Sai extrativista, entra boi: a lei do mais forte em uma reserva extrativista de Rondônia

Extrativistas se locomovem pelos rios, enquanto invasores abriram estradas para escoar o gado. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Por Fernanda Wenzel (reportagem) e Marcio Isensee e Sá (fotos e vídeos)

“Acabou tudo”, observa Laudicéia, as mãos protegendo a visão do sol forte. A pequena casa de madeira, distante alguns metros, já vai sendo invadida pela vegetação.

O local onde ela planejava instalar placas de energia solar está abandonado desde que seu pai, seu marido e dois primos foram ameaçados por 7 homens armados. Mas um ruído encerra abruptamente o relato feito dentro da Reserva Extrativista (Resex) estadual Jaci-Paraná, no noroeste de Rondônia. Com o som de passos vindos do mato, ela pede que todos retornem à embarcação atracada no barranco.Laudicéia Soares é filha e neta de seringueiros.

Seu pai, Artur, divide-se entre a casinha simples que construiu há 20 anos na reserva e um sítio perto de Porto Velho, capital do estado. “Na cidade não é bom. Quem é acostumado, filho de seringueiro, gosta de estar no mato”, diz Artur. Mas desde que foi ameaçado, as idas à unidade de conservação são marcadas pelo medo.

“O governo de Rondônia estima que haja mais de 100 mil cabeças de gado sendo criadas ilegalmente dentro da Jaci-Paraná”

As ameaças partiram de um dos pecuaristas que invadiram a reserva estadual. O governo de Rondônia estima que haja mais de 100 mil cabeças de gado sendo criadas ilegalmente dentro da Jaci-Paraná, que já perdeu 49% da floresta, derrubada para a abertura de fazendas. Trata-se de uma ilegalidade que subverte a função da reserva extrativista, área de domínio público e definida por lei como “uma área utilizada por populações extrativistas tradicionais, cuja subsistência baseia-se no extrativismo e, em complemento, na agricultura de subsistência e criação de animais de pequeno porte”, cuja intenção é “proteger os meios de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade”.

Em uma Resex cada família recebe o direito de utilizar um lote, chamado de “colocação”. No caso da Jaci-Paraná a maioria dos moradores são ex-seringueiros, ou filhos e netos de seringueiros. Com a derrocada do mercado da seringa, atualmente a maioria deles se divide entre a cidade – onde têm acesso a serviços de saúde e educação – e a Resex, onde mantêm pequenos cultivos de subsistência.

Expulsão

Janderman e a esposa foram expulsos de sua casa pelos invasores. Foto: Marcio Isensee e Sá.

((o))eco encontrou Vanderlei da Cunha trabalhando na colocação de um conhecido, à beira do Rio Jaci.  Ele já teve o próprio lote na Resex, mas foi expulso em 2010 por um fazendeiro que se disse o dono da terra: “Ele tava acompanhado por um segurança, armado com um [revólver] 38. Tava com o cabo da arma de fora, pra intimidar mesmo”. Sem terra própria, começou a prestar serviços aos outros moradores da região. Trabalhava em uma dessas propriedades, em 2015, quando sofreu a segunda ameaça. Desta vez, eram 4 homens armados: “Um deles falou que eu tava dentro da terra dele”, lembra Vanderlei.

O casal Janderman de Farias e Maria das Graças também teve de abandonar às pressas sua colocação. A intimidação dos invasores começou no dia em que encontraram a porta de casa trancada com um cadeado que não era o deles. Semanas depois, a mesma situação: os cadeados originais haviam sido arrombados e substituídos. Na terceira vez, um vizinho alertou que homens haviam dado uma rajada de tiros em direção ao barranco do rio. A ameaça levou Janderman a esvaziar a casa: “Joguei as coisas tudo dentro da canoa. Levei fogão, botijão de gás, colchão, prato, panela”. Assustada, Maria não tem coragem de voltar: “A gente fica com medo né? Vê essas confusões de terra, e é só morte”.

Histórico de negligência

Poucos anos depois – por volta de 2002 – começaram as primeiras invasões. A princípio para a retirada da madeira, depois para grilagem e, por fim, para criação de gado. A paralisia do estado foi um convite a mais e mais invasores. Em 2014, provocada pelo Ministério Público Estadual, a Justiça determinou a retirada do gado da reserva. Mas nem os donos dos animais nem o governo do estado se mexeram para cumprir a decisão judicial.A Reserva Extrativista Jaci-Paraná foi criada em 1995 em uma área 205 mil hectares que abrange os municípios de Porto Velho, Campo Novo de Rondônia e Nova Mamoré. O primeiro problema veio no ano seguinte, quando a Assembleia Legislativa reduziu em 6,7% a área da Resex, para 191.234 hectares.

Jorge Lourenço responde pela Coordenadoria de Unidades de Conservação (UCs) de Rondônia, órgão da Sedam (Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental) responsável pela administração das UCs estaduais. Ele alega que a operação de retirada exige grande estrutura e o suporte de outros órgãos do governo e afirma que 49% da floresta da Resex já foram derrubados: “Você vê pela imagem [de satélite] que a unidade é toda pipocada. Somando pequenas ilhas de floresta, você tem 51% de floresta lá dentro. Mas na verdade não é uma floresta. Para a fauna, isso é terrível. Têm espécies que não atravessam 2 metros de área aberta”.

“A Agência de Defesa Sanitária não apenas aceita a venda do gado ilegal, como vai até a unidade de conservação para vacinar os animais contra febre aftosa”

Paulo Bonavigo hoje trabalha na ONG Ecoporé. Mas, entre 2011 e 2013, esteve à frente da mesma Coordenadoria de Unidades de Conservação. Nesse período, tentou retirar o gado da Jaci-Paraná. Organizou bloqueios com policiais armados nas estradas de acesso à UC, impedindo o ingresso de materiais de construção e de sal para alimentar o gado. Ao mesmo tempo, pediu que os pecuaristas retirassem os animais voluntariamente da Resex.

A reação foi imediata. Primeiro, as equipes de campo começaram a sofrer ameaças. Em seguida, teve início uma peregrinação de políticos ao seu escritório: “Recebíamos deputados, vereadores de Porto Velho e de outras cidades como Buritis, buscando uma solução para que essas pessoas ficassem lá dentro, mesmo que ilegais”.

A operação de retirada do gado implodiu quando passou a ser minada pelo próprio governo. O poder executivo, na época controlado pelo governador Confúcio Moura (MDB), alegou falta de recursos financeiros e de policiais para manter os bloqueios. Em uma ocasião, um integrante do governo estadual foi pessoalmente até uma barreira para liberar a entrada de sal de um invasor. Bonavigo cansou e decidiu deixar o cargo: “É frustrante”.

O boi não é ilegal, ele “está” ilegalAvião espalha sementes para plantar pasto para o gado ilegal. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Com seu motor de rabeta e casco comprido e raso, a voadeira é o melhor meio de transporte dentro da reserva, cortada pelos rios Branco e Jaci. As estradas são poucas, e a maioria das que existem foram abertas pelos invasores para acessar as fazendas e escoar gado. Não é preciso circular muito pelos rios para observar as primeiras queimadas e pastagens. Em uma das margens, chama atenção um descampado. Quando a canoa encosta no barranco, o cheiro de estrume revela o tipo de uso da terra. No desembarque, os bois correm para os fundos da propriedade.

“Este gado não é ilegal. Ele está em uma área ilegal, é diferente” argumenta José Raimundo do Nascimento, diretor-executivo da Idaron (Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril), que faz a vacinação contra febre aftosa em todo o gado de Rondônia. O órgão também é responsável pela emissão da GTA – Guia de Trânsito Animal -, que deve ser apresentada sempre que o produtor retira gado de uma área e o leva para outra, seja fazenda ou o frigorífico onde será abatido.

“A operação de retirada do gado implodiu quando passou a ser minada pelo próprio governo”

Como é proibido criar gado de forma extensiva dentro de unidades de conservação, nenhum frigorífico deveria aceitar comprar animais cuja Guia de Trânsito fosse emitida para uma propriedade dentro da Resex Jaci-Paraná. Mas como bem diz o ditado, boi não morre de velho no pasto. “Ninguém deixa 100 mil cabeças de gado à toa num canto. Esse gado tá rodando, né?”, diz Lourenço.

“Eles emitem a guia de trânsito animal em nome de uma propriedade fora da unidade de conservação para que este gado seja comprado pelos frigoríficos”, diz Bonavigo. “A maioria são grandes proprietários, grandes áreas, com grandes rebanhos bovinos, que criam, recriam [engordam] e vendem esse rebanho sem custo nenhum. Eles não compram a terra, o gasto deles é financiar a invasão”, afirma Bonavigo.

Trata-se da lavagem de gado. Mas Nascimento, da Idaron, defende o esquema: “Existe uma determinação para a retirada desse gado. A partir do momento em que é retirado da área de reserva acabou a ilegalidade. […] O gado não está sendo comercializado a partir da área proibida, da área de reserva, está sendo comercializado a partir de uma área legal”.

A Agência de Defesa Sanitária não apenas aceita a venda do gado ilegal, como vai até a unidade de conservação para vacinar os animais contra febre aftosa. Lourenço, o coordenador de UCs do estado, lamenta: “Nós gostaríamos que eles não vacinassem. Ou, se vacinassem, que a carteirinha sanitária daquele gado fosse apreendida”.”Como o gado foi detectado dentro dessa área e compete à Idaron vacinar o gado, nós tivemos que tomar essas providências. Mas não há em momento algum a aquiescência da Idaron”, rebate Nascimento. O diretor da Idaron garante que não há mais gado entrando na reserva, apenas saindo, e que a quantidade de animais está diminuindo.

Para confirmar a informação da redução do rebanho dentro da Resex, ((o))eco pediu acesso à série histórica de animais da área. Mas a única informação enviada pela Idaron refere-se a um levantamento do dia 17 de setembro de 2018, que apontou a existência de 73.310 bovinos dentro da unidade de conservação.

