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Entrevista – Bernie Sanders, Senador e candidato à Presidência dos Estados Unidos

A mídia “alternativa” tem medo, resiste a apoiar Sanders.

A despeito disso, e contra tudo e contra todas as probalidades, a campanha é um sucesso.

Democratas são uma espécie de “republicanos esclarecidos”, mas são também corporativos, são elite capitalista dos Estados Unidos.
Excelente momento para Sanders; porém, mesmo que ganhe, ainda terá a enfrentar o establishment político, além do econômico; sem contar a mídia corporativista! Será que os americanos acordam?

1. Uso da força


Os presidentes de ambas as partes adotaram uma visão abrangente de seus poderes como comandante em chefe, destacando tropas e ordenando ataques aéreos sem aprovação explícita do congresso e, às vezes, sem uma ameaça iminente. Os candidatos democratas frequentemente criticam tais ações, mas foram menos claros nas circunstâncias em que considerariam justificável a força militar.

Além de responder a um ataque aos Estados Unidos ou a um aliado do tratado, quais são as condições sob as quais você consideraria o uso da força militar americana?
A primeira prioridade de Bernie é proteger o povo americano. A força militar às vezes é necessária, mas sempre – sempre – como último recurso. E ameaças ofensivas da força muitas vezes podem indicar fraquezas e forças, diminuindo a dissuasão, a credibilidade e a segurança dos EUA no processo. Quando Bernie for presidente, garantiremos que os Estados Unidos busquem a diplomacia sobre o militarismo para obter resoluções pacíficas e negociadas para conflitos em todo o mundo. Se for necessária força militar, Bernie garantirá que ele atue com a devida autorização do congresso e somente quando determinar que os benefícios da ação militar superam os riscos e custos.

Você consideraria a força militar para uma intervenção humanitária?
Sim.

Você consideraria a força militar a antecipação de um teste nuclear ou míssil iraniano ou norte-coreano?
Sim.

Você consideraria a força militar para proteger o suprimento de petróleo?
Não.

Você consideraria a força militar para proteger o suprimento de petróleo?
Não.

Existe alguma situação em que você possa se ver usando tropas americanas ou ações secretas em um esforço de mudança de regime? Se sim, em que circunstâncias você estaria disposto a fazer isso?
Não.

É apropriado que os Estados Unidos ofereçam apoio não militar aos esforços de mudança de regime, como fez o governo Trump na Venezuela?
Não.

2. Irã

Em 2015, o governo Obama assinou um acordo com o Irã que suspendeu as sanções em troca de limites significativos ao programa nuclear iraniano. Muitos republicanos se opuseram ferozmente ao acordo, dizendo que não era suficientemente difícil e, em 2018, o presidente Trump o abandonou e restabeleceu as sanções. Mas o Irã manteve o fim do acordo até o mês passado, quando Trump ordenou a morte de um general iraniano, Qassim Suleimani. O assassinato do general Suleimani levou os Estados Unidos à beira da guerra com o Irã, que retaliou atacando duas bases militares que as forças americanas estavam usando no Iraque.

O que você faria com o acordo nuclear iraniano agora abandonado, como negociado em 2015?
Eu entraria novamente no acordo sem novas condições, desde que o Irã também cumprisse seus compromissos. Eu prosseguiria em negociações mais amplas para resolver questões de mísseis balísticos, apoio a grupos terroristas e direitos humanos.

Você acredita que o presidente Trump agiu dentro de sua autoridade legal ao dar a ordem para matar Qassim Suleimani? O assassinato era justificável? Foi sábio?
Não. Os EUA não estão em guerra com o Irã e o Congresso não autorizou nenhuma ação militar contra o Irã. Claramente, há evidências de que Suleimani esteve envolvido em atos de terror. Ele também apoiou ataques às tropas americanas no Iraque. Mas a pergunta certa não é “esse cara era mau”, mas sim “assassiná-lo torna os americanos mais seguros?” A resposta é claramente não. Nossas forças estão em alerta mais alto por causa disso. Enviamos ainda mais tropas para a região para lidar com a ameaça aumentada. E o Parlamento iraquiano votou em expulsar nossas tropas, depois que gastamos trilhões de dólares e perdemos 4.500 soldados corajosos lá.

Em relação a uma possível ação militar futura contra o Irã, existe algum tipo de resposta que está fora de questão para você?
Eu trabalharia com nossos aliados europeus para diminuir as tensões com o Irã e me envolveria em uma diplomacia agressiva que salvaguardaria a segurança dos EUA e de nossos parceiros, evitando uma guerra desastrosa com o Irã.

3. Coreia do Norte

O desmantelamento do programa nuclear da Coréia do Norte tem sido uma prioridade americana, e o Presidente Trump tentou fazê-lo por meios incomuns: diplomacia direta com o líder do Norte, Kim Jong-un. Tudo começou em Cingapura em 2018, mas começou a desmoronar em fevereiro passado, quando Trump e Kim saíram de uma reunião de cúpula no Vietnã de mãos vazias. Enquanto isso, as sanções permanecem, o arsenal de armas e mísseis do Norte tem se expandido constantemente, e Kim ameaçou recentemente retomar os testes com mísseis.

Você continuaria a diplomacia pessoal que o presidente Trump começou com Kim Jong-un?
Sim.

Você reforçaria as sanções até a Coréia do Norte desistir de todos os seus programas nucleares e de mísseis?
Não.

Você gradualmente levantaria as sanções em troca de um congelamento no desenvolvimento de material físsil, como o presidente Clinton tentou?
Sim.

Você insistiria em desarmamento substancial antes de liberar qualquer sanção?
Não.

Você concordaria em começar a retirar tropas americanas da península coreana?
Não, não imediatamente. Trabalharíamos em estreita colaboração com nossos parceiros sul-coreanos para avançar em direção à paz na península coreana, que é a única maneira de finalmente lidarmos com a questão nuclear norte-coreana.

Descreva sua estratégia para a Coréia do Norte.
Cada passo que tomamos para reduzir a força nuclear da Coréia do Norte, abri-la para inspeções, terminar a Guerra da Coréia de 70 anos e incentivar relações pacíficas entre as Coréias e os Estados Unidos aumenta as chances de desnuclearização completa da península. A paz e o desarmamento nuclear devem prosseguir em paralelo, em estreita consulta com nosso aliado sul-coreano. Trabalharei para negociar um processo passo a passo para reverter o programa nuclear da Coréia do Norte, construir um novo regime de paz e segurança na península e trabalhar para a eventual eliminação de todas as armas nucleares norte-coreanas.

4. Afeganistão

A guerra no Afeganistão, iniciada após os ataques de 11 de setembro, é a guerra mais longa da história dos Estados Unidos, e os documentos divulgados em dezembro revelaram que três administrações presidenciais sucessivas enganaram o povo americano sobre o progresso – ou a falta dele – em andamento. . Que os Estados Unidos devam se retirar tornou-se um raro ponto de acordo entre o presidente Trump e os democratas. Mas ainda existem divergências significativas sobre quando e em que condições essa retirada deve ocorrer.

As tropas americanas estariam no Afeganistão no final do seu primeiro mandato? Nesse caso, você limitaria a missão dessas tropas ao combate ao terrorismo e à coleta de informações?
Não.

A presença americana no Afeganistão dependeria de outras nações contribuindo com tropas no terreno?
Não.

Quanto tempo você vê tropas americanas sendo exigidas, em qualquer número, no Afeganistão?
Como presidente, eu retiraria as forças militares dos EUA do Afeganistão o mais rápido possível. Eu também pretendo tirar as forças americanas do Afeganistão até o final de meu primeiro mandato. Nossos militares estão no Afeganistão há quase 18 anos. Em breve, teremos tropas no Afeganistão que nem nasceram em 11 de setembro de 2001. É hora de encerrar nossa intervenção e trazer nossas tropas para casa, de maneira planejada e coordenada, combinada com uma séria estratégia diplomática e política que ajudará a entregar ajuda humanitária necessária. A retirada de tropas não significa retirar todo o envolvimento, e meu governo permaneceria politicamente engajado nesses países e faria o possível para ajudá-los a desenvolver sua economia e fortalecer um governo que é responsável pelo seu povo.

5. Israel

Em Israel, uma solução de dois estados – há muito vista como o único fim viável do conflito entre israelenses e palestinos – parece mais distante do que nunca depois que o presidente Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu adotaram um plano que parecia inclinar o resultado a favor de Israel. A decisão de Trump em 2018 de transferir a Embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém foi profundamente polarizadora. Assim é o B.D.S. Movimento (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que se tornou cada vez mais proeminente e que a Câmara condenou em uma resolução bipartidária no ano passado.

Os Estados Unidos devem manter seu atual nível de ajuda militar a Israel? Caso contrário, como deve mudar o nível da ajuda?
Sim, mas essa ajuda pode estar condicionada a Israel tomar medidas para acabar com a ocupação e avançar para um acordo de paz. Bernie acredita que a ajuda dos EUA deve estar condicionada a uma série de preocupações com direitos humanos. Os contribuintes americanos não devem apoiar políticas que comprometam nossos valores e interesses, em Israel ou em qualquer outro lugar.

Você apoia o B.D.S. movimento? Caso contrário, o presidente e / ou o Congresso devem agir para impedir isso?
Não. Embora eu não seja um defensor da B.D.S. movimento, eu acredito que os americanos têm o direito constitucional de participar de protestos não-violentos.

A Embaixada dos Estados Unidos em Israel deve ser transferida de Jerusalém para Tel Aviv?
Não como um primeiro passo. Mas estaria em discussão se Israel continuar a tomar medidas, como expansão de assentamentos, expulsões e demolições de casas, que minam as chances de um acordo de paz.

Todos os refugiados palestinos e seus descendentes devem ter o direito de retornar a Israel?
O direito dos refugiados de voltarem para suas casas após a cessação das hostilidades é um direito internacionalmente reconhecido, mas essa questão será negociada entre israelenses e palestinos como parte de um acordo de paz.

Você apóia o estabelecimento de um estado palestino que inclua terras na Cisjordânia demarcadas pelas fronteiras anteriores a 1967, exceto em assentamentos israelenses de longa data?
Sim, se a questão do acordo for negociada entre israelenses e palestinos.

Se você respondeu sim à última pergunta, o que você fará para conseguir isso onde as administrações anteriores falharam? Se você respondeu não, que solução você vê para o conflito israelense-palestino?
Quando se trata do processo de paz entre israelenses e palestinos, é necessária uma liderança credível dos Estados Unidos. Sou um forte defensor do direito de Israel de existir na independência, paz e segurança. Mas também acredito que os Estados Unidos precisam adotar uma abordagem imparcial em relação a esse conflito de longa data, que resulta no fim da ocupação israelense e permite que o povo palestino tenha independência e autodeterminação em um estado soberano, independente e economicamente viável. por conta própria. Em minha opinião, esse resultado final seria do melhor interesse de Israel, do povo palestino, dos Estados Unidos e de toda a região.

6. RussiaInternet,Virus,GuerraCibernética,Armas,Espionagem,Tecnologia,Hackers,Blog do Mesquita 01

A Rússia tem sido uma força profundamente desestabilizadora no cenário mundial há vários anos, inclusive através da anexação da Crimeia da Ucrânia em 2014 e sua intromissão nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016. Depois de anexar a Crimeia, foi suspenso do bloco dos oito países industrializados do Grupo dos Oito (agora, na ausência da Rússia, o Grupo dos Sete). Mas o presidente Trump se esforçou para readmitir a Rússia no G-7 e realizou várias reuniões com o presidente Vladimir Putin, cujo conteúdo não foi divulgado.

Se a Rússia continuar em seu curso atual na Ucrânia e em outros ex-estados soviéticos, os Estados Unidos devem considerá-lo um adversário ou mesmo um inimigo?
Sim.

A Rússia deve ser obrigada a devolver a Criméia à Ucrânia antes que ela seja permitida de volta ao G-7?
Sim.

7. ChinaGuerras,Tecnologia,Primeira Guerra,Mundial,Armas 3

O governo chinês tem perseguido sistematicamente as minorias muçulmanas: separando famílias, submetendo uigures e cazaques a trabalhos forçados e operando campos de internação. Também está envolvido em uma crise política em Hong Kong, uma região administrativa especial da China. Ao mesmo tempo, o presidente Trump adotou uma linha dura no comércio com a China, impondo tarifas economicamente prejudiciais. No mês passado, Estados Unidos e China assinaram um acordo comercial inicial.

O respeito pela independência política de Hong Kong, nos termos do acordo de entrega com a Grã-Bretanha, deve ser um pré-requisito para as relações normais e o comércio com a China?
Sim.

As relações e o comércio normais deveriam depender do fechamento da China de seus campos de internação para uigures e outros grupos minoritários muçulmanos?
Sim.

8. OTAN

A Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar entre 29 países da América do Norte e da Europa, tem sido a peça central da política externa dos Estados Unidos há décadas. Mas o presidente Trump muitas vezes criticou a aliança, argumentando que os Estados Unidos dão demais e recebem muito pouco dela. Durante sua campanha de 2016, ele se recusou a se comprometer com o compromisso central da OTAN – defender outros membros se eles forem atacados – se os membros em questão não tivessem cumprido seus compromissos de gastos, e assessores dizem que, em 2018, ele sugeriu repetidamente a retirada. No ano passado, a OTAN concordou em reduzir a contribuição dos Estados Unidos e aumentar a da Alemanha.

Os países da OTAN deveriam pagar mais pela defesa do que seu compromisso atual de pelo menos 2% do PIB.
Não.

Os países que não cumprirem seu compromisso de financiamento da OTAN ainda receberão uma garantia da ajuda dos Estados Unidos se forem atacados?
Sim.

