Pode uma mulher vencer Trump? Um barril de pólvora na campanha democrata

Os candidatos progressistas confrontam versões opostas no sétimo debate do Partido Democrata sobre a polêmica a respeito de se uma mulher pode derrotar Donald Trump

A senadora democrata Elizabeth Warren e o senador Bernie Sanders saúdam-se no debate.
A senadora democrata Elizabeth Warren e o senador Bernie Sanders saúdam-se no debate.

Um dos momentos mais comentados do último debate presidencial democrata, antes do início do processo de primárias de Iowa, foi protagonizado pela agressiva polêmica entre Elizabeth Warren e Bernie Sanders sobre se uma mulher pode derrotar Donald Trump nas eleições de novembro. A senadora por Massachusetts confirmou publicamente na noite de terça-feira que seu concorrente mais próximo nas pesquisas lhe disse em uma reunião privada em 2018 que não acreditava que uma mulher pudesse vencer as eleições presidenciais de novembro. “Eu lhe respondi que não estava de acordo”, disse Warren. Por sua parte, o senador por Vermont reiterou que nunca havia dito isso, deixando claro que um dos dois pré-candidatos da ala mais radical do Partido Democrata está faltando com a verdade sobre o assunto.

“Uma mulher pode vencer Donald Trump? Olhe para os homens neste palco. Coletivamente, perderam 10 eleições. As únicas pessoas neste palco que venceram todas as eleições de que participaram são mulheres. Amy [Klobuchar] e eu”, disse a senadora por Massachusetts em meio a aplausos do público no debate organizado pelo jornal The Des Moines Register e pela CNN em Des Moines, Iowa. Sanders esclareceu que se uma das mulheres presentes no palco ganhar a candidatura democrata “fará todo o possível” para que seja eleita presidenta dos Estados Unidos.

A CNN publicou na segunda-feira de manhã as declarações de Sanders em uma reunião privada realizada pelos dois senadores em 2018 antes de lançarem formalmente suas respectivas candidaturas. Warren confirmou a publicação durante a noite através de um comunicado. “Entre as questões que surgiram estava o que aconteceria se os democratas indicassem uma candidata mulher. Eu pensei que uma mulher poderia ganhar; ele não concordou”, escreveu a pré-candidata presidencial que luta pelo segundo lugar com Sanders na maioria das pesquisas democratas.

Antes de Warren lançar a bomba na véspera do debate em Iowa, um Estado fundamental na corrida pela candidatura democrata, Sanders negou categoricamente a informação: “É triste que semanas antes do caucus [sistema de eleger delegados em dois estados (Iowa e Nevada), na fase das eleições primárias] de Iowa e um ano depois dessa conversa privada, pessoas que nem estavam na sala estejam mentindo sobre o que aconteceu”. Os assessores do senador por Vermont disseram que a polêmica foi uma “jogada desesperada” de Warren, que mostrou um retrocesso nas últimas pesquisas contra um fortalecimento de Sanders, particularmente em Iowa.

O sétimo debate democrata teve apenas seis participantes, todos brancos: Elizabeth Warren, Bernie Sanders, o ex-vice-presidente e favorito das pesquisas Joe Biden, o prefeito de South Bend Pete Buttigieg, senadora por Minnesota Amy Klobuchar e o filantropo Tom Steyer. Dos vinte pré-candidatos que chegaram a estar na corrida, só restam 14. Com as recentes saídas do senador afro-americano Cory Booker e do ex-secretário de Habitação, o latino Julián Castro, a lista de pré-candidatos democratas tem cada vez menos diversidade, uma das características com as quais havia começado quase um ano atrás.

O encontro em Iowa aconteceu às vésperas da votação no Senado sobre o processo de impeachment do presidente Donald Trump. Três dos pré-candidatos presentes ao debate deverão fazer um parêntese em suas campanhas para comparecer ao Congresso e votar. “É minha responsabilidade estar no julgamento político”, disse Warren. A política externa do republicano foi protagonista do início do debate, depois de os primeiros dias de janeiro terem assistido à maior escalada entre os Estados Unidos e o Irã em décadas depois do assassinato do general Qasem Soleimani, comandante da força de elite Al Quds dos Pasdaran iranianos.

Os pré-candidatos criticaram que Trump tenha ordenado o ataque ao Irã sem autorização, mas não aprofundaram suas posições sobre o assunto. A discussão derivou para o restabelecimento do acordo nuclear com o Irã, defendido principalmente por Biden, que fez parte das negociações durante a era Obama, e sobre deixar ou não deixar as tropas militares norte-americanas no Oriente Médio. Nesse ponto, Warren e Sanders novamente aproximaram suas posições, propondo que ordenariam que todos os soldados voltassem para casa, enquanto os moderados Biden, Klobuchar e Buttigieg deixariam apenas alguns.

China é a maior beneficiada das tensões entre Trump e Irã

Conflito com o Irã pode colocar a perder o único acerto diplomático do presidente americano, facilitando a estratégia chinesa de se projetar como alternativa benigna aos EUA

Presidente Donald Trump durante visita a Ohio, nos Estados Unidos.
Presidente Donald Trump durante visita a Ohio, nos Estados Unidos .JONATHAN ERNST / REUTERS (REUTERS)

Barack Obama até entendeu essa realidade, mas não foi capaz de encerrar o envolvimento militar americano em conflitos secundários, tornando-se o primeiro presidente dos EUA a passar todos os oito anos de mandato em guerra — um triste recorde que os nostálgicos pelo líder democrata tendem a esquecer. Trump foi mais perspicaz nesse sentido, mas agora periga ceder ao mesmo erro, pondo a perder seu único acerto diplomático.

Se nas duas décadas passadas os líderes chineses ficaram contentes em ver seu maior rival ocupado em conflitos de baixa relevância — dos quais Pequim sabiamente manteve distância —, eles agora devem torcer pelo mesmo erro de cálculo em relação ao Irã. Afinal, a China seria a maior beneficiária de um confronto militar entre os Estados Unidos e o país persa. Dada a sofisticação das Forças Armadas iranianas, esse confronto provavelmente seria mais caro, longo e complexo do que aqueles travados contra o Iraque ou Afeganistão. Mesmo diante da possibilidade de um rápido colapso do governo de Teerã, os Estados Unidos teriam uma responsabilidade na reconstrução do país, e ficariam amarrados por anos à região. No campo diplomático, os prováveis abusos de direitos humanos, mortes de civis e possíveis crimes de guerra cometidos por soldados americanos aumentariam a rejeição e o isolamento dos Estados Unidos. A grande maioria da comunidade internacional se recusaria a apoiar os EUA em um conflito que muitos enxergariam como ilegal e desnecessário.

Uma guerra assim produziria uma inevitável onda de sentimento global anti-americano, permitindo um fortalecimento da narrativa de Pequim, que busca colocar a China como uma alternativa benigna, confiável e pacífica aos Estados Unidos: potência em declínio, instável, agressiva e ressentida por sua perda de hegemonia. Com a atenção pública global focada no conflito com o Irã, a China sentiria ainda menos pressão diplomática em relação aos abusos de direitos humanos em Xinjiang e à repressão em Hong Kong.

Um ataque americano ao Irã tampouco estancaria o avanço dos interesses chineses no Oriente Médio. Nos casos do Iraque e do Afeganistão, o que vimos é que a China conseguiu fortalecer sua presença econômica e diplomática mesmo com governos instalados por Washington após as invasões. Embora a imprensa americana insista em enfatizar a influência iraniana no Iraque, a notícia mais importante do ano passado foi a decisão do governo iraquiano de integrar a Nova Rota da Seda (conhecida como BRI), plano de desenvolvimento global do governo Xi Jinping do qual o Afeganistão também já faz parte. Os EUA gastaram cerca de dois trilhões de dólares em dezoito anos de ocupação no Afeganistão mas é a China que terá a maior influência econômica no país, já sendo sua principal investidora.

A decisão recente de Trump de impor novas sanções ao regime iraniano aumenta consideravelmente a influência econômica da China, principal parceira comercial do Irã. Durante uma visita do ministro das Relações Exteriores iraniano Javad Zarif a Pequim em setembro de 2019, o governo chinês anunciou um pacote de investimentos de 400 bilhões de dólares: o maior na história dessa relação bilateral. Assim como aconteceu no caso venezuelano, as sanções de Trump têm facilitado o projeto chinês de aumentar sua influência econômica, uma vez que retiram a concorrência imposta por empresas americanas.

Após o assassinato do general Soleimani pelos EUA no começo de 2020 e da retaliação iraniana subsequente, o cenário mais provável não é de um confronto militar clássico, como ocorreu no Iraque em 2003, mas de um conflito assimétrico de baixa intensidade. Isso deve envolver ataques a instalações militares e postos diplomáticos americanos no Oriente Médio, ciberataques a instituições financeiras dos EUA e apoio a grupos que lutam contra aliados de Washington, como os rebeldes houthis no Iêmen, dificultando a atuação dos Estados Unidos na região. A crise, porém, aumentou as chances de que algum erro de cálculo acabe levando a uma invasão dos EUA no Irã.

Sendo assim, a decisão de matar Soleimani — segundo homem mais poderoso do Irã e uma figura que muitos viam como um possível candidato à presidência em eleições futuras — ameaça a única ideia positiva que Trump articulou para a política externa americana: a de se retirar de guerras desnecessárias e finalmente focar-se inteiramente na necessidade de articular uma estratégia mais coerente para lidar com a ascensão chinesa.

