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Ambiente: Em um ano, governo Bolsonaro corta verba para brigadistas em 58%

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Apesar de alta das queimadas na Amazônia e no Pantanal, orçamento destinado à contratação de pessoal de prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais sofreu forte redução entre 2019 e 2020.

Até o fim de agosto, fogo consumiu 12% do Pantanal em 2020

Mesmo com as queimadas na Amazônia aumentando 30% em 2019 e com o Pantanal registrando o maior número de queimadas em mais de uma década, o governo Bolsonaro vem cortando drasticamente a verba para contratação de profissionais para prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais.

O gasto esperado com a contratação de pessoal de combate ao fogo por tempo determinado, somado ao de diárias de civis que atuam como brigadistas, caiu de R$ 23,78 milhões em 2019 para R$ 9,99 milhões neste ano – uma redução de 58%, de acordo com dados oficiais do Portal da Transparência.

Este foi o segundo ano seguido de redução no orçamento total para prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais. A verba inicialmente planejada para a área em 2018 era de R$ 53,8 milhões, reduzida em 2019 para R$ 45,5 milhões, e para R$ 38,6 milhões em 2020. Do ano passado para este, a redução foi de 15%.

Em meio aos cortes, o Pantanal vive seu pior ano em termos de queimadas de que se tem registro. De janeiro a 10 de setembro de 2020, o Pantanal somou 12.703 focos de incêndio, o mair número para o período desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou o monitoramento, em 1998. Segundo dados do órgão federal, nos primeiros oito meses do ano, 18.646 km² do bioma foram consumidos pelas chamas, mais da metade disso em agosto.

Historicamente, a situação observada em setembro é ainda pior, com mais áreas de campos, florestas e arbustos queimados. Se o ritmo medido em agosto se mantiver, o Pantanal terá um total de 28, 8 mil km² carbonizados até setembro, superando todos os anos anteriores.

A área queimada até o fim de agosto, equivalente a 15 cidades do Rio de Janeiro inteiras queimadas, representa 12% do Pantanal. O bioma possui 83% de cobertura vegetal nativa e a maior densidade de espécies de mamíferos do mundo, com uma concentração nove vezes maior que a vizinha Amazônia, que também vem sofrendo com as queimadas.

Em Mato Grosso – que, junto com Mato Grosso do Sul, abriga o Pantanal – não chove forte desde maio

Na Floresta Amazônica, 29.307 focos de queimadas foram registrados em agosto deste ano, destruindo uma área maior que a da Eslovênia. O número ficou pouco abaixo dos 30.900 registrados no mesmo período de 2019  que, de acordo com o Inpe, foi o pior mês de agosto para a Amazônia desde 2010, interrompendo uma tendência de queda observada em anos anteriores.

De acordo com especialistas, nem a Amazônia nem o Pantanal sofrem com incêndios espontâneos. Em Mato Grosso – que, junto com Mato Grosso do Sul, abriga o Pantanal – não chove forte desde maio, logo, não há raios que pudessem inflamar os campos e matas secas, levando à conclusão de que se trata de incêndios irregulares. Isso apesar de o uso do fogo para limpeza e manejo de territórios ter sido proibido no estado entre 1º de julho e 30 de setembro. Segundo decreto estadual, quem provocar queimadas pode ser punido com reclusão de dois a quatro anos e multa a partir de R$ 5 mil por hectare.

Atraso no combate

Em nota, o Ministério do Meio Ambiente afirma que aumentou o número de brigadistas em relação ao último mandato da ex-presidente de Dilma Rousseff. Questionada pela DW Brasil sobre os cortes, a pasta não explicou a questão orçamentária, e afirmou que em 2020 foram contratados 3.326 brigadistas pelo Ibama e pelo ICMBio, contra 2.080 em 2016.

No entanto, os editais de contratação para os profissionais, que costumam ser realizadas a partir de abril, para que as brigadas tenham tempo para o trabalho de prevenção dos incêndios, neste foram publicados somente em junho, atrasando todo o cronograma.

Segundo uma fonte do ICMBio que prefere não se identificar, o trabalho de combate aos incêndios no Pantanal demorou para começar, de modo que agora resta apenas esperar pela chuva e tentar impedir o fogo de consumir construções, pontes e unidades de conservação – os chamados alvos preferenciais.

“O grosso do trabalho de combate é feito de julho a setembro, antes há os trabalhos de queima preventiva, abertura de aceiros, feitos com acompanhamento do PrevFogo. O trabalho preventivo é até 20 vezes mais barato que o combate”, calcula.

No Pantanal, Ibama e ICMBio vêm trabalhando em conjunto com bombeiros, militares e o Sesc Pantanal na força conjunta que tenta manter a salvo o Parque Estadual Encontro das Águas e o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, ambos refúgios de vida silvestre. Além do Mato Grosso, as brigadas atuam em outros 16 estados e no Distrito Federal em áreas ido Pantanal, do Cerrado e da Amazônia.

Agosto, mês de queimadas

Em junho, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), alertou que o desmatamento observado no último um ano e meio na Amazônia poderia ser o prenúncio de uma catástrofe na região. O modus operandi do desmate da floresta é a derrubada em massa das árvores, com tratores que arrastam grandes correntes, derrubando tudo pelo caminho, para, no período seco seguinte, a vegetação ser queimada para limpeza do terreno.

Em nota técnica publicada, o Ipam apontou que, entre janeiro de 2019 e abril de 2020, uma área de 4.509 km² de Floresta Amazônica havia sido derrubada. “Se 100% queimar, pode se instalar uma calamidade de saúde sem precedentes na região ao se somar os efeitos da covid-19“, previu, apontando que o mês de agosto é quando grande parte da queima acontece na Amazônia.Amazônia,Queimadas,Brasil,Meio Ambiente,Blog do Mesquita

Segundo os dados do Inpe citados no início deste texto, a Amazônia teve seu segundo pior agosto da última década em termos de queimadas registradas. No entanto, de acordo com reportagem a Folha de S.Pauloo sensor Modis, do satélite Aqua, da Nasa, apresentou problemas a partir de meados do mês, prejudicando a medição dos focos de incêndio em algumas áreas. Com isso, é possível que a situação tenha sido ainda mais severa do que a de agosto do ano passado.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita

mundo falhou em cumprir metas para salvar a natureza

Evoluir para a sustentabilidade exige participação social

Em 2010, mais de 150 países chegaram a um acordo sobre 20 metas a serem alcançadas até o fim da década com o objetivo de salvar as espécies em extinção na Terra e preservar os ecossistemas em declínio. Mas nenhuma das metas foi totalmente cumprida, e apenas seis delas foram consideradas parcialmente alcançadas, concluiu a organização.

Relatório aponta que nenhum dos objetivos traçados há uma década para a proteção da biodiversidade foi cumprido. Degradação contínua do meio ambiente aumenta o risco de propagação de doenças, alertam Nações Unidas.

O documento é particularmente significativo pois funciona como um “boletim final” para as chamadas Metas de Aichi, traçadas no início da Década da Biodiversidade das Nações Unidas.

Entre os objetivos estavam, por exemplo, a desaceleração do desmatamento, conservação de áreas úmidas e a conscientização do público sobre a importância da natureza para um planeta saudável.

O relatório apontou, porém, que o uso de pesticidas e a poluição causada pelo descarte de plástico não foram reduzidos a níveis seguros; governos ainda subsidiam negócios que danificam os ecossistemas; e os recifes de coral continuam sendo atingidos por uma ameaça tripla: mudança climática, poluição e pesca predatória.

“Os sistemas vivos da Terra como um todo estão sendo comprometidos, e quanto mais a humanidade explora a natureza de maneiras insustentáveis, mais minamos nosso próprio bem-estar, segurança e prosperidade”, alertou Elizabeth Maruma Mrema, secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CBD), que divulgou o relatório.

A preocupação com os impactos ambientais causados pelo ser humano e seu estilo de vida predatório aumentou ainda mais em meio à pandemia de coronavírus, que provavelmente se originou num mercado de animais silvestres na cidade chinesa de Wuhan.

De acordo com os cientistas, a perda “sem precedentes” de biodiversidade e a destruição dos espaços selvagens aumentam o risco de doenças de animais migrarem para seres humanos.

“À medida que a natureza se degrada, surgem novas oportunidades para a disseminação de doenças devastadoras, como o novo coronavírus. A janela de tempo disponível é curta, mas a pandemia também demonstrou que mudanças transformadoras são possíveis”, afirmou Mrema.

Seguindo essa mesma linha, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que as transições descritas no relatório representam uma oportunidade sem precedentes para uma “reconstrução” global, à medida que o mundo emerge dos impactos imediatos da pandemia de covid-19.

