Que tipo de empresa administram os 15 bilionários que mais aumentaram suas fortunas nos Estados Unidos no ano passado?

A fortuna de Elon Musk cresceu 242% no ano passado, de acordo com a Forbes.

Enquanto mais de um milhão de pessoas morreram no mundo com a pandemia de covid-19 e as projeções apontam para uma contração da economia mundial próxima a 5%, há empresas e pessoas que tiveram sucesso em seus negócios. Getty Images

Seja porque suas empresas não foram afetadas pelo vírus, seja porque cresceram graças a ele, o dinheiro continuou correndo em suas contas.

Gigantes da tecnologia, empresas farmacêuticas e empresas de comércio eletrônico viram uma escalada chocante em suas vendas e valor de mercado no último ano.

No nível das fortunas individuais, o patrimônio líquido médio das 400 pessoas mais ricas dos Estados Unidos aumentou 8%, enquanto as fortunas dos 15 bilionários que viram seus ganhos aumentarem mais, dispararam 40%.

No mundo dos negócios, muitos veem esse fenômeno como um exemplo de sucesso em tempos de adversidade.

“Sua boa fortuna é indecorosamente justaposta aos milhões que perderam riqueza, saúde e sustento durante a pandemia.”

As empresas de tecnologia dominam a lista das que mais aumentaram sua fortuna, em termos percentuais.

Qual é o “imposto sobre lucros inesperados” do tempo de guerra (e por que alguns economistas acham que devemos usá-lo agora)

Alguns relacionados à cibersegurança, desenvolvimento de software para o setor de saúde, serviços em nuvem ou vendas online.

A lista é liderada por Elon Musk, CEO da Tesla Motors e SpaceX, cuja fortuna cresceu 242%, chegando a US $ 68 bilhões.

FONTE DE IMAGEM, GETTY IMAGES
O patrimônio líquido dos 15 bilionários que mais viram sua fortuna crescer aumentou em média 40% no último ano.

Musk garantiu mais de US $ 2.000 em financiamento para sua empresa Space X e acessou os benefícios de um acordo de compensação que ele assinou com a Tesla em 2018, cujas ações subiram 520% ​​no final de julho.

Jensen Huang: $ 9,8 bilhões (133%)

A taiwanesa-americana Huang é cofundadora da Nvidia, empresa multinacional especializada no desenvolvimento de unidades de processamento gráfico e tecnologias de circuitos integrados para computadores de alta capacidade que facilitam o acesso a servidores, computadores pessoais e dispositivos móveis.

Jensen Huang, cofundador da Tech Giant Nvidia
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A Nvidia adquiriu a empresa de tecnologia Mellanox por US $ 6,9 bilhões em abril, como parte de uma estratégia de expansão para as áreas de inteligência artificial e data centers.

Jay Chaudhry: $ 6,9 bilhões (92%)

Se há alguém que sabe como abrir e vender negócios de tecnologia, é o fundador indiano-americano da empresa de segurança cibernética ZScaler, uma das empresas cujas ações aumentaram substancialmente nos últimos meses.

Zscaler em um telefone – FONTE DE IMAGEM, GETTY IMAGES

A empresa de segurança cibernética ZScaler teve um bom desempenho, aumentando a riqueza de seu fundador, Jay Chaudhry.

Durante sua carreira, Chaudhry criou quatro empresas de tecnologia e vendeu todas elas.

Ernest García III: US $ 4,2 bilhões (83%)


Em 2012, o empresário americano co-fundou uma empresa de vendas de carros usados ​​chamada Carvana. Conhecida como “a Amazônia dos automóveis”, suas ações subiram 77% no ano passado.

Antes de criar a Carvana, Garcia III trabalhou na empresa de carros usados ​​de seu pai, DriveTime Automotive Group.

Ernest García II: US $ 9,2 bilhões (68%)

Proprietário da DriveTime, Ernest García II (pai de Ernesto García III) é um dos grandes players no negócio de compra e venda de carros usados ​​e entrega de produtos financeiros, com 127 centros de operações nos Estados Unidos.

Peter Gassner: $ 4,5 bilhões (67%)

Sediada na Califórnia, a Veeva Systems é uma empresa de serviços de computação em nuvem, com foco em empresas farmacêuticas e de biotecnologia.

Fundada em 2007 por Peter Gassner, as ações da Veeva subiram 60% no ano passado.

Robert Pera: US $ 10.500 milhões (64%)

Pera é o fundador e CEO da Ubiquiti Networks, uma empresa que se dedica principalmente ao design de hardware para redes sem fio usadas para comunicação de longa distância e pequenas redes wi-fi.

Qual é a “regra do silêncio constrangedor” usada por empresários famosos como Tim Cook ou Jeff Bezos
Sua fortuna aumentou graças à valorização das ações da Ubiquiti, da qual é o acionista majoritário.

Jack Dorsey: $ 6,8 bilhões (62%)

O aumento da fortuna de Jack Dorsey, fundador e CEO do Twitter, se deve ao incrível aumento de 96% nas ações de sua empresa de processamento de pagamentos, a Square.

Mackenzie Scott: $ 57 bilhões (58%)

Mackenzie Scott se divorciou de Jeff Bezos, o fundador da Amazon, em 2019. Como resultado, ela obteve um pacote de ações no valor estimado de $ 38 bilhões na empresa, o que lhe permitiu aumentar seus ativos pessoais.

Mackenzie Scott se tornou um bilionário após se divorciar do fundador da Amazon, Jeff Bezos. – Getty Images

No início de setembro, Scott se tornou a mulher mais rica do mundo, aumentando sua fortuna para US $ 68 bilhões, de acordo com as estimativas do Bloomberg Billionaires Index, no entanto, as oscilações recentes no mercado de ações a fizeram cair dessa posição.

Jeff Bezos: $ 179 bilhões (57%)

No ano passado, o valor das ações da gigante da tecnologia Amazon subiu 64%.

Bezos, fundador e CEO da empresa, viu seu patrimônio líquido crescer 57%, mantendo sua posição de homem mais rico dos Estados Unidos e do mundo.

Em meio à pandemia e com medidas de bloqueio que mantiveram os cidadãos em suas casas, a Amazon teve um de seus melhores anos, embora também tenha testemunhado protestos liderados por trabalhadores da empresa e uma investigação antitruste do Congresso dos Estados Unidos. EUA

Os outros

Na 11ª posição está Chase Coleman (53%), dono da firma de investimentos Tiger Global Management, que tem investido em empresas de tecnologia e outras ações que se beneficiaram com ordens para ficar em casa para evitar a propagação do vírus .

É seguido por Alan Trefler (46%), graças à atuação de sua empresa de tecnologia Pegasystems e Judy Faulkner (45%), pelo sucesso de sua empresa Epic Systems, empresa de software voltada para o setor de saúde.

O ranking é completado por Reed Hastings (43%), cofundador, presidente e CEO da Netflix e John Doerr (40%), presidente da empresa de capital de risco Kleiner Perkins, que tem interesses em impérios de tecnologia como Amazon e Alphabet, onde participar dos diretórios.

Alemanha teme propagação descontrolada da covid-19

Autoridades Alemãs em alerta pela possibilidade de um recrudescimento da epidemia da Covid-19. Temem uma segunda onda da pandemia.

País registra mais de 4 mil infecções em 24 horas, número mais alto desde abril. Governo alerta que rastreamento de cadeias de contágio pode ser impossibilitado com explosão de casos.

Em Colônia, passageiros saem de trem com e sem máscara
Apesar de obrigatoriedade, nem todos respeitam regra do uso de máscara no transporte público na Alemanha – Foto Reprodução DW

O aumento rasante de casos de covid-19 e a dificuldade de rastrear a propagação do vírus preocupam o governo da Alemanha. Nesta quinta-feira (08/10), foram registradas 4.058 novas infecções, segundo dados do Instituto Robert Koch (RKI), agência governamental de controle e prevenção de doenças infecciosas. Esse foi o maior número diário contabilizado desde o início de abril.