“Não está diminuindo. Ao contrário, está aumentado”, diz Aidee Torquato, promotora do Ministério Público Estadual sobre o tamanho do rebanho dentro da Resex. Ela não tem dúvidas da conivência da Idaron com as invasões: “[A Idaron] vai lá e não comunica a ninguém que vacinou gado dentro da unidade. Custei muito para descobrir a quantidade de gado lá dentro”. Aidee conta que precisa recorrer a suas próprias fontes para obter informações: “Com o Superintendente da Idaron eu nem converso”.

 Site da JBS acusou fornecedores dentro da Resex

Ao longo da apuração da reportagem, em novembro, ((o))eco localizou 4 fornecedores de gado da JBS dentro da Resex Jaci-Paraná: Sítio Olhos d`água, Fazenda Minas do Sul, Sítio Gabriela e Sítio Fortaleza. As informações constavam no próprio sistema de rastreamento da empresa, que mostra diariamente as coordenadas geográficas das fazendas que venderam gado para cada frigorífico da JBS.

Através deste sistema, a reportagem também encontrou 6 fornecedores da empresa com fazendas a menos de 10 km da Jaci-Paraná. Segundo a Sedam, a curta distância é um indicativo de que estas áreas podem ser utilizadas para esquentar o gado ilegal criado na Resex.

Por fim, 4 fornecedores estavam dentro da terra indígena (TI) Karipuna, que faz divisa com boa parte dos limites a oeste da Jaci-Paraná, e onde a atividade pecuária também é proibida.

Por e-mail, a assessoria de imprensa da JBS afirmou que “uma falha nos dados disponíveis no site gerou informações improcedentes sobre a localização das propriedades” e que as fazendas mencionadas pela reportagem “não estão em áreas de conservação ambiental ou em terras indígenas, encontrando-se, portanto, em situação de conformidade com a Política de Compra Responsável da empresa”.

A JBS afirmou ainda que “está tomando as medidas necessárias para a sincronização das bases de dados para que reflitam a correta realidade da origem de sua matéria-prima”. Consultas no site da JBS realizadas no fechamento da reportagem, em 04/12, depois de questionar a JBS sobre localização dos fornecedores, já não mostravam as 4 fazendas dentro da unidade de conservação Jaci-Paraná. Entretanto, 2 fornecedores – Fazenda Nossa Senhora Aparecida e Sítio Goiânia – seguiam localizadas dentro da TI Karipuna.

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A ONG Imazon fez um levantamento sobre a distância máxima e a área total que as compras de cada planta de frigorífico influenciam. O trabalho contou com questionários respondidos por administradores dos próprios frigoríficos. Na região da Jaci-Paraná, conclui-se que 17 frigoríficos têm áreas de compra de gado em potencial sobrepostas à Resex: Frigorífico Roma, Frigorífico Dallas, Frig S.A., Amazon Boi, Mafrico, Frigo Manaus, Distriboi, Irmãos Gonçalves, Frigorífico Tangará, Total S.A. (plantas de Rolim de Moura e Ariquemes), Frigorífico Nosso, Frigoari e JBS (plantas de Porto Velho,
Ariquemes, Pimenta Bueno e São Miguel do Guaporé).Mas há pouca transparência.

Apenas a JBS tem um sistema público de fornecedores que permite o acesso e o monitoramento pela sociedade civil. A empresa assinou o chamado TAC da Carne com o Ministério Público Federal (MPF), um Termo de Ajustamento de Conduta no qual se compromete a não comprar gado oriundo de unidades de conservação, terras indígenas, áreas embargadas pelo Ibama ou que constam da lista suja do trabalho escravo do Ministério do Trabalho.

“Uma das pistas de que uma fazenda está sendo usada para esquentar gado ilegal, por exemplo, é quando as GTAs indicam um grande número de animais mantidos em uma área pequena”

Daniela Faria, Procuradora da República do MPF de Rondônia e responsável pelos TACs da Carne no estado, não se manifestou sobre as práticas de lavagem de gado nem sobre os fornecedores da JBS localizados dentro da Resex. A procuradora não quis gravar entrevista, mas respondeu por e-mail à reportagem. Segundo ela, 5 empresas de Rondônia assinaram o TAC, todas em 2013. Apenas duas – JBS e o frigorífico Tangará LTDA – entregaram relatórios de auditorias, que até agora não foram analisados. Ainda de acordo com Faria, “oito frigoríficos de maior relevância” de Rondônia não assinaram o TAC.

Já o Ibama afirma que seu foco de atuação é nas unidades de conservação federais, mas que lavrou autos de infração dentro da Resex e subsidiou as ações civis públicas do Ministério Público Estadual contra os invasores. Também alegou dificuldades em fiscalizar as vendas para abate de gado ilegal, criado dentro da Resex. Para isso, seria necessário que o órgão tivesse acesso às Guias de Trânsito Animal, as GTAs. “O Ibama só obteve acesso às GTAs do estado do Pará, e via Ministério Público Federal”, afirma o Coordenador-Geral de Fiscalização Ambiental, Renê Luiz de Oliveira.

Entretanto, Oliveira afirma que os próprios frigoríficos poderiam identificar esquemas de esquentamento de gado. “Pode ser mais trabalhoso, isso sim”, diz. Uma das pistas de que uma fazenda está sendo usada para esquentar gado ilegal, por exemplo, é quando as GTAs indicam um grande número de animais mantidos em uma área pequena, algo incomum em uma região onde o normal é menos de um boi por hectare.

Terra na mão de laranjas

A pequena aeronave desponta no céu e faz um rasante sobre a vegetação, lançando sementes para formar uma nova pastagem (assim como outras culturas agrícolas, o pasto precisa ser plantado). “De ontem pra hoje tá cruzando direto aqui no meu barraco”, afirma Raimundo Leônidas de Lima Pereira, um dos moradores da Resex. O filho de seringueiro já não sabe por quanto tempo vai poder continuar colhendo sua macaxeira, milho e melancia.O flagrante do avião mostra o tipo de estrutura de que dispõem os invasores.  “São grandes lagos artificiais, jet-skis, casas enormes, blindex”, diz Bonavigo. “[…] fazendas mantidas por pessoas que têm muito dinheiro”.

O Ministério Público de Rondônia já entrou com mais de 70 ações civis públicas contra os invasores da Jaci-Paraná. Os processos correm em nome daquelas pessoas que se identificam como os donos do gado. “Se é o invasor principal, se é o mantenedor econômico da invasão, a gente não sabe. […] Como é uma invasão, o dono em si não aparece. Aparecem pessoas que visivelmente não são os proprietários”, afirma Lourenço.

Aidee Torquato estima que metade destas pessoas sejam laranjas. Ou seja, assumem o lugar dos verdadeiros fazendeiros em troca de algum benefício: “A gente desconfia que deve ter laranja de político. Ele vem para audiência, assume que é o dono do gado e responde [judicialmente]. Aí, nunca vou saber qual é o político”.

A Promotora desistiu de investigar quem está por trás dos laranjas e centrou esforços para obrigar a retirada do gado. Para se proteger, ela se nega até mesmo a citar os nomes que constam nos processos: “Eu já tenho problema que chega com esse povo. Então, não vou ficar divulgando nome, não vou incitar mais a ira dessas pessoas contra mim”. Questionada se já sofreu ameaças, a Promotora diz: “Isso é comum, não é novidade”.

Pequenos, para os políticos

Fumaça de queimada sinaliza derrubada de mata. Da floresta da Resex, metade já foi derrubada pelos invasores. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Segundo Bonavigo, as invasões de unidades de conservação viraram rotina em Rondônia, e seguem sempre um mesmo padrão: “Invade, tem uma ligação com grupos políticos que mantêm essas pessoas lá, com o discurso de que são pequenos produtores, enquanto os pequenos que realmente vivem lá são a minoria”.

A defesa dos pequenos produtores rurais faz parte do discurso de deputados estaduais. Entre eles está Ribamar Araújo (PR), que recebeu ((o))eco na Assembleia Legislativa de Rondônia. O deputado defende os pequenos agricultores que querem trabalhar e progredir. Confrontado pela reportagem com informações de que a maioria dos invasores da Resex são latifundiários, Araújo defende a divisão das propriedades: “A reforma agrária tá aí pra isso, ele [o governo] pode pegar essas grandes áreas que tão ocupadas pelos grandes fazendeiros e lotear para os pequenos, nada impede”.

Araújo foi um dos parlamentares que votou pela extinção da Resex Jaci-Paraná em 2014, logo depois que a Justiça determinou a retirada do gado da área. O deputado é contra a criação de unidades de conservação em áreas férteis, e diz que esse é o grande problema da Jaci-Paraná: “Se a terra não fosse tão fértil, eles não tinham adentrado lá”. O parlamentar também nega que a sua postura, favorável à extinção da unidade de conservação, estimule novas invasões e ameaças aos extrativistas: “Sou contra a violência, só existe isso por falta de autoridade do governo”.

Poucas semanas após a entrevista, a Assembleia Legislativa de Rondônia aprovou, por unanimidade, um projeto que anula a criação de 11 unidades de conservação estaduais. Por ora, a Resex Jaci-Paraná não entrou na lista.

O mau exemplo de Bom Futuro

Já vi este filme antes. Este é o sentimento descrito por quem trabalha com conservação ambiental em Rondônia e acompanha a paulatina invasão da Resex Jaci-Paraná. A sequência de invasões cada vez mais ostensivas e a pressão política em favor dos pecuaristas, tudo isso aconteceu com a Floresta Nacional (Flona) do Bom Futuro.Lá, as invasões começaram na década de 1990. Em poucos anos, os invasores haviam criado uma vila dentro da unidade de conservação. Em 2010, a solução encontrada pelos governos federal e estadual foi acomodar os invasores, reduzindo em dois terços o tamanho da Bom Futuro. O resultado foi parte de um acordo entre o então presidente Lula (PT) e o governador à época, Ivo Cassol (PP). Em troca da redução da Flona, o governo do estado cedeu para a União as terras necessárias para a construção da usina hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira.

As áreas desafetadas − retiradas da área original da Flona − foram transformadas na Área de Proteção Ambiental (APA) e na Floresta Estadual do Rio Pardo (FES), categorias com níveis de proteção mais baixos que os de uma Floresta Nacional. Ao invés de acalmar, a medida incitou ainda mais invasões. Desde então, foram necessárias duas ações policiais para a retirada de pessoas de dentro da Bom Futuro. Em uma delas, em 2013, um policial militar morreu baleado.

