A sociedade do Hiperconsumismo

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

Byung-Chul Han

O filósofo Byung-Chul Han em Barcelona
MASSIMILIANO MINOCRI EL PAÍS

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo, fala sobre suas críticas ao “inferno do igual” 

As Torres Gêmeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro… São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do CansaçoPsicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.

 

Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.

Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.

‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual… Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças… É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos… Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições… Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.

Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.

Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações… Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto… É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.

Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.

 

Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo… Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.

Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.

Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

O “MONSTRO” DA UNIÃO EUROPEIA

“Estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”, diz Byung-Chul Han, que viaja o necessário, mas não faz turismo “para não participar do fluxo de mercadorias e pessoas”. Também defende uma política nova. E a relaciona com a Catalunha, tema cuja tensão atenua brincando:

“Se Puigdemont prometer voltar ao animal original, eu me torno separatista”.

Já no aspecto político, enquadra o assunto no contexto da União Europeia: “A UE não foi uma união de sentimentos, mas sim comercial; é um monstro burocrático fora de toda lógica democrática; funciona por decretos…; nesta globalização abstrata acontece um duelo entre o não lugar e a necessidade de ser de um lugar concreto; o especial é incômodo, gera desassossego e arrebenta o regional. Hegel dizia que a verdade é a reconciliação entre o geral e o particular e isso, hoje, é mais difícil…”. Mas recorre à sua revolução do tempo: “O casamento faz parte da recuperação do tempo livre: vamos ver se haverá um casamento entre a Catalunha e Espanha, e uma reconciliação”.

“Apesar do discurso de ajuste, Temer só eleva despesas desde que assumiu”

Para o economista, medidas do presidente interino são “completamente contraditórias” Gil Castello Branco, fundador da organização Contas Abertas. rn Gil Castello Branco, fundador da organização Contas Abertas.

Ao assumir a presidência em maio, Michel Temer afirmou que não estava preocupado com sua popularidade e que seu Governo interino “cortaria na carne” para tirar as contas do país do vermelho. No entanto, para o economista Gil Castello Branco, fundador e secretário-geral da organização Contas Abertas, em menos de dois meses no poder, Temer tem caminhado na contramão do seu discurso de austeridade.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O presidente interino já cede às pressões políticas para assegurar sua permanência, vivendo uma dicotomia entre o que seria racional do ponto de vista econômico e aquilo que é possível dentro do ambiente político. O pacote de bondades dos últimos dias – aumento aos servidores públicos, beneficiários do Bolso Família e a renegociação da dívida dos Estados -, que eleva fortemente os gastos, deve ter consequências graves, segundo Castello Branco, e tornar ainda mais distante a possibilidade da esperada retomada da economia brasileira no próximo ano.

Pergunta. O presidente interino Michel Temer vem concedendo um pacote de bondades em meio ao ajuste fiscal. Não é uma ação muito contraditória ao seu discurso inicial de austeridade?

Resposta. É completamente contraditório do ponto de vista racional. Michel Temer está vivendo um dilema em que ele está precisando se balizar pelo que seria racional do ponto de vista econômico e aquilo que é conveniente sob o ponto de vista político. Isso faz com que o dream team econômico, do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, sofra uma derrota fragorosa contra os políticos. O que se viu até agora de positivo foi uma tentativa de criar um teto de gastos para 2017, que seriam as despesas de 2016 corrigidas pela inflação, mas, por outro lado, vimos uma farra de aumento dos salários. Além disso, ele aprovou a renegociação das dívidas com os estados beneficiando as federações e [na semana passada] veio o reajuste do Bolsa Família, inclusive em porcentual maior do que a presidenta Dilma Rousseff havia prometido, passando de 9% para 12,5%.

P. Temer também assinou a Medida Provisória que libera 2,9 bilhões de reais para o Governo do Rio…

R. Sim. Desde que ele assumiu, o que temos, na verdade, é o crescimento de despesas. A explicação que a área econômica tem dado é que essas despesas estavam previstas na nova meta fiscal – que prevê um déficit de 170 bilhões de reais -, mas essa explicação não convence. É exatamente por conta dessas despesas exorbitantes que nós vamos chegar a esse resultado pífio. Com essa base que ele possui no Congresso, extremamente favorável à mudança de Governo, se ele quisesse mesmo seguir essa racionalidade econômica, poderia tentar fazê-lo. O problema é que nesse momento, sem dúvida nenhuma, essa relação política se sobrepõe sobre o ajuste fiscal.