Guerras,Blog do Mesquita 01

EUA X Irã: o que originou a rivalidade de décadas entre os dois países

O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES

Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali Khomeini
O xá Mohamed Reza Pahlevi com Jimmy CarterDireito de imagem GETTY IMAGES
Jimmy Carter foi o último presidente americano a fazer uma visita de Estado ao Irã antes de os EUA romperem relações com o país do Oriente Médio em 1980, após a Revolução Islâmica

O ataque americano perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque, que matou dois dos mais importantes líderes militares iranianos, gerou uma escalada da tensão entre Estados Unidos e Irã que beira o risco de um conflito armado direto entre os dois países.

Num comunicado, o Pentágono confirmou a autoria do bombardeio e disse que a ordem partiu do presidente Donald Trump.

Entre os mortos estão o comandante das Forças Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, o brigadeiro-general Qassen Soleimani — figura militar de maior relevância no país. Também morreu o número 2 das Forças de Mobilização Popular (FMP), o comandante Abu Mahdi al-Muandis.

Mas, se hoje EUA e Irã estão em pé de guerra, nem sempre foi assim. Por um tempo, os dois países foram amigos e aliados.

“Nosso diálogo tem sido inestimável, nossa amizade é insubstituível. E não há nenhum outro líder por quem eu sinta uma maior gratidão e amizade pessoal”, disse em 1977 o então presidente americano Jimmy Carter se referindo ao xá da Pérsia Mohamed Reza Pahlevi, durante brinde num jantar em Teerã, capital iraniana.

Jimmy Carter e o xáDireito de imagem GETTY IMAGES
O presidente americano Jimmy Carter celebrou a chegada do ano de 1978 numa visita de Estado ao Irã. Lá ele participou de um luxuoso banquete com o xá da Pérsia

Nesse mesmo discurso, pronunciado durante a visita de Estado do americano ao Irã, o presidente dos EUA classificou o país do Golfo como uma “ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo”.

Essa visão não poderia ser mais diferente da atual. Vários representantes do governo Trump tem acusado o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

Mas como esses dois países passaram de grandes amigos a inimigos declarados?

Golpe de Estado de 1953

A operação Ajax, nome que recebeu a intervenção estrangeira que possibilitou o golpe de Estado de 1953 no Irã, foi orquestrado pela CIA (a Agência Central de Inteligência dos EUA) e apoiada pelo governo britânico, conforme evidenciam documentos oficiais.

O golpe derrubou o primeiro governante iraniano eleito democraticamente, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, e restaurou a monarquia no país, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

O xá Mohamed Reza Pahlevi ao chegar a Teerã em 1953Direito de imagem GETTY IMAGES
O golpe de Estado orquestrado pelos governos britânico e americano trouxe a monarquia de volta ao poder no Irã, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi

Segundo Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofia Comparada da Universidade SOAS, em Londres, essa intervenção estrangeira é um dos pilares das hostilidades que perduram até hoje entre iranianos e americanos.

O apoio dos Estados Unidos a um governo considerado por muitos como autoritário alimentou o sentimento antiamericano que depois propiciou a Revolução Islâmica de 1979, diz o professor.

“Os historiadores tem demonstrado que os manuais de tortura utilizados pelo brutal serviço secreto do monarca (o xá Mohamed Reza Pahlevi) foram escritos pela CIA e o Mossad (serviço de inteligência de Israel)”, diz Adib-Moghaddam.

“Portanto, os Estados Unidos passaram a ser vistos como cúmplices da supressão (de liberdades) da sociedade iraniana, o que explica o sentimento antiamericano dos revolucionários.”

O inimigo era o Reino Unido?

Até aquele momento, especialmente até o início da Segunda Guerra Mundial, os EUA não eram vistos com maus olhos no Irã.

“Os Estados Unidos eram vistos como uma nação amiga e não como imperialistas. Até os anos 50, eles não tinham tanta influência no Oriente Médio”, diz o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews, no Reino Unido.

“Eram os britânicos e, em menor medida, os soviéticos, que tinham maiores interesses na região.”

O interesse do Reino Unido no Irã era pelos campos de petróleo do país, dos quais era dono desde 1908. Os britânicos exploravam os recursos naturais iranianos e, em troca, devolviam uma pequena quantidade dos combustíveis obtidos — aproximadamente 16%.

planta de produção de petróleo no IrãDireito de imagem GETTY IMAGES
O Irã está entre os cinco países com as maiores reservas de petróleo, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo

O primeiro governante eleito democraticamente no Irã, o primeiro-ministro Mohamed Mossadeq, ouviu as queixas do povo iraniano e decidiu nacionalizar a indústria petroleira do país, acabando com o negócio lucrativo que os britânicos cultivaram por décadas.

Teve início, então, uma campanha de intimidação por parte do Reino Unido, que atracou barcos de guerra no golfo Pérsico, ameaçou invadir o país, decretou sanções à venda de petróleo iraniano e colocou em prática um plano sigiloso para derrubar o novo primeiro-ministro.

A conspiração foi descoberta pela inteligência iraniana, Mossadeq decidiu fechar a embaixada britânica em Teerã e expulsar o do país o corpo diplomático do Reino Unido.

Foi então que os britânicos, por não terem mais pessoal em atividade no território iraniano, tiveram que pedir ajuda aos Estados Unidos.

A recém-criada agência de inteligência dos EUA, a CIA, ficou encarregada de orquestrar o golpe. Na época, o presidente norte-americano era o republicano Dwight Eisenhower, eleito em 1953.

O controle do petróleo iraniano foi, portanto, um dos motivos por trás dessa intervenção estrangeira. Mas é possível que não tenha sido o único.

Mohammad MossadeqDireito de imagem GETTY IMAGES
O primeiro-ministro Mohammad Mossadeq foi o primeiro governante eleito democraticamente no Irã, mas acabou derrubado num golpe de Estado arquitetado pelos EUA e o Reino Unido

Influência da Guerra Fria

Alguns historiadores consideram que o golpe foi um ato relacionado à Guerra Fria, com o objetivo de evitar a todo o custo que o Irã se aproximasse da União Soviética e do pensamento comunista.

“O governo Eisenhower — e vários documentos tornados públicos nos últimos anos atestam isso — pensava que Mossadeq se alinharia à União Soviética por causa do apoio que recebeu de militantes do partido Tudeh, o partido comunista iraniano”, argumenta o professor Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Eu acredito que os Estados Unidos temiam a expansão do comunismo e que os britânicos usaram essa cartada para que os americanos embarcassem na causa”, acrescenta.

Independentemente das motivações reais por trás da intervenção dos EUA nos assuntos internos do Irã, o golpe prosperou e o primeiro-ministro nacionalista foi preso. O poder voltou à monarquia, que era favorável ao Ocidente, com a ascensão do xá Mohamed Reza Pahlevi.

Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953Direito de imagem AFP
Partidários da monarquia do xá Mohamed Reza Pahlevi em manifestação nas ruas de Teerã em 1953

Diversos historiadores acreditam que o golpe de Estado alimentou uma onda de nacionalismo no Irã que culminou com a Revolução Islâmica de 1979 e que envenenou de maneira definitiva as relações entre EUA e o país do Oriente Médio.

É o que diz em seu livro O Golpe, o professor e historiador Ervand Abrahamian, da Universidade da Cidade de Nova York (CUNY).

O xá amigo

Após a ascensão ao poder do xá da Pérsia, se seguiram 26 anos de franca amizade entre Estados Unidos e Irã.

A participação dos EUA no retorno da monarquia colocou Washington em posição de poder numa região onde, até então, o governo americano não tinha grande influência.

“Além do acesso privilegiado ao petróleo do Irã, os Estados Unidos começaram a controlar a política exterior do xá, que atuava como a polícia do Golfo Pérsico, especialmente durante período em que o republicano Richard Nixon esteve à frente do governo americano”, diz Arshin Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres.

Protesto do Partido Tudeh em 1951 em TeerãDireito de imagem GETTY IMAGES
O partido comunista iraniano Tudeh teve papel importante ao exigir a nacionalização do petróleo durante o governo de Mossadeq

Mas eram muitas as vozes dentro do Irã que se opunham a acordos com os EUA que pudessem ser desfavoráveis aos iranianos, como o que perdurou durante anos com os britânicos.

Em 1954, foi firmado um acordo que criava um consórcio internacional, com participação britânica, americana, holandesa e francesa, mediante o qual os benefícios da exploração de petróleo seriam compartilhados em partes iguais.

O acordo foi renovado em 1973 por mais 20 anos, mas, em 1979, foi detonada a Revolução Islâmica, que devolveu às mãos dos iranianos a soberania total sobre o petróleo do país.

Antes da revolução, as relações entre Teerã e Washington foram estreitas. Três presidentes americanos visitaram o Irã nesse período, durante o governo do xá da Pérsia: Eisenhower, Nixon, e Carter.

Mohamed Reza Pahlevi com Richard Nixon.Direito de imagem GETTY IMAGES
O xá da pérsia Mohamed Reza Pahlevi visitou várias vezes os Estados Unidos durante o período em que esteve no poder. Na foto, ele cumprimenta o presidente Richard Nixon

Carter celebrou a chegada do ano de 1978 com um jantar de gala ao lado do xá. Tudo mudaria apenas um ano depois.

O monarca persa fugiu do Irã em 16 de janeiro de 1979, ao se ver incapaz de conter os protestos que tomaram as ruas do país durante meses.