 

Compensação de carbono usada por grandes companhias aéreas com base em sistema falho, alertam especialistas

Floresta,Desmatamento,Amazônia,Brasil,Meio Ambiente,EcologiaFlorestas em todo o mundo estão ameaçadas de desmatamento. O parque nacional Tapantí, na Costa Rica, é cuidadosamente protegido como parte dos planos do governo para chegar a zero líquido até 2050. Fotografia: REUTERS / Alamy

O mercado de compensação de carbono de proteção florestal usado por grandes companhias aéreas para reivindicações de voos neutros em carbono enfrenta um problema significativo de credibilidade, com especialistas alertando que o sistema não é adequado para o propósito, descobriu uma investigação.

O dinheiro das compensações de carbono pode fornecer suporte financeiro vital para projetos que buscam proteger e restaurar alguns dos mais belos ecossistemas ameaçados em todo o mundo. Dado que as soluções baseadas na natureza podem dar uma contribuição significativa para a mitigação do clima necessária para estabilizar o aquecimento global, um canal de financiamento funcional será importante para o progresso da mudança climática e, particularmente, para os países em desenvolvimento.Mas uma investigação conjunta sobre os esquemas de compensação usados ​​por algumas das maiores companhias aéreas do mundo realizada pelo Guardian and Unearthed, braço investigativo do Greenpeace, descobriu que embora muitos projetos florestais estivessem fazendo um trabalho valioso de conservação, os créditos que eles geraram ao prevenir a destruição ambiental aparecem para ser baseado em um sistema falho e muito criticado, mesmo que esses créditos estivessem sendo usados ​​para apoiar alegações de “vôo neutro em carbono” e compromissos líquidos zero.

Analisamos 10 esquemas de proteção florestal que as companhias aéreas estavam usando antes da pandemia, que foram credenciados pela Verra, uma organização sem fins lucrativos dos EUA que administra o padrão de crédito de carbono líder mundial, VCS (Verified Carbon Standard). Os projetos estimam as emissões que evitaram, prevendo quanto desmatamento e desmatamento teriam ocorrido sem eles. As reduções são então vendidas como créditos. Descobrimos que suas previsões eram frequentemente inconsistentes com os níveis anteriores de desmatamento na área e, em alguns casos, a ameaça às árvores pode ter sido exagerada.

Além disso, existem preocupações sobre o problema inerente de olhar para o futuro e prever quais árvores seriam ou não abatidas, e de provar a adicionalidade – que o próprio projeto fez uma diferença para o resultado – que atrapalhou o sistema de compensação de seu início. Embora tenha havido trabalho para abordar essa questão fundamental, descobrimos que as preocupações permaneceram.

As descobertas foram duramente criticadas pela Verra, que afirma que os métodos por eles endossados ​​contribuíram para a luta contra as mudanças climáticas e o desmatamento, e transformaram as economias locais para melhor.
As descobertas foram duramente criticadas pela Verra, que afirma que os métodos por eles endossados ​​contribuíram para a luta contra as mudanças climáticas e o desmatamento, e transformaram as economias locais para melhor.

Thales West, um cientista e ex-auditor de projetos, conduziu um estudo sobre esquemas na Amazônia brasileira que descobriu que os projetos costumavam exagerar nas suas reduções de emissões. Ele disse que as metodologias “não são robustas o suficiente”, o que significa que “há espaço para projetos gerarem créditos que não tenham nenhum impacto no clima”.

Arild Angelsen, professor de economia da Universidade Norueguesa de Ciências da Vida e especialista em Redd + (redução das emissões do desmatamento e degradação florestal), disse que embora as metodologias da Verra para reivindicar créditos fossem uma tentativa séria de medir as reduções de emissões decorrentes da redução do desmatamento, eles eram atualmente não é robusto o suficiente.

Britaldo Soares-Filho, especialista em modelagem de desmatamento e professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal de Minas Gerais, disse ao Guardian que, no sistema atual, calcular reduções genuínas de emissões depende da capacidade de prever o futuro com precisão. “Os modelos não são bolas de cristal. Os modelos são um sinal para ajudar a formular políticas e avaliar as opções de políticas ”.

O software de uso da terra que ele projetou, Dinamica EGO, é frequentemente usado por projetos para prever onde o desmatamento teria ocorrido. Soares-Filho disse, em sua experiência, os projetos tendem a aumentar as ameaças à floresta e as atuais abordagens de modelagem resultam em “créditos de carbono fantasma”.
Alexandra Morel, uma cientista do ecossistema da Universidade de Dundee que esteve envolvida na criação de um dos 10 projetos em questão, acredita que foi difícil julgar se as reduções de emissões reivindicadas pelos projetos eram reais.

“É impossível provar um contrafactual”, disse ela. “Em vez de apenas avaliar quais florestas estão realmente lá, que estão ativamente fornecendo um sumidouro ou armazenamento de carbono agora, temos que supor quais florestas ainda estariam aqui contra quais são as florestas bônus que foram poupadas do machado teórico.”

Margaret Kim, CEO da Gold Standard, outra organização que certifica compensações de carbono, disse ao Guardian e à Unearthed que sua organização não certificou projetos Redd + porque ela acreditava que a forma como foi criada não funcionava. “Um projeto pode realmente selecionar áreas de proxy. Portanto, uma região de referência pode ser configurada para ser mais conveniente para um projeto para maximizar sua taxa de desmatamento de linha de base. ”

A Verra, que atesta os projetos estudados nesta investigação, apontou que muitos dos benefícios proporcionados por esses projetos eram difíceis de medir. “A Verra canaliza financiamento, tecnologia e conhecimento para comunidades rurais dependentes da floresta que, de outra forma, carecem de recursos. Esses projetos enfrentam o desmatamento de maneiras cada vez mais novas e criativas.”Em todo o mundo, terras agrícolas, como a plantação de óleo de palma vista aqui, estão devorando a floresta original. Os projetos florestais buscam reduzir o desmatamento usando uma variedade de métodos. Fotografia: Willy Kurniawan / Reuters

Eles criam empregos criando guardas para vigiar a extração ilegal de madeira; eles apóiam os agricultores locais que desejam mudar para práticas mais sustentáveis; melhoram o acesso à água e à educação. “Em suma, os projetos estão trabalhando para transformar as economias locais para que não tenham mais que depender do corte da floresta.” Alguns dos projetos apontaram que estavam lidando com pecuaristas e madeireiros agressivos, funcionários públicos corruptos, plantações de coca e cartéis de drogas locais e pobreza extrema, bem como mudança climática.

Mas a Verra também acredita fortemente em seu programa Redd + e argumentou que a análise de nossa investigação foi “profundamente falha”. Ele ressaltou que, desde nosso contato inicial com ele, havia iniciado o processo de alteração de seu padrão com um conjunto abrangente de atualizações que acredita representar “nosso compromisso em garantir que a contabilização das reduções de emissão dos esforços de preservação florestal seja o mais precisa possível , incorpora de forma consistente as melhores práticas científicas mais recentes e apóia esforços liderados pelo governo para impedir o desmatamento ”.

Crystal Davis, diretora do Global Forest Watch do World Resources Institute, defendeu fortemente a utilidade dos mecanismos de financiamento da conservação e destacou que “as florestas tropicais não podem perder o Redd + como mecanismo de financiamento da conservação em escala”.

Ela não acha que a análise da McKenzie Intelligence Services (MIS), uma empresa com sede em Londres especializada em análise e inteligência de imagens geoespaciais, mostrou que os projetos estavam inflando suas projeções, mas concordou que “a avaliação post-facto da integridade das linhas de base é realmente difícil de fazer.

“Isso é um grande problema. Eu não acho que o Redd + jamais alcançará todo o seu potencial como um mecanismo de financiamento da conservação se não pudermos criar mais transparência e responsabilidade voltadas para o público no sistema.” Ela acrescentou que foi incentivada a ver grandes esforços em andamento para alcançar isso.
Já se passou bem mais de uma década desde que os governos mundiais surgiram com um plano para desacelerar e até parar o desmatamento como parte da ação internacional sobre a crise climática. O plano era simples: os países em desenvolvimento seriam, basicamente, pagos para não derrubar árvores. A ideia, assinada em 2007, foi batizada de Redd +.

Esperava-se que as reduções de emissões alimentassem um sistema cap-and-trade para o clima, um método baseado no mercado que se provou bem-sucedido algumas décadas antes em lidar com a chuva ácida (e depois a camada de ozônio), estabelecendo limites sobre quanto dióxido de enxofre cada empresa poderia emitir. Se você precisava emitir mais do que seu limite, você comprava créditos de uma empresa que havia conseguido emitir menos. Os benefícios de emitir menos e o custo de emitir mais rapidamente reduziram as emissões. O plano era fazer o mesmo com os gases do efeito estufa em escala global.

Mas 13 anos depois, a intensa discordância sobre o mercado global de carbono que sustentaria o Redd + e outros sistemas de mitigação do clima significa que é a única parte do livro de regras do acordo de Paris que os governos ainda não concordaram. Na ausência de um sistema robusto e internacionalmente aceito, projetos de proteção florestal não regulamentados em pequena escala surgiram em todo o mundo, geralmente conhecidos como “Redd + voluntário”.

Não existe um sistema de certificação oficial, mas o mais utilizado é o Verra. Empresas como companhias aéreas, empresas de sorvete, bancos – qualquer um que emita carbono e queira compensar suas próprias emissões – dão dinheiro às ONGs para continuar protegendo a floresta.

Até agora, o mercado de compensação de carbono tem sido pequeno, cerca de US $ 300 milhões (£ 215 milhões) em 2019. Mas, durante os últimos dois anos, uma grande onda de estratégias corporativas líquidas de zero e reivindicações de neutralidade de carbono mudaram a necessidade de contabilidade de carbono rigorosa para créditos Redd +. O ex-governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, está liderando uma força-tarefa para transformar a compensação de carbono em um mercado anual de bilhões de libras. O chanceler, Rishi Sunak, anunciou sua intenção de fazer de Londres um centro de comércio global para compensações voluntárias.

