Senador que votou pelo impeachment tem bens bloqueados por sonegação de tributos federais

O senador Zezé Perrella (PTB/MG), o irmão dele Alvimar Perrella, e outras 10 pessoas podem ser obrigados pela Justiça Federal a pagar R$ 70 milhões aos cofres públicos por suposta sonegação de tributos federais

A decisão não deixa claro se os frigoríficos eram dirigidos por laranjas ou sócios dos irmãos Perrella. Por isso, o juiz determinou o reconhecimento da dívida milionária para 12 pessoas físicas envolvidas e das 14 empresas. No despacho, o juiz concluiu que “ficam amplamente demonstrados veementes indícios de que pessoas físicas (entre elas, Alvimar e Zezé) eram os verdadeiros donos do negócio que se operou sobre a razão social das empresas”.

Ainda conforme o magistrado, “os administradores das empresas citadas agiram em inequívoca infração à lei tributária, ao promoverem fraude fiscal”. A ação foi movida pela Procuradoria da Fazenda Nacional em parceria com a Receita Federal. A decisão foi publicada nessa sexta (25) portal da Justiça Federal em Minas. Cabe recurso.

No mesmo despacho, o magistrado federal revelou a existência de grupo econômico, incluindo frigoríficos e empresas de transporte, e atualizou o valor da cobrança dos impostos sonegados no montante de R$ 70.267.631,24.

Os tributos sonegados são de competência da União, entre eles Imposto de Renda de Pessoa Jurídica, Contribuição Social sobre Lucro Líquido, Contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), além de Contribuição Social para o PIS/Pasep.

O juiz determinou a expedição de mandados de citação dos condenados, penhora e avaliação em desfavor de todos os responsáveis. São eles José Perrela de Oliveira Costa, Alvimar de Oliveira Costa, Cláudio Ney de Faria Maia, Marcos Antônio de Faria Maia, Geraldo Heleno de Faria, Paulo Afonso de Faria Maia, Maria da Conceição Rezende de Faria, Maria José de Faria Maia, Dênio Altivo de Oliveira, Maria da Conceição Teodora, Paulo Cezar de Faria e Eva Ionélia de Jesus Maia.

As empresas envolvidas são Frigorífico Cristal Ltda. – ME, Frigo Adoro Indústria e Comércio Ltda., Bandeirante Comércio e Representação Ltda. – EPP, Gene Alimentos Ltda. EPP, Nema Alimentos Comércio e Representação Ltda. – EPP, Meireles Consultoria e Assessoria Eireli – EPP, Plena Alimentos Ltda., Mellore Alimentos Ltda., Betim Carnes Ltda. – ME, BT Carnes Ltda. – ME, Transquali Transportes de Qualidade Ltda., Transportadora Contorno – EIRELI e Rajest Participações e Empreendimentos Ltda. – ME.

Corrupção: uma doença que contamina a sociedade, cada vez mais descrente

Ratos de colarinho branco políticos Congresso nacional Blog do MesquitaEscândalos e impunidade fazem com que poder público perca o respeito da população

Historicamente, a trajetória política do país se mistura com escândalos de corrupção, farra com dinheiro público e descaso com a população carente. Notícias de falcatruas tendo como personagens autoridades e instituições públicas estão todos os dias nas manchetes dos jornais. Para quem lê e vê todos os dias os desmandos acontecerem, e sobretudo sem que os personagens sofram qualquer tipo de punição, a indignação e a falta de crença nas instituições do país são os sentimentos dominantes.

Para sociólogos, a questão é histórica, onde as autoridades – e também o povo – esqueceram como diferenciar o espaço público e o privado na hora de agir, gerando uma sociedade corrupta de diversas formas, nos mais diferentes núcleos.

Os casos de corrupção, ostentação e exageros se multiplicam: helicóptero do deputado estadual Gustavo Perrella transportando cocaína; lagostas e champanhes compradas com dinheiro público pelo governo de Roseane Sarney enquanto presos sofrem sem a mínima dignidade nos presídios do Maranhão; Delta, Carlinhos Cachoeira e Sérgio Cabral constantemente juntos nas manchetes. O Mensalão e seus presos. O atual governador do Rio, Pezão, e suas idas e vindas constantes em helicópteros do governo.

As testemunhas desses excessos são o próprio povo. Povo que muitas vezes trabalha como garçom ou cozinheiro em banquetes oferecidos nos palácios da esfera pública, regados a espumantes de R$ 100 cada, e jantares de quase R$ 200 por pessoa. Imaginem estes trabalhadores testemunhando negociatas milionárias brindadas a peso de ouro, enquanto recebem, no fim do dia, uma diária que corresponde a duas garrafas de champanhe… Que tipo de sentimento eles terão?[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Para Paulo Silvino Ribeiro, professor de sociologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a corrupção e a falta de “sensibilidade moral” acontece quando se confunde as esferas públicas e privadas, coisa historicamente comum no Brasil. “As duas coisas, que deveriam ser distintas, onde aquilo que é de meu interesse é privado e o que é público é de interesse coletivo, se tornaram indistintas na nossa cultura. Hoje, entendemos melhor o privado e o publico, mas há um ranço histórico muito grande”, explica. “A sociedade civil foi constituída prescindindo o Estado, ela não entendia o que era o Estado. Foi formado por uma elite branca de 10% que comandava esse estado em seu propósito, e isso foi sendo assimilado culturalmente”, completa.

Para Marcos Otávio Bezerra, professor de sociologia e antropologia da Universidade Federal Fluminense, a formulação de falta de delimitação entre o público e privado pode ser fraca quando se pensa praticamente. “As pessoas que se apropriam dos recursos públicos sabem que estão fazendo isso. Inclusive, por serem públicos, elas acham que podem dar um outro destino, voltado para seu interesse”.

Segundo ele, a corrupção dentro das instituições públicas é agravada pelo exemplo que as autoridades deveriam dar e pela total consciência do que se está sendo feito. “Essas pessoas estão ocupando funções publicas, os políticos e pessoas que ocupam posições no executivo têm a obrigação de dar o exemplo. Elas estão numa posição que trabalham em prol do publico, pelo menos deveriam. E tem essa visibilidade. As pessoas pensam ‘se eles fazem eu vou fazer também’, então é um mau exemplo. Elas estão nas posições mais altas na hierarquia brasileira e funcionam como um contraponto para o cidadão”, critica.

“Além disso, as pessoas que ocupam essas posições tiveram as melhoras oportunidades de vida, moraram bem, estudaram, tem salários adequados para a vida delas, elas, em tese, não precisariam fazer o que elas fazem. Não é por falta de informação, recursos econômicos”, completa.

Para Silvino Ribeiro, a sensibilidade para saber o que é ou não importante se perde com o poder. “Tudo está dentro de uma chave que é a da moral e da ética”, comenta. A ação de Roseane Sarney, por exemplo, em comprar lagostas quando a população pobre do Maranhão sofre com um problema crítico nos presídios, não é corrupção, mas esbarra em dilemas morais. “É uma ação que é imoral, porque não era o melhor momento de se pensar isso. Tem uma questão moral que tem que ser pensada na perspectiva de alguém que lida com aquilo que é a demanda da sociedade. Essa sensibilidade, muitas vezes, é perdida porque eles [políticos] têm um sentimento de impunidade, porque se sentem donos de tudo mesmo”, completa.
Fonte:Jornal do Brasil