Em relação aos registros de quarta-feira, foram 1.230 casos a mais nesta quinta. Segundo o RKI, desde o início da pandemia o país soma 310.144 infecções e 9.578 mortes em decorrência da covid-19.

Diante do novo aumento de casos, o ministro alemão da Saúde, Jens Spahn, pediu à população que seja cuidadosa e reiterou que o avanço do número de infectados é preocupante. Cada vez mais jovens estão contraindo o coronavírus e muitos deles se acham invulneráveis, mas “não o são”, disse o ministro, durante a apresentação do balanço diário nesta quinta-feira.

Spahn elogiou ainda as novas medidas adotadas por Berlim para tentar conter a expansão da epidemia na cidade e afirmou que houve na capital alemã “um comportamento despreocupado e ignorante” por parte de alguns. Berlim registrou bares lotados e festas clandestinas em parques nos últimos meses, e agora enfrenta uma explosão de casos em diversos bairros.

O presidente do RKI, Lothar Wieler, alertou contra a expansão descontrolada do coronavírus na Alemanha. “É possível que tenhamos mais de 10 mil novos casos por dia e que o vírus se espalhe sem controle. A atual situação me preocupa muito, e não está claro como ela evoluirá nas próximas semanas”, destacou.

O governo alemão admitiu também estar preocupado com uma perda na rastreabilidade das infecções. “Temos visto números crescentes, especialmente em algumas grandes cidades, incluindo a capital”, afirmou o porta-voz do governo, Steffen Seibert. Ele disse que os casos não podem mais ser atribuídos a surtos únicos, o que levanta o temor de que “o vírus possa continuar a se espalhar difusamente”.

Seibert ressaltou que as autoridades sanitárias precisam ter condições de rastrear as cadeias de contágio para interromper rapidamente a circulação do vírus. “Com o aumento de casos, é fácil temer que as autoridades sanitárias cheguem à beira do abismo ou além de suas capacidades.” O porta-voz destacou que a única maneira de conter a pandemia é “identificar e quebrar as cadeias de infecção”.

Novas restrições de viagem

Como reação ao aumento dos casos no país, a maioria dos estados alemães decidiu que turistas vindos de regiões de risco de dentro da própria Alemanha só podem ser aceitos em hotéis e outros tipos de alojamento se apresentarem um resultado negativo de covid-19 realizado em no máximo 48 horas antes. Essa medida se aplica a viajantes de áreas que registraram mais de 50 novas infecções por 100 mil habitantes num período de sete dias.

Cinco estados contestaram inicialmente a decisão. A Turíngia afirmou que não pretende impor essa restrição. Já Berlim aguardará um pouco mais para decidir se adotará a medida. Baixa Saxônia e Bremen ainda estão avaliando, e Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental quer regras mais rígidas de quarentena.

CN/dw

mundo falhou em cumprir metas para salvar a natureza

Evoluir para a sustentabilidade exige participação social

Em 2010, mais de 150 países chegaram a um acordo sobre 20 metas a serem alcançadas até o fim da década com o objetivo de salvar as espécies em extinção na Terra e preservar os ecossistemas em declínio. Mas nenhuma das metas foi totalmente cumprida, e apenas seis delas foram consideradas parcialmente alcançadas, concluiu a organização.

Relatório aponta que nenhum dos objetivos traçados há uma década para a proteção da biodiversidade foi cumprido. Degradação contínua do meio ambiente aumenta o risco de propagação de doenças, alertam Nações Unidas.

O documento é particularmente significativo pois funciona como um “boletim final” para as chamadas Metas de Aichi, traçadas no início da Década da Biodiversidade das Nações Unidas.

Entre os objetivos estavam, por exemplo, a desaceleração do desmatamento, conservação de áreas úmidas e a conscientização do público sobre a importância da natureza para um planeta saudável.

O relatório apontou, porém, que o uso de pesticidas e a poluição causada pelo descarte de plástico não foram reduzidos a níveis seguros; governos ainda subsidiam negócios que danificam os ecossistemas; e os recifes de coral continuam sendo atingidos por uma ameaça tripla: mudança climática, poluição e pesca predatória.

“Os sistemas vivos da Terra como um todo estão sendo comprometidos, e quanto mais a humanidade explora a natureza de maneiras insustentáveis, mais minamos nosso próprio bem-estar, segurança e prosperidade”, alertou Elizabeth Maruma Mrema, secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CBD), que divulgou o relatório.

A preocupação com os impactos ambientais causados pelo ser humano e seu estilo de vida predatório aumentou ainda mais em meio à pandemia de coronavírus, que provavelmente se originou num mercado de animais silvestres na cidade chinesa de Wuhan.

De acordo com os cientistas, a perda “sem precedentes” de biodiversidade e a destruição dos espaços selvagens aumentam o risco de doenças de animais migrarem para seres humanos.

“À medida que a natureza se degrada, surgem novas oportunidades para a disseminação de doenças devastadoras, como o novo coronavírus. A janela de tempo disponível é curta, mas a pandemia também demonstrou que mudanças transformadoras são possíveis”, afirmou Mrema.

Seguindo essa mesma linha, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que as transições descritas no relatório representam uma oportunidade sem precedentes para uma “reconstrução” global, à medida que o mundo emerge dos impactos imediatos da pandemia de covid-19.

“Parte dessa nova agenda deve ser enfrentar os desafios globais de uma maneira mais coordenada, entendendo que as mudanças climáticas ameaçam minar todos os outros esforços para conservar a biodiversidade. E que a própria natureza oferece algumas das soluções mais eficazes para evitar os piores impactos de um planeta em aquecimento”, comentou.Descarte excessivo de plástico continua sendo uma das preocupações da ONU

Atualmente, cerca de 17% das terras continentais estão resguardadas por mecanismos de gestão ambiental. As Nações Unidas estão pressionando os governos a reservarem 30% das áreas terrestres e marítimas do planeta para a conservação. A negociação deve ocorrer na próxima Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas, a COP26, adiada para 2021 em Kunming, na China.

Nem tudo é negativo

Embora o fracasso no cumprimento das metas seja motivo de preocupação, os autores do relatório frisam que praticamente todos os países estão atualmente tomando algumas medidas para proteger a biodiversidade, sem as quais o estado da biodiversidade do planeta estaria consideravelmente pior.

O relatório cita exemplos positivos, como um programa ambiental no Paquistão que protege o leopardo-das-neves ao conservar os ecossistemas do Himalaia, e o caso da população de íbis-de-crista, uma das aves aquáticas mais ameaçadas de extinção, que começou a ter filhotes após conservacionistas libertaram pássaros criados em cativeiro no Japão.

FA/rtr/ots

100 mil: a culpa não é do morcego

Pandemia: a antítese entre sociedade e mercado. Retomo o tema à luz do que ocorreu nesses últimos três meses. Em artigo anterior, citei Rousseau que, a propósito de uma catástrofe natural, o terremoto de Lisboa em 1755, disse que a maior parte dos nossos males são sociais e não naturais.  Elas se distribuem desigualmente e é a estrutura social que determina quem sofre, quem morre, quem tem sua vida destruída.

Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida causados pela Covid-19 (Foto: Alex Pazuello/Semcom)

No artigo, também cito o terremoto de São Francisco de 1989, de intensidade 7,1 graus na escala Richter, que causou a morte de 63 pessoas e deixou cerca de 3.700 mil feridos. Em comparação, o terremoto de Porto Príncipe de 2010, magnitude 7 na escala Richter, deixou 300 mil mortos e mais de 300 mil feridos. Dez meses depois, uma epidemia de cólera matou nove mil pessoas. A natureza não pode ser responsabilizada pelas mortes a mais em Porto Príncipe ou pelo 1,5 milhão de pessoas que lá ficaram desabrigadas. Isso é obra humana.

