Maior jornal do mundo desmascara Trump e Bolsonaro

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Uma reportagem do jornal The New York Times publicada hoje traça as semelhanças entre o presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump na condução da crise causada pelo novo coronavírus, destacando que ambos têm um “desprezo compartilhado pelo vírus” e construíram “uma campanha ideológica que minou a capacidade da América Latina de responder à covid-19”.

A América Latina tem um terço das mortes no mundo e sofreu mais com a covid-19 do que qualquer outra região no planeta. Os EUA são o país mais afetado em número de mortes, com 225.739, seguidos pelo Brasil, com 157.397, até agora.

O “NYT” destaca que sistemas de saúde pouco estruturados e cidades superlotadas tornaram a América Latina mais vulnerável à pandemia, mas “ao expulsar médicos, bloquear a assistência e promover falsas curas, Trump e Bolsonaro pioraram a situação, desmantelando as defesas”.

A reportagem afirma que os dois líderes são nacionalistas que desafiam a ciência e colocaram o crescimento econômico e as políticas de curto prazo à frente das advertências de saúde pública. Também lembra que ambos fizeram com que 10 mil médicos e enfermeiras cubanos de áreas pobres de nações como Brasil, Equador, Bolívia e El Salvador fossem mandados de volta para Cuba. Muitos partiram sem serem substituídos meses antes da chegada da pandemia, o que fragilizou a já deficiente estrutura de saúde.

“Em seguida, os dois líderes atacaram a agência internacional mais capaz de combater o vírus – a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) – citando seu envolvimento com o programa médico cubano. Com a ajuda de Bolsonaro, Trump quase levou a agência à falência ao reter o financiamento prometido no auge do surto”, afirma trecho da matéria.

O texto ainda lembra que Trump e Bolsonaro tentaram fazer da hidroxicloroquina a peça central da resposta à pandemia, apesar do consenso médico de que o remédio é ineficaz e pode até ser perigoso. A agência americana Food and Drug Administration desencorajou, em abril, o uso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19. “Um mês depois, Trump anunciou que os EUA enviariam ao Brasil dois milhões de doses”.

“Em seu zelo para se livrar dos médicos cubanos, o governo Trump puniu todos os países do hemisfério e, sem dúvida, isso significou mais casos de covid e mais mortes”, disse Mark L. Schneider, ex-chefe de estratégia planejamento para a Organização Pan-Americana da Saúde, que foi funcionário do Departamento de Estado no governo Clinton.

“Ninguém da Organização Pan-Americana da Saúde estava aqui e sentimos sua ausência”, lamentou Washington Alemán, especialista sênior em doenças infecciosas e ex-vice-ministro da saúde do Equador, que diagnosticou o primeiro caso confirmado de covid no país. “O suporte não foi como nos anos anteriores”.

A Alemanha pretende continuar cooperando com a Huawei, apesar das tentativas de Washington de evitar a participação do gigante chinês

A recusa de Angela Merkel em banir ou restringir as atividades do gigante tecnológico chinês é um exemplo para a Europa e um desafio à política dos EUA, dizem especialistas.

A Alemanha pretende continuar cooperando com a Huawei, apesar das tentativas de Washington de evitar a participação do gigante chinês, dizem especialistas entrevistados pela Sputnik Alemanha.

Atualmente, o governo alemão está formulando regras de segurança para sua rede 5G. A chanceler alemã Angela Merkel não quer excluir a Huawei da construção da rede 5G na Alemanha por essa ser uma empresa chinesa, apesar da pressão dos “falcões da segurança” no país, informou a agência Bloomberg citando fontes anônimas.

O anúncio da chefe de Estado alemã pode servir de exemplo para outros países da União Europeia (UE) construírem suas relações com o gigante lógico chinês, opina o jornal Global Times.

Assim, a recusa pela Alemanha de impor uma proibição à admissão da Huawei em seu mercado com o pretexto de garantir sua segurança nacional, uma vez que os critérios para esta segurança ainda estão sendo desenvolvidos, é também um desafio à política europeia dos EUA, pois atualmente Berlim detém a presidência no Conselho da UE.

A abordagem da Alemanha relativamente à Huawei seria ditada não apenas pelos interesses da Alemanha, mas também pelos da UE, observa Mikhail Belyaev, especialista do Instituto Russo de Estudos Estratégicos, em entrevista à Sputnik.

“Neste caso estamos falando de apenas uma empresa, a Huawei, a maior empresa, que detém as posições de liderança no setor e que tem nas suas mãos, podemos dizer, o futuro. É claro que a Alemanha está abrindo portas para esta empresa tanto em seu próprio país quanto na UE, entendendo que esse vetor trará benefícios significativos tanto para a própria Alemanha quanto para toda a UE”, comenta.

Desvantagens sem a Huawei

A revista alemã de informação política Focus nomeou a Huawei como uma das líderes no campo da tecnologia 5G, sendo muito atraente em termos de relação preço-qualidade. Metade das antenas utilizadas pelas operadoras de telecomunicação Deutsche Telekom e Vodafone para construir as redes 5G são fabricadas pela Huawei.

A publicação estima que as operadoras alemãs perderão bilhões de euros e deixarão outros países para trás na construção do 5G se a Alemanha tiver que abrir mão desses serviços por causa de eventuais regulamentos de segurança. A Huawei tem negado repetidamente as acusações por parte dos EUA de ignorar os requisitos de segurança.

Entrevistado pela Sputnik China, Hu Chunchun, vice-diretor do Centro de Estudos Alemães da Universidade Tongji em Tientsin, China, observou que a cooperação da Huawei com a Alemanha continuará, apesar das dificuldades:

“A Alemanha não se recusa a envolver a Huawei na construção de redes 5G no país, o que a China considera bem-vindo. É incompreensível, mas os EUA transformaram sem provas a Huawei e o 5G em um problema de segurança nacional. Mesmo que deixemos de lado a teoria da conspiração, estas são acusações infundadas e unilaterais contra a China por parte dos EUA.

“Nesse contexto, é muito difícil para a Alemanha, ocupando a presidência rotativa da UE, resistir à pressão dos Estados Unidos e fazer um julgamento relativamente justo. Esperamos que os círculos políticos na Alemanha realmente cumpram as intenções da chanceler Merkel.”

O especialista, no entanto, alerta que Washington pode impedir uma cooperação real entre Berlim e Pequim.

“Espero que a chanceler Merkel faça julgamentos políticos racionais que reflitam a opinião da parte principal da sociedade alemã.”

Confronto indireto entre Washington e Berlim

Mikhail Belyaev avalia que a Alemanha se envolveu em um complexo jogo geopolítico com os EUA devido a sua cooperação com a Huawei, mas não vai recuar:

“A América compreende o impacto que a política europeia da China pode ter nas posições americanas no mundo, tanto econômicas quanto políticas e morais. O fortalecimento da Europa, o fortalecimento da China e o fortalecimento dos laços Europa–China minam o domínio da América no mundo de muitas maneiras.”

Como prevê o especialista do Instituto Russo de Estudos Estratégicos, a Alemanha continuará sob pressão dos EUA em meio a sua rápida perda de influência no mundo.

“[A Alemanha] manterá sua posição relativamente à Huawei, enquanto a América não conseguirá nada com sua pressão sobre ela”, afirma.

Redes Sociais e o fascismo de Trump

Quando o presidente dos Estados Unidos propôs no Twitter a suspensão das eleições de novembro, ele deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de outra forma.

“Com a votação por correspondência universal (não a votação de ausência, o que é bom), 2020 será a eleição mais imprecisa e fraudulenta da história. Será um grande constrangimento para os EUA. Atrase a eleição até que as pessoas possam votar de forma adequada, segura e segura ??? ” Isso é o que o presidente dos EUA, Donald Trump, escreveu em uma mensagem no Twitter em 30 de julho de 2020.

O que significa para o presidente dos Estados Unidos propor a suspensão das eleições de novembro? O tweet de Trump proclama que a próxima eleição será “imprecisa e fraudulenta“. No entanto, na medida em que os americanos têm problemas para votar, eles são culpa do presidente e de seus aliados. Trump está fabricando uma crise: criando um problema, culpando os outros por ele e usando-o para reivindicar o poder.

Metade dos estados americanos aprovou recentemente leis que parecem ter o objetivo de dificultar a votação dos americanos não brancos. Qualquer pessoa que desejasse que os Estados Unidos fosse uma democracia representativa iria reverter isso. Nos últimos meses, mais americanos do que nunca se conscientizaram do racismo que exclui as vozes negras da política. No entanto, longe de buscar uma solução para esse problema, Trump usou os protestos como desculpa para colocar uma nova polícia secreta americana nas ruas.

Quando em 2019 o Congresso aprovou um projeto de lei que teria acabado com esses abusos e facilitado o voto de todos os americanos, ele foi bloqueado pelo Senado, que é controlado pelo partido de Trump, os republicanos.

A maior fonte de imprecisão e fraude na democracia americana é a privação de direitos dos eleitores negros

Uma segunda ameaça às eleições de novembro é a intervenção estrangeira. Aqui, novamente, Trump é a fonte do problema e o tornou pior. Nas eleições de 2016, Trump conscientemente ganhou vantagens com uma campanha russa na Internet destinada a torná-lo eleito. A Rússia divulgou e-mails de seu oponente, Hillary Clinton, e a Rússia influenciou as conversas políticas nas redes sociais. Uma importante cientista política, Kathryn Hall Jamieson, concluiu que eles provavelmente levaram a eleição para Trump. Como sabemos pelo novo livro do historiador David Shimer, Rigged: America, Russia and 100 Years of Covert Electoral Interference, a administração Obama acreditava que a Rússia em 2016 também tinha a capacidade de intervir diretamente na contagem dos votos.

No cargo, Trump negou que nada disso tenha acontecido e puniu aqueles que chamaram a atenção para o curso real dos negócios. Agora sabemos que Trump no cargo continuou a solicitar ajuda de governos estrangeiros para ser reeleito. Ao perdoar seu aliado Roger Stone, que serviu como intermediário entre a campanha de Trump e a Rússia em 2016, Trump enviou um sinal óbvio de que espera se beneficiar da intervenção russa em 2020. O Congresso aprovou um projeto de lei que foi criado para tornar o sistema eleitoral americano mais defensável da Rússia ou qualquer intervenção estrangeira. Isso também foi bloqueado pelo Senado controlado pelos republicanos.

