três meses antes de ele vir ao mundo. Além disso, o futuro físico, matemático e astrônomo nasceu prematuro, com risco de morrer em poucos dias. Sobreviveu, mas aos 2 anos foi abandonado pela mãe — que havia se casado de novo e se mudado para outra cidade —, que o deixou aos cuidados da avó até os 10 anos.

Nos primeiros anos de estudo, ele não revelou nenhum talento especial. Sua genialidade só começou a aflorar depois que se graduou na Universidade de Cambridge, em janeiro de 1665. Neste ano e no seguinte, considerados os Annus Mirabilis (anos miraculosos) de Newton, ele realizou uma série de trabalho e descobertas que revolucionaram ciências como a matemática, física, ótica e astronomia.

Mas ele continuou produzindo ao longo da vida. Nos 84 anos em que viveu, fez descobertas, criou teorias e desenvolveu métodos e ferramentas matemáticas e físicas que abriram caminho para a Revolução Industrial, ocorrida no século XVIII, e tornaram possível a exploração espacial e várias tecnologias presentes em muitos equipamentos modernos usados hoje.

O astrônomo Augusto Damineli
O astrônomo Augusto Damineli diz que a contribuição mais importante de Newton foi ter criado a primeira teoria científica da história da humanidade, a da Gravitação Universal.

Para o astrônomo Augusto Damineli, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da Universidade de São Paulo (IAG-USP), a contribuição mais importante de Newton foi ter criado a primeira teoria científica da história da humanidade, a da Gravitação Universal.

“Ela tem três princípios simples, que incluem o conceito de força de atração gravitacional”, explica. “A partir disso, se pode deduzir matematicamente o comportamento de corpos sujeitos à gravidade, em qualquer situação particular, desde o movimento de planetas, cujas leis haviam sido obtidas empiricamente por (Johannes) Kepler (1571-1630), a corpos que Newton jamais pensaria em aplicar sua teoria, como estrelas duplas e satélites artificiais.”

O físico Othon Winter, da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá (FEG), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), lembra que toda a área espacial se baseia na Teoria de Gravitação Universal. “Por exemplo, a órbita de qualquer satélite artificial obedece a lei da gravidade proposta por Newton”, diz. “Então, tudo o que usufruímos e é dependente desses artefatos, como GPS, ligações telefônicas e transmissões de TV por eles são uma consequência direta de descobertas feitas por ele.”

A maçã caiu?

Ao se falar de gravidade, não se pode deixar de mencionar a famosa história de que Newton teria desenvolvido sua teoria depois que uma maçã caiu em sua cabeça. Mas seria ela verdadeira?

“Há diferente versões desta história”, diz o físico Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que foi eleito pela prestigiosa revista científica britânica Nature como uma das dez pessoas que mais se destacaram no mundo na área de ciência em 2019. Galvão foi exonerado do cargo, em agosto, depois que o presidente da República, Jair Bolsonaro, passou a criticar o Inpe.

De acordo com ele, o que se sabe ter acontecido é que, em 1665, houve uma eclosão da febre bubônica, que forçou Newton a retornar para a propriedade de seus pais, em Woolsthorpe. “Aparentemente, ao observar a queda de uma maçã em seu pomar, ele se questionou porque a fruta caiu diretamente para o chão e não para o lado, ou para cima”, explica Galvão.

Ele acredita que se Newton fosse um homem comum, “sensato”, talvez tivesse respondido a si mesmo “porque é assim que Deus determinou” (Newton era muito religioso). “Mas não, ele não era um homem comum”, diz Galvão. “Perseguindo a resposta à sua indagação de forma lógica, acabou formulando sua famosa Teoria da Gravitação Universal. Mas a história de que ela caiu em sua cabeça muito provavelmente é fantasiosa.”

O que é real é que Newton, simultaneamente com o filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, mas de forma independente, desenvolveu o cálculo diferencial e integral, uma ferramenta matemática que tem aplicações que vão da construção civil às viagens espaciais. “Ela está presente em grande parte do PIB da humanidade, por meio da engenharia de construção civil, transporte (aéreo, terrestre marítimo e no vácuo) e circuitos elétricos, por exemplo”, enumera Damineli.

Ricardo GalvãoGalvão diz que, ao observar a queda de uma maçã em seu pomar, Newton questionou o motivo pelo qual a fruta caiu diretamente para o chão e não para o lado ou para cima.

Segundo seu colega no IAG-USP, o também astrônomo Enos Picazzio, é impossível imaginar o que seria o mundo sem a lei de gravitação e o cálculo diferencial e integral.

“Com o cálculo, Newton elaborou métodos analíticos simples para resolver problemas como encontrar áreas, tangentes e comprimentos de curvas, por exemplo”, explica. “Essa ferramenta foi fundamental para ele ter desenvolvido suas leis de movimento dos corpos e da gravitação.”

Esses trabalhos de Newton estão no seu livro mais famoso, Princípios Matmáticos da Filosofia Natural, considerado por muitos a obra científica mais importante já publicada.

De acordo com Winter, o cálculo diferencial e integral é um ramo da matemática que é muito utilizado em dois tipos de problemas. “O diferencial é usado para cálculo de taxas de variação de grandezas, ou seja, qualquer problema que envolva movimento ou crescimento/decrescimento de alguma quantidade, como, por exemplo, como a economia evolui ao longo do tempo”, explica. “No caso do integral, ele é empregado para calcular a acumulação de quantidades, como o volume de um dado material que é necessário para construir um certo equipamento.”

