“Só as polícias não darão conta das duas facções”, diz ex-líder do Comando Vermelho

Ex-traficante, agora pastor, prevê mais mortes nas cadeias e reflexo nas ruas com fim de pacto

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Quem assiste o pastor Aldidudima Salles, 53, pregando o evangelho com uma bíblia debaixo do braço não imagina que ele participou da fuga mais ousada da história do sistema carcerário brasileiro.

Em 31 de dezembro de 1985, ele, então conhecido como Ligeirinho, uma das lideranças do Comando Vermelho, estava no helicóptero que pousou no pátio do presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, para resgatar José dos Carlos Reis Encina, vulgo Escadinha, fundador da organização.
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Fora do crime e convertido há 31 anos, Salles, que admite ter cometido mais de 26 homicídios e diz ter comandado mais de 6.000 traficantes no Rio de Janeiro, é taxativo ao falar sobre o fim da paz entre o Primeiro Comando da Capital e o CV, desencadeada após rebeliões em presídios no domingo: “Vai haver guerra”, disse ele, que sugeriu que as ações das polícias podem ser insuficientes para conter a reverberação do problema.

A frase soa dramática, mas não é muito distinta da dita pelo secretário da Administração Penitenciária de São Paulo, Lourival Gomes, que disse ao site G1 nesta terça-feira que “a guerra recomeçou” _ainda que tenha frisado que, à diferença de outros Estados, não há “nenhuma insegurança” em São Paulo.
Pergunta. Você acha possível que o Comando Vermelho e o PCC retomem seu pacto de aliança?

Resposta. É difícil um acordo a essa altura, a não ser que os chefões das duas facções tentem controlar isso. Mas é difícil haver um acordo depois das mortes que ocorreram nos presídios de Roraima e Rondônia. Ainda mais naquelas circunstâncias [dia de visita, considerado o mais importante para os presos].

P. O que pode ter causado o rompimento?

R. Quando aconteceu a morte do rei da fronteira, o Rafaat [Jorge Rafaat Toumani, traficante assassinado em Juan Caballero, fronteira do Brasil com Paraguai, em junho deste ano], eu comentei que aquilo não ia dar boa coisa. Ele foi morto pelo PCC e pelo CV [há versões de que foi apenas o PCC que atuou na ação e outra de que foi uma ação conjunta, com posterior batalha pelo domínio da rota deixada pelo traficante]. É experiência de ter vivido dentro de uma facção. Eu acho que romperam por luta de poder: o CV não aceita receber ordem. O PCC idem. Então deve ter havido essa separação por um querer mandar mais que o outro. E no final de contas, o dinheiro sempre fala mais alto.

P. O que deve acontecer agora?

R. Eu acredito que não vai ficar barato, que vai ter uma guerra. Se o Governo Federal não colocar o Exército na rua, não vai ter jeito. Só as policias civil e militar dos Estados não dão conta de lidar com duas facções desse porte, com esse tipo de armamento que eles têm. E muita gente vai morrer.

P. E a situação das cadeias, você acha que acontecerão mais mortes?

R. Não acho, tenho certeza de que terão mais mortes nas cadeias. Se a Justiça não abrir o olho para controlar agora, pode ser que amanhã seja tarde.

P. Você mencionou o Rafaat. Na sua época de CV as conexões internacionais já eram importantes para o tráfico?

R. Naquela época as conexões internacionais já eram fundamentais. A droga entrava pelas fronteiras, Colômbia, Paraguai. Bolívia e Peru. Buscávamos de avião monomotor, voando bem baixo para não ser pego pelo radar. Fui treinado por Pablo Escobar Gaviria em Medellín, na Colômbia. O treinamento que recebi dele foi para mexer com droga, fazer ela render, dar mais dinheiro.

P. Quando você era do CV, a facção tinha alguma relação com criminosos paulistas?

R. Na minha época não existia PCC. Tinham traficantes de São Paulo para quem a gente repassava droga.

P. O CV de hoje em dia é diferente da facção da sua época?

R. Quando nós começamos o CV, nosso estatuto, era bem diferente. Tínhamos normas que eram cumpridas. Hoje em dia não tem mais norma, não. Respeitávamos pai e mãe, não violentávamos ninguém, não assaltávamos pobres… Não concordávamos com esse tipo de coisa. Nosso foco era droga e assalto a banco. Hoje se mata por cem reais, por um par de tênis.
ElPais

Maior cadeia do Brasil tem favela e área ‘Minha cela, minha vida’ para presos VIP

Presos da maior penitenciária do Brasil em Pernambuco construíram uma favela dentro dos pátios com setores conhecidos como “Minha cela, minha vida” ─ nome inspirado no programa federal Minha Casa, Minha Vida ─, espécie de “área VIP” destinada aos detentos próximos do comando do narcotráfico local e, por isso, conseguem pagar pelo “aluguel”.

