Por que os EUA têm os piores índices de pobreza do mundo desenvolvido

Dois meninos olham para foto, em área de banco de alimentos
Milhares de famílias dependem da ajuda de bancos de alimentos nos EUA – Direito de imagem GETTY IMAGES

Este é um dos grandes paradoxos dos nossos tempos: os Estados Unidos, país mais rico do mundo, têm alguns dos piores índices de pobreza no grupo dos países desenvolvidos.

Mais de meio século depois que o presidente Lyndon B. Johnson declarou “guerra incondicional à pobreza”, os EUA ainda não descobriram como vencê-la.

Desde a declaração de Johnson, em 1964, o país teve conquistas surpreendentes, como chegar à Lua ou gestar a internet. Entretanto, nesse período, conseguiu uma tímida redução no índice de pobreza, que caiu de 19% para cerca de 12%.

Isso significa que quase 40 milhões de americanos vivem abaixo da linha oficial de pobreza.

O problema é muito maior e mais antigo do que se vê na atual pandemia do novo coronavírus, que também vem revelando e intensificando questões sociais do país — os EUA têm o maior número de casos de covid-19 no mundo e agora enfrentam os piores níveis de desemprego desde a Grande Depressão de 1930.

Até hoje, segundo estudiosos, o aumento da pobreza foi contido nos EUA graças a uma expansão histórica de subsídios do governo.

Mesmo antes da crise na saúde, o país já destinava anualmente bilhões de dólares a programas de combate à pobreza, em quantias até maiores do que o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns países da América Latina.

“Essa é a ironia: seria uma coisa se fôssemos um país pobre e realmente não pudéssemos fazer muito a respeito. Mas temos os recursos”, diz Mark Rank, professor da Universidade de Washington em St. Louis, considerado um dos maiores especialistas em pobreza nos EUA.

Questão cultural: o tabu do fracasso individual

Homem e mulher consertando bicicleta em acampamento
Nos EUA, 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza – Direito de imagemAFP

Pesquisadores apontam para duas razões fundamentais por trás da pobreza nos Estados Unidos: uma tem a ver com simbologia e a outra é pragmaticamente econômica.

Primeiro, os EUA carecem de uma rede de assistência social forte ou programas de apoio à renda como outros países.

Os programas de assistência social que os Estados Unidos implementaram nas últimas décadas, como vale-alimentação ou seguro desemprego, permitiram reduzir em alguns pontos a pobreza, mas são considerados limitados.

Fatores culturais são geralmente lembrados para explicar isso.

“Nós tendemos a ver a pobreza nos EUA como um fracasso individual, ou seja, como se as pessoas não tivessem trabalhado duro o suficiente. Como se tivessem tomado decisões ruins ou não tivessem talento o suficiente. Assim, é algo como: cabe a você se erguer”, afirma Rank.

“O resultado é que realmente não fazemos muito em termos de políticas sociais para tirar as pessoas da pobreza.”

Somam-se a isso as desigualdades raciais: as minorias sofrem desproporcionalmente no país.

Enquanto 11% das crianças brancas nos EUA vivem na pobreza, essa taxa chega a 32% para crianças negras e 26% para crianças latinas, segundo dados do censo levantados pelo Centro de Dados Kids Count.

“A pobreza é frequentemente vista como um problema para os não-brancos, e isso também reduz a vontade de ajudar os outros”, diz Rank.

“Existem estudos mostrando que em países mais homogêneos em termos de raça e etnia, existe uma rede de segurança mais robusta, porque as pessoas veem os outros como semelhantes — tendo maior probabilidade de querer ajudar.”

Pessosas negras em fila para receber alimentosDesigualdade nos EUA é ainda mais presente e sofrida entre os negros. Direito de imagem GETTY IMAGES

Maior desigualdade

Por outro lado, especialistas apontam para um fator econômico: a deterioração do mercado de trabalho americano para aqueles com salários mais baixos, que representam cerca de 40% do total e sofreram perdas em seus ganhos reais nas últimas décadas.

As razões vão do enfraquecimento dos sindicatos às transformações tecnológicas.

Assim, a desigualdade de renda e riqueza nos EUA aumentou e é maior do que em quase qualquer outro país desenvolvido, de acordo com o Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas em Washington.

Christopher Wimer, codiretor do Centro de Pobreza e Política Social da Universidade de Columbia, argumenta que, nos EUA, “as oportunidades no mercado de trabalho tendem a ir para pessoas com formação superior e que se beneficiaram do crescimento econômico”.

“E grande parte desse crescimento econômico não foi compartilhado nas faixas de renda ou escolaridade que vêm abaixo”, contou à BBC News Mundo.

Operadores em bolsa de valores de Nueva York
Apenas alguns segmentos da população americana, como aqueles com acesso ao ensino superior, se beneficiaram das conquistas econômicas do país nas últimas décadas
Direito de imagem GETTY IMAGES

‘Uma escolha política’

Mas houve sim, nas últimas décadas, alguns avanços sociais — como níveis mais altos de escolaridade e queda na mortalidade infantil.

Além disso, especialistas alertam que o cálculo do índice oficial de pobreza nos EUA se baseia apenas em renda, sem contar com auxílios do governo como créditos fiscais, cupons de alimentos ou assistência habitacional.