“Parte dessa nova agenda deve ser enfrentar os desafios globais de uma maneira mais coordenada, entendendo que as mudanças climáticas ameaçam minar todos os outros esforços para conservar a biodiversidade. E que a própria natureza oferece algumas das soluções mais eficazes para evitar os piores impactos de um planeta em aquecimento”, comentou.Descarte excessivo de plástico continua sendo uma das preocupações da ONU

Atualmente, cerca de 17% das terras continentais estão resguardadas por mecanismos de gestão ambiental. As Nações Unidas estão pressionando os governos a reservarem 30% das áreas terrestres e marítimas do planeta para a conservação. A negociação deve ocorrer na próxima Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas, a COP26, adiada para 2021 em Kunming, na China.

Nem tudo é negativo

Embora o fracasso no cumprimento das metas seja motivo de preocupação, os autores do relatório frisam que praticamente todos os países estão atualmente tomando algumas medidas para proteger a biodiversidade, sem as quais o estado da biodiversidade do planeta estaria consideravelmente pior.

O relatório cita exemplos positivos, como um programa ambiental no Paquistão que protege o leopardo-das-neves ao conservar os ecossistemas do Himalaia, e o caso da população de íbis-de-crista, uma das aves aquáticas mais ameaçadas de extinção, que começou a ter filhotes após conservacionistas libertaram pássaros criados em cativeiro no Japão.

FA/rtr/ots

Como sobreviver ao fim do mundo: veja como evitar principais ameaças

Pandemias, guerras nucleares, alterações climáticas e desastres naturais: conheça algumas das maiores ameaças globais e o que você pode fazer para evitá-las.

É muito comum especular sobre como sobreviveríamos ao fim do mundo, principalmente durante a juventude e com toda a produção hollywoodiana em torno do tema. Além disso, 2020 tem sido um ano bastante apocalíptico.

Podemos levantar aqui diversos fatos que indicam que 2020 está nos fazendo pensar seriamente sobre como sobreviver à um possível apocalipse, como uma pandemia mundial que têm matado milhares de pessoas diariamente, incêndios florestais sem precedentes, nuvens de gafanhotos que mais nos fazem lembrar das 10 pragas do Egito, cigarras zumbis que são controladas por um fungo e até macacos roubando amostras de sangue com coronavírus na Índia.

Apesar de levantarmos muito a questão atualmente, não é de hoje que somos ‘treinados’ para sobreviver em situações apocalípticas. Em 1952, em plena Guerra Fria, o governo americano contratou o escritor Raymond J. Mauer para criar uma animação sobre como as crianças deveriam “se agachar e se cobrir” para se proteger no caso de um ataque nuclear. E quem não se lembra de Bear Grylls de “À prova de Tudo” que ensinava qualquer pessoa comum sobre como permanecer vivo apenas do que a natureza nos oferece.

Guerra nuclear deixaria 34 milhões de mortos em poucas horas


A primeira bomba atômica da história foi lançada pelos Estados Unidos em Hiroshima, matando milhares de civis. Créditos: Pixabay

Guerra nuclear
Existem cerca de 14 mil armas nuclear no mundo e 90% delas tem como seus proprietários a Rússia e os Estados Unidos, afirma o cientista atmosférico e especialista nuclear Professor Brian Toon.

“Se você chegar a cerca de um quilômetro ou mais [da explosão], a onda de pressão é tão intensa que derrubará prédios de concreto”, disse Toon. “E em algum lugar naquela zona, há uma explosão de radiação da bomba, basicamente metade das pessoas expostas a isso morreria em uma ou duas semanas de queimaduras de radiação em sua pele e envenenamento por radiação”, completa Toon.

Mesmo se você sobreviver ao primeiro impacto, este tipo de explosão gera incêndios que empurram a fumaça para a estratosfera, fazendo com que o sol fiquei bloqueado por cerca de 10 anos, derrubando as temperaturas de volta às experimentadas pela Terra na última era do gelo.

A maneira de sobreviver nesta situação é procurar um abrigo no subsolo. Atualmente, existem lugares que oferecem este tipo de serviço, como o Condomínio Survival, no Kansas, que cobra por volta de US $ 1 milhão a estadia. A melhor solução, no entanto, é impedir que as bombas sejam lançadas, doando para organizações que trabalhem pelo desarmamento nuclear.

Pandemia

Estamos sofrendo na pele os efeitos de uma pandemia mundial e aprendendo intensivamente com ela. Seja lavando as mãos, que deveria ser um hábito antigo, usando máscara de proteção e fazendo o isolamento social, é importante continuar fazendo sua parte para evitar a propagação do vírus.

Sobreviver a uma pandemia é um jogo de espera, infelizmente. A solução é confiar nos especialistas treinados e nos demais profissionais de saúde pública e privada que estão na linha de frente colocando suas vidas em risco.
Já são mais de 20 milhões de infectados pela COVID-19 no mundo. Créditos: Pixabay

Os desastres naturais e alterações climáticas

Diferentemente de uma pandemia, os desastres naturais como terremotos ou tornados vêm sem qualquer aviso, dando apenas alguns minutos para quem for tomar uma decisão que pode valer sua vida. A tecnologia tem sido uma importante aliada nesses casos. Pesquisadores estão desenvolvendo maneiras de rastrear sinais infrassônicos de tornados e tentando prever erupções de vulcões com drones e lasers, por exemplo.

Já a alteração climática é uma emergência global que vem sendo discutida há algum tempo. Incêndios devastadores na Austrália, elevação dos mares ameaçando Veneza e a elevação da temperatura da terra são apenas alguns dos indícios que alertam sobre como devemos mudar nossos hábitos.

Neste caso, cada um deve fazer sua parte, diminuindo o uso de energia, dirigindo menos, escolhendo marcas sustentáveis nas compras, sabendo mais sobre como suas roupas são feitas, reduzindo a dependência do uso de plástico, diminuindo o consumo de carne e, principalmente, escolhendo representantes políticos que tenham características de preservação ambiental.

Operação de limpeza tira 103 toneladas de plástico do mar

A ONG Ocean Voyages Institute bateu o próprio recorde de limpeza em mar aberto em uma expedição que durou 48 dias.

Uma recente operação de limpeza retirou em 48 dias cerca de 103 toneladas de lixo plástico do mar, entre redes e petrechos de pesca e itens plásticos que a humanidade consome no seu dia a dia.

A ação percorreu as costas da Califórnia e do Havaí e foi uma iniciativa do Ocean Voyages Institute que, com a coleta quebrou o próprio recorde de maior limpeza de lixo plástico dos oceanos.

Infelizmente, além do plástico, o navio recolheu muitos animais mortos e esqueletos que estavam envolvidos pelo lixo, em especial por redes de pesca abandonadas em mar aberto.

“Não existe uma solução rápida e simples para a quantidade de lixo nos oceanos. São necessários longos períodos no mar, com uma equipe extremamente competente, para que seja possível realizar ações de limpeza como esta”, explica Locky MacLean, ex-diretor da Sea Shepherd, ONG que atua na proteção da vida marinha.

Foto: Ocean Voyages Institute
Uma grande ilha de lixo se encontra entre o Havaí e a Califórnia, em uma das áreas mais remotas do Oceano Pacífico. Pesquisadores estimam que cerca de 80 mil toneladas de resíduos façam parte desta ilha de lixo, sendo a maior parte proveniente de petrechos de pesca.

As ilhas de lixo se formam graças à ação de correntes oceânicas circulares que concentram o lixo em áreas específicas.

Apesar das ações de limpezas serem parte da solução do problema, é necessário pensar na causa: todos os anos até 12,7 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos e a estimativa é que um total de 150 milhões de toneladas do material circulem atualmente pelos mares.Meio Ambiente,Oceanos,Plásticos,Poluição,Blog do Mesquita

A poluição plástica é composta de micro plásticos a grandes redes de pesca, uma imensidão de produtos que não são biodegradáveis e ameaçam gravemente a vida marinha. Um triste exemplo do mal que estamos fazendo às espécies marinhas foi a baleia encontrada por pesquisadores filipinos com 40kg de plástico no estômago, incluindo.

Efeito colateral de hidrelétrica, árvores centenárias morrem no leito do rio

Os paliteiros de macacarecuias mortas ao longo do rio Uatumã.
Foto: Angélica Resende

O rio é um organismo vivo e na Amazônia Central isso fica ainda mais visível ao observar os períodos de enchente e vazante, que causam disparidades de cerca de 10 metros entre o auge da cheia e da seca, numa completa transformação da paisagem.

Nesse ambiente de estresse hídrico, espécies da flora se desenvolveram e evoluíram junto com esses pulsos de inundação. A espécie que talvez melhor tenha se adaptado a isso é a macacarecuia, uma árvore típica das florestas alagáveis e que se especializou tão bem aos ciclos do rio que em alguns lugares “só dá ela”. Identificada como uma das árvores mais longevas da Amazônia, com indivíduos de mais de 800 anos de idade, a adaptação que tanto favoreceu a macacarecuia saiu pela culatra quando a construção de uma hidrelétrica alterou completamente o ritmo próprio do rio e seus ciclos de cheia e seca. Uma pesquisa recém-publicada aponta que a mudança causou alta mortalidade nas florestas de macacarecuias ao longo do rio Uatumã, abaixo de onde foi erguida a hidrelétrica de Balbina, construída na década de 80, no Amazonas.