Para que estes projetos cumpram o papel que lhes foi delineado na descarbonização do mundo desenvolvido, proporcionando compensações para grandes empresas e ajudando a contribuir para a jornada da rede zero, é vital que as metodologias que utilizam para calcular o a redução das emissões são rigorosas e precisas.A extração ilegal de madeira – como este carregamento apreendido pela Polícia Militar da Amazônia no Brasil no ano passado – é uma ameaça crítica para as florestas. Fotografia: Ricardo Oliveira / AFP / Getty Images

Atualmente, a Verra tem uma série de requisitos para projetos que concordará em certificar e existem várias metodologias que podem ser utilizadas. Geralmente, cada projeto Redd + deve medir o desmatamento e as mudanças no uso da terra em uma região de referência, uma área muito maior que é considerada representativa do esquema que geralmente inclui o projeto. Eles também devem documentar as ameaças ambientais de áreas próximas, suas atividades de conservação, a composição ecológica da área e o provável efeito do projeto Redd + nas comunidades que vivem dentro e ao redor dele, em muitos casos projetando tendências históricas no futuro.

O número de créditos de carbono gerados por um projeto depende da diferença entre sua previsão de desmatamento e o que realmente acontece. A Verra diz que suas metodologias são conservadoras por design para garantir que as previsões contrafactuais sejam realistas. As reivindicações são então verificadas por um auditor terceirizado aprovado para ver se eles seguiram a metodologia corretamente.

The Guardian and Unearthed analisaram 10 projetos, que fornecem créditos a seis grandes companhias aéreas, incluindo a British Airways e a easyJet, para avaliar, da melhor forma que pudemos com a ajuda de especialistas e análises de satélite encomendadas, exatamente o quão realistas eram suas previsões. Embora esta não seja uma análise abrangente de projetos voluntários do Redd +, esses projetos constituem 10 dos 79 que Verra supervisiona, portanto, uma análise dará algumas dicas úteis sobre o funcionamento do setor maior. Vimos as ferramentas que eles usaram para suas previsões e os resultados até o momento.

A investigação encontrou um uso inconsistente de métodos e ferramentas preditivas. Dois dos projetos usaram o Dinamica EGO para estimar onde o desmatamento ocorreria devido às ameaças ao meio ambiente. Soares-Filho advertiu contra seu uso para projetos Redd +, e disse que a abordagem de modelagem para calcular linhas de base prospectivas resultou em “créditos fantasmas” porque o software não foi projetado para prever o futuro com precisão.

Dois modelaram o desmatamento e a mudança no uso da terra usando uma ferramenta que lhes permite supor um aumento maciço na taxa de desmatamento em comparação com a taxa histórica.

Um projeto usou um modelo simples de variável única, que previu um grande aumento no desmatamento na ausência do projeto. Outros dois construíram seus próprios modelos – um alegando que toda a floresta tropical teria desaparecido sem eles, outro alegando que cerca de um quarto iria desaparecer. Outro adotou uma linha de base do governo nacional. Um disse que evitaria grandes quantidades de desmatamento com cultivo sustentável de nozes, outro com uma mistura de extração planejada de madeira e proteção florestal.

Vimos as taxas de desmatamento anteriores dentro e ao redor dos projetos e as comparamos com as taxas previstas. Aqui, descobrimos que, onde pudemos comparar, os projetos geralmente previam taxas de desmatamento que pareciam inconsistentes com as taxas anteriores.

Um projeto previu uma taxa anual que era o triplo do pior ano antes de começar. Um em uma parte remota e inacessível da selva baseava suas previsões na taxa de desmatamento de cada lado de uma estrada principal. Outro estava cuidando de uma área que havia sido transformada em parque nacional e onde não ocorria desmatamento ilegal há anos. Apesar disso, previu um grande aumento no desmatamento se o projeto não estivesse lá.

Um tinha taxas muito baixas de desmatamento antes do início do projeto, mas previa altas taxas anuais sem ele, enquanto outro havia adotado uma abordagem geralmente conservadora. Não foi possível avaliar as projeções de cinco projetos devido às limitações técnicas e metodológicas utilizadas.
Quatro esquemas haviam feito previsões de desmatamento sobre sua área de projeto e uma região de referência circundante que poderíamos facilmente examinar. Pedimos à MIS que avaliasse a perda de cobertura de árvores nas áreas de referência de todos os quatro projetos, excluindo as áreas do projeto (por uma série de razões, não era apropriado ou possível examinar todas as 10). Se a cobertura de árvores for menor nessa área, isso pode indicar que as previsões originais eram imprecisas e as linhas de base do desmatamento foram infladas.

No entanto, como Verra, GFW e alguns dos projetos nos indicaram, isso também pode indicar que os projetos foram muito mais bem-sucedidos do que o inicialmente esperado, e que o trabalho para reduzir o desmatamento dentro dos projetos se espalhou para a área circundante, reduzindo o desmatamento na região.

A análise do MIS, de fato, descobriu que o desmatamento nas regiões de referência foi muito menor do que o previsto; em dois projetos, a taxa real de desmatamento, de acordo com os números do MIS, ficou em torno de um terço da taxa prevista. Em outro era metade, enquanto em um terço era apenas um quinto. Mas a dificuldade em avaliar o significado dessas informações destaca um problema fundamental com o sistema contábil.

Conversamos com todos os projetos sobre seus desafios e benefícios de seu trabalho. “[Estamos lidando com] pecuaristas e madeireiros agressivos, funcionários públicos corruptos, plantações de coca e cartéis de drogas locais, pobreza extrema, tempestades tropicais, incêndios florestais, políticas perversas de uso da terra e agora mudanças climáticas”, disse um projeto.

Vários disseram que estavam protegendo ecossistemas preciosos com vida selvagem rara e suas atividades ajudaram a sustentar sua sobrevivência. “Contamos com o mercado voluntário de carbono para pagar as comunidades da floresta pelos serviços ambientais que prestam à comunidade global, que incluem a proteção da floresta e a redução das emissões de carbono”, disse outro. “Usamos a melhor ciência disponível e cumprimos os protocolos acordados e verificados por terceiros para produzir créditos de carbono que atestam os serviços ambientais que estão sendo prestados.”

Os créditos de carbono foram uma fonte vital de financiamento para quase todos os projetos. Um disse que eles preencheram a lacuna depois que o financiamento de doadores ocidentais acabou. Outro disse que o dinheiro dos créditos ajudava a apoiar comunidades que, de outra forma, não teriam uma fonte externa de renda. Alguns projetos Redd + eram esquemas com fins lucrativos e diziam que as críticas ao sistema eram ideológicas.

Infelizmente, nenhuma avaliação científica abrangente foi publicada sobre como os projetos de compensação de carbono com base em florestas afetam o desmatamento. Este ano, os pesquisadores da Universidade de Cambridge devem publicar um estudo inédito para avaliar o quão bem os projetos Redd + param e reduzem o desmatamento.

O estudo de 2020 da West, que foi publicado no PNAS, avaliou 12 esquemas Redd + aprovados pela Verra na Amazônia brasileira para analisar como as reduções de emissões alegadas combinavam com a realidade.

Para fazer isso, os pesquisadores compararam as tendências de desmatamento em projetos Redd + com grupos de controle com características semelhantes, descobrindo que os esquemas rotineiramente exageraram em suas reduções de emissões. O estudo descobriu que as reduções no desmatamento foram quase todas devido a políticas em nível nacional, como a moratória da soja de 2006 na Amazônia, que causou quedas espetaculares no desmatamento, não os projetos.

Embora os 12 projetos reivindicassem 24,8 milhões de toneladas de reduções de emissões usando metodologias Verra, as taxas de desmatamento em 11 deles não mostraram nenhuma diferença com os grupos de controle no estudo. Para o único projeto que o fez, os autores disseram que 40% das emissões declaradas foram exageradas.

Em um comunicado, a Verra disse estar preocupada que o Guardian não entendesse como suas metodologias funcionavam, ou as regras do VCS, a investigação era “fatalmente falha” e não havia produzido jornalismo baseado em fatos, ignorando seu sucesso na preservação de árvores em pé. A organização contestou a independência da investigação e a descreveu como um “hit” por causa da oposição do Greenpeace aos créditos de carbono, acrescentando que muitas das críticas estavam desatualizadas e não refletiam o que estava acontecendo atualmente com os créditos de carbono Redd +. Por fim, Verra disse que o jornalismo era perigoso, pois ameaçava as finanças para preservar as florestas em pé e era mais parecido com uma campanha política.

A Verra está fazendo mudanças substanciais na forma como os projetos geram créditos para cumprir as mudanças prováveis ​​se as divergências sobre o livro de regras do acordo de Paris que cobre o Redd + em nível nacional forem resolvidas. Os projetos serão “aninhados” em sistemas nacionais e regionais e derivarão créditos de uma linha de base alocada nacionalmente. A organização desenvolveu uma nova ferramenta de mapeamento de risco para destacar as áreas de maior risco de desmatamento. Verra disse que os créditos gerados com as metodologias anteriores não seriam retirados.

Em resposta aos resultados da investigação, as companhias aéreas disseram que confiavam na qualidade dos créditos Redd + que usavam para compromissos climáticos, que muitas vezes eram obtidos por meio de terceiros. A EasyJet, que compensa as emissões de combustível em nome de todos os clientes para “voos neutros em carbono”, disse que era uma medida provisória enquanto a tecnologia de emissão zero era desenvolvida e a companhia aérea estava confiante de que os projetos que apoiou estavam efetivamente evitando a perda de floresta.

A British Airways disse que está comprometida com as emissões líquidas zero até 2050 e que a compensação continua sendo uma parte importante de seu plano de curto prazo, enquanto alternativas aos combustíveis fósseis são desenvolvidas.

Delta disse que as metodologias da Verra são rigorosas e baseadas na ciência, acrescentando também que está investindo em tecnologias de baixo carbono. Outras companhias aéreas ecoaram esses comentários e disseram que o uso de compensações era uma medida intermediária.

Doc Amazônia 4.0: floresta em pé é mais lucrativa que agronegócio

Já está disponível na Plataforma Grape ESG o filme Amazônia 4.0 – The Reset Begins.