Manifestantes enfrentavam o Exército, greves de trabalhadores ameaçavam a produção de petróleo (principal fonte de renda do governo) e opositores ao regime, tanto civis quanto religiosos, acusavam a monarquia de ser autoritária e corrupta.

A Revolução Islâmica de 1979

Apenas duas semanas depois da saída do xá do país, o líder islâmico religioso Ruhollah Musavi Khomeini, que havia sido forçado a deixar o Irã em 1964 por suas críticas ao governo, voltou do exílio.

Durante os 15 anos em que esteve fora do Irã, morando no Iraque e na França, o aiatolá e futuro líder supremo do país criticou fortemente o regime monárquico. Ele acusou o xá de se vender aos Estados Unidos, nação a que apelidou de “Grande Satã”.

Aiatolá Ali KhomeiniDireito de imagem GETTY IMAGES
O aiatolá Khomeini se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edificio

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosDireito de imagem GETTY IMAGES
Em 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.

 se tornou o mais duro crítico das interferências dos EUA nos assuntos internos do Irã

“Khomeini se converteu progressivamente num opositor de destaque ao regime monárquico. É possível ver o sentimento antiamericano nos discurso dele de 1964, mas isso ganhou ainda mais força entre lideranças iranianas nos anos 90, quando os EUA impuseram uma série de sanções ao Irã”, diz Siavush Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

Para Adib-Moghaddam, professor da Universidade SOAS, em Londres, a desconfiança da população em relação aos EUA também ajudou o líder espiritual Khomeini a consolidar o sucesso da Revolução Islâmica.

“O aiatolá Khomeini canalizou esses sentimentos durante o processo revolucionário e tornou a independência do Irã em relação aos EUA uma das bases mais importantes para o êxito da República Islâmica”, diz o professor.

Após um referendo realizado em 1º de abril de 1979, foi declarada a República Islâmica do Irã. O declínio das relações com os Estados Unidos alcançou seu ápice com a tomada da embaixada americana em Teerã.

Seis americanos conseguiram fugir da embaixada se fazendo passar por uma equipe de cineastas, como retrata o filme americano Argo, estrelado e dirigido por Ben Affleck e ganhador do Oscar para melhor filme em 2013.

Os últimos 52 reféns foram liberados em janeiro de 1981, no mesmo dia em que Ronald Reagan tomou posse como presidente dos EUA.

Enquanto ainda durava o sequestro, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã. As relações permanecem congeladas até hoje.

Foi após esse grave incidente que se iniciou o longo histórico de sanções dos EUA contra o país do Oriente Médio.

Americanos reféns na embaixada dos EUA em Teerá, em 1979Direito de imagem GETTY IMAGES
Diplomatas americanos e cidadãos dos EUA que estavam na embaixada do país em Teerã foram mantidos reféns por mais de um ano, a partir de 4 de novembro de 1979, quando um grupo de estudantes iranianos invadiu o edifício

A estratégia do embargo

As sanções econômicas impostas pelos EUA ao Irã, e reforçadas recentemente por Trump, são um mecanismo de pressão usado desde os tempos do presidente Jimmy Carter.

Carter proibiu as importações de petróleo do Irã, congelou cerca de US$ 12 milhões em ativos iranianos no território americano e suspendeu todo o intercâmbio comercial com a República Islâmica, assim como as viagens de autoridades dos EUA ao território iraniano.

As sanções foram suspensas quando o Irã libertou os reféns americanos, mas nos anos subsequentes outras foram impostas pelos EUA.

Em 1984, no governo de Ronald Reagan, o Irã foi declarado país patrocinador do terrorismo e Washington voltou a lançar sanções. Os EUA se opuseram a que o Irã recebesse empréstimos internacionais e proibiu a importação de alguns produtos iranianos, entre eles os chamados de “uso duplo” — que podem ser destinados tanto ao uso civil quanto ao militar.

Durante o governo Ronald Reagan, os EUA também apoiaram Saddam Hussein na guerra entre Iraque e Irã, que durou de 1980 a 1988.

Saddam Hussein em 2002Direito de imagem GETTY IMAGES
Os Estados Unidos se aliaram a Saddam Hussein, na guerra entre Iraque e Irã entre 1980 e 1988, iniciada por uma disputa territorial na fronteira entre os dois países

Isso deteriorou ainda mais a imagem dos EUA junto à população iraniana, diz o professor Arshin Adib-Moghaddam.

“O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein é, possivelmente, percebido como mais traiçoeiro que o golpe de Estado (que derrubou o primeiro-ministro e restaurou a monarquia). Esse apoio permitiu a Saddam Hussein usar armas químicas contra iranianos e contra a própria população iraquiana, o que levou à campanha genocida de Anfal, que matou milhares de curdos em minutos”, lembra.

As relações entre Irã e EUA não melhoraram na Presidência de George H. W. Bush, que também aprovou sanções contra o regime iraniano. Mas até as sanções impostas recentemente por Donald Trump, as que mais haviam causado danos ao Irã eram as de Bill Clinton, diz o professor Randjbar-Daemi, da Universidade St. Andrews.

“Até então os iranianos podiam comercializar parte de seu petróleo e seus ativos, mas a partir das sanções de Clinton, funcionários do governo iraniano passaram a dizer que a situação ficou insustentável”, lembra.

Bill ClintonDireito de imagem AFP
Segundo o professor de história de Oriente Médio Siavush Randjbar-Daemi, as sanções impostas por Clinton eram, até as aprovadas por Trump, as que mais haviam provocado danos à economia iraniana

Clinton proibiu qualquer participação de empresas americanas na indústria petroleira iraniana, vetou investimentos de capital no Irã e limitou ao mínimo o intercâmbio comercial entre os dois países, sob o pretexto de que Teerã estava fabricando armas de destruição em massa.

Mais sanções foram impostas nos governos de George W. Bush e Barack Obama.

Mas, em 2015, ainda durante a Presidência de Obama, foi firmado o acordo nuclear entre o Irã e potências mundiais, como Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, após anos de difíceis negociações.

O Irã se comprometeu a parar o seu programa nuclear em troca da suspensão de sanções. O acordo perdurou por quase três anos até que, em maio de 2018, o presidente Donald Trump decidiu rompê-lo, apesar da oposição dos países europeus.

Donald Trump, presidente dos Estados UnidosEm 2018, Donald Trump retirou os EUA do acordo nuclear iraniano e passou a impor uma série de sanções ao país do Oriente Médio

Com isso, sanções voltaram a entrar em vigor contra o Irã e os efeitos delas são visíveis na economia do país do Oriente Médio.

O Fundo Monetário Internacional calcula que a economia iraniana deve ter sofrido uma retração de 6% em 2019.

Esse histórico de sanções é, segundo Siavush Randjbar-Daemi, o verdadeiro motivo por trás das hostilidades recentes entre iranianos e americanos. Mas o professor rechaça usar o termo ódio entre populações e lembra que há milhões de iranianos exilados nos EUA.

“Muitas famílias no Irã têm algum parente vivendo nos Estados Unidos, portanto os ódios e os enfrentamentos são mais nas altas esferas de comando”, avalia.

O professor Arshin Adib-Moghaddam tem uma opinião similar.

“As principais razões (dos conflitos entre EUA e Irã) são geopolíticas, em parte majoradas por atores regionais como Israel e Arábia Saudita, que desconfiam do poder do Irã no Oriente Médio”, diz.
ViaBBC

Dinheiro,Economia,Ouro,BitCoin,Dolar,Euro,Real,Blog do Mesquita

O cálculo gelado de Donald Trump

  

Presidente dos EUA, Donald TrumpTrump confirmou rumores sobre os planos para adquirir a ilha, afirmando que a ideia é “estrategicamente interessante”

O presidente dos Estados Unidos é um famoso cético quando se trata de alterações climáticas provocadas pelo homem. No entanto, o atual derretimento do gelo na Groenlândia pode estar aquecendo seu coração. Isso porque a maior parte da Groenlândia está no Ártico, uma das poucas regiões subdesenvolvidas do mundo com grande potencial econômico.

Ao manifestar interesse em comprar a Groenlândia, o presidente dos EUA tenta, mais uma vez, perturbar a ordem ocidental do pós-guerra. O principal interesse é o domínio americano no Ártico, opina Oliver Sallet. Quando ele se oferece para comprar a Groenlândia, parece óbvio que o que interessa ao presidente são os recursos naturais do lugar. A mudança climática e o derretimento das massas de gelo levam a crer que estes serão em breve mais fáceis de serem alcançados. Até mesmo Trump, o negador da mudança climática, sabe disso – e não faz questão alguma de esconder que os EUA querem estar na vanguarda da corrida pelo Ártico no futuro.

Os países árticos incluem não apenas os EUA, o Canadá, a Noruega e a Dinamarca, mas também o rival geopolítico de Trump, a Rússia. Até mesmo a China, que na verdade não possui territórios árticos, está inequivocamente tentando justificar sua reivindicação na região polar, descrevendo-se como um país “em grande proximidade” do Ártico.

Está claro que o que está em jogo aqui é mais do que apenas um negócio imobiliário. A corrida por recursos naturais e rotas marítimas reflete a mudança na hierarquia geopolítica das antigas e emergentes hegemonias. Trump está interessado em nada menos que o domínio americano no Ártico – e por isso ele tem que competir com a Rússia e a China.

De fato, a ideia de tornar a Groenlândia um território dos EUA não é nova. O presidente Harry S. Truman tentou isso em 1946. De Louisiana ao Alasca, os EUA fizeram antes grandes e históricas aquisições de terras. Por que “Make America Great Again” não poderia funcionar também com a Groenlândia?