Um estudo recente de Wimer e outros pesquisadores de Columbia projetou que, sem ajuda emergencial aprovada na pandemia de coronavírus, a taxa de pobreza do país teria saltado de 12,5% antes da crise para 16,3%.

Mas esses benefícios, que incluem cheques semanais de US$ 600 a trabalhadores afetados pela pandemia, expiraram no final do mês. Sua continuidade depende de um acordo entre o Congresso e a Casa Branca.

Antes da covid-19, especialistas já alertavam que o país era condescendente com níveis muito altos de pobreza.

“Os Estados Unidos são um dos países mais ricos, poderosos e tecnologicamente inovadores do mundo. Mas nem sua riqueza, nem seu poder, nem sua tecnologia estão sendo usados ​​para resolver a situação em que 40 milhões de pessoas continuam vivendo na pobreza”, indicou no final de 2017 o então relator especial das Nações Unidas para a pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston.

Entre outras coisas, Alston observou que os EUA tinham a maior mortalidade infantil no mundo desenvolvido, que a expectativa de vida de seus cidadãos era menor e menos saudável do que em outras democracias ricas.

E também que sua pobreza e desigualdade estavam entre as piores no clube dos países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de uma taxa de encarceramento entre as mais altas do mundo.

“No fim das contas”, afirmou ele, “particularmente em um país rico como os EUA, a persistência da pobreza extrema é uma escolha política feita pelos que estão no poder”.

Criança na porta de uma casa pobre
No mundo desenvolvido, EUA também chama a atenção por indicadores preocupantes em relação às crianças
Direito de imagem GETTY IMAGES

Luke Shaefer, diretor da iniciativa Poverty Solutions da Universidade de Michigan, defende políticas mais simples nos EUA e com uma abordagem mais universal.

Um estudo realizado por ele e outros especialistas da universidade indicou que os Estados Unidos investem US$ 278 bilhões (mais de R$ 1,4 trilhões) por ano em programas governamentais de combate à pobreza, sem contar os gastos com saúde.

Somando-se programas de saúde para os mais pobres, como o Medicaid, o investimento anual chega a US$ 857 bilhões (mais de R$ 4,4 trilhões), ou seja, mais do que o PIB da Argentina e do Chile somados.

“Muitos desses dólares não estão indo realmente para os mais pobres”, alerta Shaefer.

As eleições presidenciais de novembro podem dar aos EUA uma nova oportunidade para repensar como melhorar esses gastos, acreditam aqueles que se dedicam ao tema há anos.

“Existem pessoas da esquerda e da direita falando que essa abordagem (atual) não está funcionando. Temos que fazer algumas coisas de maneira diferente, precisamos simplificar”, diz ele.

Economia,Blog-do-Mesquita,Bancos,Finanças 02

Coronavírus: crise causada pela pandemia levará 30 milhões de latino-americanos à pobreza

Para especialista, mulheres e os novos pobres serão os mais prejudicados pelos efeitos econômicos e sociais da pandemia do novo coronavírus.


Direito de imagemAFP
A secretária-executiva da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Alicia Bárcena, disse que as mulheres e os novos pobres serão os mais prejudicados pelos efeitos econômicos e sociais da pandemia do novo coronavírus.

Em entrevista ela disse que na quarentena muitas sofrem violência de gênero. Além disso, as mulheres têm tido jornadas mais longas, com tarefas extras como a maior atenção às crianças em casa, já que elas estão sem aulas.

E, muitas vezes, estas tarefas são somadas, em função da pandemia, ao trabalho em esquema de home office. A pandemia mostrou ainda que mais de 70% dos profissionais da área de saúde são mulheres e é hora de cuidar ainda mais delas, disse.

Bárcena repassou as novas projeções econômicas da Cepal para a América Latina, com uma queda de 5,3% do PIB da região, que é a pior da sua história desde a Grande Depressão na década de 1920.

A queda empurrará quase 30 milhões para a pobreza na América Latina, incluindo aqueles que tinham saído da pobreza na época do boom das commodities, até 2014.

Os dados da instituição ligada às Nações Unidas (ONU) foram feitos a partir da previsão de queda de 3,8% do PIB da Estados Unidos, a maior economia do mundo. A situação poderia ser mais grave, admitiu Bárcena, se o comportamento da economia americana for pior, como prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI).

BBC News Brasil – Devido aos efeitos da pandemia do novo coronavírus, a economia da América Latina cairá 5,3% e a da América do Sul cerca de 5,2% neste ano, segundo o relatório da Cepal. A economia regional já tinha problemas, com baixo crescimento ou recessão, dependendo do país…

Alicia Bárcena– É verdade. A região já vinha com crescimento baixo e suas políticas fiscais tinham espaços limitados. Existem fatores internos e externos que afetaram a região, ainda mais agora na pandemia.

Do ponto de vista externo, a queda enorme dos sócios comerciais da região, como China, Estados Unidos e Europa. São economias que frearam suas demandas agregadas e houve um desabamento das exportações da nossa região (para estes sócios comerciais).

Em segundo lugar, houve uma queda nos preços das commodities. Veja o caso do petróleo, por exemplo. Mesmo falando de preços no mercado futuro, este é um produto muito importante para a região, principalmente a América do Sul (Venezuela e Brasil, por exemplo) e México que são exportadores de petróleo e de commodities em geral.