Foto Rodrigo Baleia / Greenpeace

O documentário alerta sobre a proximidade de um ponto de devastação sem retorno. Mas a produção audiovisual lançada no Dia da Terra, revela que também há espaço para otimismo, ao apresentar alternativas para o desenvolvimento sustentável da Floresta Amazônica. Mas é preciso agir rápido.

O pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Nobre, diz que é preciso avaliar uma outra perspectiva econômica para a região. Ele afirma que a agricultura e a pecuária, principalmente esta última, foram reveladas como fontes de baixa produtividade. Perde o meio ambiente e perdem as populações: “mais de 60% da população da Amazônia é pobre. Desmatamos e não trouxemos benefícios para as populações”.

O filme idealizado com o objetivo de provocar e inspirar discussões oportunas, positivas, e com visão de futuro, envolvendo empresas, executivos e a ciência, é lançado num momento em que a Cúpula de Líderes de 40 nações foca em amenizar e frear os impactos climáticos para o planeta.
Carlos é um dos importantes nomes da ciência, academia, organismos internacionais e dos negócios, que participam como entrevistados do documentário. No início do filme, ele revisita o passado para demonstrar que o modelo atual de desenvolvimento econômico precisa ser revisto.

Ele revela que a prática de devastação das florestas tropicais tem origem na colonização europeia. “Desde que chegaram na América do Sul, há 520 anos, jamais viram o valor das florestas. Vieram de um continente de baixa diversidade. Isso fez com que eles trouxessem um modelo de utilização da terra que não via valor nas florestas”.

E assim, o modelo se replicou por ano, sem que os governantes brasileiros vissem a natureza tropical como um fator econômico de desenvolvimento.
“Desmatamos 80% da Mata Atlântica, 50% do Cerrado e a Amazônia, 20%. A visão do governo militar do final dos anos 60 e início dos anos 70 apresentava a floresta como obstáculo de desenvolvimento. Queima-se a floresta para gerar a fertilização dos pastos para o gado. E como sabemos, as emissões de gases do efeito estufa são muito altas”. Segundo ele 50% vem do desmatamento da Amazônia.

“Precisamos encontrar um outro paradigma para manutenção dos nossos biomas e principalmente, para salvar a Amazônia, pois o clima está mudando. A estação seca já está muito mais longa no Sul da Amazônia, a floresta já não recicla tanta água e não absorve mais tanto carbono da atmosfera. Estamos arriscando a torna-la uma savana”.

Ele alerta que é preciso pensar rápido sobre a restauração de uma enorme área já desmatada e muito abandonada. “23% de toda área foi abandonada pela agricultura e pecuária, então, precisamos inovar, enxergar a riqueza da floresta em outra perspectiva, o grande potencial que o país tem como a maior biodiversidade do planeta”.
A propósito, o filme foi inspirado por um artigo do estudioso, publicado no The New York Times em outubro de 2020, onde ele trata dos princípios da bioeconomia, reforçando que a região Amazônica pode acomodar tantos os seres humanos quanto a biodiversidade.

É hora de alugar, não comprar, eletrônicos?

O lixo eletrônico é um problema crescente. Mas se os fabricantes mantivessem a propriedade de seus produtos e os alugassem para nós, a reciclagem poderia fazer sentido para os negócios.

Laptops, telefones e tablets são lançados em novas e mais chamativas atualizações a cada ano, e os consumidores os absorvem, ansiosos por adquirir os modelos mais recentes e desejáveis com os recursos mais avançados. Mas a cada atualização, modelos mais antigos são acumulados em aterros sanitários em todo o mundo.

Em 2020, geramos um recorde de 53,6 milhões de toneladas métricas de lixo eletrônico, de acordo com o Monitor Global de E-waste da Universidade das Nações Unidas (UNU) – uma instituição acadêmica e de pesquisa da ONU – entre outras organizações. A previsão é que esse montante chegue a 74 milhões de toneladas até o final da década.

Além do grande volume de lixo que se acumula em pilhas de lixo, os eletrônicos geralmente contêm produtos químicos tóxicos, como mercúrio e clorofluorcarbonos, que podem contaminar o meio ambiente.

Apesar da crescente conscientização sobre o problema, poucos desses resíduos estão sendo reciclados.

Tanto as pessoas quanto o meio ambiente sofrem com os impactos negativos do lixo eletrônico

“Embora os consumidores muitas vezes digam ‘Sim, é claro que sou a favor da reciclagem e sim, eu reciclo’, quando você realmente olha para os comportamentos, isso não corresponde às porcentagens que dizem que o fariam”, disse Laura Kelly, diretora do grupo Shaping Sustainable Markets no Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED), uma organização de pesquisa independente com sede em Londres.

É por isso que alguns especialistas estão pedindo uma revisão radical do modelo de negócios dos fabricantes de eletrônicos.

“A inovação é muito necessária para reutilizar o máximo possível”, disse Ruediger Kuehr, diretor do Programa de Ciclos Sustentáveis ​​da UNU e um dos autores do Global E-waste Monitor.

Kuehr acredita que precisamos “desmaterializar” os setores eletrônicos – em vez de comprar e possuir a tecnologia mais recente, devemos alugar os dispositivos que usamos, com os fabricantes mudando seu modelo para fornecer um serviço em vez de bens materiais.

Mudando a responsabilidade dos consumidores para os fabricantes
Com os fabricantes mantendo a propriedade de seus produtos, o fardo da reciclagem passaria dos consumidores – que geralmente não sabem a melhor forma de descartar dispositivos antigos – para empresas que reutilizariam materiais e peças para novos produtos.

Muitos produtos eletrônicos ficam rapidamente desatualizados

Em 2019, apenas 17,4% do lixo eletrônico – 9,3 milhões de toneladas – foi formalmente coletado e reciclado, de acordo com o último Monitor de lixo eletrônico. Em grande parte, isso resulta em instalações de reciclagem que operam independentemente dos fabricantes. E como o lixo eletrônico não é problema deles, os próprios fabricantes têm pouco incentivo para projetar produtos com a desmontagem fácil e a recuperação de materiais reutilizáveis ​​em mente.

Os novos dispositivos com invólucros suaves da era espacial costumam ser virtualmente impossíveis de desmontar, o que significa que até os materiais preciosos que eles contêm vão parar em aterros sanitários. E para os fabricantes, quanto mais rápido os descartamos e substituímos, maiores serão seus lucros.

No entanto, para certos produtos, os modelos de leasing já estão provando fazer sentido para os negócios. A empresa japonesa de eletrônicos Canon tem um esquema para alugar grandes impressoras de escritório na Europa, que Kuehr citou como um exemplo de desmaterialização. A Hewlett-Packard e a Xerox oferecem iniciativas semelhantes.

Quando um aluguel termina, a Canon pega de volta a impressora usada, a recondiciona para o próximo cliente ou, se ela não estiver mais em funcionamento, a envia para suas instalações em Giessen, Alemanha, onde é desmontada no chassi. As peças são então reutilizadas no conserto de outras máquinas. Isso permite que a empresa recupere 80% dos materiais em peso, de acordo com o gerente de sustentabilidade da Canon Andy Tomkins.

Lixo plástico aumenta na pandemia e reciclagem do material diminui no Brasil

A pandemia de Covid-19 fez com que o consumo de plástico aumentasse, seja pela facilidade do delivery quanto pela necessidade do uso de materiais hospitalares como máscaras e luvas

Em contrapartida, a reciclagem de plástico no Brasil diminuiu e um dos motivos é a proibição dos mutirões de limpeza.

Consumo de plástico aumenta na pandemia

Um estudo realizado pela Fundação Heinrich Böll aponta que o Brasil recicla apenas 1,28% do lixo plástico que é consumido no país. Desse percentual, cerca de 90 a 170 mil toneladas de plástico vão parar no oceano, agravando ainda mais os problemas ambientais.

O Plano Nacional de Combate ao Lixo do Mar, criado em abril de 2019, está parado desde março devido à pandemia e os R$ 40 milhões destinados para ele ainda não foram desembolsados, pelo mesmo motivo.

Segundo informações das autoridades envolvidas, ainda não há previsão para o retorno das atividades de limpeza das praias.

Reciclagem de plástico no Brasil

De todo o lixo que é produzido no Brasil, cerca de 13,5% é plástico e desse percentual, apenas 1,28% é reciclado. Isso ocorre porque a maioria dos brasileiros (75%) não separa o lixo orgânico dos demais, segundo dados extraídos de uma publicação da BBC News Brasil.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, foi criada em 2010 com o objetivo de reduzir o impacto dos resíduos sólidos no meio ambiente. No entanto, alguns fatores como a dupla tributação e a falta de incentivo à reciclagem no país, levou o plano ao fracasso, dez anos depois.

A Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico) aponta que os principais motivos para o baixo índice de reciclagem no país são:

  1. o descarte inadequado,
  2. a falta de coleta seletiva,
  3. a baixa infraestrutura para reciclagem e
  4. as dimensões continentais que tornam a reciclagem inviável em algumas regiões.

Contudo, o Ministério do Meio Ambiente anunciou que alguns projetos saíram do papel em 2019, como por exemplo o Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão de Resíduos Sólidos (SINIR). Esse instrumento comporta medidas de apoio a municípios e consórcios e sistemas de logística reversa para setores de eletroeletrônicos, baterias automotivas de chumbo e medicamentos.

A Abiplast elogia a iniciativa, mas lembra que ainda há muito o que ser feito. A responsabilidade de fazer a reciclagem do plástico acontecer deve ser compartilhada com todos os envolvidos: Indústria, Executivo, Ministério Público, Estado e, principalmente, consumidores.

Em paralelo à Política Nacional de Resíduos Sólidos está o Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, citado anteriormente. Este plano foi desenvolvido com o intuito de incentivar a redução do consumo e da produção de plástico, bem como de banir o uso de plásticos descartáveis (de uso único).

Contudo, o problema não está no uso do plástico em si, mas sim na conscientização das pessoas sobre a importância dele e essa é a verdadeira raiz do problema. Reduzir o consumo do que não é reciclável e reaproveitar o que é, são a chave para diminuir a poluição do planeta, seja por plástico ou qualquer outro resíduo produzido por cada um de nós diariamente.