9. Política de Segurança Cibernética

O armamento cibernético surgiu como a principal maneira pela qual as nações competem entre si e se enfraquecem em conflitos de curta guerra. No entanto, existem poucas regras internacionais que governam as batalhas diárias – ou impedem a escalada. À medida que uma guerra sombria surge no ciberespaço, o presidente Trump deu muito mais poderes ao Comando Cibernético dos Estados Unidos e à Agência de Segurança Nacional.

Uma ordem presidencial deve ser obrigar um ataque cibernético contra outro país, assim como é necessário para lançar um ataque nuclear?
Sim.

A nova estratégia do Comando Cibernético dos Estados Unidos é “envolvimento persistente”, o que significa que os EUA se aprofundam em redes de computadores estrangeiras para se envolver constantemente com adversários e dissuadir greves nos Estados Unidos. Você continuaria com esta política?
Eu realizaria uma revisão abrangente da estratégia cibernética dos EUA e trabalharia para reunir países em torno de convenções internacionais para controlar o uso dessas armas perigosas.

Você respondeu à última pergunta, você insistiria que outras nações que buscam “engajamento persistente” não poderiam estar dentro das redes de energia americanas e outras infraestruturas críticas?
Não seria aplicável nesses casos.

10. Estratégia de Segurança NacionalBlog do Mesquita,guerra,Economia,Emprego,Adam Smith

Na era pós-Guerra Fria – e especialmente após os ataques de 11 de setembro – o ponto focal da política externa americana mudou-se para o contraterrorismo, o Oriente Médio e o Afeganistão. O presidente Trump, pelo menos no papel, defendeu a mudança da política externa americana de volta para enfrentar as “potências revisionistas” da Rússia e da China.

A estratégia de segurança nacional do presidente Trump exige que o foco da política externa americana se afaste do Oriente Médio e do Afeganistão e volte ao que se refere às superpotências “revisionistas”, Rússia e China. Você concorda? Por que ou por que não?
Apesar de sua estratégia declarada, o governo Trump nunca seguiu uma estratégia coerente de segurança nacional. De fato, Trump aumentou as tensões no Oriente Médio e nos colocou à beira da guerra com o Irã, recusou-se a responsabilizar a Rússia por sua interferência em nossas eleições e violações de direitos humanos, não fez nada para resolver nosso acordo comercial injusto com a China que só beneficia empresas ricas e ignorou o internamento em massa de uigures na China e sua repressão brutal a manifestantes em Hong Kong. Claramente, Trump não é um presidente do qual devemos tomar notas.

Como a nação mais rica e poderosa do mundo, precisamos ajudar a liderar a luta para defender e expandir uma ordem internacional baseada em regras na qual a lei, e não a força, faz o que é certo. Quando for presidente, alavancaremos nossa posição como potência mundial para combater a ascensão do eixo autoritário internacional e trabalharemos para construir uma coalizão que se mobilize por trás de uma visão de prosperidade, segurança e dignidade compartilhadas para todas as pessoas.

11. Prioridade Diplomática

O próximo presidente será confrontado com uma série de desafios de política externa, desde o programa nuclear da Coréia do Norte até os esforços internacionais para combater as mudanças climáticas. Não será possível abordar todos eles de uma vez. Isso torna essencial entender não apenas as políticas dos candidatos, mas também suas prioridades.

Qual seria a sua principal prioridade para o seu secretário de Estado?
Acredito há muito tempo que os EUA devem liderar o mundo na melhoria da cooperação internacional para enfrentar desafios compartilhados. É por isso que, juntamente com meu secretário de Estado, implementarei uma política externa focada na democracia, direitos humanos, justiça ambiental e justiça econômica. Liderar um esforço internacional contra a ameaça urgente das mudanças climáticas será uma prioridade.

Quando for presidente, reverteremos o ataque de Trump à diplomacia. Por exemplo, enquanto a China expande sua presença diplomática em todo o mundo, os EUA estão encolhendo. Mais de 25% das posições-chave do Departamento de Estado permanecem vagas. Tornaremos o recrutamento para o Departamento de Estado e a reconstrução de nosso corpo diplomático profissional uma prioridade. Investir mais em diplomacia, desenvolvimento e prevenção de conflitos a montante pode impedir a necessidade de intervenção militar a jusante. Agora, a falta de diplomacia e a ajuda externa resultarão em maiores necessidades de defesa militar.
Com dados do New York Times

Venezuela,Maduro,Ditadura,Petróleo,Trump,USA,América Latina,Blog do Mesquita

Venezuela; a caminho de ser uma nova Síria?

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Apoiadores do líder da oposição venezuelana Juan Guaido passam para o lado colombiano da Ponte Internacional Francisco de Paula em Cucuta, durante confrontos com as forças de segurança venezuelanas em Urena, Venezuela, em 25 de fevereiro de 2019. Foto: Raul Arboleda/AFP/Getty Images
HUGO CHÁVEZ PRESIDIU a Venezuela entre 1999 e 2013, tornando-se provavelmente o líder latino-americano mais icônico desde Fidel Castro. Ao chegar ao poder, em 1999, Chávez prometia não só reverter o movimento de privatizações sugeridas pelo Consenso de Washington, mas instaurar o que chamava de “socialismo do século 21”. Não conseguiu. Nenhum governo daquele país, seja “neoliberal-entreguista” seja “bolivariano”, conseguiu transformar as riquezas naturais da Venezuela em um alto nível de educação médio de seu povo e na alavanca para a sofisticação e modernização da economia nacional.

O colapso econômico da Venezuela não é culpa apenas da queda do preço do petróleo. É resultado também de políticas econômicas temerárias, como fixação de preço de diversas mercadorias a um valor abaixo do de mercado, ameaças e prisões de empresários e expropriação de companhias que não obedecessem às ordens do governo. Hoje, a participação do setor de manufaturados no PIB da Venezuela é inferior ao registrado em 1999. Houve não apenas uma queda em termos relativos, mas também em termos absolutos, ou seja, a Venezuela tem hoje uma produção industrial menor do que a de 1999. Em 2016, a queda da produção industrial venezuelana foi da ordem de 19%; no ano seguinte, mais 15%. Em 2002, havia por volta de 830 mil empresas na Venezuela, em 2017 o número havia caído para 250 mil. Por fim, entre 2013 e 2017, o PIB da Venzeuela encolheu em 37%.

Ascensão e queda do chavismo

Militar de carreira, Chávez começou a aparecer na cena política em fevereiro de 1992, quando foi um dos responsáveis por uma tentativa de golpe de estado contra o então presidente Carlos Pérez. Seu plano fracassou. Chávez, então, concedeu entrevista pedindo que seus companheiros deixem as armas, para evitar um “banho de sangue” no país. Durante o processo, 49 pessoas foram mortas.

Ainda preso, foi figura importante de uma outra tentativa de golpe, em novembro daquele mesmo ano. Em vídeo divulgado pela TV estatal, controlada pelos golpistas, o futuro presidente louvava o movimento revolucionário bolivariano. O golpe de novembro também fracassou, deixando 171 mortos pelo caminho.

Com a eleição de Rafael Caldera para presidente do país em 1994, Chávez e os demais conspiradores bolivarianos foram soltos da prisão. Quatro anos depois, aos 44 anos, com o apoio do Partido Comunista Venezuelano, do Movimiento al Socialismo, entre outros, Chávez saiu vitorioso das eleições presidenciais com 56% dos votos válidos.

No Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo trazia a reportagem em 7 dezembro de 1998, com o título “Eleição venezuelana consagra o golpista Chávez”. Nesse mesmo dia, o NY Times trazia uma pequena nota com o título: “Venezuelanos elegem um ex-líder golpista como presidente”.

Os golpes de 1992 tinham como alvo as políticas “neoliberais” então implementadas na Venezuela. Prometendo evitar os erros cometidos pelos soviéticos e sentado sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, Chávez deu início ao seu reinado. E petróleo é a variável-chave para compreender a dinâmica política e econômica da Venezuela. Em 2017, por exemplo, algo como 95% das exportações venezuelanas se constituíam de petróleo bruto, refinado e derivados. Sendo assim, quando o preço do petróleo aumenta, a Venezuela enriquece. Quando cai, empobrece.

O peso do petróleo nas exportações venezuelanas: cerca de 95% vêm de vendas de petróleo bruto, refinado e derivados

O peso do petróleo nas exportações venezuelanas: cerca de 95% vêm de vendas de petróleo bruto, refinado e derivados.

Fonte: The Observatory of Economic Complexity/MIT.

O gráfico mostra o preço médio do petróleo entre 1999 e 2016, já ajustado pela inflação.

O gráfico mostra o preço médio do petróleo entre 1999 e 2016, já ajustado pela inflação.

Gráfico: InflationData.com

Quando Chávez assumiu, o preço do barril estava próximo de US$ 25, entrando numa trajetória quase linear de alta, atingindo o valor recorde de US$ 103 em 2008. Com o preço real médio multiplicado por quatro em menos de uma década, Chávez pôde implementar uma série de políticas sociais que o transformaram em um líder extremamente popular. Ao controlar o Exército e o principal setor da economia – já que a estatal PDVSA é a grande empresa da área –, Chávez tornou-se o líder inconteste daquele país.

Em 2009, em consequência da crise americana, o preço do petróleo cai abruptamente, mas logo se recupera, atingindo US$ 95 em 2013, ano da morte de Chávez. A partir daí, entra em cena Nicolás Maduro, ex-motorista de ônibus que havia servido como Ministro das Relações Exteriores e vice-presidente. Sem o mesmo carisma de seu antecessor e sofrendo com nova queda do preço do petróleo, Maduro redobrou as apostas no autoritarismo e no populismo econômico.

Com a queda nas receitas do petróleo e como forma de continuar financiando os gastos do governo, só sobrou a Maduro o velho e ineficaz remédio de imprimir dinheiro, fazendo com que a inflação na Venezuela explodisse. Para este ano, o FMI espera uma taxa de inflação acima dos 10.000%.

Com a queda no valor das exportações, a Venezuela se viu sem dinheiro para financiar suas importações, fazendo com que o abastecimento de produtos básicos e insumos industriais e agrícolas entrasse em colapso. Não há comida, não há peças de reposição, não há remédios, pois não há dinheiro. A fome, a doença, o desemprego e a desesperança têm sido o motor da migração em massa de venezuelanos, algo que se denomina diáspora bolivariana. Mais de 2 milhões de venezuelanos saíram do país desde 2014.

Nova liderança instiga guerra civil

A catástrofe econômica não é inteiramente conhecida, pois não há estatísticas confiáveis. É provável, porém, que seja uma das maiores crises econômicas já registradas por um país que não atravessou uma guerra ou uma catástrofe natural de grande escala. A Venezuela entrará de modo negativo para os anais da história econômica do mundo.

A crise agora se agrava graças às questões geopolíticas. A decisão de parte importante da comunidade internacional (EUA, Canadá, União Europeia e o grupo de Lima, por exemplo) em reconhecer Juan Guaidó como presidente da Venezuela é algo grave. Um país com dois presidentes em exercício e reconhecidos por superpotências econômicas e militares (China e Rússia, por exemplo, apoiam o regime de Maduro) faz com que as possibilidades de guerra civil e/ou secessão cresçam.

As sanções econômicas impostas por Trump tornam a situação fiscal da Venezuela ainda mais desesperadora, implicando na piora da fome e da mortalidade. Apoiado por gestos e palavras de insanos como Trump e Bolsonaro, Guaidó publicou em seu twitter uma mensagem que parece um apelo à invasão estrangeira e/ou à guerra civil.

Há chances reais e efetivas de a Venezuela se tornar um novo Afeganistão, Iraque, Síria ou Líbia. Não há mocinhos nessa história. Os países nos quais os EUA estimularam ou provocaram a queda de ditadores – inclusive durante o governo Obama – caíram numa espiral de caos político e econômico. Se Trump decidir armar a oposição, China e Rússia tampouco ficarão sem apoiar seus aliados. Seria uma tragédia sem paralelos na história recente da América Latina um novo episódio da nova guerra fria travada por essas três potências.

Nenhum desses países tem real interesse pelo bem-estar dos venezuelanos. Suas preocupações são mesquinhamente econômicas e geopolíticas. Nenhum desses países se guia pelos princípios humanitários da Carta das Nações Unidas, mas pelo poder e pela baixa política do Conselho de Segurança.

Ainda que não haja uma invasão estrangeira imediata, cada uma dessas potências pode armar e estimular setores do Exército e da sociedade civil, arrastando a Venezuela para um conflito ao estilo da Síria. Estamos vendo um palco de guerra sendo montado em nossas fronteiras estimulado pelas palavras e gestos de dois despreparados que nos governam: Bolsonaro e Ernesto Araújo. Ou pior: pelos tuítes nada diplomáticos de um dos filhos do presidente.

Vídeo incorporado

Mourão, o adulto na sala

Numa clara sinalização de guerra de atrito entre o Itamaraty olavista e as Forças Armadas, Mourão participou da última reunião do grupo de Lima, posando para fotos oficiais ao lado do chanceler Ernesto. O vice-presidente parece mesmo condenado a desempenhar o papel do adulto na sala.

A declaração final do grupo de Lima foi surpreendentemente serena. Ainda que condene as ações do “regime ilegítimo de Nicolás Maduro” e enfatize o reconhecimento de Guaidó como único presidente legítimo do país, o documento afirma que “a transição para a democracia deve ser conduzida pelos próprios venezuelanos e sob o marco da Constituição e do direito internacional”. Frase em plena consonância com os princípios elencados no artigo 4° de nossa Constituição, entre os quais estão o respeito à “autodeterminação dos povos” e a “não intervenção”.

