Da série: “A Vida Como Não Deveria Ser”

Índia e Castas¹ – Crianças da poeira

Arrastando tijolos, inalaram pó de argila , meninos intocáveis ​​da Índia negociar sua saúde para ninharia em olarias primitivas. Sem futuro além do trabalho , eles são vítimas de uma sociedade pobre demais para fazer cumprir as leis de trabalho infantil.
Foto: Eric Valli

¹Castas e divisões na Índia

Sistema de castas da Índia.

Define-se casta como grupo social hereditário, no qual a condição do indivíduo passa de pai para filho. O grupo é endógamo, isto é, cada integrante só pode casar-se com pessoas do seu próprio grupo.

Sendo que os grupos são:

  • os brâmanes (sacerdotes e letrados) nasceram da cabeça de Brahma;
  • os xátrias (guerreiros) nasceram dos braços de Brahma;
  • os vaixás (comerciantes) nasceram das pernas de Brahma;
  • os sudras (servos: camponeses, artesãos e operários) nasceram dos pés de Brahma.

À margem dessa estrutura social havia os cordeiros, que vieram da poeira debaixo do pé de Brahma. Mais conhecidos como párias, sem casta, eram considerados os mais atraídos por todas as castas. Hoje são chamados de haridchens, haryens, dalit, ou intocaveis. Com o passar do tempo, ocorreram centenas de subdivisões, que não param de se multiplicar.

A origem do sistema de castas é incerta. Segundo o hinduísmo, vem de Brahma, a divindade criadora do universo, mas parece ser proveniente da divisão entre os migrantes arianos — subgrupo dos indo-europeus que povoou a Península da Índia por volta de 1600 a.C., vindo do norte, pelo Punjabe — e os nativos (dasya), que se tornaram escravos. As primeiras referências históricas sobre a existência de castas se encontram em um livro sagrado dos indianos, o Manu, possivelmente escrito entre 800 a.C. e 250 a.C..

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Decrescimento econômico: da teoria à prática

Baseado na ideia de que os recursos do planeta um dia se esgotarão, conceito conquista cada vez mais adeptos mundo afora, com iniciativas como oficinas de bicicletas e hortas comunitárias.

Budapest Degrowth Konferenz Cyclonomia (DW/R. Russell)

Na oficina comunitária de bicicleta Cyclonomia, em Budapeste, todas as ferramentas e equipamentos são de propriedade comum.

Os cerca de 300 membros vão para a oficina, situada em um porão, não só para consertar suas bicicletas, mas também para construí-las. “Isso faz parte de um experimento em novas maneiras de relocalizar a economia”, diz o cofundador da oficina, Adrien Despoisse.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Ele explica que a “relocalização” tem a ver não só com a redução da energia necessária para o transporte, mas também com o fomento da cooperação de base, em uma escala onde as comunidades possam retomar o controle das economias locais. “A maioria das coisas que consumimos e usamos hoje em dia vem de longe, e não sabemos como elas são produzidas ou quão eticamente elas são produzidas”, reclama.

O objetivo maior do projeto é criar um experimento prático e vivo sobre como consumir menos e compartilhar mais. “A oficina de bicicletas é um dos primeiros passos na criação de um centro de decrescimento em Budapeste”, diz Despoisse.

O decrescimento é um movimento em ascensão, que está começando a ligar projetos comunitários, como a oficina de bicicleta, ao trabalho de economistas que procuram um futuro mais sustentável.

Vivendo dentro dos limites da Terra

Atualmente, poucos questionam a busca pelo crescimento econômico. Das políticas econômicas nacionais aos programas internacionais para o desenvolvimento sustentável, o crescimento tem sido o objetivo principal. Mas alguns economistas argumentam que, em um planeta com recursos finitos, talvez tenhamos de parar de crescer para sobreviver.

Oficina comunitária de bicicleta Cyclonomia, em BudapesteNa oficina comunitária de bicicleta Cyclonomia, em Budapeste, ferramentas e equipamentos são de todos

“Mais crescimento econômico significa cada vez mais material extraído da natureza, e cada vez mais desperdício depois que usamos esses materiais”, diz Giorgos Kallis, economista ecológico. “Com o atual nível de crescimento econômico – e com os níveis de crescimento almejados – não há como evitar mudanças dramáticas e catastróficas do clima.”

A ideia de que o crescimento econômico não pode continuar indefinidamente não é nova. Em 1972, muito antes de a mudança climática se tornar o assunto de cúpulas globais, um think tank chamado Clube de Roma publicou Os Limites do Crescimento, prevendo no livro que “os limites para o crescimento neste planeta serão alcançados dentro dos próximos cem anos”.