A hipótese mais aceita para a origem do coronavírus é o comércio de animais selvagens na China. Teria saltado dos morcegos para os humanos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os primeiros casos na China apareceram em dezembro de 2019, dois meses antes de a doença se espalhar pelo planeta. O país teve cerca de 84 mil infecções e apenas 4.600 mortes. Os Estados Unidos têm até agora 4,3 milhões de infectados e 150 mil mortos. No Brasil, há aproximadamente três milhões de infecções e 100 mil mortos. Essa diferença não vai para a conta do morcego. Deve-se à desigualdade, a um modo de vida em que o mercado é a racionalidade hegemônica e – produto arrasador de 40 anos de neoliberalismo – ao entorpecimento da consciência da massa pela ideia de que não há sociedade, mas indivíduos que lutam por seus interesses, como acreditava Margaret Thatcher. Ou, como disse Marx certa vez, a uma estrutura em que indivíduos são “mônadas dobradas sobre si mesmos”.

Vejamos como um fato da natureza transforma-se em catástrofe social tomando o município de São Paulo como exemplo para evitar que disparidades regionais contaminem as conclusões. Aqui, o prefeito e o governador (antes do seu plano arco-íris) apareceram inicialmente como heróis do combate à pandemia. O que, em contraponto com o genocida Jair Bolsonaro, não era exatamente um grande feito.

Em 23 de março, a capital tinha 477 casos confirmados e 30 óbitos. A quarentena foi decretada em 24 de março. Funcionavam apenas os serviços essenciais de alimentação, abastecimento, saúde, bancos, limpeza e segurança. No final de maio, João Doria apresentou seu plano de fases coloridas que não era um “relaxamento” da quarentena, mas o fim gradativo dela. Com sua linguagem pomposa e pernóstica, apresentou a proposta como um “monitoramento e ajuste fino regional”, tudo “seguindo a orientação da ciência, da medicina e da saúde”. Punha-se de maneira dissimulada na mesma esfera de Jair Bolsonaro, permitindo que a capital reabrisse shoppings, atividades imobiliárias, comércio e concessionárias. Enquanto Bolsonaro defendia às claras o fim do isolamento social – fascistas normalizam a loucura moral –, o outro aparecia como representante de uma burguesia ilustrada que sabe ser oblíqua. Ambos a serviço do mercado.

Nessa trajetória paulistana de fechamento à abertura, de março a agosto, passamos de 477 casos e 30 óbitos no dia 23 de março para cerca de 246 mil infecções e mais de 10 mil óbitos no dia 8 de agosto, segundo boletins da prefeitura de São Paulo. Vejamos mês a mês, tomando aleatoriamente o dia 15 para efeito de comparação. Infecções e mortes, respectivamente, em 15 de abril: 8.024 e 563. Em 15 de maio: 37.106 e 2.695. Em 15 de junho: 100.627 e 5.703. Em 15 de julho: 179.850 e 8.510. Em 8 de agosto: 246.650 e 10.172. Considerando as subnotificações, podemos multiplicar isso tudo por algum número que não se pode saber ao certo.

No período de 15 de maio a 15 de julho, desde o fim do isolamento, passamos de cerca de 37 mil casos para cerca de 179 mil, com a reabertura de shoppings, imobiliárias, comércio e concessionárias de carros. Agora, já são 246 mil casos. João Doria e Bruno Covas jogaram centenas de milhares de trabalhadores nas ruas, nos transportes coletivos e em contato com a população em geral, em situação de vulnerabilidade, provocando o agravamento da pandemia.

Quem precisa de shoppings abertos? Quem precisa comprar carros? Quem precisa comprar imóveis agora? Quem não pode esperar alguns meses para ter carros novos, perfumes, roupas de grife e sapatos de 800 reais? A elite empresarial – com seus interesses econômicos e sua ânsia desenfreada por lucros – e os consumidores da classe média para cima. Qual a lógica de fechar a cidade com 477 casos e prosseguir na reabertura quando se atingem 246 mil?

A Unifesp fez uma pesquisa sobre desigualdade e vulnerabilidade na pandemia e concluiu que regiões com mais presença de autônomos e pessoas que usam transporte público têm mais mortes do que regiões em que pessoas usam mais carros, são empregadores ou profissionais liberais. O responsável pelo estudo, Kazuo Nakano, foi taxativo em entrevista à Folha: “de uma maneira bem contundente estão acontecendo mais mortes onde você tem mais viagens de transporte coletivo, de ônibus, trem e metrô”.

O que todos os especialistas com um mínimo de comprometimento com a ciência e a razão afirmam é que, não havendo vacina ou qualquer antiviral eficaz, a única maneira de enfrentar a pandemia é o isolamento. Mas a própria estrutura do capitalismo inviabiliza isso porque somente uma porcentagem ínfima no topo da pirâmide é capaz de se proteger desse modo. Além do mais, temos uma das burguesias mais estúpidas do planeta (de que Bolsonaro e Doria são legítimos representantes), incapaz de ver seus interesses estruturais de classe. Se conseguisse raciocinar além do balanço mensal, os danos teriam sido atenuados. Além disso, 40 anos de hegemonia neoliberal deixaram marcas na ideia de consciência social e de solidariedade, transformando cada vez mais os indivíduos em mônadas dobradas sobre si mesmas. De qualquer forma, o capitalismo será sempre incompatível com a totalidade e com a ideia de uma humanidade em que todos possam ser igualmente protegidos por direitos.Rodando o globo terresre,Capitalismo,Economia,Humor,Trabalho,Escravos,Blog do Mesquita

A culpa não é do morcego. É do capitalismo. Comecei com Rousseau e termino com Rousseau, citado por Marx em Sobre a questão judaica (1844): “quem se propõe a tarefa de instituir um povo deve transformar a natureza humana (quer dizer, o homem em seu estado natural) de um todo perfeito e solitário a parte de um todo maior, de substituir a existência física e independente por uma existência parcial e moral. Deve ser despojado de suas próprias forças para que receba outras, que lhe são estranhas e das quais só possa fazer uso com a ajuda de outros homens”.

Substituir a “existência física” por uma “existência moral” expressa em outras palavras que o mercado não é sociedade. Quando a “existência física” deriva para a loucura moral, passamos para o fascismo, a forma mais perversa de capitalismo. É o capitalismo, com eventuais derivações fascistas, que está nos matando. Não o morcego.

MARCIO SOTELO FELIPPE é advogado e foi procurador-geral do Estado de São Paulo. É mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP

Covid-19 – Pandemia é resposta biológica do planeta

‘Pandemia é resposta biológica do planeta’, diz físico Fritjof Capra

Autor de “O Tao da Física” relaciona desigualdade social, economia predatória e devastação ambiental ao surgimento do novo coronavírus

Ícone do pensamento sistêmico, o físico e ambientalista austríaco Fritjof Capra, 81, interpreta a pandemia da Covid-19 como uma resposta biológica da Terra diante de emergências sociais e ecológicas amplamenta negligenciadas.

Segundo Capra, as mudanças de paradigma necessárias a essas emergências já são possíveis, tanto do ponto de vista do conhecimento quanto do desenvolvimento tecnológico.

Autor de best-sellers internacionais como “O Tao da Física” e “Ponto de Mutação” (Cultrix), entre outros, o Capra articulou a física moderna a uma visão holística da vida no planeta e dos fenômenos naturais, inserindo a humanidade e suas ações nos ciclos de transformação da vida no planeta.

Capra é uma das estrelas deste ano do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, cujo tema — Reinvenção do humano— implica um debate de múltiplas variáveis que, na visão do físico austríco, são sempre indissociáveis e interdependentes.

Diretor do Centro de Alfabetização Ecológica, com sede em Berkeley, na Califórnia (EUA), Capra desenvolveu uma pedagogia da ecologia a ser aplicada no ensino formal, primário e secundário.

Convertido em ambientalista por sua própria pesquisa, o austríaco há décadas denuncia o caráter predatório da economia global capitalista extrativista e a captura corporativa da política, que sucumbe a interesses econômicos em detrimento dos recursos naturais do que chama de Gaia —a Mãe-terra da mitologia grega que batizou uma visão do planeta como um imenso organismo vivo.