Permitir a entrada de tropas americanas via solo brasileiro para atacar um país vizinho (numa manobra ilegal, que não seria aprovada pelo Conselho de Segurança, graças ao veto de Rússia e China) seria uma mancha em nossa história e um crime grave o suficiente para determinar a saída de Jair Bolsonaro do palácio do Planalto. Por meio de gestos e frases descuidadas, Bolsonaro pode provocar a primeira guerra entre o Brasil e um de seus vizinhos desde a Guerra do Paraguai (1867-1870) – sempre bom não perder de vista que a Venezuela já gastou desde meados dos anos 2000 algo como US$ 10 bilhões apenas com armamentos russos.

Ainda que o cenário de um confronto direto entre Brasil e Venezuela seja pouco provável, um governo sensato mediria as palavras e buscaria agir como mediador na crise daquele país. Mas uma retórica bélica, nacionalista e inflamada como a dos Bolsonaro, ensina a história, é um convite à violência.

Que Mourão seja mesmo “o adulto na sala”, tenha ouvido moucos para os idiotas, e costure uma saída pragmática para o Brasil.
Alexandre Andrada/TheIntercept

Brasil,América Latina,Venezuela,Nicolas Maduro,EUA,USA,Trump,Bolsonaro

“Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser o Brasil”, adverte pesquisadora sobre conflito

Márcia Oliveira, especialista em fronteira e migração, analisa o papel do Brasil na “ajuda humanitária” ao país vizinho

O Brasil assumiu um papel decisivo na fronteira com a Venezuela no último sábado (23), protagonizando um momento ímpar na relação entre os dois países, com alcance mundial. Primeiro porque coordenou toda a operação da tentativa frustrada de cruzar as duas caminhonetes com alimentos para a Venezuela. Segundo porque permitiu que manifestantes utilizassem o lado brasileiro, mesmo com a fronteira fechada, para se aproximar dos militares venezuelanos e fazer provocações com pedras, queima de pneus e incêndio de um alojamento militar ao lado de um posto de gasolina da Petroleira Venezuelana (PDVSA) com bombas de coquetel molotov.

Doutora em fronteira e migração, professora do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e uma das sete especialistas do Brasil que participam da formulação do Sínodo sobre a Amazônia, evento que será realizado em outubro pela Igreja Católica, Márcia Oliveira analisa a postura diplomática e militar do país na fronteira com a Venezuela e questiona as decisões do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Além disso, afirma que é importante enxergar o vizinho como um país irmão e não como um inimigo.

Brasil de Fato: Qual é a sua avaliação sobre a tentativa de entrega da suposta ajuda humanitária do último sábado (23) na fronteira do Brasil com a Venezuela?

Márcia: Para ser confirmada uma ajuda internacional existe um padrão que é definido pela solicitação, logística dessa chegada da ajuda humanitária e, principalmente, pelas estratégias de distribuição, justamente para não criar um problema na disposição dos alimentos. De fato, a materialização do ocorrido no dia 23 de fevereiro nos dá a entender que essa ajuda humanitária teve um cunho político muito forte. Ou seja, ela não se configura a partir do padrão internacional convencionado como ajuda humanitária e, ao mesmo tempo, ela não segue nem os padrões de logística e nem de distribuição, o que nos leva entender a ajuda, uma pseudo ajuda humanitária, como um fato político.

Qual a estratégia por trás dessa “ajuda humanitária”?

A partir do fato em si na fronteira que, num primeiro momento, nos pareceu um jogo de forças, nos deu a entender que era uma espécie de tentativa de medir forças para reunir os opositores do governo Maduro numa grande encenação daquilo que seria a entrada no país pelas fronteiras. E, claro, com a presença de representantes dos Estados como o Chile, Brasil, Colômbia nas fronteiras prontos para celebrar aquilo que seria a entrada definitiva no país. A análise que fazemos, no campo sociológico, é que há um embate contra o governo Maduro. Como não se consegue minar o país pelas vias políticas, tenta-se minar o país pelas fronteiras. Ou seja, não existe uma justificativa que permita uma intervenção militar na Venezuela. Pelo menos do ponto de vista sociológico, isso não existe. Adentrar pelas fronteiras poderia, sim, se configurar como uma grande estratégia de ocupação e intervenção política num processo em que o Brasil está envolvido, e outros países também nesse Grupo de Lima, que acaba transformando uma questão que seria mais no campo social-humanitário, numa questão política.

Estados Unidos e Europa, que se dizem preocupados com a Venezuela, impõem ao país governado por Nicolás Maduro uma série de sanções. Qual o impacto disso no momento que vive o país sul-americano?

Para mim, não é uma questão apenas de governo, não é uma situação criada por Maduro, é uma questão que envolve uma complexidade de elementos no campo político, no campo econômico. O embargo transcende a questão local. Poderia ser qualquer governo fora desse contexto e o embargo teria o mesmo peso. Ou seja, estamos lidando com uma relação de poderes econômicos que afeta a Venezuela neste momento. Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser o Brasil. Então são questões no campo do capitalismo, na intensificação do capitalismo neste momento histórico em que os interesses econômicos estão acima dessas populações locais, inclusive nesse caso específico do conflito na fronteira, que colocam em risco a vida de centenas – e talvez milhares – de pessoas que estão ali na fronteira, de uma forma muito irresponsável. O interesse econômico está acima da vida das pessoas. Então o embargo traz esse elemento muito forte.

O reforço da segurança por parte do Estado brasileiro só ocorreu após as provocações por parte dos opositores e resposta por parte dos militares venezuelanos. Qual a responsabilidade do governo Bolsonaro nesse conflito?

Temos dois atores importantes nesse processo: o Exército e o Ministério das Relações Exteriores. No mínimo, essas duas instituições devem explicações à sociedade brasileira sobre sua postura, principalmente por colocar em risco a vida de tantas pessoas na fronteira. E também por se tratar de um país vizinho, de um país de fronteira. Não estamos falando de qualquer um. Não estamos falando de uma coisa alheia às nossas relações, estamos falando de um [país] vizinho. Nesse sentido, no mínimo, as instituições que se envolveram nesse cenário de encenação da ajuda humanitária devem explicações à sociedade brasileira. Acredito que em algum momento um deputado federal deve chamar ao parlamento as pessoas que estiveram à frente dessas instituições, para se justificar diante da sociedade brasileira, pelo menos, ou para prestar uma explicação política sobre esse envolvimento. Não acredito que essas duas instituições representem a totalidade do povo brasileiro.

Quais os efeitos para o Brasil de uma possível guerra contra a Venezuela?

Toda guerra é tremenda e evitá-la deve ser o objetivo de toda e qualquer sociedade que tem o mínimo de entendimento sobre relações transfronteiriças, que pensa a fronteira como vizinha e não como inimiga. Não quero acreditar que acontecerá uma guerra contra a Venezuela e não quero acreditar que o Brasil participe disso, porque historicamente nós não temos a postura de não estabelecer guerra com ninguém, mas ao mesmo tempo há uma preocupação muito grande sobre os andamentos, os rumos dessa relação difícil e tensa com a Venezuela, que é um país irmão, vizinho, que não pode ser visto como um inimigo, como um país passível de guerra.
OperaMundi/Andre Vieira

Venezuela,Ditadura,América Latina,Nicolas Maduro,Brasil,USA

Crise na Venezuela: o que dizem os soldados que desertaram nas fronteiras

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A BBC News conversou com desertores venezuelanos que estão abrigados em uma igreja na Colômbia

Os soldados que desertaram das forças armadas venezuelanas no sábado e cruzaram a fronteira para a Colômbia temem pela segurança de suas famílias que ficaram no país.

Em entrevista exclusiva à jornalista Orla Guerin, da BBC News, um desertor de 23 anos disse estar preocupado que as forças de segurança leais ao presidente Nicolás Maduro possam “atacar sua família”.

“Mas acho que foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado”, acrescenta.

No total, mais de 100 soldados teriam desertado, a maioria durante os violentos confrontos deste fim de semana, quando estava prevista a chegada da ajuda humanitária articulada pelo líder da oposição Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino, e seus aliados internacionais.

A tensão aumentou depois que Maduro enviou tropas para bloquear estradas e pontes nas fronteiras do Brasil e da Colômbia, por onde os veículos carregados de alimentos e medicamentos, enviados pelos EUA, entrariam no país.

Maduro argumenta que a entrada da ajuda humanitária na Venezuela abriria caminho para uma intervenção militar dos EUA.

Em diversos pontos da fronteira, as forças de segurança entraram em confronto com civis venezuelanos que tentaram furar o bloqueio em busca de mantimentos. Os soldados usaram bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes, que revidaram com pedradas.

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Maltratados e feridos

Orla Guerin, da BBC News, na Colômbia, perto da fronteira com a Venezuela

Encontramos com os desertores – homens e mulheres – um dia depois que eles baixaram suas armas e abandonaram seus postos. Eles conseguiram abrigo em uma igreja católica, que conta com uma equipe de segurança discreta do lado de fora.

Alguns pareciam estar em choque com as cenas de violência deste fim de semana, quando as tropas venezuelanas atiraram em seu próprio povo com gás lacrimogêneo e balas de borracha.

O padre da paróquia que os acolheu contou que muitos chegaram maltratados e feridos. Os desertores disseram que fugiram porque o país deles precisava de mudanças e os filhos, de comida. Após falar por telefone com um familiar, um jovem oficial caiu em prantos.

A maioria dos militares que encontramos era de soldados de infantaria. Eles contaram que o alto escalão ainda estava vinculado – pela corrupção – ao presidente Nicolás Maduro, e que ele lutaria para permanecer no poder.

Mas disseram que ele perdeu o apoio dos recrutas, que estavam apostando no líder da oposição, Guaidó.

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O que dizem os desertores?

Após concordar em conversar com a BBC, sob condição de anonimato, um grupo de desertores venezuelanos refugiados em uma igreja em Cúcuta, na Colômbia, descreveu o que os levou a deixar as forças armadas.

“Há muitos soldados profissionais que querem fazer isso. Isso vai ser um efeito dominó. Vai ter uma influência significativa nas forças armadas”, disse um homem de 29 anos.

“As forças armadas entraram em colapso por causa de tantos oficiais corruptos. Os profissionais militares estão cansados. Não podemos continuar escravos, estamos nos libertando”, acrescentou.

Uma desertora mulher descreveu como “tenso” o clima no sábado: “Eu só pensava que não poderia prejudicar meu próprio povo”.

“Minha filha ainda está na Venezuela e é isso que dói mais. Mas eu fiz isso por ela. É difícil porque não sei o que eles podem fazer com ela”, completa.

Um terceiro disse que sentiu dor ao ver o povo venezuelano nas ruas lutando por ajuda humanitária.

“Me senti impotente e inútil. Senti dor por tudo o que aconteceu”, afirmou.

Guaidó prometeu anistia aos desertores se eles ficassem do “lado certo da história”.

Manifestantes entraram em confronto com forças de segurança venezuelanas nas fronteiras da Colômbia e do BrasilDireito de imagem EPA
Manifestantes entraram em confronto com forças de segurança venezuelanas nas fronteiras da Colômbia e do Brasil

O que está acontecendo na Venezuela?

No domingo, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, disse que Maduro estava com os “dias contados” após os confrontos violentos do fim de semana.

“Saber os dias exatos é difícil. Estou confiante de que o povo venezuelano vai garantir que os dias de Maduro estejam contados”, declarou Pompeo à rede de televisão americana CNN.

O autoproclamado presidente interino, Guaidó, que foi reconhecido por mais de 50 países, pediu que outras nações considerem “todas as medidas” para expulsar Maduro, depois que os esforços liderados pela oposição para levar ajuda humanitária ao país resultaram em confrontos.

A polícia venezuelana impediu os carregamentos de ajuda humanitária de cruzar a Ponte Internacional Simon BolivarDireito de imagem EPA
A polícia venezuelana impediu os carregamentos de ajuda humanitária de cruzar a Ponte Internacional Simón Bolívar

Ele também participa nesta segunda-feira da reunião do Grupo de Lima, em Bogotá, em que representantes de 13 países discutem a situação política e social da Venezuela. O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, vai representar Washington nas negociações.

Um alto funcionário da Casa Branca disse no domingo que Pence planejava anunciar “medidas concretas” e “ações” para enfrentar a crise durante o encontro, informou a agência de notícias Reuters.

Enquanto isso, a Colômbia e o Brasil anunciaram que intensificariam a pressão para Maduro deixar o poder. E o presidente dos EUA, Donald Trump, não descartou uma resposta armada à crise na Venezuela.

Maduro conta, por sua vez, com o apoio de importantes aliados econômicos – como Rússia, China e Cuba.

O navio de suprimentos que foi forçado a atracar na ilha de CuraçaoDireito de imagem GETTY IMAGES
Navio de suprimentos que seguiria para a Venezuela foi forçado a atracar na ilha de Curaçao

O que aconteceu na fronteira?

A oposição venezuelana planejava cruzar pacificamente as fronteiras da Colômbia e do Brasil para entrar na Venezuela com caminhões carregados de ajuda humanitária.

Guaidó havia prometido que os mantimentos chegariam naquele dia. Em resposta, Maduro fechou parcialmente as fronteiras do país.

Os civis venezuelanos tentaram atravessar em busca de alimentos e medicamentos, o que provocou rapidamente a reação das forças militares.

Os soldados atiraram contra os civis usando munição real e balas de borracha.

Pelo menos duas pessoas morreram nos conflitos.

No dia seguinte, um barco que levava ajuda humanitária de Porto Rico para a Venezuela foi forçado a atracar na ilha de Curaçao após ser interceptado pela marinha venezuelana, informou a agência de notícias AFP.

A embarcação estaria carregada com nove contêineres cheios de comida e remédios.

Como a situação chegou a este ponto?

A ajuda humanitária armazenada na Colômbia e no Brasil está no centro de um embate político entre Maduro e Guaidó, que remonta à controversa reeleição de Maduro em 2018.