Newton não parou por aí, no entanto. Ele também atuou na área da Ótica, pesquisando a natureza da luz e suas propriedades, como refração, difração e a decomposição da branca nas cores do arco-íris. “Com isso, descobriu, que além da luz vermelha, existe a infravermelha que os nossos olhos não veem, que nada mais é que calor”, conta Picazzio. Isso o levou a mostrar outra de suas caraterísticas, a de inventor. “Sua invenção do telescópio refletor (o que usa espelho) é consequência dos seus estudos de dispersão e aberração da luz nos telescópios refratores (os que usam lentes)”, explica Picazzio.

No gênio científico também existia um lado religioso e místico, no entanto, que lidava com alquimia. “Ciência e religião são incompatíveis nos seus propósitos, mas podem ser complementares sobre o ponto de vista humano”, diz Picazzio. “Enquanto a primeira trata do real, procurando por meios técnicos explicar o que ocorre na natureza, a segunda pode satisfazer um aspecto humano para muita gente. Newton era religioso, assim como tantos outros cientistas, porém não foi a fé que o levou a elaborar as suas teorias científicas.”

Uma prova disso, segundo ele, é que a ciência progride com trabalhos desenvolvidos tanto por religiosos como por agnósticos e ateus. “Entre eles não há choque de ideias no campo científico, mas há no campo humano”, explica. “As leis da natureza atuam em todos os locais, existindo ou não humanos ou outros seres pensantes, caso eles existam. O mesmo raciocínio aplica-se à alquimia. A química que temos hoje é baseada em ciência.”

Independentemente de suas crenças, não há como negar a importância de Newton para a ciência em particular e para a humanidade em geral. “De um ponto de vista mais fundamental, creio que a maior contribuição dele foi a consolidação do método científico, expandindo amplamente a metodologia iniciada por Galileu Galilei, ou seja, a formulação de modelos físicos, cujos resultados devem ser passíveis de testes experimentais e de consistência lógica”, diz Galvão.

Para a humanidade, diz o ex-diretor do Inpe, a maior contribuição de Newton talvez tenha sido a ideia de que vivemos em um universo mecânico, cuja evolução é descrita por equações matemáticas, mesmo que nem sempre com soluções exatas, e a noção de que a cada ação corresponde uma reação. “Isso fez com que o pensamento humano evoluísse de uma realidade apenas mística para uma baseada também em argumentos lógicos, contribuindo fortemente para a filosofia, teologia e outras áreas que moldaram o desenvolvimento da sociedade moderna”, diz.

Os interiores cósmicos da arquiteta soviética Galina Balachova

Em junho de 2015, o Museu Alemão de Arquitetura (Deutsches Architekturmuseum), em Frankfurt, apresentou uma exposição dedicada a uma arquiteta russa. Suas obras, porém, não podem ser encontradas pelas ruas de quaisquer cidades.

Aos 88 anos, na atualidade, Galina Balachova mora na Rússia. Mas, nos últimos anos, suas principais exposições foram organizadas na Alemanha, e pouquíssimas se realizaram em sua terra natal, a Rússia, onde seu trabalho ainda é pouco conhecido.

Galina era uma arquiteta soviética secreta, e foi uma das primeiras no mundo a projetar interiores de espaçonaves. / Galina Balachova em um modelo de nave espacial.

Na exposição “Design para o programa espacial soviético”, no Museu Alemão de Arquitetura, por exemplo, o foco foram as obras de Galina. Foram expostos modelos de naves espaciais, fotos, esboços, rascunhos e desenhos em aquarela.

Galina trabalhou na concepção de interiores de naves soviéticas fazendo todos os cálculos técnicos sem se basear nas obras de seus predecessores. / Projeto da estação espacial Mir.

As obras de Galina foram impressas em uma monografia intitulada “Galina Balachova: Arquiteta do Programa Espacial Soviético”. Entre elas, há planos e desenhos de engenharia para as cápsulas Soiuz e as estações espaciais Saliut e Mir. / Esboço de um módulo habitável para a nave Soiuz-M.

Projeto da espaçonave Soiuz. Os esboços de Balachova eram frequentemente assinados, apesar de serem secretos.

Um esboço do interior da estação espacial Mir. As diferentes zonas coloridas permitem aos cosmonautas determinar facilmente onde estão o teto e o chão na ausência de peso.

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Usina fotovoltaica cobrindo o Saara

Entre várias iniciativas e controvérsias recorrentes envolvendo projetos com fontes alternativas de energia, uma proposta interessante é a de uma grande usina fotovoltaica cobrindo o deserto do Saara. Mas, afinal… quanta energia uma usina instalada no Saara (ou pelo menos em parte dele) geraria?1024px-Sahara_satellite_hires.jpg
Montagem a partir de imagens de satélite mostrando o deserto do Saara.

O deserto do Saara é popularmente conhecido como um dos maiores e mais quentes desertos do mundo. Ele ocupa uma área total de pouco mais de nove milhões de quilômetros quadrados, estendendo-se desde áreas próximas ao Oceano Atlântico até os vales férteis do rio Nilo e desde as regiões semi-áridas do rio Niger e do Sudão até o extremo norte do continente banhado pelo Mar Mediterrâneo. Seu território abriga um total de cerca de 2,5 milhões de habitantes e sua área é comparável à área de países continentais como os Estados Unidos, o Brasil, a Austrália ou a Índia.

O Saara é na verdade o terceiro maior deserto do mundo, superado pela Antártida e pelo Ártico e ocupando áreas na Argélia, no Chade, no Egito, na Líbia, em Mali, na Mauritânia, no Marrocos, no Niger, no Saara Ocidental e na Tunísia. O deserto ocupa 31% de todo o continente africano e ele inclui áreas que apresentam precipitações médias anuais próxima de zero até áreas que recebem precipitações médias anuais que variam desde 100 mm ao ano até 250 mm ao ano.