Para ele, estão equivocadas as atuais métricas do desenvolvimento baseadas no crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) a partir de uma cultura de excessos, que implica em perdas sociais e econômicas.

Em quais aspectos o momento presente pode redefinir a condição humana?

Na minha visão, o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência social e ecológica que a humanidade criou para si própria. A pandemia emergiu de um desequilíbrio ecológico e tem consequências dramáticas por conta de desigualdades sociais e econômicas.

Cientistas e ativistas ambientais há décadas vêm alertado para as terríveis consequências de sistemas sociais, econômicos e políticos insustentáveis. Mas até agora as lideranças corporativas e políticas teimaram em resistir a esses alarmes. Agora eles foram forçados a prestar atenção, já que a Covid-19 trouxe os avisos de antes para a realidade de hoje.

Quais paradigmas a humanidade precisa mudar e por quê?

Com a pandemia, Gaia nos trouxe lições valiosas capazes de salvar vidas. A questão é: teremos a sabedoria e a vontade política necessárias para ouvir essas lições? Mudaremos do modelo de crescimento econômico indiferenciado baseado no extrativismo para outro de crescimento qualitativo e regenerativo? Vamos substituir combustíveis fósseis por formas renováveis de energia que dêem conta de todas as nossas necessidades? Vamos substituir nosso sistema centralizado de agricultura industrial com uso intensivo de energia por um sistema orgânico de agricultura regenerativa, familiar e comunitária? Vamos plantar bilhões de árvores capazes de retirar o CO2 da atmosfera e de restaurar diferentes ecossistemas do mundo?

Nós já temos o conhecimento e a tecnologia para embarcar em todas essas iniciativas. Teremos a vontade política que falta?

Num momento em que o valor do conhecimento científico biológico e tecnológico se mostram tão importantes, qual é o papel das humanidades?

Isso está diretamente relacionado a sua pergunta anterior. Se temos todo o conhecimento científico e tecnológico para construirmos um futuro sustentável, porque não o fazemos simplesmente?

Quando refletimos sobre essa questão crucial, rapidamente percebemos que o nível conceitual não conta toda essa história. Nós também precisamos lidar com valores e éticas, e é por isso que as ciências humanas são mais importantes do que nunca. Literatura, filosofia, história, antropologia podem todas nos imbuir do compasso moral que tanto falta à política e à economia atuais.

Índices de desmatamento têm aumentado na Amazônia brasileira. Quais são os incentivos para isso?

Esses crimes são uma consequência direta da obsessão com o crescimento econômico e corporativo. A devastação de grandes áreas de florestas tropicais é impulsionada pela ganância de corporações multinacionais do setor de alimentação, que buscam incansavelmente lucro e crescimento.

Se o que chamamos de progresso foi atingido às custas de danos ao meio ambiente, nossa ideia de progresso está errada?

A crença em um progresso contínuo e, em particular, a obsessão de nossos economistas e políticos com a ilusão de um crescimento ilimitado em um planeta finito constituem o dilema fundamental que permeia nossos problemas globais.

Isso equivale ao choque entre o pensamento linear e os padrões não lineares da nossa biosfera —a interdependência dos sistemas ecológicos e os ciclos que constituem a teia da vida. Essa rede global altamente não linear contém inúmeras alças de retroalimentação por meio das quais o planeta se regula e se equilibra.

Nosso sistema econômico atual, ao contrário, parece não reconhecer a existência de limites. Nele, um crescimento perpétuo é perseguido incessamente através da promoção do consumo excessivo e de uma economia do descarte que usa de maneira extravagante tanto recursos como energia, aumentando a desigualdade econômica.

Esses problemas são exacerbados pela emergência climática global, causada pelas tecnologias de uso intensivo de energia e baseada em combustíveis fósseis.

Com a pandemia, projeções apontam para o aprofundamento das já marcantes desigualdades sociais de nosso tempo. O que as produziu e como reverter esse processo?

O aprofundamento das desigualdades é uma característica inerente ao sistema econômico capitalista de hoje. O chamado “mercado global” é, em verdade, uma rede de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental segundo o qual ganhar dinheiro tem primazia sobre direitos humanos, democracia, proteção ambiental.

Valores humanos, no entanto, podem mudar porque eles não são leis naturais. A mesma rede eletrônica de fluxos financeiros pode ter nela embutidos outros valores. O ponto crítico não é a tecnologia, mas a política.

Há sinais de mudanças neste sentido na política de hoje?

Uma nova liderança começou a emergir recentemente em uma série de movimentos jovens muito potentes, como Sunrise Movement, Extinction Rebellion, Fridays for Future, entre outros.

Há também a ascensão de uma nova geração de políticos, curiosamente formada por mulheres, como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinta Arden, a primeira-ministra da Finlândia, Sanna Marin, ou a congressista [democrata] norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez.

A crise atual prescreve nossa percepção de soberania e de globalização? Como?

Com certeza absoluta! Para prevenir o alastramento da pandemia, agora e no futuro, teremos de reduzir densidades populacionais excessivas, como ocorre no turismo de massa e em condições de vida marcadas pela superlotação. Ao mesmo tempo, necessitamos de cooperação global.

A justiça social se torna uma questão de vida ou morte durante uma pandemia como a da Covid-19. E ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas.

Seu trabalho explorou a interconectividade entre as ciências e os conceitos e filosofias considerados não-científicos. Como esse diálogo complexifica nosso entendimento do planeta e da humanidade?

Eu me formei como físico e fiquei fascinado pelas implicações da física quântica, que nos mostra que o mundo material não é uma máquina gigante mas uma rede inseparável de padrões de relações. Durante os anos 1980, minha pesquisa virou para a área das ciências da vida, da qual tem emergido um novo conceito sistêmico que confirma a fundamental interconectividade e interdependência de todos os fenômenos naturais.

Quando nós entendemos que compartilhamos não apenas as moléculas básicas da vida, mas também princípios elementares de organização com o restante do mundo vivo, percebemos o quão firme estamos costurados em todo o tecido da vida.

O que você aprendeu com a pandemia?

Tem sido incrível para mim ver como o coronavírus expôs tantas injustiças ecológicas, sociais e raciais omitidas por décadas pelas mídias de massa.

Também fiquei espantado de ver como, em um curto espaço de tempo, a poluição quase desapareceu da baía de São Francisco, na Califórnia (EUA), onde eu vivo, assim como ocorreu em várias das grandes cidades do mundo. Isso me encheu de esperança quanto à capacidade da Terra de se regenerar.

Por que os EUA têm os piores índices de pobreza do mundo desenvolvido

Dois meninos olham para foto, em área de banco de alimentos
Milhares de famílias dependem da ajuda de bancos de alimentos nos EUA – Direito de imagem GETTY IMAGES

Este é um dos grandes paradoxos dos nossos tempos: os Estados Unidos, país mais rico do mundo, têm alguns dos piores índices de pobreza no grupo dos países desenvolvidos.

Mais de meio século depois que o presidente Lyndon B. Johnson declarou “guerra incondicional à pobreza”, os EUA ainda não descobriram como vencê-la.

Desde a declaração de Johnson, em 1964, o país teve conquistas surpreendentes, como chegar à Lua ou gestar a internet. Entretanto, nesse período, conseguiu uma tímida redução no índice de pobreza, que caiu de 19% para cerca de 12%.

Isso significa que quase 40 milhões de americanos vivem abaixo da linha oficial de pobreza.

O problema é muito maior e mais antigo do que se vê na atual pandemia do novo coronavírus, que também vem revelando e intensificando questões sociais do país — os EUA têm o maior número de casos de covid-19 no mundo e agora enfrentam os piores níveis de desemprego desde a Grande Depressão de 1930.

Até hoje, segundo estudiosos, o aumento da pobreza foi contido nos EUA graças a uma expansão histórica de subsídios do governo.