A questão que Trump menciona no tweet, a alta taxa de votação por correspondência, também é resultado de suas próprias ações. É importante notar, entretanto, que não há nada de errado em votar pelo correio. O próprio Trump vota pelo correio, assim como muitos de seus conselheiros mais próximos. Votar em papel é muito mais seguro do que votar digitalmente.

A razão pela qual os americanos desejam votar pelo correio em 2020 é sua própria segurança. O país está no meio de uma pandemia que já matou 150.000 pessoas. A escala do sofrimento, da morte e do medo é resultado das próprias decisões de Trump: contestar a ciência, enviar o sinal de que as pessoas não devem usar máscaras, se opor ao teste sistemático que é uma condição necessária para o tratamento e para impedir a propagação da doença.

Na medida em que o serviço postal dos EUA não pode lidar com a correspondência extra, isso também é claramente culpa de Trump. Ele vem atacando o serviço postal há anos e recentemente nomeou um doador não qualificado como chefe dos correios. O novo postmaster general tomou decisões que parecem destinadas a fazer o serviço postal funcionar mal. Os americanos já notaram que seu correio está atrasado.

Trump deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de alguma outra forma que não seja pela eleição.

Dadas essas contradições, que não são segredo para ninguém, como Trump pretendia que sua mensagem fosse entendida? Trump não é tolo. Ele sabe que tem poucas chances de vencer a eleição em novembro por meios normais. Ao enviar esta mensagem, ele está concedendo a eleição a seu rival democrata Joe Biden e iniciou a busca por outra forma de permanecer no cargo. Seu tweet se destina não àqueles que discordam dele, mas àqueles que estão dispostos a segui-lo para a tirania.

Em seu tweet, Trump deixou claro que a tarefa em mãos é mantê-lo no cargo de alguma outra forma que não seja por eleição. Ele sabe que não tem poder para atrasar as eleições. O que ele busca com este tweet são aliados nos Estados Unidos, ou no exterior, que ajudem a criar uma situação em que uma eleição parece impossível.

O tweet de 30 de julho é, portanto, um ponto de viragem. Antes dessa data, os apoiadores de Trump podiam dizer a si mesmos que estavam envolvidos em uma campanha presidencial normal. Após essa data, os apoiadores de Trump devem enfrentar sua alegação aberta de que a eleição de novembro não contará. Isso levanta a questão de o que significa agora estar do lado do presidente dos Estados Unidos. É claro que significa ser contra a democracia e a favor do autoritarismo.

Qualquer pessoa que apoiar Trump depois de 30 de julho fez uma escolha moral: por uma pessoa e contra a constituição americana. Todos que trabalham para a campanha de Trump, doam dinheiro ou planejam votar nele foram avisados: agora são todos atores de uma charada, mantendo as aparências até novembro, fornecendo cobertura para a ação real, que será em algum lugar outro. Esses três pontos de interrogação no final do tweet são um sinal de que alguém deve encontrar uma maneira não democrática de manter Trump no poder. Há um consenso notável entre os pensadores americanos, desde um importante intelectual público de esquerda a um importante professor de direito de direita, que o tweet de Trump foi “fascista”.

Eu mesmo escrevi nessa linha. Mas isso pode ser profundamente verdadeiro em um sentido que até agora foi esquecido. Como mostrou o historiador inglês Ian Kershaw, o estilo nazista era “trabalhar em direção ao Führer”: entender uma mensagem de um líder não como uma série de proposições lógicas ou observações empíricas, mas como um guia de como o mundo deveria ser, como uma dica de para o que os seguidores devem fazer. Nesse caso, a dica é que as eleições devem ser estragadas: uma dica que pode ser aproveitada pelo postmaster geral de Trump, ou por legislaturas estaduais republicanas, ou por americanos armados.

Qualquer um que tentar cumprir as ordens de Trump e estragar a eleição se arrependerá

É improvável que prevaleçam, entretanto. Demorou um pouco, mas agora muitos americanos, mesmo que não entendam bem o significado mais profundo do estilo de Trump, estão cientes de que precisam estar preparados para uma eleição diferente de qualquer outra. Qualquer um que tentar cumprir as ordens de Trump e estragar a eleição se arrependerá. Esse é o outro significado desses três pontos de interrogação: Trump espera que outra pessoa infrinja a lei para que ele possa permanecer no poder, mas não tem intenção de assumir a responsabilidade pelo que acontecerá a seguir. Ele deixará para outros a tarefa de paralisar a democracia americana para que ele possa viver com conforto. Se a Rússia tentar isso, quase certamente enfrentará toda a ira de um governo Biden. Se os americanos tentarem “trabalhar para o Führer”, seu líder os trairá no final.

Essa é a única maneira pela qual Trump é perfeitamente consistente: tudo se refere a ele e todos devem ser sacrificados a ele. Ao contrário dos fascistas tradicionais, ele não sonha com uma causa grande e terrível. Ele simplesmente espera que outros sofram por ele.

Timothy Snyder é o professor Levin de História na Universidade de Yale e membro permanente do Instituto de Ciências Humanas de Viena. Ele é o autor, mais recentemente, de On Tyranny e The Road to Unfreedom. Seu novo livro, Our Malady, será publicado em setembro.

Dólares em Cuba?

Por quê o governo abriu lojas com produtos na moeda americana.

Benito Morejón chegou ao supermercado antes do amanhecer para poder ocupar um lugar na frente da fila.

O supermercado em questão é um dos autorizados pelo governo cubano a vender alimentos e produtos básicos na moeda do inimigo ideológico da ilha: o dólar americano.

Quando a polícia abriu as portas do estabelecimento, horas depois de Morejón fazer a quarta curva, a fila atrás se estendia por centenas de metros pela Terceira Avenida no município de Playa, em Havana.

O fato de tantos cubanos terem ficado tanto tempo na fila não é surpreendente. Lá dentro, a loja estava bem abastecida com todos os tipos de necessidades básicas, desde leite para bebês até gel de banho.

No entanto, a única maneira de pagar esses bens era em moeda estrangeira.

Crise agravada

Durante anos, o planejamento econômico estatal ineficiente e décadas de embargo econômico dos Estados Unidos tornaram a escassez e as filas uma característica comum da vida diária em Cuba.

As longas filas de supermercados de moeda americana. Mas recentemente, a situação se tornou mais difícil.

Cuba é altamente dependente de importações. Do total de bens consumidos pela nação, 80% vêm do exterior.

Apesar de ter o coronavírus sob controle, as medidas de confinamento têm reduzido o turismo. Como resultado, o influxo de moeda estrangeira foi reduzido e, com isso, a capacidade de pagar pelas importações.

O efeito é perceptível na maioria dos supermercados, onde muitas das prateleiras estão praticamente vazias.

Por outro lado, o governo dos EUA apertou o embargo econômico e colocou mais restrições ao transporte de mercadorias, viagens e remessas.

Cuba é fortemente dependente de importações.
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Para compensar o impacto, o governo cubano tomou uma medida que poderia ter evitado em outras circunstâncias.

Das quase 5.000 lojas controladas pelo estado em Cuba, 72 foram convertidas em “lojas de dólar”.

Ao sair do estabelecimento, Benito Morejón empurrou com dificuldade o carrinho de compras. Ele carregava carne, queijo e produtos de limpeza e higiene.

“Eu queria encontrar peito de frango e não havia nenhum, mas a oferta era boa”, disse Morejón através da máscara.

Apenas cartões

Dentro das lojas, os compradores não carregam as cédulas com eles. Devem pagar com um cartão vinculado a um banco cubano com depósitos em moeda estrangeira ou com um cartão de débito ou crédito internacional, exceto para os Estados Unidos.

Avestruzes, crocodilos e jutías: a polêmica e a zombaria em Cuba pelos pratos exóticos que o governo propõe devido à falta de comida na ilha
“Posso me dar ao luxo de vir aqui uma vez por mês”, disse Morejón.

“Eu teria comprado mais, mas primeiro preciso colocar mais dólares na conta”, disse Leno Fernández, outro cliente do supermercado, com um sorriso resignado.

Leno Fernández gostaria de poder comprar mais produtos.

Fernández mencionou uma das principais críticas do governo cubano a essa medida.

Vozes críticas argumentam que a sociedade cubana está cada vez mais dividida entre quem recebe seu salário em moeda nacional e quem tem acesso a dólares e euros.

De fato, a maioria dos cubanos não tem uma renda regular em moeda estrangeira, especialmente aqueles que não têm um familiar residente no exterior.

“Nem todo mundo pode acessar o dólar, nem perto dele. O Estado também não pode começar a pagar seus trabalhadores em dólares. Não acho que essa seja a solução”, disse Luis Rodríguez, que estava em um parque perto do supermercado.

O que foi o “Período Especial” e por que Cuba agora teme que sua economia afunde novamente em uma crise profunda.
“Não é lógico que um país que não paga em dólares cobre em dólares de seus cidadãos”, concordou Roberto, amigo de Luis.

Muitos cubanos aceitaram de bom grado a medida do governo.

Alguns dos cubanos, porém, elogiaram a medida do governo. De fato, Morejón está confiante de que o fluxo de dólares ajudará a encher as prateleiras dos supermercados da ilha.

Fabricado em Cuba?

Para acabar com a dependência de Cuba das importações, os supermercados precisariam ser abastecidos com produtos cubanos.

Mas tornar a produção agrícola nacional autossuficiente parece uma meta distante.

Iris Fonseca se formou em agronomia em 1989, justamente quando Cuba entrava em um período de grande austeridade e escassez após o colapso do campo socialista soviético, seu principal aliado econômico.

Este estágio é popularmente conhecido como Período Especial.

Segundo Iris Fonseca, Cuba aprendeu com o Período Especial.
Fonseca trabalhou para o estado por 25 anos antes de ingressar na Finca Vista Hermosa, uma fazenda privada localizada nos arredores de Havana.

Vista Hermosa é frequentemente elogiado como um modelo de gestão de sucesso quando comparado à ineficiência de muitas das fazendas do estado. Mas o Vista Hermosa é uma exceção, não a regra.

A fazenda fornece uma cota anual de leite e gado ao Estado cubano. Em seguida, vende queijos, produtos de carne de porco, vegetais orgânicos e frutas para particulares e restaurantes particulares.

Conforme Fonseca me mostrou os campos, ele me disse que eles estão “mais bem preparados” para a atual crise econômica do que durante o Período Especial.