O livro provocou um debate de alto nível naquele tempo – mas suas ideias foram marginalizadas, enquanto os governos em todo o mundo apostavam cada vez mais no neoliberalismo e na economia de livre mercado.

Desafiando o consenso

Há décadas, o amplo consenso tem sido de que o crescimento econômico é a única maneira de tirar grandes setores da população global da pobreza. Mas com as crises ambientais se tornando uma ameaça urgente e evidências crescentes de que o fosso entre ricos e pobres está ficando maior, alguns estão começando a desafiar essa ideia.

Ashish Kothari, presidente do escritório do Greenpeace na Índia, afirma que na Índia as análises sugerem que o crescimento não conseguiu atender às necessidades dos pobres. “Na verdade, ele empobreceu recentemente dezenas de milhões de pessoas, porque os recursos delas foram tomados pela economia dominante”, ressalta. “E, é claro, ele não foi capaz de sustentar o ambiente biológico e físico de que todos dependem”, acrescenta Kothari.

Então quais são as alternativas? Envolvido no ativismo ambientalista de base na Índia desde a década de 1970, Kothari aponta para projetos de democracia direta, que colocaram as comunidades como responsáveis ​​por seu próprio futuro e seus próprios recursos. Estas ainda se baseiam em conceitos indianos antigos como swaraj, que Kothari interpreta como uma combinação de autonomia, liberdade e “responsabilidade com a comunidade”.

Em hortas comunitárias em Budapeste, moradores podem cultivar seus próprios legumesEm hortas comunitárias em Budapeste, moradores podem cultivar seus próprios legumes

Swaraj, como o ubuntu do sul da África e o buen vivír da América do Sul, é um dos muitos conceitos tradicionais ao redor do mundo que se concentram em valores como felicidade, carinho e convivialidade – qualidades que os defensores do decrescimento acreditam que estão faltando ao sistema econômico global.

Soluções descentralizadas

Esses são valores com os quais Monika Kertész, que dirige uma rede de hortas comunitárias em Budapeste, se identifica. Os moradores assumiram o controle sobre pedaços de terrenos baldios em seus bairros, onde as pessoas não só cultivam seus próprios produtos orgânicos, mas trabalham coletivamente de um modo que mantém a comunidade unida.

“Jardinagem é apenas uma parte”, diz Kertész. “Há ainda as amizades, confiança, maior conexão da comunidade. É realmente importante mostrar às pessoas como você pode fazer algo para seu próprio bem-estar.”

Jardins comunitários e oficinas de bicicletas podem parecer uma gota no oceano de desafios que nosso planeta enfrenta. Mas os defensores do decrescimento acreditam que o futuro reside em iniciativas descentralizadas, nas quais as pessoas desenvolvem soluções baseadas no conhecimento e nas necessidades locais e, ao fazer isso, ganham um sentido de propósito que não é definido pelos valores da economia de consumo.

“O decrescimento lembra que temos que criar um mundo melhor e um mundo mais igual – mas temos que fazer isso enquanto reduzimos a nossa pegada neste planeta”, alerta Kallis. “É um desafio viver com menos, mas melhor.”
FonteDW

Viagem ao Brasil mais pobre, o que sempre vota no PT

Belágua é a cidade mais miserável do país e a de maior apoio eleitoral a Dilma

Brasil mais pobre, que vota no PT
António José do Nascimento, em casa. Foto: ALBANI RAMOS
Antonio Jiménez BarcaANTONIO JIMÉNEZ BARCA – Belágua (Maranhão) 

Um dia, faz um mês, deixaram de construir a casa de Antônio José do Nascimento em Belágua, no Estado do Maranhão.

Os operários lhe explicaram que havia acabado o dinheiro do programa do Governo do Estado, e foram embora, com tudo pela metade: um esqueleto de casa sem serventia e um monte de tijolos que tostam sob o violento sol da uma da tarde destas latitudes quase equatoriais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Alguns meses antes, esses mesmos operários haviam contado a Nascimento, de 37 anos, com dois filhos, de 14 e 15 anos, e a mulher doente, que o Estado ia substituir seu velho casebre de barro e teto de palmeira, aqui chamado de taipa, por uma casa de tijolos e cimento, como parte de um programa que incluía outras cinquenta famílias miseráveis da cidade.

Belágua (uma rua asfaltada, um conjunto de casas e casebres dispersos, estradas de terra, ninguém entre uma e quatro da tarde, jegues presos com cordas às portas das casas, porcos e galinhas pelo caminho) é a cidade mais pobre do Brasil.