Mesmo antes da crise na saúde, o país já destinava anualmente bilhões de dólares a programas de combate à pobreza, em quantias até maiores do que o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns países da América Latina.

“Essa é a ironia: seria uma coisa se fôssemos um país pobre e realmente não pudéssemos fazer muito a respeito. Mas temos os recursos”, diz Mark Rank, professor da Universidade de Washington em St. Louis, considerado um dos maiores especialistas em pobreza nos EUA.

Questão cultural: o tabu do fracasso individual

Homem e mulher consertando bicicleta em acampamento
Nos EUA, 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza – Direito de imagemAFP

Pesquisadores apontam para duas razões fundamentais por trás da pobreza nos Estados Unidos: uma tem a ver com simbologia e a outra é pragmaticamente econômica.

Primeiro, os EUA carecem de uma rede de assistência social forte ou programas de apoio à renda como outros países.

Os programas de assistência social que os Estados Unidos implementaram nas últimas décadas, como vale-alimentação ou seguro desemprego, permitiram reduzir em alguns pontos a pobreza, mas são considerados limitados.

Fatores culturais são geralmente lembrados para explicar isso.

“Nós tendemos a ver a pobreza nos EUA como um fracasso individual, ou seja, como se as pessoas não tivessem trabalhado duro o suficiente. Como se tivessem tomado decisões ruins ou não tivessem talento o suficiente. Assim, é algo como: cabe a você se erguer”, afirma Rank.

“O resultado é que realmente não fazemos muito em termos de políticas sociais para tirar as pessoas da pobreza.”

Somam-se a isso as desigualdades raciais: as minorias sofrem desproporcionalmente no país.

Enquanto 11% das crianças brancas nos EUA vivem na pobreza, essa taxa chega a 32% para crianças negras e 26% para crianças latinas, segundo dados do censo levantados pelo Centro de Dados Kids Count.

“A pobreza é frequentemente vista como um problema para os não-brancos, e isso também reduz a vontade de ajudar os outros”, diz Rank.

“Existem estudos mostrando que em países mais homogêneos em termos de raça e etnia, existe uma rede de segurança mais robusta, porque as pessoas veem os outros como semelhantes — tendo maior probabilidade de querer ajudar.”

Pessosas negras em fila para receber alimentosDesigualdade nos EUA é ainda mais presente e sofrida entre os negros. Direito de imagem GETTY IMAGES

Maior desigualdade

Por outro lado, especialistas apontam para um fator econômico: a deterioração do mercado de trabalho americano para aqueles com salários mais baixos, que representam cerca de 40% do total e sofreram perdas em seus ganhos reais nas últimas décadas.

As razões vão do enfraquecimento dos sindicatos às transformações tecnológicas.

Assim, a desigualdade de renda e riqueza nos EUA aumentou e é maior do que em quase qualquer outro país desenvolvido, de acordo com o Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas em Washington.

Christopher Wimer, codiretor do Centro de Pobreza e Política Social da Universidade de Columbia, argumenta que, nos EUA, “as oportunidades no mercado de trabalho tendem a ir para pessoas com formação superior e que se beneficiaram do crescimento econômico”.

“E grande parte desse crescimento econômico não foi compartilhado nas faixas de renda ou escolaridade que vêm abaixo”, contou à BBC News Mundo.

Operadores em bolsa de valores de Nueva York
Apenas alguns segmentos da população americana, como aqueles com acesso ao ensino superior, se beneficiaram das conquistas econômicas do país nas últimas décadas
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‘Uma escolha política’

Mas houve sim, nas últimas décadas, alguns avanços sociais — como níveis mais altos de escolaridade e queda na mortalidade infantil.

Além disso, especialistas alertam que o cálculo do índice oficial de pobreza nos EUA se baseia apenas em renda, sem contar com auxílios do governo como créditos fiscais, cupons de alimentos ou assistência habitacional.

Um estudo recente de Wimer e outros pesquisadores de Columbia projetou que, sem ajuda emergencial aprovada na pandemia de coronavírus, a taxa de pobreza do país teria saltado de 12,5% antes da crise para 16,3%.

Mas esses benefícios, que incluem cheques semanais de US$ 600 a trabalhadores afetados pela pandemia, expiraram no final do mês. Sua continuidade depende de um acordo entre o Congresso e a Casa Branca.

Antes da covid-19, especialistas já alertavam que o país era condescendente com níveis muito altos de pobreza.

“Os Estados Unidos são um dos países mais ricos, poderosos e tecnologicamente inovadores do mundo. Mas nem sua riqueza, nem seu poder, nem sua tecnologia estão sendo usados ​​para resolver a situação em que 40 milhões de pessoas continuam vivendo na pobreza”, indicou no final de 2017 o então relator especial das Nações Unidas para a pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston.

Entre outras coisas, Alston observou que os EUA tinham a maior mortalidade infantil no mundo desenvolvido, que a expectativa de vida de seus cidadãos era menor e menos saudável do que em outras democracias ricas.

E também que sua pobreza e desigualdade estavam entre as piores no clube dos países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de uma taxa de encarceramento entre as mais altas do mundo.

“No fim das contas”, afirmou ele, “particularmente em um país rico como os EUA, a persistência da pobreza extrema é uma escolha política feita pelos que estão no poder”.

Criança na porta de uma casa pobre
No mundo desenvolvido, EUA também chama a atenção por indicadores preocupantes em relação às crianças
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Luke Shaefer, diretor da iniciativa Poverty Solutions da Universidade de Michigan, defende políticas mais simples nos EUA e com uma abordagem mais universal.

Um estudo realizado por ele e outros especialistas da universidade indicou que os Estados Unidos investem US$ 278 bilhões (mais de R$ 1,4 trilhões) por ano em programas governamentais de combate à pobreza, sem contar os gastos com saúde.

Somando-se programas de saúde para os mais pobres, como o Medicaid, o investimento anual chega a US$ 857 bilhões (mais de R$ 4,4 trilhões), ou seja, mais do que o PIB da Argentina e do Chile somados.

“Muitos desses dólares não estão indo realmente para os mais pobres”, alerta Shaefer.

As eleições presidenciais de novembro podem dar aos EUA uma nova oportunidade para repensar como melhorar esses gastos, acreditam aqueles que se dedicam ao tema há anos.

“Existem pessoas da esquerda e da direita falando que essa abordagem (atual) não está funcionando. Temos que fazer algumas coisas de maneira diferente, precisamos simplificar”, diz ele.

Desigualdade: Monitoramento de aplicativo escancara política de morte pelo coronavírus em localidades pobres do Rio de Janeiro

A roleta da morte. Morrer de fome ou de Coronavirus?
Pandemia agrava fome nas favelas e o Brasil tem 51% de domicílios em áreas adensadas. Em 48% dos domicílios vivem entre 4 a 7 pessoas, enquanto a Pandemia agrava fome nas favelas.

O aplicativo Covid por CEP, criado pelo urbanista Thales Mesentier, foi colocado no ar este mês. A ideia é ajudar no combate à pandemia a partir de dados georreferenciados, oferecendo visualização espacial dos casos da doença na cidade do Rio de Janeiro, de acordo com o código de endereçamento postal. É possível realizar a busca por CEP específico ou navegar pela cidade clicando nos círculos do mapa, que tem cores correspondentes ao número de casos, indicando ainda se houve óbito na localidade.

De acordo com o aplicativo, os dados mostram uma maior concentração dos casos de Covid-19 nas regiões mais ricas da cidade. Porém, em contrapartida, nas regiões mais pobres, sobretudo na Zona Oeste, a taxa de letalidade pelo vírus é muito maior que a média do estado, uma das maiores do país.