Em um passado distante, o rio Nilo corria até o Oceano Atlântico, mas o último realinhamento do eixo magnético terrestre (conjuntamente com outros fatores, claro!) levou o Nilo à sua atual localização. No passado, além disso, uma boa parte do deserto era coberto por densas florestas tropicais, mas o atual padrão de circulação global de massas de ar acabou alterando o clima na região.

Pela sua extensão continental e pela sua localização geográfica, eventualmente ressurgem sugestões de um investimento vultuoso para a instalação de uma enorme usina solar fotovoltaica cobrindo o deserto do Saara. Uma usina que, conforme quem a defende, poderia fornecer suprimentos de energia suficientes para toda a humanidade. “Uma energia limpa e renovável!

Mas, afinal, quanta energia uma usina dessas seria capaz de disponibilizar?

Considerando que não fosse possível cobrir todo o deserto e considerando que uma usina não ocuparia 100% de sua área com painéis fotovoltaicos, vamos calcular o que poderia ser fornecido por uma usina cujos painéis ocupassem uma área equivalente a (digamos) 10% da área total aproximada do deserto, citada acima. Desse modo, consideremos painéis ocupando 900.000 km².

Na região aproximadamente central do deserto, a energia incidente é igual na média a 6,25 kWh por metro quadrado por dia, que por sua vez é igual a 2.281,25 kWh por metro quadrado por ano. A energia anual varia entre 4,75 kWh/m²/dia no inverno e 7,22 kWh/m²/dia no verão. Considerando a área citada acima, a energia total será igual a 2.053.125 TWh por ano.

Os painéis fotovoltaicos podem ser fabricados em diferentes configurações e vêm atingindo eficiências um pouco superiores a 20% na conversão de energia solar em eletricidade. Isso significa dizer que a energia elétrica fornecida por esses painéis é equivalente a cerca de 20% da energia incidente, sendo a diferença perdida ou não aproveitada.

Considerando uma eficiência de 20% para os painéis solares e considerando também uma declividade para os painéis, adequada para aproveitar melhor a energia solar ao longo do dia, chegaremos a uma energia total anual igual a 386.000 TWh. Esse valor é igual a 17 vezes a energia elétrica total gerada ao redor do mundo durante o ano de 2013 e é igual a 555 vezes a energia gerada no continente africano nesse mesmo ano.

Finalizando, a fotografia abaixo mostra uma usina solar fotovoltaica operando no deserto de Atacama, no Chile, (que, como outras usinas, opera) em condições aproximadamente semelhantes às de uma usina no deserto do Saara. Existem outros meios para conversão de energia solar, alguns inclusive mais eficientes que os painéis fotovoltaicos e que serão tema de futuros artigos.

pv-atacama.jpg Usina solar fotovoltaica instalada no deserto de Atacama, no Chile.

Uma usina desse tipo, com essas dimensões, estaria disponibilizando energia em região distante dos grandes centros consumidores e seria necessária portanto ainda transportá-la até as pessoas e indústrias etc que a consumiriam. Isso exigiria obras de infra estrutura e custos de transporte. Dificuldades superáveis mas que podem facilitar a adoção de outras soluções.

Além disso, as energias renováveis se prestam melhor para a geração distribuída de energia, levando desenvolvimento social e econômico às comunidades que as adotarem (o que também será tema de artigo futuro). E uma usina fotovoltaica enorme atuaria como um fornecedor centralizado, portanto contrariando conceitos de utilização sustentável de recursos renováveis.
Obvius

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É possível ser anônimo na era da internet?

Professor do Oxford Internet Institute diz que hoje temos mais aparelhos tecnológicos com sensores para captar dados sobre nós.

Ilustração que mostra uma mulher ao lado de uma arte gráfica baseada em códigos binários de informática

“No futuro, todo mundo terá seus 15 minutos de anonimato.” É o que disse o artista Banksy. Mas com tudo online, de status de relacionamento a destinos de férias, é mesmo possível ser anônimo – mesmo que brevemente – na era da internet?

Esse dizer, uma brincadeira com a famosa frase de Andy Warhol dos “15 minutos de fama”, foi interpretada de várias formas por fãs e críticos. Mas sublinha a real dificuldade de manter algo privado no século 21.

“Hoje, nós temos mais aparelhos digitais do que nunca, e eles possuem mais sensores para captar mais dados nossos”, diz Viktor Mayer-Schoenberger, professor do Oxford Internet Institute.

E isso importa. De acordo com uma pesquisa da empresa de recrutamento Careerbuilder, nos Estados Unidos, no ano passado, 70% das empresas usaram as redes sociais para analisar candidatos a vagas, e 48% checaram a atividade dos funcionários nas redes sociais.

Instituições financeiras também checam perfis em redes sociais quando decidem se dão empréstimos ou não.

Uma TV rosa com o logo: "No futuro, todo mundo será anônimo por 15 minutos", do show de Banksy, Los Angeles, 2006
É mesmo possível ser anônimo na era da internet?

Outras empresas, por sua vez, estão criando modelos com hábitos de compras, visões políticas e usam, inclusive, inteligência artificial para prever hábitos futuros com base em perfis de redes sociais.

Uma maneira de tentar obter controle é deletando redes sociais, o que algumas pessoas fizeram depois do escândalo da empresa Cambridge Analytica, quando 87 milhões de pessoas tiveram seus dados usados secretamente para campanhas políticas.

Mas, ainda que deletar contas em redes sociais seja a maneira mais óbvia para remover informações pessoais, isso não terá impacto nos dados guardados por outras empresas.