Sete décadas se passaram desde 1946 – e não apenas isso. Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, a ordem mundial do pós-guerra, especialmente sob a liderança dos EUA, ainda estava tomando forma. Hoje, o Ocidente, incluindo a Dinamarca, está fortemente ligado aos EUA através da participação comum na Otan. A aliança militar era garantia de liberdade e multilateralismo.

Agora, porém, a China está contestando a posição americana como potência global – e Trump é parcialmente responsável por isso. Desde que assumiu o cargo, ele tem buscado enfraquecer as bases da estrutura ocidental: pressionando pela dissolução da União Europeia, questionando o sentido da Otan, aproximando-se de déspotas e se afastando dos antigos parceiros dos Estados Unidos no Ocidente. Oferecer-se para comprar o território dinamarquês pode ser uma violação de um tabu – mas corresponde à visão de mundo desse presidente dos EUA.
DW

Política,Blog do Mesquita

Por que Juan Guaidó vive um de seus piores momentos desde que se proclamou presidente da Venezuela

Juan Guaidó, que lidera a oposição venezuelana desde janeiro e chegou a ser a grande esperança dos adversários do chavismo, vive um de seus piores momentos.

 e questionamentos de apoiadores e aliados por três grandes fatores: esgotamento de seu poder de mobilização popular, negociações entre partidos de sua coalizão e o governo de Nicolás Maduro e críticas a fotos em que Guaidó aparece ao lado de paramilitares na Colômbia.

Oito meses se passaram desde que o líder da oposição de declarou presidente interino da Venezuela, e agora precisa lidar com aliados que de um lado cobram mais moderação e diálogo e de outro, uma radicalização maior para derrubar Maduro.

Hoje, nenhum desses extremos avança.

A última tentativa de diálogo dos emissários de Guaidó com o governo (em Barbados e sob a mediação de Noruega) fracassou há duas semanas e, por outro lado, não se vê mais as concentrações massivas de oposicionistas nas ruas da Venezuela, como ocorreu em fevereiro e maio.

Outro revés recente para ele foi a demissão de um de seus maiores e mais aguerridos apoiadores, o americano John Bolton, que deixou o posto de conselheiro de segurança nacional no governo de Donald Trump.

John BoltonDireito de imagem GETTY IMAGES
Com a saída de John Bolton (foto) do governo americano, Guaidó perdeu um de seus mais importantes aliados na Casa Branca

De sua parte, Guaidó, que se mantém como presidente da Assembleia Nacional, insiste na legitimidade de sua liderança e defende que a única instância válida para uma eventual negociação com o governo Maduro deve passar pelo Legislativo.

Guaidó se agarra também ao fato de que 50 países o reconhecem como o presidente de fato da Venezuela, e que nações latino-americanas reiteraram esse apoio nesta terça-feira na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Apesar de todos esses problemas, o líder oposicionista ainda conta com o apoio majoritário dos partidos antichavistas.

Mas ele terá capacidade e iniciativa para recuperar o poder de mobilização que demonstrou no primeiro semestre?

De janeiro a maio

A jogada audaciosa de se proclamar “presidente encarregado” em janeiro surpreendeu, e a grande expectativa que se criou em torno de Guaidó se traduziu imediatamente em enormes mobilizações de opositores.

Logo surgiu o “comboio humanitário” em fevereiro, organizado a partir da Colômbia, com 20 caminhões com centenas de toneladas de doações internacionais. A iniciativa, porém, não passou da fronteira em razão do cerco montado por Maduro à época.

Juan Guidó em um dos caminhões com mantimentosDireito de imagem GETTY IMAGES
Juan Guaidó liderou uma ‘caravana humanitária’ na Colômbia em direção à Venezuela

A grande maioria dos alimentos, remédios e produtos de limpeza doados naquela ocasião era oriunda dos Estados Unidos, seu maior aliado internacional.

Guaidó fez um gesto ousado: burlou autoridades para atravessou a fronteira e se encontrar com os presidentes de três países da região (Colômbia, Chile e Paraguai) e oficiais americanos.

Ao longo dessas semanas, a coalizão de países do continente conhecida como Grupo de Lima reiterava seu apoio ao opositor, e a Organização dos Estados Americanos (OEA) abriu as portas ao embaixador do “presidente encarregado”.

No fim de abril, Guaidó anunciou a fase final do que chamou de Operação Liberdade e novamente convocou a população para manifestações em Caracas.

Ao lado de Leopoldo López, seu mentor político libertado da prisão naquela ocasião, e de uma multidão nas ruas da capital venezuelana, Guaidó não conseguiu concretizar seu objetivo de cercar Nicolás Maduro no Palácio de Miraflores.

Leopoldo LópezDireito de imagem GETTY IMAGES
Leopoldo López, libertado numa ofensiva de Juan Guaidó, é um dos mentores políticos do autoproclamado presidente

Jesús “Chúo” Torrealba, ex-secretário-geral da coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD), explicou à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, que até aquele ponto era visível a efervescência nas ruas, algo que já não é mais visto hoje.

“Certamente não estamos mais no momento de maior ebulição do respaldo social a Guaidó.(…) Nesse ponto de vista, não é o melhor momento dele, mas ele ainda preserva um capital político muito importante”, afirma Torrealba, um dos responsáveis por levar Guaidó ao comando da Assembleia Nacional.

Por esse motivo, defende, o líder oposicionista é o “único político venezuelano que poderia ser o rosto de uma proposta de mudança democrática” e que a Assembleia Nacional é a instituição com mais legitimidade para integrar esse processo.

Mas Torrealba adverte que “isso não é eterno e pode se esgotar”.

As três facções da oposição

Como a Fase Final agora é só uma lembrança, as mobilizações posteriores de Guaidó tiveram gradativamente menos adesão, ainda que manifestações locais com demandas específicas façam parte do cotidiano venezuelano.

Nos meses seguintes, governo e oposição iniciaram um diálogo em Barbados, mas o processo foi abandonado em agosto por Maduro e em setembro por Guaidó.

Em seguida, autoridades da gestão Maduro e quatro partidos opositores anunciaram que chegaram a um acordo que incluía, entre outros pontos, a reincorporação de deputados chavistas à Assembleia Nacional e a reestruturação do Conselho Nacional Eleitoral.

Entrevistados pela BBC News Mundo que acompanharam de perto o que aconteceu argumentam que é nesse momento em que, silenciosamente, as diferenças entre as três alas da oposição venezuelana — a moderada, a de centro e a radical — se aprofundam com maior velocidade.

anúncio do acordoDireito de imagem EPA
Em 16 de setembro, parte da oposição fechou um acordo com o governo Maduro, movimento contestado por outra fatia dos oposicionistas

Membro do partido Cambiemos, Timoteo Zambrano é um dos integrantes do grupo que decidiu firmar o acordo anunciado em 16 de setembro com autoridades do governo venezuelano.

Ele questiona Guaidó e seu entorno, e os acusa de optar por uma política linha-dura em vez de se concentrar nos problemas cotidianos da população e sair em busca de resultados tangíveis.

“Houve muita promessa e nada se concretizou. Não se conseguiu algo com que a gente possa resolver os problemas”, afirmou Zambrano.

O deputado atribui a isso a paulatina perda de força do líder oposicionista e a movimentação de outros políticos da oposição em busca de alternativas.

“É preciso atender a emergência social, sem isso há uma desconexão com o povo.”

Zambrano afirma que não se está em busca “de caudilhos nem de líderes messiânicos” e relata ter dito a Guaidó que “se ele chegasse à Presidência da Assembleia Nacional sob o mesmo esquema daqueles que estiveram antes, não alcancaria o que busca fazer”.

Jesús Torrealba afirma que muitos dos planos e ações adotados desde que Guaidó se proclamou presidente não foram consensuais. “Mas tal consenso não existe na realidade.”

Guaidó se situa no grupo mais ao centro no espectro político da oposição venezuelana, situado entre a fatia que defende negociações permanentes com Maduro e aquela que mantém o radicalismo para derrubar o governo.

MaduroDireito de imagem GETTY IMAGES
Nicolás Maduro abandonou o diálogo com Guaidó em agosto deste ano

O tempo como inimigo

No quartel-general da oposição, a Assembleia Nacional, aponta-se que o tempo é o principal problema do “presidente interino”.

Para Manuela Bolívar, deputada do mesmo partido de Guaidó (Vontade Popular, ou Voluntad Popular em espanhol), o passar dos meses amplia tanto a crise social quanto a pressão sobre seu movimento para encontrar uma solução.

“É claro que vivemos momentos difíceis e é claro que muita gente exige que essa solução seja imediata. Há uma angústia, sem dúvida, ninguém está negando isso. Sabemos como o tempo nos afeta como cidadãos e como políticos”, disse Bolívar à BBC News Mundo.

Ela afirma que é por isso que a oposição ensaiou diversas fórmulas “constitucionais, pacíficas e institucionais” ao longo do tempo.

“Estamos tentando tudo. Na Venezuela estamos tentando tudo que nos permita caminhar juntos para uma transição”, diz.

Bolívar avalia que o tempo também joga contra o governo porque “divide o regime, o enfraquece e racha a estrutura totalitária”.

A parlamentar afirma que hoje é difícil fazer sondagens da opinião pública. “As pessoas não sabem se, ao responder a uma pesquisa, o Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência) está te escutando e vai te retirar dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção que oferece os únicos alimentos que chegam a alguns lugares do país.”