Em terceiro lugar, temos a forte queda do turismo. Obviamente, não há viagens, voos, enfim.Direito de imagem EPA/MARCELO MACHADO DE MELO
Comércio fechado na região central de São Paulo

E em quarto lugar, temos a queda das remessas (de imigrantes para seus familiares) e isso afeta, principalmente, a América Central e o México. E, por último, há uma grande aversão ao risco por parte dos movimentos financeiros (que buscam os Estados Unidos, por exemplo).

Na nossa região, entre 2018 e 2019, houve uma diferença de menos US$ 80 bilhões de financiamento e saída de capitais da região. Ou seja, existem os efeitos da pandemia na região e no mundo inteiro, mas nossa região já vinha com problemas.

BBC News Brasil – No relatório da Cepal, afirma-se que o desemprego será de cerca de 11% e que a pobreza aumentará. Com isso, surgem os novos pobres. Aqueles que já tinham saído das classes D ou E e chegado a C estão em risco pelo efeito da pandemia?

Bárcena– Acho que o aumento da pobreza virá exatamente destes setores que tinham conseguido sair da pobreza e da pobreza extrema e que vão voltar a esta condição.

Além disso, pelo que vemos da problemática da América Latina e do Caribe, é que muita gente que saiu da pobreza continua num estado de muita vulnerabilidade. E já não têm o perfil para os programas de apoio dos governos como, por exemplo, o Bolsa Família, as transferências, que exigem certas condições, para os mais vulneráveis.

Com o aumento de 186 milhões para 214 milhões de pobres, estamos falando de quase 30 milhões de pobres a mais na região. Nesse número, está incluída a pobreza extrema. A região tinha conseguido avançar, mas agora estamos preocupados porque estamos numa situação de retrocesso.

BBC News Brasil – A pandemia leva a região para a época de antes do boom das commodities (2000-2014)?

Bárcena– Não sei se voltaremos a aquela época, de antes das commodities. Com o boom das commodities conseguimos tirar mais de 40 milhões de pessoas da pobreza. Mas, definitivamente, temos um problema. Estamos voltando a um quadro no qual a região já tinha deixado para trás.Direito de imagemREUTERS – Economias como a do México têm uma relação muito direta com os Estados Unidos, que sofrerá forte baque

BBC News Brasil – O desemprego chegará a cerca de 11,5% na região, após incremento de 3,4% em relação a 2019, e o numero de desempregados chegaria a 37,7 milhões, ainda de acordo com o relatório, e o PBI regional terá forte retrocesso. Mas a Cepal ressalva que isto ocorrerá se a economia americana recuar 3,8%. O que pode acontecer então se a queda da economia dos Estados Unidos for ainda maior?

Bárcena– Se a economia americana (a maior do mundo) cair mais, o impacto na região será muito severo. E, principalmente, para economias como a do México e as da América Central que têm uma relação muito direta com os Estados Unidos.

Nós fizemos nossa projeção com este índice de 3,8%, mas o Fundo Monetário Internacional fez projeção de (queda) de 5,9%. A situação seria muito mais complicada.

BBC News Brasil – Quais são as alternativas para tentar amenizar a tragédia social na região?

Bárcena– Uma das coisas que já estão fazendo na região é proteger o emprego e os salários. Acho que essa é a parte mais importante das medidas que estão sendo tomadas pelos países. Manter o emprego dos trabalhadores formais, mas também dos informais.

A região tem 53% de pessoas que trabalham na informalidade. Essas pessoas também precisam de apoio. E as pequenas e médias empresas também precisam de proteção. Porque é importante evitar a perda da capacidade produtiva da região.

Na década de 1980, a década perdida da América Latina, levamos cinco anos para recuperar a renda per capita, entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990. Mas demoramos 25 anos para recuperar as cifras de pobreza.

O fundamental é proteger os mais vulneráveis. Em 2002, a região tinha cerca de 226 milhões de pobres e a região conseguiu diminuir esta cifra fortemente entre 2002 e 2014. E chegou a ter, em certo momento, 174 milhões de pobres. E agora estamos falando de 214 milhões de pobres (como efeito da pandemia).

BBC News Brasil – Esse número de 214 milhões de pobres, com os cálculos feitos a partir da queda de 3,8% da economia americana?

Bárcena– Exato. De 186 milhões de pobres a 214 milhões de pobres na América Latina (não incluindo o Caribe). Estamos falando agora de um aumento de quase 30 milhões de pobres.

BBC News Brasil 30 milhões neste ano?

Bárcena– Sim, de aumento.REUTERS/ADRIANO MACHADO – Os restaurantes estão na lista de empresas que sofrer mais com a crise.

BBC News Brasil – Em que países, principalmente, estão estes 30 milhões de novos pobres? No Brasil? No México? Que são os maiores países da região?

Bárcena– É difícil precisar. Nós fizemos o cálculo a partir da elasticidade do crescimento e do emprego, a partir do PIB. Mas ainda estamos calculando país por país.

Entre os informais estão manicures, eletricistas, os que vivem de fazer bicos. Eles poderiam ser os novos pobres? A pandemia dificulta o trabalho de muitos deles.

As pessoas que trabalham por conta própria não têm contrato, não têm salários fixos. Têm que sair todos os dias para buscar sua fonte de renda. Por um lado, são trabalhadores informais. O setor informal inclui muitos segmentos como vendedores ambulantes e os independentes, por exemplo. E muitos são vulneráveis.

