Daniel Dantas será novamente indiciado pela Justiça Federal

O banqueiro condenado — como o chama o delegado Protógenes Queiroz — Daniel Dantas será, mais uma vez, indiciado por conta dos fatos apurados pela Polícia Federal, durante a Operação Satiagraha. Acreditam alguns, que o possível sócio do Lulinha esteja encalacrado pra valer e, que dessa vez, a ação judicial vá além do indiciamento. O banqueiro será indiciado mas só Deus sabe em que irá findar o processo.

Nós, os Tupiniquins, ficamos sempre com dúvidas em relação às ações que envolvem crimes de colarinho branco. Um coitado, que atrase uma pensão alimentícia vai mofar nos infectos xadrezes de suburbanas delegacias de polícia. O roubo por uma faminta, de um simplório tablete de margarina, desagua no STF. Resta-nos acalentar a crença em um Brasil mais justo e decente, onde nossos filhos e netos cresçam com confiança.

Será triste se a herança que deixarmos para as próximas gerações seja a de que a justiça não é equilibrada e igualitária, tratando os iguais de maneira igual e os desiguais de maneira desigual, na medida de suas desigualdades, conforme estabelece o direito positivado na Constituição Federal de 1988.Nem só do aumento do PIB vive uma nação.

O editor

Relatório final da PF foi à Justiça Federal na última quinta.
À noite, juiz De Sanctis despachou documento para o Ministério Público Federal.
Pedido de vista do advogado do Opportunity foi negado.

Chegou à 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, na noite de quinta-feira (30), o relatório final da segunda fase da Operação Satiagraha.

Foi redigido pelo delegado Ricardo Saadi, que sucedeu Protógenes Queiroz no caso.

Retrato de Daniel Dantas,Banco Opportunity,Operação SatiagrahaO banqueiro condenado – como o chama o delegado Protógenes Queiroz – Daniel Dantas

Acusa Daniel Dantas e a cúpula do Opportunity da prática de cinco crimes:

1. Gestão fraudulenta de instituição financeira;

2. Empréstimo vedado pela legislação;

3. Evasão de divisas;

4. Lavagem de dinheiro proveniente de crime contra o sistema financeiro;

5. Formação de quadrilha.

Juntos, os delitos sujeitam os acusados à pena máxima de 37 anos de cana.

Na mesma noite, véspera do feriado de 1º de Maio, o titular da 6ª Vara, Fausto de Sanctis, apôs ao relatório da PF um despacho.

Remeteu o papelório para o Ministério Público Federal. A ordem do juiz deve ser cumprida na próxima segunda-feira (4).

Segundo apurou o blog, Rodrigo de Grandis, o procurador que atua no processo, vai acolher as conclusões da PF. Acompanhou de perto o inquérito. Conhece o teor do relatório.

Pretende oferecer nova denúncia contra Daniel Dantas e Cia. em no máximo duas semanas. Será a segunda peça do Ministério Público contra o protagonista da Satiagraha.

A primeira -corrupção ativa, por tentativa de suborno de um delegado da PF- resultou na condenação de Dantas a dez anos de prisão, mais multa.

Nesse caso, o réu responde ao processo em liberdade. A nova denúncia vai às mãos do mesmo De Sanctis que condenou Dantas.

Antes mesmo de conhecer o teor do relatório da PF, a defesa do Opportunity investe na desqualificação das conclusões do delegado Saadi.

Na quarta (29), um dia antes de o texto da PF aportar na Justiça, os advogados de Daniel Dantas encaminharam uma petição ao juiz De Sanctis.

Retrato do Juiz Fausto De Sanctis,Personalidades,Brasil,JuristasJuiz Fausto De Sanctis

No texto, pediram que lhes fosse facultado o acesso ao relatório policial. Algo que, segundo anotaram, lhes foi negado na PF. Alegam cerceamento de defesa. Tacham de “nulos” os indiciamentos.