Vista Hermosa é uma exceção, não a regra.
“Naquela época cometíamos erros na pecuária, por exemplo”, explicou.

“Produzíamos vacas Holstein para o leite e, sem a soja, o milho e o trigo que vieram da União Soviética para alimentá-las, muitos animais morreram”, continuou.

Hoje trabalham com uma vaca de raça diferente, chamada Siboney de Cuba, que se adapta melhor ao clima caribenho e se alimenta de capim produzido na mesma fazenda.

“As importações sempre estarão presentes em Cuba, mas podemos reduzi-las se cultivarmos melhor a terra e melhorarmos nossa técnica, ciência e tecnologia”, disse Fonseca.

“As pessoas quase se mataram por comprar uma língua de porco”: as caudas e a escassez que fazem os cubanos temerem um novo “período especial”
De volta ao supermercado, os cubanos esperaram pacientemente pela sua vez enquanto se protegiam com guarda-chuvas do sol e das chuvas tropicais.

O governo cubano nega que essas novas lojas façam parte de um plano maior de “dolarização”. Isso significaria converter o dólar em moeda oficial como já aconteceu no Panamá, Equador ou El Salvador.

Talvez não seja o plano, mas a julgar pelas filas do lado de fora dos bancos e supermercados de dólares, parece que essa moeda está rapidamente se tornando a favorita dos cubanos.

Por que os EUA têm os piores índices de pobreza do mundo desenvolvido

Dois meninos olham para foto, em área de banco de alimentos
Milhares de famílias dependem da ajuda de bancos de alimentos nos EUA – Direito de imagem GETTY IMAGES

Este é um dos grandes paradoxos dos nossos tempos: os Estados Unidos, país mais rico do mundo, têm alguns dos piores índices de pobreza no grupo dos países desenvolvidos.

Mais de meio século depois que o presidente Lyndon B. Johnson declarou “guerra incondicional à pobreza”, os EUA ainda não descobriram como vencê-la.

Desde a declaração de Johnson, em 1964, o país teve conquistas surpreendentes, como chegar à Lua ou gestar a internet. Entretanto, nesse período, conseguiu uma tímida redução no índice de pobreza, que caiu de 19% para cerca de 12%.

Isso significa que quase 40 milhões de americanos vivem abaixo da linha oficial de pobreza.

O problema é muito maior e mais antigo do que se vê na atual pandemia do novo coronavírus, que também vem revelando e intensificando questões sociais do país — os EUA têm o maior número de casos de covid-19 no mundo e agora enfrentam os piores níveis de desemprego desde a Grande Depressão de 1930.

Até hoje, segundo estudiosos, o aumento da pobreza foi contido nos EUA graças a uma expansão histórica de subsídios do governo.

Mesmo antes da crise na saúde, o país já destinava anualmente bilhões de dólares a programas de combate à pobreza, em quantias até maiores do que o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns países da América Latina.

“Essa é a ironia: seria uma coisa se fôssemos um país pobre e realmente não pudéssemos fazer muito a respeito. Mas temos os recursos”, diz Mark Rank, professor da Universidade de Washington em St. Louis, considerado um dos maiores especialistas em pobreza nos EUA.

Questão cultural: o tabu do fracasso individual

Homem e mulher consertando bicicleta em acampamento
Nos EUA, 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza – Direito de imagemAFP

Pesquisadores apontam para duas razões fundamentais por trás da pobreza nos Estados Unidos: uma tem a ver com simbologia e a outra é pragmaticamente econômica.

Primeiro, os EUA carecem de uma rede de assistência social forte ou programas de apoio à renda como outros países.

Os programas de assistência social que os Estados Unidos implementaram nas últimas décadas, como vale-alimentação ou seguro desemprego, permitiram reduzir em alguns pontos a pobreza, mas são considerados limitados.

Fatores culturais são geralmente lembrados para explicar isso.

“Nós tendemos a ver a pobreza nos EUA como um fracasso individual, ou seja, como se as pessoas não tivessem trabalhado duro o suficiente. Como se tivessem tomado decisões ruins ou não tivessem talento o suficiente. Assim, é algo como: cabe a você se erguer”, afirma Rank.

“O resultado é que realmente não fazemos muito em termos de políticas sociais para tirar as pessoas da pobreza.”

Somam-se a isso as desigualdades raciais: as minorias sofrem desproporcionalmente no país.

Enquanto 11% das crianças brancas nos EUA vivem na pobreza, essa taxa chega a 32% para crianças negras e 26% para crianças latinas, segundo dados do censo levantados pelo Centro de Dados Kids Count.

“A pobreza é frequentemente vista como um problema para os não-brancos, e isso também reduz a vontade de ajudar os outros”, diz Rank.

“Existem estudos mostrando que em países mais homogêneos em termos de raça e etnia, existe uma rede de segurança mais robusta, porque as pessoas veem os outros como semelhantes — tendo maior probabilidade de querer ajudar.”

Pessosas negras em fila para receber alimentosDesigualdade nos EUA é ainda mais presente e sofrida entre os negros. Direito de imagem GETTY IMAGES

Maior desigualdade

Por outro lado, especialistas apontam para um fator econômico: a deterioração do mercado de trabalho americano para aqueles com salários mais baixos, que representam cerca de 40% do total e sofreram perdas em seus ganhos reais nas últimas décadas.

As razões vão do enfraquecimento dos sindicatos às transformações tecnológicas.

Assim, a desigualdade de renda e riqueza nos EUA aumentou e é maior do que em quase qualquer outro país desenvolvido, de acordo com o Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas em Washington.

Christopher Wimer, codiretor do Centro de Pobreza e Política Social da Universidade de Columbia, argumenta que, nos EUA, “as oportunidades no mercado de trabalho tendem a ir para pessoas com formação superior e que se beneficiaram do crescimento econômico”.

“E grande parte desse crescimento econômico não foi compartilhado nas faixas de renda ou escolaridade que vêm abaixo”, contou à BBC News Mundo.

Operadores em bolsa de valores de Nueva York
Apenas alguns segmentos da população americana, como aqueles com acesso ao ensino superior, se beneficiaram das conquistas econômicas do país nas últimas décadas
Direito de imagem GETTY IMAGES

‘Uma escolha política’

Mas houve sim, nas últimas décadas, alguns avanços sociais — como níveis mais altos de escolaridade e queda na mortalidade infantil.

Além disso, especialistas alertam que o cálculo do índice oficial de pobreza nos EUA se baseia apenas em renda, sem contar com auxílios do governo como créditos fiscais, cupons de alimentos ou assistência habitacional.

Um estudo recente de Wimer e outros pesquisadores de Columbia projetou que, sem ajuda emergencial aprovada na pandemia de coronavírus, a taxa de pobreza do país teria saltado de 12,5% antes da crise para 16,3%.

Mas esses benefícios, que incluem cheques semanais de US$ 600 a trabalhadores afetados pela pandemia, expiraram no final do mês. Sua continuidade depende de um acordo entre o Congresso e a Casa Branca.

Antes da covid-19, especialistas já alertavam que o país era condescendente com níveis muito altos de pobreza.

“Os Estados Unidos são um dos países mais ricos, poderosos e tecnologicamente inovadores do mundo. Mas nem sua riqueza, nem seu poder, nem sua tecnologia estão sendo usados ​​para resolver a situação em que 40 milhões de pessoas continuam vivendo na pobreza”, indicou no final de 2017 o então relator especial das Nações Unidas para a pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston.

Entre outras coisas, Alston observou que os EUA tinham a maior mortalidade infantil no mundo desenvolvido, que a expectativa de vida de seus cidadãos era menor e menos saudável do que em outras democracias ricas.

E também que sua pobreza e desigualdade estavam entre as piores no clube dos países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de uma taxa de encarceramento entre as mais altas do mundo.

“No fim das contas”, afirmou ele, “particularmente em um país rico como os EUA, a persistência da pobreza extrema é uma escolha política feita pelos que estão no poder”.

Criança na porta de uma casa pobre
No mundo desenvolvido, EUA também chama a atenção por indicadores preocupantes em relação às crianças
Direito de imagem GETTY IMAGES

Luke Shaefer, diretor da iniciativa Poverty Solutions da Universidade de Michigan, defende políticas mais simples nos EUA e com uma abordagem mais universal.

Um estudo realizado por ele e outros especialistas da universidade indicou que os Estados Unidos investem US$ 278 bilhões (mais de R$ 1,4 trilhões) por ano em programas governamentais de combate à pobreza, sem contar os gastos com saúde.

Somando-se programas de saúde para os mais pobres, como o Medicaid, o investimento anual chega a US$ 857 bilhões (mais de R$ 4,4 trilhões), ou seja, mais do que o PIB da Argentina e do Chile somados.

“Muitos desses dólares não estão indo realmente para os mais pobres”, alerta Shaefer.

As eleições presidenciais de novembro podem dar aos EUA uma nova oportunidade para repensar como melhorar esses gastos, acreditam aqueles que se dedicam ao tema há anos.

“Existem pessoas da esquerda e da direita falando que essa abordagem (atual) não está funcionando. Temos que fazer algumas coisas de maneira diferente, precisamos simplificar”, diz ele.

Huawei e a nova “Guerra Fria” na América Latina

“Se a Huawei conseguir a licença no Brasil para a introdução da tecnologia 5G, vai haver consequências”, disse Todd Chapman, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, em entrevista ao jornal O Globo.

No dia anterior, o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, anunciara em sua conta no Twitter que a gigante chinesa de tecnologia Huawei havia construído um laboratório para testes da rede 5G em Brasília, juntamente com a operadora de telefonia brasileira Telefônica Vivo.

A disputa pela 5G no Brasil revela o crescente atrito político e geoestratégico entre a China e os EUA no maior país da América Latina. O governo em Brasília está num dilema: Jair Bolsonaro segue politicamente a mesma agenda do presidente americano, Donald Trump. Mas economicamente, o país é mais dependente de Pequim do que de Washington.

Desde 2009, a China tomou a posição dos EUA como maior parceiro comercial do Brasil. Os chineses estão investindo maciçamente na expansão de infraestrutura, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina. Em 2019, os brasileiros exportaram 62 bilhões de dólares em mercadorias para a China. Os três principais produtos de exportação são soja, petróleo bruto e minério de ferro.

No primeiro semestre de 2020, as exportações aumentaram novamente em 30%. “Para cada dólar exportado para os EUA, o Brasil exporta três dólares para a China”, afirmou um comunicado do Ministério da Agricultura brasileiro em 24 de julho.