Mas a culpa não pode recair somente sobre o consumidor final. Governos devem incentivar o desenvolvimento e uso de materiais sustentáveis que substituam o plástico. Ideias não faltam.

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Ambiente: Em um ano, governo Bolsonaro corta verba para brigadistas em 58%

Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

Apesar de alta das queimadas na Amazônia e no Pantanal, orçamento destinado à contratação de pessoal de prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais sofreu forte redução entre 2019 e 2020.

Até o fim de agosto, fogo consumiu 12% do Pantanal em 2020

Mesmo com as queimadas na Amazônia aumentando 30% em 2019 e com o Pantanal registrando o maior número de queimadas em mais de uma década, o governo Bolsonaro vem cortando drasticamente a verba para contratação de profissionais para prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais.

O gasto esperado com a contratação de pessoal de combate ao fogo por tempo determinado, somado ao de diárias de civis que atuam como brigadistas, caiu de R$ 23,78 milhões em 2019 para R$ 9,99 milhões neste ano – uma redução de 58%, de acordo com dados oficiais do Portal da Transparência.

Este foi o segundo ano seguido de redução no orçamento total para prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais. A verba inicialmente planejada para a área em 2018 era de R$ 53,8 milhões, reduzida em 2019 para R$ 45,5 milhões, e para R$ 38,6 milhões em 2020. Do ano passado para este, a redução foi de 15%.

Em meio aos cortes, o Pantanal vive seu pior ano em termos de queimadas de que se tem registro. De janeiro a 10 de setembro de 2020, o Pantanal somou 12.703 focos de incêndio, o mair número para o período desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou o monitoramento, em 1998. Segundo dados do órgão federal, nos primeiros oito meses do ano, 18.646 km² do bioma foram consumidos pelas chamas, mais da metade disso em agosto.

Historicamente, a situação observada em setembro é ainda pior, com mais áreas de campos, florestas e arbustos queimados. Se o ritmo medido em agosto se mantiver, o Pantanal terá um total de 28, 8 mil km² carbonizados até setembro, superando todos os anos anteriores.

A área queimada até o fim de agosto, equivalente a 15 cidades do Rio de Janeiro inteiras queimadas, representa 12% do Pantanal. O bioma possui 83% de cobertura vegetal nativa e a maior densidade de espécies de mamíferos do mundo, com uma concentração nove vezes maior que a vizinha Amazônia, que também vem sofrendo com as queimadas.

Em Mato Grosso – que, junto com Mato Grosso do Sul, abriga o Pantanal – não chove forte desde maio

Na Floresta Amazônica, 29.307 focos de queimadas foram registrados em agosto deste ano, destruindo uma área maior que a da Eslovênia. O número ficou pouco abaixo dos 30.900 registrados no mesmo período de 2019  que, de acordo com o Inpe, foi o pior mês de agosto para a Amazônia desde 2010, interrompendo uma tendência de queda observada em anos anteriores.

De acordo com especialistas, nem a Amazônia nem o Pantanal sofrem com incêndios espontâneos. Em Mato Grosso – que, junto com Mato Grosso do Sul, abriga o Pantanal – não chove forte desde maio, logo, não há raios que pudessem inflamar os campos e matas secas, levando à conclusão de que se trata de incêndios irregulares. Isso apesar de o uso do fogo para limpeza e manejo de territórios ter sido proibido no estado entre 1º de julho e 30 de setembro. Segundo decreto estadual, quem provocar queimadas pode ser punido com reclusão de dois a quatro anos e multa a partir de R$ 5 mil por hectare.

Atraso no combate

Em nota, o Ministério do Meio Ambiente afirma que aumentou o número de brigadistas em relação ao último mandato da ex-presidente de Dilma Rousseff. Questionada pela DW Brasil sobre os cortes, a pasta não explicou a questão orçamentária, e afirmou que em 2020 foram contratados 3.326 brigadistas pelo Ibama e pelo ICMBio, contra 2.080 em 2016.

No entanto, os editais de contratação para os profissionais, que costumam ser realizadas a partir de abril, para que as brigadas tenham tempo para o trabalho de prevenção dos incêndios, neste foram publicados somente em junho, atrasando todo o cronograma.

Segundo uma fonte do ICMBio que prefere não se identificar, o trabalho de combate aos incêndios no Pantanal demorou para começar, de modo que agora resta apenas esperar pela chuva e tentar impedir o fogo de consumir construções, pontes e unidades de conservação – os chamados alvos preferenciais.

“O grosso do trabalho de combate é feito de julho a setembro, antes há os trabalhos de queima preventiva, abertura de aceiros, feitos com acompanhamento do PrevFogo. O trabalho preventivo é até 20 vezes mais barato que o combate”, calcula.

No Pantanal, Ibama e ICMBio vêm trabalhando em conjunto com bombeiros, militares e o Sesc Pantanal na força conjunta que tenta manter a salvo o Parque Estadual Encontro das Águas e o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, ambos refúgios de vida silvestre. Além do Mato Grosso, as brigadas atuam em outros 16 estados e no Distrito Federal em áreas ido Pantanal, do Cerrado e da Amazônia.

Agosto, mês de queimadas

Em junho, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), alertou que o desmatamento observado no último um ano e meio na Amazônia poderia ser o prenúncio de uma catástrofe na região. O modus operandi do desmate da floresta é a derrubada em massa das árvores, com tratores que arrastam grandes correntes, derrubando tudo pelo caminho, para, no período seco seguinte, a vegetação ser queimada para limpeza do terreno.

Em nota técnica publicada, o Ipam apontou que, entre janeiro de 2019 e abril de 2020, uma área de 4.509 km² de Floresta Amazônica havia sido derrubada. “Se 100% queimar, pode se instalar uma calamidade de saúde sem precedentes na região ao se somar os efeitos da covid-19“, previu, apontando que o mês de agosto é quando grande parte da queima acontece na Amazônia.Amazônia,Queimadas,Brasil,Meio Ambiente,Blog do Mesquita

Segundo os dados do Inpe citados no início deste texto, a Amazônia teve seu segundo pior agosto da última década em termos de queimadas registradas. No entanto, de acordo com reportagem a Folha de S.Pauloo sensor Modis, do satélite Aqua, da Nasa, apresentou problemas a partir de meados do mês, prejudicando a medição dos focos de incêndio em algumas áreas. Com isso, é possível que a situação tenha sido ainda mais severa do que a de agosto do ano passado.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita

mundo falhou em cumprir metas para salvar a natureza

Evoluir para a sustentabilidade exige participação social

Em 2010, mais de 150 países chegaram a um acordo sobre 20 metas a serem alcançadas até o fim da década com o objetivo de salvar as espécies em extinção na Terra e preservar os ecossistemas em declínio. Mas nenhuma das metas foi totalmente cumprida, e apenas seis delas foram consideradas parcialmente alcançadas, concluiu a organização.

Relatório aponta que nenhum dos objetivos traçados há uma década para a proteção da biodiversidade foi cumprido. Degradação contínua do meio ambiente aumenta o risco de propagação de doenças, alertam Nações Unidas.

O documento é particularmente significativo pois funciona como um “boletim final” para as chamadas Metas de Aichi, traçadas no início da Década da Biodiversidade das Nações Unidas.

Entre os objetivos estavam, por exemplo, a desaceleração do desmatamento, conservação de áreas úmidas e a conscientização do público sobre a importância da natureza para um planeta saudável.

O relatório apontou, porém, que o uso de pesticidas e a poluição causada pelo descarte de plástico não foram reduzidos a níveis seguros; governos ainda subsidiam negócios que danificam os ecossistemas; e os recifes de coral continuam sendo atingidos por uma ameaça tripla: mudança climática, poluição e pesca predatória.

“Os sistemas vivos da Terra como um todo estão sendo comprometidos, e quanto mais a humanidade explora a natureza de maneiras insustentáveis, mais minamos nosso próprio bem-estar, segurança e prosperidade”, alertou Elizabeth Maruma Mrema, secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CBD), que divulgou o relatório.

A preocupação com os impactos ambientais causados pelo ser humano e seu estilo de vida predatório aumentou ainda mais em meio à pandemia de coronavírus, que provavelmente se originou num mercado de animais silvestres na cidade chinesa de Wuhan.

De acordo com os cientistas, a perda “sem precedentes” de biodiversidade e a destruição dos espaços selvagens aumentam o risco de doenças de animais migrarem para seres humanos.

“À medida que a natureza se degrada, surgem novas oportunidades para a disseminação de doenças devastadoras, como o novo coronavírus. A janela de tempo disponível é curta, mas a pandemia também demonstrou que mudanças transformadoras são possíveis”, afirmou Mrema.

Seguindo essa mesma linha, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que as transições descritas no relatório representam uma oportunidade sem precedentes para uma “reconstrução” global, à medida que o mundo emerge dos impactos imediatos da pandemia de covid-19.

“Parte dessa nova agenda deve ser enfrentar os desafios globais de uma maneira mais coordenada, entendendo que as mudanças climáticas ameaçam minar todos os outros esforços para conservar a biodiversidade. E que a própria natureza oferece algumas das soluções mais eficazes para evitar os piores impactos de um planeta em aquecimento”, comentou.Descarte excessivo de plástico continua sendo uma das preocupações da ONU

Atualmente, cerca de 17% das terras continentais estão resguardadas por mecanismos de gestão ambiental. As Nações Unidas estão pressionando os governos a reservarem 30% das áreas terrestres e marítimas do planeta para a conservação. A negociação deve ocorrer na próxima Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas, a COP26, adiada para 2021 em Kunming, na China.

Nem tudo é negativo

Embora o fracasso no cumprimento das metas seja motivo de preocupação, os autores do relatório frisam que praticamente todos os países estão atualmente tomando algumas medidas para proteger a biodiversidade, sem as quais o estado da biodiversidade do planeta estaria consideravelmente pior.

O relatório cita exemplos positivos, como um programa ambiental no Paquistão que protege o leopardo-das-neves ao conservar os ecossistemas do Himalaia, e o caso da população de íbis-de-crista, uma das aves aquáticas mais ameaçadas de extinção, que começou a ter filhotes após conservacionistas libertaram pássaros criados em cativeiro no Japão.