A Venezuela vive há alguns anos em meio a uma grave crise política e econômica.

A inflação descontrolada fez os preços dispararem, deixando muitos venezuelanos com dificuldade para comprar até mesmo os itens mais básicos, como alimentos e papel higiênico.

Mais de três milhões de pessoas fugiram da Venezuela nos últimos anos, de acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Tecnologia,Hackers,Blog do Mesquita,Alaska,USA

O ataque cibernético que fez um território americano voltar no tempo

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Remoto distrito do Alasca foi atacado por malware que o forçou a ficar offline

Não se sabe de onde vieram. Mas, quando chegaram, foram logo seis malwares – softwares maliciosos – que atacaram o distrito Matanuska-Susitna, do Alasca.

Eles rapidamente se espalharam pelas redes de computadores da região, interrompendo uma quantidade desconcertante de serviços. Centenas de funcionários não conseguiram acessar seus sistemas de trabalho. Bibliotecários receberam alertas para desligar urgentemente todos os computadores públicos. O abrigo de animais perdeu o acesso aos dados sobre medicamentos de seus inquilinos peludos.

E não parou por aí. Um sistema de reservas online para aulas de natação caiu, obrigando os interessados a formarem uma fila. Um escritório passou a usar máquinas de escrever. E Helen Munoz, uma mulher de 87 anos que faz campanha por melhorias no sistema de esgoto da área, recebeu uma resposta inesperada a uma de suas frequentes ligações a administradores locais: “Nossos computadores estão desligados”.

“O ataque cibernético, meu Deus, quase parou tudo”, diz ela. “Na verdade, o distrito ainda não resolveu todos os problemas com seus computadores”.

Matanuska-Susitna, conhecida como Mat-Su, ainda tenta se recuperar do que aconteceu em julho de 2018. Quando os primeiros sinais de malware apareceram, ninguém esperava a turbulência que se seguiu. A equipe de TI trabalhava até 20 horas por dia, encarregada de restaurar 150 servidores.

Mat-Su é um distrito em grande parte rural que abriga apenas cem mil pessoas. Por isso seria um alvo improvável de um ataque cibernético.

Esta é a história do que aconteceu.

paisagemDireito de imagem GETTY IMAGES
O ataque virtual prejudicou várias atividades administrativas

Na manhã de 23 de julho de 2018, funcionários do vilarejo de Palmer, no distrito Matanuska-Susitna, chegaram para trabalhar como de costume. Em poucas horas, um programa antivírus sinalizou uma atividade incomum em alguns computadores.

O diretor de TI local, Eric Wyatt, pediu a sua equipe para dar mais atenção àquilo. Eles, então, encontraram arquivos maliciosos e, portanto, seguiram o procedimento padrão: pedir à equipe para alterar suas senhas e, enquanto isso, preparar um programa para limpar automaticamente o software suspeito.

Quando lançaram o mecanismo de defesa, entretanto, houve uma resposta não esperada.

Resposta automática

Wyatt observou a rede se iluminar. Parecia que um ataque maior ou de segundo estágio havia sido acionado. Talvez alguém estivesse monitorando as ações do departamento de TI ou foi uma resposta automática do malware.

De qualquer maneira, ele começou a se espalhar ainda mais e, em alguns casos, bloqueou mais arquivos de funcionários e exigiu pagamentos de resgate.

Essa forma de malware é conhecida como “ransomware” – uma ameaça cada vez mais comum e perigosa aos sistemas de computadores. Nos últimos anos, surtos de ransomware em todo o mundo interromperam temporariamente hospitais e fábricas, confundiram as operações nos principais portos e levaram centenas de escritórios ao caos.

O custo total anual dos eventos de ransomware está estimado em vários bilhões de dólares, segundo a empresa de pesquisa Cybersecurity Ventures.

A escala desses ataques cibernéticos foi certamente nova para Wyatt, que iniciou sua carreira em TI na Força Aérea dos EUA.

malwareDireito de imagem GETTY IMAGES
Malwares geram milhões de dólares em prejuízos para empresas

“Tenho mais de 35 anos neste negócio e sempre lidei com esse tipo de coisa”, disse Wyatt. “Esse (ataque) foi certamente o maior que eu já vi, o mais sofisticado”.

Quando percebeu que o incidente causaria dor de cabeça, ele se dirigiu ao gestor do distrito, John Moosey, que, por sua vez, informou o FBI sobre o que parecia um grande ataque cibernético. “Isso realmente nos afetou muito”, contou Moosey.

Quase todos os telefones de escritórios do distrito tiveram que ser desligados. Especialistas em TI foram recrutados para ajudar na recuperação dos sistemas. Mais de 700 dispositivos, entre impressoras e computadores, foram verificados e limpos.

“Todos os dados são considerados suspeitos”, dizia uma atualização publicada pouco tempo depois.

No departamento de compras do distrito, a equipe preenchia formulários à mão quando alguém teve uma ótima ideia. Foram até o depósito e resgataram duas antigas máquinas de escrever eletrônicas. Tiraram seu pó e passaram a usá-las, um movimento que chegou às manchetes internacionais.

Como os sistemas foram colocados offline e a equipe mudou para telefones celulares e serviços temporários de webmail, as atividades do distrito foram forçadas a desacelerar. Programas de computador haviam sido projetados para ajudar a processar tudo, desde dados em canteiros de obras até pagamentos com cartão de crédito no aterro sanitário local. Mas agora estavam todos sem ação.

máquina de escreverDireito de imagem GETTY IMAGES
Funcionários de escritório recuperaram máquinas de escrever

“O vírus foi terrível”, disse Peggy Oberg, da Biblioteca Pública de Big Lake, no centro-sul de Mat-Su.

No período de uma semana, a biblioteca acolheu entre 1,2 mil e 1,5 mil pessoas em busca de serviços de internet e computadores.

Oberg ainda se lembra da ligação recebida do departamento de TI, que pediu que a biblioteca desconectasse todos os computadores e impressoras – não apenas desligando-os, mas desconectando-os. O wi-fi público também foi desligado. Em 20 anos, Oberg nunca tinha recebido uma ligação como aquela.

Perda de arquivos

Equipes de outras bibliotecas também não conseguiram catalogar livros, procurar novos itens solicitados por usuários ou se comunicar por canais habituais com colegas de Mat-Su. Por algumas semanas, eles ficaram parcialmente isolados. Oberg passou dois meses preocupada de que dados e serviços da biblioteca fossem perdidos para sempre.

“Eu estava enlouquecendo de imaginar que eles não fossem recuperados”, lembra. Felizmente, mais tarde ela soube que os arquivos haviam sido restaurados, nove semanas depois do último acesso antes do ataque.

O abrigo local de animais de Mat-Su recebe entre 200 e 300 animais por mês – desde animais de estimação perdidos até gado retirado das estradas. Os computadores da equipe do abrigo foram levados.

Sem registros de medicamentos ou outras informações de casos antigos, os funcionários não sabiam quanto cobrar das pessoas que vinham coletar os animais. O site com fotos de animais para adoção também não pôde ser atualizado.

cachorro sendo vacinadoDireito de imagem GETTY IMAGES
Abrigo de animais perder dados sobre hóspedes peludos

Moradora de Palmer, Helen Munoz, de 87 anos, gerenciava um negócio de tanque séptico e esgoto. Hoje ela faz parte de um comitê que supervisiona a construção de uma nova estação de tratamento de águas residuais.

Munoz estava frustrada pela maneira como a comunicação ineficiente vinha prejudicando o distrito.

“Eu não me importo com a tecnologia, mas, quando não consigo garantir a construção de um sistema de esgoto, fico muito irritada.”

Outros estavam igualmente preocupados. Um morador chegou a postar no Facebook sobre o ataque cibernético: “É incrível como isso pode afetar o nosso dia-a-dia.”

“Até agora, isso mudou a forma como eu pagava pelo depósito de lixo; não recebi o email provando que meu cachorro tomou a vacina anti-rábica e imagino que também será diferente quando for pagar meus impostos.”

Agentes imobiliários de Mat-Su, que se conectam a um sistema online para ter acesso a dados cadastrais locais, viram-se sem ter o que fazer. E até o sistema de inscrição de crianças para aulas de natação sofreu impacto.

“Todo mundo tinha que ficar na fila, tudo foi feito à moda antiga”, diz Nancy Driscoll Stroup, advogada local.

Até agora, o incidente custou à Mat-Su mais de US$ 2 milhões (R$ 7,4 milhões).

Logo após o início do ataque, os investigadores encontraram evidências de que o malware estava nos sistemas do município desde maio.

Isso aumenta a curiosidade de Stroup, que lembra que uma delegação do bairro visitou a China em uma missão comercial naquele mês. Embora ninguém tenha feito qualquer ligação oficial com os chineses, houve alegações de envolvimento chinês em outros episódios recentes de hackers.

livrosDireito de imagem GETTY IMAGES
Bibliotecas não conseguiram acessar seu banco de dados

Enquanto vasculhavam os destroços digitais, Wyatt e seus colegas perceberam que o malware havia depositado dados em arquivos com um número específico nos computadores atacados. Depois perceberam que o número 210 identificou Mat-Su como a 210ª vítima dessa versão específica do malware; as outras 209 vítimas ainda são desconhecidas.

Eles também recolheram pistas sobre como o ataque começou. Wyatt acredita ter sido um ataque de phishing direcionado, no qual uma organização trabalhando para o distrito foi comprometida em outro ataque.

Isso permitiu, diz ele, que alguém enviasse um email malicioso, contendo o primeiro lote de malware, para um funcionário de Mat-Su.

Os criadores do malware encobrem ataques em mensagens aparentemente inofensivas para aumentar as chances de que um clique no link ou download de um anexo infecte o computador. A partir daí, ele atinge outras máquinas da rede.

Ações de reparação

Mas Wyatt não culpa ninguém por ter sido enganado. “Os únicos culpados são os que escrevem os vírus”, diz ele.

Nas dez semanas seguintes, uma equipe restaurou a maioria dos serviços afetados em Mat-Su.

Em agosto de 2018, Wyatt apareceu em um vídeo oficial no YouTube explicando a extensão da operação de recuperação. Especialista em TI, Kurtis Bunker também afirmou no vídeo que o FBI estaria “surpreso” com a forma como a equipe de Mat-Su reagiu ao ataque.

Nem todo o público estava entendendo. “Quem ou por que alguém iria ‘hackear’ uma pequena cidade?”, zombou um usuário do Facebook. Mas muitos apoiaram as ações. E várias organizações que têm relações comerciais com o distrito fizeram um esforço para garantir que o ataque cibernético não se estendesse ainda mais.

paisagem chinesaDireito de imagem GETTY IMAGES
Investigações revelam que equipe visitou a China antes do ataque

O único motivo plausível para o ataque é o de os criadores do malware pensarem que poderiam cobrar por um resgate. Mas o conselho do FBI foi claro, segundo Wyatt: “Não pague”.

William Walton, agente do FBI que investiga o que aconteceu em Mat-Su, diz que esse tipo de ataque pode ter sérias consequências. Sendo uma comunidade pequena, Mat-Su tem menos estrutura de segurança de rede.

“Em termos de infraestrutura, ela não tem o mesmo nível de recursos de uma grande área metropolitana, por isso consideramos esse como um evento crítico de infraestrutura”, diz Walton.

Talvez nunca saibamos quem atacou Mat-Su ou o porquê. Mas tais incidentes são inquietantemente comuns. Como comunidades e empresas dependem de computadores para as tarefas mais básicas, a periculosidade de um criminoso cibernético só aumenta.

Agora, os vilarejos de Mat-Su sabem bem disso.

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Crise na Venezuela: Qual é o tamanho real do poderio militar do país?

Armamentos,Venezuela,Maduro,América Latina,Brasil,Trump,UsaExército venezuelano teve papel fundamental no conflito político e social dos últimos anos

A ameaça de um conflito armado paira sobre a Venezuela.

O presidente americano, Donald Trump, afirmou que não descarta uma opção militar para tirar do poder o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e que o Exército da Venezuela deveria apoiar o governo do presidente autoproclamado da Venezuela, o oposicionista Juan Guaidó.

Em resposta, Maduro e seu ministro da Defesa disseram que os venezuelanos lutariam até as últimas consequências caso haja uma intervenção militar.

A tensão em torno de um conflito tem aumentado por causa da ajuda humanitária enviada por países que declararam apoio a Guaidó. Este anunciou que, a partir deste sábado, esses mantimentos começariam a entrar no país, numa estratégia que busca fazer frente a uma crise socioeconômica que o governo chavista nega.

Isso, entretanto, não aconteceu. Nesta manhã foi anunciado fechamento de três pontes na fronteira com a Colômbia e houve enfrentamento entre manifestantes e forças policiais.

Para Maduro, apoiado por Rússia e China, seus opositores tentam “fabricar uma crise humanitária que não existe na Venezuela” para justificar uma intervenção estrangeira. Por isso, ele anunciou o fechamento da fronteira com o Brasil e estuda fazer o mesmo na região fronteiriça com a Colômbia.

O impasse na fronteira e os confrontos deixam o Exército venezuelano sob os holofotes.

Como as Forças Armadas do país vão reagir à pressão internacional? Qual é o poder de fogo delas ante um eventual ataque dos EUA?

Nicolás MaduroDireito de imagem REUTERS
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tem apoio das Forças Armadas do país

Qual é o tamanho do efetivo das Forças Armadas da Venezuela?

De acordo com dados do Ministério da Defesa do país, a Força Armada Nacional Bolivariana tem entre 95 mil e 150 mil integrantes, número que não inclui os membros da Milícia Nacional Bolivariana, um grupo paralelo descrito como paramilitar pelos críticos do governo e formado por voluntários que assumem várias funções a serviço do Estado.