BBC News Brasil – Agora também se afirma que esta será uma década perdida para a América Latina. (O FMI disse, na semana passada, que a região poderia ter uma nova década perdida que iria de 2015 a 2025). Qual a diferença para aquela dos anos 1980? A tecnologia? Ou a atual poderia ser mais dramática com problemas como o aumento da violência?

Bárcena– A década perdida dos 1980 começou com os problemas da dívida e dos preços do petróleo. Foi uma combinação de crises, que incluiu os índices de inflação alta e hiperinflação em vários países da região.

Foram criadas desde então instituições econômicas muito mais sólidas, como bancos centrais independentes. Acho que a crise de agora é diferente. Não é de bancos, é de pessoas.

O problema público é global, uma pandemia muito letal e existe muita incerteza. Não sabemos quanto tempo vai durar, quando será realmente o pico. Não temos respostas. E os países estão tentando reagir com estímulos fiscais muito importantes, mas a magnitude da queda deste ano só nos levaria ao que aconteceu em 1914.

BBC News Brasil – A Grande Depressão.

Bárcena– Exatamente. É tão grave o que está acontecendo que deveríamos pensar naquele período, 1914-1930.

Para especialista, problemas internos impedem que a China seja motor da economia global depois da crise

BBC News Brasil – Pode ocorrer agora aumento da criminalidade a partir da maior gravidade da situação social?

Bárcena– Acho que é o que os governos estão tentando evitar. Tentam melhorar a renda dos mais vulneráveis para que não exista um circulo vicioso de pobreza, violência etc.

BBC News Brasil – Além dos auxílios que os governos da região estão dando aos mais vulneráveis, o que mais pode ser feito?

Bárcena– A renegociação das dívidas das pessoas físicas. Ou seja, são ações de emergência. Mas é importante pensar também como vamos fazer depois da pandemia, que não sabemos quanto vai durar. Uma saída importante é como o Brasil está fazendo com a renda básica (auxílio de emergência) e pensar no médio prazo quais serão os setores mais dinâmicos que podem coordenar com os demais setores.

Acho que se buscará cada vez mais diversificar a produção em setores da indústria, como a automotiva, por exemplo. E com o home office deveremos pensar em como reduzir também a desigualdade digital. A área digital será cada vez mais importante. E ainda intensificar a maior integração comercial na região.

BBC News Brasil – A China tem forte presença na região. Foi lá que foi detectado o novo coronavírus e o país não crescerá como antes. Este fato também preocupa e contribui para a situação econômica complicada da região?

Bárcena– Acho, sim, preocupante. Nós estimamos que a China não crescerá mais que 1,8%. A China é um dos principais sócios comerciais da região e por isso sua reativação é muito importante. Acho que a China não voltará a ser o motor que foi depois da crise de 2008. Mas ainda assim terá papel importante.

BBC News Brasil – Por que a senhora diz que a China não será o mesmo motor que em 2008?

Bárcena– Essa agora é uma crise diferente. No caso da China, muitas empresas ficaram paradas (por causa das medidas contra o novo coronavírus). Não sabemos como será sua recuperação, se terá ou não as mesmas cadeias de valor que tinha antes. Não sabemos. Em 2008 e em 2009, a China tomou medidas importantes, com estímulos fiscais e crédito. A China colocou muito dinheiro naquela recuperação.

BBC News Brasil – A senhora entende que o confinamento devido ao novo coronavírus provoca maior desigualdade de gênero. Por quê?

Bárcena– Primeiro, 71% das pessoas dos serviços médicos são mulheres. Ao mesmo tempo, aumentou a pressão contra as mulheres com a pandemia. Agora, elas são responsáveis pelos adultos, pelos idosos, pelas crianças. Elas devem apoiar seus filhos na parte escolar, porque às vezes os parceiros ajudam e às vezes não.

Aumentou a pressão contra as mulheres nas casas. Ou porque têm que fazer home office ou porque o trabalho aumentou porque as crianças não estão indo ao colégio. Então, elas têm uma pressão dobrada. Além disso, existe a violência doméstica e esse é um assunto muito preocupante nessa pandemia.

BBC News Brasil – A violência de gênero na quarentena. Feminicídio…

Bárcena– Feminicídio, exatamente. Elas são as que mais estão sofrendo os efeitos desta pandemia.

BBC News Brasil – Mas a presença de 71% de mulheres entre os profissionais da área de saúde não seria algo positivo?

Bárcena– Claro que é positivo. Mas por isso mesmo elas precisam de mais apoio e que a sociedade entenda que é muito importante apoiar as mulheres neste momento tão forte. Porque hoje as mulheres têm maior pressão e mais responsabilidade e são as que, de alguma maneira, mais estão sofrendo esta crise.

BBC News Brasil – Ou seja, sobrecarga de trabalho e salários baixos em comparação com cargos similares com homens.

Bárcena– Às vezes, elas não têm um salário fixo ou quando têm salário existe a diferença salarial com os homens. O que nos preocupa é o aprofundamento das desigualdades provocada pela pandemia. As mulheres, os povos indígenas, as pessoas que não têm nenhum tipo de assistência de saúde ou previdência social.

BBC News Brasil – A crise da pandemia evidenciou a necessidade de investimentos na saúde pública?

Bárcena– Sim. E como os países não estavam investindo o que era recomendável. A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que é preciso investir 6% do PIB e nossos países estão investindo cerca de 2% ou 2,5% do PIB na área da saúde. E isso é muito importante.