FA/rtr/ots

Como sobreviver ao fim do mundo: veja como evitar principais ameaças

Pandemias, guerras nucleares, alterações climáticas e desastres naturais: conheça algumas das maiores ameaças globais e o que você pode fazer para evitá-las.

É muito comum especular sobre como sobreviveríamos ao fim do mundo, principalmente durante a juventude e com toda a produção hollywoodiana em torno do tema. Além disso, 2020 tem sido um ano bastante apocalíptico.

Podemos levantar aqui diversos fatos que indicam que 2020 está nos fazendo pensar seriamente sobre como sobreviver à um possível apocalipse, como uma pandemia mundial que têm matado milhares de pessoas diariamente, incêndios florestais sem precedentes, nuvens de gafanhotos que mais nos fazem lembrar das 10 pragas do Egito, cigarras zumbis que são controladas por um fungo e até macacos roubando amostras de sangue com coronavírus na Índia.

Apesar de levantarmos muito a questão atualmente, não é de hoje que somos ‘treinados’ para sobreviver em situações apocalípticas. Em 1952, em plena Guerra Fria, o governo americano contratou o escritor Raymond J. Mauer para criar uma animação sobre como as crianças deveriam “se agachar e se cobrir” para se proteger no caso de um ataque nuclear. E quem não se lembra de Bear Grylls de “À prova de Tudo” que ensinava qualquer pessoa comum sobre como permanecer vivo apenas do que a natureza nos oferece.

Guerra nuclear deixaria 34 milhões de mortos em poucas horas


A primeira bomba atômica da história foi lançada pelos Estados Unidos em Hiroshima, matando milhares de civis. Créditos: Pixabay

Guerra nuclear
Existem cerca de 14 mil armas nuclear no mundo e 90% delas tem como seus proprietários a Rússia e os Estados Unidos, afirma o cientista atmosférico e especialista nuclear Professor Brian Toon.

“Se você chegar a cerca de um quilômetro ou mais [da explosão], a onda de pressão é tão intensa que derrubará prédios de concreto”, disse Toon. “E em algum lugar naquela zona, há uma explosão de radiação da bomba, basicamente metade das pessoas expostas a isso morreria em uma ou duas semanas de queimaduras de radiação em sua pele e envenenamento por radiação”, completa Toon.

Mesmo se você sobreviver ao primeiro impacto, este tipo de explosão gera incêndios que empurram a fumaça para a estratosfera, fazendo com que o sol fiquei bloqueado por cerca de 10 anos, derrubando as temperaturas de volta às experimentadas pela Terra na última era do gelo.

A maneira de sobreviver nesta situação é procurar um abrigo no subsolo. Atualmente, existem lugares que oferecem este tipo de serviço, como o Condomínio Survival, no Kansas, que cobra por volta de US $ 1 milhão a estadia. A melhor solução, no entanto, é impedir que as bombas sejam lançadas, doando para organizações que trabalhem pelo desarmamento nuclear.

Pandemia

Estamos sofrendo na pele os efeitos de uma pandemia mundial e aprendendo intensivamente com ela. Seja lavando as mãos, que deveria ser um hábito antigo, usando máscara de proteção e fazendo o isolamento social, é importante continuar fazendo sua parte para evitar a propagação do vírus.

Sobreviver a uma pandemia é um jogo de espera, infelizmente. A solução é confiar nos especialistas treinados e nos demais profissionais de saúde pública e privada que estão na linha de frente colocando suas vidas em risco.
Já são mais de 20 milhões de infectados pela COVID-19 no mundo. Créditos: Pixabay

Os desastres naturais e alterações climáticas

Diferentemente de uma pandemia, os desastres naturais como terremotos ou tornados vêm sem qualquer aviso, dando apenas alguns minutos para quem for tomar uma decisão que pode valer sua vida. A tecnologia tem sido uma importante aliada nesses casos. Pesquisadores estão desenvolvendo maneiras de rastrear sinais infrassônicos de tornados e tentando prever erupções de vulcões com drones e lasers, por exemplo.

Já a alteração climática é uma emergência global que vem sendo discutida há algum tempo. Incêndios devastadores na Austrália, elevação dos mares ameaçando Veneza e a elevação da temperatura da terra são apenas alguns dos indícios que alertam sobre como devemos mudar nossos hábitos.

Neste caso, cada um deve fazer sua parte, diminuindo o uso de energia, dirigindo menos, escolhendo marcas sustentáveis nas compras, sabendo mais sobre como suas roupas são feitas, reduzindo a dependência do uso de plástico, diminuindo o consumo de carne e, principalmente, escolhendo representantes políticos que tenham características de preservação ambiental.

Operação de limpeza tira 103 toneladas de plástico do mar

A ONG Ocean Voyages Institute bateu o próprio recorde de limpeza em mar aberto em uma expedição que durou 48 dias.

Uma recente operação de limpeza retirou em 48 dias cerca de 103 toneladas de lixo plástico do mar, entre redes e petrechos de pesca e itens plásticos que a humanidade consome no seu dia a dia.

A ação percorreu as costas da Califórnia e do Havaí e foi uma iniciativa do Ocean Voyages Institute que, com a coleta quebrou o próprio recorde de maior limpeza de lixo plástico dos oceanos.

Infelizmente, além do plástico, o navio recolheu muitos animais mortos e esqueletos que estavam envolvidos pelo lixo, em especial por redes de pesca abandonadas em mar aberto.

“Não existe uma solução rápida e simples para a quantidade de lixo nos oceanos. São necessários longos períodos no mar, com uma equipe extremamente competente, para que seja possível realizar ações de limpeza como esta”, explica Locky MacLean, ex-diretor da Sea Shepherd, ONG que atua na proteção da vida marinha.

Foto: Ocean Voyages Institute
Uma grande ilha de lixo se encontra entre o Havaí e a Califórnia, em uma das áreas mais remotas do Oceano Pacífico. Pesquisadores estimam que cerca de 80 mil toneladas de resíduos façam parte desta ilha de lixo, sendo a maior parte proveniente de petrechos de pesca.

As ilhas de lixo se formam graças à ação de correntes oceânicas circulares que concentram o lixo em áreas específicas.

Apesar das ações de limpezas serem parte da solução do problema, é necessário pensar na causa: todos os anos até 12,7 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos e a estimativa é que um total de 150 milhões de toneladas do material circulem atualmente pelos mares.Meio Ambiente,Oceanos,Plásticos,Poluição,Blog do Mesquita

A poluição plástica é composta de micro plásticos a grandes redes de pesca, uma imensidão de produtos que não são biodegradáveis e ameaçam gravemente a vida marinha. Um triste exemplo do mal que estamos fazendo às espécies marinhas foi a baleia encontrada por pesquisadores filipinos com 40kg de plástico no estômago, incluindo.

Efeito colateral de hidrelétrica, árvores centenárias morrem no leito do rio

Os paliteiros de macacarecuias mortas ao longo do rio Uatumã.
Foto: Angélica Resende

O rio é um organismo vivo e na Amazônia Central isso fica ainda mais visível ao observar os períodos de enchente e vazante, que causam disparidades de cerca de 10 metros entre o auge da cheia e da seca, numa completa transformação da paisagem.

Nesse ambiente de estresse hídrico, espécies da flora se desenvolveram e evoluíram junto com esses pulsos de inundação. A espécie que talvez melhor tenha se adaptado a isso é a macacarecuia, uma árvore típica das florestas alagáveis e que se especializou tão bem aos ciclos do rio que em alguns lugares “só dá ela”. Identificada como uma das árvores mais longevas da Amazônia, com indivíduos de mais de 800 anos de idade, a adaptação que tanto favoreceu a macacarecuia saiu pela culatra quando a construção de uma hidrelétrica alterou completamente o ritmo próprio do rio e seus ciclos de cheia e seca. Uma pesquisa recém-publicada aponta que a mudança causou alta mortalidade nas florestas de macacarecuias ao longo do rio Uatumã, abaixo de onde foi erguida a hidrelétrica de Balbina, construída na década de 80, no Amazonas.

O habitat das macacarecuias pode ser considerado o próprio rio, já que, em condições naturais, elas passam cerca de 10 meses inundadas por ano. Por isso, “se acontece qualquer alteração no rio, essa espécie vai sofrer. Ela pode ser considerada um indicador de distúrbio [no rio] porque como ela está mais próxima do rio, ela é a mais intimamente ligada com o pulso de inundação, qualquer alteração no pulso vai afetar primeiro ela”, explica a pesquisadora de pós-doutorado da Embrapa Amazônia Oriental, Angélica Resende, que liderou o estudo sobre as macacarecuias no rio Uatumã e os impactos da hidrelétrica nas populações a jusante (abaixo) da hidrelétrica.

A pesquisa foi feita com apoio de pesquisadores do do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e foi publicada em junho, no periódico New Phytologist.

As macacarecuias (Eschweilera tenuifolia) pertencem à família das castanheiras, do gênero Eschweilera. “É o gênero de árvore mais bem-sucedido na Amazônia, porque existem muitas espécies e elas estão espalhadas em diferentes ambientes, desde montanhas até ambientes como o que essa espécie vive, que são as florestas alagadas”, explica Angélica. Mais especificamente os igapós, já que a macacarecuia é uma espécie que ocorre em rios de água preta, como é o caso do rio Uatumã e do rio Negro.

A relação intrínseca da árvore com o rio e seus pulsos de inundação foi diretamente afetada com a construção da hidrelétrica de Balbina. De acordo com pesquisa do Inpa, tanto em 1983, quando a barragem começou a ser construída, quanto em 87, quando foi fechada para encher o reservatório, foram observados grandes picos de mortalidade das macacarecuias do rio Uatumã, no Amazonas.

Floresta de macacarecuias vivas no Parque Nacional do Jaú. Foto: Tayane Carvalho
“A gente datou a morte desses indivíduos mortos na parte baixa da hidrelétrica e vários morreram nesse período da construção. Ou seja, elas [as macacarecuias] responderam bem rapidamente a essa perturbação. Provavelmente as que estavam mais próximas do rio foram as que reagiram primeiro e a mortalidade de árvores seguiu até 125 quilômetros após a barragem”, explica a botânica.