Ainda segundo o aplicativo, em toda a capital, os endereços com maior número de mortes em decorrência da infecção por coronavírus são a Rua do Amparo, em Rio das Pedras; Rua São Miguel, na Tijuca; a Estrada dos Caboclos, em Campo Grande; e a Rua Nilópolis, em Realengo. Não podemos nos esquecer que toda a população do Morro do Borel utiliza como código postal o endereço situado na Rua São Miguel, número 500 e que, portanto, os dados devem refletir a realidade da comunidade moradora da favela. A ferramenta mostra que o CEP 20530-420, que corresponde à região, já teve 83 casos, sendo 75 recuperados, 8 óbitos e nenhum caso ativo até o momento.

Os dados do CoronaZap, um sistema de monitoramento colocado em prática por moradores do Borel por meio do WhatsApp, revelam que foram registrados 16 casos na comunidade, sendo 2 confirmados e 14 suspeitos, no período de março a abril deste ano.

É evidente que o número tende a ser muito maior, devido à falta de testes. Ainda assim, os números divulgados não foram contabilizados pelo poder público de maneira particular para o território, isto é, havendo um agrupamento dos casos para o bairro da Tijuca. A falta de uma política de notificação específica e transparente de casos em favelas, aliada à ausência do Estado com políticas públicas plenas para minimizar os impactos da doença nesses territórios, interferem diretamente no comportamento dos moradores em relação às medidas de proteção e segurança contra a Covid-19.

É impossível não se estarrecer com esses dados. É evidente que a pandemia realçou as profundas desigualdades do país, mas poucas coisas denunciam a prática da política de morte quanto o cruzamento dos dados do Covid por CEP, com os dados apresentados pela Rede de Observatórios da Segurança.

Muito se tem falado sobre necropolítica e em como Achille Mbembe avança, nos componentes racial e colonial, a análise da biopolítica de Foucault, para quem o biopoder funciona a partir da divisão entre as pessoas que devem viver e as que devem morrer. Para o filósofo camaronês, em nosso mundo contemporâneo, as armas são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar formas únicas e novas de existência social nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de mortos vivos.

Favelas e o coronavírus (Free-Photos/Pixabay)

A política sanitária adotada pelo poder público nos territórios de favelas e periferias – onde saneamento básico, água potável, atendimento de saúde, entre outros serviços, são precários – evidencia o “deixar morrer” necropolítico, resultando em altos índices de letalidade da infecção por coronavírus em favelas e bairros da Zona Norte e Zona Oeste, longe dos hospitais de campanha montados no Centro e na Zona Sul da cidade, bem como da ampla cobertura da rede privada de saúde e do acesso a testes para diagnóstico da Covid-19.

Da mesma maneira, o aumento do uso da força letal por parte das polícias do Rio de Janeiro em relação ao ano anterior, especialmente em abril e maio, em meio à pandemia e algumas vezes, inclusive, durante ações humanitárias, concretiza a face do “fazer morrer” fruto da política de controle dos corpos por meio da morte.

Vale lembrar que a escalada de mortes decorrentes de intervenção de agente do Estado, durante operações policiais, somente decresceram em junho por imposição judicial em virtude da decisão liminar no bojo da ADPF 635 – Favelas pela Vida, que proibiu ações injustificadas enquanto durar a pandemia.

A maior parte das vítimas fatais da Covid-19 é negra, pobre, de origem periférica ou favelada – estudo liderado pela PUC-Rio mostra que pretos e pardos com baixo índice de escolaridade morrem quatro vezes mais.

Já uma análise da Agência Pública aponta que de cada três negros internados por Covid-19 um morre, a proporção entre brancos é 4,4 internados. Isso diz muito a respeito da situação da classe trabalhadora do Rio de Janeiro, e do enorme desafio em transformar cotidianamente luto em luta para mudar essa realidade de extrema desigualdade social.


Mônica Francisco é presidente da Comissão de Trabalho Legislação Social e Seguridade Social e vice-presidente da Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da Alerj.

A pandemia e a pena de morte nas prisões brasileiras

Com a pandemia, o quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento nas prisões tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

As prisões são o lugar onde as violências e desigualdades sociais revelam sua mais brutal expressão. No Brasil, trata-se de celas lotadas e sem ventilação, instalações elétricas com remendos e potencialmente perigosas, comida racionada e de péssima qualidade, muitas vezes estragada, água escassa para o banho, para a limpeza das celas e mesmo para beber.

Os relatos são assustadores e as doenças são uma presença constante nesse universo insalubre. De acordo com dados do próprio Departamento Penitenciário Nacional (Depen), órgão do governo federal responsável pela gestão do sistema prisional, em dezembro de 2019 havia no sistema penitenciário 748 mil pessoas privadas de liberdade no país. Nesse universo, verificava-se um quadro de 170% de déficit de vagas, ou seja, uma realidade de absoluta superlotação.

Os negros são a maioria nesse sistema e estão expostos a uma taxa de encarceramento 1,5 vez maior do que a de um homem branco,2 o que confirma a seletividade da polícia nas abordagens e prisões em flagrante e o viés discriminatório nas decisões dos juízes, que reproduzem tanto estereótipos racializados quanto uma média maior de condenação para mulheres e homens negros.

Agencia Brasil

Com a pandemia, esse quadro geral de precariedade, exclusão e adoecimento tornou-se ainda mais preocupante, não só pelo previsível efeito letal da doença em ambientes insalubres, mas também em razão das decisões governamentais e judiciais que agudizaram o problema e ampliaram os riscos da crise sanitária em curso.

Como forma de propor medidas que contivessem a propagação do vírus nas prisões, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Recomendação n. 62, que exortou os juízes a adotar medidas para a reavaliação das prisões provisórias, a contenção de novas ordens de prisão preventiva, a concessão de saída antecipada dos regimes fechado e semiaberto para presos que não tivessem cometido crimes com violência ou grave ameaça e a transferência de presos do grupo de risco para prisão domiciliar. Entretanto, a despeito dos esforços do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do CNJ e das manifestações de apoio à agenda de desencarceramento para pessoas do grupo de risco da Covid-19, a Recomendação n. 62 continuou sendo duramente criticada pelo Ministério da Justiça e pelo governo federal e foi acolhida apenas parcialmente pelo Ministério Público e pela magistratura no Brasil.

O ex-ministro Sérgio Moro dedicou-se pessoalmente a deslegitimar a orientação do Conselho e a conceder reiteradas entrevistas afirmando que tudo estava sob controle no âmbito do Departamento Penitenciário Nacional e que, portanto, não era necessário que os juízes adotassem medidas que pusessem presos perigosos em liberdade.

No âmbito do Poder Judiciário, reiteraram-se decisões com indeferimento de pedidos de habeas corpus coletivos e sucessivas diligências que impediam a soltura de presos integrantes do grupo de risco. De modo ilegal, juízes recusaram-se a conceder pedidos de liberdade com o argumento genérico de que se tratava de presos perigosos ou que haveria nas prisões condições para a prevenção e o tratamento adequado ao coronavírus. Os juízes brasileiros optaram por contrariar as evidências médicas, a recomendação do CNJ e os apelos e alertas de organizações de direitos humanos, dos próprios presos e de seus familiares, e não concederam a maioria dos pedidos formulados por integrantes das defensorias públicas e pelos advogados particulares.Blog do Mesquita,Justiça,Brasil

Em pesquisa realizada entre março e maio de 2020 pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, verificou-se que, desde a edição da Recomendação n. 62, houve um aumento dos habeas corpus concedidos; porém, o estudo apurou também que 67% dos presos soltos estavam detidos em caráter preventivo, ainda sem julgamento, por causa de crimes cometidos sem violência, e que dos 783 soltos apenas 37 se encontravam condenados a regime fechado de prisão.

No mesmo sentido, um trabalho realizado por pesquisadoras do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e pela Fundação Getulio Vargas (FGV) Direito de São Paulo constatou que, das 6.781 decisões de habeas corpus (entre 18 de março e 4 de maio de 2020) que mencionaram a Covid-19, apenas 12% tiveram o pedido concedido,6 o que também corrobora a tendência já apontada no relatório produzido pelo Conselho Nacional de Justiça, que afirma que 26,9% dos Tribunais de Justiça não apresentaram alteração nas concessões de liberdade de réus presos em regime fechado.