Com 7.000 habitantes, situada a 200 quilômetros da capital do Estado, São Luís, a localidade tem uma renda per capita média de 240 reais por mês, segundo o último censo, elaborado em 2010. A taxa de analfabetismo supera os 40%. Nascimento é um desses analfabetos. Sua mulher, derrubada na cama agora pela artrose, é outra.

Belágua (lojas diminutas que vivem indiretamente do Bolsa Família, crianças que lavam mandioca no rio) ostenta outro recorde nacional: a maior porcentagem de apoio eleitoral para Dilma Rousseff na última eleição.

Uma estranha unanimidade de 95%. Nascimento também se encaixa aí: votou no Partido dos Trabalhadores (PT) de Rousseff precisamente por causa da subvenção do Bolsa Família, instaurado pelo Governo Lula.

“Graças a isso seguimos em frente. Agora sei que tiraram Dilma do poder. Contaram-me, porque minha televisão queimou. Não sei o que vai acontecer conosco”, diz. Nascimento se refere não ao futuro do país em abstrato, mas ao futuro desses 381 reais por mês, vitais para sua família.

O Governo do presidente interino, Michel Temer, garantiu que vai respeitar certos programas sociais, incluindo esse, mas Nascimento, desconfiado e acostumado a que as coisas se saiam mal, olha de soslaio o projeto inacabado de sua casa inútil de tijolos sem data de término e seu rosto se enruga.

A secretaria de Estado das Cidades e Desenvolvimento Urbano do Governo do Maranhão, do Partido Comunista do Brasil (PC do B), reconhece, por meio de um comunicado, certos problemas com os materiais, mas diz que já deu ordens para que as casas sejam concluídas e os prazos sejam cumpridos.

Belágua é um exemplo fiel do Nordeste brasileiro, atrasado, pobre e resignado à sua sorte, que aceita a ajuda estatal um dia e com o mesmo fatalismo aceita no dia seguinte que a tirem.

Também um expoente da desigualdade descomunal que aflige o país: enquanto nos bairros nobres de São Paulo há quem suba em um helicóptero para contornar o congestionamento da tarde de sexta-feira, no abafado casebre de Nascimento, sem torneiras, a água é armazenada em um pote de barro tampado com um paninho de crochê.

Um casal com seu bebê no rio, a única fonte de água.
Um casal com seu filho banha-se no rio em Belágua. Foto: ALBANI RAMOS

Às vezes é até pior: seu vizinho Aderaldo Ferreira, de 36 anos –também em um casebre de barro e palha, também, na porta, com o absurdo monte de tijolos inúteis da casa prometida– nem sequer conta com os reais do Bolsa Família.

Aderaldo tem três filhos pequenos, um deles já na escola, mas, por um enrosco burocrático, a ajuda lhe foi negada, sem que ele saiba bem porquê. Mostra a carteira de identidade ao jornalista, como se isso servisse para demonstrar algo.

Também é analfabeto, também vive da mandioca que arranca todos os dias. Sua mulher, grávida, amamenta o filho pequeno sem dizer nem uma única palavra, muda e ausente, como se tanta desgraça junta não fosse com ela.

Perto, em outro casebre, Joana dos Santos, de 35 anos, tece tiras de folhas de palmeiras para pagar uma dívida, contraída dois anos atrás para arcar com um exame médico que custou 280 reais para uma filha acometida de uma estranha paralisia. Acabará de pagar em dezembro. “Se Deus quiser”, acrescenta. Três de suas filhas se postam ao lado. Tem oito. E três filhos. Uma faz a lição de casa. Outra, de 12 anos, olha o jornalista com curiosidade.

-Você vai à escola?

– Sim

– O que quer ser quando crescer?

– O que Deus me der.

– Você gosta da escola?

– Mais quando dão merenda.

Às quatro ou cinco da tarde, quando o sol deixa de torturar a rua, chegará o pai com a mandioca do dia: a velha mandioca que se transforma em farinha depois de triturada e tostada, como já faziam os índios antes de os portugueses chegarem.

Do Bolsa Família, Joana recebe por mês 562 reais. “Não é só o dinheiro. É que o dono da venda faz fiado porque sabe que vai receber. Quando não tínhamos [o dinheiro], não era assim: não me venderam um peixe porque me faltavam 50 centavos. Por isso, sempre votarei em Dilma e Lula.”

Aderaldo Ferreira da Silva e sua família.
Aderaldo Ferreira e sua família, em sua choça. Foto: ALBANI RAMOS

Na mesma Belágua há quem escape do círculo fechado da miséria, ignorância e mandioca. No outro extremo da localidade, Raimundo dos Santos, conhecido como Seu Cota (52 anos, 14 filhos, 14 netos) mantém e explora uma horta.