Complexo do Curado
Localizado a 7 km do centro do Recife, o Complexo do Curado é o maior do Brasil em população carcerária – Image copyrightCÉSAR MUÑOZ ACEBES/HUMAN RIGHTS WATCH. 

Este foi o cenário que dois juízes e outros dois advogados da Corte Interamericana de Direitos Humanos testemunharam na última semana em visita ao Complexo do Curado, que abriga mais de 7 mil presos, embora tenha capacidade para no máximo 1,8 mil.

Localizado a 7 km do centro do Recife, o presídio é o maior do Brasil e um dos maiores da América Latina quando o assunto é população carcerária.

Com um número insuficiente de agentes penitenciários ─ cerca de 300 ─ para dar conta das três unidades prisionais que compõem o complexo, o Curado coleciona denúncias de violação extrema de direitos humanos e, segundo especialistas, põe em risco a vida de cerca de 100 mil pessoas que vivem nas imediações.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Para conseguir uma vaga na “área VIP”, o detento precisa pagar cerca de R$ 120 por semana. O espaço consiste em favelas construídas dentro dos pátios das três unidades prisionais.

“Você conhece um ‘chaveiro’ que te indica à direção (do presídio) para ser transferido, e aí você negocia o aluguel com ele”, diz relato descrito pelo pesquisador da ONG Justiça Global, Guilherme Pontes, que acompanhou a visita dos juízes da Corte, em 8 de junho.

Milícia dos chaveiros

“Chaveiros” é o termo que designa os próprios presos responsáveis pela administração do presídio para desempenhar funções de agentes de segurança, em razão da escassez de carcereiros.

Em sua maioria, são acusados de pertencer a grupos de extermínios, formam coletivos conhecidos como “milícia dos chaveiros” e ganham status de autoridade para supervisionar e controlar pavilhões inteiros.

Eles, literalmente, têm a chave da cadeia, determinando quem pode ou não negociar drogas, e aplicam castigos e torturas, além de cobrarem taxas de manutenção ou “pedágio”, segundo os relatos obtidos na visita da Corte.

“Os chaveiros são figuras bem explícitas mesmo. São as pessoas responsáveis por manter a disciplina em cada pavilhão”, afirma Pontes.

O representante da Justiça Global narrou à BBC Brasil como foi a visita de membros da Corte e trechos de conversa que teve com detentos que vivem no “Minha cela, minha vida” em uma das unidades.

“O Curado é um presídio muito particular, as situações são extremas ali. A parte apelidada de ‘Minha cela, minha vida’ seria a área VIP. São barracos de celas autoconstruídos de madeira e alvenaria, uma espécie de favelinha dentro do complexo prisional com becos, barracos de dois andares. Estar lá foi, de fato, impressionante, muito inusitado”, destaca.

Pontes diz que os integrantes da Corte reagiram com surpresa à situação. Em um dos espaços vivem cerca de 200 presos que compartilham apenas três banheiros. Os barracos são coletivos, às vezes com cinco presos dividindo dois colchões.

“Os becos do ‘Minha cela, minha vida’ são a céu aberto. Diante da superlotação do presídio, aqueles que não conseguem financiar um lugar tido como privilegiado são mandados para dormir na ‘BR’, que é a forma como se referem aos corredores dos pavilhões fechados”, diz Pontes.

Há pavilhões em que presos cavam buracos na parede, as “tocas”, para servir de cama. Há também celas menores de 4 metros quadrados que, para acomodar grupos de dez pessoas, constroem mezaninos de madeira.

Complexo do Curado
Chamada ‘Minha Cela Minha Vida’, essa é a ‘área VIP’ do presídio, onde detentos pagam para ‘fugir’ da superlotação – Image copyright MINISTÉRIO PÚBLICO

Em nota, a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco informou à BBC Brasil que, na visita, foram apresentados à comitiva planos de urgência e emergência realizados nas três unidades relacionados à saúde, segurança e garantia dos direitos humanos aos presos.