Os argumentos adotados para negar os pedidos de liberdade revelam total desapreço pela obrigação estatal de zelar pela vida e pela integridade daqueles que se encontram sob sua custódia (ou seja, sob total e absoluta responsabilidade do próprio Estado). Algumas sentenças circularam na mídia e nas redes sociais como maus exemplos em termos de fundamentação constitucional e de respeito a valores éticos e a princípios de direitos humanos.

Um dos episódios mais trágicos foi o do juiz Camilo Léllis, da 4ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que decidiu não alterar o regime da pena de um preso para o aberto, afirmando que o risco de contágio pelo coronavírus pode ser maior fora do sistema prisional do que dentro e que não seria razoável a determinação, de forma monocrática, de imediata remoção para o regime domiciliar de todos os presos que eventualmente se encontrem no chamado “grupo de risco”. O preso em questão encontrava-se na Penitenciária Compacta de Pracinha, que custodia 1.605 presos, tendo sido projetada para receber no máximo 844 internos.8

Mas por que os juízes decidem assim? Por que, apesar de todas as evidências, eles continuam mandando pessoas para cadeias superlotadas, com grande risco de contaminação e nas quais provavelmente vão morrer?

As respostas a essas perguntas passam, sem dúvida, pela constatação do peso do racismo em nossas relações sociais e do brutal processo de desumanização a que pessoas negras estão submetidas em nossa sociedade. Na prática, as condutas do governo federal e de parte da magistratura brasileira em relação à questão da Covid-19 nas prisões representam condenações à pena de morte na vigência do estado democrático de direito.

São escolhas políticas que constroem um itinerário de violência cujo desfecho letal é iminente e revela o peso do racismo no Brasil e sua força como esquema de anulação das possibilidades de vida e de acesso a direitos para as pessoas negras nos mais diferentes campos da vida social.

Felipe da Silva Freitas é doutor em Direito pela Universidade de Brasília, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Criminologia da Universidade Estadual de Feira de Santana e integrante do projeto Infovírus

Pandemia: 40% dos países pobres não apoiam estudantes vulneráveis

De acordo com relatório da Unesco, 40% dos países mais pobres não apoiam os estudantes de menor renda, negros e com deficiência em meio à pandemia

A pandemia de Covid-19 aumentou a exclusão de estudantes, segundo o Relatório de Monitoramento Global da Educação 2020, realizado pela Unesco.

O estudo busca monitorar os avanços de 209 países no caminho para alcançar as metas de educação da ONU da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O documento indica que 40% dos países mais pobres – de baixa e média-baixa – não apoiam os alunos de menor renda, negros e com deficiência em meio ao isolamento social, não garantindo o básico, como acesso a dispositivos tecnológicos para o estudo remoto ou a adequação das aulas às deficiências.

De acordo com o texto, 258 milhões de crianças e jovens foram excluídos da educação, sendo a pobreza o principal obstáculo no acesso.

Nos países de renda baixa e média, os adolescentes que pertencem aos 20% mais ricos da sociedade têm três vezes mais chances de concluir o primeiro nível da educação secundária, em relação aos mais pobres.

Na América Latina e no Caribe, 9% dos países não têm oferecido suporte aos estudantes mais vulneráveis em meio à crise. A Unesco não indicou em que grupo o Brasil se classifica nem divulgou a lista dos países que não dão suporte aos alunos.

No mundo, um em cada quatro alunos de 15 anos informa que se sente excluído da escola. Além disso, 335 milhões de meninas vão para escolas que não lhes oferece serviços de água, saneamento e higiene dos quais necessitam para ir às aulas no período menstrual.

O relatório aponta que, em 10 países de renda baixa e média, estima-se que crianças com deficiências tenham uma probabilidade 19% menor de obter proficiência mínima em leitura do que aquelas que não têm deficiências.

No total, apenas 41 países reconhecem oficialmente a língua de sinais. No Brasil, por exemplo, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida em lei. Cerca de um quarto dos países possui leis que determinam que crianças com deficiências sejam instruídas em contextos separados.

Ao abordar o Brasil, o relatório destaca a exclusão dos indígenas e alunos com deficiência. Atualmente, apenas 40% das escolas primárias recebem esses estudantes no país.

O relatório também indica outra preocupação no caso brasileiro: a exposição de alunos à violência e ao homicídio na região em que vivem e estudam.

O documento reforça que quase metade dos países de renda baixa e média não reúne dados educacionais suficientes sobre crianças com deficiência.

No entanto, há resultados políticos. O número de países latino-americanos que incluíram pelo menos uma questão sobre etnia em seu censo cresceu de 6, em 1980, para 12, em 2000. Somente a República Dominicana não inclui essa questão na região.

Em relação ao Brasil, o relatório ressalta o aumento de estudantes com deficiência nas escolas regulares de 23%, em 2003, para 81%, em 2015.

A pandemia de covid-19 está forçando a repensar a macroeconomia

Na forma como é conhecido hoje, a macroeconomia começou em 1936 com a publicação de “The The General Theory of Employment, Interest and Money”, de John Maynard Keynes.

Sua história subsequente pode ser dividida em três épocas. A era da política, guiada pelas idéias de Keynes, começou na década de 1940. Nos anos 70, encontrou problemas que não conseguia resolver e, nos anos 80, começou a era monetarista, mais comumente associada ao trabalho de Milton Friedman. Nas décadas de 1990 e 2000, os economistas combinaram idéias de ambas as abordagens. Mas agora, nos destroços deixados pela pandemia de coronavírus, uma nova era está começando. O que ele contém?

A idéia central da economia de Keynes é o gerenciamento do ciclo de negócios – como combater recessões e garantir que tantas pessoas que querem trabalho possam obtê-lo. Por extensão, essa ideia-chave se tornou o objetivo final da política econômica. Ao contrário de outras formas de teoria econômica no início do século XX, o keynesianismo previa um grande papel para o Estado alcançar esse objetivo. A experiência da Grande Depressão convenceu os proto-keynesianos de que a economia não era um organismo naturalmente corretor. Os governos deveriam ter grandes déficits (ou seja, gastando mais do que gastaram em impostos) durante as crises para sustentar a economia, com a expectativa de que pagariam a dívida acumulada durante os bons tempos.

O paradigma keynesiano entrou em colapso na década de 1970. A inflação persistentemente alta e o alto desemprego daquela década (“estagflação“) confundiram os economistas comuns, que pensavam que as duas variáveis ​​quase sempre se moviam em direções opostas. Isso, por sua vez, convenceu os formuladores de políticas de que não era mais possível “sair do caminho da recessão”, como admitiu James Callaghan, então primeiro-ministro britânico, em 1976. Um insight central da crítica de Keyman ao modernismo de Friedman era que, se os formuladores de políticas tentassem estimular sem enfrentar as deficiências estruturais subjacentes, eles aumentariam a inflação sem reduzir o desemprego. E a inflação alta poderia persistir, apenas porque era o que as pessoas esperavam.

Os formuladores de políticas procuraram algo novo. As idéias monetaristas da década de 1980 inspiraram Paul Volcker, então presidente do Federal Reserve, a esmagar a inflação restringindo a oferta de moeda, embora isso também produzisse uma recessão que provocou um aumento do desemprego. O fato de Volcker saber que isso provavelmente aconteceria revelou que algo mais havia mudado. Muitos monetaristas argumentaram que os formuladores de políticas antes deles tinham se concentrado demais na igualdade de renda e riqueza em detrimento da eficiência econômica. Em vez disso, precisavam se concentrar no básico – como inflação baixa e estável – que, a longo prazo, criaria as condições nas quais os padrões de vida aumentariam.

