Arte,Blog do Mesquita,P

Anibal Beça – Poesia – Literatura

Quinta Estação
Anibal BeçaArte,Blog do Mesquita,P

Não há recomeço possível.
Senão um olhar para trás.
A flor que murcha cai
não torna para o galho.

Por cima dos ombros
o outono perde a primavera
e as folhas secas
são tapetes grados
para amaciar pegadas.

Um murmúrio bate à nossa porta
e o vento inexorável
escarifica cicatrizes
no exato arrepio.

No pressentido encontro
– bandido convicto –
assalto o canteiro
dessa noite insone
e agasalho a alba
na gruta do sésamo.

 

Rio,Fotografia,Blog do Mesquita,Flickr

Thiago de Melo – Poesia – Literatura

Como um rio
Thiago de MeloRio,Fotografia,Blog do Mesquita,Flickr

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.

E de levar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas subitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade das funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, sabe seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

Foto Flickr

Artes Plásticas,Desenhos,Henry Asencio,Blog do Mesquita

Elizabeth Barrett Browning – Poesia – Como te amo?

Como te amo?
Elizabeth Barrett BrowningArtes Plásticas,Desenhos,Henry Asencio,Blog do Mesquita

Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo
e ao mais alto que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites
do Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoas
e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido – quando
perdi os meus santos – amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.

Gerson Valle – Poesia

Fala das melodias
Gerson Valle

Chegávamos ao ponto
de falarmos por melodias,
enquanto nossos olhares
davam-se as mãos, percorrendo
um possível horizonte de encontros.
Que palavras haveriam de se formar
na dimensão pura de nosso olhar?
Escapa a emoção dos momentos,
forçando-nos a procurá-los
por cima dos armários,
pelas penas dos pássaros que passam,
ou condensá-los na forma de poesia,
que não devia estar aqui,
ser escrita ou pensada,
por ser poesia em si,
e mais nada.

Mas, não querendo esquecer a melodia,
escrevo e reescrevo a mesma poesia,
com medo que ela caia e se esvaia
como as folhas no outono,
e assim a retenho guardada
para os possíveis tempos mais duros
imprevisíveis do futuro.

Pintura de Paul Artot

Walt Whitman – Poesia

Às vezes com a pessoa a quem amo
Walt Whitman ¹

Às vezes com a pessoa a quem amo
Fico cheio de raiva
Por medo de estar só eu dando amor
Sem ser retribuído;
Agora eu penso que não pode haver amor
Sem retribuição, que a paga é certa
De uma forma ou de outra.
(Amei certa pessoa ardentemente
e meu amor não foi correspondido,
mas foi daí que tirei estes cantos.)
As coisas mais importantes.

Saramar Mendes – Versos na tarde

Amores vãos
Saramar Mendes¹

Bebo o meu vinho entre sombras
brindando à cidade
e seus argênteos fantasmas.
Não renego a agonia das noites
dentro dos meus olhos baços,
mas tranco a alma na gaveta de baixo
e assisto a passagem espectral da madrugada
barganhando com outros desesperados
a taça, o frio e os açoites do vento ou da dor.
Escapo da ausência das flores admirando néons
escondida num canto de alguma rua.
Esqueço meu nome antes mesmo da morte,
à espera de um amanhecer que nunca acontece.
“Lá fora tudo arde”.
Aqui, zumbem vozes esquecidas
curvadas até a mudez sobre as íntimas feridas
de amores vãos.

J.G de Araújo Jorge – Versos na tarde – 30/08/2018

Quando chegares
J.G de Araújo Jorge¹

Não sei se voltarás
sei que te espero.

Chegues quando chegares,
ainda estarei de pé, mesmo sem dia,
mesmo que seja noite, ainda estarei de pé.

A gente sempre fica acordado
nessa agonia,
à espera de um amor que acabou sendo fé…

Chegues quando chegares,
se houver tempo, colheremos ainda frutos, como ontem,
a sós;
se for tarde demais, nos deitaremos à sombra e
perguntaremos por nós…

Almandrade – Versos na tarde

Ponto de fuga
Almandrade ¹

Que indagação faz
o umbigo feminino
quando aparece entre
uma peça e outra
da veste?

Intimidade
sensualidade.

Nem mesmo
a musicalidade dos pêlos
é maior que o apelo
da cicatriz do nascimento.

¹ Antônio Luiz M. Andrade
* Salvador,BA.

É arquiteto, poeta e artista plástico baiano. Como artista plástico já participou de quatro bienais internacionais em São Paulo, além de várias outras exposições no país e no exterior. Editou em 74 a revista “Semiótica” e, seus poemas procuram dar às palavras intensidade plástica, forma. Publicou os livros “O Sacrifício dos Sentidos”, “Obscuridade do Riso”, “Poemas”, “Suor Noturno,” “Arquitetura de Algodão”.

Heriqueta Lisboa – Versos na tarde

Os lírios
Henriqueta Lisboa¹

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos – perfeitos! –
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei pergunta à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada entre lírios
adormecerei tranquila.

¹Henriqueta Lisboa
* Lambari, MG. – 15 de Julho de 1904
+ Belo Horizonte, MG. – 9 de Outubro de 1985

Escritora brasileira. Considerada pela crítica uma das poetas mais bem-sucedidas da moderna literatura do país.

Pouco conhecida do público, a mineira Henriqueta Lisboa foi consagrada por críticos do porte de Antônio Cândido e Alfredo Bosi como uma das poetisas mais bem-sucedidas da moderna literatura brasileira.
Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari MG em 15 de julho de 1904. Estudou no Colégio Sion da cidade de Campanha MG e dedicou-se ao magistério. Estudou línguas e letras no Rio de Janeiro e, em Belo Horizonte, lecionou literatura nas universidades locais. Desde o segundo livro, Enternecimento (1929), recebeu vários prêmios literários, inclusive a Medalha da Inconfidência de Minas Gerais, com Madrinha Lua (1952), e o Prêmio Brasília de Literatura (1971) pelo conjunto de sua obra.

Inicialmente identificada com o simbolismo, Henriqueta Lisboa aceitou a influência do modernismo, mas permaneceu fiel aos temas de sua terra e de sua gente. A partir de Prisioneira da noite (1941) atingiu um lirismo que, nas palavras de Alfredo Bosi, distingue-a como “sutil tecedora de imagens capazes de dar uma dimensão metafísica a seu intimismo radical”. Autora ainda de A face lívida (1945), seu livro mais importante, Flor da morte (1949), Lírica (1958) e outras obras.

J.G de Araújo Jorge – Versos na tarde

Quando chegares…
J.G de Araújo Jorge ¹

Não sei se voltarás
sei que te espero.

Chegues quando chegares,
ainda estarei de pé, mesmo sem dia,
mesmo que seja noite, ainda estarei de pé.

A gente sempre fica acordado
nessa agonia,
à espera de um amor que acabou sendo fé…

Chegues quando chegares,
se houver tempo, colheremos ainda frutos, como ontem,
a sós;
se for tarde demais, nos deitaremos à sombra e
perguntaremos por nós…

José Guilherme de Araújo Jorge
* Tarauacá, AC. – 20 de Maio de 1914
+ Rio de Janeiro, RJ. – 27 de Janeiro de 1987