P. Corremos o risco de que as medidas do ajuste fiscal não consigam ser aprovadas outra vez como aconteceu com Dilma?

R. Exatamente, se ele não conseguir fugir desse dilema, ele vai entrar no mesmo processo que entrou o Governo Dilma e o próprio ex-ministro da FazendaJoaquim Levy. Ninguém criticava a qualidade da equipe do Levy. As medidas estão postas, o diagnóstico já foi absolutamente concluído e não foi só agora, ele já tinha sido revelado há algum tempo. No próprio Governo Dilma isso já estava muito claro, já se sabiam as soluções. No entanto, as medidas nunca foram tomadas pela falta de ambiente político para que elas fossem implementadas. O que se vê agora, é mais uma vez essa situação: essa dicotomia entre o que seria racional do ponto de vista econômico e aquilo que é possível dentro da conjuntura política. Ele tem cedido a essas pressões do Congresso, naturalmente para fortalecer a sua situação, porque no momento ele ainda é interino. A primeira preocupação é ele sair da interinidade para conseguir solidificar a permanência. O receio é que depois do impeachment, caso ele seja aprovado, haja uma nova fase de estagnação dessas medidas já de olho nas eleições municipais deste ano. Aí já estaremos com outro horizonte. Esse jogo político acaba sempre se prolongando e o Presidente da República se vê obrigado a ceder politicamente em detrimento do ajuste, isso obviamente tem consequências.

P. Fica mais distante a possibilidade de uma retomada da economia no próximo ano?

R. Sim, a grande questão é como sair desse buraco fiscal que nós nos metemos. Não sairemos desse buraco com paliativos. São necessárias medidas duras. A própria reforma da Previdência, que todos nós aguardamos, também está em compasso de espera. Também se comenta que ela só será encaminhada ao Congresso depois das eleições municipais. Depois virá a proximidade do fim do ano, os parlamentares sairão de recesso… Quero imaginar que em algum momento, no entanto, ele terão que priorizar essa situação econômica. O problema é que eles exercem uma verdadeira chantagem, se valendo da fragilidade do presidente nesse momento, eles aprovam medidas que aumentam os gastos, sob a promessa que em algum momento serão tomadas medidas de contenção das despesas, como é o caso do teto. Mas o próprio mercado financeiro já discute a questão do teto. O que seria ele? A despesas de 2016 corrigida pela inflação. Mas, se essas despesas desse ano estão sendo exponencialmente elevadas, o teto não será nenhuma maravilha, se ainda vão ser corrigidas, não chega a ser nenhuma reforma fiscal de maior impacto. Por isso, o melhor seria que esse período interino fosse o menor possível. Essa fase de transição acaba gerando essa situação política.

P. O mercado financeiro já está reagindo negativamente ao Governo Temer?

R. As incertezas certamente já aumentaram, como já revelaram algumas pesquisas de opinião. Diminui a margem daquelas pessoas do mercado financeiro que acharam que ele conseguiria uma reforma vigorosa e que o Brasil voltaria a crescer de forma intensa a partir de 2018. Ou seja, não há mais a mesma expectativa. Esse passo de aumentar a Bolsa Família melhora a popularidade dele nessa questão social. Até porque ele se preocupa em agradar já que sua desaprovação é bastante semelhante à da Dilma. Também se preocupou em agradar os Estados, como foi visto com o reajuste da dívida que foi feito às pressas, o que também aconteceu com os servidores públicos do Judiciário. Ele está atuando com o radar político bastante afiado, mas causando descontentamento no mercado. O problema é que a peça fundamental da retomada do crescimento seria o retorno da confiança do empresariado que investiria mais, a recessão poderia abrandar, teria uma arrecadação melhor, dessa forma surgiria um espaço fiscal favorável até por conta da queda da inflação. E depois o Banco Central poderia reduzir os juros. Essa seria uma sequência que a equipe estava se apoiando nos primeiros discursos.

P. Quais deveriam ser as prioridades além da Reforma da Previdência para arrumar as contas?

R. Acho que as medidas são aquelas que o Governo Temer cogitou no início.Orçamento base zero, uma análise profunda de todos os programas que estão em andamento até para verificar a relação de custo benefício. Também é preciso discutir a desoneração, os incentivos fiscais. Tudo isso que era prometido no documento “Uma Ponte para o Futuro”, divulgado pelo PMDB,ainda não foi atacado com rigor. Se comenta que irão dar ênfase nas privatizações e concessões, que estão sendo tratadas por Moreira Franco, mas de concreto muito pouco aconteceu, gerando frustração do mercado. É o ônus que ele está carregando ao priorizar sua permanência. Além do pacote de bondades da economia, que eu prefiro chamar de maldades, há pacotinhos ou saquinhos que ele sinaliza que a questão política é predominante. E todos esses recuos aliados à Operação Lava Jato, porque não se sabe até aonde a investigação vai avançar, cria um clima que não é ideal.

P. Nessa semana a perícia técnica do Senado indicou não haver provas que Dilma tenha contribuído diretamente para as pedaladas. O senhor acredita que isso enfraquece o pedido de impeachment e pode alterar o desenrolar do processo?

