Elisa Lucinda – Versos na tarde – 30/04/2015

Poema
Elisa Lucinda¹

Adoro uma bobeira
uma palhaçada
uma palavra à margem
uma idéia engraçada
uma sacanagem
adoro a surpresa da piada
uma indecência boa
adoro ficar à toa fazendo trocadilhos obscenos
com sexo.
Adoro o que não tem nexo
e por isso faz rir
adoro a bobagem pueril
a coisa que não tem rumo
que de repente me escolhe
e me olha.
Preciso da besteira para obter a glória!

¹Elisa Lucinda
* Vitória, ES. – 2 de Fevereiro de 1958 d.C


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Emily Dickison – Versos na tarde – 09/01/2015

Poema
Emily Dickison ¹

Para o Ódio nunca tive –
Tempo –
pois que a Morte espreita –
E a vida nunca foi
tanta
Que uma Aversão se acabasse.

Nem tempo tive de Amar –
Ocupar-me
Era preciso –
Do amor o simples Trabalho –
Como achei –
Que Me bastava.

¹ Emily Dickinson
* Boston, Usa – 10 de Dezembro de 1830 d.C
+ Boston, Usa – 15 de Maio de 1886 d.C

>> biografia

Nota do Editor
O poema acima foi extraído do livro “Emily Dickinson: Alguns Poemas”.

Tendo vivido e produzido à margem dos círculos literários de seu tempo, solteira por convicção e auto-exilada dentro de casa por mais de vinte anos, Emily Dickinson não chegou a publicar os seus versos, por não se submeter aos rígidos padrões de discrição e singeleza que se esperava então de uma mulher.

Sua voz era uma voz estranha em meio às tímidas dicções poéticas da época, e por essa razão ela teve de encarar em vida a rejeição de seu labor poético. Ao arrumar o quarto de Emily depois que ela morreu, a sua irmã Lavinia encontrou uma gaveta cheia de papéis em desordem.

Eram cadernos e folhas soltas com uma grande quantidade de poemas inéditos. Disposta a divulgar a obra da irmã, Lavinia entrou em contato com um medíocre crítico literário, Thomas Higginson, que durante trinta anos renegou todos os versos que Emily lhe submetera, e uma obscura escritora, Mabel Todd, que por cinco anos havia freqüentado a casa da poeta sem nunca chegar sequer a vê-la.

Dessa improvável união de forças surgiu a publicação póstuma de alguns de seus poemas, seguida em pouco tempo de diversas outras edições, em vista da excepcional acolhida que tiveram.

Em 1955, o crítico e biógrafo Thomas H. Johnson reuniu numa edição definitiva todos os seus 1.775 poemas.

Sua escrita poética, ambígua, irônica, fragmentada, aberta a várias possibilidades de interpretação, antecipa, sob muitos aspectos, os movimentos modernistas que se sucederiam depois de sua morte. Essa instigante poesia, nascida na solidão e no anonimato dá hoje a Emily Dickinson um merecido e lugar na literatura universal.

Seus versos constam da coletânea “The Complete Poems of Emily Dickinson”, editada por Thomas H. Johnson, Cambridge, Mass (EUA), 1955.


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Maria Teresa Horta – Versos na tarde – 13/10/2014

Os silêncios da fala
Maria Teresa Horta ¹

São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de silex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor.

¹ Maria Teresa Mascarenhas Horta
* Lisboa, Portugal – 20 de Maio de 1937 d.C


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Francisca Júlia da Silva – Versos na tarde – 08/07/2014

Musa Impassível I
Francisca Júlia da Silva ¹

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

do livro Mármores – 1895

¹ Francisca Júlia da Silva Munster
* Vila de Xiririca, São Paulo – 1871 d.C
+ Vila de Xiririca, São Paulo – 1920 d.C

Nasceu na antiga Vila de Xiririca, hoje Eldorado, no vale do Ribeira, São Paulo. Poeta do Impassível, valendo-se de uma linguagem e de figuras mitológicas e históricas próprias de um gosto parnasiano, encantou os seus contemporâneos. Seus últimos poemas já denotam algumas tendências ao simbolismo. Sobre seu túmulo está a estátua da “Musa Impassível”, de Victor Brecheret, em homenagem a um de seus poemas mais famosos.