Felizmente, alguns países oferecem proteção.

O Brasil tem o Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, e a Lei Geral de Proteção de Dados, aprovada em 2018. A lei, que entrará em vigor em 2020, proíbe o uso indiscriminado de dados pessoais. Além disso, garante aos cidadão o direito de saberem como e para o que as suas informações serão usadas.

A União Europeia tem sua versão: o GDPR, que regula a proteção dos dados, e inclui o “direito de ser esquecido” – basicamente, que um indivíduo tem o direito de ter informações pessoais removidas de onde quiser.

No ano passado, houve 541 pedidos de que informações fossem removidas no Reino Unido, segundo apuração da BBC, ante 425 do ano anterior e 303 em 2016-17. Os números reais podem ser mais altos, já que o Information Commissioner’s Office (Departamento de Informação) só se envolve depois que uma reclamação inicial à empresa que guarda os dados é rejeitada.

Mas Suzanne Gordon, do Departamento de Informação, diz que isso não é necessariamente objetivo: “O GDPR fortaleceu os direitos das pessoas de pedirem que organizações deletem seus dados se acreditam que não são necessários. Mas o direito não é absoluto e em alguns casos deve ser balanceado contra outros direitos e interesses competidores, como, por exemplo, a liberdade de expressão.”

O “direito de ser esquecido” ficou notório em 2014 e levou a vários pedidos de que informações fossem removidas – um ex-político que procurava a reeleição e um pedófilo são alguns exemplos –, mas nem todos foram aceitos.

Empresas e indivíduos que tenham dinheiro para tal podem contratar especialistas para ajudá-los.

Uma indústria inteira está sendo construída ao redor da “defesa de reputação” com empresas desenvolvendo tecnologia para remover informação – por um preço – e enterrar notícias ruins de mecanismos de busca, por exemplo.

Uma empresa, Reputation Defender (“defensora da reputação”), fundada em 2006, diz que tem um milhão de clientes, como profissionais e executivos. Ela cobra cerca de 5.000 libras (cerca de R$ 25 mil) pelo pacote básico.

Ela utiliza seu próprio software para alterar os resultados do Google sobre seus clientes, ajudando a colocar as notícias ou textos menos favoráveis mais para o fim dos resultados e promovendo as histórias favoráveis no lugar.

Imagem de um homem com o logotipo do Google refletido várias vezes em seu rostoDireito de imagem GETTY IMAGES
Empresas de defesa de reputação querem remover informações pessoais de bancos de dados e sites

“A tecnologia foca no que o Google vê como importante quando indexa sites no topo ou na parte de baixo dos resultados de busca”, diz Tony McChrystal, diretor da empresa.

Geralmente, as duas maiores áreas que o Google prioriza são credibilidade e autoridade que a página tem, e quantos usuários se engajam com os resultados de busca e o caminho que o Google vê que cada usuário único segue.

“Trabalhamos para mostrar ao Google que um maior volume de interesse e atividade estão ocorrendo nos sites que queremos promover, sejam sites novos que criamos ou sites estabelecidos que já aparecem nos resultados das buscas, enquanto sites que queremos suprimir mostram um percentual mais baixo de interesse.”

A empresa diz que atinge seu objetivo em 12 meses.

“É impressionantemente efetivo”, ele diz, “já que 92% das pessoas não navegam depois da primeira página de resultados do Google e mais de 99% não passam da segunda página”.

Mayer-Schoenberger, de Oxford, aponta que, enquanto empresas de defesa de reputação possam ser efetivas, “é difícil entender por que só pessoas ricas podem ter acesso a isso, e por qual razão isso não pode beneficiar todo mundo”.

Um membro da equipe do British Museum faz os ajustes finais para uma seleção de uma obra de Andy Warhol, em fevereiro de 2017Direito de imagem GETTY IMAGES
Andy Warhol previu uma vez que todo mundo teria 15 minutos de fama

Então, será que podemos nos livrar de todos nossos rastros online?

“Se formos responder de uma maneira simples, não”, diz Rob Shavell, cofundador e chefe executivo do DeleteMe, um serviço de assinatura que remove dados pessoais de bancos de dados públicos, corretoras de dados e sites de busca.

“Você não pode se apagar completamente da internet a não ser que algumas empresas e indivíduos que operem serviços de internet sejam forçados a mudarem fundamentalmente como eles operam”, afirma.

“Estabelecer regulamentações fortes para permitir que consumidores tenham autonomia para decidir como sua informação pessoal pode ser recolhida, compartilhada e vendida já é um bom caminho para encarar o desequilíbrio de privacidade que temos agora.”

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Os potenciais conflitos entre eólica e conservação da Caatinga

Energia Eólica,Ciência,Energia,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01A Caatinga é a maior e mais diversificada floresta seca das Américas, mas também abriga mais de 70% da capacidade instalada e da expansão planejada da energia eólica no Brasil. Ambas as potencialidades, se não geridas corretamente, correm o risco de se tornarem conflitantes, pois uma grande proporção de parques eólicos em operação ou planejados estão ou serão instalados em áreas classificadas como de prioridade muito alta ou extremamente alta para a conservação da biodiversidade.

Esse é o alerta do artigo Green versus green? Adverting potential conflicts between wind power generation and biodiversity conservation in Brazil (Verde versus verde? Evitando potenciais conflitos entre geração de energia eólica e conservação da biodiversidade no Brasil, em português), recentemente publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation. Felipe Melo, professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos autores do artigo, concedeu entrevista para ((o))eco, esclarecendo sobre a necessidade de diálogo e estratégias para evitar conflitos entre conservação e geração de energia limpa.