Esses milicianos recebem treinamento no manejo de armas e usam rifles antigos que pertenciam anteriormente ao Exército.

A Milícia Nacional baseia-se na premissa da “união cívico-militar”, cunhada pelo presidente Hugo Chávez, morto em 2013, pela qual toda a sociedade deve complementar o esforço do Exército na “defesa da nação”.

Maduro manteve seu compromisso com a milícia, apesar das acusações de militarização da vida civil e anunciou, em janeiro deste ano, que o corpo de segurança está próximo de atingir 2 milhões de integrantes.

Soldados da Venezuela em desfileDireito de imagemGETTY IMAGES
Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela, pediu apoio dos militares

Não há informações precisas, no entanto, sobre o número real de integrantes e a qualidade de seu armamento e treinamento militar.

Também formam as Forças Armadas os integrantes da Guarda Nacional, um corpo militar responsável pela ordem pública e pela proteção dos cidadãos. Conhecida por todos os venezuelanos, uma de suas atribuições mais comuns é fazer o policiamento das ruas e das rodovias do país.

Nos últimos anos, a Guarda Nacional vem ganhando maior destaque pela repressão violenta contra os manifestantes de oposição, especialmente durante os protestos de 2017, e sua conduta tem sido objeto de polêmica. Também não há informações precisas sobre o tamanho do efetivo da Guarda Nacional.

Foi ela que, na manhã deste sábado, bloqueou a passagem na fronteira entre Venezuela e Colômbia em Ureña, no Estado de Táchira.

Tanque do Exército da VenezuelaDireito de imagem GETTY IMAGES
Estimativas oficiais indicam que Forças Armadas venezuelanas contam com 95 mil a 150 mil integrantes

Poderio renovado por Rússia e China

Após a chegada de Chávez ao poder (1999), a Venezuela aproveitou o crescimento das receitas do petróleo na primeira década dos anos 2000 para dar início a uma renovação ambiciosa das Forças Armadas que teve a Rússia e a China como suas principais provedoras.

Desde então, os russos forneceram à Venezuela vários modelos de aviões, helicópteros, tanques e unidades de artilharia.

O apoio da Rússia voltou a se fazer presente em dezembro do ano passado, quando o governo de Vladimir Putin enviou à Venezuela dois modernos bombardeiros capazes de transportar armas nucleares, os Tu-160, para um exercício em conjunto com a aviação venezuelana. O episódio gerou duras críticas do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Mas a grande contribuição russa para a ampliação da capacidade militar venezuelana foi a venda de caças Su-30Mk2 que, segundo especialistas, são capazes de competir com os modelos americanos mais avançados graças a seu poder de fogo, manobrabilidade e desempenho.

Além disso, os russos repassaram à Venezuelana sistemas de mísseis antiaéreos e os chineses, radares que permitem estabelecer o que o portal especializado Infodefensa descreveu como “o melhor sistema de defesa aeroespacial da América Latina”.

Nos anos de chavismo, uma frota naval sediada na cidade de Puerto Cabello também passou por uma completa renovação.

Considerando todos os seus recursos humanos e técnicos, o site Global Firepower colocou a Venezuela na 46ª posição do ranking mundial de países com maior força militar no ano passado. O Brasil está na 14ª posição e os Estados Unidos, em primeiro lugar.

Homem é agredido por forças de segurançaDireito de imagem GETTY IMAGES
Participação de forças militares em atividades de ordem pública foi alvo de críticas

Qual é a capacidade operacional de fato desses armamentos?

Desde o início da última crise política, Maduro vem estreitando ainda mais os laços com os militares e elogia repetidamente a capacidade das Forças Armadas.

Coincidindo com a escalada da tensão diplomática com os Estados Unidos, o presidente venezuelano organizou exercícios militares em larga escala que descreveu como “os mais importantes da história” do país.

Trata-se de um esforço para dar destaque ao papel do Exército em um momento crítico.

Um especialista militar estrangeiro que vive em Caracas e que pediu para não a ser identificado disse à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC, que “há muitas dúvidas sobre a capacidade operacional real do arsenal (da Venezuela), devido à falta de manutenção”, outra consequência da crise econômica grave que o país enfrenta.

John BoltonDireito de imagem AFP
Conselheiro de Segurança dos Estados Unidos, John Bolton, disse que intervenção militar na Venezula não está descartada

A escassez de peças de reposição é visível mesmo na base aérea em La Carlota, no coração de Caracas, onde os helicópteros ali estacionados sofrem o que no jargão militar é conhecido como “canibalização”, ou seja, o uso de partes de aeronaves em bom estado para a reparação de outras danificadas.

“Nos últimos anos, eles tentaram convencer os russos e os chineses a se responsabilizarem pela manutenção, mas o problema é que agora eles não podem pagar ninguém”, diz o especialista. “Os russos investiram muito dinheiro na Venezuela, mas descobriram que nunca seriam pagos.”

Entre os projetos inacabados com a Rússia está a fábrica de fuzis Kalashnikov, que está em construção há anos na cidade de Maracay, no Norte do país. O governo planeja que dali saiam armas para militares e milicianos, mas nada disso foi concretizado até hoje.

A falta de reparo e de peças sobressalentes torna-se um problema particularmente sério para o arsenal mais antigo, como os helicópteros de transporte de fabricação francesa, os Super Puma, ou os caças americanos F-16, que foram adquiridos antes do triunfo da Revolução Bolivariana em 1998.

Avião Tu-160 em CaracasDireito de imagem GETTY IMAGES
Aviões russos Tu-160 fazem parte do arsenal militar da Venezuela

Apoio dos militares a Maduro

Desde que Juan Guaidó desafiou Nicolás Maduro pelo comando do país, a oposição venezuelana vem fazendo repetidos apelos aos militares para retirarem seu apoio ao governante socialista e “se colocarem do lado da Constituição”.

Embora a tropa sofra com a escassez de alimentos e medicamentos e a hiperinflação, assim como o restante dos venezuelanos, as deserções em cascata que parte dos oposicionistas e analistas previram não ocorreram.

Apesar de relatos não confirmados de alegadas prisões em massa de militares descontentes com a administração Maduro, as declarações de lealdade ao “presidente constitucional” são repetidas nas contas de Twitter do Comando Estratégico Operacional das Forças Armadas e do Ministério da Defesa.

Embora muitos considerem, inclusive nos Estados Unidos, que o apoio do alto comando militar a Maduro está se rachando, tais rachaduras não são até agora perceptíveis.

Há razões que explicam o apoio militar ao governo. Observadores apontam que o chavismo é, desde o seu nascimento, um sistema político essencial e originalmente militar.

Seu próprio fundador, Hugo Chávez, era comandante do Exército.

Como escreveu a escritora venezuelana Cristina Marcano em um artigo recente no jornal espanhol El País, “o Exército não apenas apoia o regime; é um fator fundamental do regime”.

Ela lembrou que os militares passaram, quando Hugo Chávez chegou à Presidência, a ocupar os mais altos cargos na administração e nas empresas públicas.

O almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos, disse a um comitê do Senado americano que a Venezuela tem cerca de 2 mil generais, número superior ao de todos os países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) juntos.

Para Faller, “a maioria está a serviço de Maduro” e envolvida em negócios ilícitos, entre os quais tráfico de drogas e contrabando de gasolina, com os quais o líder bolivariano “compra sua lealdade”.

A verdade é que, como acontece em outros países onde a política tem um forte componente militar, como Cuba ou Egito, a instituição acaba controlando grande parte da economia venezuelana.

Quando se tornou presidente, Maduro criou o que chamou de um plano de desenvolvimento de negócios exclusivamente militar, que parecia imitar o modelo do Grupo de Administração de Empresas (Gaesa) em Cuba. Por meio desse sistema, as Forças Armadas cubanas se responsabilizam pela gestão de uma grande parte da arrecadação do Estado que o turismo e outras atividades geram na ilha.

Maduro também colocou um general no comando da principal estatal do país, a PDVSA, que responde por grande parte das receitas das exportações venezuelanas.

Seja sentimental, ideológico ou econômico, os laços do alto comando militar com o presidente foram, por enquanto, mais poderosos do que os chamados de seus rivais para mudar de lado.

Neste sábado, contudo, há notícias de que soldados venezuelanos na fronteira estão abandonando seus postos. Pelo menos três membros da Guarda Nacional teriam cruzado para o lado colombiano.

Soldados da Venezuela em desfileDireito de imagem GETTY IMAGES
Maduro diz que Venezuela pode fazer frente à possível intervenção militar dos EUA

Qual é a capacidade de resistência ante uma intervenção?

Ted Galen Carpenter, especialista em defesa e política exterior do centro de análise Cato Institute, sediado nos Estados Unidos, diz à BBC News Mundo que, “embora existam relatos que sugerem divisão interna, pelo menos algumas unidades combateriam uma intervenção americana.”

Mas qual seria o tamanho dessa resistência? “É isso é o que a inteligência americana certamente está tentando descobrir, mas não é tão fácil”, afirma Carpenter.

Ele alerta que, apesar da esmagadora superioridade dos Estados Unidos, o uso da força para acabar com a crise venezuelana pode custar muito dinheiro e muitas vidas americanas.

Vladimir PadrinoDireito de imagem GETTY IMAGES
Vladimir Padrino é o atual comandante das Forças Armadas da Venezuela

“Ninguém pode enfrentar os Estados Unidos em um confronto aberto, mas Maduro ainda tem um núcleo duro de apoiadores, e o que os venezuelanos podem fazer é uma guerra de guerrilha, o que pode ser muito eficaz”, afirma o especialista.

Declarações como as de Carpenter refrescam a memória dos americanos sobre a guerra do Iraque ou do Vietnã, nas quais o Exército americano sofreu milhares de perdas em sua tentativa de impor uma mudança política.

Mural de Hugo Chávez e soldadoDireito de imagem EPA
Hugo Chávez chegou a posto de tenente-coronel, mas era conhecido como ‘comandante’

O próprio Maduro vem fazendo alusão ao confronto no Vietnã em sua tentativa de dissuadir a Casa Branca de pegar em armas: “A Venezuela se tornaria um Vietnã se um dia Donald Trump enviar o Exército dos EUA para nos atacar”, ameaçou.

Até o momento, o cerco de Washington a Maduro vem sendo estritamente diplomático e Trump, apesar de suas declarações, continua relutante em envolver as tropas americanas em missões no exterior.

Se para muitos o Vietnã foi a eterna guerra dos Estados Unidos, a Venezuela é, por ora, a que nunca começou.

Conexão cubana

Pascal Fletcher, analista da BBC Monitoring

Desde o fracasso do golpe de 2002 contra o falecido presidente Hugo Chávez, tanto ele quanto seu sucessor expurgaram dissidentes do Exército e implantaram um modelo de doutrinação ideológica semelhante ao das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba.

O alto comando militar, liderado pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino, repetem, vez ou outra, alguns slogans que lembram a Cuba de Castro.

“Independencia y Patria Socialista” ou “Viviremos y Venceremos” são apenas alguns deles.

Com Chávez e Maduro, a Venezuela adotou outros elementos típicos da doutrina militar cubana, como a chamada “guerra popular”, pela qual grupos de milicianos se juntariam às forças regulares para responder no caso de um hipotético “ataque imperialista”.

Essa união de “exército e povo” foi experimentada em manobras militares que estão cada vez mais focadas nesse aspecto e nas táticas de guerrilha.

Comentados há anos, os laços militares entre Cuba e Venezuela permanecem envoltos em grande sigilo. Mas a imprensa estatal na ilha se referiu a um atual “acordo técnico militar”, que incluiria a formação de pessoal venezuelano por oficiais cubanos.

Vários analistas indicam que a colaboração de profissionais cubanos no campo da saúde e da educação foi acompanhada por assessores militares e de inteligência. Segundo informações publicadas na imprensa venezuelana, o ministro da Defesa venezuelano tem um assessor cubano.

Pouco depois de declarar-se “presidente interino” da Venezuela, Juan Guaidó afirmou que os cubanos deveriam deixar as Forças Armadas.
BBC

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Americanos e armas de fogo, um caso único

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EUA costumam ser citados por Bolsonaro como modelo a ser copiado. País com maior arsenal de armas do mundo tem legislação que varia conforme o estado e número de mortes que contrasta com outras nações desenvolvidas.

EUA têm mais lojas de armas de fogo do que lanchonetes da rede McDonald’s

Em 2017, em uma viagem a Miami, Estados Unidos, o então deputado federal Jair Bolsonaro visitou uma academia de tiro. Após efetuar alguns disparos contra um alvo, ele disse: “Isso é Estados Unidos, é isso eu quero para o meu Brasil”. Na mesma viagem, ele também visitou uma loja de armas e comparou o Brasil desfavoravelmente aos EUA na questão do acesso e porte de armas. “É por isso que aqui é primeiro mundo”.

No último dia 17 de janeiro, Bolsonaro assinou sua primeira medida oficial para flexibilizar a legislação sobre armas no Brasil: um decreto estabeleceu novas regras para a posse, que garante o direito de possuir uma arma em casa ou no local de trabalho.

Mas ele já deixou claro que também pretende facilitar o porte, ou seja, a possibilidade de circular armado, o que hoje é praticamente proibido, salvo para algumas profissões e casos excepcionais. “Vamos flexibilizar [o porte] também”, disse o presidente em uma entrevista televisiva concedida no início do mês.

Nos EUA, país citado por Bolsonaro e apoiadores como um possível exemplo, as armas são parte prevalente da cultura nacional e a relativa facilidade em adquiri-las e portá-las contrasta com o atual quadro brasileiro.

