Robinho e seu Deus “particular” contra “pessoas usadas pelo demônio”

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Em Pauta;Violência contra Mulher

A violência contra as mulheres – especialmente a violência praticada pelo parceiro íntimo e a violência sexual – é um grande problema de saúde pública e uma violação dos direitos humanos das mulheres.


Robinho assiste à partida Santos x Atlético-GO, na Vila Belmiro (Foto: Ettore Chiereguini/AGIF)

Os fatos são esses;
Estimativas globais publicadas pela OMS indicam que cerca de 1 em 3 (35%) das mulheres em todo o mundo sofreram violência física e / ou sexual por parceiro íntimo ou violência sexual por não-parceiro em sua vida.
A maior parte dessa violência é violência contra parceiro íntimo. Em todo o mundo, quase um terço (30%) das mulheres que estiveram em um relacionamento relatam que sofreram alguma forma de violência física e / ou sexual por parte de seu parceiro íntimo em sua vida.
Globalmente, até 38% dos assassinatos de mulheres são cometidos por um parceiro íntimo do sexo masculino.
A violência pode afetar negativamente a saúde física, mental, sexual e reprodutiva das mulheres e pode aumentar o risco de contrair o HIV em alguns ambientes.
Os homens são mais propensos a perpetrar violência se tiverem baixa escolaridade, histórico de maus-tratos infantis, exposição à violência doméstica contra suas mães, uso nocivo de álcool, normas de gênero desiguais, incluindo atitudes de aceitação da violência e um senso de direito sobre as mulheres.
As mulheres são mais propensas a sofrer violência pelo parceiro íntimo se tiverem baixa escolaridade, exposição a mães sendo abusadas por um parceiro, abuso durante a infância e atitudes de aceitação da violência, privilégio masculino e status de subordinação das mulheres.
Há evidências de que as intervenções de advocacy e aconselhamento de empoderamento, bem como a visita domiciliar, são promissoras na prevenção ou redução da violência praticada pelo parceiro íntimo contra as mulheres.
Situações de conflito, pós-conflito e deslocamento podem exacerbar a violência existente, tal como por parceiros íntimos, bem como violência sexual não parceira, e também podem levar a novas formas de violência contra as mulheres.

Não há outro caso tão comentado quanto o de Robinho no momento. Lembro-me de assistir ao escritor Ariano Suassuna, em uma palestra memorável em Niterói, cerca de dez anos atrás, citando Robinho como exemplo da alegria e a genialidade brasileira. O mundo prega peças.

A divulgação dos áudios, fruto da investigação do caso de estupro coletivo pelo qual Robinho foi condenado, não é apenas uma frustração, se tornou algo maior e pior, com a maneira como os áudios revelam que o jogador banalizou o episódio.

Mas meu artigo não é sobre estes áudios especificamente. O artigo é sobre como, em um curto áudio em que busca demonstrar tranquilidade e segurança, Robinho recorre ao nome de Deus por pelo menos seis vezes. Parece dar ar de normalidade enquanto demonstra ser orientado por “valores cristãos”.

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Fazendo uso de um linguajar cristão, fortemente evangélico, Robinho ilustra de maneira tristemente exemplar, como Deus pode significar nada, além de um recurso para demonizar adversários, rebater críticas e demonstrar superioridade.

“Esses caras não vão me afetar não, porque Deus tá no controle de tudo”, diz Robinho. O que faz Robinho pensar a si mesmo como “inafetável”? A que ele se refere como “tudo” que estaria sob o controle de Deus, diante do abuso desumanizante de que ele participou sem controle, com seus amigos?

“Esses caras aí são pessoas usadas pelo demônio”. Sim, demonizar críticas, ou quem contesta suas práticas, também costuma ser comum. Se pessoas que criticam Robinho por sua fala vexatória e debochada sobre o caso foram usadas pelo demônio, quem usou Robinho e seus amigos em um episódio em que uma mulher é abusada coletivamente?

“Porque no deserto, é nesses ataques que você se aproxima de Deus, que você se prepara”. A narrativa da perseguição é se projetar como vítima de uma hostilidade, inveja ou complô. Não é à toa que sua referência de exemplo é Jair Bolsonaro.

Faz sentido o paradigma de superação e “preparo” por Deus para Robinho ser alguém que ataca jornalistas quase diariamente, faz piada preconceituosa e sexista em vídeo ao lado de uma criança de 10 anos, e diz para uma mulher que ela não merecia ser estuprada porque era muito feia.

Não tenho como não pensar em como é interessante que pessoas que ostentam um linguajar feito para ostentar “respeito pela moral” e “respeito pelos princípios cristãos” se identificam com o presidente e sua “luta” contra a perseguição que vem de esquerdistas, jornalistas, Rede Globo ou, “pessoas usadas pelo demônio”.

Os áudios mostram um Robinho sem qualquer constrangimento, sem arrependimento, sem remorso. Nada que indique qualquer perturbação por ter feito parte de uma situação de estupro coletivo. O jogador está confortável na certeza de que não há como provar sua participação direta. E só.

“Deus vai dar vitória. Que se cumpra o propósito de Deus na minha vida”, disse Robinho. Definitivamente, não dá para achar normal essa facilidade de se recorrer ao nome de Deus enquanto se banaliza o respeito a vida de outra pessoa, compactuando e debochando do abuso de sua condição vulnerável.

José Mesquita

José Mesquita

Nasceu em Fortaleza,Ce. Pintor, escultor, gravador e "designer". Bacharel em Administração, Ciências da Computação e bacharel em Direito. Pós-graduado em Direito Constitucional. É consultor em Direito Digital. Participou de mais de 250 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior. Design Gráfico, já criou mais de 35 marcas, logotipos, logomarcas, e de livrosa de arte para empresas no Brasil e Exterior Criador e primeiro curador do Prêmio CDL de Artes Plásticas da Câmara de Dirigentes Lojista de Fortaleza e do Parque das Esculturas em Fortaleza. Foi membro da comissão de seleção e premiação do Salão Norman Rockwell de Desenho e Gravura do Ibeu Art Gallery em Fortaleza, membro da comissão de seleção e premiação do Salão Zé Pinto de Esculturas da Fundação Cultural de Fortaleza, membro da comissão e seleção do Salão de Abril em Fortaleza. É verbete no Dicionário Brasileiro de Artes Plásticas e no Dicionário Oboé de Artes Plásticas do Ceará. Possui obras em coleções particulares e espaços públicos no Brasil e no exterior. Foi diretor de criação da Creativemida, empresa cearense desenvolvedora de portais para a internet e computação gráfica multimídia. Foi piloto comercial, diretor técnico e instrutor de vôo da Ecola de Aviação Civil do Ceará. É membro da National American Photoshop Professional Association - NAPP, Usa. É membro da Academia Fortalezense de Letras e Membro Honorário da Academia Cearense de Letras. Autor de três livros de poesias - e outros quatro ainda inéditos; uma peça de teatro; contos e artigos diversos para jornais; apresentações e prefácios de publicações institucionais; catálogos e textos publicitários. Ministra cursos gratuítos de Arte e de Computação Básica para crianças e adolescentes em centros comunitários de comunidades carentes na periferia das cidades.

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José Mesquita

Pintor, escultor, gravador e “designer”.

Bacharel em administração e bacharelando em Direito.

Participou de mais de 150 exposições, individuais e coletivas, no Brasil e no exterior.

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