O habitat das macacarecuias pode ser considerado o próprio rio, já que, em condições naturais, elas passam cerca de 10 meses inundadas por ano. Por isso, “se acontece qualquer alteração no rio, essa espécie vai sofrer. Ela pode ser considerada um indicador de distúrbio [no rio] porque como ela está mais próxima do rio, ela é a mais intimamente ligada com o pulso de inundação, qualquer alteração no pulso vai afetar primeiro ela”, explica a pesquisadora de pós-doutorado da Embrapa Amazônia Oriental, Angélica Resende, que liderou o estudo sobre as macacarecuias no rio Uatumã e os impactos da hidrelétrica nas populações a jusante (abaixo) da hidrelétrica.

A pesquisa foi feita com apoio de pesquisadores do do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e foi publicada em junho, no periódico New Phytologist.

As macacarecuias (Eschweilera tenuifolia) pertencem à família das castanheiras, do gênero Eschweilera. “É o gênero de árvore mais bem-sucedido na Amazônia, porque existem muitas espécies e elas estão espalhadas em diferentes ambientes, desde montanhas até ambientes como o que essa espécie vive, que são as florestas alagadas”, explica Angélica. Mais especificamente os igapós, já que a macacarecuia é uma espécie que ocorre em rios de água preta, como é o caso do rio Uatumã e do rio Negro.

A relação intrínseca da árvore com o rio e seus pulsos de inundação foi diretamente afetada com a construção da hidrelétrica de Balbina. De acordo com pesquisa do Inpa, tanto em 1983, quando a barragem começou a ser construída, quanto em 87, quando foi fechada para encher o reservatório, foram observados grandes picos de mortalidade das macacarecuias do rio Uatumã, no Amazonas.

Floresta de macacarecuias vivas no Parque Nacional do Jaú. Foto: Tayane Carvalho
“A gente datou a morte desses indivíduos mortos na parte baixa da hidrelétrica e vários morreram nesse período da construção. Ou seja, elas [as macacarecuias] responderam bem rapidamente a essa perturbação. Provavelmente as que estavam mais próximas do rio foram as que reagiram primeiro e a mortalidade de árvores seguiu até 125 quilômetros após a barragem”, explica a botânica.

A construção de uma hidrelétrica envolve estudos de impacto ambiental, mas via de regra, são observados apenas os impactos da área que será alagada, acima da barragem, e não como a construção pode impactar o rio como um todo. O impacto rio abaixo, entretanto, foi visível e chamou a atenção da equipe de pesquisadores do Inpa, que constatou os enormes paliteiros no leito do rio, como são chamados as áreas onde troncos nus de árvores mortas formam verdadeiros cemitérios fluviais. “Os estudos prévios que são feitos antes de instalar uma hidrelétrica nem sequer contemplam essa parte a jusante da barragem e a maioria dos estudos científicos também só aponta os efeitos da hidrelétrica acima da barragem. Nós decidimos estudar os efeitos na parte abaixo da barragem porque era visível ao percorrer o rio a quantidade de árvore morta”, descreve Angélica. “Em toda essa parte a jusante, a gente não tem uma noção exata do tamanho do dano que a hidrelétrica causa. Estamos só começando a entender isso”.

Na topografia da margem do rio e das florestas alagadas, há aquelas árvores que ficam mais próximas do rio, situadas em níveis mais baixos do terreno, e outras que ficam mais acima. “Na parte alta do igapó, as espécies passam menos tempo inundadas, são cerca de 2 meses por ano só. Já quem está na parte de baixo, passa cerca de 10 meses do ano inundada. Ou seja, são árvores que só saem da água em média 2 meses por ano. As macacarecuias podem até ser encontradas em florestas mistas, que são essas florestas altas que alagam menos, mas são mais raras nesse ambiente. Enquanto que na parte mais baixa, onde há mais alagação, ela ocorre em monodominância, que é uma coisa rara na Amazônia, que é um bioma onde no geral há uma grande variedade de espécies ocorrendo juntas. Na monodominância, uma espécie domina mais de 50% dos indivíduos, ou seja, existe local ali que só tem macacarecuia. E por que? Porque ela é altamente adaptada. As outras espécies que vivem mais acima no igapó não conseguem sobreviver a uma inundação tamanha, por isso ela domina aquele ambiente”, conta a botânica.

Usina Hidrelétrica de Balbina em construção. Crédito: International Rivers.
Em 2019, a pesquisadora já havia publicado um artigo com uma análise espacial de onde estão os paliteiros. “Se você analisar espacialmente onde estão as macacarecuais mortas e os espaços próximos, você vê que há outras florestas e outras populações que ainda estão sujeitas à uma alta perturbação, porque o pulso de inundação do rio Uatumã, abaixo da hidrelétrica de Balbina, passou a ser totalmente irregular após a instalação da hidrelétrica. Provavelmente as espécies que estão ali, não apenas as macacarecuias, vão sofrer ainda uma maior mortalidade”, complementa Angélica.

A pesquisa também estudou as árvores vivas a partir de amostras de madeira nas quais é possível identificar os anéis de crescimento da árvore, “cada ano ela forma um anel e fica marcado ali, justamente pelo pulso de inundação”, detalha. “Quando eu verifiquei os anéis, eu vi que elas vinham crescendo num ritmo e aí, quando foi instalada a hidrelétrica, a maioria delas aumentou o crescimento. Isso ocorreu provavelmente porque ao fechar a barragem para encher a hidrelétrica, elas aproveitaram esse período seco para crescer, já que elas crescem exatamente na seca e por isso costumam crescer tão lentamente e ficam tão velhas, porque em condições naturais elas têm só 2 meses fora d’água para isso”.

“Algumas morreram e outras aproveitaram para crescer”, resume a pesquisadora. A diferença entre vida e morte pode ter sido o acesso a outra fonte de água, como um lençol freático, supõe a botânica. O “estirão” de crescimento durou cerca de 10 anos e, no início dos anos 2000, cerca de 10 anos após a conclusão da hidrelétrica, elas passaram a diminuir seu crescimento. “Essas árvores estão decrescendo em incremento de diâmetro até hoje e nós acreditamos que são as próximas a morrer. Nossa hipótese é que ainda vai ter mais mortalidade de árvores de macacarecuias e provavelmente de outras espécies também”, alerta. Nesse mesmo período, no início dos anos 2000, houve um segundo pico de mortalidade entre as macacarecuias, porém menor.

O efeito das mudanças climáticas

A ameaça ao futuro das macacarecuias no rio Uatumã não é apenas a hidrelétrica, um perigo maior – e global – também lança uma sombra de incerteza sobre o futuro das florestas de macacarecuia em toda a Amazônia Central: as mudanças climáticas.

Outra população monodominante de árvores centenárias já mortas em igapó do Rio Uatumã, a jusante da barragem hidrelétrica de Balbina.
Foto: Jochen Schongart

Para poder comparar os resultados obtidos com as macacarecuias no rio Uatumã, os pesquisadores decidiram repetir a análise nas florestas alagadas do rio Jaú, no Parque Nacional do Jaú, uma área com pouca influência antrópica. “Lá também ocorrem esses macrohabitats de macacarecuias, só que ali elas não foram afetadas por hidrelétrica ou nenhum fator humano de grande impacto. Mas no Jaú, nós também vimos macacarecuias mortas, ainda que em menor quantidade”, descreve Angélica, “ou seja, as árvores também foram minimamente afetadas por algo e esse algo provavelmente são as mudanças climáticas”.

Nos últimos 100 anos, o nível mínimo médio dos rios na Amazônia Central subiu cerca de 1 metro e nos últimos 40 houve uma intensificação dos ciclos hidrológicos, que provoca cheias e secas mais extremas, e tudo isso também afeta as macacarecuias. Os períodos de mortalidade identificados no Jaú coincidiam com períodos de eventos climáticos extremos de El Niño e La Niña.

“Principalmente a La Niña, que causa na Amazônia Central um ano mais úmido, com mais chuva e mais cheia. Esses eventos climáticos extremos, que antigamente ocorriam com menor frequência e agora com o aquecimento global têm ocorrido com maior frequência, somado à influência das mudanças climáticas que estão afetando a Bacia Amazônica, com o aumento do nível mínimo médio dos rios e a intensificação dos ciclos hidrológicos, nos leva a conclusão de que essas espécies também sofrem influência climática. Lá no Uatumã, a influência é muito maior da hidrelétrica, mas também há efeitos do clima”, resume a pesquisadora.