E vende alfaces, pepinos, tomates, batatas… Obteve no mês passado 1.500 reais por mês, uma soma que vai aumentar no mês que vem.

Conseguiu uma bomba d’água graças a uma subvenção do Maranhão, e alguns técnicos também do Estado o ensinaram a plantar e colher. Sua casa tem chão de lajota, uma televisão velha, mas que funciona, e sua mulher e filhos estão vestidos e sorriem.

Aderaldo Ferreira, o da mulher sem palavras, o da choça sem nada, o que mostra a carteira de identidade como o documento essencial, diz que ouviu falar desse Seu Cota, que irá visitá-lo uma tarde, que lhe perguntará como fez, como faz, e aponta para o outro lado da cidade, como se fosse o outro lado do mundo.
ElPais

Olimpídas: Tiro na favela. Esporte olímpico na Rio 2016?

A cem dias dos Jogos no Brasil, moradores das favelas do Rio de Janeiro sofrem o aumento da violência policial.

Olimpíadas,Rio Favela,Vitor Santiago,Blog do Mesquita

Vitor Santiago Borges, ferido pela polícia, com sua mãe no complexo da Maré. AF Rodrigues

Por Angel Gonzalo da Anistias Internacional *
Conheci Vitor Santiago Borges, de 30 anos, prostrado em sua cama, em um quarto de dois metros por três no qual nos apinhávamos –eu, sua mãe (sentada em uma cadeira) e quatro colegas da Anistia Internacional (espalhados no pouco espaço livre que havia no chão).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Vive com os pais em uma humilde casa da comunidade de Vila do Pinheiro, pertencente ao Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, em um primeiro andar com degraus íngremes.

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Vitor ficou paraplégico depois que um grupo de soldados das Forças Armadas que ocupavam a Maré atirou no carro no qual voltava para casa, com quatro amigos, em 13 de fevereiro de 2015. A cama em que agora tem de passar todo o dia foi doada por sua comunidade. A cadeira de rodas, também. Não recebeu nenhuma indenização do Estado.

Eram duas da madrugada e os rapazes (um deles, militar) regressavam depois de ver uma partida de futebol de seu time, o Flamengo. Os cinco viajavam em um carro que cruzou sem problemas um primeiro posto de controle do Exército.

Seguiu avançando e, de repente, se escutaram os disparos. “Não lembro de nada. Somente o ruído dos tiros. E a dor que senti. E o sangue, claro. Muito sangue.” Não sabe quantos foram os tiros, mas que apenas cessaram quando seu amigo, sargento da Aeronáutica, conseguiu identificar-se.

Vitor foi atingindo por pelo menos duas balas de fuzil. Uma o acertou na coluna vertebral e outra se manteve alojada na parte posterior do ombro, e ali ficou durante vários meses depois de ser operado e receber alta.

Sua mãe a mostra para nós, envolta em uma bolsinha de plástico. Ele nos aponta os orifícios de entrada, ainda visíveis em seu torso nu. Como consequência dos disparos, perdeu a perna esquerda e parte do pulmão esquerdo. Quando chegou ao hospital os médicos lhe deram 7% de chance de sobrevivência. Conseguiu, mas só depois de passar uma semana em coma e mais de três meses no hospital.

Se não tivessem atirado nele, no dia seguinte teria ido à praia com a filha Beatriz, que então tinha dois anos. Havia prometido a ela, mas não pôde cumprir a promessa. Só sorri quando fala dela e nos mostra sua fotografia, em destaque em sua cama. Mal pode levantá-la desde que está nessa situação.

Um dos outros filhos de Irone, sua mãe, lhe telefonou e informou do tiroteio. “Por quê? Meu filho não é um bandido. Por quê? Não é possível. Vitor é um bom garoto. É músico e muito trabalhador. Nunca se meteu em confusão.”

A versão das autoridades difere da de Vítor. Afirmam que o carro no qual viajava quis atropelar um soldado que tentava bloquear sua passagem. De concreto, apresentaram acusações contra o condutor do veículo.

O amigo militar de Vitor nega essa versão. Vitor passou de vítima de um tiroteio a testemunha de uma tentativa de atropelamento. O mundo de cabeça para baixo.

Assim são as coisas na Maré. Ao contrário de outras favelas, não está localizada num morro, mas na parte plana e se assemelha a qualquer bairro marginal de qualquer outra grande cidade latino-americana. No entanto, é um dos maiores conjuntos de favelas do Rio de Janeiro.