Ela também questiona a representatividade e a importância dos quatro partidos que decidiram negociar em separado com o governo Maduro, mesmo tendo obtido seus votos no âmbito de uma coalizão.

Problemas graves para Guaidó

Além das manifestações de rua, divisões e tentativas fracassadas de diálogo, dois incidentes concretos levantaram dúvidas sobre o discurso de transparência e a luta contra a corrupção defendida com insistência pelo “presidente interino”.

Primeiro, em junho deste ano, um caso de supostos desvios de recursos atingiu dois de seus emissários na Colômbia.

As alegações tinham a ver com uma suspeita de desvio de fundos voltados ao apoio à migração venezuelana em solo colombiano e fizeram com que os dois envolvidos fossem afastados de suas funções imediatamente à época.

A decisão foi tomada pelo próprio Guaidó e acompanhada por uma ação judicial movida em Bogotá por seu “embaixador encarregado” solicitando à Promotoria colombiana que investigasse o caso.

O escândalo foi rapidamente capitalizado pelo partido no poder, que acusou os adversários de criar uma rede de corrupção e apresentar um discurso contraditório sobre transparência e honestidade.

Guaidó e presidentes latino-americanosDireito de imagem GETTY IMAGES
Guaidó apareciou de surpresa na Colômbia em 22 de fevereiro

À época, o correspondente da BBC News Mundo na Venezuela, Guillermo Olmo, descreveu o episódio como um golpe “onde dói” em Guaidó, já que uma de suas principais bandeiras era sua promessa de acabar com a corrupção.

Esse caso levou a questionamentos de aliados do líder oposicionista, como o secretário-geral da OEA, Luis Almagro, que cobrou explicações.

A dor de cabeça mais recente de Guaidó surgiu com a publicação de fotos nas quais ele aparece com pessoas apontadas como integrantes do grupo paramilitar colombiano Los Rastrojos.

As imagens foram tiradas em 22 de fevereiro, quando Guaidó entrou na Colômbia por um atalho para liderar a caravana de caminhões com ajuda internacional que seria barrada na fronteira com a Venezuela.

Em uma das imagens, é possível ver um homem carregando algo parecido com uma arma.

Por mais de uma semana, as fotografias se tornaram o principal instrumento do chavismo para desqualificar o presidente da Assembleia Nacional e acusá-lo de ligação com criminosos colombianos.

Na Colômbia, os analistas políticos Sandra Borda e Fernando Posada afirmam que essas fotografias provocaram no mínimo questionamentos em torno da figura do político venezuelano.

GuaidóDireito de imagem REPRODUÇÃO
Imagens (de autoria desconhecida) geraram uma série de acusações contra Juan Guaidó

“É bem provável que Guaidó não soubesse com quem estava sendo fotografado, mas também é sabido que a fronteira é tomada por esses grupos, e não ter suspeitado de um revólver na cintura é um comportamento ingênuo e até politicamente irresponsável “, escreveu a cientista política em sua coluna no jornal colombiano El Tiempo.

Para Posada, em entrevista à BBC News Mundo, as imagens “geraram muitas dúvidas”.

O líder da oposição venezuelana imediatamente rejeitou as acusações de que tinha ligação com paramilitares, e o governo colombiano (aliado de Guaidó) garantiu que o “presidente interino” só recebeu apoio de oficiais depois de já ter entrado no território colombiano.

Novas mobilizações?

Em 23 de setembro, completaram-se oito meses desde que Guaidó prestou juramento como “presidente interino”.

Depois de tudo que aconteceu, o líder com o maior apoio na oposição afirma que “a ditadura foi derrotada em muitas áreas” e prometeu manter seu movimento coeso.

O venezuelano disse na semana passada que está focado em uma “solução urgente” para seu país e reafirmou ter o apoio do “mundo livre”, referindo-se aos mais de 50 países que o reconhecem como a mais alta autoridade executiva do país.

A proposta do oponente é a criação de um “Conselho Plural do Estado” que convocaria eleições presidenciais, desde que Maduro aceitasse deixar o poder antes.

Em troca, Guaidó se oferece para abandonar sua ofensiva como “presidente interino”.

Essa oferta já foi rejeitada nas negociações de Barbados pelo chavismo, mas o homem que ainda encarna as maiores esperanças da oposição não desiste.

É por isso que ele pede “mais apoio e pressão” da comunidade internacional.

Mas especialmente dos próprios venezuelanos.
BBC

USA,Brasil,Passaporte,Vistos,Blog do Mesquita

Visto americano: Você terá que informar até o tamanho cueca

Por que você vai ter que informar dados de suas redes sociais se quiser fazer turismo, estudar ou trabalhar nos EUA. Departamento de Estado diz que trabalha em mecanismos que melhorem processos de triagem para proteger cidadãos americanos. Se você pensa em pedir ou renovar um visto dos Estados Unidos é melhor analisar o que você posta no Facebook ou no Twitter, por exemplo.

É que, segundo anunciou o Departamento de Estado americano na sexta-feira, a partir deste mês, a maioria das pessoas que se candidatar a um visto no país terá que enviar junto com a solicitação informações sobre as redes sociais que usa ou usou nos últimos cinco anos.

Mas não é só isso.

De acordo com as novas regras, além de toda a documentação que já precisam apresentar, os interessados também devem fornecer endereços de e-mail e números de telefone que utilizaram também nos últimos cinco anos.

As novas exigências foram propostas pela primeira vez em março de 2018. Elas atendem a uma determinação do presidente Donald Trump, e, segundo o governo, buscam aumentar o controle de segurança sobre os solicitantes de visto.

“Estamos trabalhando constantemente para encontrar mecanismos que melhorem nossos processos de triagem para proteger os cidadãos americanos, ao mesmo tempo em que apoiamos as viagens legais aos Estados Unidos”, disse o Departamento.

Quem deverá fornecer informações sobre as redes sociais?
De acordo com as novas regras, a maioria das pessoas que se candidata a um visto dos EUA deve enviar informações como os nomes de usuários que mantém ou mantinha nas redes sociais.

A obrigatoriedade vale para quem vai aos Estados Unidos fazer turismo, trabalhar ou estudar. Já certos solicitantes de vistos diplomáticos e oficiais estarão isentos das novas medidas, segundo o Departamento de Estado.

Anteriormente, apenas candidatos que demandavam uma investigação adicional por parte das autoridades – como os que haviam estado em partes do mundo controladas por grupos radicais ou eram provenientes de determinados países – tinham essa obrigação.Ícones de aplicativos de redes sociais na tela de um smartphoneRequerentes de visto dos EUA têm que informar nomes de usuário em várias redes sociais, bem como e-mails e telefones
Os novos formulários de solicitação de visto listam uma série de redes sociais e exigem que o solicitante informe os nomes das contas que têm ativas ou as que utilizou nos últimos cinco anos.

A solicitação também inclui a opção de oferecer informações voluntariamente sobre perfis que possuam ou possuíram em outras redes, mas que não constam na relação disponível na ficha.

Desde sexta-feira, internautas relatam que o novo formulário já está valendo.Twitter post de @gsiskind: New question on online US visa application added yesterday. Segundo fontes de imigração consultadas pelo jornal americano The Hill, quem mentir sobre o uso das redes sociais poderá enfrentar “sérias conseqüências na imigração”.

Qual foi a reação às novas medidas?
Quando a proposta de pedir informações sobre as redes sociais dos solicitantes de visto foi apresentada em 2018, as autoridades estimaram que ela afetaria 14,7 milhões de pessoas por ano.

A União Americana pelas Liberdades Civis fez críticas na época, afirmando que “não há evidências de que tal monitoramento das redes seja efetivo ou justo” e considerando que ele levaria as pessoas a se autocensurarem na internet, já que qualquer brincadeira feita nessas plataformas poderia ser levada a sério.

Usuários das redes sociais também não se mostraram satisfeitos com a medida, chamada, por alguns, de “Big Brother nos Estados Unidos”.

O jornalista Peter Clarke, ex-funcionário da rede ABC na Austrália, disse no Twitter que as regras são “ainda mais invasivas” e que outros destinos, com isso, “acenam” para os viajantes.

O também jornalista Kumar Manish, da Índia, recomendou, via Twitter, que os internautas “pensem duas vezes, três vezes antes de postarem qualquer coisa”. “Seu sonho americano pode ir por água abaixo com base nisso”, acrescentou.

Brasil,Alemanha,Bolsonaro,Política Internacional

Brasil e Alemanha: o casamento acabou?

A mais recente tentativa alemã de renovar um casamento antigo com o Brasil foi praticamente ignorada. E o próprio ministro Maas deixou clara a razão. Durante muito tempo, admitiu, a América Latina saiu do foco de Berlim.

Será que o amor não volta mais? Para mim, a relação estável e de confiança entre Brasil e Alemanha se parece cada vez mais com a de um casal à beira da separação. Ela (Brasil) deu um fora nele, na esperança de que ele se tocasse do perigo de perder o amor de sua vida. Ele (Alemanha) corre atrás. Mas as declarações de amor já não convencem.

A Alemanha e a arte da sedução – parece que esses são dois mundos bem distantes. A tentativa alemã de renovar um casamento antigo foi ignorada pelo Brasil. A viagem mais recente do ministro do Exterior da Alemanha, Heiko Maas, ao Brasil, no final de abril, foi praticamente ignorada pelas mídias brasileira e alemã.