Da série: “A Vida Como Não Deveria Ser”

Índia e Castas¹ – Crianças da poeira

Arrastando tijolos, inalaram pó de argila , meninos intocáveis ​​da Índia negociar sua saúde para ninharia em olarias primitivas. Sem futuro além do trabalho , eles são vítimas de uma sociedade pobre demais para fazer cumprir as leis de trabalho infantil.
Foto: Eric Valli

¹Castas e divisões na Índia

Sistema de castas da Índia.

Define-se casta como grupo social hereditário, no qual a condição do indivíduo passa de pai para filho. O grupo é endógamo, isto é, cada integrante só pode casar-se com pessoas do seu próprio grupo.

Sendo que os grupos são:

  • os brâmanes (sacerdotes e letrados) nasceram da cabeça de Brahma;
  • os xátrias (guerreiros) nasceram dos braços de Brahma;
  • os vaixás (comerciantes) nasceram das pernas de Brahma;
  • os sudras (servos: camponeses, artesãos e operários) nasceram dos pés de Brahma.

À margem dessa estrutura social havia os cordeiros, que vieram da poeira debaixo do pé de Brahma. Mais conhecidos como párias, sem casta, eram considerados os mais atraídos por todas as castas. Hoje são chamados de haridchens, haryens, dalit, ou intocaveis. Com o passar do tempo, ocorreram centenas de subdivisões, que não param de se multiplicar.

A origem do sistema de castas é incerta. Segundo o hinduísmo, vem de Brahma, a divindade criadora do universo, mas parece ser proveniente da divisão entre os migrantes arianos — subgrupo dos indo-europeus que povoou a Península da Índia por volta de 1600 a.C., vindo do norte, pelo Punjabe — e os nativos (dasya), que se tornaram escravos. As primeiras referências históricas sobre a existência de castas se encontram em um livro sagrado dos indianos, o Manu, possivelmente escrito entre 800 a.C. e 250 a.C..

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Decrescimento econômico: da teoria à prática

Baseado na ideia de que os recursos do planeta um dia se esgotarão, conceito conquista cada vez mais adeptos mundo afora, com iniciativas como oficinas de bicicletas e hortas comunitárias.

Budapest Degrowth Konferenz Cyclonomia (DW/R. Russell)

Na oficina comunitária de bicicleta Cyclonomia, em Budapeste, todas as ferramentas e equipamentos são de propriedade comum.

Os cerca de 300 membros vão para a oficina, situada em um porão, não só para consertar suas bicicletas, mas também para construí-las. “Isso faz parte de um experimento em novas maneiras de relocalizar a economia”, diz o cofundador da oficina, Adrien Despoisse.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Ele explica que a “relocalização” tem a ver não só com a redução da energia necessária para o transporte, mas também com o fomento da cooperação de base, em uma escala onde as comunidades possam retomar o controle das economias locais. “A maioria das coisas que consumimos e usamos hoje em dia vem de longe, e não sabemos como elas são produzidas ou quão eticamente elas são produzidas”, reclama.

O objetivo maior do projeto é criar um experimento prático e vivo sobre como consumir menos e compartilhar mais. “A oficina de bicicletas é um dos primeiros passos na criação de um centro de decrescimento em Budapeste”, diz Despoisse.

O decrescimento é um movimento em ascensão, que está começando a ligar projetos comunitários, como a oficina de bicicleta, ao trabalho de economistas que procuram um futuro mais sustentável.

Vivendo dentro dos limites da Terra

Atualmente, poucos questionam a busca pelo crescimento econômico. Das políticas econômicas nacionais aos programas internacionais para o desenvolvimento sustentável, o crescimento tem sido o objetivo principal. Mas alguns economistas argumentam que, em um planeta com recursos finitos, talvez tenhamos de parar de crescer para sobreviver.

Oficina comunitária de bicicleta Cyclonomia, em BudapesteNa oficina comunitária de bicicleta Cyclonomia, em Budapeste, ferramentas e equipamentos são de todos

“Mais crescimento econômico significa cada vez mais material extraído da natureza, e cada vez mais desperdício depois que usamos esses materiais”, diz Giorgos Kallis, economista ecológico. “Com o atual nível de crescimento econômico – e com os níveis de crescimento almejados – não há como evitar mudanças dramáticas e catastróficas do clima.”

A ideia de que o crescimento econômico não pode continuar indefinidamente não é nova. Em 1972, muito antes de a mudança climática se tornar o assunto de cúpulas globais, um think tank chamado Clube de Roma publicou Os Limites do Crescimento, prevendo no livro que “os limites para o crescimento neste planeta serão alcançados dentro dos próximos cem anos”.

O livro provocou um debate de alto nível naquele tempo – mas suas ideias foram marginalizadas, enquanto os governos em todo o mundo apostavam cada vez mais no neoliberalismo e na economia de livre mercado.

Desafiando o consenso

Há décadas, o amplo consenso tem sido de que o crescimento econômico é a única maneira de tirar grandes setores da população global da pobreza. Mas com as crises ambientais se tornando uma ameaça urgente e evidências crescentes de que o fosso entre ricos e pobres está ficando maior, alguns estão começando a desafiar essa ideia.