A construção de uma hidrelétrica envolve estudos de impacto ambiental, mas via de regra, são observados apenas os impactos da área que será alagada, acima da barragem, e não como a construção pode impactar o rio como um todo. O impacto rio abaixo, entretanto, foi visível e chamou a atenção da equipe de pesquisadores do Inpa, que constatou os enormes paliteiros no leito do rio, como são chamados as áreas onde troncos nus de árvores mortas formam verdadeiros cemitérios fluviais. “Os estudos prévios que são feitos antes de instalar uma hidrelétrica nem sequer contemplam essa parte a jusante da barragem e a maioria dos estudos científicos também só aponta os efeitos da hidrelétrica acima da barragem. Nós decidimos estudar os efeitos na parte abaixo da barragem porque era visível ao percorrer o rio a quantidade de árvore morta”, descreve Angélica. “Em toda essa parte a jusante, a gente não tem uma noção exata do tamanho do dano que a hidrelétrica causa. Estamos só começando a entender isso”.

Na topografia da margem do rio e das florestas alagadas, há aquelas árvores que ficam mais próximas do rio, situadas em níveis mais baixos do terreno, e outras que ficam mais acima. “Na parte alta do igapó, as espécies passam menos tempo inundadas, são cerca de 2 meses por ano só. Já quem está na parte de baixo, passa cerca de 10 meses do ano inundada. Ou seja, são árvores que só saem da água em média 2 meses por ano. As macacarecuias podem até ser encontradas em florestas mistas, que são essas florestas altas que alagam menos, mas são mais raras nesse ambiente. Enquanto que na parte mais baixa, onde há mais alagação, ela ocorre em monodominância, que é uma coisa rara na Amazônia, que é um bioma onde no geral há uma grande variedade de espécies ocorrendo juntas. Na monodominância, uma espécie domina mais de 50% dos indivíduos, ou seja, existe local ali que só tem macacarecuia. E por que? Porque ela é altamente adaptada. As outras espécies que vivem mais acima no igapó não conseguem sobreviver a uma inundação tamanha, por isso ela domina aquele ambiente”, conta a botânica.

Usina Hidrelétrica de Balbina em construção. Crédito: International Rivers.
Em 2019, a pesquisadora já havia publicado um artigo com uma análise espacial de onde estão os paliteiros. “Se você analisar espacialmente onde estão as macacarecuais mortas e os espaços próximos, você vê que há outras florestas e outras populações que ainda estão sujeitas à uma alta perturbação, porque o pulso de inundação do rio Uatumã, abaixo da hidrelétrica de Balbina, passou a ser totalmente irregular após a instalação da hidrelétrica. Provavelmente as espécies que estão ali, não apenas as macacarecuias, vão sofrer ainda uma maior mortalidade”, complementa Angélica.

A pesquisa também estudou as árvores vivas a partir de amostras de madeira nas quais é possível identificar os anéis de crescimento da árvore, “cada ano ela forma um anel e fica marcado ali, justamente pelo pulso de inundação”, detalha. “Quando eu verifiquei os anéis, eu vi que elas vinham crescendo num ritmo e aí, quando foi instalada a hidrelétrica, a maioria delas aumentou o crescimento. Isso ocorreu provavelmente porque ao fechar a barragem para encher a hidrelétrica, elas aproveitaram esse período seco para crescer, já que elas crescem exatamente na seca e por isso costumam crescer tão lentamente e ficam tão velhas, porque em condições naturais elas têm só 2 meses fora d’água para isso”.

“Algumas morreram e outras aproveitaram para crescer”, resume a pesquisadora. A diferença entre vida e morte pode ter sido o acesso a outra fonte de água, como um lençol freático, supõe a botânica. O “estirão” de crescimento durou cerca de 10 anos e, no início dos anos 2000, cerca de 10 anos após a conclusão da hidrelétrica, elas passaram a diminuir seu crescimento. “Essas árvores estão decrescendo em incremento de diâmetro até hoje e nós acreditamos que são as próximas a morrer. Nossa hipótese é que ainda vai ter mais mortalidade de árvores de macacarecuias e provavelmente de outras espécies também”, alerta. Nesse mesmo período, no início dos anos 2000, houve um segundo pico de mortalidade entre as macacarecuias, porém menor.

O efeito das mudanças climáticas

A ameaça ao futuro das macacarecuias no rio Uatumã não é apenas a hidrelétrica, um perigo maior – e global – também lança uma sombra de incerteza sobre o futuro das florestas de macacarecuia em toda a Amazônia Central: as mudanças climáticas.

Outra população monodominante de árvores centenárias já mortas em igapó do Rio Uatumã, a jusante da barragem hidrelétrica de Balbina.
Foto: Jochen Schongart

Para poder comparar os resultados obtidos com as macacarecuias no rio Uatumã, os pesquisadores decidiram repetir a análise nas florestas alagadas do rio Jaú, no Parque Nacional do Jaú, uma área com pouca influência antrópica. “Lá também ocorrem esses macrohabitats de macacarecuias, só que ali elas não foram afetadas por hidrelétrica ou nenhum fator humano de grande impacto. Mas no Jaú, nós também vimos macacarecuias mortas, ainda que em menor quantidade”, descreve Angélica, “ou seja, as árvores também foram minimamente afetadas por algo e esse algo provavelmente são as mudanças climáticas”.

Nos últimos 100 anos, o nível mínimo médio dos rios na Amazônia Central subiu cerca de 1 metro e nos últimos 40 houve uma intensificação dos ciclos hidrológicos, que provoca cheias e secas mais extremas, e tudo isso também afeta as macacarecuias. Os períodos de mortalidade identificados no Jaú coincidiam com períodos de eventos climáticos extremos de El Niño e La Niña.

“Principalmente a La Niña, que causa na Amazônia Central um ano mais úmido, com mais chuva e mais cheia. Esses eventos climáticos extremos, que antigamente ocorriam com menor frequência e agora com o aquecimento global têm ocorrido com maior frequência, somado à influência das mudanças climáticas que estão afetando a Bacia Amazônica, com o aumento do nível mínimo médio dos rios e a intensificação dos ciclos hidrológicos, nos leva a conclusão de que essas espécies também sofrem influência climática. Lá no Uatumã, a influência é muito maior da hidrelétrica, mas também há efeitos do clima”, resume a pesquisadora.

“Com o aumento do nível do rio, elas já estão e continuarão sendo afetadas. Do lado da hidrelétrica, lá em Balbina, pode haver uma extinção local ou um colapso nos macrohabitats de macacarecuias, onde há monodominância. E claro, isso vai diminuir a longevidade local delas. Se o nível do rio continuar subindo, isso pode acontecer para toda bacia”, ressalta.

Os impactos da hidrelétrica

A história do rio Uatumã e da hidrelétrica de Balbina não é uma exceção. Nos processos de licenciamento ambiental de hidrelétricas, onde são levantados os impactos ambientais que serão causados pelo empreendimento e propostas as ações compensatórias para mitigá-los, a parte do rio a jusante da barragem na maioria das vezes nem é considerada.

Balbina: lago gigantesco, com impactos ambientais e pouca energia gerada. Foto: Alexandre Kemenes

O biólogo especialista em políticas públicas ambientais, André Aroeira, que por muitos anos trabalhou com licenciamento ambiental de hidrelétricas, explica que o dano causado à hidrelétrica à dinâmica natural de um rio é irreversível. “Quando você faz um barramento, atrapalha toda a migração de fauna que tem lá dentro e toda a dinâmica do rio, isso é irreversível. Até porque essa dinâmica de cheia e seca do rio é muito imprevisível, você não consegue fazer isso nem artificialmente se você quiser depois. Por quilômetros abaixo no rio, as espécies que estavam acostumadas a viver com o ciclo de cheia e seca, isso é perdido, completamente alterado. A árvore que esperaria 10 meses de alagamento, vai receber 5, e é um impacto grande tanto na estratégia produtiva dessa árvore quanto na estratégia reprodutiva de quem está dentro d’água, porque tem peixe que espera a cheia para ir pra terra depositar seus ovos nas raízes das árvores. É uma dinâmica muito particular. E essas coisas não entram no licenciamento. Esses impactos sobre a dinâmica hidrológica do rio são completamente subestimados, na maioria das vezes nem entram nos estudos”, reforça o biólogo.

“Acho que há uma ignorância muito grande, principalmente com essas questões de grandes rios da Amazônia, de subestimar o impacto que será causado. Eles estão preocupados com a barragem, com o tamanho do lago, com a floresta que será desmatada, mas eles não enxergam que por mais de 100 km a jusante ele vai impactar árvores centenárias e mudar toda dinâmica, é uma ignorância ecológica. E por outro lado, há pouca disposição de entender esses impactos”, continua Aroeira.

“Afeta o rio todo, afeta as florestas alagáveis e de terra firme, toda comunidade de plantas, os peixes… só que esses estudos só estão começando. Acima da barragem é muito mais bem estudado, então parece que em cima é muito maior o efeito, mas eu acredito que a gente não tenha ideia ainda de quão grande é o efeito abaixo”, alerta Angélica.

A alta mortalidade de árvores também causa outro efeito não calculado pelos estudos de impacto ambiental da hidrelétrica de Balbina: a alta emissão de metano, um dos principais gases do efeito estufa, liberados pela madeira apodrecida.

Segundo Aroeira, a solução para um processo de licenciamento mais adequado começaria com órgãos ambientais mais fortalecidos, com procedimentos padronizados e com mais servidores, o que permitiria análises mais rápidas e eficientes. Além disso, um zoneamento das áreas onde os impactos ambientais sejam considerados mais viáveis para construção de empreendimentos como hidrelétricas, o que inclusive reduziria os custos do empreendedor com medidas compensatórias.

“Acho que falta ter um debate mais honesto sobre impacto de hidrelétrica, porque tem coisa que não dá para mitigar, então a gente tem que partir do pressuposto que não será mitigado. Tendo clareza de que certas obras são inviáveis por conta de tais impactos em tais regiões, como um zoneamento, você já consegue dar mais informação e clareza pro empreendedor de que naquele local, o empreendimento dele não vai sair”, conclui.

Duda Menegassi