R. Quem vinha acompanhando essa contabilidade criativa que a Dilma usava, sabe que é incontestável que ela tinha pleno domínio do que estava acontecendo. É claro que nas pedaladas você não encontraria uma assinatura dela, era previsível. Mas a pedalada não dependia de um ato dela, como foi na questão do crédito. Eram questões tratadas com o aval dela, mas sem assinatura. E se ela não pecou pela assinatura, pecou pela omissão. O assunto das pedaladas era discutido em todos os jornais do país e ela não se posicionou contrariamente. Essa perícia em nada altera, só vai permitir uma defesa mais enfática. Um argumento a mais, mas pífio. Atualmente, nem o PT quer a permanência dela. Então a turma que a defende faz por uma questão de compromisso. É mais fácil o PT salvar o partido sem ela. A Dilma já é um peso pesado, um cachorro morto, com uma desaprovação maior que 70% dos brasileiros. É muito mais fácil os petistas irem até 2018 como oposição, em um campo que sabe jogar.
Heloisa Mendonça/ElPais

Eleições 2010: Eventual governo de Dilma Rousseff irá ‘endurecer’ a política fiscal

A candidata “in pectore” do presidente Lula fez um complicado ‘rondó’ para explicitar que vai soltar o malho no lombo do infeliz contribuinte brasileiro.

Não sei bem quem disse que a maior prova de um governo incompetente é de prima hora, aumentar impostos. Independente de quem ganhe as eleições, a gastança com o dinheiro da ‘viúva’ terá que continuar, para ‘retribuir os ‘desprendidos’ apoios de partidos políticos e ‘desinteressadas’ doações às campanhas feita por patriotas empreiteiras.

Nenhum entoa a doce melodia que todos gostaríamos de ouvir: “vou reduzir impostos!”

Apesar de todo o trololó, anotem aí, quem vai pagar a conta no final é o pobre e depauperado aposentado Tupiniquim.

O Editor


Candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à sucessão, Dilma Rousseff, do PT, tem diferenças com seu tutor que, somente agora, ao fim da campanha, apareceram de forma mais clara. Em pelo menos quatro áreas, Dilma tem visões distintas à do presidente: política externa, equilíbrio fiscal, funcionalismo público e agências reguladoras.

Na maior parte dos casos, entretanto, seu programa de governo, refletido não só nos 13 compromissos firmados publicamente mas também em ideias e planos defendidos em entrevistas e pronunciamentos, representa a continuidade da atual gestão.

Na área fiscal, a candidata petista discorda do rumo tomado pelas contas públicas nos últimos dois anos, quando o governo Lula diminuiu drasticamente o superávit primário (conceito que exclui a despesa com juros da dívida). Ela reconhece que parte dessa diminuição ocorreu por causa da crise financeira internacional, mas não concorda com a ideia de o setor público funcionar além das suas possibilidades.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Para deixar claro seu compromisso com o equilíbrio das contas públicas a médio e longo prazo, Dilma pretende anunciar, se for eleita no domingo, meta de redução da dívida pública líquida para 30% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2014. Ela deve reiterar a promessa já na primeira entrevista ou pronunciamento como presidente eleita.

Hoje, a dívida está em 42% do PIB. Para que chegue a 30% em quatro anos, o governo terá que aumentar o superávit primário nesse período para algo entre 3,3% e 3,5% do PIB – no ano passado, o resultado foi de apenas 2% do PIB e, este ano, pode fechar em 3,3% graças à antecipação de receitas da exploração futura do petróleo da camada pré-sal.

“Chegar a 30% permite que tenhamos juros [básicos] muito próximos das taxas internacionais [em 2014]“, disse Dilma durante a campanha. A candidata tem outra obsessão na área fiscal que a distingue do que fez o governo Lula, especialmente no segundo mandato: ela quer manter a evolução dos gastos correntes abaixo do crescimento do PIB. “A Dilma sabe que gasto corrente atrapalha investimento”, sustenta um importante conselheiro da candidata.

Por razões políticas – ela quer evitar problemas principalmente com o PT -, Dilma, se eleita, não falará publicamente da necessidade de ampliação do superávit primário. Por isso, o recurso ao anúncio de uma meta de dívida. Seus propósitos quanto à necessidade de equilíbrio fiscal foram manifestados antes mesmo do início da campanha oficial.

“Fizemos o ajuste fiscal quando precisamos. Hoje, estamos numa situação em que não precisamos fazer ajuste como o de 2003, mas isso não quer dizer que não tenhamos a obrigatoriedade de controlar o gasto público, de saber qual é o gasto mais eficiente”, disse a candidata.