Armas asseguradas pela Constituição

A posse e o porte de armas nos EUA são protegidos constitucionalmente desde o final do século 18.  A Segunda Emenda à Constituição, que passou a vigorar em 1791, determina: “Uma bem regulamentada milícia sendo necessária para a segurança de um Estado livre, o direito das pessoas de manter e portar armas não deve ser infringido”.

A ambiguidade do texto, no entanto, provocou diferentes interpretações ao longo do tempo. Opositores do comércio e do livre porte de armas apontam que a emenda condicionaria o direito de possuir e portar armas ao pertencimento a uma milícia de autodefesa estadual. Já os defensores da posse e do porte preferem se concentrar na segunda parte para apontar que o direito é assegurado para qualquer cidadão.

A Suprema Corte dos EUA demonstrou concordar com a segunda visão. Em 2008, o tribunal proferiu uma decisão histórica, que entendeu que a Segunda Emenda protege o direito individual de os cidadãos possuírem e portarem armas, e que esse direito não depende da formação de milícias.

A decisão ocorreu após um cidadão do distrito federal de Columbia (onde fica capital do país) ter entrado com uma ação contra uma lei local nos anos 1970 que proibiu que os cidadãos possuíssem e portassem pistolas e obrigava que fuzis e escopetas fossem mantidos com travas no gatilho. Em 2010, a Suprema Corte também estendeu esse entendimento aos 50 estados americanos.

Variações estaduais

As decisões do Supremo em 2008 e 2010 foram marcos para derrubar leis locais e estaduais que proibiam a posse e o porte de armas. No entanto, outras questões relacionadas a armas de fogo, como registro e compra e venda de determinados calibres, continuam a variar bastante dependendo do estado e cidade. Algumas legislações são extremamente liberais. Outras, mais severas.

Em 36 dos 50 estados americanos – entre eles Alabama, Alasca e Flórida – não é preciso nem sequer registrar a arma ou obter uma licença para a posse e o porte. Em 45 estados é totalmente legal exibir armas de cano curto (como pistolas) em público – e em 31 não é necessário uma permissão para isso. Dezenas de estados, como o Texas, também permitem andar exibindo armamento pesado, como fuzis semiautomáticos. Doze estados, entre eles o Mississippi, também permitem o porte oculto de armas sem a necessidade de permissão.

Já a Califórnia proíbe a exibição de fuzis em público – a lei foi assinada em 1967 pelo então governador e futuro presidente Ronald Reagan, que disse à época disse que armas “eram um jeito ridículo de resolver os problemas que afetam o cidadão de bem”. Em 2011, o estado também baniu a exibição de armas de cano curto.

Nove estados também exigem um período de espera para adquirir armas, que podem variar de 24 horas até 14 dias após a apresentação da intenção da compra. Sete estados e o Distrito de Columbia também proíbem a venda de fuzis de assalto.

Leis federais

Desde 1993 uma lei federal tornou obrigatório que lojas de armas verifiquem os antecedentes criminais dos compradores. Quem já foi condenado a um crime com pena superior a um ano não pode comprar uma arma. Também há restrições para pessoas com problemas mentais.

Schusswaffen (picture-alliance/dpa/L.W. Smith)Só sete dos 50 estados americanos baniram a venda de fuzis de assalto

Em 2017, 181 mil pedidos de compra de armas foram negados. Mas a lei federal de 1993 tem uma deficiência: ela não exige a checagem de antecedentes nas vendas entre pessoas físicas. Estima-se que pouco mais de um quinto das transações anuais envolvendo armas nos EUA ocorra entre indivíduos. Apenas 19 estados possuem legislação própria para exigir a checagem nesses casos. Em 2017, uma pesquisa apontou que 22% das pessoas que haviam comprado armas nos dois anos anteriores não passaram por qualquer checagem.

Em meio às disputas violentas entre quadrilhas de gangsteres dos anos 1930, o governo federal também aprovou uma lei para desencorajar a proliferação de armas automáticas – como metralhadoras – entre civis, passando a exigir o registro dessas armas e taxas adicionais. Em 1986, uma lei ainda mais severa baniu a venda de novas armas automáticas.

No entanto, a lei de 1986 estabelece que as armas que foram fabricadas no período anterior à imposição da regra ainda podem ser possuídas e vendidas. Em 2016, o governo americano indicou que 170 mil metralhadoras pré-1986 continuavam registradas nos EUA.

Após o massacre de Las Vegas em 2017, o governo federal também invocou a legislação dos anos 1930 para banir a venda de “bump fire stocks”, equipamentos que podem fazer um fuzil de assalto atirar como uma metralhadora.

Em 1994, o governo federal também impôs uma proibição da venda de fuzis de assalto em todo o país, assim a como a comercialização de carregadores de munição de grande capacidade – o atirador que em 2016 matou 49 pessoas em uma boate de Orlando, por exemplo, usou carregadores que armazenavam 30 projeteis. Só que a medida expirou em 2004. Desde então passou a caber aos estados decidir sobre o tema, mas só sete estados baniram a venda de fuzis de assalto. Apenas nove estados e o distrito de Columbia também proíbem carregadores de alta capacidade.

O maior arsenal por habitante 

Os dados sobre o número de armas em poder de civis nos Estados Unidos variam dependendo da fonte, mas praticamente todas as pesquisas apontam que o país tem o maior arsenal do mundo. A falta da necessidade de registros em vários estados e de um arquivo de dados nacionais acaba dificultando levantamentos precisos.

Em 2018, pesquisa do projeto Small Arms Survey estimou que existem pelo menos 390 milhões de arma de fogo em poder de civis no país – mais de uma por habitante. O projeto apontou ainda que metade das armas de fogo que pertencem a civis no mundo estão nos EUA, apesar da população do país mal alcançar 5% da mundial.

Já uma pesquisa de 2015 que contou com a participação da Universidade de Harvard apontou que existem 265 milhões de armas entre a população. Outro levantamento do instituto Pew de 2018 apontou que 43% dos americanos disseram possuir uma arma ou viver em uma casa onde existe uma.

Curiosamente, Harvard apontou que metade das 265 milhões de armas indicadas em suas pesquisa estão em poder de 3% da população adulta. Neste grupo estão 7,7 milhões de adultos que possuem entre oito e 140 armas.

Em 2017, uma pesquisa Pew mostrou que 67% dos donos de armas citaram “proteção” como razão para possuir armamento. Outros 38%, caça.

Um mercado sempre em alta

Existem mais de 50 mil lojas de armas registradas no país, segundo a agência federal reguladora. O número supera com vantagem a quantidade de lanchonetes da rede McDonald’s espalhadas pelo país (pouco mais de 14 mil). Várias dessas lojas estão instaladas em shoppings. Em alguns estados do país, como a Virgínia Ocidental, existem mais lojas de armas do que museus e bibliotecas. O número é maior se forem considerados colecionadores autorizados a vender armas, lojas de penhores e feiras itinerantes.

Em 2016, 11,5 milhões de armas de fogo foram fabricadas no país – 30 anos atrás, a produção mal passava de 3 milhões.

USA Waffengesetz WaffenbesitzExistem mais de 50 mil lojas de armas no país

O apetite americano por armas também transformou o país em um grande importador. Um levantamento da Bloomberg apontou que três em cada dez armas vendidas são importadas. Em 2016, 5,1 milhões de armas estrangeiras chegaram ao mercado americano. Entre as maiores exportadoras esta a brasileira Taurus, que vendeu mais de 700 mil armas nos EUA naquele ano. A brasileira só fica atrás a austríaca Glock, que vendeu 1,2 milhão.

O preço das armas é um forte incentivo para a compra no país. Em feiras de armas um fuzil de assalto novo pode custar apenas 450 dólares, mais barato que um smartphone da Apple. Um modelo de revólver da Taurus que não sai por menos de 3 mil reais no Brasil – e que pode sair ainda mais caro por causa do processo de registro – custa metade do preço em reais nos EUA.

Pesquisa Pew de 2007 apontou que sete em cada dez adultos americanos declarou já ter atirado com arma de fogo, incluindo os que não possuem armas.

Mortes que contrastam com países ricos

Os EUA são o segundo país com o maior número de mortes por arma de fogo do mundo – atrás apenas do Brasil. Em 2016, foram 38 mil. A proporção de mortes causadas por armas de fogo no país em 2016 foi de 12 por 100 mil habitantes, segundo o Departamento de Saúde Americano.

Nenhuma outra nação desenvolvida tem uma proporção tão alta. No mesmo ano, a da Alemanha foi de 0,9. A do Japão, 0,2. A proporção americana é semelhante à de países como República Dominicana e Paraguai.

Waffenhandel in den USA (picture-alliance/AP Photo/D.J. Phillip)Em 45 estados é legal exibir armas de cano curto em público

Mais da metade (59%) das mortes por arma de fogo nos EUA em 2016 consistiu em suicídios. Uma parcela pequena (2%) foi causada por acidentes com armas. O restante, homicídios. No Brasil, os homicídios representaram 94,8% das mortes por arma de fogo em 2014.

A taxa de suicídios por 100 mil habitantes dos EUA é a 30° do mundo, mas em relação à preferência por armas como meio para se matar, o país aparece em 2° lugar, apenas atrás da Groenlândia.

Defensores de armas nos EUA costumam propagandear que elas são necessárias para a autodefesa. Mas dados de 2017 nos EUA mostram que para cada “homicídio justificável” com arma de fogo por um cidadão em autodefesa, ocorrem 34 homicídios com intenção criminosa – e mais de 70 suicídios.

As armas de fogo são o instrumento preferencial de homicidas nos EUA. Elas foram usadas em 72% dos homicídios registrados no país em 2017. No Brasil, a proporção foi de 71,7% em 2016. Apesar disso, o número de homicídios por arma de fogo nos EUA é menor do que algumas décadas atrás. Em 1981, a taxa foi de 6,6 por 100 mil habitantes. Em 2016, foi de 3,44.

Os dez estados que lideram o número de mortes por arma de fogo no país também possuem algumas das legislações mais frouxas de controle. Entre eles estão o Alabama e o Mississippi. Já Nova York, que tem uma legislação rígida, tem uma das menores incidências do país.

A ocorrência regular de chacinas por armas de fogo nos EUA também contrasta com outros países desenvolvidos. Segundo levantamento do jornal Washington Post (WP), ocorreram 161 massacres no país com mais de quatro vítimas desde 1966, quando um estudante armado matou 16 pessoas na Universidade do Texas em Austin. O total de vítimas nesses episódios foi 1.148 pessoas – incluindo 189 crianças e adolescentes.

Waffen USA Verkauf Verschärfung der Waffengesetze 2013 (picture-alliance/Landov)Apetite americano por armas transformou o país em um grande importador.

A pesquisa exclui disputas de gangues, assaltos violentos e assassinatos envolvendo brigas domésticas. O mais recente ocorreu no dia 23 de janeiro, quando cinco mulheres foram mortas por um funcionário de um banco na Flórida.

WP também apontou que 308 armas foram encontradas em poder dos atiradores nesses 161 massacres. Destas, pelo menos 172 foram compradas legalmente. Em vários casos, os mecanismos de checagem falharam em apontar que os compradores tinham histórico de problemas mentais.

Opinião pública

A opinião dos americanos sobre a venda, posse e porte de armas de fogo é complexa e varia conforme o tipo de armamento e proposta de controle. O país também já foi menos apaixonado por armas. Uma pesquisa do instituto Gallup de outubro de 2018 mostrou que 61% desejam leis mais rígidas para venda de armas. Outros 30% afirmam que as atuais são suficientes e 8% desejam legislação mais liberal. Quase 60% dos americanos também afirmaram que estão insatisfeitos com a atual legislação sobre armas e 51% querem mais leis sobre o tema. Três em cada quatro também são favoráveis a um período de espera de 30 dias para compra e 70% desejam que todas as armas sejam registradas junto à polícia.

Por outro lado, apenas 28% concordam com uma proibição de armas de cano curto (como pistolas) para civis. Outros 71% são contra tal proposta.  Quando o assunto envolve armas semiautomáticas, como fuzis de assalto, 40% se mostraram favoráveis à proibição da fabricação e posse, enquanto 57% são contra. Em 1959, 60% dos americanos eram favoráveis à proibição da venda de armas de cano curto para civis e, em 1990, 78% desejavam leis mais rígidas.
DW

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USA: parlamentares criticam aproximação com governo Bolsonaro

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Pompeo representou a Casa Branca na cerimônia de posse de Bolsonaro – Marcos Corrêa/PR
Em carta a secretário de Estado, parlamentares dos EUA criticam aproximação do governo com Bolsonaro

“Sugerimos fortemente que você [Pompeo] não lustre o comportamento de Bolsonaro, mas sim levante objeções em público e de forma privada contra suas ações recentes”, dizem os democratas, cobrando que o secretário “fique ao lado do povo do Brasil”

Um grupo de congressistas democratas do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA enviou uma carta ao secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, questionando a aproximação do governo com o presidente Jair Bolsonaro.

Em documento publicado nesta quarta-feira (09/01), o grupo liderado pelo deputado Eliot Engel afirmou que Pompeo deveria ter condenado publicamente as “recentes ações que tiveram como alvo as comunidades LGBT, indígena e afro-brasileira“.

“Observamos com grande interesse sua recente visita ao Brasil para a posse do presidente Jair Bolsonaro, que, em seus primeiros dias no cargo, adotou diversas ações que miram grupos marginalizados, particularmente LGBTs, indígenas e afro-brasileiros”, diz a carta.

Se dirigindo ao secretário de Estado, o grupo de parlamentares norte-americanos afirma que ficou perplexo “que, após o seu encontro com o presidente Bolsonaro, um comunicado do Departamento de Estado explicou que o senhor ‘reafirmava a forte parceria entre EUA e Brasil, enraizada no nosso compromisso comum com a democracia, educação, prosperidade, segurança e direitos humanos’. Não está claro que o presidente Bolsonaro compartilhe desses valores”.