O Eco: Qual a importância da Caatinga para a geração de energia eólica no Brasil? Por que a região é tão visada pelo setor eólico?

Felipe Melo: Cerca de 78% de toda a geração eólica do Brasil se concentra na Caatinga e esse valor tende a subir no futuro para mais de 80%. Essa concentração se deve ao predomínio de ventos fortes nessa região, concentrados em dois principais eixos: a Serra do Espinhaço e suas prolongações até a Chapada do Araripe e a franja litorânea entre Rio Grande do Norte e Ceará. Portanto é uma condição natural da região Nordeste do Brasil que está dominada pela Caatinga e possui as zonas com maior potencial eólico do Brasil.

Quais os principais motivos de haver sobreposição entre áreas de interesse para instalação de aerogeradores e áreas prioritárias para conservação?

“Haver sobreposição entre áreas de interesse para conservação e geração eólica não deveria ser um problema em si, mas poderia ser visto como uma dupla oportunidade, para gerar energia limpa e conservar a biodiversidade”.
Haver sobreposição entre áreas de interesse para conservação e geração eólica não deveria ser um problema em si, mas poderia ser visto como uma dupla oportunidade, para gerar energia limpa e conservar a biodiversidade. Mas no artigo mostramos que tem sido o contrário. Ao longo desses dois principais eixos de interesse eólico estão ecossistemas sensíveis como aqueles associados a ambientes montanhosos e dunas litorâneas, portanto precisam de proteção e criação de unidades de conservação. Por outro lado, as UCs podem representar um entrave para o estabelecimento de eólicas, especialmente por exigências de estudos de impacto mais detalhados e compensações ambientais mais importantes. A geração de energia, como todo negócio que visa lucro, procura manter os custos baixos e enxergam no cumprimento de condicionantes ambientais um custo alto. Este é o problema e não a sobreposição em si.

A implantação de aerogeradores causa quais tipos de impactos negativos? Em quais termos a geração de energia eólica representa um risco para a conservação da Caatinga?

Em Pernambuco, o estado praticamente retirou a proteção permanente de áreas de altitude com o explícito intuito de favorecer eólicas. O Boqueirão da Onça [na Bahia] passou anos “de molho” porque muitos interesses atuam na zona, incluindo os das eólicas. Ainda sabemos pouco sobre os impactos das eólicas ao meio ambiente, mas já sabemos que são mais severos sobre a fauna alada: aves e morcegos, que se chocam com as pás das turbinas. Ainda, como toda obra de infraestrutura, muitas vezes é necessária a abertura de estradas novas e construção de torres de transmissão. Hoje, sabemos que mais infraestrutura humana leva a mais degradação dos ecossistemas, principalmente em países subdesenvolvidos como o Brasil. Temos também os impactos sobre as pessoas e conflitos com populações tradicionais como mostramos que acontece na Ponta Tubarão, no Rio Grande do Norte. Portanto, o maior risco que a geração de eólicas representa para a Caatinga é o de se colocar em oposição à proteção ambiental desse ecossistema em vez de apoiar sua conservação como partes de uma mesma estratégia de desenvolvimento sustentável. A geração eólica é um negócio majoritariamente privado e o empresariado brasileiro ainda tem pouca tradição de participar de agendas de conservação.

Vista aérea do parque eólico de Novo Horizonte, na Bahia. Foto: PAC/ Flickr.
Quais as formas de evitar os conflitos gerados pela expansão da energia eólica sobre áreas de importância para a conservação? É possível uma coexistência verdadeiramente sustentável?

Sabendo que há sobreposição das áreas de interesse, pois há mapas de priorização tanto para a conservação quanto para o potencial eólico, deve-se promover o diálogo e entendimento para que essas áreas cumpram com todo seu potencial e não só o de ser UC ou de ser geradora de energia eólica. Por exemplo, as compensações poderiam ser no sentido de criação e implementação de áreas protegidas nas zonas afetadas por eólicas. Acredito que a geração de energia eólica e a conservação da Caatinga podem ser partes da mesma estratégia nacional de desenvolvimento sustentável, mas não podemos tomar por inerte a instalação de centenas de turbinas eólicas numa “fazenda”. São forças poderosas economicamente que, sem diálogo, podem contrapor conservação e geração de energia limpa, como já aconteceu.

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Quatro bilhões de anos em sintropia

Transcrição livre por Patrícia Kalil de palestra realizada pelo cientista
Antonio Nobre
A crise que nós estamos vivendo tem raízes muito fortes em uma crise de valores. Nos últimos 35 anos, vi incontáveis seminários com ideias excelentes mas com resultados pífios. Continuou uma sangria desatada, pois as iniciativas não conquistaram o coração da coletividade. Essa falha histórica está destruindo o berço esplêndido do nosso país. Quem sente realmente amor pelo Brasil, quem realmente sabe o que significa a riqueza e o benefício que nós temos por ter nascido nesse pedaço do planeta que é tão extraordinário precisa parar, refletir e falar: “pera aí”. Por um viés positivo, o que está acontecendo agora está trazendo à tona todas as toxinas do nosso modelo de desenvolvimento, que estão se apresentando para que nós resolvamos. Quando você tem a circulação de elementos não muito bons no seu sangue, eventualmente nasce um furúnculo. É feio, cheira mal, dói. Mas é uma depuração. Quem somos nós? Quem somos nós, os cientistas? Quem somos nós, as ONGS? Quem somos nós, os produtores? Essa é a oportunidade que temos agora. 
Antonio Nobre, cientista climatologista e especialista em Amazônia.