Obra poética:
Mármores (1895), Livro da Infância (1899), Esfinges (1903), Alma Infantil (com Júlio César da Silva, 1912), Esfinges – 2º ed. (ampliada, 1921),
Poesias (organizadas por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1962).


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Olga Savary – Versos na tarde – 07/04/2014

Água Água
Olga Savary ¹

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta.

¹ Olga Savary
* Belém, PA. – 1933 d.C
Biografia

Poeta, crítica, ensaísta, tradutora e jornalista, foi agraciada com vários prêmios. Traduziu Borges, Cortázar, Neruda, Semprún, Bashô, Issa… Organizou várias antologias de poesia. Representou o Brasil no Poetry International 1985, em Roterdam. Desde 1947, o seu trabalho é inteiramente dedicado à literatura, sendo membro do PEN Club, da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI e do Instituto Brasileiro de Cultura Hispânica.

Foi a primeira mulher presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Rio de Janeiro em 1997-98. Foi nomeada “Mulher do Ano” pelo jornal O Globo, em 1975 e pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, em 1996. Em 1998, a Fundação Biblioteca Nacional presta homenagem à poetisa numa edição da sua Obra Reunida em Repertório Selvagem.

É viúva do jornalista e escritor Paulo Francis.

Da sua obra destacamos: Espelho provisório, Livraria José Olympio Editora, 1970; Magma, Massao Ohno/Roswitha Kempf – Editores 1982; Morte de Moema, Impressões do Brasil, 1996. Xilogravura original de Marcos Varella.


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Emily Dickinson – Versos na tarde – 27/03/2014

Dentre todas as Almas já criadas
Emily Dickinson ¹

Dentre todas as Almas já criadas –
Uma – foi minha escolha –
Quando Alma e Essência – se esvaírem –
E a Mentira – se for –

Quando o que é – e o que já foi – ao lado –
Intrínsecos – ficarem –
E o Drama efêmero do corpo –
Como Areia – escoar –

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem –
E a Neblina – fundir-se –
Eis – entre as lápides de Barro –
O Átomo que eu quis!

Extraído do livro “Emily Dickinson: Alguns Poemas”.

¹ Emily Dickinson
* Boston, Usa – 10 de Dezembro de 1830 d.C
+ Boston, Usa – 15 de Maio de 1886 d.C

>> biografia de Emily Dickinson


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Lília Chaves – Versos na tarde – 23/03/2014

Poema
Lília Chaves ¹

O meu poema é feito
para ser imagem
(sem ser visto)
e falar pelo silêncio
de um suspiro refletido.
É lido para ser pensado
e viver no pensamento adormecido
como um vôo de pássaro que passou.

É essa passagem absoluta que ficou.

O meu poema
é um jeito de fechar os olhos

¹ Lilia Silvestre Chaves
Poeta, professora de Literatura Francesa.
Autora de ensaios sobre teoria literária e do livro de poemas “E todas as orquestras acenderam a lua”.


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Adelina Lopes Vieira – Versos na tarde – 27/02/2014

É tarde
Adelina Lopes Vieira ¹

Na sombra, assim, esconde-te alma triste,
não procures o sol que esplende, fora,
Oh! Não te aquecerá, da tua aurora,
do teu dia de luz, já nada existe.

Se a um raio ousado e quente o selo abriste,
se a tua noite te horrorisa agora,
pensa que é tarde, e soluçando chora
que as lágrimas são balsamo. Resiste!

Lembram-te sei, alfombras orvalhadas
todas cheias de luz e de violetas,
as pombas pelo azul em revoadas,

as ondas do mar alto, irrequietas,
as montanhas ao longe, illuminadas…
Morre! Mas cala as maguas indiscretas.

¹ Adelina Amélia Lopes Vieira
* Lisboa, Portugal – 1850 d.C
+ Lisboa, Portugal – ? d.C


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Clarice Lispector – Versos na tarde – 23/02/2014

Precisão
Clarice Lispector ¹

O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.

Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.

¹ Clarice Lispector
* Ucrânia – 10 de Dezembro de 1920 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ – 9 de Dezembro de 1977 d.C

>> biografia de Clarice Lispector


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