O texto ainda faz menção à decisão do governo de retirar a comunidade LGBT das diretrizes do Ministério dos Direitos Humanos e de confiar a demarcação de terras indígenas e quilombolas ao Ministério da Agricultura.

“Ficou imediatamente claro que declarações preocupantes do presidente Bolsonaro sobre direitos humanos não estão mais restritas à retórica”, acrescenta a carta. “É essencial que os Estados Unidos continuem a defender a natureza universal dos direitos humanos, manifestando-se quando os direitos de qualquer grupo marginalizado sejam postos em risco”.

“Sugerimos fortemente que você [Pompeo] não lustre o comportamento de Bolsonaro, mas sim levante objeções em público e de forma privada contra suas ações recentes”, dizem os democratas, cobrando que o secretário “fique ao lado do povo do Brasil” e mantenha seu “compromisso com os direitos humanos”

Todos os membros do grupo são do Partido Democrata, que faz oposição ao presidente Donald Trump. Pompeo representou a Casa Branca na cerimônia de posse de Bolsonaro, em 1º de janeiro, e disse que os EUA querem “estreitar relações com o Brasil”.
OperaMundi

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A verdade sobre a presença Norte Americana na África

USA,África,Blog do MesquitaO general da Marinha e comandante do Comando dos EUA na África, Thomas D. Waldhauser, fala à imprensa no Pentágono, em 10 de maio de 2018. Imagem: Pablo Matinez Monsivais/AP

OS MILITARES NORTE-AMERICANOS insistem há muito tempo que mantêm uma “leve presença” na África. Também existem relatos de propostas de retirada de forças de operações especiais e encerramento de atividades de tropas no continente, devido a uma emboscada ocorrida em 2017 no Níger e a um crescente foco em rivais como a China e a Rússia. Mas, em meio a tudo isso, o Comando dos Estados Unidos na África (Africom) falhou em fornecer informações concretas sobre suas bases no continente, deixando em aberto a pergunta sobre quais seriam as reais dimensões da atuação americana.

No entanto, documentos da Africom obtidos pelo Intercept através da Lei de Liberdade de Informação oferecem uma brecha única para a extensa rede de destacamentos militares americanos na África, incluindo locais previamente secretos ou não confirmados em pontos cruciais como a Líbia, o Níger e a Somália. O Pentágono diz que as reduções de tropas na África serão modestas e realizadas ao longo de vários anos e que nenhum destacamento será fechado como resultado de cortes de pessoal.

De acordo com um briefing elaborado em 2018 por Peter E. Teil, conselheiro científico da Africom, a constelação de bases militares inclui 34 locais espalhados pelo continente, com grandes concentrações no norte e no oeste, assim como no Chifre da África. Essas regiões, não surpreendentemente, também foram alvos de diversos ataques de drones americanos e ataques de infantaria de menor impacto nos últimos anos. Por exemplo, a Líbia – alvo de missões de infantaria e ataques de drones, mas para a qual o presidente Trump disse não ver nenhum papel dentro das forças armadas americanas no ano passado – é local de três postos militares até então não revelados.

“O plano de posicionamento do Comando dos EUA na África é feito para garantir acesso estratégico a locais-chave em um continente caracterizado por grandes distâncias e infraestrutura limitada”, disse o general Thomas Waldhauser, comandante da Africom, ao Comitê das Forças Armadas do Congresso neste ano, embora sem fornecer dados precisos sobre o número de bases. “Nossa rede de posicionamento permite encaminhar testes de tropas para fornecer flexibilidade operacional e respostas adequadas a crises envolvendo cidadãos ou os interesses americanos sem passar a ideia de que o Africom está militarizando a África.”

Segundo Adam Moore, professor assistente de geografia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e especialista na atuação militar americana na África, “está ficando mais difícil para os militares americanos afirmarem plausivelmente que têm uma ‘leve presença’ na África. Só nos últimos cinco anos, foi estabelecido o que talvez seja o maior complexo de drones do mundo no Djibuti – Chabelley – que está envolvido em guerras em dois continentes, no Iêmen e ainda na Somália.” Moore também apontou que os Estados Unidos estão construindo uma base de drones ainda maior em Agadez, no Níger. “Certamente, para pessoas vivendo na Somália, no Níger e no Djibuti, a noção de que os EUA não estão militarizando seus países soa muito falsa”, disse.

Nos últimos 10 anos, o Africom não apenas buscou definir sua presença como sendo de dimensões limitadas, mas também como se seus postos fossem pequenos, temporários, pouco além de bases locais onde soldados americanos não passam de inquilinos. Um exemplo disso é como o general Waldhauser descreveu um posto secreto de drones na Tunísia no ano passado: “E não é uma base nossa, é dos tunisianos”. Em visita a instalações americanas no Senegal recentemente, o chefe do Africom empenhou-se para enfatizar que os Estados Unidos não tinham intenção de estabelecer uma base permanente ali. Ainda assim, não há dúvidas sobre a dimensão da rede de postos do Africom ou de seu crescimento em infraestrutura. A Air Forces Africa sozinha, o componente de comando aéreo, recentemente concluiu ou está trabalhando em cerca de 30 projetos de construção em 4 países da África. “A atuação dos EUA no continente africano cresceu notoriamente na última década para promover interesses de segurança americanos no continente”, disse ao Intercept a comandante da Marinha Candice Tresch, porta-voz do Pentágono.

Enquanto China, França, Rússia e Emirados Árabes aumentaram seu próprio envolvimento militar na África nos últimos anos e vários outros países agora possuem postos no continente, nenhum atingiu o tamanho da presença americana. A China, por exemplo, possui apenas uma base na África – uma instalação no Djibuti.

De acordo com os documentos obtidos pelo Intercept através da Lei de Liberdade de Informação, a rede de bases do Africom inclui postos “permanentes” maiores, consistindo em locais operacionais avançados (FOS, na sigla em inglês) e unidades de segurança cooperativa (CLS, na sigla em inglês), assim como diversos outros recintos austeros conhecidos como locais de contingência (CL na sigla em inglês). Todos eles estão localizados no continente africano, com exceção de um FOS na Ilha de Ascensão, pertencente à Grã-Bretanha, no sul do Atlântico. O mapa de Teil do “Posicionamento Estratégico” do Africom nomeia os locais específicos de todos os 14 FOSs e CSLs e fornece localização específica em cada país para os 20 locais de contingência. O Pentágono, porém, não afirmou se o registro era completo, citando preocupações sobre fornecer publicamente os números de forças implantadas em postos específicos ou países em particular. “Por razões de segurança operacional, relatos completos do estabelecimento de forças específicas não são divulgáveis”, disse Tresch.

Como tropas e destacamentos vêm e vão periodicamente do continente, e alguns locais utilizados por forças de infantaria conduzindo missões complexas são provavelmente mantidos em segredo, o mapa de Teil representa o registro mais atualizado e completo disponível e indica as áreas do continente de maior preocupação para o Africom. “A distribuição de bases sugere que as forças armadas dos Estados Unidos estão organizadas em torno de três palcos do contraterrorismo na África: o chifre da África – Somália, Djibuti, Quênia e Líbia; e o Sahel – Camarões, Chade, Níger, Mali e Burkina Fasso”, disse Moore, da UCLA, observando que os EUA só possuem uma base no sul do continente e reduziu seu envolvimento no centro da África nos últimos anos.

USA,África,Blog do MesquitaO “Posicionamento Estratégico” do Comando dos EUA na África – listando 34 destacamentos militares – de um briefing de 2018 apresentado pelo Conselheiro Científico Peter E. Teil. O “Posicionamento Estratégico” do Comando dos EUA na África – listando 34 destacamentos militares – de um briefing de 2018 apresentado pelo Conselheiro Científico Peter E. Teil. Imagem: U.S. Africa Command

Níger, Somália e Quênia
O briefing de Teil confirma pela primeira vez que os militares americanos possuem atualmente mais postos no Níger – cinco, incluindo duas unidades de segurança cooperativa – do que qualquer outro país no lado oeste do continente. Niamey, a capital do país, é onde se localiza a Base Aérea 101, um posto americano de drones já antigo anexado ao Aeroporto Internacional Diori Hamani; o local de uma Base Avançada de Operações da força de Operações Especiais; e a central da África Ocidental para serviços de recuperação de pessoal e de evacuação de acidentes fornecidos pelo Africom. A outra CSL, no remoto centro de contrabando de Agadez, está estabelecida para se tornar o principal destacamento militar americano na África Ocidental. A base de drones localizada na Base Aérea Nigerina 201 não apenas ostenta um valor de construção de 100 milhões de dólares mas, contando com as despesas de operação, deve custar aos contribuintes americanos mais de 25 bilhões de dólares até 2024, quando o contrato de uso de 10 anos acabar.

Oficialmente, a CSL não é “nem uma instalação, nem uma base americana”. Ela é, de acordo com os militares, “apenas uma unidade que, quando necessário e com a permissão do país parceiro, pode ser utilizada pelos americanos para apoiar uma gama de contingências”. A dimensão, o custo e a importância totais de Agadez parecem sugerir o contrário. “Julgando pelo seu tamanho e pelos investimentos de infraestrutura até o momento, Agadez parece mais com as enormes bases que os militares criaram no Iraque e no Afeganistão do que com pequenas e discretas ocupações”, disse Moore.

A presença dos militares norte-americanos no Níger ganhou grande exposição no ano passado quando, em 4 de outubro, uma emboscada do ISIS na região do Grande Saara, próximo à fronteira com o Mali, matou quatro soldados americanos, incluindo os “boinas verdes” (membros das forças especiais), e feriu outros dois. Uma investigação do Pentágono sobre o ataque ajudou a jogar a atenção para outros importantes locais de presenta militar dos EUA no Níger, incluindo Ouallan e Arlit, onde forças das Operações Especiais (SOF, na sigla em inglês) realizaram ações em 2017, e Marandi, para onde as SOF foram enviadas em 2016. Arlit também apareceu como um possível local de contingência em um plano de posição do Africom, anteriormente secreto, obtido pelo Intercept. Ouallan, que estava listado em contratos trazidos a público pelo Intercept no ano passado, foi o local de uma força-tarefa das SOF para treinar e equipar uma companhia nigerina antiterrorismo, e também em outro para conduzir operações com unidades locais. Documentos de contratação de 2017 também mostraram a necessidade de mais de 16 mil litros de gasolina, cerca de 4,1 mil de diesel e quase 23 mil litros de combustível para aviação por mês a serem entregues a cada 90 dias em uma “instalação militar” em Dirkou.

Enquanto as cinco bases no Níger ancoram o oeste do continente, os cinco postos na Somália comandam no leste. A Somália é o centro dos serviços de recuperação e de evacuação de pessoal por parte de empresas contratadas, bem como é o nó principal para as operações de recuperação e evacuação de pessoal do próprio Exército. Estes locais, revelados nos mapas do Africom, pela primeira vez, não incluem uma base da CIA revelada em 2014 pelo The Nation.

Todas as instalações militares dos EUA na Somália, por serem locais de contingência, não são nomeadas no mapa do Africom de 2018. Anteriormente, Kismayo foi identificado como um importante local enquanto os nomes do plano de posicionamento do Africom de 2015 propunham CLs em Baidoa, Bosaaso, na capital, Mogadíscio e também em Berbera, no estado separatista da Somalilândia. Se o mapa de Teil estiver correto, um dos locais somalis fica nesta região. Reportagens da Vice News no início deste ano indicaram que havia seis novas instalações americanas sendo construídas na Somália, assim como a expansão de Baledogle, uma base para a qual um contrato de “reparos de pista de emergência” foi recentemente submetido.

De acordo com os documentos confidenciais obtidos pelo Intercept em 2015, tropas de elite de uma unidade conhecida como Força-Tarefa 48-4 estavam envolvidas em ataques de drones na Somália no início desta década. Essa guerra aérea continuou nos anos seguintes. Conforme a Foundation for Defense of Democracies (Fundação para a Defesa de Democracias), os Estados Unidos já conduziram 36 ataques aéreos na Somália somente neste ano comparados aos 34 em todo o ano de 2017, e 15 em 2016.

O vizinho da Somália, o Quênia, ostenta quatro bases americanas. Estas incluem unidades de segurança cooperativa em Mobasa e Manda Bay, onde um estudo do Pentágono de 2013 sobre operações secretas de drones na Somália e no Iêmen mostrou que duas aeronaves tripuladas tinham aquele local como base. O plano de posicionamento do Africom de 2015 também menciona unidades de contingência em Lakipia, local de uma base da Força Aérea Queniana, e outro campo de aviação queniano em Wajir, que passou por melhorias e foi expandido pela Marinha dos EUA no início da década.

Líbia, Tunísia e Djibuti
O mapa de Teil mostra um grupo de três locais de contingência não nomeados e anteriormente secretos próximos ao litoral líbio. Desde 2011, os Estados Unidos levaram a cabo cerca de 550 ataques com drones contra militantes da Al Qaeda e do Estado Islâmico na fechada nação do norte africano. Durante um período de quatro meses em 2016, por exemplo, houve aproximadamente 300 ataques desse tipo, segundo oficiais americanos. Esse número é sete vezes maior que os 42 ataques com drones confirmados pelos Estados Unidos na Somália, Iêmen e Paquistão somados, em todo o ano de 2016, de acordo com dados compilados pelo Bureau of Investigative Journalism, uma organização noticiosa sem fins lucrativos sediada em Londres. Os ataques na Líbia continuaram no governo Trump, com o mais recente episódio reconhecido pelos EUA tendo ocorrido perto de Al Uwaynat em 29 de novembro. O plano de posicionamento do Africom em 2015 listava apenas um posto em Al-Wigh, um campo de pousos no Saara próximo à fronteira com Níger, Chade e Argélia, localizado bem ao sul dos três CLs atuais.