Ashish Kothari, presidente do escritório do Greenpeace na Índia, afirma que na Índia as análises sugerem que o crescimento não conseguiu atender às necessidades dos pobres. “Na verdade, ele empobreceu recentemente dezenas de milhões de pessoas, porque os recursos delas foram tomados pela economia dominante”, ressalta. “E, é claro, ele não foi capaz de sustentar o ambiente biológico e físico de que todos dependem”, acrescenta Kothari.

Então quais são as alternativas? Envolvido no ativismo ambientalista de base na Índia desde a década de 1970, Kothari aponta para projetos de democracia direta, que colocaram as comunidades como responsáveis ​​por seu próprio futuro e seus próprios recursos. Estas ainda se baseiam em conceitos indianos antigos como swaraj, que Kothari interpreta como uma combinação de autonomia, liberdade e “responsabilidade com a comunidade”.

Em hortas comunitárias em Budapeste, moradores podem cultivar seus próprios legumesEm hortas comunitárias em Budapeste, moradores podem cultivar seus próprios legumes

Swaraj, como o ubuntu do sul da África e o buen vivír da América do Sul, é um dos muitos conceitos tradicionais ao redor do mundo que se concentram em valores como felicidade, carinho e convivialidade – qualidades que os defensores do decrescimento acreditam que estão faltando ao sistema econômico global.

Soluções descentralizadas

Esses são valores com os quais Monika Kertész, que dirige uma rede de hortas comunitárias em Budapeste, se identifica. Os moradores assumiram o controle sobre pedaços de terrenos baldios em seus bairros, onde as pessoas não só cultivam seus próprios produtos orgânicos, mas trabalham coletivamente de um modo que mantém a comunidade unida.

“Jardinagem é apenas uma parte”, diz Kertész. “Há ainda as amizades, confiança, maior conexão da comunidade. É realmente importante mostrar às pessoas como você pode fazer algo para seu próprio bem-estar.”

Jardins comunitários e oficinas de bicicletas podem parecer uma gota no oceano de desafios que nosso planeta enfrenta. Mas os defensores do decrescimento acreditam que o futuro reside em iniciativas descentralizadas, nas quais as pessoas desenvolvem soluções baseadas no conhecimento e nas necessidades locais e, ao fazer isso, ganham um sentido de propósito que não é definido pelos valores da economia de consumo.

“O decrescimento lembra que temos que criar um mundo melhor e um mundo mais igual – mas temos que fazer isso enquanto reduzimos a nossa pegada neste planeta”, alerta Kallis. “É um desafio viver com menos, mas melhor.”
FonteDW

Viagem ao Brasil mais pobre, o que sempre vota no PT

Belágua é a cidade mais miserável do país e a de maior apoio eleitoral a Dilma

Brasil mais pobre, que vota no PT
António José do Nascimento, em casa. Foto: ALBANI RAMOS
Antonio Jiménez BarcaANTONIO JIMÉNEZ BARCA – Belágua (Maranhão) 

Um dia, faz um mês, deixaram de construir a casa de Antônio José do Nascimento em Belágua, no Estado do Maranhão.

Os operários lhe explicaram que havia acabado o dinheiro do programa do Governo do Estado, e foram embora, com tudo pela metade: um esqueleto de casa sem serventia e um monte de tijolos que tostam sob o violento sol da uma da tarde destas latitudes quase equatoriais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Alguns meses antes, esses mesmos operários haviam contado a Nascimento, de 37 anos, com dois filhos, de 14 e 15 anos, e a mulher doente, que o Estado ia substituir seu velho casebre de barro e teto de palmeira, aqui chamado de taipa, por uma casa de tijolos e cimento, como parte de um programa que incluía outras cinquenta famílias miseráveis da cidade.

Belágua (uma rua asfaltada, um conjunto de casas e casebres dispersos, estradas de terra, ninguém entre uma e quatro da tarde, jegues presos com cordas às portas das casas, porcos e galinhas pelo caminho) é a cidade mais pobre do Brasil.

Com 7.000 habitantes, situada a 200 quilômetros da capital do Estado, São Luís, a localidade tem uma renda per capita média de 240 reais por mês, segundo o último censo, elaborado em 2010. A taxa de analfabetismo supera os 40%. Nascimento é um desses analfabetos. Sua mulher, derrubada na cama agora pela artrose, é outra.

Belágua (lojas diminutas que vivem indiretamente do Bolsa Família, crianças que lavam mandioca no rio) ostenta outro recorde nacional: a maior porcentagem de apoio eleitoral para Dilma Rousseff na última eleição.

Uma estranha unanimidade de 95%. Nascimento também se encaixa aí: votou no Partido dos Trabalhadores (PT) de Rousseff precisamente por causa da subvenção do Bolsa Família, instaurado pelo Governo Lula.

“Graças a isso seguimos em frente. Agora sei que tiraram Dilma do poder. Contaram-me, porque minha televisão queimou. Não sei o que vai acontecer conosco”, diz. Nascimento se refere não ao futuro do país em abstrato, mas ao futuro desses 381 reais por mês, vitais para sua família.

O Governo do presidente interino, Michel Temer, garantiu que vai respeitar certos programas sociais, incluindo esse, mas Nascimento, desconfiado e acostumado a que as coisas se saiam mal, olha de soslaio o projeto inacabado de sua casa inútil de tijolos sem data de término e seu rosto se enruga.