Na mesma quarta, De Sanctis indeferiu o pedido. Considerou-o descabido. A lei não prevê o acesso dos advogados às acusações nessa fase do processo.

Antes, o relatório policial precisa passar pelo crivo do Ministério Público. Só depois de oferecida a denúncia é que os réus exercerão o direito à ampla defesa.

Além de Daniel Dantas, estão encrencados no processo gestores do Opportunity. Entre eles a irmã Verônica Dantas e o amigo Dório Ferman.

Ferman é, de acordo com os registros do Banco Central, o dono do Banco Opportunity. O que torna Daniel Dantas um mero “cliente” da instituição.

Numa evidência de que não pretende sentar em cima do processo, De Sanctis retornou à 6ª Vara, na noite de quinta, depois de enfrentar uma maratona no TRF-3.

Ele havia sido acusado pelo corregedor André Nabarrete de desrespeitar decisões do STF por duas vezes.

O primeiro caso dizia respeito à Satiagraha. De Sanctis decretara a prisão, entre outros, de Daniel Dantas. Gilmar Mendes, presidente do Supremo, mandara soltar.

Menos de 24 horas depois, o magistrado mandou prender Dantas de novo. Foi esse segundo decreto de prisão que o corregedor considerou afrontoso.

De Sanctis alegou que Dantas fora à garra de novo porque surgiram fatos novos. Em votação apertada -8 votos a 6-livrou-se da acusação no TRF-3.

No segundo processo, o corregedor acusara De Sanctis de descumprir ordem do ministro Celso de Mello no caso Corinthians-MSI.

O despacho do Supremo determinava a suspensão de um acordo de cooperação internacional.

De Sanctis alegou que não tinha poderes para dar ordem à Justiça de outro país. Foi absolvido por margem mais folgada -11 votos a 4.

A sessão durou seis arrastadas horas. Livre do par de espadas de Dámocles que lhe pesavam sobre a cabeça, o juiz retornou ao seu gabinete.

Foi à 6ª Vara especialmente para despachar o relatório contra Daniel Dantas para o Ministério Público. Agora, aguarda a denúncia.

Folha Online

Senador Heráclito e a operação Satiagraha

Os tentáculos de Daniel Dantas, são longos.

Do blog do Josias de Souza

Heráclito teve reunião com Abin antes da Satiagraha.
Senador conversou, reservadamente, com Paulo Lacerda.
Perguntou se agentes secretos seguiam Verônica Dantas.
Chefe da Agência negou algo que depois se revelaria real.
Estava em curso a ação que levou grupo de DD ao xadrez.

Entre os mistérios escondidos nos subterrâneos da Operação Satiagraha há uma inusitada reunião. Deu-se na segunda quinzena de maio, numa sala do Senado. Chamado por Heráclito Fortes (DEM-PI), o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência foi à sala do senador. Tiveram uma conversa tensa.

Como que desconfiados um do outro, Heráclito e Lacerda se fizeram acompanhar de assessores. Um de cada lado.

O senador disse ao mandachuva da Abin que havia sido informado de que agentes secretos da agência estavam no encalço de uma amiga dele, no Rio. O nome da amiga? Verônica Dantas, irmã e parceira de negócios de Daniel Dantas. Lacerda negou. E, no curso da conversa, pôs-se a maldizer Daniel Dantas.

O chefão da Abin traz o ex-banqueiro atravessado na traquéia desde maio de 2006. A ira nasceu de uma reportagem veiculada naquele mês pela revista Veja. O texto tratava de um papelório supostamente reunido por Daniel Dantas. Continha dados, que se revelariam falsos, sobre contas bancárias de autoridades no exterior. Entre essas autoridades estavam o presidente Lula, o então ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) e Paulo Lacerda, à época diretor-geral da PF.

Diante da insistência de Heráclito, Lacerda disse que verificaria se havia agentes seus no encalço da irmã de Dantas. Comprometeu-se a dar resposta.