“Achei a visita bastante positiva, pois tivemos a oportunidade de apresentar à Corte as melhorias já realizadas e programadas nos presídios”, diz o secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos, Pedro Eurico.

Primeira visita da Corte a prisões

Foi a primeira vez que os membros da Corte IDH inspecionam uma prisão nas Américas. Segundo a Justiça Global, várias áreas do complexo foram “maquiadas” para a vistoria dos juízes.

“Algumas partes do presídio foram reformadas e pintadas para a visita da Corte. Fizeram obras em tempo recorde. A enfermaria foi melhorada, ampliaram a área da padaria para o trabalho dos presos. Sabemos que muitos setores foram pintados pelos próprios presos. Houve mobilização para melhorar a aparência do presídio”, declara Pontes.

“O Curado está completamente comprometido”, diz à BBC Brasil o promotor de Justiça da Vara de Execuções Penais de Pernambuco, Marcellus Ugiette, ao defender o fim do complexo.

“Não só a vida dos presos está comprometida lá dentro, como está afetando a vida e a segurança da comunidade em volta. Vemos condições precaríssimas. Esse tipo de tratamento não socializa. O Estado deixou o mal tomar conta das prisões.”

A resolução do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária recomenda que o número de agentes seja de um para cada cinco presos ─ o que, na atual condição do Curado, exigiria 1,4 mil agentes, em vez dos 300 atuais. Além disso, prevê defensor público, para cada 500 detentos, o que daria 40 defensores, 13 a menos do que a equipe atual.

Promotores estimam que o número de “chaveiros” ali seja equivalente à quantidade de agentes carcerários.

Facões, armas e denúncias

Além disso, a quantidade de armas que circula dentro dos pavilhões é alarmante, diz o promotor. Só neste ano, mais de mil facões foram recolhidos. Hoje, estima-se que os presos tenham 30 armas de fogo ─ entre pistolas e revólveres.

Há relatos de que moradores dos bairros nas imediações foram mortos por disparos feitos de dentro do Curado. Em caso registrado há cerca de duas semanas, bombas lançadas no presídio destruíram 30 casas a 40 metros de distância, deixando feridos.

Desde 2008, o Estado brasileiro é denunciado por problemas como superlotação carcerária. Em setembro de 2015, a Corte Interamericana julgou o governo de Pernambuco por denúncias de superlotação e maus tratos.

Em outubro passado, a Corte ordenou ao país a adoção de medidas como a eliminação do tráfico de armas no presídio e das figuras dos “chaveiros”, o fim da superlotação, acabar com as inspeções vaginais e anais nos visitantes, assegurar acesso aos serviços de saúde, evitar propagação de doenças contagiosas e, por fim, que o Estado retomasse o controle do complexo.

Complexo do Curado
Desde 2008, o Estado brasileiro é denunciado por problemas como superlotação carcerária – Image copyright CÉSAR MUÑOZ ACEBES / HUMAN RIGHTS WATCH. 2015

A visita da Corte ao Curado tinha como objetivo acompanhar de perto a implementação dessas resoluções. Segundo Pontes, da Justiça Global, é “flagrante” que muitas dessas medidas não foram cumpridas pelo governo do Estado.

A ação que deu origem ao processo na Corte IDH foi feita por uma coalizão formada entre a Pastoral Carcerária, o Serviço Ecumênico de Militância nas Prisões, a Justiça Global e a Clínica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard.

Durante quatro anos, a coalizão de organizações catalogou centenas de violações à dignidade humana dos presos, funcionários e visitantes do Curado.

Outras denúncias

Antes de o caso chegar à Corte, foi primeiro denunciado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), com sede em Washington, que constatou pela primeira vez as denúncias em 2008.

O então presídio Professor Aníbal Bruno, com 3,8 mil presos e capacidade para 800, passou por reformas de R$ 30 milhões como resposta às recomendações da Comissão e, assim, a estrutura foi dividida em três unidades, o que deu origem ao Complexo do Curado.

Segundo Ugiette, a reforma serviu “para dar uma resposta maquiada à OEA. O que era ruim, ficou pior. Multiplicaram-se o número de chaveiros, de desmandos, a entrada de armas e o tratamento indigno”.

Em 2011, novas denúncias sobre as violações de direitos humanos ocorridas no Complexo do Curado foram apresentadas à Comissão, que determinou que o Brasil adotasse medidas para sanar os problemas.