A secretaria de Estado das Cidades e Desenvolvimento Urbano do Governo do Maranhão, do Partido Comunista do Brasil (PC do B), reconhece, por meio de um comunicado, certos problemas com os materiais, mas diz que já deu ordens para que as casas sejam concluídas e os prazos sejam cumpridos.

Belágua é um exemplo fiel do Nordeste brasileiro, atrasado, pobre e resignado à sua sorte, que aceita a ajuda estatal um dia e com o mesmo fatalismo aceita no dia seguinte que a tirem.

Também um expoente da desigualdade descomunal que aflige o país: enquanto nos bairros nobres de São Paulo há quem suba em um helicóptero para contornar o congestionamento da tarde de sexta-feira, no abafado casebre de Nascimento, sem torneiras, a água é armazenada em um pote de barro tampado com um paninho de crochê.

Um casal com seu bebê no rio, a única fonte de água.
Um casal com seu filho banha-se no rio em Belágua. Foto: ALBANI RAMOS

Às vezes é até pior: seu vizinho Aderaldo Ferreira, de 36 anos –também em um casebre de barro e palha, também, na porta, com o absurdo monte de tijolos inúteis da casa prometida– nem sequer conta com os reais do Bolsa Família.

Aderaldo tem três filhos pequenos, um deles já na escola, mas, por um enrosco burocrático, a ajuda lhe foi negada, sem que ele saiba bem porquê. Mostra a carteira de identidade ao jornalista, como se isso servisse para demonstrar algo.

Também é analfabeto, também vive da mandioca que arranca todos os dias. Sua mulher, grávida, amamenta o filho pequeno sem dizer nem uma única palavra, muda e ausente, como se tanta desgraça junta não fosse com ela.

Perto, em outro casebre, Joana dos Santos, de 35 anos, tece tiras de folhas de palmeiras para pagar uma dívida, contraída dois anos atrás para arcar com um exame médico que custou 280 reais para uma filha acometida de uma estranha paralisia. Acabará de pagar em dezembro. “Se Deus quiser”, acrescenta. Três de suas filhas se postam ao lado. Tem oito. E três filhos. Uma faz a lição de casa. Outra, de 12 anos, olha o jornalista com curiosidade.

-Você vai à escola?

– Sim

– O que quer ser quando crescer?

– O que Deus me der.

– Você gosta da escola?

– Mais quando dão merenda.

Às quatro ou cinco da tarde, quando o sol deixa de torturar a rua, chegará o pai com a mandioca do dia: a velha mandioca que se transforma em farinha depois de triturada e tostada, como já faziam os índios antes de os portugueses chegarem.

Do Bolsa Família, Joana recebe por mês 562 reais. “Não é só o dinheiro. É que o dono da venda faz fiado porque sabe que vai receber. Quando não tínhamos [o dinheiro], não era assim: não me venderam um peixe porque me faltavam 50 centavos. Por isso, sempre votarei em Dilma e Lula.”

Aderaldo Ferreira da Silva e sua família.
Aderaldo Ferreira e sua família, em sua choça. Foto: ALBANI RAMOS

Na mesma Belágua há quem escape do círculo fechado da miséria, ignorância e mandioca. No outro extremo da localidade, Raimundo dos Santos, conhecido como Seu Cota (52 anos, 14 filhos, 14 netos) mantém e explora uma horta.

E vende alfaces, pepinos, tomates, batatas… Obteve no mês passado 1.500 reais por mês, uma soma que vai aumentar no mês que vem.

Conseguiu uma bomba d’água graças a uma subvenção do Maranhão, e alguns técnicos também do Estado o ensinaram a plantar e colher. Sua casa tem chão de lajota, uma televisão velha, mas que funciona, e sua mulher e filhos estão vestidos e sorriem.

Aderaldo Ferreira, o da mulher sem palavras, o da choça sem nada, o que mostra a carteira de identidade como o documento essencial, diz que ouviu falar desse Seu Cota, que irá visitá-lo uma tarde, que lhe perguntará como fez, como faz, e aponta para o outro lado da cidade, como se fosse o outro lado do mundo.
ElPais

Olimpídas: Tiro na favela. Esporte olímpico na Rio 2016?

A cem dias dos Jogos no Brasil, moradores das favelas do Rio de Janeiro sofrem o aumento da violência policial.

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Vitor Santiago Borges, ferido pela polícia, com sua mãe no complexo da Maré. AF Rodrigues

Por Angel Gonzalo da Anistias Internacional *
Conheci Vitor Santiago Borges, de 30 anos, prostrado em sua cama, em um quarto de dois metros por três no qual nos apinhávamos –eu, sua mãe (sentada em uma cadeira) e quatro colegas da Anistia Internacional (espalhados no pouco espaço livre que havia no chão).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Vive com os pais em uma humilde casa da comunidade de Vila do Pinheiro, pertencente ao Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, em um primeiro andar com degraus íngremes.

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Vitor ficou paraplégico depois que um grupo de soldados das Forças Armadas que ocupavam a Maré atirou no carro no qual voltava para casa, com quatro amigos, em 13 de fevereiro de 2015. A cama em que agora tem de passar todo o dia foi doada por sua comunidade. A cadeira de rodas, também. Não recebeu nenhuma indenização do Estado.

Eram duas da madrugada e os rapazes (um deles, militar) regressavam depois de ver uma partida de futebol de seu time, o Flamengo. Os cinco viajavam em um carro que cruzou sem problemas um primeiro posto de controle do Exército.