“Com o aumento do nível do rio, elas já estão e continuarão sendo afetadas. Do lado da hidrelétrica, lá em Balbina, pode haver uma extinção local ou um colapso nos macrohabitats de macacarecuias, onde há monodominância. E claro, isso vai diminuir a longevidade local delas. Se o nível do rio continuar subindo, isso pode acontecer para toda bacia”, ressalta.

Os impactos da hidrelétrica

A história do rio Uatumã e da hidrelétrica de Balbina não é uma exceção. Nos processos de licenciamento ambiental de hidrelétricas, onde são levantados os impactos ambientais que serão causados pelo empreendimento e propostas as ações compensatórias para mitigá-los, a parte do rio a jusante da barragem na maioria das vezes nem é considerada.

Balbina: lago gigantesco, com impactos ambientais e pouca energia gerada. Foto: Alexandre Kemenes

O biólogo especialista em políticas públicas ambientais, André Aroeira, que por muitos anos trabalhou com licenciamento ambiental de hidrelétricas, explica que o dano causado à hidrelétrica à dinâmica natural de um rio é irreversível. “Quando você faz um barramento, atrapalha toda a migração de fauna que tem lá dentro e toda a dinâmica do rio, isso é irreversível. Até porque essa dinâmica de cheia e seca do rio é muito imprevisível, você não consegue fazer isso nem artificialmente se você quiser depois. Por quilômetros abaixo no rio, as espécies que estavam acostumadas a viver com o ciclo de cheia e seca, isso é perdido, completamente alterado. A árvore que esperaria 10 meses de alagamento, vai receber 5, e é um impacto grande tanto na estratégia produtiva dessa árvore quanto na estratégia reprodutiva de quem está dentro d’água, porque tem peixe que espera a cheia para ir pra terra depositar seus ovos nas raízes das árvores. É uma dinâmica muito particular. E essas coisas não entram no licenciamento. Esses impactos sobre a dinâmica hidrológica do rio são completamente subestimados, na maioria das vezes nem entram nos estudos”, reforça o biólogo.

“Acho que há uma ignorância muito grande, principalmente com essas questões de grandes rios da Amazônia, de subestimar o impacto que será causado. Eles estão preocupados com a barragem, com o tamanho do lago, com a floresta que será desmatada, mas eles não enxergam que por mais de 100 km a jusante ele vai impactar árvores centenárias e mudar toda dinâmica, é uma ignorância ecológica. E por outro lado, há pouca disposição de entender esses impactos”, continua Aroeira.

“Afeta o rio todo, afeta as florestas alagáveis e de terra firme, toda comunidade de plantas, os peixes… só que esses estudos só estão começando. Acima da barragem é muito mais bem estudado, então parece que em cima é muito maior o efeito, mas eu acredito que a gente não tenha ideia ainda de quão grande é o efeito abaixo”, alerta Angélica.

A alta mortalidade de árvores também causa outro efeito não calculado pelos estudos de impacto ambiental da hidrelétrica de Balbina: a alta emissão de metano, um dos principais gases do efeito estufa, liberados pela madeira apodrecida.

Segundo Aroeira, a solução para um processo de licenciamento mais adequado começaria com órgãos ambientais mais fortalecidos, com procedimentos padronizados e com mais servidores, o que permitiria análises mais rápidas e eficientes. Além disso, um zoneamento das áreas onde os impactos ambientais sejam considerados mais viáveis para construção de empreendimentos como hidrelétricas, o que inclusive reduziria os custos do empreendedor com medidas compensatórias.

“Acho que falta ter um debate mais honesto sobre impacto de hidrelétrica, porque tem coisa que não dá para mitigar, então a gente tem que partir do pressuposto que não será mitigado. Tendo clareza de que certas obras são inviáveis por conta de tais impactos em tais regiões, como um zoneamento, você já consegue dar mais informação e clareza pro empreendedor de que naquele local, o empreendimento dele não vai sair”, conclui.

Duda Menegassi

É provável que quinhentas espécies sejam extintas nas próximas duas décadas

Extinções em massa estão se acelerando, relatam cientistas, É provável que quinhentas espécies sejam extintas nas próximas duas décadas, de acordo com um novo estudo.

Um agricultor percorreu uma área queimada da floresta amazônica perto de Porto Velho, Brasil, no ano passado.
Crédito … Carl De Souza / Agence France-Presse – Getty Images

Estamos no meio de uma extinção em massa, muitos cientistas alertaram – este não conduzido por um evento natural catastrófico, mas por seres humanos. A perda não natural de biodiversidade está se acelerando e, se continuar, o planeta perderá vastos ecossistemas e as necessidades que eles fornecem, incluindo água doce, polinização e controle de pragas e doenças.

Na segunda-feira, houve mais más notícias: estamos correndo mais rápido e mais perto do ponto de colapso do que os cientistas pensavam anteriormente, de acordo com pesquisa publicada no Proceedings da Academia Nacional de Ciências. A taxa de extinção entre as espécies de vertebrados terrestres é significativamente maior do que as estimativas anteriores, e a janela crítica para evitar perdas de massa fechará muito mais cedo do que se pensava anteriormente – em 10 a 15 anos.

“Estamos destruindo as capacidades do planeta para manter a vida humana e a vida em geral”, disse Gerardo Ceballos, ecologista da Universidade Nacional Autônoma do México e principal autor do novo estudo.

A taxa atual de extinções excede amplamente as que ocorreriam naturalmente, descobriram o Dr. Ceballos e seus colegas. Os cientistas sabem de 543 espécies perdidas nos últimos 100 anos, uma contagem que normalmente levaria 10.000 anos para se acumular

“Em outras palavras, todos os anos ao longo do século passado, perdíamos o mesmo número de espécies tipicamente perdidas em 100 anos”, disse Ceballos.

Se nada mudar, é provável que cerca de 500 espécies de vertebrados terrestres sejam extintas apenas nas próximas duas décadas, trazendo perdas totais equivalentes às que teriam ocorrido naturalmente ao longo de 16.000 anos.

Para determinar quantas espécies estão à beira da extinção, o Dr. Ceballos e os co-autores Paul Ehrlich, biólogo da conservação da Universidade de Stanford, e Peter Raven, ambientalista do Jardim Botânico de Missouri, procuraram os dados populacionais de 29.400 espécies de vertebrados terrestres compilado pela União Internacional para Conservação da Natureza.

Dessas espécies, 515 – ou 1,7% – estão ameaçadas de extinção, segundo eles, com menos de 1.000 indivíduos restantes. Cerca da metade dessas espécies compreende menos de 250 indivíduos.Um tipo de sapo venenoso em um centro de criação da Colômbia.Crédito: Fernando Vergara / Associated Press

Os pesquisadores também examinaram espécies com populações entre 1.000 e 5.000. Quando os cientistas adicionaram essas 388 espécies à sua análise original, eles encontraram uma sobreposição geográfica de 84% – em grande parte nos trópicos – com espécies do grupo criticamente ameaçado.

A perda de alguns provavelmente desencadeará um efeito dominó que envia outros para uma espiral descendente, ameaçando ecossistemas inteiros, relatam os autores. Dr. Ceballos comparou esse processo à remoção de tijolos da parede de uma casa.

“Se você retirar um tijolo, nada acontece – talvez ele se torne mais barulhento e mais úmido por dentro”, disse ele. “Mas se você retirar muitos, sua casa acabará em colapso.”

Os conservacionistas, portanto, devem considerar todas as espécies com população abaixo de 5.000 indivíduos em risco de extinção, concluíram o Dr. Ceballos e seus colegas.

“Este é um aumento substancial do que normalmente pensamos estar em perigo”, disse Daniel Blumstein, ecologista da Universidade da Califórnia, Los Angeles, que não participou da pesquisa.

O novo estudo também enfatiza a importância de proteger populações individuais de animais, não apenas uma espécie. Com base em uma análise das faixas atuais e históricas de espécies ameaçadas de extinção, os pesquisadores calcularam que mais de 237.000 populações individuais desapareceram desde 1900.

Em um estudo anterior, Ceballos e Ehrlich descobriram da mesma forma que 32% das populações de 27.600 espécies de vertebrados estão em declínio em todo o mundo.

À medida que as populações desaparecem das áreas geográficas, a função da espécie também desaparece. A perda de abelhas nos Estados Unidos, por exemplo, causaria um golpe econômico de mais de US $ 15 bilhões, mas a espécie em si ainda sobreviveria em outras partes do mundo.

“A população declina de espécies comuns – predadores, herbívoros de corpo grande como o rinoceronte, polinizadores e outros – têm grandes efeitos no funcionamento dos ecossistemas, mesmo quando estão longe de serem extintos”, disse Rebecca Shaw, cientista chefe da World Wildlife Fund, que não estava envolvido na pesquisa.Chimpanzés no sul do Kivu, República Democrática do Congo, em março. Hugh Kinsella Cunningham / EPA, via Shutterstock

“Ceballos e seus colegas estão nos dizendo com certeza científica que a sobrevivência dessas espécies está ligada à nossa própria sobrevivência”, acrescentou.