O Brasil não está sozinho em sua crescente dependência econômica da China. “Muitos governos da América Latina estão conscientes de que a superação da pandemia de coronavírus e da consequente crise econômica passam por Pequim”, explica o cientista político Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Mas Stuenkel também teme que as crescentes tensões entre os EUA e a China possam gerar consequências negativas para a região: “Não há coordenação entre os países do Mercosul”, afirmou ao semanário argentino Perfil. Tradicionalmente, Argentina e Brasil sempre trabalharam juntos para superar crises dentro do mercado comum sul-americano, mas isso não mais ocorre.

A crise nos países do Mercosul não é apenas uma porta de entrada para a luta geoestratégica de poder entre a China e os EUA na região. “Ela pode também levar a uma divisão tecnológica”, alerta Stuenkel, aludindo ao estabelecimento de diferentes redes celulares com a nova tecnologia 5G que podem não ser compatíveis entre si.

Apesar de todas as batalhas verbais entre o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, e Eduardo Bolsonaro, que ainda em março responsabilizou a China pelo surto da pandemia do novo coronavírus, não são más as chances da China de participar do maior leilão de tecnologia 5G do mundo no Brasil.

Isso porque o governo brasileiro já anunciou em abril que não imporia nenhuma restrição contra a Huawei, já que metade do hardware da rede móvel brasileira já é fornecido pela empresa chinesa. A operadora móvel brasileira que vencer o leilão poderá então usar a tecnologia da Huawei para construir a infraestrutura do 5G.

O jornalista argentino Leandro Dario, do semanário Perfil, parte do princípio que o presidente da Argentina, Alberto Fernández, escolherá o fornecedor mais barato da tecnologia 5G, ou seja, a Huawei. As primeiras conversas entre os representantes do Ministério das Relações Exteriores e o chefe da Huawei na Argentina, Steven Chen, ocorreram em Buenos Aires no início de julho.

“É uma questão geopolítica de sobrevivência”, escreveu Dario. “Se Argentina e Brasil não se entenderem e cooperarem um com o outro, a disputa entre a Águia e o Dragão pode ser prejudicial para ambos. Nem mesmo durante a Guerra Fria o domínio da Águia na América Latina foi tão ameaçado.”

Outlet de propaganda chinesa pagou US $ 19 milhões a jornais por publicidade

Um dos principais meios de propaganda da China pagou aos jornais americanos quase US $ 19 milhões por despesas de publicidade e impressão nos últimos quatro anos, de acordo com documentos arquivados no Departamento de Justiça.

Nicolas Asfouri – Pool/Getty Images

O China Daily, um jornal em inglês controlado pelo Partido Comunista Chinês, pagou mais de US $ 4,6 milhões ao The Washington Post e quase US $ 6 milhões ao The Wall Street Journal desde novembro de 2016, mostram os registros.

Ambos os jornais publicaram suplementos pagos que o China Daily produz chamados “China Watch”. As inserções foram projetadas para parecerem com artigos de notícias reais, embora muitas vezes contenham uma opinião pró-Pequim sobre os eventos de notícias contemporâneos.

Uma publicação de setembro de 2018 divulgou uma iniciativa promovida pelo presidente chinês Xi Jinping com a manchete: “Cinturão e Rota se alinham com os países africanos”. A mesma publicação publicou uma matéria intitulada “Tarifas para cobrar pedágio nos compradores de casas nos EUA”, que afirmavam que as tarifas dos EUA sobre madeira chinesa aumentariam o custo de construção de casas nos Estados Unidos.

O China Daily também pagou pela publicidade em vários outros jornais: The New York Times (US $ 50.000), Política Externa (US $ 240.000), The Des Moines Register (US $ 34.600) e CQ-Roll Call (US $ 76.000).

Gastou um total de US $ 11.002.628 em publicidade nos jornais dos EUA e outros US $ 265.822 em publicidade no Twitter.

O China Daily também pagou mais de 7,6 milhões de dólares a jornais e empresas de impressão por seus jornais para os leitores dos EUA, mostra o arquivo do Departamento de Justiça.

Estações da PBS que receberam milhões em fundos federais firmaram parceria com agente estrangeiro chinês em filme pró-Pequim.

O Los Angeles Times, o Seattle Times, o Atlanta Journal-Constitution, o Chicago Tribune, o Houston Chronicle e o Boston Globe estão todos listados como clientes do China Daily. A agência chinesa pagou ao Los Angeles Times US $ 657.523 por serviços de impressão, segundo os registros da FARA.

Uma mulher usando uma máscara é vista após um retrato do presidente chinês Xi Jinping em Xangai (REUTERS / Aly Song)

O Departamento de Justiça exige há anos que o China Daily divulgue suas atividades semestralmente sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA). O arquivo mais recente, enviado pelo China Daily em 1º de junho, é o primeiro a incluir detalhadamente os pagamentos aos meios de comunicação americanos. O canal divulgou essas despesas para o período entre novembro de 2016 e abril de 2020.

Não está claro se o China Daily enviou os arquivos mais detalhados sob pressão do Departamento de Justiça ou por conta própria.

Grupos pró-democracia há muito tempo alertam sobre as tentativas do governo chinês de fazer propaganda através dos meios de comunicação americanos. A Freedom House e a Hoover Institution chamaram a atenção para as inserções pagas do China Daily em relatórios sobre os esforços do governo chinês para influenciar a mídia.

O China Daily e outras fábricas de propaganda controladas por Pequim estão sob intenso escrutínio em meio à pandemia de coronavírus. Autoridades do governo chinês tentaram desviar a culpa pela disseminação do vírus para os Estados Unidos e outras nações ocidentais. Muitos dos veículos controlados pelo regime, incluindo o China Daily, ecoaram os argumentos dos líderes comunistas.

O China Daily diminuiu seus gastos com publicidade nos últimos meses, mostram os registros. O China Daily pagou pela última vez ao Washington Post por publicidade em dezembro de 2019. Seus pagamentos ao The Wall Street Journal foram menos da metade do seu valor médio desde fevereiro de 2020, mostram os documentos.

Fonte: Chuck Ross/Dayly Caller

O psicólogo de Stanford identifica sete fatores que contribuem para o racismo americano

“O racismo americano está vivo e bem”, começa um novo artigo de jornal liderado por Steven O. Roberts, psicólogo de Stanford, que chega durante um período de maior atenção à injustiça racial nos Estados Unidos.

Por SANDRA FEDER

Steven O. Roberts, Assistant Professor, Psychology

Dos sete fatores identificados pelos pesquisadores, talvez o mais insidioso seja o passivismo ou o racismo passivo, que inclui uma apatia em relação aos sistemas de vantagem ou negação racial de que esses sistemas existem.

No artigo, que está disponível on-line e será publicado na próxima edição da American Psychologist, a revista da American Psychological Association, os estudiosos afirmam que o racismo é um problema profundamente americano e se identificam, com base em uma revisão de pesquisas anteriores publicadas no site. tópico, sete fatores que contribuem para o racismo nos EUA hoje.

“As pessoas geralmente definem o racismo como não gostar ou maltratar os outros com base na raça. Essa definição está errada ”, disse Roberts, que dirige o Social Concepts Lab, parte do departamento de psicologia, da Escola de Ciências Humanas e Ciências. “O racismo é um sistema de vantagens baseado na raça. É uma hierarquia. É uma pandemia. O racismo está tão profundamente enraizado nos EUA mentes e EUA sociedade da qual é praticamente impossível escapar. ”

Roberts, um professor assistente e co-autor, Michael Rizzo, um pós-doutorado na Universidade de Nova York e no Beyond Conflict Innovation Lab, escreve que “assim como os cidadãos das sociedades capitalistas reforçam o capitalismo, se eles se identificam como capitalistas ou não, e se eles querendo ou não, os cidadãos de sociedades racistas reforçam o racismo, se eles se identificam como racistas ou não, e se querem ou não. ”

Após examinar as pesquisas sobre racismo da psicologia, das ciências sociais e das humanidades, os pesquisadores argumentam que o racismo americano sistematicamente beneficia os americanos brancos e prejudica os americanos de cor – mas isso não é necessário. Tudo começa com a consciência, eles afirmam.

“Muitas pessoas, especialmente as brancas, subestimam as profundezas do racismo”, disse Rizzo. “Muita atenção é justamente colocada nos recentes assassinatos de Breonna Taylor, Ahmaud Arbery, George Floyd e muitos outros. Mas as pessoas precisam entender que esses eventos terríveis são uma conseqüência de um sistema maior. Queremos que os leitores saiam com uma melhor compreensão de como esse sistema funciona.”

Sete fatores

Os três primeiros fatores analisados ​​por Roberts e Rizzo são: categorias, que organizam as pessoas em grupos distintos; facções, que desencadeiam lealdade entre grupos e competição entre grupos; e segregação, que endurece percepções, preferências e crenças racistas. Simplificando, os EUA sistematicamente constrói categorias raciais, coloca as pessoas dentro dessas categorias e separa as pessoas com base nessas categorias, argumentam os autores.

Por exemplo, há um corpo considerável de pesquisas mostrando que pessoas, adultos e crianças tendem a se sentir e agir mais positivamente em relação àqueles que consideram como eles e em seu “grupo”. Isso significa que eles provavelmente tratarão pessoas de fora de seus círculos sociais de maneira menos favorável.

Para muitos americanos brancos, seus grupos não incluem americanos negros. Parte da razão disso tem a ver com a história carregada de segregação racial dos Estados Unidos, que manteve as comunidades brancas e negras separadas. Roberts e Rizzo apontam para estudos que demonstram que a quantidade de exposição que uma criança tem a outros grupos raciais no início da vida afeta como eles pensam e agem em relação a esses grupos quando adultos.

A pesquisa também mostra que as crianças estão mais sintonizadas com os rostos do grupo majoritário racial. Ou seja, crianças negras são melhores em reconhecer rostos brancos do que crianças brancas em reconhecer rostos negros. Essa disparidade pode ter consequências trágicas no mundo real. Em uma formação criminosa, por exemplo, não ser capaz de reconhecer rostos negros, combinados com preferências e crenças tendenciosas, aumenta as chances de um suspeito inocente de preto ser identificado erroneamente como o autor de um crime.