A situação agravou-se e, em 2015, passou para as mãos da Corte IDH, que decretou medidas provisórias a serem adotadas de forma urgente. Os autos do processo internacional contêm 268 denúncias, dentre as quais 87 são de mortes violentas.

Nas próximas semanas, a Corte deverá emitir uma resolução que poderá implicar em novas determinações ou na condenação do Estado brasileiro ─ o efeito prático disso não é muito claro, mas pode resultar em multa, em determinação judicial para que o problema seja corrigido ou em um constrangimento internacional para o Brasil.

Na opinião do promotor, a presença dos juízes no Curado representa uma “pressão positiva” para que Estado brasileiro seja cobrado mais intensamente.

Segundo nota do governo pernambucano, “desde o início (em 2015) do governo Paulo Câmara (PSB), o Estado respondeu todas as consultas feitas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos”.
Fabíola Ortiz/BBC

Os presos invisíveis do Rio de Janeiro

Cerca de 4.000 detentos não existem para o Estado. Sem certidão de nascimento nem RG, reinserção é difícil em um país cheio de burocracia

Uma detenta em uma prisão do Rio, em 2011. / V. ALMEIDA (AFP)

As cifras variam muito, mas se calcula que entre 50.000 e 100.000 crianças vivam nas ruas do Brasil.  Para a imensa maioria, isso significa – além de todo tipo de penalidade imaginável – a ausência de um documento de identidade: elas não existem para o Estado. As estatísticas públicas tendem a minimizar o problema, que, no entanto, perdura até a idade adulta.

Segundo dados da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de Rio do Janeiro (SEAP), 10% dos detentos que entram nas prisões do Estado não possuem documentos de identidade nem certidão de nascimento. Só saíram da invisibilidade burocrática ao cometerem algum delito. São 4.000 pessoas que integram o sistema apenas graças ao seu prontuário carcerário: seu único registro legal é aquele onde tocaram piano, ou seja, deixaram as impressões digitais, na identificação feita após a detenção.

MAIS INFORMAÇÕES

Ricardo (nome fictício) é um ex-preso, hoje em liberdade condicional, que administra uma pequena empresa de quentinhas (marmitas) no bairro carioca de Madureira. Porta uma tornozeleira eletrônica que registra seus movimentos. Durante anos trabalhou com agentes carcerários e policiais na 58ª delegacia de polícia do Rio, beneficiando-se de um programa de redução de pena, na razão de um dia a menos de cadeia a cada três trabalhados. Era o encarregado de fichar os presos que chegavam.

“Entravam presos sem nenhum dado, nenhuma carteira, nada… Não eram visitados por familiares nem recebiam comida [de pessoas de fora] nem qualquer tipo de presente.” Entretanto, segundo ele, havia fraude em alguns desses casos.

“Havia vários casos de detentos que ocultavam sua verdadeira identidade para escapar de delitos anteriores, cometidos às vezes em outros Estados, e assim reduzir sua pena”, relata.

“Muitos deles nasceram e cresceram na rua”, diz um porta-voz da Secretaria de Direitos Humanos do Rio de Janeiro. “É praticamente impossível para eles escapar do círculo delitivo.” Segundo o governo  a falta de certidão de nascimento barra o acesso ao documento de identidade, o que por sua vez exclui qualquer possibilidade de obtenção de outros certificados habituais – como a carteira de trabalho e o título de eleitor. Dos integrantes desse grupo, portanto, são conhecidas apenas as características físicas.[ad#Retangulos – Direita]

“Algumas histórias são dramáticas. Tentam voltar reabilitados à vida civil, conseguir um trabalho, endireitar, mas nem sequer recebem um documento que os identifique como cidadãos”, acrescenta o porta-voz.

A secretaria de Administração Penitenciária afirma que os 3.988 detentos atuais sem identificação civil não têm relação com delitos anteriores. No Tribunal de Justiça do Estado do Rio, que promove um projeto para a erradicação do sub-registro civil, estima-se que o número seja mais elevado. “E em outros Estados brasileiros o percentual poderia ser ainda maior”, afirma essa fonte. “O Rio está mais adiantado que muitas outras administrações nesse trabalho de identificação e regularização.”

A concessão de documentos civis a um cidadão adulto que sai da prisão é complicada e em vários Estados se fazem forças-tarefas, os mutirões, para tentar driblar as dificuldades. Trata-se de um processo no qual participam diversas instituições e que exige entrevistas, verificação de diversos documentos e contatos com familiares, “quando existem”, como recorda o porta-voz.