Ali vivem cerca de 140.000 pessoas com poucos recursos e escasso acesso a serviços básicos, distribuídas em 16 comunidades. Suas ruas e acessos estão controlados por bandos de traficantes, forças de segurança ou paramilitares organizados em milícias. A maioria da população sobrevive como pode a essa situação. Há um clima assustador de violência e drogas em plena luz do dia.

Essa rede de submoradias se situa no norte, junto à principal via de acesso do aeroporto internacional ao centro. Foi ocupada em abril de 2014 por 2.700 soldados da Força de Pacificação, unidade federal. Chegaram “para garantir a lei e a ordem” pouco antes da celebração da Copa do Mundo de futebol em meados de 2014.

O Mundial durou um mês. Os militares permaneceram ali um ano e dois meses. Além das Forças Armadas e da Polícia Militar, existe uma corporação específica para recuperar o controle do Estado em territórios onde o narcotráfico e as milícias ditam suas normas paralelamente às instituições.

Trata-se das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e fazem parte da paisagem de dezenas de favelas do Rio desde 2008. No entanto, para os moradores seus resultados não são alentadores. As operações policiais para pacificar zonas de elevada criminalidade só se justificam se podem garantir os direitos de todos os cidadãos, a começar pelos moradores dos bairros marginalizados, algo que não tem ocorrido.

Organizações de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional, criticam a permanência do Exército e da Polícia Militar nas favelas. O que conseguiu foi aumentar as violações de direitos humanos e militarizar a vida cotidiana em algumas das comunidades mais pobres. As Forças Armadas não contam com formação adequada para esse tipo de operação e têm pouca experiência em dialogar com a sociedade civil.

Podia ter acontecido com qualquer um. Mas aconteceu comigo. E destruíram a minha vida

O Brasil possui uma das cifras de homicídios mais elevadas do mundo. Talvez por isso a mãe de Vitor considere que seu filho teve sorte. Entre 2005 e 2014 foram registrados 5.132 casos de homicídios cometidos por agentes que estavam em serviço no Rio.

Em 2015, foram pelo menos 307 as pessoas que morreram em mãos dos agentes em operações policiais. Desde o início de 2016 os homicídios resultantes de intervenções policiais na cidade aumentaram 10% e estamos a apenas 100 dias da inauguração dos Jogos Olímpicos.

Embora não seja possível relacionar diretamente este aumento dos homicídios policiais com os preparativos desse megaevento esportivo, os dados estatísticos põem em relevo um padrão inequívoco de uso excessivo da força, violência e impunidade que obscurece o trabalho das instituições de segurança pública.

“Os que vivem aqui são todos suspeitos. Isso não é justo. Poderia ter acontecido com qualquer um. Mas aconteceu comigo. E destruíram a minha vida”, lamenta Vitor.

*Ángel Gonzalo é jornalista de Anistia Internacional na Espanha. Em março de 2016 participou, junto a uma equipe da organização, de uma visita a algumas favelas do Rio de Janeiro. Ali entrevistou associações de direitos humanos e vítimas de violência das forças de segurança.

Do terrorismo à obesidade: as epidemias mundiais mais rentáveis

Os desafios mais rentáveis da humanidade. Envelhecimento e câncer estão entre os problemas que geram mais negócios.

Desafios rentáveis da humnanidade,Blog do Mesquita,Economia,Saúde,Publica,Medicina

Pessoas buscam água no campo de refugiados de Kabo, na República Centro-Africana.
Pessoas buscam água no campo de refugiados de Kabo, na República Centro-Africana. B. P.

O mundo nunca teve que enfrentar tantos desafios. Terrorismo, mudanças climáticas, desigualdade, escassez de água, concentração de terras, disrupção digital, pandemias como as de câncer e de obesidade.

Como se fosse pouco, o envelhecimento da população do planeta é o prelúdio de todas as grandes transformações que viveremos.

Essas forças estruturais podem levar a um panorama aterrador ou a uma era em que o ser humano dê o melhor de si: sua capacidade de inovação e sua magia para sonhar soluções.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

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Há oportunidades econômicas na intersecção de todas essas forças de mudança e em todos esses desafios. Para o bem e para o mal, o mercado é capaz de transformar um problema num ativo financeiro. “Os horríveis ataques na Europa tristemente lembraram às pessoas que o terror não se detém em suas fronteiras. Por compromisso ético e social, não fazemos nenhuma recomendação sobre como lucrar com essa cicatriz, mas é impossível ignorar o uso da ciberguerra por parte desses grupos como estratégia para provocar danos no futuro”, reflete Fabiano Vallesi, analista do banco suíço Julius Bär. E a defesa nessa nova batalha é a cibersegurança.