O Dr. Ehrlich enfatizou que as descobertas gerais do estudo foram quase certamente uma subestimação grosseira do verdadeiro escopo do problema de extinção. Sua análise não levou em consideração plantas, espécies aquáticas ou invertebradas e incluiu apenas aproximadamente 5% dos vertebrados terrestres para os quais os cientistas têm dados populacionais.

As descobertas são “de fato o que se esperaria na crescente crise da biodiversidade”, disse Thomas Lovejoy, ecologista da Universidade George Mason, que não participou da pesquisa. O artigo “deve ser considerado um grande alerta, enquanto ainda há tempo para fazer a diferença”.

Que tão poucas pessoas estejam cientes da crise iminente, acrescentou Lovejoy, é uma causa da própria crise.

Muitos que estão cientes podem simplesmente sentir que a perda não é conseqüente. “As pessoas dizem: ‘Que diabos de diferença isso faz para mim?'”, Disse Ehrlich.

Mas muitas vezes o papel de uma planta ou animal em particular em um ecossistema se torna aparente somente depois que a espécie em questão desaparece.

Pombos de passageiros, por exemplo, uma vez numerados em bilhões. Seu apetite voraz por sementes limitou o crescimento populacional de outras espécies que se alimentam de sementes, incluindo ratos de patas brancas – o reservatório natural da bactéria que causa a doença de Lyme.

Após a extinção do pombo-passageiro, as populações de ratos de patas brancas explodiram e os riscos para a saúde humana aumentaram. Os impactos da extinção do pombo-passageiro, escreveram os pesquisadores da Science, “ainda estão sendo sentidos um século após a morte do último pombo-passageiro”.

A pele de um tigre de Sumatra criticamente ameaçado foi apreendida pela polícia em Banda Aceh, na Indonésia, em janeiro.
Crédito: … Mahyuddin / Agence France-Presse – Getty Images

Enquanto os humanos continuam a invadir a natureza e a vida selvagem, Ceballos e seus colegas alertam para uma série de impactos em cascata – incluindo ocorrências mais frequentes de novas doenças e pandemias. O coronavírus que lançou a pandemia se originou em um animal selvagem, a maioria dos cientistas acredita.

“A vacina para o Covid-19 era um habitat natural”, disse Ceballos. “A pandemia é um ótimo exemplo de quão mal tratamos a natureza.”

Com perdas suficientes de espécies, os ecossistemas acabarão fracassando, desestabilizando economias e governos e desencadeando crises de fome e refugiados. Mas existem medidas que podem ser tomadas agora, disse Ceballos.

A perda de habitats e o comércio de animais silvestres são atualmente responsáveis ​​pelo impacto do problema, enquanto as mudanças climáticas ainda não provocaram “o tsunami total” de seus impactos, disse Ceballos.

Para compensar a onda de extinções mais urgente, ele e seus colegas pedem o fim imediato do comércio ilegal de animais silvestres.

“Não há como isso continuar, destruindo espécies e colocando toda a humanidade em perigo”, disse Ceballos. “Nós podemos resolver esse problema imediato.”

Eles também pedem a interrupção do desmatamento e uma reforma completa do comércio legal de animais silvestres – um que priorize a sustentabilidade sobre os lucros.

“O problema mais fundamental é reduzir a escala da empresa humana, especialmente suas demandas consumistas na biosfera”, disse Ehrlich.

Fazer essas mudanças exigirá eleger líderes que priorizem o meio ambiente, redistribuindo recursos e diminuindo o crescimento da população humana. Para ajudar a organizar esses esforços, o Dr. Ceballos e o Dr. Ehrlich lançaram uma nova iniciativa global chamada Stop Extinction.

A iniciativa visa fornecer uma estrutura para a criação de novos acordos nacionais, bem como ferramentas para educar e ativar o público sobre a crise de extinção em desenvolvimento.

“Todos nós precisamos entender que o que fazemos nos próximos cinco a 10 anos definirá o futuro da humanidade”, disse Ceballos.

Elefantes da floresta no Parque Nacional Ivindo, no Gabão, no ano passado.
Crédito … Amaury Hauchard / Agence France-Presse – Getty Images

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Desmatamento na Amazônia ultrapassa 10 mil km2 e tem maior índice desde 2008

Houve uma variação de 3,76% acima da taxa estimada pelo Prodes em novembro de 2019, que era de 9.762 quilômetros quadrados.

Foto: Márcio Isensee e Sá.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) revisou os dados de desmatamento ocorridos em agosto de 2018 a julho de 2019. Foram 10.129 quilômetros quadrados desmatados na Amazônia, o equivalente a quase duas vezes a área do Distrito Federal (5.802 km²) de floresta derrubada. Os números são do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes). Desde 2008, quando o Prodes registrou quase 13 mil km² desmatados, que o índice não era tão alto.

O território desmatado corresponde a um aumento de 34,41% com relação ao período anterior, entre agosto de 2017 e julho de 2018, quando o desmatamento atingiu a marca de 7.536 km².

A taxa consolidada atualiza os dados preliminares, divulgados no final de 2019, de 9.762 quilômetros quadrados. Houve uma variação de 3,76% acima da taxa estimada pelo Prodes em novembro de 2019. Desde 2008 o INPE divulga os dados preliminares do Prodes antes das Conferências das Partes (COP) do Clima, que ocorrem no fim do ano. Entre maio e junho, sai os dados consolidados do desmatamento.

Estados que mais desmataram

O Pará foi o estado que mais desmatou com 4.172 km², sendo responsável por 41,19% de todo o desmatamento na Amazônia Legal. Mato Grosso, Amazonas e Rondônia seguem na lista dos maiores desmatadores, com 1.702 km², 1.434 km² e 1.257 km² respectivamente. Juntos, estes quatro estados responderam por 84,56% de todo o desmatamento.
Fonte: Prodes/INPE.

O Prodes utiliza imagens do satélite Landsat e similares que conseguem detectar desmatamentos acima de 6,25 hectares (0,0625 km²) e considera como desmatamento a remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso, independentemente da futura utilização destas áreas.

Governo volta a falar de queda de desmatamento, mas sem apresentar dados.

Contrariando a tendência de aumento do desmatamento apontada pelos números do Deter, o sistema de alerta de desmatamento do INPE, o vice-presidente Hamilton Mourão disse durante reunião do Conselho de Governo, que “o desmatamento no mês de maio caiu ao mínimo comparado com anos anteriores. Então o nosso primeiro objetivo foi conquistado”. Segundo Mourão, a queda seria resultado da Operação Verde Brasil 2, coordenada pelas Forças Armadas, que completa 1 mês no dia 11 de junho. A reunião foi transmitida ao vivo pela TV Brasil e pode ser conferida no vídeo na íntegra, do canal no Youtube.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

De acordo com dados do DETER, sistema de monitoramento que que lança alertas sobre mudanças de vegetação e acompanha o desmatamento quase em tempo real, entre os dias 1º e 28 de maio – data mais recente disponível – de 2020, foram registrados 641,19 km². Esse valor já é superior aos índices de desmatamento registrados pelo Inpe em 2016 (408,1 km²), 2017 (363,3 km²) e 2018 (550,2 km²) e só perde para maio de 2019, quando o desmatamento registrado foi de 739,7 km².

Ainda na reunião do governo, Mourão acrescentou que o próximo objetivo é reduzir as queimadas. “O segundo [objetivo] é não permitirmos que no segundo semestre ocorram as queimadas na extensão que ocorreram ano passado. A meta para o nosso governo é, pura e simplesmente, termos um número de queimadas inferior ao mínimo histórico, esse é nosso objetivo para o segundo semestre”, disse o vice-presidente.Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Covid-19; Isolamento reforça importância dos parques para a saúde

O objetivo maior de uma unidade de conservação é a proteção da natureza, mas por debaixo dessa missão há na verdade uma troca, na qual a própria sociedade é protegida e beneficiada pela presença da área preservada.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

A quarentena pode ser um convite para repensar nossas conexões com a natureza e a importância das áreas protegidas.

Dentre os benefícios que a natureza nos presta, também conhecidos como serviços ambientais ou ecossistêmicos, está a saúde promovida tanto diretamente pelo contato com a natureza, quanto indiretamente, por nos proteger contra doenças, como a febre amarela, a malária e, especula-se, o próprio coronavírus.

A lista de serviços ecossistêmicos prestados por uma área de natureza preservada é maior do que imaginamos. “A natureza nos presta serviços pelos quais a gente não paga nada: nascentes de água, regulação de clima, solo fértil… E há também o efeito de diluição. A biodiversidade tem a capacidade de diluir o processo de transmissão de agentes infecciosos e manter esses agentes numa proporção muito baixa dentro de uma área com grande biodiversidade. Esse é um serviço da natureza que a gente nunca fala”, ressalta a coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre da Fiocruz, Marcia Chame.