Quero falar da casa maior, o que está acontecendo na Terra. Nós vivemos aqui e só aqui e sempre aqui. Não tem outro lugar para viver.  Nem para cima, nem para baixo. Temos essa casquinha que é absolutamente frágil na qual nós surgimos, evoluímos e vivemos.

O planeta Terra é um lugar muito especial. A vida está na superfície do planeta nos últimos 4-3 bilhões de anos, o homo sapiens apareceu aqui 300-200 mil anos atrás. No entanto, ainda hoje nós não temos a consciência do que significa estar no lar cósmico. É importante trazer isso para consciência.

A gente fala que a Terra é o planeta água. Nós temos água líquida na superfície por 4 bilhões de anos, o que é desconhecido em outros planetas.  E nós nem pensamos sobre isso, que temos oceanos, rios… Só que se você for estudar os outros planetas, você vai ver que a presença de água líquida é desconhecida. Por que aqui é possível? Esse equilíbrio instável que permite ter água líquida acontece por causa de um fenômeno que só tem na Terra: vida. O verde atrai a água, o verde controla o carbono, o verde regula o clima. O verde produz o oxigênio. Somos o único planeta que tem oxigênio livre. Nos últimos quatro bilhões de anos quem produz o oxigênio é o verde. Primeiro, as algas nos oceanos e de 500 milhões de anos para cá as plantas também. Se você olhar as folhas das plantas no microscópio, você vai encontrar uma estrutura cloroplastos, que é uma alga, as mesmas algas lá do oceano que se associaram com outras células e formaram as plantas. Então nas folhas temos uma miniatura do oceano suspensa que interage com a atmosfera e produz oxigênio. Esse oxigênio permitiu o surgimento dos continentes, o nosso surgimento e de todos animais que dependem dele para viver.

As águas doces de superfície são apenas 0,2% da água do planeta. Tudo que nós fazemos depende desses 0,2%. A gente tem o maior rio da Terra passando aqui na frente, outro ao lado, enorme, que é um tributário, e a gente tem essa sensação que a água doce é infinita na Amazônia, mas não é.

A Amazônia é sim um pulmão porque troca gases. A floresta e as plantas fazem o inverso do nosso pulmão: nós respiramos oxigênio e soltamos gás carbônico, as plantas respiram gás carbônico e soltam oxigênio. Dados da fotossíntese do mundo de 2000 a 2010 mostram que a Amazônia tem uma importância global em relação a todos os outros ecossistemas do planeta. Quando falamos que nossa soberania está ameaçada, ela não está ameaçada porque tem gente querendo vir aqui roubar a Amazônia, ela está ameaçada por causa de uma minoria que decidiu destruir o coração do mundo.

Quando observamos os dados dos últimos 100 mil anos da série climática, percebemos que a Terra teve períodos de glaciações até 11-10 mil anos atrás. Foi ali que começou o Holoceno, quando o homem passou a desenvolver a agricultura com a estabilidade do clima. Antes desse período, éramos basicamente coletores e caçadores. De 10 mil anos para cá, surgiram as grandes civilizações. Nos últimos 200 anos, a ciência está falando de uma nova era geológica chamada Antropoceno (antropo=humano, a era dos humanos). Os humanos se tornaram uma força comparável à geologia e vamos deixar registros. Nesse período de dois séculos, tudo está subindo em escala exponencial. A população explodiu para 7 bilhões e meio de pessoas. O planeta não dá mais conta. Junto, temos uma explosão exponencial na degradação ambiental, climática e de todos os outros indicadores. A gente precisa mudar de atitude radicalmente.  Foram 10 mil anos de estabilidade climática e nós estamos destruindo isso nas últimas décadas, de forma acelerada.  No clímax do nosso desenvolvimento, estamos acabando com a nossa casa. Acho que o Al Gore disse que a nossa geração é a primeira que está sofrendo o aquecimento global e a última que pode fazer alguma coisa sobre isso.

O corpo de cada um de nós está fazendo homeostase nesse momento. Se ficar frio, cada corpo vai disparar reações, começar a tremer para gerar calor e manter a temperatura em 37º graus. Se ficar quente, vai suar para resfriar. Com isso regulamos nossa temperatura. O planeta Terra tem o mesmo mecanismo. Se a gente pegar os dados de clima da temperatura da Terra em milhões de anos, vamos ver que existe esse mesmo controle de temperatura presente nos organismos. Acontece que o planeta está perdendo a capacidade de fazer a regulação climática. Eventos extremos, secas e enchentes são cada vez mais frequentes.

A agricultura depende umbilicalmente de um clima amigável. Vou dar um exemplo da importância da floresta para o agronegócio. Em estudo recém concluído que ainda vai ser divulgado, fizemos a análise de dois municípios produtores de grãos no Mato Grosso, uma  potência do agronegócio. Os municípios em questão foram Querência e Lucas do Rio Verde. Os dois estão quase na mesma latitude, 400 km de distância uma para outra, quase a mesma distância da Amazônia e estão na região de transição do Cerrado. Nos dados de 2011, vimos que Querência tem 7 meses de seca e Lucas do Rio Verde 5 meses de seca, o que possibilita a Lucas duas safras por ano. Por quê? A diferença entre uma localidade e outra é que o vale úmido de Lucas do Rio Verde tem a influência dos 150 km de floresta preservada da Reserva Indígena do Xingu, que umedecem as massas de ar e fazem os rios voadores chegarem em Lucas. A floresta em pé ali perto, em 2011, equivalia a uma diferença de 80 milhões de reais em 2011, ou seja, 400 mil toneladas da segunda safra de Lucas.