O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês) estima que o crime digital custe entre 375 e 575 bilhões de dólares (de 1,5 a 2,4 trilhões de reais) por ano. São números maiores que a riqueza de muitos países. Por isso “as empresas estão investindo mais do que nunca para se proteger”, observa Marc Martínez, especialista na área da KPMG. E isso é uma oportunidade para as empresas especializadas na nuvem e em análise de dados em grande escala (big data).

Mas nesta viagem para um novo mundo, a demografia continua a ser um destino. O planeta envelhece. Pela primeira vez na história a população com mais de 65 anos passará –em 2047- a das crianças com menos de 5 anos. “É a maior transformação social, política e econômica da nossa era”, avalia a Global Coalition on Aging. “Todos subestimam a importância dos idosos, como se fazer aniversário não fosse problema nosso”, queixa-se Francisco Abad, diretor da consultoria a Best Innovación Social.

Isso não combina com a matemática e com o tempo. Nos Estados Unidos, a economia da longevidade movimenta 7,1 trilhões de dólares (29 trilhões de reais). Se fosse uma nação, seria a terceira mais rica do planeta. Seus integrantes terão em 2020 no bolso um poder aquisitivo de 60 trilhões de reais. Parece impossível interromper esse movimento, entre econômico e malthusiano. Porque em 2050 já haverá no mundo mais de 2 bilhões de habitantes com mais de 65 anos de idade.

Os desafios mais rentáveis da humanidadepulsa en la foto
Mais tempo sobre a Terra significa também maior chance de adoecer. O câncer se tornou uma espécie de pagamento ao barqueiro pela travessia desse rio Estige representado pela vida longa. E é também um filão para a indústria farmacêutica. A tal ponto que os remédios para essa enfermidade já representam 10% do mercado farmacêutico mundial.

“E nos próximos cinco anos chegará uma gama de novas drogas que farão com que as vendas de fármacos contra esse mal superem o mercado generalista”, avalia o banco UBS. Essa química revolucionária é a esperança para lutar contra uma enfermidade responsável pela morte de 25% das pessoas com mais de 65 anos.

Cerca de 8,2 milhões de pessoas morrem por ano por sua culpa. Outro assassino cúmplice do tempo é a demência. A cada ano são diagnosticados 7,7 milhões de novos casos no mundo. E esse número vai triplicar em 2050. Entre todas as suas variantes, o Alzheimer é a patologia mais comum, e sua cura é considerada o santo graal da indústria farmacêutica.

Nos EUA, o mercado de terceira idade movimenta 29 trilhões de reais

E há outra epidemia global que ameaça ceifar milhões de vidas e custar bilhões: a obesidade. Pode ser o maior desafio na área de saúde enfrentado pelo planeta. O número de obesos e de pessoas com sobrepeso triplicou desde 1980. Nenhum país melhorou seus indicadores desde então, e a conta a pagar é astronômica. É calculada em mais de 8 trilhões de reais, o equivalente a 2,8% da riqueza do mundo. É o mesmo impacto provocado pela violência armada, pelo tabagismo, pelo terrorismo e pela guerra. Existem no planeta 671 milhões de obesos, e cerca de 2,1 bilhão de pessoas sofrem de sobrepeso. Com esses números, a doença é o parque de diversões das indústrias farmacêuticas, de empresas de alimentação e de dieta, de roupas esportivas e até de companhias aéreas. A Samoa Air foi a primeira empresa de aviação a cobrar dos passageiros em função de seu peso, e o a Airbus oferece nos aviões A320 poltronas especiais para obesos.

Nova classe média

Muitas dessas pessoas com sobrepeso farão parte de uma nova classe média aguardada para 2030. Nesse ano, 2 bilhões de seres humanos, metade deles na Índia, terão renda per capita de entre 10 e 100 dólares (de 41 a 410 reais) por dia. Isso significa que sua renda passará da mera subsistência, e o gasto será direcionado para o lazer, a compra de carros e o turismo. Uma vida diferente, que “abre oportunidades de investimento na indústria farmacêutica, especialmente no mercado de medicamentos genéricos de países emergentes”, relata Roberto Ruiz-Scholtes, diretor de estratégia do UBS. Afinal, o mundo terá a responsabilidade de cuidar de 10 bilhões de almas em 2050.