“Para quê que serve uma unidade de conservação? Serve para água, pra gente passear, pra ficar perto da natureza, desestressar, para tudo isso, mas também serve para diluir o processo de transmissão dos agentes infecciosos. A gente precisa fazer as pessoas entenderem o quanto as unidades de conservação nos protegem”, aponta Chame.

A pesquisadora lembra que essa rica biodiversidade também é fonte para remédios e princípios ativos de vacinas. “Quando você tem uma unidade de conservação grande, bem conservada, o que a gente tem ali dentro? Uma diversidade de espécies grandes também. É desse conjunto biológico que o homem se aproveita para produzir várias coisas, entre elas remédios. Mais de 75% dos remédios utilizados são baseados em compostos naturais, a maior parte de plantas. E o que não é produzido a partir dessas moléculas da natureza, é inspirado nessas moléculas. Quando você perde biodiversidade, você perde esse potencial todo de produção de remédio e de inspiração”.

Dentre as unidades de conservação, parques são a categoria que mais se aproximam da sociedade e que têm a missão de ser “a janela do sistema”, em referência ao SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação). Apesar dessa vocação ao público, ainda há um grande gargalo no Brasil para consolidar essa conexão entre parque e sociedade.

O voluntariado pode ser uma oportunidade para engajar as pessoas na conservação da natureza. Foto: Duda Menegassi.

De acordo com o diretor-presidente do Instituto Semeia, Fernando Pieroni, uma das dimensões mais importantes para construir essa cultura de parques entre os brasileiros começa no imaginário. “Os parques são um patrimônio da sociedade. Parte desse processo inclui trazer os parques para o imaginário coletivo, inclui explicar para sociedade a conexão que os parques têm com saúde pública, com bem-estar, e com mais do que normalmente associamos à função de conservação ambiental do parque”, analisa Pieroni.

A publicação “Parques do Brasil: Percepções da População”, produzida e divulgada pelo Semeia em março deste ano, ajuda a mapear as percepções dos brasileiros sobre os parques e a entender como traduzir o papel deles para sociedade, tanto os naturais quanto os urbanos. “Há uma complementaridade. O parque urbano normalmente é o primeiro contato e que depois tende a te levar para um parque natural. Normalmente a experiência de imersão na natureza é diferente nos dois, assim como o tipo de atividade. O parque natural é visto como oportunidade de contato com a natureza, enquanto o parque urbano está mais relacionado com aquele esporte corriqueiro, passear, encontrar amigos”, descreve Pieroni baseado nos levantamentos do estudo.

O diretor acredita que os parques terão um papel importante na hora do fim do isolamento e pós-crise do coronavírus. “Tem muita gente sofrendo com esse confinamento em casa e se os parques já tinham um papel importante antes, na hora que as pessoas voltarem a sair de casa e quiserem se reconectar com espaços públicos e naturais, os parques terão um papel de descompressão emocional fundamental – principalmente os urbanos, que são mais acessíveis”.

O vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Cláudio Maretti, acredita que o fim da quarentena será uma oportunidade para quem trabalha com áreas protegidas. “Acho que as pessoas que gostam da natureza e de estar ao ar livre vão sentir a necessidade de retomar esse contato o mais rápido possível, mesmo que seja em parques urbanos e mais antropizados. Principalmente as pessoas que estão confinadas em apartamentos nas grandes cidades”, analisa. “Isso seria uma oportunidade. Existe uma intenção manifesta, reprimida por causa do distanciamento social”.

Abrir a porta dos parques e colocar o tapete de bem-vindos, entretanto, não será suficiente para ganhar novos aliados da conservação. “Eu acho que vai ter essa corrida no início, e eu espero que ela seja ampla e duradoura, mas os outros estímulos, como cinemas e shoppings, vão continuar competindo. E competir com a indústria do entretenimento, com o consumismo, vai ser igualmente difícil. Cabe a nós, profissionais das áreas protegidas, abrir mais oportunidades com a oferta de atividades, mais áreas para visitação e a criação de programas de engajamento, como o voluntariado”, pondera o especialista em conservação.

Enquanto a quarentena não acaba e a fruição dos parques e de outras áreas protegidas fica comprometida, cabe buscar formas alternativas de manter o contato com a natureza – uma conexão que, inclusive, faz muito bem para saúde. Maretti, que em janeiro publicou em ((o)) eco uma coluna sobre a relação de áreas protegidas e saúde, pontua a quantidade de artigos científicos da área médica que indicam como o contato com a natureza contribui com o bem-estar, ajuda no combate ao estresse e até na recuperação de doenças.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

“Tem uma gradação que vai desde você ver uma foto, até você ter uma janela pro verde urbano, até você morar numa parte da cidade que é mais arborizada, ou numa área próxima a parques. É o que eu faço aqui em casa, vou para sacada ver o verde para me sentir melhor. Isso está nas pesquisas científicas. Há teorias que dizem que esse sentimento é uma herança do tempo em que a gente vivia no mato, uma convivência que perdemos com a vida urbana. Da mesma forma que você olha a foto de um ente querido e isso pode te fazer bem, faz bem olhar a natureza, mesmo que por uma imagem ou pela janela”, explica Maretti.

Meio Ambiente; Amazônia rumo à extinção

Total da área desmatada na Amazônia em 2020 já é maior que cidade de São Paulo

Desmatamento acumulado na Amazônia apenas nos primeiros 4 meses do ano já é superior à cidade de São Paulo. Foto: Bernardo Câmara

Em abril, o desmatamento na Amazônia teve um aumento de 171% em relação ao mesmo período de 2019. Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que registrou 529 km² de área desmatada no bioma no mês de abril, contra 195 km² no mesmo mês do ano passado. O acumulado dos primeiros quatro meses de 2020, de acordo com o SAD, já é de 1.703 km², uma área maior que a cidade de São Paulo (1.521 km²) e um número 133% maior que o mesmo período em 2019, quando o sistema registrou o desmatamento de 460 km².

Segundo as informações do SAD, divulgadas nesta segunda-feira (18), o estado que liderou o desmatamento em abril foi o Pará, com 171 km², o equivalente a 32% do total desmatado. Em seguida aparecem Mato Grosso, com 135 km² (26%); Rondônia, com 98 km² (19%); Amazonas, com 96 km² (18%); Roraima, com 20 km² (4%); e o Acre, com 6 km² (1%). Tocantins e Amapá tiveram 2 km² e 1 km² desmatados, respectivamente, e juntos somaram 0,5% do total desmatado na Amazônia no mês.

O Pará foi o estado com o maior crescimento do desmatamento para o mês de abril quando comparado com o mesmo mês em 2019, quando registrou 32 km², um aumento de 434% para 2020. Os dois municípios com os maiores índices de desmatamento também são paraenses, Altamira e São Félix do Xingu, com 72 km² e 44 km² desmatados, respectivamente. Juntos, apenas estes dois municípios respondem por 67,8% do desmatamento em todo o estado e 21,9% do total desmatado na Amazônia.

As cidades de Porto Velho e Candeias do Jamari, em Rondônia, também aparecem entre os municípios que mais desmataram segundo o SAD, com 31 km² e 14 km², respectivamente. Ambos os municípios integram o território da Floresta Nacional do Jacundá, unidade de conservação onde foi realizada a primeira ação da Operação Verde Brasil 2, de acordo com informações divulgadas pelo vice-presidente General Hamilton Mourão. Apesar de Mourão ter comentado em coletiva cedida à imprensa na última semana de que a operação havia sido um sucesso, ainda não foram divulgados dados oficiais sobre os resultados da operação coordenada pelas Forças Armadas.

O relatório produzido pelo Imazon indica ainda que 60% do desmatamento registrado ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, 22% em unidades de conservação, 15% em assentamentos e 3% em Terras Indígenas.

Fonte: Relatório Imazon
Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD)

O mês de abril foi marcado pela expectativa da votação da Medida Provisória 910, que foi pauta na Câmara dos Deputados apenas em maio e não obteve consenso entre os parlamentares para prosseguir com a votação. A MP, que perde a validade nesta terça (19), ficou conhecida como a MP da Grilagem, pois especialistas apontaram que o texto incentivava a invasão de terras ao anistiar as invasões ocorridas até 2018. O tema da regularização fundiária, entretanto, volta ao Congresso como o Projeto de Lei nº 2633/2020 e pode ser votado já nesta quarta-feira (20), caso haja pedido de tramitação em regime de urgência .

A MP 910 tinha o apoio de representantes do governo, como do vice-presidente Mourão, que também coordena o Conselho da Amazônia, e o próprio Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ambos defendem que a regularização fundiária e o zoneamento econômico-ecológico na região amazônico são passos fundamentais para combater o desmatamento no longo prazo e que a MP seria um instrumento para isso.