Roberts e Rizzo observam que nos casos em que as condenações criminais foram anuladas por causa de evidências de DNA, um número significativo das condenações originais ocorreu devido a identificações incorretas de testemunhas oculares.

Os quatro fatores restantes que os pesquisadores argumentam que contribuem para o racismo americano incluem: hierarquia, que encoraja as pessoas a pensar, sentir e se comportar de maneiras racistas; poder, que legisla o racismo nos níveis micro e macro; mídia, que legitima representações sobre-representadas e idealizadas de brancos americanos, marginalizando e minimizando pessoas de cor; e passivismo, de tal forma que negligenciar ou negar a existência do racismo incentiva outros a fazer o mesmo. Em suma, eles argumentam que os EUA posiciona e capacita alguns sobre outros, reforça essas diferenças através de mídias tendenciosas e, em seguida, deixa essas disparidades e mídias no lugar.

Dos sete fatores que eles identificaram, talvez o mais insidioso seja o passivismo ou o racismo passivo, segundo os estudiosos. Isso inclui uma apatia em relação aos sistemas de vantagem ou negação racial de que esses sistemas existem.

As discussões sobre passivismo são particularmente relevantes agora, disse Roberts, enquanto milhares saem às ruas para protestar contra o racismo. “Se as pessoas beneficiadas pela hierarquia permanecem passivas, não é de surpreender que as pessoas de baixo clamem para serem ouvidas”, acrescentei. “As pessoas choram há séculos.”

As resistências ao fascismo e ao racismo nos EUA e no Brasil

Quem já leu algo dos chamados “pais da política moderna” passou, inevitavelmente, por Thomas Hobbes e aprendeu que, para os chamados “contratualistas”, não há vida possível sem a existência do Estado.

Seria essa grande e poderosa instituição o ente que protegeria a integridade física de cada súdito e preservaria sua propriedade. Independentemente do regime político defendido pelos autores contratualistas – absolutismo, república popular ou monarquia constitucional – de Hobbes a Immanuel Kant, passando por John Locke e Jean-Jacques Rousseau, o Estado é tido como incontornável. Ele significa “segurança” que se traduz em “previsibilidade”: a confiança de que essa máquina feita de juízes, policiais, militares, carcereiros, procuradores, defensores, coletores de impostos, burocratas e diplomatas se responsabilizaria por manter a “ordem” entendida como “paz”.

Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados.

Sem o Estado, os seres humanos resvalariam para a “guerra de todos contra todos”, o “estado de natureza”, situação cruel para Hobbes e Kant, aceitável para Locke, idealizada por Rousseau. O Estado, de todo modo, “pacificaria” os conflitos pela incrível desigualdade na capacidade de exercer a violência: suas forças de segurança, dotadas dos mais poderosos arsenais, seriam capazes de conter, reprimir, intimidar ou eliminar quem ousasse romper as regras de obediência ao Estado, cometendo atos sociais definidos pelo próprio Estado como “crimes”.

Sabemos que o “contrato social” é uma alegoria, uma “história sem História”, uma reflexão retórica sobre um tempo passado supostamente “selvagem” e sem Estado, sucedido pela inauguração da civilização por um “pacto” livre entre os seres humanos. A arqueologia, a história e a antropologia mostraram à exaustão como esse modelo de organização política chamado “Estado moderno” é uma invenção que teve lugar na Europa Ocidental, entre os séculos XIV e XVI. Forjado a ferro e fogo, sobre o cadáver de povos inteiros, os Estados modernos produziram seus próprios discursos de legitimação com o objetivo de ocultar o que Nietzsche chamaria de seus “baixos começos”. Daí as narrativas sobre o direito divino e dinástico dos reis e as teorias do contrato social, baseadas na ideia de que o Estado existiria pela vontade de Deus, por um direito adquirido em tempos remotos ou por esse suposto “contrato” que ninguém fez.

Autores e autoras de diversas perspectivas teórico-metodológicas, como Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Eduardo Viveiros de Castro, Manuela Carneiro da Cunha, Judith Butler, Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo, Perry & Benedict Anderson, Florestan Fernandes, Franz Fanon, Clovis Moura, nos mostraram a produção histórica, violenta, inconclusa disso que chamamos “Estado”.Trabalho Escravo,Ministério do Trabalho,Brasil,Blog do Mesquita

Mostraram, também, como esse modelo de organização política que centraliza o poder físico da violência e que se mantém pela extorsão sistemática da riqueza social – exatamente como atua uma máfia, segundo o historiador Charles Tilly – expandiu-se junto com as caravelas, canhões, tráficos e pestes levadas pelos europeus aos demais continentes. A “ordem” imposta na Europa por incontáveis massacres, genocídios, caça a hereges, queima de bruxas e guerras entre príncipes foi transposta aos “novos mundos”. Nesses continentes, sociedades diversas, guerreiras ou não, hierarquizadas e escravizadoras de outros povos, ou reunidas em grupos nômades que impediam a formação de Estados foram, uma a uma, derrotadas, exterminadas, sujeitadas. Nada de “contrato livre” entre os povos. Nada de “direito dos povos”.

Na imensa extensão da América do Sul que coube aos portugueses, centenas de diferentes povos foram cooptados, assimilados, mortos, violentados, escravizados, cristianizados, sedentarizados ou obrigados a fugir, embrenhando-se em selvas hostis.

Converter e “civilizar” foi, à época, denominado como “pacificar” os “índios bravios”. Os que não deixaram sua “braveza” foram assassinados. Por vezes, povos inteiros, como os tupinambá. Sarampo, catapora, gripe e sífilis foram as armas de destruição em massa da época. Como em outras partes do “Novo Mundo”, as populações indígenas dizimadas foram logo substituídas pelo mais duradouro e rentável dos negócios que a cobiça humana produziu até hoje: a escravidão africana.

Trazidos(as) aos milhões, entre os séculos XVI e XIX, os(as) escravizados(as) foram corpos objetificados que moveram a economia da colônia portuguesa e, depois, do Império do Brasil. Vemos, então, a commoditização humana como ponto central de organização econômica e política do país já em seus primórdios. Incontáveis foram os que não se submeteram, lutando, fugindo, queimando engenhos, sincretizando suas práticas religiosas, “dançando” a luta da capoeira, formando quilombos.

Milícias de bandeirantes, guardas nacionais, exército e polícias não deixaram de perseguir, conter e assassinar negros e negras, mesmo com as mudanças formais que, negociadas sempre entre as elites, marcaram as “transições” de regime no Brasil. Por isso, falar em “inimigo interno”, em “necropolítica” ou em “securitização” no caso brasileiro exige muitos cuidados históricos e analíticos. No Brasil, o “outro”, o “avesso” de uma pretensa civilização, o “perigo”, sempre teve pele escura e procedência social nos extratos mais pobres e explorados.

O verbo “pacificar”, comum aos jesuítas e militares, atravessou a história do país, incluindo a cristianização de povos indígenas, a ofensiva sobre quilombos, a contenção das sublevações regionais durante o Segundo Reinado, o enfrentamento dos subversivos imigrantes anarquistas e comunistas, já na chamada Primeira República.

A expressão reemergiu em 2008, no Rio de Janeiro, com o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, saudado à época por especialistas em segurança pública da esquerda à direita como o plano que finalmente uniria o “morro” ao “asfalto”, ou seja, a cidade dita “informal”, a favela – lugar do perigo, do narcotraficante, do ladrão, do assaltante e do sequestrador – à cidade “formal”. Novamente, ficou explícita a luta entre o “civilizado” e o “selvagem” a ser equacionada pela “pacificação” ou, em outras palavras, pela imposição física e simbólica de uma parcela minoritária da sociedade sobre a majoritária.

Entre 2010 e 2015, com a presença das Forças Armadas apoiando o processo das UPPs, o Exército criou sua Força de Pacificação para os Complexos do Alemão, da Penha e da Maré. Os ecos de Duque de Caxias, patrono dessa força e cujo nome batiza sua principal medalha (a “Ordem do Pacificador”), foram ouvidos em missões de invasão e ocupação de favelas utilizando blindados de transporte da Marinha, soldados do Batalhão de Operações Especiais da PM fluminense, tropas de infantaria do Exército, PMs treinados para serem “policiais pacificadores”, o que significava pouco mais que uma carga mínima de “direitos humanos” no currículo da Academia.

Tudo “deu certo” enquanto precisava: vieram a Copa das Confederações (2013), a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016). O turismo fluiu, os ganhos legais e ilegais prosperaram e os megaeventos foram um sucesso. Depois, tudo começou a “dar errado”. O estado do Rio de Janeiro faliu, os empresários do novo (agora antigo) “Brasil Potência” faliram e, assim, mais uma “ideia infalível” para resolver o “problema” de segurança pública no Rio falhou. Em julho de 2017, houve novo envio de tropas militares ao estado. Em 2018, veio a intervenção federal na secretaria de segurança pública. Mesmo que oficialmente “desmobilizada” desde 2019, ainda se via militares circulando em caminhões de transporte de tropas no começo da pandemia de Covid-19, em março de 2020.

Com a pandemia, vieram as recomendações da OMS e de especialistas avalizados para o isolamento social e o “lockdown”. Tais indicações colocaram em lados opostos governadores e prefeitos e o governo federal, que se fia nas reflexões de um autoproclamado “filósofo” reacionário, no apoio dos políticos e empresários oportunistas de sempre, na devoção de sinceros crentes na missão redentora do Messias e na intimidação de milicianos. A classe média, então, passou a bater panela, muitos assumindo o arrependimento do voto nas eleições presidenciais de 2018, outros desconversando sobre o tema. Nesse estranho país chamado Brasil, políticos de direita se converteram em “defensores da democracia” diante de um presidente autoritário, com arroubos megalômanos e flagrante inépcia para a função que ocupa.

A Covid-19 se espalha rapidamente pelo país, matando de milhares de brasileiros. Nas favelas, o tal do “isolamento social” é uma quimera. Quem pode se isola, mas a maioria não pode (pois sai para trabalhar), ou simplesmente não consegue, nos espaços limitados e com alta concentração populacional. Nesse contexto, a polícia carioca seguiu entrando nas favelas e matando. Assim, o jovem João Pedro foi morto com tiros nas costas quando PMs invadiram sua casa numa favela de São Gonçalo. Seu assassinato gerou nova onda de indignação, muitos posts de Instagram e threads de Twitter (ao lado dos que lembravam que com mais de dois anos passados, ainda não sabemos quem mandou matar Marielle Franco).