Tratava-se de desconversa. Antes de trocar a PF pela Abin, Lacerda incumbira o delegado Protógenes Queiroz de investigar Dantas e sua gente. No curso da apuração, Protógenes pediu socorro ao ex-chefe, à revelia da atual direção da PF.

Depois de se reunir com Lacerda, Heráclito encontraria, nas imediações do plenário do Senado, um outro amigo: Guilherme Henrique Sodré.

Vem a ser um publicitário que, segundo a PF, age como lobista de Daniel Dantas. Sodré parecia inquieto com a movimentação da Abin no Rio. Heráclito tranqüilizou-o. O senador contou que Lacerda negara o envolvimento da agência. Sodré levou o pé atrás. Disse a Heráclito que recebera informação segura, dando conta do contrário. Atribuiu a certeza à origem do dado: vinha do ex-deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, que conversara com “alguém do Planalto”.

A PF captou em grampo, no dia 28 de maio, um diálogo que indica quem seria o “alguém” citado por Guilherme Sodré: Gilberto Carvalho, o chefe de gabinete de Lula. Cerca de meia hora depois do encontro de Heráclito com o publicitário vinculado a Daniel Dantas, um assessor de Paulo Lacerda telefonou para o gabinete do senador.

Quem conta é o próprio Heráclito: “Meu chefe de gabinete ouviu do chefe de gabinete dele um pedido de desculpas…”

“…O Lacerda mandou dizer que eles estavam dando uma busca lá, para prender um russo. Eu vi que era sacanagem.”

Heráclito adiciona ao caso um detalhe que aproxima a encrenca ainda mais do Planalto: “O agente que a Abin tinha mobilizado é um oficial da PM de Minas…”

“…Ele estava cedido à Abin. E já havia trabalhado como segurança na campanha eleitoral do Lula.” Quem disse? quis saber o repórter. “O Guilherme Sodré”, respondeu o senador.

O blog perguntou também a Heráclito por que decidira chamar Lacerda ao seu gabinete. E ele: “Fui procurado por um familiar da Verônica Dantas, que é minha amiga…”

“…A família estava preocupada. Dizia que ela estava sendo seguida há três dias. Suspeitavam de seqüestro…”

“…Chamei o Lacerda porque sou presidente de uma comissão do Congresso que cuida desses assuntos de inteligência.”

Refere-se à CCAI (Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência). “Eu achava que o Lacerda não estava sabendo. E queria alertá-lo…”

“…Na conversa comigo, ele negava. Mas estava irritado. Ia pra cima do Daniel Dantas. Nunca vi uma raiva tão grande de uma pessoa como aquela.”

Mas quem estava sendo seguido não era Humberto Braz, assessor de Daniel Dantas? Responde o senador:

“A conversa que me chegou era diferente. O Humberto Braz tinha conversado com a Verônica. Disse que deixaria os filhos na escola e ia se encontrar com ela…”

“…Eles foram pra pegar a Verônica. É a conclusão que tenho sobre esse episódio. Não sei nem quem é Humberto Braz…”

“…Quero que ele se dane. Minha preocupação era a Verônica. Sou amigo dela. As filhas dela são amigas da minha. Quem acionou foi a família.”

Àquela altura, a investigação que adornaria com algemas os pulsos de Daniel Dantes e de gestores do Opportunity, entre eles Verônica, ainda não tomara o noticiário.

Mas um texto da repórter Andréa Michael, veiculado na Folha de 26 de abril, levantara a lebre. Dava conta de que Dantas tornara-se “alvo” da PF.

Trazia detalhes. Coisas assim: “Além de Dantas, os principais alvos da investigação da Polícia Federal são o sócio dele Carlos Rodemburg…”

“…Sua irmã e também parceira de negócios, Verônica Dantas, além do empresário e especulador Naji Nahas.” Tudo se confirmaria, com precisão milimétrica, em 8 de julho, quando foi deflagrada a Operação Satiagraha.