Literatura,Poesia,Frases,Blog do Mesquita (3)

Luiza Jorge Neto – O poema ensina a cair

O Poema Ensina a Cair
Luiza Jorge NetoBlog do Mesquita,Escultura,Arte

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Eolo,Mitologia,Grécia,Artes Plásticas,Blog do Mesquita

Ricardo Reis – Inutilmente parecemos grandes

Inutilmente parecemos grandes
Fernando Pessoa/Ricardo Reis

O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Eolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
Águas franze Netuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com razão nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me fará o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?

Joaquim Pessoa,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

Joaquim Pessoa – Literatura

Conta Comigo SempreJoaquim Pessoa,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita
Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.
O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.
 
Joaquim Pessoa, in ‘Ano Comum’
Nicolas Malebranche,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

Nicolas Malebranche – O Efeito da Reputação

O Efeito da ReputaçãoNicolas Malebranche,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

Tudo o que nos proporciona uma certa elevação em relação aos outros porque nos torna mais perfeitos, como, por exemplo, a ciência e a virtude, ou porque nos confere uma certa autoridade sobre eles tornando-nos mais poderosos, como as honras e as riquezas, parece fazer-nos independentes em certa medida.

Todos os que estão abaixo de nós nos temem e reverenciam; estão sempre prontos a fazer o que nos agrada para a nossa preservação, e não ousam prejudicar-nos ou resistir aos nossos desejos. […] A reputação de ser rico, culto e virtuoso produz na imaginação daqueles que nos cercam ou dos que nos são mais íntimos disposições de espírito que são muito vantajosas para nós.

Ela deixa-os prostrados aos nossos pés; instiga-os a nos agradar; inspira neles todos os impulsos que tendem à preservação da nossa pessoa e ao aumento da nossa grandeza. Assim, os homens preservam a sua reputação tanto quanto necessário a fim de viver confortavelmente neste mundo.

Nicolas Malebranche, in ‘Procura da Verdade’

Pablo Neruda,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

Pablo Neruda – Literatura

A Minha Mulher, Matilde UrrutiaPablo Neruda,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

A minha mulher é provinciana como eu. Nasceu numa cidade do Sul, em Chillán, famosa pela sorte de possuir uma bela cerâmica camponesa e pela infelicidade de sofrer frequentemente terríveis terramotos. Falando para ela, disse-lhe tudo nos meus Cem Sonetos de Amor.
Talvez estes versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos juntaram.

Embora isto não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos o nosso tempo comum em longas permanências na solitária costa do Chile. Não no Verão, porque o litoral ressequido pelo sol se mostra amarelo e desértico; antes no Inverno, quando, em estranha floração, a terra se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e de púrpura. Subimos algumas vezes do solitário e selvático oceano para a nervosa cidade de Santiago, na qual sofremos juntamente com a complicada existência dos outros.

Matilde canta com voz poderosa as minhas canções.
Eu dedico-lhe quanto escrevo e quanto tenho. Não é muito, mas ela está contente.
Vejo-a agora a enterrar os sapatos minúsculos na lama do jardim e, em seguida, a enterrar também as suas minúsculas mãos na profundidade da planta.
Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores, todos os frutos fragantes da felicidade.

Pablo Neruda, in “Confesso que Vivi”

Miguel Torga,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

Miguel Torga – Poesia

Conquista
Miguel TorgaMiguel Torga,Poesia.Literatura,Blog do Mesquita

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Alexandre O'Neill,Poesia,Literatura

Alexandre O’Neill – Poesia

O Poema Pouco Original do Medo
Alexandre O’NeillAlexandre O'Neill,Poesia,Literatura

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Edmund Waller – Poesia

Canção
Edmund Waller

Vai, rosa linda,
a quem, sem dó de mim, protela
o amor ainda,
diz-lhe que te comparo a ela
porque eu a julgo doce e bela.

Diz-lhe em seguida,
pois moça e avessa a ser olhada,
que a flor nascida
nalgum deserto em meio ao nada
há de morrer sem ser louvada.

Longe da luz,
beleza alguma tem valor:
por isso a induz
a que se deixe amar, a expor
os seus encantos sem rubor.

E morre para
que ela então veja o fim das coisas
— mesmo a mais rara —;
que, embora durem quanto as rosas,
são belas, doces e graciosas.

Tradução de Nelson Ascher

David Mourão-Ferreira – Versos na tarde

Litania da sombra.
David Mourão-Ferreira

Não perguntem nada: nós estamos dentro
do aro de frio, no frio do muro,
tão longe, tão longe da feira do Tempo!
Não perguntem nada.
Nós estamos mudos.

Puseram açaimes nas ventas do vento,
ergueram açudes nas águas do Mar…
Não perguntem nada: nós estamos dentro,
ou fora de tudo.
Não perguntem nada.

Tumulto na estrada? O bicho na concha.
Miséria na casa? O farol na montra.
Não perguntem nada, não perguntem nada:
há sempre de gládios
a ríspida sombra.

Não perguntem nada: as razões são longas.
Não perguntem nada: as razões são tristes.
Não perguntem nada: nós estamos contra.
E talvez perdidos.
E talvez perdidos.

David Budbill – Versos na tarde – 02/09/2015

Os três objetivos
David Budbill¹

O primeiro objetivo é ver a coisa em si,
nela e por ela,vê-la simples e claramente
pelo que ela é.
Nenhum simbolismo, por favor.

O segundo objetivo é ver cada coisa em particular
como una, uma só, entre todas as outras
dez mil coisas.
Deste ponto de vista, algum vinho ajuda imenso.

O terceiro objectivo é vincular o primeiro e o segundo objetivos,
ver o universal e o particular
em simultâneo.
Quanto a este, chama-me quando o alcançares.

¹ David Wolf Budbill
* Cleveland, Ohio – 1940 d.C


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