Dias depois do assassinato de João Pedro, um policial branco de Minneapolis deu voz de prisão, algemou, jogou ao chão e sufocou até a morte o cidadão norte-americano George Floyd. O vídeo, no qual Floyd repete “I can’t breathe”, viralizou. A esquina em que foi morto se tornou centro de protestos. Casas, veículos e carros da polícia foram incendiados e saqueados. A violência da polícia provocou uma reação de negros e negras, mas também de latinos e brancos (a maioria mulheres). Uma comoção se espalhou pelos Estados Unidos, com protestos em massa, saques, depredações e repressão policial por todo o país. As cenas lembraram a sublevação de Baltimore, em 2015, quando o jovem Freddy Gray não resistiu ao espancamento que sofreu de policiais brancos.

Lembraram, também, das manifestações e depredações em Los Angeles, em 1992, quando o tribunal do júri absolveu três policiais (dois brancos e um latino) que haviam agredido brutalmente Rodney King. O presidente republicano da época, George H. W. Bush, enviou a Guarda Nacional para “pacificar” Los Angeles. O atual presidente republicano, Donald Trump, acuado no bunker da Casa Branca, ameaçou enviar a mesma Guarda Nacional e o Exército a Minneapolis ou para onde a “law & order”, segundo um dos seus tuítes, estivesse sob ameaça. O mesmo presidente prometeu classificar os “antifas” como grupo terrorista (ideia imediatamente copiada pelo mímico Bolsonaro diante das manifestações em massa de domingo 31 de maio de 2020), ignorando, ridiculamente, que ser “anti-fascista” é uma atitude ética e política e não um grupo, com sede social e caixa postal

Floyd, Gray, King e João Pedro eram negros.

Muitos se questionam e são provocativos sobre não haver reação similar no Brasil, principalmente após a morte de Marielle Franco ou de João Pedro, ou das centenas de mulheres e homens negros que são mortos diariamente. Tão complexo quanto o racismo, assim o é a reflexão a respeito dele. O racismo, a despeito de ser uma estrutura que organiza tanto a sociedade brasileira quanto a norte-americana, se manifesta em adaptação às realidades e fenômenos de cada sociedade, tendo características e especificidades que também produzirão respostas e resistências próprias a cada contexto. O que não significa que não existam reações, mas que cada uma se adequará aos processos históricos e políticos de cada localidade em que o racismo se estrutura e se expressa. E isso nos faz pensar que fenômeno sócio-político e cultural é poderoso o suficiente para sufocar aquilo que Gilberto Gil, cantando sobre Zumbi dos Palmares e Ganga Zumba, chamou de “felicidade guerreira” do negro. A pergunta é difícil de formular, e a resposta – se é que há alguma – deve ser ainda mais complicada.

Um esforço nesse sentido, nos faz lançar algumas pistas para provocar uma reflexão. A palavra-chave parece ser “pacificação”. A rebeldia no brasileiro, especialmente na maioria negra, foi “pacificada” por uma intrincada combinação entre violência física e simbólica. E esse ponto é muito importante. Ao falarmos de “pacificação”, não usamos o conceito entre aspas por acaso. Primeiro, porque não se trata de modo algum em algo que possa ser confundido com “passividade”. Esse processo de “pacificação” é um projeto ativo e consistente que envolve dimensões da violência fundamentais para o seu pleno exercício. E essa violência não é recebida passivamente, mas em luta constante, em confrontos intensos, em reinvenções de ação e reação, contendo práticas de imposição e de revolta, de ofensivas e defensivas. Como dizia Foucault, não se disciplina e governa apenas “sujeitando” pela força, mas também “subjetificando”, ou seja, produzindo sujeitos dotados de determinados valores e condutas. E, assim como Foucault, a antropóloga Avtar Brah e a historiadora Beatriz Nascimento pensaram a ambivalência dos corpos como territórios de frequentes lutas, de inscrições e reinvenções.

A “pacificação” brasileira foi e é um processo que atravessa nossa história. Durante os séculos de escravidão negra surgiram resistências com diversas práticas, fossem levantes, suicídios, abortos ou a organização de fugas e quilombos. No caso destes últimos, temos o de Palmares, um aglomerado de quilombos que resistiu por quase cem anos e que foi destruído sob a coordenação de uma grande incursão miliciana bandeirante. Outros quilombos passaram por processo de assimilação às dinâmicas econômicas locais. Esse processo ambivalente caracterizou todo o período de escravização.

Se por um lado, o teor autoritário da contenção às resistências e às alteridades não é uma novidade no país, as revoltas e rebeliões também não. Alguns exemplos são a Conjuração Baiana (1798), de caráter emancipatório, a Balaiada (1834), considerada uma das maiores insurreições do Brasil império, por cidadania e acesso à terra; a Revolta dos Malês (1835), clamando por liberdade para os negros escravos; e, já no século XX, a Revolta da Chibata (1910), contra as violências raciais no interior das Forças Armadas. Todas essas, e outras revoltas, sempre foram violentamente reprimidas, com o elemento “pacificador” da punição exemplar.

Nas cidades do Brasil imperial, a maioria negra era vigiada sem trégua. No Rio de Janeiro, em 1830, aprovou-se a primeira lei anti-maconha do mundo moderno precisamente porque seu uso era prática associada a negros forros ou a “negros de ganho” (escravizados que passavam o dia na rua vendendo coisas para seus senhores e, no espaço público, interagiam com outros escravizados ou libertos). Com o fim da escravidão e a intensificação do êxodo rural para os novos polos industriais, como Rio e São Paulo, as populações negras foram sendo aglomeradas em cortiços e favelas. O perigo dos negros vivendo em áreas próximas às classes altas e à incipiente classe média levou a expulsões, destruição de cortiços, processos de reurbanização justificados em nome da modernização, da higienização e da civilização. Novamente, “civilização” e presença do Estado significavam “ordem” e “paz”, mas “contrato social”, ninguém sabe, ninguém viu.

As políticas de controle e marginalização se remodelaram com frequência, combinando legislações criminalizadoras de um lado e incentivos à imigração de europeus brancos de outro com o intuito de “embranquecer” o país. Diante da impossibilidade prática desse segundo objetivo, as elites brasileiras da primeira metade do século XX combinaram duas táticas: primeiro, continuar governando os pobres e negros sob as patas dos cavalos; segundo, produzir um “mito de fundação” da “brasilidade” que teve sua expressão maior na obra do antropólogo Gilberto Freyre, filho da oligarquia pernambucana e educado nos Estados Unidos junto aos expoentes da antropologia racista da época.

Freyre deu corpo e conceito a uma “ideia de Brasil” malemolente, amável, cálido, tolerante e pacífico. Seus textos defenderam o princípio de uma miscigenação que, mesmo com elementos de violência, teria consumado um amálgama único e harmônico entre indígenas, negros e brancos. Assim, num Brasil de tantos contrastes inegáveis, haveria uma “democracia racial”. O que vemos, portanto, é uma mudança de tática, agregando elementos sutis de subjetivação, sem que a estratégia fosse alterada. A ditadura de Getúlio Vargas e, logo depois a ditadura de António de Oliveira Salazar, em Portugal, não deixariam de ver o potencial da tese da “democracia” de Freyre, já que a violência da colonização poderia ser reescrita como se fosse uma congregação das raças e, as desigualdades sociais, econômicas e políticas, naturalizadas num ambiente pacificado.

Sendo assim, construiu-se a “identidade nacional” pela via de controle e extermínio e pela de assimilação, aculturação e dissolução das raízes etnicamente múltiplas, notadamente as africanas e indígenas. A mestiçagem passou a ser um processo visto como positivo para o “aprimoramento” de uma “raça brasileira”, pois, aproveitando uma ideia vinda de tempos coloniais, miscigenar “embranquecia” o negro, e não o contrário. É sobre esse processo que, no final dos anos 1970, o intelectual Abdias Nascimento se insurge e se posiciona denominando como “genocídio do negro brasileiro”.

Vargas investiu pesado na formação do “Brasil”: a Rádio Nacional levou aos rincões do país os primeiros ídolos nacionais (os cantores e as cantoras), o samba carioca (recondicionado a partir do samba de roda do Recôncavo baiano) foi eleito a “música nacional”, o futebol consagrou-se como o “esporte nacional”, o cinema da época exaltou a colonização portuguesa e a brandura do povo brasileiro, e a “Voz do Brasil” tornou-se o noticiário diário oficial, tendo como vinheta de abertura os compassos iniciais da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes.

De modo análogo, certa literatura regionalista, a partir dos anos 1940, e as telenovelas, a partir dos anos 1960, fariam o mesmo: mostrar um país irmanado na sua diversidade. A consagração da seleção de 1970, na Copa do México, selou o laço da “democracia racial”, com um super-herói negro (Pelé), circundado de semideuses da bola brancos e mulatos. Enquanto isso, nos porões da ditadura e nas favelas e periferias, a violência e a tortura faziam a sua parte. Todo esse processo também desencadeou diversificadas práticas de combate às resistências. Para a assimilação das escolas de samba, por exemplo, foi decretado ainda na Era Vargas que elas só poderiam realizar seus desfiles se autorizadas com alvarás expedidos em delegacias; muitas sofrendo processos de interferência direta para mudança de nomes etc. Além disso, é na ditadura Vargas que, com o decreto que pôs fim aos partidos políticos, a Frente Negra Brasileira caiu na ilegalidade (1937).Trabalho Escravo,Brasil,Justiça,Bolsonaro

Também na Era Vargas, as religiões africano-brasileiras deixaram de ser criminalizadas, a partir da celebração de um acordo de isenção política. Apesar dos acordos e ajustes, a violência e repressão nunca cessaram, alimentando um forte processo de criminalização das populações negras e empobrecidas, que apenas aumentou com a regime civil-militar (1964-1985). Nas ambiguidades do binômino repressão-assimilação, a capoeira tornou-se esporte for export. O “baiano” e o “paraíba” viraram personagens simpáticos, cômicos e exóticos em programas humorísticos e telenovelas e, ao mesmo tempo, xingamento racista e xenófobo no “Sul Maravilha”.