O que nós estamos fazendo? Estamos matando a galinha dos ovos de ouro. A destruição da floresta vai secar o Brasil e vai quebrar a agricultura brasileira. Se tiverem dúvida, vai no Google Earth ver o que aconteceu na Arábia Saudita. Lá, 11 mil anos atrás tinha floresta. A pecuária destruiu a floresta lá, assim como no Saara. Estamos fabricando um deserto dentro da América do Sul. Não temos dúvida, as imagens de satélite mundiais mostram isso.

Nos últimos 40 anos, cientistas estão falando sobre as mudanças climáticas e tem sido criminosamente ignorados. Isso por causa de mentiras pagas de trabalhos de mercenários. A mesma coisa está sendo feita em relação à agricultura. É tempo do agronegócio se despertar, porque mercenários vendem conveniências agradáveis de se escutar, mas que são conveniências mentirosas. Agora é momento de pensar também no seu negócio. A destruição de floresta é suicídio.  Nós vamos perder a galinha de ovos de ouro.

Todas as melhores pesquisas da Embrapa, das universidades, até mesmo de instituições privadas mostram que ninguém precisa derrubar mais nenhuma árvore para aumentar a produção agrícola. É possível intensificar, fazer diferente.

Não é a indústria da multa que é inimiga do agronegócio, é o desmatamento. De 1988 (quando tivemos um dos maiores desmatamento da série histórica) até 2004, quando o Código Florestal não era aplicado devidamente, tínhamos o desmatamento acoplado ao PIB, ou seja, aumentava a atividade econômica, aumentava o desmatamento. Em 2004, tivemos um desmatamento recorde e isso motivou a articulação envolvendo diversos Ministérios, INPE (ciência), Ministério Público e a polícia para controlar o desmatamento. Agora preste atenção: de 2004 a 2012 o PIB brasileiro explodiu e o desmatamento despencou.  Aplicaram a lei ambiental e mesmo assim o PIB cresceu, a imagem do Brasil foi lá para cima e isso foi uma grande vitória do setor agrícola porque conseguiu melhorar sua imagem aumentando sua produção.

Em 2012, houve uma pressão de um grupo minoritário que tem desproporcional pressão no congresso para mudar o Código Florestal. Foi uma mudança feita por questões ideológicas muito lamentáveis. Deram anistia para quem sabia que estava cometendo crimes ambientais. O resultado vem nesses anos todos. De lá para cá, o desmatamento vem crescendo e as multas do IBAMA diminuindo. Não é só no governo Bolsonaro, foram em vários outros governos, esquerda ou direita não importa. Existe uma outra agenda. Agora note: de 2012 a 2019, o PIB brasileiro despencou e o desmatamento explodiu, antes essas coisas cresciam ou caíam juntas. Isso mostra que já está desacoplado e que o principal vetor para controlar o desmatamento é a aplicação da lei. De 2012 para cá, paramos de aplicar a lei. Este ano chegamos ao apocalipse. Temos um julgamento que já está em curso e é fora dos tribunais. E qual é esse julgamento? O desmatamento acumulado está encontrando no clima um juiz que sabe contar árvores e não esquece nem perdoa.

Vamos sair desse ciclo vicioso?

Diferente do que escutamos, a natureza funciona em colaboração absoluta.  Começando no nosso próprio corpo, existe uma sistema de segurança que não tolera egoísmo. Quando uma célula do nosso corpo resolve ser egoísta e quer crescer sozinha temos um câncer. O que o sistema imune de uma pessoa saudável faz? Ataca. Os linfócitos vão lá e atacam a célula egoísta, a célula cancerígena que quer se multiplicar de forma doentia e dominar o ambiente. Se não fosse o contra-ataque do nosso sistema imune, todo mundo teria câncer pois nosso corpo está o tempo todo produzindo células cancerígenas.  Isso é verdade também para os ecossistemas. A maior parte do setor agrícola brasileiro percebe a importância de trabalhar no sentido das leis da natureza, da cooperação, da colaboração. Mas tem um pequeno setor que é um tumor, que está contrariando as leis da natureza, mudando as leis que estabelecemos com amplo debate na sociedade, que está impondo uma realidade, que está estimulando o crime e que está destruindo o conjunto todo. Vamos corrigir isso ou morrer de câncer? No contraponto, a colaboração é sinergia e sucesso. A colaboração amplia as capacidades. A cabeça de um grileiro de terra, por exemplo, pensa em pegar a floresta do outro e do outro. Câncer que funciona assim. O equilíbrio e a evolução são complexos. O que é dominante no sistema é a colaboração e a complexidade, a rede de segurança só é acionada em momentos extremos. A seleção natural é uma rede de segurança. Quando não funciona com a colaboração, quando perde o equilíbrio, aí tem uma rede de segurança.

PERTENCER me faz sensível à comunidade onde eu moro, à região toda. Pertencer é a mãe, antes de tudo vem a mãe. Pertencer envolve, hospeda, nutre, concebe e dá a luz. Se eu tenho negócios ou propriedades longe de onde eu moro, eu não desenvolvo uma relação de pertencimento àquela região.  O SER é ligado ao pertencer, o SER pertence, permeia, inventa, colabora, agradece e retribui.  Na cultura de povos tradicionais, de ribeirinhos, quilombolas e indígenas, o PERTENCER e o SER estão, como na natureza, intimamente ligados. Na cultura ocidental, o SER sofreu uma ruptura do PERTENCER e então a pessoa sonha “ser maior que as outras e dane-se o resto”. Pertencer-ser sempre são seguidos de EVOLUIR. É uma lei da natureza. Quando a planta pertence e é,  ela pode crescer. Tudo está em movimento. A natureza evolui em comunidade. Precisamos evoluir como coletividade. Agora é o momento de COMPREENDER, refletir sobre o que é pertencer, o que é ser, o que é evoluir. Podemos dialogar para cuidar melhor daquilo que a gente compreende. A gente só preserva aquilo que a gente compreende.