Foi o próprio ministro Maas que deixou clara a razão pela crescente alienação entre os dois: “Durante muito tempo”, ele admitiu, “a América Latina e o Brasil saíram fora do foco da nossa atenção.”

Falta de atenção – muitos relacionamentos já terminaram por esse motivo. No caso do casamento teuto-brasileiro, é bem provável que, desta vez, a Alemanha vá sentir na pele o que o Brasil estava sentindo durante as duas últimas décadas: negligência e subestimação.

O distanciamento começou com a queda do Muro, 30 anos atrás. A Alemanha investiu pesadamente nos países do Leste europeu. Quando o chanceler da unidade alemã, Helmut Kohl, finalmente visitou o Brasil, em setembro de 1996, teve que admitir que a Alemanha não havia participado da onda de privatizações no país nos anos 1990 e havia deixado o terreno para outros.

Em fevereiro 2002 foi a vez do então chanceler Gerhard Schröder. Como Kohl, ele lançou uma nova iniciativa para a América Latina, desta vez com foco na infraestrutura. Mas a iniciativa não saiu do papel. Schröder deixou de lado a sua própria iniciativa e se concentrou em grandes projetos com Rússia e China.

Falando em China – a potência asiática era e continua sendo a menina dos olhos dos políticos e da indústria alemã. Todos os chanceleres alemães viajaram e viajam regularmente com uma delegação empresarial para lá, tentando se posicionar no mercado chinês.

Finalmente em 2015, depois de Angela Merkel ter ido durante a Copa de 2014 para o Rio, parecia que a ausência dos políticos alemães no Brasil terminaria. A chanceler voltou a visitar o Brasil com o gabinete dela, e o Brasil entrou no clube exclusivo dos poucos países com os quais a Alemanha mantêm consultações oficiais.

Mas, infelizmente, essa tentativa de reanimação no alto nível político também não se concretizou. Por causa da crise politica no Brasil desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, não houve mais consultações oficiais entre os dois países.

E as perspectivas não são nada boas. Segundo fontes bem informadas, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo não vai atender ao convite oficial do ministro Heiko Maas para participar da conferência sobre a América Latina em Berlim no dia 28 de maio junto com outros chanceleres da região.

O sinal é claro: nem o governo nem a indústria brasileira correm mais atrás da Alemanha. Estão mais interessados nos Estados Unidos e na China.

E falando na China: as empresas alemães vão ter que se deparar com a concorrência chinesa no Brasil. Pois a oferta de bens industriais da China no Brasil aumentou. E, como sempre, os preços de produtos “made in China” são bem mais acessíveis que dos produtos “made in Germany”.

Não dá para negar: a crise no casamento teuto-brasileiro é séria. O Brasil parece estar farto de iniciativas lançadas e esquecidas, de um príncipe alemão que nunca se decide e que deixa as oportunidades passar. Chegou a hora de fazer uma autocrítica.

“Os alemães são especialmente céticos com o Brasil”, admitiu Reinhold Festge, CEO da empresa alemã Haver & Boecker que desde 1974 trabalha no Brasil nos ramos de armazenagem e tecnologia de processamento. O presidente da iniciativa para América Latina da indústria alemã às vezes se decepciona com os seus próprios compatriotas: “Aquela maneira alemã de saber tudo melhor é um problema”, acha ele, “pois nem sempre isso é verdade”.

No dia 17 de junho, Festge embarca para o Brasil para participar da 4ª Conferência Brasil-Alemanha de mineração e recursos minerais em Nova Lima, Minas Gerais. “O clima na economia está melhor do que parece, especialmente na mídia”, disse ele, “a demanda existe”.

O casamento teuto-brasileiro não é uma exceção: é um relacionamento com altos e baixos. Se acabar, fica aqui o meu pedido para que se mantenha pelo menos a amizade. Pois amigos verdadeiros são para sempre.

Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz de Berlim e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter @aposylt e no astridprange.de.

Bolsonaro,Mourão,Blog do Mesquita,China

Por que a visita de Mourão à China é considerada decisiva para as relações entre os dois países

A viagem de seis dias do vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) à China, que se inicia neste domingo (19/5), é considerada decisiva para fortalecer as relações entre o Brasil e seu principal parceiro comercial.

De acordo com especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a visita tem uma importância simbólica e duas possíveis consequências econômicas práticas.

Primeiro, seria uma demonstração de que o Brasil de fato considera a China como um parceiro importante. Isso é particularmente relevante diante dos comentários hostis feitos por Jair Bolsonaro (PSL) sobre o país antes de ser eleito presidente.

Já do ponto de vista econômico, Mourão e o vice-presidente chinês, Wang Qishan, deverão reativar o mais importante fórum de negociação comercial entre os dois países, a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), que estava paralisada desde 2015. O encontro ocorre no dia 23 e é o principal compromisso da agenda durante a viagem.

Também há expectativa de que o vice brasileiro apresente um posicionamento do governo Bolsonaro sobre a iniciativa Belt and Road – também conhecida no Brasil por Nova Rota da Seda – pela qual a China promove investimentos em infraestrutura em troca de benefícios econômicos. “Tem que haver um casamento, benefício mútuo”, declarou Mourão antes de embarcar.

Papel de conciliador

Segundo o presidente da Câmara de Comércio Brasil-China, Charles Tang, a viagem de Mourão é uma oportunidade para o Brasil “reassegurar que considera a China um parceiro importante”, um pressuposto que ficou arranhado com as declarações hostis dadas por Bolsonaro durante a campanha eleitoral.

O capitão reformado chegou a dizer que a potência asiática tentava controlar setores essenciais da economia brasileira, como o de energia, e não estava “comprando (produtos) do Brasil, mas o Brasil”. Outro episódio que desagradou o governo chinês foi a visita a Taiwan de Bolsonaro e dos filhos Flávio, Carlos e Eduardo, em março de 2018

Outro episódio que desagradou o governo chinês foi a visita a Taiwan de Bolsonaro e dos filhos Flávio, Carlos e Eduardo, em março de 2018. A China considera Taiwan uma ilha rebelde. Desde 1974, quando estabeleceu relações com Pequim, o Brasil assinou um documento reconhecendo que Taiwan é parte da República da China. A maior parte da comunidade internacional adota a mesma posição.

À época da viagem da família Bolsonaro a Taiwan, a embaixada da China no Brasil manifestou “sua profunda preocupação e indignação pela referida visita, que não só afronta a soberania e integridade territorial da China, como também causa eventuais turbulências na Parceria Estratégica Global China-Brasil”.

Nesse sentido, o professor de Relações Internacionais do Insper Leandro Consentino acrescenta que Mourão tem sido “a grande figura de conciliação” nos episódios de desentendimento – repetindo o mantra de que a China é um parceiro comercial importante para o Brasil.

Assim, acrescenta Consentino, a visita de Mourão poderia dar um tom mais pragmático à política externa bolsonarista, em oposição à postura do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, vista muitas vezes como mais ideológica.

Tang, da Câmara de Comércio Brasil-China, acrescenta que Mourão recebeu uma “deferência especial” do governo chinês, já que há previsão de encontro com o presidente chinês, Xi Jinping.

Não é praxe no mundo da diplomacia que um presidente receba um vice – o encontro é, em geral, entre autoridades do mesmo escalão. Por isso, a possível reunião é encarada como sinal de prestígio.

Mas não seria uma deferência dada apenas a Mourão. Em 2013, o então vice-presidente Michel Temer também foi recebido por Xi Jinping em visita à China.

Desde que assumiu, Bolsonaro fez viagens oficiais aos Estados Unidos, a Israel e ao Chile. O presidente se comprometeu a visitar a China no segundo semestre.

Na China, Mourão deve entregar uma carta do capitão reformado convidando o mandatário chinês para realizar visita oficial ao Brasil. Ele já deve vir ao país em novembro, para participar da Cúpula dos BRICS.

A importância comercial da Cosban
Para André Soares, do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), a reunião da Cosban é uma das grandes oportunidades para a atual gestão estreitar o comércio com a China.

Conduzido tradicionalmente pelos vices desde que foi criado, em 2004, o encontro já foi copresidido pelos vices José de Alencar, de Lula, e Michel Temer, de Dilma, e é o local em que “os gargalos das relações bilaterais são destravados”, diz o analista comercial, que participou de três dos quatro encontros realizados até hoje.

Foi lá, por exemplo, que os mercados para carne bovina e de frango brasileiros foram abertos.

“Conseguir organizar um encontro da Cosban tão rápido, com apenas cinco meses de governo, é algo muito positivo”, diz o especialista.

Em entrevista recente à TV Brasil, Mourão falou sobre a importância da comissão: “O nosso principal mecanismo de ligação com o governo chinês ficou quatro anos sem ser acionado. Logo que assumimos o governo, foi orientação do governo Bolsonaro que resgatássemos esse mecanismo”.

“Os chineses são muito agressivos na procura dos interesses deles. Muitas vezes, eles chegam no Brasil, e não há coordenação do que estão fazendo. A Cosban tem que coordenar isso”, acrescentou o vice.

A reativação da comissão, diz o especialista, é um caminho para que as empresas brasileiras consigam cumprir a burocracia que permite o acesso ao mercado chinês, um processo de se dá “a conta gotas”.

Soares cita como exemplo o próprio setor de carnes. A aprovação para exportação se dá não por empresa, mas por frigorífico – ou seja, caso uma companhia tenha mais de um frigorífico fornecedor, cada um deles precisa passar por um processo diferente de certificação para que possa exportar para a China.

E o Brasil pode ter uma oportunidade justamente nessa área, já que um surto recente de peste suína reduziu a produção doméstica chinesa.