Além disso, a pacificação das espiritualidades que a Igreja Católica não conseguiu arrematar, com sua permissividade sincrética, tornou-se batalha assumida, a partir dos anos 1960, pelas igrejas evangélicas, com a chegada de seus primeiros missionários estadunidenses, canadenses e nórdicos. Diferentemente das igrejas protestantes mais antigas e já estabelecidas no Brasil, como a batista e a anglicana, as novas denominações contaram com o beneplácito do regime autoritário e a tolerância dos católicos mais reacionários para conquistar territórios, corações e mentes e, com isso, minar a teologia da libertação, o catolicismo de esquerda e as comunidades eclesiásticas de base. Os neopentencostais ofereceram mais do que conforto espiritual: formaram redes de apoio material, constituíram-se em pontos de apoio para uma nova sociabilidade voltada aos migrantes do interior e do Nordeste que chegavam às metrópoles do Sudeste, e introduziram dois novos processos de subjetivação: a teologia da prosperidade e a teologia da dominação.

A primeira é uma versão popularizada da permissão calvinista para enriquecer sem temer o pecado; e a segunda é voltada à ocupação de lugares no espaço público – meios de comunicação, sindicatos, partidos políticos, postos eletivos, burocracia – a fim de combater o “demônio” na política, ou seja, todos os costumes que emergiram de práticas progressistas disseminadas por movimentos de esquerda desde o século XIX e amplificadas pela contracultura dos anos 1960: liberdade sexual, controle de natalidade, negação da lógica capitalista etc.

Não demorou para que os primeiros pastores e bispos (e pastoras e bispas) brasileiros fossem formados pelos estrangeiros. Um intenso intercâmbio começou a acontecer, entre os anos 1970 e 1980, ligando universidades e cursos teológicos neopentecostais nos Estados Unidos e Canadá a análogos no Brasil, incluindo associações de “empresários cristãos”, “políticos cristãos”, “atletas de Cristo”. Aquilo que nos Estados Unidos era chamado de “evangelismo televisivo” logo ganhou versões brasileiras. Grandes e pequenas denominações foram proliferando, ocupando espaços antes esquadrinhados pela Igreja Católica. As religiões de tradição africana começaram a ser combatidas com violência. Os antigos “crentes” se empoderaram, formaram conglomerados empresariais, compraram redes de TV, tornaram-se “multinacionais da fé” e formaram bancadas nas assembleias estaduais e federais. Com a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, chegaram ao Poder Executivo.

Enquanto cresciam as igrejas neopentencostais, nos anos 1980, os morros cariocas e as periferias paulistanas passaram a ser palco de uma nova tensão provocada pela chegada do tráfico de drogas como grande negócio transterritorial. Naquela década, o Brasil era uma rota fundamental para o trânsito de cocaína dos Andes para a Europa e, além disso, um mercado promissor para o consumo de cocaína, solventes e maconha. Das prisões abarrotadas surgiram os grupos de autodefesa de presos que logo controlariam o governo das próprias prisões e de territórios em favelas e periferias. Do seminal Comando Vermelho, formado no presídio da Ilha Grande em 1979, ao Primeiro Comando da Capital, nascido em 1992 no presídio de Venceslau Brás, no interior de São Paulo, a combinação entre proibição das drogas, repressão policial e a continuação constante da criminalização das populações pobres e negras fez o narcotráfico florescer e se desdobrar em outros rentáveis ilegalismos aproximando agentes do Estado de soldados do tráfico.

A produção desse novo crime, o narcotráfico, tem uma história que remonta às primeiras ondas de proibição das drogas no início do século XX, mas tomou forma de “ameaça” à “ordem” nos discursos governamentais e na grande imprensa a partir dos anos 1980. Após trinta anos da versão brasileira da “guerra às drogas”, seguindo dados conservadores fornecidos pelo Ministério da Justiça, cerca de 20% dos homens presos e 51% das mulheres, se encontram confinados(as) por condenações ou processos em curso relacionados ao tráfico de drogas. Deles, cerca de 60% são “pretos” ou “pardos”, constituindo a categoria “negro”, segundo o IBGE. Conforme dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen)/Infopen de 2017, 63,6% da população carcerária brasileira é composta por pretos/pardos, enquanto representam apenas 55,4% do total. Com a terceira maior população prisional do mundo (com 748.009 pessoas presas segundo dados do Depen de abril de 2020), o Brasil prende majoritariamente pobres, jovens, negros e negras e de baixa escolaridade.

Então, como pacificam a rebeldia e as resistências no Brasil? A resposta passa, pelo menos, pela mescla entre uma produção de subjetividades baseada na ideia da concórdia e da “alegria”, da conformidade com a miséria calcada na crença da ajuda de Deus, da difusão/educação cotidiana pela grande imprensa e pelas obras de ficção na TV que ainda sustentam a ideia da “democracia racial”, da ocultação diária das violências do patriarcalismo (crimes de ódio homofóbico e de gênero), na missão “evangelizadora” das igrejas neopentecostais, na violência brutal da polícia e na convocação de jovens pobres para o narcotráfico. Trata-se da combinação entre produção de mentalidades docilizadas e de violência para conter os indóceis.

Diante disso, a esquerda de corte mais tradicional e procedência sindical se ajustou ao jogo político-institucional, sendo muito cuidadosa de modo a não romper com suas posições conquistadas no sistema político nacional. A esquerda partidária, quase sempre desunida, branca e de classe média, promove, hoje, manifestos escritos, notas de repúdio, “rodas de conversa”, threads de tweets e denúncias para a comunidade acadêmica e de direitos humanos estrangeiros. Enquanto isso, o bolsonarismo mais radical se arma, defende o armamento da população, ocupa as mídias sociais com chamamentos à agressão, ao assassinato de “comunistas” e à destruição das instituições da democracia formal. A ultradireita tem sido muito mais eficiente na luta pelas mídias sociais e, quando vão às ruas, mesmo sendo poucos, magnificam suas marchas reacionárias parecendo ser muitos mais.

Uma questão relevante para ser ressaltada. Durante esse processo de organização político-institucional e partidário, ativistas e movimentos negros não deixaram de se insurgir no país nem de buscar diálogos com essas organizações. Seja na busca da construção de um partido próprio, como a Frente Negra Brasileira, seja na atuação conjunta aos sindicatos e comunistas, como no Partido Comunista Brasileiro (PCB), com atuação do importante líder revolucionário Carlos Marighella; e, também, no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), com a atuação revolucionária e guerrilheira de Helenira Resende; ambos assassinados pela regime civil-militar. Na reorganização das esquerdas e movimentos populares por democratização, os ativismos negros também se organizaram e atuaram no país, seja com o fortalecimento de uma intelectualidade negra que passou a questionar o negro fosse como “problema”, fosse como “objeto” de estudo, seja com o surgimento do Movimento Negro Unificado (1978) e a participação ativa desses militantes na refundação e fundação de partidos progressistas e de esquerda.

A principal questão a se pontuar é a de que, por essa trajetória classista, desde aquele período há forte embate com esses ativismos e militâncias sobre como a construção política de raça e o racismo são estruturadores da sociedade brasileira. E esse é um debate que se realiza, e se acirra, ainda hoje. Apesar dessa falta de construção de um programa e ação política unificada das esquerdas, diversos ativismos negros heterogêneos se insurgem pelo país. Mais uma vez, a falta de perspectiva da violência racial como eixo de construção da sociedade brasileira e como elemento de “pacificação” tem sido elemento de cisão e não de uma construção orgânica, aliando a potencialidade dessas organizações e desses ativismos em um embate importante nos territórios em que a direita tem nadado de braçada.

A extrema direita pode ser minoritária (cerca de 20%, como indica a média das análises de politólogos), mas usam da intimidação e da força para agredir jornalistas, coagir professores, perseguir intelectuais. E o que recebem de volta? Reclamações, denúncias indignadas, pessoas demolidas em sua saúde mental. Dentre essas pessoas alinhadas ao campo progressista, há muitos intelectuais (principalmente cientistas políticos) que continuam defendendo visões de cunho weberiano ou habermasiano que veem a esfera política como espaço de debate, enfrentamentos regrados e formulação de consensos. Negam-se a ver que a política, como afirmou Michel Foucault, é a “guerra continuada por outros meios”, um conflito permanente entre posições políticas, projetos ideológicos, visões de mundo. Não se furtam a acusar Carl Schmitt de jurista do nazismo (o que de fato foi), para descartar sua análise da política como o espaço da relação conflituosa amigo-inimigo.

Evitam, assim, um olhar agonístico para o político, ou seja, a compreensão do conjunto das relações de poder com um campo multifacetado de enfrentamentos, nem todos violentos, entre opiniões, projetos sociais, profissões de fé, produções de verdades. Foucault nos lembrou que na Grécia Clássica, o conceito de “ágon” significava, precisamente, esse embate que é próprio da existência humana: o choque com a alteridade e consigo próprio. Esse confronto era visto pelos filósofos pré-socráticos, como Heráclito de Éfeso, como a força motriz da existência de cada um e como amálgama da vida social. Milênios depois, foi o anarquista Pierre-Joseph Proudhon que retomou, num livro repudiado por anarquistas, comunistas, liberais e conservadores (“A guerra e a paz”, de 1861), o conceito do “combate” como pai/mãe de toda inventividade e instituições humanas. Esse “combate” não se confundia, entretanto, com o também grego conceito de “pòlemos”, a guerra entre Estados, a violência exercida em nome do príncipe, das elites, do território e da propriedade estatal e privada.

O medo da “guerra civil” que assombrava Hobbes continua rondando especialistas e não especialistas no século XXI. Para eles/elas, sublevar-se é a senha para o caos, para a desordem, para a “anarquia”, para a volta a algo que nunca houve: o “estado de natureza”. As energias rebeldes são, portanto, educadas formalmente para acreditar que “ausência de Estado” equivale a “desordem” e “morte violenta”; ou, simplesmente, as subjetividades mais inconformistas são aplastadas desde a mais tenra idade pelo “pátrio poder” em casa, pelos professores na escola, pela educação nas mídias eletrônicas ou pela repressão policial ou militar.