Além disso, o envelhecimento e o aumento da população são preocupantes porque se combinam a outra tendência: o aumento da dívida pública nas economias avançadas. Sete anos depois do início da Grande Crise, o déficit alcançou seu maior valor histórico – e continua a subir. “Com mais aposentados, menos trabalhadores em atividade para mantê-los e uma expectativa de vida maior, as economias mais desenvolvidas poderão ser pressionadas e ter que reduzir sua dívida cortando nos benefícios e na saúde”, é a análise da gestora Pioneer Investments.

Essa pressão, paradoxalmente, representa uma oportunidade de negócio para o universo privado da saúde e da aposentadoria. E, claro, as gestoras de fundos esfregam as mãos. “O patrimônio sob gestão dessas instituições aumentará com força durante as próximas décadas, assim como seus rendimentos”, prevê Jaume Puig, diretor geral da GVC Gaesco Gestión. Um ecossistema perfeito para investir em gestoras listadas na Bolsa e tentar evitar a incerteza. Porque “o desafio demográfico leva a um menor crescimento econômico global, especialmente no mundo desenvolvido. Nesse cenário será um desafio encontrar empresas [nas quais investir] com um crescimento estrutural e sustentável”, argumenta Rick Stathers, especialista da gestora Schroders.

Mas como vão viver os moradores desse mundo saturado e envelhecido? Com certeza, mais próximos. Em 2030, 9% da população do planeta estará em apenas 41 megacidades. A urbanização será um grande desafio e um grande negócio. Por dia mais de 250.000 pessoas se mudam para núcleos urbanos, estima o futurólogo norte-americano Alex Steffen. “Hoje há menos da metade dos edifícios que existirão em 2050”, disse ao jornal The Guardian. “Uma maior urbanização agrava todos os desafios que encaramos. Cedo ou tarde viveremos num planeta sem emissões. Como chegar lá representa uma profunda ruptura com o status quo.”

Mas o futuro já nos alcançou. Um aumento da população urbana se traduz em mais pressão sobre os preços de imóveis nas grandes cidades. Acontece em São Paulo, Dubai e Londres. Na cidade britânica, o valor das residências subiu 35% desde 2008. A Grande Crise provocou a chegada à City de milhares de trabalhadores em busca de emprego. Só que com salários insuficientes para comprar uma casa, o jeito é alugar. “A rentabilidade média do aluguel numa cidade desenvolvida fica em torno de 4,9%, e nos países emergentes vai a até 8%”, diz Joaquín Robles, analista da corretora XTB. Lucro superior, por exemplo, ao dos bônus soberanos.

Disrupção digital

Uma força que promete mudar o mundo e gerar enormes ganhos é a disrupção digital. A robótica, a imunoterapia, as impressoras 3D, a inteligência artificial, o turismo espacial; a aldeia global ligada por meio de 2 bilhões de conexões móveis de banda larga. Há mais smartphones no planeta que escovas de dentes. Sem dúvida, a tecnologia transforma a existência. “Porque afeta todos os negócios e todas as relações humanas”, ressalta José Antonio Herce, sócio da Analistas Financieros Internacionales (AFI). “Qualquer empresa hoje, não importa setor e tamanho, precisa ser tecnológica.” E as empresas e investidores que não perceberem isso ficarão para trás.

O cientista australiano Stefan Hajkowicz adverte em seu livro Global Megatrends: Seven Patterns of Change Shaping Our Future (Megatendências Globais: Sete Padrões de Mudança que Estão Moldando Nosso Futuro) que nosso mundo enfrenta transformações drásticas e que, se não dermos uma resposta, algumas sociedades poderão despencar em “queda livre”. E, como aviso aos navegantes reticentes à mudança, retoma o caso da Kodak. A empresa de filmes para câmeras fotográficas passou de controlar 90% do mercado norte-americano, em 1976, à quebra, em 2011. Isso porque não viu, nem entendeu, o advento da imagem digital.

No entanto, em Israel, o empreendedor Eden Shochat, de 38 anos, soube interpretar melhor o afã dos tempos. Há quatro anos, vendeu ao Facebook uma companhia que ajudou a fundar: Face.com, que lida com reconhecimento facial aplicando a tecnologia deep learning (aprendizado profundo). Esse saber nos aproxima da inteligência artificial e ajuda a resolver determinados problemas (como o reconhecimento de voz) impostos pelo big data. Com essa experiência, investiu em empresas que utilizam a linguagem profunda, como, por exemplo, a JoyTunes (que emprega essa tecnologia para identificar as notas tocadas em um piano) e a Windward (que analisa mais de 100 milhões de dados diários de carga e transporte marítimo).