Guerra comercial
O Brasil já tem embarcado mais soja para a China, aproveitando-se da sobretaxação imposta por Pequim aos embarques da commodity vindos dos Estados Unidos. Esse é mais um reflexo da guerra comercial entre chineses e americanos, que tem como principal sintoma o aumento contínuo das tarifas de importação para produtos de um lado e de outro.

A disputa tem origem na visão do governo de Donald Trump de que os Estados Unidos são prejudicados pelo déficit na balança comercial com alguns países, especialmente com a China.

Na visão do presidente americano, o desenvolvimento da indústria exportadora chinesa se daria à custa de empregos que poderiam ser criados nos Estados Unidos, por empresas americanas.

Recentemente havia expectativa de que os dois países entrassem em acordo, mas, depois de meses de negociação, Trump anunciou, no início de maio, uma nova rodada de aumento de tarifas.

A guerra comercial é hoje a principal preocupação do presidente Xi Jinping, ressalta Steve Tsang, diretor do SOAS China Institute, em Londres, que poderia ser usada pelo Brasil, na condição de importante fornecedor de matérias-primas, para negociar com Pequim.

“O Brasil é importante para a China por causa do fornecimento de grandes volumes de produtos agrícolas e minerais, (usados) para alimentar os chineses e abastecer as indústrias do país.”

O país asiático é o principal parceiro comercial do Brasil, desde 2009. No ano passado, por exemplo, foi destino de US$ 64,2 bilhões (R$ 263,2 bilhões) em exportações – alta de 35% em relação a 2017 – e origem de US$ 35 bilhões (R$ 143,5 bilhões) em importações.

A soja representou 43% dos embarques, o petróleo, 22%, e o minério de ferro, 17%.

São cifras bem maiores que as registradas com o segundo maior parceiro brasileiro, os Estados Unidos – US$ 29 bilhões (R$ 119 bilhões) em exportações e importações.

‘Belt and Road Initiative’
À TV Brasil o vice-presidente Mourão declarou também que vai levar à China “nosso posicionamento sobre a iniciativa Belt and Road”. Trata-se de um acordo entre a China e diversos países do mundo, pela qual potência asiática investe em infraestrutura em troca de benefícios econômicos. “Tem que haver um casamento, benefício mútuo.”

“A China precisa da nossa exportação de alimentos. Então, tudo que colocarmos aqui (no Brasil) em infraestrutura que beneficie o transporte de alimentos para China – ferrovias, portos, rodovias – é interessante (para os chineses)”, disse Mourão.

Cosban estava parada desde 2015, quando Temer assumiu a Presidência
Ele destacou ainda um interesse do Brasil nos “conhecimentos (chineses) na área de energia renovável”, que poderiam ser úteis “principalmente no Nordeste e Norte no Brasil”. “São esses assuntos que precisamos ter aproximação bem correta e sabermos nos ligar com os chineses.”

Para Tsang, a entrada do Brasil no Belt and Road significaria um novo começo para as relações entre os países no governo Bolsonaro.

“Um apoio à iniciativa significa, basicamente, dizer que Bolsonaro não quis realmente dizer o que disse antes (sobre a China estar comprando o Brasil). Já se Bolsonaro mantiver o discurso anterior, então a China vai fechar as portas para o Brasil participar da iniciativa”, completou Tsang.

Sentimento anti-China na ala olavista do governo
Após a eleição, o discurso de Bolsonaro começou a mudar. Em abril, por exemplo, o presidente celebrou parceria entre a China e exportadores de carne suína brasileiros.

Mas as relações do Brasil com a China ainda enfrentam antipatia da ala do governo ligada ao filósofo Olavo de Carvalho, ferrenho crítico do regime comunista chinês.

“A China é hoje a maior potência genocida anticristã do planeta – e, aliás, uma potência que só pensa dia e noite em dominar o mundo. Julgar que esse fator é irrelevância e pura ‘ideologia’ é ser o mesmo tipo de monstro que antes da Segunda Guerra, ao falar da Alemanha nazista, só pensava nas vantagens do comércio”, declarou Carvalho em abril.

Nesse espírito, apoiadores de Olavo de Carvalho lançaram uma ofensiva digital contra um grupo de deputados do PSL, partido do presidente, por terem realizado viagem oficial à China em janeiro.

“É um bando de caipiras”, disparou o escritor, que também se posicionou contrário ao vice-presidente. Não há sinais, porém, que Carvalho vai promover ataque semelhante a Mourão – na semana passada, o filósofo prometeu que ficaria em silêncio em relação ao governo, após diversos embates com a ala militar.

Para não se desgastar novamente com a China, recomenda o professor Steve Tsang, “é só Bolsonaro não criticar o governo chinês. Ele pode falar tudo de mal sobre os comunistas de Cuba ou da Coreia do Norte, mas não pode criticar os comunistas chineses. Aí sim é um problema”.

Direito de imagemVALTER CAMPANATO/AG. BRASIL
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Violência contra a mulher é violência contra a humanidade

A violência contra a mulher é violência contra a humanidade. Enganam-se os machistas ao relegarem o problema como afeto somente ao ambiente doméstico. Não existe democracia sem Direitos Humanos. Na realidade, a violência contra a mulher vai além da física. Além do mais a violência contra o ser humano fere valores, normas, condutas e convenções.

Cedo ou tarde, os indiferentes, omissos ou coniventes com esse “status quo” serão vítimas indiretas dessa barbárie doméstica, e praticada em diversos países como ato punitivo amparado por lei. Cabe ressaltar que a maioria dos homens não faz parte desse perfil machista.

É preciso não mais argumentar com a máxima, cruel, de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.” É preciso também derrubar o mito de que a violência contra a mulher, o que vem logo à mente, é a pura agressão física.
O Editor


Violência contra a mulher: eu me manifesto e você? Vai ficar olhando?
Por Marli Gonçalves *

Mulheres apedrejadas, esquartejadas, violentadas, exploradas, baleadas, surradas, torturadas, mutiladas, coagidas, reguladas, censuradas, perseguidas, abandonadas, humilhadas. Até quando a barbaridade inaceitável vai vigorar?

Eu me manifesto, sim, contra tudo que considero inaceitável. E não é de hoje. Desde pequena meto-me em encrencas por causa disso. Uma vez, tinha acho que uns 12 anos, e brincava na portaria do prédio quando ouvi um homem brigando com uma mulher do outro lado da calçada, ameaçando-a de morte, dando-lhe uns sopapos. Não tive dúvidas.[ad#Retangulos – Direita]

Atravessei, entrei pequenina no meio deles, gritando forte por socorro, o que o assustou e fez com que ele parasse as agressões. Para minha surpresa, ao olhar para os lados, vi que havia muitos adultos assistindo à cena, impassíveis.

Nunca me esqueci disso. Inclusive porque, quando voltei para casa, tomei uma bronca daquelas. Atraída pelos meus gritos, minha mãe tinha ido à janela, e assistiu. “E se ele estivesse armado e te matasse?” – ouvi. Creio que respondi que nunca ficaria quieta vendo aquela cena, onde quer que fosse, e que jamais seria resignada.

Dentro de minha própria casa já havia assistido a cenas que teriam ido para esse lado, não tivesse sido minha mãe uma guerreira baixinha e desaforada, ela própria vítima de um pai tão violento que não o aceitava nem em sua carteira de identidade, nem em sobrenome. Minha avó materna teria sido morta por um “acidente”, em que um motorista de ônibus, que por ele teria sido pago, acelerou quando ela descia. Caiu, bateu com a cabeça na sarjeta, morrendo horas depois, de hemorragia, na pequena cidade do interior de Minas.

Anos depois, senti em minha própria pele o desespero solitário da agressão, da humilhação, do medo. Em plena juventude e viço, em uma ligação amorosa complicada, de paixão e amor intenso que vi virar violência, agressão, loucura e insegurança, só saí viva porque mal ou bem sou de circo, e protegida pelos meus santos e anjos, daqui e do céu… Tentei não envolver ninguém, resolver, e quase virei primeira página policial. Tive a minha vida quase ceifada, ora por ameaça de facadas; ora por canos e barras de ferro, ora pela perda de todas as referências, ora pela coação verbal.

Os poucos e únicos amigos que ainda tentaram ajudar também entraram no rol da violência. E os (ex) amigos que viraram as costas, ou faziam-se de cegos, desses também me lembro bem; inclusive de alguns que conseguiam piorar a situação e pareciam gostar disso, insuflando. Ou se calando. Ou me afastando. Deve ser bonito ver o circo pegar fogo.

Desespero solitário, sim. Não há a quem recorrer. Polícia? Apoiam os homens. Delegacia da Mulher? Na época não existia, mas parece que sua existência só atenuou a dimensão do problema, que pode acontecer em qualquer lar, lugar, classe social. Lei? Veja aí a Lei Maria da Penha. Pensava já naquele tempo, meu Deus, e se eu ainda tivesse filhos para proteger, além de mim? Não poderia ter me livrado – concluo ainda hoje, pasma em ver como a situação anda, em pleno Século XXI. Hoje, acredito que curei minhas feridas, que não foram poucas, especialmente as emocionais.

Há semanas venho tentando defender, aqui do meu cantinho, a libertação da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, mais uma das mulheres iranianas cobertas da cabeça aos pés pelo xador, a vestimenta preta que é uma das versões mais radicais do véu muçulmano. Mas esse, a roupa, não é o maior problema dela e de outras iranianas. Viúva, dois filhos, em 2005 Sakineh foi presa pelo regime fundamentalista do Irã. Em 2007, julgada. A pena inicial foram 99 chibatadas. O crime, adultério! Sua pena final, a morte por apedrejamento.