A SEAP reconhece o problema e afirma fazer “um trabalho de regularização mediante um projeto que procura mapear, identificar e desencadear ações em colaboração com outros órgãos”, como o DETRAN, responsável pela carteira de habilitação para dirigir, a Associação de Registradores de Pessoas Naturais e a própria Secretaria de Direitos Humanos. Esclarece, porém, que “depois da libertação do detento a responsabilidade já não é nossa”. Os casos mais difíceis de verificar são remetidos ao Tribunal de Justiça. Segundo o jornal O Globo, 300 presos seriam regularizados nas próximas semanas.

“Imagine o que é ser livre de novo, retornar à rua, feliz, e não ter nenhum documento?”

A lentidão e complexidade dos trâmites burocráticos no Brasil é proverbial, da concessão de vistos e da celebração de casamentos até o aluguel de um apartamento ou a abertura de empresas. As autoridades inclusive admitem que isso freia a expansão econômica – segundo o Banco Mundial, o Brasil ocupa o 116º. lugar numa lista de 183 países quanto à facilidade para fazer negócios.

Tais complicações decorrem fundamentalmente da desconfiança do poder público, como disse a este jornal a advogada Rosana Chiavassa, especialista em defesa do consumidor. “Os princípios de veracidade e de boa fé não existem nos órgãos públicos”, afirmou ela. O emaranhado de documentos exigidos para qualquer ato privado pode em algumas ocasiões transformar o país do samba em um ambiente kafkiano. Na década de oitenta, chegou a existir até mesmo um Ministério da Desburocratização.

Ricardo, que passou dez anos na prisão por matar um homem (em legítima defesa, segundo ele) durante uma briga de bar, considera “incrível” que o destino dos detentos após a pena dependa de um papel tão comum.

“Você tem ideia de como é difícil passar uma década na prisão e sair mais ou menos bem? Não morrer em uma briga, não ser assassinado por um traficante devido ao seu passado ou por seu comportamento? Dar um documento de identidade deveria ser facílimo, um prêmio àqueles que superam o drama de uma prisão brasileira.” Seu relato dá rosto à ausência de identidade civil desses réus.
“Imagine o que é ser livre de novo, retornar à rua, feliz, e não ter nenhum documento para pedir trabalho, alugar um quarto ou ir ao hospital?”
Pedro Cifuentes/El Pais

Sistema carcerário no Japão

Sistema Carcerário Japonês.

No momento em que se discute o sistema carcerário no Brasil, apesar de ser uma questão em crise desde seu nascedouro e que nunca mereceu dos poderes constituídos a atenção devida e indispensável, vale a pena conhecer resumidamente como o Japão trata do assunto.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Vamos ao fatos: A filosofia que dirige o sistema carcerário japonês é diferente da que rege todos os outros presídios ocidentais, que tentam reeducar o preso para que ele se reintegre a Sociedade. O objetivo, no Japão, é levar o condenado ao arrependimento. Como errou, não é mais uma pessoa honrada e precisa pagar por isso.

“Além de dar o devido castigo em nome das vítimas, o período de permanência na prisão serve como um momento de reflexão no qual induzimos o preso ao arrependimento”, explica Yutaka Nagashima, diretor do Instituto de Pesquisa da Criminalidade do Ministério da Justiça.

Os métodos para isso são duros para olhos ocidentais, mas em nada lembram os presídios brasileiros, famosos pela superlotação, formação de quadrilhas, violência interna e até abusos sexuais. A organização e limpeza imperam e os detentos têm espaço de sobra. Ficam no máximo seis por cela. Estrangeiros têm um quarto individual. Além disso, ninguém fica sem trabalhar e não tem tempo livre para arquitetar fugas.

O dia do preso japonês começa às 6h50min. Às 8h ele já está na oficina trabalhando na confecção de móveis ou brinquedos. Só pára por 40 minutos para o almoço e trabalha novamente até as 16h40min. Durante todo este período nenhum tipo de conversa é permitido, nem durante as refeições.

O preso volta à cela e fica ali até 17h25min, quando sai para o jantar. Às 8h tem que retornar ao quarto, de onde só sairá no dia seguinte. Banhos não fazem parte da programação diária. No verão eles acontecem duas vezes por semana. No inverno apenas um a cada sete dias.