A cura do mal de Alzheimer é o santo graal da indústria farmacêutica

Mas de onde virá o dinheiro? Simples, das pessoas. “Vivemos expostos ao poder do crowdfunding graças ao incrível êxito de plataformas como Indiegogo e Kickstarter. Através delas, conhecemos centenas de projetos e tecnologias revolucionárias que levantam bilhões de dólares”, afirma Shochat. Uma viagem em busca de fundos e negócios que um anglicismo (fintech) promete revolucionar. “São empresas tecnológicas — sobretudo start-ups — especializadas em serviços financeiros”, explica Rodrigo García de la Cruz, professor do Instituto de Estudos Acionários de Madri (IEB). E também representam o brilhante horizonte das finanças. “O investimento global direcionado a essas iniciativas passou dos 12 bilhões de dólares (cerca de 49 bilhões de reais), em 2014, para aproximadamente 20 bilhões de dólares (81,8 bilhões de reais), em 2015”, afirma Jay Reinemann, diretor da BBVA Ventures.

Claro, quem poderia prever que o mundo seria tão desafiante? O planeta surpreende inclusive os analistas da Goldman Sachs. Em seu relatório What if I told you… (E se eu te dissesse), preveem um futuro que soa como uma voz vinda de uma Terra distante. “E se eu te dissesse que o espaço é, mais uma vez, a nova fronteira, que o lítio é a nova gasolina, que o blockchain (um livro de contabilidade aberto e em rede) pode mudar tudo, ou que a nuvem poderia ajudar a curar o câncer”, diz a publicação. Vocês acreditariam?

O homem reinventa, a cada minuto, os ecossistemas dos investimentos. Os robôs estão, em seu terceiro ano consecutivo, mantendo o recorde de vendas. Cerca de 229.000 exemplares chegam anualmente ao mercado, e os analistas do Bank of America Merrill Lynch estimam que, em 2025, 45% das etapas de fabricação industrial serão realizadas por eles. Agora, esse número corresponde a apenas 10%. Beneficiada por um efeito multiplicador, a robótica repercute no setor aeroespacial e nos de defesa, transporte, finanças, saúde, indústria, serviços, mineração; e na vida. Em apenas quatro anos, o mercado para os robôs e as soluções de inteligência artificial chegarão a 153 bilhões de dólares (626,5 bilhões de reais).

A dúvida paira sobre quantos empregos “manuais” extinguirá. No entanto, é moralmente discutível sonhar com as estrelas e imaginar a inteligência artificial quando 805 milhões de pessoas no mundo sofrem com desnutrição crônica. Essa carestia coloca sob os holofotes a segurança alimentar. O aumento da renda, sobretudo nas classes médias de países emergentes, e as mudanças na dieta, significam que o mundo necessitará aumentar, em 70%, sua produção de alimentos, em 2050. No entanto, os campos secam e se debilitam. O rendimento dos principais cultivos de cereais está em queda, as terras potencialmente cultiváveis que restam são poucas (1,4 bilhão de hectares), e a agricultura consome 70% da água utilizada em todo o mundo.

A pressão é tão intensa que, pela primeira vez, a Europa sofre com o problema da concentração de terras de cultivo, ou seja, a compra de grandes extensões de campos (com prejuízos para os pequenos proprietários) por empresas estrangeiras, que não ficam apenas com a terra, mas também com a água que a mantém. Esse espólio vital ainda não é tão intenso no velho continente como na África ou na América Latina, mas o Parlamento Europeu alerta que é um “fenômeno crescente”, e também alarmante, sobretudo em um mundo com tantas frentes abertas que parece impossível ganhar todas as suas batalhas.
Fonte: El País

Oscar Wilde – Reflexões na tarde – 18/01/2016

Desobediência: virtude original do homem
Oscar Wilde¹

Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem. O progresso é uma conseqüência da desobediência e da rebelião. Muitas vezes elogiamos os pobres por serem econômicos. Mas recomendar aos pobres que poupem é algo grotesco e insultante.

Seria como aconselhar um homem que está morrendo de fome a comer menos; um trabalhador urbano ou rural que poupasse seria totalmente imoral. Nenhum homem deveria estar sempre pronto a mostrar que consegue viver como um animal mal alimentado. Deveria recusar-se a viver assim, roubar ou fazer greve – o que para muitos é uma forma de roubo.
Extraído da Obra “A Alma do Homem Sob o Socialismo”, de 1891

¹Oscar Fingall O’Flahertie Wills Wilde
* Londres, Inglaterra – 16 de Outubro de 1854 d.C
+ Londres, Inglaterra – 30 Novembro de 1900 d.C

>> Biografia de Oscar Wilde


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