E, agora, pelo bolsonarismo fascista que se arma (física e eletronicamente). Eles e elas estão sem medo, porque quando rosnam a maioria se encolhe, no máximo batendo panelas e tuitando. Se bolsonaristas têm redes bem articuladas nas mídias sociais para fazer ataques a sites ou a contas progressistas, é preciso contra-atacar e derrubar os sites deles, contaminar as threads deles, expô-los ao ridículo e ao juízo público. A política é confronto. Os fascistas sabem disso. Mas Marx e Engels também sabiam, Proudhon, Bakunin, Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e Gramsci sabiam. Encolher-se significa deixar que o pequeno pitbull cresça e se transforme num grotesco Cérbero.Ilustração dePawel Kuczynski

Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados. O Brasil de hoje tem que enfrentar a abertura desbragada de todo o chorume de séculos de patriarcalismo, misoginia e racismo. O lado positivo desse pesadelo é o fim do “sonho” da “democracia racial”. Então, não é hora de se esconder atrás de discursos progressistas, memes engajados, ou surtos indignados no recôndito do lar, pensando no absurdo em que se tornou o país. Os processos históricos de expressão e execução do racismo nos Estados Unidos e no Brasil podem ter suas características próprias e específicas, mas também têm seus encontros. Mas o mais importante é que a potencialidade da indignação pode, e deve, se realizar, e torna-se algo concreto.

É preciso sair e mostrar para os bolsominions que eles não são maioria e que eles não passarão. Há poucas semanas, parte da torcida Gaviões da Fiel impediu uma manifestação fascista na Avenida Paulista. Dias depois, um grupo de não mais de trinta antifas em Porto Alegre bloqueou uma carreata pró-Bolsonaro e a fez, literalmente, dar marcha-a-ré. No domingo 31 de maio, torcidas organizadas, punks e outras forças geralmente antagonistas, uniram-se numa frente antifa. Bastou com que aparecessem para que os “bombados” bolsonaristas reagissem de forma histriônica e se borrassem de medo. Fascistas são bullies que andam em grupo. Como todo bully, o fascista vive da conivência de vários, da conveniência de alguns e do medo de muitos.

A ideia de “conversar com fascistas” é, na melhor das hipóteses ingênua, para não dizer tola. Trata-se de um equívoco ontológico, já que o que caracteriza o fascista é o ódio, e o desejo de exterminar quem pensa, vive, ama, reza de forma diferente da dele. O fascismo surgiu como fenômeno histórico na Itália, entre os anos 1920 e 1940. O partido organizado por Benito Mussolini tomou a simbologia romana dos muitos feixes (fasci) unidos como metáfora para a ideia de que a “união faz a força”. Essa união diluiria as individualidades em nome da pátria, de Deus, da família e dos valores patriarcalistas, militaristas e conservadores. Naquela época, versões nacionais do fascismo apareceram em diversos países, como o chauvinismo (França), o jingoísmo (Reino Unido), o falangismo (Espanha), o salazarismo (Portugal), o integralismo (Brasil) e o nazismo (Alemanha).

Após a derrota militar de 1945, as expressões “fascista” e “fascismo” continuaram a denominar a crença radical, virulenta, fanática numa verdade absoluta conservadora associada à pulsão de morte a tudo, todos e todas que não se perfilem às suas falanges. Por isso que entendemos que o fascismo, no Brasil, é um fenômeno que caminha pari passu, confluente ao racismo, machismo, homofobia e à naturalização da exploração e da eliminação dos mais pobres. Hoje, combinada com uma versão olavista de “patriotismo”, que prega a subserviência total aos Estados Unidos, e de radicalidade moralista de importantes denominações neopentencostais, o bolsonarismo se produz como versão atualizada do fascismo entre nós.Chaplin,Ditador,Estado,Fascismo,Nazismo,Blog do Mesquita

O fascismo não conversa. Ele ataca. Quando compõe com outras forças conservadoras, é sempre de modo oportunista, traiçoeiro e temporário, apenas esperando para ocupar todos os espaços possíveis. A direita brasileira e alguns setores das classes médias, que votaram em Bolsonaro, já perceberam isso. É possível e desejável que as forças democráticas no Brasil sigam no esforço de produzir uma frente ampla, constituída sob princípios que não titubeiem na luta contra atitudes, práticas e ideologias fasci-racistas, para barrar e desmobilizar o bolsonarismo. Isso, no entanto, não implica em conversar ou contemporizar com os fascistas. É hora de fazer aqueles que odeiam voltarem a ter medo e vergonha de pensar o que pensam, de fazer o que fazem. A linguagem deles é a força. A nossa também deve ser. É preciso abandonar as lentes contratualistas e experimentar olhar para o mundo de forma agonista.

Nas ruas de Minneapollis, manifestantes gritam “No Justice! No Peace!”. Pessoas iluminadas pelos edifícios em chamas. Uma das principais táticas construídas pelos manifestantes tem sido a de formar cordões humanos de pessoas brancas entre os policiais e pessoas negras, advogados de prontidão para a defesa e uma série de instruções de ação para proteção, com foco nas pessoas negras, sejam as lideranças das manifestações, sejam partícipes que podem ficar em perigo. Em vez de insistirmos em disputas nas redes sociais sobre o que seria de interesse nacional, em vez de uma competição por um protagonismo progressista, por que não aprender com essas práticas? Por que não exercitar o antirracismo apregoado e compartilhado em hashtags.

Por que a prática antirracista não está sendo construída como o novo normal? É importante se inspirar, mas o mais importante é compreendermos nossa realidade, como a desigualdade que se presentifica em nosso país, para construirmos uma estratégia que compreenda que só venceremos a guerra com um acúmulo de vitoriosas batalhas. Não será fácil, não se resolverá apenas por meio da política institucional e de eleições. Mais do que uma pessoa, estamos diante de um movimento autoritário que se organiza a passos largos no país. Se compreendemos que somos uma maioria, precisamos ser os que realizam o trabalho de não permitir o silêncio no galpão e incentivar que se rompam os portões. Trata-se de encarar o fogo da existência que nunca se extingue, como dizia Heráclito, e gritar na cara deles: Não Passarão!

Thiago Rodrigues é professor do Instituto de Estudos Estratégicos/UFF e coordenador do grupo de pesquisa “Segurança e Defesa nas Américas (SeDe/UFF/CNPq). Autor, entre outros, de Política e drogas nas Américas, uma genealogia do narcotráfico, Editora Desatino, 2017.

Juliana Borges é escritora e pesquisadora de Política Criminal, membra da Articulação Interamericana de Mulheres Negras na Justiça Criminal e consultora do Núcleo de Enfrentamento, Monitoramento e Memória de Combate à Violência da OAB. É autora de Encarceramento em Massa, Pólen Livros, 2019.

Noam Chomsky explica a melhor maneira de as pessoas comuns fazerem mudanças no mundo, mesmo quando isso parece assustador

Noam Chomsky,Blog do Mesquita

A ameaça de violência e agitação generalizada recai sobre o país, graças novamente a uma coleção de atores cruelmente contrários aos direitos civis e, em muitos casos, à própria existência de pessoas que são diferentes deles.

Eles receberam ajuda e conforto de facilitadores muito poderosos. Ativistas veteranos entram em ação. Os jovens aparecem às centenas, semana após semana. Mas para muitas pessoas comuns com emprego, filhos, hipotecas etc. o custo de participar de constantes protestos e ações civis pode parecer alto demais para suportar. No entanto, dados muitos exemplos terríveis na história recente, o custo da inação também pode ser.

O que pode ser feito? Afinal, nem todos somos Rosa Parks, Howard Zinn, Martin Luther King, Jr., Thich Nat Hanh, Cesar Chavez ou Dolores Huerta. Poucos de nós são revolucionários e poucos podem querer ser. Nem todo mundo é corajoso o suficiente, talentoso o suficiente, conhecedor o suficiente ou comprometido o suficiente, ou o que seja.

No vídeo acima, Noam Chomsky aborda a questão do que as pessoas comuns podem fazer diante de uma injustiça aparentemente intransponível. (O clipe vem do documentário Manufacturing Consent, de 1992.) “A maneira como as coisas mudam”, diz ele, “é porque muitas pessoas estão trabalhando o tempo todo e estão trabalhando em suas comunidades, locais de trabalho ou onde quer que aconteçam. e eles estão construindo a base para movimentos populares. ”

“A maneira como as coisas mudam”, diz ele, “é porque muitas pessoas estão trabalhando o tempo todo e estão trabalhando em suas comunidades, locais de trabalho ou onde quer que aconteçam. e eles estão construindo a base para movimentos populares.”

Nos livros de história, existem alguns líderes, George Washington ou Martin Luther King, ou o que quer que seja, e não quero dizer que essas pessoas não são importantes. Martin Luther King foi certamente importante, mas ele não era o Movimento dos Direitos Civis. Martin Luther King pode aparecer nos livros de história, causando muitas pessoas cujos nomes você nunca saberá, e cujos nomes são todos esquecidos e que podem ter sido mortos e assim por diante estavam trabalhando no sul.

O próprio rei costumava dizer o mesmo. Por exemplo, no Prefácio de seu Stride Toward Freedom, ele escreveu – referindo-se às 50.000 pessoas comuns e anônimas que fizeram o boicote ao ônibus de Montgomery acontecer – “Embora a natureza desse relato faça com que eu faça uso frequente do pronome ‘I, ‘em todas as partes importantes da história deveria ser’ nós ‘. Este não é um drama com apenas um ator.”

Quanto a intelectuais públicos como ele envolvidos em uma luta política, Chomsky diz: “pessoas como eu podem aparecer e podemos parecer proeminentes … apenas porque alguém está fazendo o trabalho”. Ele define seu próprio trabalho como “ajudar as pessoas a desenvolver cursos de autodefesa intelectual” contra propaganda e desinformação. Para King, a questão se resumia ao amor em ação. Respondendo em uma entrevista de 1963 acima a uma pergunta crítica sobre seus métodos, ele rebate a sugestão de que não-violência significa ficar de fora.

Penso no amor como algo forte e que se organiza em ação direta e poderosa. Não estamos envolvidos em uma luta que significa que nos sentamos e não fazemos nada. Há uma grande diferença entre a não resistência ao mal e a resistência não violenta. A não-resistência deixa você em um estado de passividade estagnada e complacência amortecedora, enquanto resistência não-violenta significa que você resiste de uma maneira muito forte e determinada.

Chomsky, King e todas as outras vozes por justiça e direitos humanos concordariam que o povo precisa agir em vez de confiar nos líderes do movimento. Quaisquer que sejam as ações que se possam tomar – seja participando de um debate informado com familiares, amigos ou colegas de trabalho, escrevendo cartas, fazendo doações a ativistas e organizações, documentando injustiças ou saindo às ruas em protesto ou atos de desobediência civil – fazem a diferença. Essas são as pequenas ações individuais que, quando praticadas diligentemente e coordenadas aos milhares, tornam possível todo poderoso movimento social.