Também ao contrário de Lula, Dilma se preocupa com os gastos do governo com pessoal e aposentadorias. Na sua avaliação, o presidente estava certo quando decidiu recompor os salários do funcionalismo, mas acha que já passou da hora de se colocar um freio na evolução dessa despesa. A candidata, se for eleita, vai acionar sua base de apoio no Congresso para aprovar o projeto de lei que limita a evolução dos gastos com pessoal nos próximos dez anos.

Dilma pretende fazer, também, mobilização para passar a regulamentação da reforma da previdência do funcionalismo aprovada em 2003. Sua preocupação é com a explosão do déficit dessas aposentadorias, que, em 2010, deve chegar a R$ 50 bilhões, igualando-se ao rombo da Previdência Social. O projeto de regulamentação unifica os regimes de aposentadoria de servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada, prevê a criação de um fundo de pensão para complementar os benefícios dos funcionários, mas vale apenas para quem for contratado após a regulamentação.

Na política externa, Dilma desaprova a ação do presidente Lula e do Itamaraty no Oriente Médio, especialmente, a aproximação com o líder Mahmoud Ahmadinejad , do Irã. A candidata discorda também da política para os Estados Unidos e a Europa. Nos últimos dois anos, incentivado pelo Ministério das Relações Exteriores, Lula se afastou dos americanos e de se presidente, Barack Obama.

“Nossas parcerias tradicionais serão preservadas e ampliadas”, promete Dilma no item 13 do documento oficial em que firmou as diretrizes do seu programa de governo. O compromisso é a senha de que ela pretende se reaproximar dos EUA, estabelecendo com os americanos uma relação mais pragmática e proveitosa para o Brasil.

A candidata quer retomar o diálogo entre os dois governos, do qual participou por meio do Fórum de CEOs, com o objetivo de facilitar investimentos privados de parte à parte.

Quanto aos outros aspectos da política externa, particularmente a busca de uma cooperação Sul-Sul e do aprofundamento da integração sul-americana, tendência será mantê-los.

Um outro tema onde Dilma tem visão distinta à de Lula é o das agências reguladoras. O atual presidente acabou com a independência das agências, nomeou políticos sem qualificação técnica para comandá-las e, por fim, interferiu em suas decisões. A candidata do PT sabe que terá que acolher indicações dos partidos aliados, mas já tomou uma decisão: os afilhados políticos terão que ter qualificação para assumir cargos. Além disso, Dilma não pretende interferir nas deliberações das agências.

A independência das agências é precondição para a estabilidade de regras que, em última instância, ajuda a atrair investimentos para o país. Como o Brasil se prepara para realizar gastos vultosos em infraestrutura nos próximos anos, a candidata quer assegurar a existência de um ambiente de negócios favorável aos investidores.

Outra obsessão de Dilma é o aumento de investimentos não só do setor público, mas também da iniciativa privada. Ela quer reduzir drasticamente a taxação dos investimentos, que no Brasil chega a 20%, enquanto nos principais países ricos e em desenvolvimento varia de 5% a 7%. A ideia é criar mecanismos para estimular a poupança de longo prazo e, dessa forma, também o crédito de longo prazo.

Seu objetivo também é desafogar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que hoje responde, sozinho, por mais de 20% de todo o volume de crédito do sistema financeiro.

“A meta é elevar taxa de investimento público e privado”, disse Dilma num evento da campanha. “Não dá para só o BNDES financiar o setor privado. Precisamos de mais mercado de capitais, de outros mecanismos e de mais participação dos bancos.”

Ainda na linha de que as empresas brasileiras precisam de estímulos para aumentar o seu poder de competição com as concorrentes estrangeiras, a candidata pretende fazer, se for eleita, o que nenhum dos últimos quatro presidentes tentou e não conseguiu: uma reforma tributária.

Seu objetivo é unificar o ICMS, reduzir suas alíquotas, e devolver com agilidade créditos tributários que, hoje, só são retornados aos contribuintes no prazo de 12 meses. Dilma prometeu também desonerar a folha de pessoal das empresas.

“A reforma tributária é uma prioridade para dar maior competitividade à economia brasileira”, afirmou, durante encontro, em setembro, na Associação Comercial do Rio de Janeiro. “A devolução dos créditos hoje é em 12 meses, mas o Brasil não pode mais conviver com os resquícios do ajuste fiscal. Vamos desonerar o custo da folha e adotar legislação única para o ICMS”, prometeu. “Temos um caos tributário no Brasil”, acrescentou.

A candidata diz ter disposição, segundo informou um aliado, para mexer em outro vespeiro: o tempo de contribuição das aposentarias pagas pelo INSS. O plano não é propor uma reforma ampla, mas fazer mudanças tópicas, provavelmente por meio do aperfeiçoamento do fator previdenciário. O objetivo é dificultar os pedidos de aposentadoria precoce.

Cristiano Romero/VALOR