O mapa do Africom também mostra um local de contingência na vizinha Tunísia, possivelmente a Base Aérea Sidi Ahmed, um posto-chave de drones mantidos pelos EUA na região, que teve um papel importante nos ataques à Líbia dos últimos anos. “Como se sabe, usar drones de inteligência, vigilância e reconhecimento a partir da Tunísia é algo que vem acontecendo há algum tempo”, disse Waldhauser, o comandante do Africom, no ano passado. “Nós voamos lá, não é segredo, mas respeitamos muito os desejos dos tunisianos em termos de como nós os apoiamos e o fato de que mantemos um perfil baixo…”

Djibuti é onde fica a menina dos olhos dos EUA no continente, a base de Camp Lemmonier, um antigo posto da Legião Estrangeira Francesa e o único local de operações avançadas do Africom. Um centro de longa data para operações antiterrorismo no Iêmen e na Somália e lar da Força-Tarefa Conjunta-Chifre da África (CJTF-HOA, na sigla em inglês), o Camp Lemmonier recebe cerca de 4 mil soldados norte-americanos e aliados e, segundo Teil, é a “principal plataforma” dos EUA para resposta a crises na África. Desde 2002, a base foi ampliada de 35 para quase 243 hectares e gerou um posto-satélite – um local de segurança cooperativa 10 quilômetros ao sudoeste, para onde as operações com drones no país foram levadas em 2013. O campo de pousos Chabelley tornou-se desde então uma base integral para missões na Somália e no Iêmen, e também na guerra de drones contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. “Os militares dos Estados Unidos continuam mobilizados no Djibuti, inclusive por razões de posicionamento para operações antiterrorismo e antipirataria nos arredores do Chifre da Ásia e da Península Arábica, bem como oferecer apoio de contingência no aumento de segurança das embaixadas no Leste Africano”, assinalou o presidente Donald Trump em junho.

Um mapa das bases dos EUA – locais de operação avançada, de segurança cooperativa e de contingência – no continente africano, encontrados nos documentos de planejamento do Africom para o ano fiscal de 2015. Um mapa das bases dos EUA – locais de operação avançada, de segurança cooperativa e de contingência – no continente africano, encontrados nos documentos de planejamento do Africom para o ano fiscal de 2015. Imagem: U.S. Africa CommandUSA,África,Blog do Mesquita 3

Camarões, Mali e Chade
O posicionamento estratégico do Africom inclui ainda dois locais de contingência em Camarões. Um deles é um posto no norte do país, conhecido como CL Garoua, utilizado em missões com drones e também como uma base para a Força-Tarefa Darby do Exército, que apoia tropas camaronesas que combatem o grupo terrorista Boko Haram. O Camarões também sedia um antigo destacamento em Douala, além de instalações dos EUA em Maroua e uma base próxima conhecida como Salak, também usada por militares americanos e funcionários terceirizados para missões de treinamento e vigilância com drones. Em 2017, a Anistia Internacional, a firma de pesquisas londrina Forensic Architecture, e o Intercept revelaram prisões ilegais, torturas e assassinatos cometidos por tropas camaronesas em Salak.

No vizinho Mali, há dois locais de contingência. O plano de 2015 do Africom lista propostas de CLs em Gao e na capital do Mali, Bamako. O mapa de 2018 também aponta a existência de um CSL na capital do Chade, N’Djamena, um local onde os EUA começaram a utilizar drones no início desta década; também é o quartel-general de um Elemento de Controle e Comando de Operações Especiais, que coordena um batalhão de elite. Outro local de contingência não-identificado no Chade poderia estar em Faya Largeau, um CL mencionado no plano de 2015 do Africom.

No Gabão, um local de segurança cooperativa existe em Libreville. No ano passado, tropas dos EUA promoveram um exercício na região para testar sua capacidade de transformar o CSL de Libreville em um posto de comando avançado para facilitar o influxo de um grande número de soldados. Um CSL também pode ser encontrado em Acra, Gana, e outro CSL está localizado em um pequeno complexo na Base Aérea Capitão Andalla Cissé em Dacar, no Senegal. “Esse local é muito importante para nós porque ajuda a mitigar questões de tempo e espaço em um continente do tamanho da África”, disse o comandante Waldhauser em uma visita à capital senegalesa no início deste ano.

Apenas uma base fica no sul do continente, um CSL na capital de Botsuana, Gaborone, que é mantida pelo Exército. Ao norte, o CSL Entebbe em Uganda tem sido uma base aérea importante há muito tempo para as forças americanas na África, servindo como uma central para aeronaves de vigilância. Ela também se mostrou integral para a Operação Oaken Steel, uma rápida mobilização de tropas ocorrida em julho de 2016 para resgatar equipes americanas após conflitos se iniciarem perto da Embaixada Americana em Juba, no Sudão do Sul.

“Aumentamos o poder de fogo”
Em maio, respondendo a questionamentos sobre as medidas tomadas após a emboscada de outubro de 2017 no Níger, Waldhauser falou sobre fortificar a atuação dos EUA no continente. “Eu não vou entrar em detalhes, mas nós aumentamos o poder de fogo, aumentamos a capacidade de vigilância, inteligência e reconhecimento, e melhoramos nossos tempos de resposta”, disse o comandante. “Nós encorpamos muitas coisas em relação à nossa posição com essas forças”. Esse poder de fogo inclui drones. “Estamos nos armando no Níger, e vamos usar isso conforme necessário”, afirmou Waldhauser no meio deste ano, fazendo referência à presença de aeronaves pilotadas remotamente, agora baseadas na região.

O Africom não respondeu aos vários pedidos para uma entrevista com Waldhauser.

Após meses de relatos que o Departamento de Defesa estava considerando uma grande redução nas forças de Operações Especiais na África, além do fechamento de postos militares na Tunísia, Camarões, Líbia e Quênia, o Pentágono agora diz que menos de 10% dos 7,2 mil militares do Africom serão retirados nos próximos anos, e que nenhuma base será fechada por conta disso. De fato, a construção de bases nos EUA vive um boom. Auburn Davis, porta-voz da Air Forces Africa, disse que a Força Aérea recentemente completou 21 projetos no Quênia, Tunísia, Níger e Djibuti, e ainda tem sete outros em andamento no Níger e no Djibuti.

“A proliferação de bases no Sahel, na Líbia e no Chifre da África sugere que as missões antiterrorismo do Africom nessas regiões do continente vão continuar indefinidamente”, disse Adam Moore, da UCLA. Horas após Moore tecer seus comentários, o Pentágono anunciou que seis empresas haviam sido escolhidas para um contrato de até cinco anos e 240 milhões de dólares para desenhar e construir instalações navais na África, começando pela expansão da pista no Camp Lemmonier, no Djibuti.
Nick Turse/TheIntercept

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Por trás da guerra comercial entre China e EUA, uma disputa pela liderança tecnológica mundial

Trump e Jinping em Pequim: guerra comercial e tecnologia
Foto Shealah Craighead/White HouseJinping,Trump,China,USA,Economia,Política Internacional

Se há de se manter a paz, entretanto, é necessário entender que é possível travar política internacional e construir um mundo de ganhos mútuos em que os avanços de uns não venham necessariamente a custo do prejuízo de outros

No início do mês, a diretora financeira da Huawei, gigante chinesa de telecomunicações que recentemente se tornou a segunda maior fabricante de celulares do mundo, foi presa no Canadá a pedido da polícia estadunidense sob alegações de ter participado ativamente de transações que violam sanções dos Estados Unidos contra o Irã. A detenção de Meng Wanzhou, que em breve deve ser deportada aos EUA e, se condenada, pode enfrentar décadas atrás das grades, se deu na mesma noite em que Donald Trump e Xi Jinping se reuniam em Buenos Aires, durante o encontro da cúpula do G20 na capital argentina, e concordavam com uma trégua de 90 dias na guerra comercial que marca as relações entre chineses e estadunidenses desde o princípio de 2018. Em resposta, o governo chinês já deteve dois canadenses – um ex-diplomata e um escritor – e alertou para a possibilidade novas retaliações aos envolvidos caso a executiva não seja liberada. Analistas agora temem que o caso possa desfazer o acordo feito na Argentina e alimentar as hostilidades no comércio entre Washington e Pequim.

Se por um lado, porém, a preocupação por parte de agentes do mercado, políticos e especialistas quanto à guerra comercial sino-estadunidense é compreensível, o conflito, por outro, é apenas uma face do fenômeno maior, este sim protagonista das recentes narrativas que marcam as interações entre os dois países, evidenciado pela prisão de Meng em Vancouver – uma feroz disputa pela liderança tecnológica mundial entre Estados Unidos e China. Por trás das repetidas alegações estadunidenses de que os chineses abusam do sistema internacional ao adotar práticas injustas de desenvolvimento, há a clara percepção de que uma China em plena ascensão ameaça a dominância militar e econômica de Washington, cujo eixo é justamente a dianteira tecnológica global ocupada pelos norte-americanos há quase um século, e que, portanto, é preciso combatê-la. Tarifas a importados chineses nos Estados Unidos são parte deste esforço, mas não o quadro completo da ofensiva dos norte-americanos contra Pequim.

Há alguns anos, boa parte das políticas de modernização da base industrial chinesa vem sofrendo frequentes ataques de Washington. O caso mais recente e notório é o do Made in China 2025, um plano que busca preparar a indústria chinesa para ascender ao topo das cadeias internacionais de valor sob o contexto da quarta revolução industrial. Em 2017, a Câmara Americana de Comércio lançou um relatório em que relata preocupação com aquisições de empresas e propriedade intelectual estadunidense estimuladas pelo plano por parte de corporações chinesas. Já neste ano, uma delegação de oficiais de governo dos Estados Unidos enviada a Pequim defendeu não somente a correção do desequilíbrio comercial entre os dois países, mas também – e principalmente – o próprio abandono do Made in China 2025 por parte do governo chinês. Para os oficiais, o plano possibilita que corporações chinesas compitam injustamente em mercados internacionais e eventualmente dominem indústrias estratégicas em muitos casos hoje dominadas por empresas dos EUA.

Concomitantemente, o ambiente político e econômico nos Estados Unidos tem se tornado crescentemente hostil a empresas chinesas de tecnologia de ponta. Em janeiro deste ano, legisladores estadunidenses pediram que a AT&T, uma das principais prestadoras de serviços de telecomunicação do país, cortasse relações comerciais com a Huawei por questão de segurança nacional. Em junho, o Senado dos EUA votou a favor do restabelecimento de sanções que proibiriam a ZTE, outra grande empresa chinesa das telecomunicações, de adquirir ou se utilizar de qualquer tecnologia estadunidense – sanção essa que só seria revertida um mês depois, após quase levar a ZTE à falência. Em agosto, o presidente Trump assinou um decreto que proíbe o uso de equipamentos das duas empresas por qualquer agente de governo dos Estados Unidos, assim como por qualquer empresa que mantenha contratos com Washington.

Frente às novas desconfianças, os volumosos investimentos chineses em empresas de tecnologia estadunidenses também passaram a enfrentar um momento de amplas dificuldades. Alinhando-se às alegações de que o governo da China se utilizaria de investimentos e aquisições internacionais para ter acesso facilitado a tecnologias sensíveis, a administração Trump enrijeceu sensivelmente o processo de análise de propostas de compra ou participação acionária em corporações detentoras de tecnologia avançada no país por parte do gigante asiático. Somente neste ano, um grande número de transações internacionais valendo centenas de bilhões de dólares foram bloqueadas por autoridades estadunidenses, incluindo a tentativa da Broadcom, empresa de Cingapura com relações próximas a Pequim, de adquirir a Qualcomm e a XCerra por uma subsidiária do Sino IC Capital, fundo de investimentos estatal chinês.

A China, por sua vez, tem feito mais que assistir passivamente ao avanço estadunidense contra seus interesses. Para além de revidar, ao longo do ano, às crescentes tarifas de Washington com taxações também aos importados dos Estados Unidos na China, Pequim ainda declarou recentemente através de Zhong Shang, seu Ministro do Comércio, que o gigante asiático não pretende ceder às exigências político-econômicas dos Estados Unidos mesmo que a administração Trump siga estabelecendo limites ao comércio entre as duas nações. Já no último dia 10, uma corte chinesa baniu a venda no país de modelos antigos do iPhone, principal produto da estadunidense Apple, devido a supostas infrações de propriedade intelectual da empresa norte-americana. Em artigo sobre o tema, o estatal Global Times afirma que a decisão, apesar de nada ter a ver com a detenção pouco mais de uma semana antes de Meng Wanzhou no Canadá, demonstra que a China também é capaz de pressionar as gigantes tecnológicas dos Estados Unidos.

Pequim, entretanto, já declarou em repetidas oportunidades querer o fim do tensionamento de suas relações com Washington, chegando até mesmo a recalibrar seus discursos oficiais de modo a combater a percepção das aspirações modernas da China como ameaças aos estadunidenses. O novo episódio envolvendo a executiva da Huawei, porém, aponta para as dificuldades em conciliar os interesses de uma potência estabelecida e de outra em ascensão em um mundo de muitos que ainda veem a unipolaridade com única opção. É de se esperar que chineses sigam traçando seu caminho rumo a seus anseios, assim como que estadunidenses sigam defendendo seus interesses frente a quaisquer fatores tido como riscos. Se há de se manter a paz, entretanto, é necessário entender que é possível travar política internacional e construir um mundo de ganhos mútuos em que os avanços de uns não venham necessariamente a custo do prejuízo de outros. Caso contrário, a guerra comercial entre Pequim e Washington poderá ser somente o primeiro dos muitos estágios de uma corrida cuja alto preço será pago por todos nós.