Uma história que lembra a fascinante personagem bíblica de Maria Madalena, a moça que aguardava a morte por apedrejamento até ser salva por Jesus Cristo. Cristo provocou com uma frase que ficou célebre, e revelou-se futurista: “Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra”.

Esses iranianos estão querendo matar Sakineh e outras a pedradas, e com pedras pequenas, para que sofram mais; talvez porque sejam, acreditam, muito puros? A sharia, lei islâmica, devia prever cortar dedos, língua, furar os olhos desses brucutus modernos, hitlers escondidos sob mantos religiosos, protegidos por petróleo e riquezas?

Não bastasse a novela de Eliza Samudio que, morta ou não, faltou ser chutada igual bola, e de tantas jovens, inclusive adolescentes, mortas pelos namoradinhos, a advogada que morreu no fundo da represa. Todo dia tem violência. No noticiário ou na parede do lado da sua, no andar de baixo, no de cima, na casa da frente.

Nem bem a semana terminou e outro caso internacional estava na capa da revista Time, com o propósito de pedir a permanência das tropas de ocupação no Afeganistão. Na foto, na capa, a imagem chocante da afegã Aisha, 18 anos, que teve o nariz e as orelhas decepados pelo Talibã. Foi a punição à sua tentativa de fugir de casa, de uma família que a maltratava. Agora, Aisha está guardada em lugar sigiloso, com escolta armada, paga pela ONG Mulheres pelas Mulheres Afegãs. Deve ser submetida a uma cirurgia para a reconstrução do rosto.

No Irã, ou melhor, globalmente, porque lá nada se cria, se estabeleceu a campanha “Um Milhão de Assinaturas exigindo mudanças de leis discriminatórias”, com protestos e abaixo-assinados, de grupos internacionais de mulheres e ativistas, organizações de direitos humanos, de universidades e centros acadêmicos e iniciativas de justiça social, que manifestam o apoio às mulheres iranianas para reformar as leis e conseguir o mesmo estatuto dentro do Irã legal do sistema.

O que há? O que está havendo? Mulher é menos importante? A realidade: em cerca de 50 pesquisas do mundo inteiro, de 10% a 50% das mulheres relatam ter sido espancadas ou maltratadas fisicamente de alguma forma por seus parceiros íntimos, em algum momento de suas vidas; 60% das mulheres agredidas no ano anterior à pesquisa o foram mais de uma vez; 20% delas sofreram atos muito fortes de violência mais do que seis vezes.

No Brasil, a violência doméstica é a principal causa de lesões em mulheres entre 15 e 44 anos; 20% das mulheres do mundo foram vítimas de abuso sexual na infância; 69% das mulheres já foram agredidas ou violadas.

No Nordeste, 20% das mulheres agredidas temem a morte caso rompam a relação; no geral, 1/3 das mulheres agredidas continuam a viver com os seus algozes. E continuam sendo agredidas. É pau, é pedra, é o fim do caminho.

Estudos identificam, ainda, uma lista de “provocadores” de violência: não obedecer ao marido, “responder” ao marido, não ter a comida pronta na hora certa, não cuidar dos filhos ou da casa, questionar o marido sobre dinheiro ou possíveis namoradas, ir a qualquer lugar sem sua permissão, recusar-se a ter relações sexuais ou suspeitar da fidelidade, entre eles.

Até quando ficaremos assistindo a esse filme? Chega. Foi como li a conclamação da amiga e uma das mais respeitáveis profissionais de comunicação do país, Lalá Aranha, em seu Facebook: “Não posso entender como em pleno século XXI as mulheres brasileiras são tão molestadas. Precisamos fazer algo neste sentido. Quem me acompanha?”

Adivinhem quem foi a primeira a responder? Eis, assim, aqui, também, minha primeira contribuição.

São Paulo, onde as pessoas se isolam, na aridez e grandeza de suas dimensões, mas ainda podem ter seus gritos ouvidos, 2010.

• (*) Marli Gonçalves, jornalista. Inconformada. Espevitada e livre, fiquei feliz quando outro dia me contaram que debaixo da pesada burca as mulheres andam completamente nuas. Será verdade?
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O que une e separa Trump e Bolsonaro

Os dois tuiteiros têm muitas características em comum, mas há também grandes diferenças. Bolsonaro não esconde sua admiração pelo presidente dos EUA e quer transformar país norte-americano no principal aliado do Brasil.Trum,Bolsonaro,Blog do Mesquita,Brasil,USA,Estados Unidos,Política Internacional

    

A primeira viagem oficial do presidente Jair Bolsonaro provavelmente será também a mais importante. O encontro dele com o presidente dos EUA, Donald Trump, nesta terça-feira (19/03), cerca de cem dias após o início do mandato, marca uma reviravolta na política externa brasileira. Bolsonaro viaja a Washington para se oferecer como apoiador à “grande potência do norte”: no governo dele, os EUA deverão ser o principal aliado do Brasil.

Isso é algo novo: nunca um presidente brasileiro havia reconhecido de tal maneira a supremacia dos Estados Unidos, não só na América Latina como também na política mundial. Mesmo durante a Guerra Fria, quando militares mandavam no país, estes mantiveram mais distância dos EUA do que Bolsonaro agora pretende. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, chegou a chamar Trump de “salvação do Ocidente”.

No encontro entre Trump e Bolsonaro, a química pessoal entre os dois será decisiva, pois ambos são políticos impulsivos e coléricos. Eles não se deixam influenciar por seus assessores e raramente consideram estratégias de longo prazo ao agir. Se depender das semelhanças, o encontro tem tudo para ser um sucesso.

Afinal, Trump e o seu admirador dos trópicos são muito parecidos. Ambos usam com habilidade as redes sociais, que foram decisivas para convertê-los de outsiders a vencedores numa eleição presidencial. E ambos acabaram eleitos de forma surpreendente – também para si mesmos.

Assumir o aparato estatal foi, assim, um processo caótico em ambos os casos. As relações com o Congresso e o Judiciário são tensas – ambos consideram a divisão de poderes como supérflua e, no fundo, um estorvo. Os apoiadores os saúdam como salvadores que governam para o povo, ao contrário das odiadas elites políticas.

Tanto Trump como Bolsonaro utilizam, de forma consciente e estratégica, um linguajar antidemocrático, misógino, de desrespeito às minorias e de glorificação da violência para chamar a atenção, se impor na mídia e satisfazer seus apoiadores. Ambos glorificam o passado, quando tudo era supostamente melhor e mais bem ordenado. Ambos apoiam os lobbys das armas. São também antiglobalistas e não têm o menor pudor de chamar as mudanças climáticas de conto de fadas e as organizações internacionais, de importunas. Eles estão unidos no ódio e na rejeição às mídias tradicionais.

Ainda assim há grandes diferenças: Trump é um empresário e se apresenta como bem-sucedido e bilionário – ainda que ele esconda de propósito e de todas as maneiras suas reais posses da opinião pública. Ele é bem conectado, parte do establishment americano e uma celebridade da televisão. “Fechar acordo” é sua divisa máxima nos negócios – sempre com a intenção de levar vantagem, como expresso no slogan America first.

Bolsonaro, por sua vez, é um capitão da reserva de pouco sucesso na carreira militar. Quando já era capitão, passou 15 dias na prisão. Quando foi para a reserva, entrou para a política, onde passou décadas entre o chamado baixo clero e fez fama como defensor dos interesses dos militares aposentados, sem alcançar de fato destaque na política.

Ele não é exatamente bem conectado, com exceção dos militares e – pelo jeito – das milícias cariocas. Ao contrário de Trump, ele não tem o menor problema de dizer que não tem resposta para muitas perguntas.

Desproporcional é a imagem que um tem do outro: enquanto Bolsonaro admira Trump e não esconde isso, o americano não expressa a mesma veneração e encara o aliado inesperado como um presente, em defesa do qual ele não teve que, até agora, se expor. Isso deverá mudar agora.

À parte a admiração, Bolsonaro tem motivos políticos para sua visita: ele quer somar pontos junto a seus eleitores visitando “o homem mais poderoso do mundo”, pois os evangélicos veem com bons olhos que ele vai também se encontrar com fiéis. Já os empresários e investidores que apostam em Bolsonaro esperam que Trump apoie a entrada do Brasil na OCDE. Os EUA, até agora, foram contra.

E os militares, que são maioria no governo Bolsonaro, esperam que o Brasil se torne um parceiro estreito fora da Otan, um major non-Nato-Ally (MNNA). Com isso, eles poderão ter melhor acesso e financiamento a equipamentos militares dos Estados Unidos. Uma operação conjunta da base de Alcântara também é bem vista pelos militares.

A lista de pedidos dos brasileiros é longa – a dos EUA, curta. Nela consta sobretudo um tópico: Venezuela. Para Trump, o fim do regime de Nicolás Maduro é importante para ganhar votos na próxima eleição presidencial americana, daqui a um ano e meio. Para isso, ele precisa de todo apoio logístico, talvez também militar, que o Brasil puder oferecer.

Devido à simpatia mútua, as chances de que os dois presidentes iniciem uma nova era nas relações entre Brasil e Estados Unidos são boas. Quanto tempo elas poderão durar e o que poderão significar para outras regiões, como a Europa e a China, é completamente incerto.