Seguiu avançando e, de repente, se escutaram os disparos. “Não lembro de nada. Somente o ruído dos tiros. E a dor que senti. E o sangue, claro. Muito sangue.” Não sabe quantos foram os tiros, mas que apenas cessaram quando seu amigo, sargento da Aeronáutica, conseguiu identificar-se.

Vitor foi atingindo por pelo menos duas balas de fuzil. Uma o acertou na coluna vertebral e outra se manteve alojada na parte posterior do ombro, e ali ficou durante vários meses depois de ser operado e receber alta.

Sua mãe a mostra para nós, envolta em uma bolsinha de plástico. Ele nos aponta os orifícios de entrada, ainda visíveis em seu torso nu. Como consequência dos disparos, perdeu a perna esquerda e parte do pulmão esquerdo. Quando chegou ao hospital os médicos lhe deram 7% de chance de sobrevivência. Conseguiu, mas só depois de passar uma semana em coma e mais de três meses no hospital.

Se não tivessem atirado nele, no dia seguinte teria ido à praia com a filha Beatriz, que então tinha dois anos. Havia prometido a ela, mas não pôde cumprir a promessa. Só sorri quando fala dela e nos mostra sua fotografia, em destaque em sua cama. Mal pode levantá-la desde que está nessa situação.

Um dos outros filhos de Irone, sua mãe, lhe telefonou e informou do tiroteio. “Por quê? Meu filho não é um bandido. Por quê? Não é possível. Vitor é um bom garoto. É músico e muito trabalhador. Nunca se meteu em confusão.”

A versão das autoridades difere da de Vítor. Afirmam que o carro no qual viajava quis atropelar um soldado que tentava bloquear sua passagem. De concreto, apresentaram acusações contra o condutor do veículo.

O amigo militar de Vitor nega essa versão. Vitor passou de vítima de um tiroteio a testemunha de uma tentativa de atropelamento. O mundo de cabeça para baixo.

Assim são as coisas na Maré. Ao contrário de outras favelas, não está localizada num morro, mas na parte plana e se assemelha a qualquer bairro marginal de qualquer outra grande cidade latino-americana. No entanto, é um dos maiores conjuntos de favelas do Rio de Janeiro.

Ali vivem cerca de 140.000 pessoas com poucos recursos e escasso acesso a serviços básicos, distribuídas em 16 comunidades. Suas ruas e acessos estão controlados por bandos de traficantes, forças de segurança ou paramilitares organizados em milícias. A maioria da população sobrevive como pode a essa situação. Há um clima assustador de violência e drogas em plena luz do dia.

Essa rede de submoradias se situa no norte, junto à principal via de acesso do aeroporto internacional ao centro. Foi ocupada em abril de 2014 por 2.700 soldados da Força de Pacificação, unidade federal. Chegaram “para garantir a lei e a ordem” pouco antes da celebração da Copa do Mundo de futebol em meados de 2014.

O Mundial durou um mês. Os militares permaneceram ali um ano e dois meses. Além das Forças Armadas e da Polícia Militar, existe uma corporação específica para recuperar o controle do Estado em territórios onde o narcotráfico e as milícias ditam suas normas paralelamente às instituições.

Trata-se das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e fazem parte da paisagem de dezenas de favelas do Rio desde 2008. No entanto, para os moradores seus resultados não são alentadores. As operações policiais para pacificar zonas de elevada criminalidade só se justificam se podem garantir os direitos de todos os cidadãos, a começar pelos moradores dos bairros marginalizados, algo que não tem ocorrido.

Organizações de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional, criticam a permanência do Exército e da Polícia Militar nas favelas. O que conseguiu foi aumentar as violações de direitos humanos e militarizar a vida cotidiana em algumas das comunidades mais pobres. As Forças Armadas não contam com formação adequada para esse tipo de operação e têm pouca experiência em dialogar com a sociedade civil.

Podia ter acontecido com qualquer um. Mas aconteceu comigo. E destruíram a minha vida

O Brasil possui uma das cifras de homicídios mais elevadas do mundo. Talvez por isso a mãe de Vitor considere que seu filho teve sorte. Entre 2005 e 2014 foram registrados 5.132 casos de homicídios cometidos por agentes que estavam em serviço no Rio.

Em 2015, foram pelo menos 307 as pessoas que morreram em mãos dos agentes em operações policiais. Desde o início de 2016 os homicídios resultantes de intervenções policiais na cidade aumentaram 10% e estamos a apenas 100 dias da inauguração dos Jogos Olímpicos.

Embora não seja possível relacionar diretamente este aumento dos homicídios policiais com os preparativos desse megaevento esportivo, os dados estatísticos põem em relevo um padrão inequívoco de uso excessivo da força, violência e impunidade que obscurece o trabalho das instituições de segurança pública.

“Os que vivem aqui são todos suspeitos. Isso não é justo. Poderia ter acontecido com qualquer um. Mas aconteceu comigo. E destruíram a minha vida”, lamenta Vitor.

*Ángel Gonzalo é jornalista de Anistia Internacional na Espanha. Em março de 2016 participou, junto a uma equipe da organização, de uma visita a algumas favelas do Rio de Janeiro. Ali entrevistou associações de direitos humanos e vítimas de violência das forças de segurança.