“Não pode ser diferente porque faltam funcionários. Mas damos toalhas molhadas para eles limparem o corpo”, justifica-se Yoshihito Sato, especialista em Segurança do Departamento de Correção do Ministério da Justiça.

Logo ao chegar à penitenciária, os presos recebem uma rígida lista do que poderão ou não fazer. Olhar nos olhos de um policial, por exemplo, é absolutamente proibido. Cigarro não é permitido em hipótese alguma. Na hora da refeição o detento deve ficar de olhos fechados até que receba um sinal para abri-los. Qualquer transgressão a uma das determinações e o detento termina numa cela isolada.

Apesar de oferecer tudo o que teria num quarto normal (privada, pia e cobertor), ela tem pouca iluminação. Se houver reincidência na falha, será punido com algemas de couro, que imobilizam os braços nas costas. Elas não deixam nenhum tipo de marca, mas impedem o preso de fazer coisas básicas.

“Os policiais colocam a comida dentro de uma cela numa tigela. Sem a ajuda das mãos, o preso tem que comer como se fosse um cachorro. Também tem dificuldades para fazer as necessidades fisiológicas”, reclama Yuichi Kaido, advogado do Centro de Proteção dos Direitos dos Presos. Se ainda assim o detento desrespeitar outras regras, será mandado para a solitária – a pior de todas as punições. Ficará num minúsculo quarto escuro e não poderá se sentar durante o dia. O controle é feito por uma câmera interna.

Muitos presos, principalmente os estrangeiros, se indignam com o tratamento e processam o Estado pelos maus tratos. “Recebemos todo ano mais de cem processos contra as prisões. Mas na maioria dos casos eles perdem porque agimos exatamente dentro do que prevê a lei”, afirma Jun Aoyama, especialista em segurança do Departamento de Correção do Ministério da Justiça.

Apesar das reclamações, quem vêm do exterior, recebem um tratamento ainda melhor que os japoneses.
Além do quarto individual, ganham cama e um aparelho de televisão onde passam aulas de japonês. A comida também é diferenciada. Não é servido nada que desagrade religiosamente qualquer crença de um povo. Para os arianos, por exemplo, não é oferecida carne bovina.

Um consolo para os estrangeiros que não podem nem pensar em cumprir pena no seu país. O Japão é a única nação do mundo que não aceita acordos de extradição. Afinal, como causou sofrimento à população do arquipélago, o criminoso tem que pagar por isso no Japão mesmo.

Assim conhecido o caso japonês, é interessante ver que nenhuma ou quase nenhuma “Ong” de direitos humanos interfere no sistema, dita políticas ou o governo permite que Senador durma entre os presos, sob a justificativa de impedir represálias do Estado após rebeliões.

Aliás como se diria “rebelião de preso” em japonês? – Esta expressão não existe.

Brasil – Da série “O tamanho do buraco” – Guantánamo é aqui!

Violando todos os artigos existentes na Constituição Federal e os mais elementares princípios de direitos da pessoa humana, o sistema carcerário brasileiro desce ao nível da selvageria das galés romanas.

Presos em Florianópolis
Brasil – A marcha da insensatez
A foto é do repórter fotográfico do Diário Catarinense, Hermínio Nunes.

Alegando falta de espaço nos presídios, em Santa Catarina, a barbárie acorrenta os presos recolhidos nas celas da delegacia policial de Palhoça, na área metropolitana de Florianópolis. Os presos tiveram que ser acorrentados, declarou o responsável pela delegacia, porque a celas que têm capacidade para 4 presos já abrigam 17.
Ps. Não tenho informação sobre a data da foto, nem tampouco se a barbárie ainda continua.


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Brasil – Da série “O tamanho do buraco” – Guantánamo é aqui!

Presos em Florianópolis
Brasil – A marcha da insensatez
A foto é do repórter fotográfico do Diário Catarinense, Hermínio Nunes.

Violando todos os artigos existentes na Constituição Federal e os mais elementares princípios de direitos da pessoa humana, o sistema carcerário brasileiro desce ao nível da selvageria das galés romanas.

Alegando falta de espaço nos presídios, em Santa Catarina, a barbárie acorrenta os presos recolhidos nas celas da delegacia policial de Palhoça, na área metropolitana de Florianópolis. Os presos tiveram que ser acorrentados, declarou o responsável pela delegacia, porque a celas que têem capacidade para 4 presos já abrigam 17.
Argh!


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