De acordo com a pesquisadora do Imazon, Brenda Brito, o ponto crucial não é a regularização fundiária e sim o ordenamento territorial na região. “Existem áreas públicas não destinadas que estão sendo ocupadas, muitas delas desmatadas, e você precisa ordenar isso territorialmente. Precisa definir se aquela é uma área que pertence à comunidade, à povos indígenas, à agricultura familiar ou à conservação. E com as áreas que sobrarem decidir se será feita a privatização ou não daquele território. Esse deveria ser o raciocínio do ponto de vista da legislação”.

“O que a gente ouve nessas coletivas é esse argumento de que você precisa regularizar e titular quem está na área, para poder saber quem é e punir. Isso não faz o menor sentido do ponto de vista da legislação ambiental. Não existe nenhum ponto na legislação que diga que você só pode punir quem é dono de uma área. Você pune quem pratica o crime ambiental”.

A pesquisadora, especialista em gestão fundiária, acredita que a mensagem passada pelo próprio governo ao encaminhar uma proposta como a MP 910 é a de impunidade às infrações ambientais. “Na prática a mensagem é: continue invadindo e desmatando que que lá na frente vocês serão beneficiados. Esta é uma história que a gente está vendo ocorrer na Amazônia, vimos ela acontecer há três anos quando a lei foi modificada e aumentou o prazo de quem poderia receber o título [até 2011] e agora estão querendo fazer isso de novo. Infelizmente o recado é o contrário do que o governo deveria fazer”, opina.

Sessão na Câmara sobre a MP 910 não chegou em consenso sobre a votação da medida, que deve voltar com novo texto em PL.
Foto: Najara Araujo/Câmara dos Deputados

Além disso, Brenda ressalta que mesmo sem a legislação de fato, somente o discurso adotado pelo governo de Bolsonaro já é um dos grandes motores para o aumento do desmatamento na Amazônia. “Honestamente, o que adianta você fazer uma mega operação, se você está estimulando o desmatamento, impedindo a fiscalização do órgão ambiental, retirando os fiscais que estão trabalhando, estimulando o garimpo ilegal dizendo que vai legalizar e impedindo a destruição de máquinas? É uma contradição você colocar o Exército para combater algo que está sendo também estimulado pelas próprias declarações de quem representa os órgãos. É uma conta que não vai fechar” analisa a pesquisadora.

Em abril deste ano, o até então Diretor de Proteção Ambiental do IBAMA, Olivaldi Azevedo, foi exonerado por Salles e substituído pelo Policial Militar de São Paulo, coronel Olímpio Ferreira Magalhães. A exoneração de Olivaldi ocorreu logo após uma mega operação do IBAMA contra o garimpo ilegal em Terras Indígenas no Pará, noticiada pela Rede Globo no Fantástico. Além de Olivaldi, dois coordenadores de fiscalização do órgão envolvidos na ação foram exonerados logo em seguida.

“Você não precisa reinventar a roda, as ações já existem e foram feitas no passado, o que você precisa é aplicar com consistência e coordenação, porque se não tiver não adianta, você pode colocar todo o Exército lá que o desmatamento vai continuar”, resume Brenda Brito.

A pesquisadora lembra a queda histórica no desmatamento de 2004 a 2012, quando o total desmatado caiu de 27.772 km² para 4.571 km² (Fonte: PRODES/INPE) em 8 anos. No período, o governo federal combateu o desmatamento com medidas com o Sistema de monitoramento DETER, feito pelo INPE, que fornece alertas quase em tempo real de desmatamentos, aumentando a eficácia das operações de fiscalização do IBAMA; e o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm); ambos criados em 2004.

O biólogo especialista em políticas públicas ambientais, André Aroeira, reforça que um dos principais trunfos para um combate efetivo ao desmatamento é a coordenação conjunta entre ministérios e órgãos. “Tem vários instrumentos que estão sendo subutilizados no atual governo, como o PPCDAm que foi crucial durante aquela fase [2004 – 2012] em que o combate ao desmatamento foi bem-sucedido.

O Plano perdeu muita força já no governo Dilma, quando saiu da Casa Civil e foi pro Ministério do Meio Ambiente e hoje está desmobilizado, perdeu a coordenação que havia entre os vários ministérios e órgãos, todos trabalhando em conjunto no combate ao desmatamento. Quando você perde essa coordenação, o combate fica muito mais fraco. Não é só o Ministério mandando equipe para campo, tem que ter as imagens do INPE, tem que ter Polícia Federal fazendo investigações em cima das cadeias criminosas, tem que ter Ministério Público, a Polícia Rodoviária Federal. Todo mundo tem que estar junto para ser um esforço bem-sucedido”.

Operações do IBAMA são cruciais para combater o desmatamento de forma efetiva. Foto: Marcio Isensee

Aroeira ressalta também que fortalecer o IBAMA, órgão responsável pela fiscalização ambiental no país, é crucial. “Com o DETER, a partir de 2004, o IBAMA conseguiu pegar os desmatamento enquanto eles estavam ocorrendo e não só depois do estrago feito, quando só chegava para embargar e multar. O uso das imagens com inteligência para planejar as ações em campo foi muito eficiente. E nessa época o IBAMA era muito mais forte. O órgão começou a perder força no governo Dilma, perdeu escritórios regionais, perdeu gente, e no governo Bolsonaro isso se intensificou. O último concurso do IBAMA foi há 20 anos e nesse meio-tempo muitas pessoas se aposentaram ou saíram, e o quadro não foi reposto. Hoje nós temos um IBAMA com muito menos gente, muito menos dinheiro e muito mais preso nas capitais, com menos penetração nos territórios”, analisa o biólogo.

Outro mecanismo importante de acordo com Aroeira é a criação de áreas protegidas, tanto unidades de conservação quanto Territórios Indígenas. Desde sua campanha, Bolsonaro adotou um discurso contrário a essas áreas, chegou a dizer que “no que depender de mim, não tem mais demarcação de Terra Indígena” e lamentou não poder alterar os limites ou mesmo extinguir unidades de conservação diretamente com decretos presidenciais.

“Até 2008, o Brasil era o país que mais criava áreas protegidas no mundo, que são territórios que tendem a conter o desmatamento. Nós temos verdadeiras barreiras de áreas protegidas e o Arco Desmatamento está batendo agora nessas barreiras. É uma política muito efetiva, porque além de serem territórios legalmente protegidos, eles também não tem infraestrutura como uma estrada que facilite o acesso e a prática dos crimes ambientais”, explica Aroeira.

Desmatamento nas unidades de conservação e Terras Indígenas

De acordo com o Imazon, em abril de 2020, cerca de 116 km² foram desmatados dentro de unidades de conservação, 22% do total; e aproximadamente 16 km ² em Terras Indígenas, o equivalente a 3% do acumulado no mês.

Entre as unidades de conservação (UCs), o desmatamento é encabeçado pela Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no Pará, com 46 km² desmatados; seguida pela Floresta Extrativista Rio Preto-Jacundá, em Rondônia, com 37 km². A Reserva Extrativista Jaci-Paraná (RO) com 8 km², a Floresta Nacional do Jamanxim (PA) com 6 km² e a Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt com 4 km² desmatados – todas categorias de UCs de uso sustentável, onde a exploração dos recursos naturais é permitida de forma manejada.

Na lista, chama atenção a presença de uma reserva biológica (Rebio), unidade de proteção integral e de caráter mais restritivo, entre as UCs com maior índice de desmatamento. Em oitavo lugar no ranking, a Rebio Nascente da Serra do Cachimbo, localizada no sul do Pará, teve 4 km² desmatados apenas no mês de abril, o equivalente a 400 campos de futebol.

Com relação às Terras Indígenas, de acordo com o SAD, as duas que mais registraram desmatamento foram a Terra Indígena Mundurucu, no Pará, ocupada pelos povos Apiaká, Isolados do Alto Tapajós e Munduruku, onde houve 4 km² desmatados; e a Terra Indígena Yanomami, na fronteira entre Roraima e Amazonas, onde vivem os povos Isolados da Serra da Estrutura, Isolados do Amajari, Isolados do Auaris/Fronteira, Isolados do Baixo Rio Cauaburis, Isolados Parawa u, Isolados Surucucu/Kataroa, Yanomami e Ye’kwana, registrou 2 km² de desmatamento.

Pespectivas para 2020

De acordo com o monitoramento feito pelo PRODES, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), desde 2015, a área desmatada anualmente na Amazônia se mantém acima dos 6 mil km². Ano passado, o total desmatado somou 9.762 km², um crescimento de 30% em relação a 2018.