O povo INCA já tinha princípios muito parecidos com esse. Na floresta Amazônica viviam mais de 10 milhões pessoas antes do homem branco chegar. Mais de 10 milhões e não devastaram a floresta. Faziam agricultura, estradas, barragens. Agora, estamos querendo crescer pelo caminho errado. Se o ovo for quebrado por uma força externa, a vida acaba. Quando o ovo é forçado por uma força interna, é a vida que começa. Por isso é tão importante explicar as coisas. As grandes coisas sempre surgem de dentro, aceitar o próximo e colaborar.

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Após 65 anos, matemáticos finalmente solucionam ‘enigma da soma dos três cubos’

O matemático Andrew Sutherland em frente a um quadro negro em que há uma série de cálculos escritos a giz
Direito de imagem ANDREW SUTHERLAND

Descobrir finalmente a solução para k=42 é muito gratificante; e, em certo sentido, confirma que tudo vai bem no mundo da matemática’, afirma Andrew Sutherland, do MIT.  A questão sobre a qual se debruçavam não era nada fácil. Há 65 anos, matemáticos de todo o mundo tentavam resolver o quebra-cabeças da soma de três fatores elevados ao cubo que teria como resultado o número mais difícil de ser alcançado para essa equação: o 42.

Foram meses testando fórmulas matemáticas, sem indício algum de que o esforço daria frutos.

Por isso, quando os matemáticos Andrew Sutherland e Andrew Booker finalmente encontraram a resposta para o problema, o que sentiram foi uma verdadeira “explosão de emoção”.

A questão sobre a qual se debruçavam não era nada fácil. Há 65 anos, matemáticos de todo o mundo tentavam resolver o quebra-cabeças da soma de três fatores elevados ao cubo que teria como resultado o número mais difícil de ser alcançado para essa equação: o 42.

Ou, dito de outra maneira, a pergunta-chave era: existem mesmo três cubos cuja soma seja 42?

Algoritmo inteligente

Este problema – estabelecido pela primeira vez em 1954 na Universidade Cambridge, na Inglaterra, e conhecido como a “Equação diofantina x³+y³+z³=k” – desafiou os matemáticos a encontrar soluções para os números de 1 a 100.

Quando formada por algarismos pequenos, uma equação como essa é mais fácil de resolver: por exemplo, o 29 poderia ser escrito como 3³+1³+1³. Por outro lado, há outros números que são insolúveis, como o 32.

A fachada da Universidade de Cambridge, na InglaterraDireito de imagem GETTY IMAGES
O enigma da soma de três cubos foi estabelecida pela primeira vez em 1954 na Universidade de Cambridge, na Inglaterra

Nos últimos anos, utilizando diversas técnicas e supercomputadores, todos os números foram resolvidos (ou, para alguns, definiu-se que não havia solução, como o 32), com exceção de dois algarismos: o 33 e o 42.

O matemático Andrew Booker, da Universidade Bristol, então, criou um algoritmo inteligente que, depois de passar semanas rodando em seu supercomputador, em março deste ano encontrou a solução para o 33.

Mas o número 42 tinha um outro nível de complexidade. Quando quis resolvê-lo, Booker percebeu que seu supercomputador não tinha capacidade suficiente para uma tarefa dessa magnitude.

Ele, então, entrou em contato com seu amigo Andrew Sutherland, um dos principais pesquisadores do departamento de matemática do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

Um parêntese: o número 42 tem significado especial para os fanáticos da saga de ficção-científica Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams, porque essa é a resposta dada por um supercomputador à pergunta sobre “o sentido da vida, o universo e tudo mais”.

Fanático pela obra de Adams, o matemático Sutherland considerou a proposta do colega Booker irresistível. “Fiquei emocionado quando Andy pediu que eu me unisse a ele neste projeto”, afirmou o pesquisador do MIT.

‘Computador global’ trouxe a solução

O segredo por trás da solução do problema se chama Charity Engine, uma espécie de “computador global” que aproveita a potência de mais de 400 mil computadores domésticos do mundo todo.

A cada um desses computadores, os matemáticos deram uma determinada faixa de possibilidades – ou, como nomearam, um “d” (parâmetro que determina um conjunto relativamente pequeno de possibilidades para x, y, z). A partir daí, os cálculos começaram.

O cálculo feito por Andrew SutherlandDireito de imagem ANDREW SUTHERLAND
Este arquivo de gráficos vetoriais representa os tempos de cálculo para cada um dos mais de 400 mil computadores utilizados para executar a solução

Depois de meses de trabalhos de adequação dos códigos, o Charity Engine enviou a Booker e Sutherland, finalmente, um muito esperado e-mail, com a almejada solução – que, atestou o supercomputador, é a seguinte: 42 = -80538738812075974³ + 80435758145817515³ + 12602123297335631³.

“Minha primeira reação foi de choque. Com certeza, esperávamos encontrar uma solução. Mas, depois de centenas de milhares de informes que não traziam resultado, e de várias semanas de ajustes dos parâmetros, de checagens e rechecagens do código, quando veio a solução foi realmente uma grande surpresa”, explicou Sutherland.

Ao receber a solução, relembrou o matemático, ele sentiu-se tão eufórico que, ainda de pijamas, correu escada acima para contar à esposa. “Encontrar finalmente a tão esperada solução para o problema k=42 é muito gratificante. E, em certo sentido, confirma que tudo está bem no mundo das matemáticas”, resumiu.