“Tem várias análises que indicam que, no rumo que estamos indo, podemos ter uma taxa de desmatamento superior a do ano passado, que já foi alta em relação aos anos anteriores. E infelizmente eu não vejo nenhum comprometimento que indique que iremos mudar essa trajetória. Não existe um plano real de combate ao desmatamento. Ano passado os estados se articularam no combate ao desmatamento, mas infelizmente esse ano estamos numa situação muito complicada na Amazônia com a pandemia do coronavírus e colapso dos sistemas de saúde estaduais. Como a gente pode esperar que os governos estaduais possam lidar com todas essas crises ao mesmo tempo sem o apoio consistente do governo federal?”, analisa Brenda Brito, do Imazon.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Aroeira também não acredita que o ritmo do desmatamento vá desacelerar tão cedo. “É complexo avaliar, mas a tendência de crescimento, na minha opinião, é irreversível. Nós tivemos quase 10.000 km² desmatados ano passado, e esse ano os alertas do DETER já estão indicando um aumento de 90% de agosto até agora, e nós estamos entrando no período mais crítico agora e a resposta do governo é bem fraca, porque essa GLO [Garantia da Lei e Ordem na Amazônia Legal] ela não passa muita segurança de que é para valer. Ela é muito menos eficiente do que um IBAMA forte, por exemplo”, diz o biólogo. “Acho difícil conseguirmos reverter essa tendência de crescimento tanto nesse ano quanto no próximo, porque esse combate ao desmatamento passa por políticas estruturantes e uma mensagem clara do governo, e essas coisas você não consegue no curto prazo”.

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A floresta amazônica no Brasil: vivendo nas sombras da violência e do desenvolvimento

No centro do desmatamento e dos conflitos de terra no Brasil, um pequeno agricultor viu o custo pessoal para sua família e comunidade de se manifestar. Seu filho se escondeu para escapar das ameaças de morte.

Desmatamento,Meio Ambiente,Ecologia,Natureza,Blog do Mesquita 07

Maria Marcia Elpidia de Melo não vê seu filho Elmiro há mais de seis meses. O líder comunitário, de um assentamento agrário no Pará, na Amazônia brasileira, tem sido um crítico franco contra a apropriação de terras na região. No ano passado, seu filho de 20 anos foi espancado e recebeu ameaças de morte por agressores desconhecidos – e então ela o mandou para o esconderijo.

Ela tem 42 anos e mora em Terra Nossa desde 2006 como mãe solteira e com seu único filho em uma casa de tijolos de um andar. Manchava luz pela janela de Melo enquanto ela se inclinava sobre a mesa da cozinha, achando que o trabalho dela colocara sua vida em perigo. O pequeno agricultor e presidente da Associação de Produtores Rurais de Nova Vitória se tornou cada vez mais envolvido com disputas de terras.

“O que eu não posso aceitar é se eles matarem meu filho”, disse ela, com os olhos lacrimejando. “Ele está seguro por enquanto, mas não vou visitá-lo porque tenho medo de alguém me seguir.” Antes de se esconder, Elmiro ajudou a mãe em sua fazenda.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, um órgão de vigilância da violência rural, três habitantes da vila de Melo foram assassinados em 2018 – e desde então 16 pessoas na região receberam ameaças de morte por causa de conflitos de terra.
Árvores destruídas pelo fogo em Novo Progresso, Pará, Brasil em agosto do ano passado.Imagens aéreas de toras cortadas ilegalmente alinhadas na floresta amazônica

Grilagem de terras e ameaças

De Melo relatou vários incêndios provocados pelo homem e minas ilegais na delegacia de Novo Progresso ao longo do ano passado. Mas, em três ocasiões, ela diz, os homens envolvidos na exploração alertaram-na para “parar de protestar ou enfrentar a morte”. A força policial não respondeu a um pedido de comentário sobre as ameaças.

Terra Nossa, um assentamento de 350 famílias cercadas por uma floresta sufocante e acessível apenas por uma estrada de terra, está no epicentro do desmatamento na Amazônia. O município vizinho de Novo Progresso ganhou as manchetes internacionais em agosto do ano passado, quando incêndios florestais gigantescos tomaram conta da região, uma prática agrícola anual agora levada ao extremo pela apropriação de terras.

Cerca de 124 incidentes de incêndios foram registrados pelas autoridades de Novo Progresso em apenas um dia, coordenados em grande parte por um grupo, principalmente agricultores, procurando limpar a terra da floresta e reivindicá-la por si mesmos.

Leis e regulamentos atuais

De acordo com a agência espacial brasileira INPE, o desmatamento entre 1 de agosto e 30 de novembro de 2019 totalizou 4.217 quilômetros quadrados, ou 46.000 campos de futebol americano – mais do que o dobro dos números de 2018 no mesmo período.

Manifestantes no Rio de Janeiro exigem mais proteção para a Amazônia

Especialistas dizem que as leis atuais incentivam um processo interminável de incêndios, desmatamento e apropriação de terras. “Existe um incentivo claro na lei”, disse Brenda Brito, pesquisadora do Instituto Imazon, uma organização de pesquisa com sede no Brasil. “Ele permite que você ocupe terras públicas, finja que as está usando [para trabalho legítimo] e depois reivindique o título da terra”.

Em dezembro do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro afrouxou ainda mais as regulamentações, triplicando a quantidade de terras que podem ser reivindicadas e permitindo que aqueles que ocupam terras desde pelo menos 2014 recebam títulos – anteriormente o limite era 2008.

Apoio ao desenvolvimento

Das estradas de terra que cortam a Terra Nossa, usadas para transportar madeira extraída ilegalmente, surge uma cena de encostas empilhadas com troncos de árvores de décadas. “Era uma vez bonito aqui”, disse Melo. “Antes de todo esse negócio começar.”

Mas a Amazônia é uma das regiões mais pobres do Brasil, com 45% de seus 23 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza. Há raiva de alguns agricultores locais com a sugestão de que a floresta tropical seja priorizada sobre as condições de vida dos trabalhadores normais. Bolsonaro, eleito após fazer campanha para abrir a Amazônia à indústria, acendeu apoio ao desenvolvimento.

Vista aérea da terra limpa em Novo Progresso, Brasil

“O que eles esperam que façamos? Para alimentar nossa família com sujeira?” disse Agamenon da Silva Menezes, líder sindical de agricultores em Novo Progresso.

“Mesmo que a mudança climática seja real, e não tenho certeza se acredito, por que você [o Ocidente] pode ficar rico e esperar que o resto de nós fique feliz por permanecer pobre?” Menezes adicionado.

Conflito com as comunidades locais

Apesar da ampla condenação internacional, Bolsonaro incentivou e defendeu essas práticas. “O desmatamento e os incêndios nunca terminarão”, disse o presidente no ano passado, argumentando que “é cultural”.

Na busca pelo lucro, no entanto, os ocupantes de terras em grande escala – tanto fazendeiros locais ricos como estrangeiros – estão cada vez mais entrando em conflito com as comunidades locais.

“Onde há desmatamento, geralmente há desapropriação e violência”, disse Mauricio Torres, cientista social e especialista em apropriação de terras na Amazônia. “Para desmatar, é necessário remover as comunidades que ocupam essa floresta.”

Alguns argumentam que incêndios, desmatamento e apropriação de terras no Brasil são incentivados por leis e regulamentos.

A apropriação de terras e incêndios na Amazônia tiveram um impacto direto nas comunidades locais no Brasil

Terra Nossa, da casa de Melo, é incomum entre pequenos agricultores que usam a terra e a floresta circundante repleta de açaí e castanha do Brasil de forma sustentável. A onda de ocupação de terras revirou esse modo de vida.

Raione Lima Campos, advogada da Comissão Pastoral da Terra na região, diz que líderes locais como de Melo frequentemente se tornam alvo de madeireiros e fazendeiros quando falam.

Ela acrescenta que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), o órgão nacional para questões de reforma agrária, fez pouco esforço para resolver as questões de invasão e violência de terras. “O INCRA não tem interesse nisso”, acrescentou, referindo-se à falta de ação. “Sempre foi ruim, mas agora a situação piorou.” O INCRA não respondeu a uma solicitação de comentário.

Para De Melo, o resultado é uma mistura estonteante de desconfiança nas instituições públicas que deveriam protegê-la. Mas a apropriação de terras é apenas uma parte do plano de Bolsonaro – juntamente com a ferrovia Ferrograo para transportar soja, barragens hidrelétricas ao longo do rio Tapajós e a rodovia BR-163 através do Pará – projetada para abrir a Amazônia ao agronegócio.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

Passeando pelo jardim da casa de Melo, onde seu filho Elmiro já brincou entre as plantações de caju, pupunha e açaí, há uma sensação de que ela é completamente isolada e vulnerável, mas também no coração pulsante de uma das infra-estruturas mais significativas projetos no mundo.

“Esses grileiros são uma gangue organizada que está em toda parte”, disse ela. “Eles até têm políticos influentes no meio deles. Qualquer problema que eles tenham, como eu, acabará por desaparecer.”