Parece um sussurro

Nas décadas de 1990 e 2000, surgiu uma síntese do keynesianismo e do Friedmanismo. Eventualmente, recomendou um regime político amplamente conhecido como “metas flexíveis de inflação”. O objetivo central da política era atingir inflação baixa e estável – embora houvesse espaço para, durante as crises, colocar o emprego em primeiro lugar, mesmo que a inflação estivesse desconfortavelmente alta. A principal ferramenta de gestão econômica era o aumento e a redução das taxas de juros de curto prazo, que, como se viu, eram determinantes mais confiáveis ​​do consumo e do investimento do que a oferta monetária. A independência dos bancos centrais dos governos garantiu que eles não caíssem nas armadilhas inflacionárias que Friedman advertiu. A política fiscal, como forma de gerenciar o ciclo de negócios, foi deixada de lado, em parte porque era vista como sujeita a influência política. O trabalho da política fiscal era manter as dívidas públicas baixas e redistribuir a renda na medida e da maneira que os políticos entendessem.

Agora parece que esse paradigma econômico dominante atingiu seu limite. Começou a tremer após a crise financeira global de 2007-09, quando os formuladores de políticas foram confrontados com dois grandes problemas. A primeira foi que o nível de demanda na economia – em geral, o desejo agregado de gastar em relação ao desejo agregado de economizar – parecia ter sido permanentemente reduzido pela crise. Para combater a crise, os bancos centrais reduziram as taxas de juros e lançaram flexibilização quantitativa (qe, ou imprimir dinheiro para comprar títulos). Mas, mesmo com uma política monetária extraordinária, a recuperação da crise foi lenta e longa. o crescimento do PIB foi fraco. Eventualmente, os mercados de trabalho cresceram, mas a inflação permaneceu silenciosa (ver gráfico 1). O final de 2010 foi simultaneamente a nova década de 1970 e a anti-década de 1970: inflação e desemprego mais uma vez não estavam se comportando como esperado, embora desta vez os dois fossem surpreendentemente baixos.

Isso pôs em questão a sabedoria recebida sobre como gerenciar a economia. Os banqueiros centrais enfrentaram uma situação em que a taxa de juros necessária para gerar demanda suficiente estava abaixo de zero. Esse era um ponto que eles não podiam alcançar com facilidade, pois se os bancos tentassem cobrar taxas de juros negativas, seus clientes poderiam simplesmente retirar seu dinheiro e colocá-lo debaixo do colchão. qe era um instrumento político alternativo, mas sua eficácia foi debatida. Tais disputas levaram a uma repensar. De acordo com um documento de trabalho publicado em julho por Michael Woodford e Yinxi Xie, da Columbia University, os “eventos do período desde a crise financeira de 2008 exigiram uma reavaliação significativa da sabedoria convencional anterior, segundo a qual somente a política de taxas de juros. deve ser suficiente para manter a estabilidade macroeconômica. ”

O segundo problema pós-crise financeira estava relacionado à distribuição. Embora as preocupações com os custos da globalização e automação ajudassem a impulsionar a política populista, os economistas perguntaram em cujos interesses o capitalismo vinha trabalhando ultimamente. Um aparente aumento na desigualdade americana após 1980 se tornou central em muitas pesquisas econômicas. Alguns temiam que as grandes empresas tivessem se tornado poderosas demais; outros, que uma sociedade globalizada era muito afiada ou que a mobilidade social estava em declínio.

Alguns argumentaram que o crescimento econômico estruturalmente fraco e a má distribuição dos despojos da atividade econômica estavam relacionados. Os ricos têm uma maior tendência a economizar, em vez de gastar, por isso, se sua parcela da renda aumentar, a economia geral aumentará. Enquanto isso, na imprensa, os bancos centrais enfrentaram acusações de que baixas taxas de juros e qe estavam aumentando a desigualdade, aumentando os preços da habitação e das ações.

No entanto, também estava ficando claro o quanto de estímulo econômico poderia beneficiar os pobres, se o desemprego caísse o suficiente para que os salários das pessoas de baixa renda aumentassem. Pouco antes da pandemia, uma parcela crescente do PIB em todo o mundo rico era acumulada para os trabalhadores na forma de ordenados e salários. Os benefícios foram maiores para os trabalhadores mal remunerados. “Estamos ouvindo em voz alta e clara que essa longa recuperação está beneficiando comunidades de baixa e moderada renda em maior extensão do que se sente há décadas”, disse Jerome Powell, presidente do Fed, em julho de 2019. A crescente crença no o poder redistributivo de uma economia em expansão aumentou a importância de encontrar novas ferramentas para substituir as taxas de juros para gerenciar o ciclo de negócios.

Mesas começando a virar

Então o coronavírus atingiu. As cadeias de suprimentos e a produção foram interrompidas, o que, sendo tudo o mais, deveria ter causado o aumento dos preços, pois as matérias-primas e os produtos acabados eram mais difíceis de encontrar. Mas o maior impacto da pandemia tem sido do lado da demanda, fazendo com que as expectativas de inflação e taxas de juros futuras caiam ainda mais. O desejo de investir caiu, enquanto as pessoas em todo o mundo estão economizando grande parte de sua renda.

A pandemia também expôs e acentuou desigualdades no sistema econômico. Aqueles em empregos de colarinho branco podem trabalhar em casa, mas trabalhadores “essenciais” – os motoristas de entrega, os limpadores de lixo – devem continuar trabalhando e, portanto, correm maior risco de contrair a covid-19, o tempo todo por salários baixos. Aqueles em setores como hospitalidade (desproporcionalmente jovens, mulheres e com pele negra ou marrom) sofreram o impacto da perda de empregos.

Mesmo antes da covid-19, os formuladores de políticas estavam começando a se concentrar mais uma vez no maior efeito do rebentamento e do boom do ciclo de negócios sobre os pobres. Mas desde que a economia foi atingida por uma crise que mais afeta os mais pobres, surgiu um novo senso de urgência. Isso está por trás da mudança na macroeconomia. Criar novas maneiras de voltar ao pleno emprego é mais uma vez a principal prioridade para os economistas.

Mas como prosseguir sobre isso? Alguns argumentam que a covid-19 provou temores errados de que os formuladores de políticas não possam combater recessões. Até agora, neste ano, os países ricos anunciaram estímulos fiscais no valor de US $ 4,2 trilhões, o suficiente para levar seus déficits a quase 17% do PIB, enquanto os balanços dos bancos centrais cresceram 10% do PIB. Esse enorme estímulo acalmou os mercados, impediu que as empresas colapsassem e protegessem a renda das famílias. Ações políticas recentes “repreendem a idéia de que os formuladores de políticas podem ficar sem munição”, argumenta Erik Nielsen, do banco Unicredit.

No entanto, embora ninguém duvide que os formuladores de políticas tenham encontrado muitas alavancas, ainda há divergências sobre o que deve continuar sendo puxado, quem deve fazer o puxão e quais serão os efeitos. Economistas e formuladores de políticas podem ser divididos em três escolas de pensamento, do menos ao mais radical: um que exige apenas mais coragem; um que olha para a política fiscal; e um que diz que a solução são taxas de juros negativas.

Pegue a primeira escola. Seus defensores dizem que, enquanto os bancos centrais puderem imprimir dinheiro para comprar ativos, poderão impulsionar o crescimento econômico e a inflação. Alguns economistas argumentam que os bancos centrais devem fazer isso na medida do necessário para restaurar o crescimento e atingir suas metas de inflação. Se eles falham, não é porque estão sem munição, mas porque não estão se esforçando o suficiente.

Há pouco tempo, os banqueiros centrais seguiram esse credo, insistindo que ainda tinham as ferramentas para fazer seu trabalho. Em 2013, o Japão, que tem mais experiência do que qualquer outro país com condições de baixo crescimento e inflação ultra baixa, nomeou um banqueiro central “o que for preciso”, Kuroda Haruhiko, para liderar o Banco do Japão (boj). Ele conseguiu provocar um boom de empregos, mas aumentou a inflação em menos do que o prometido. Logo antes da pandemia Ben Bernanke, ex-presidente do Fed, argumentou em um discurso para a Associação Econômica Americana que o potencial de compra de ativos significava que apenas a política monetária provavelmente seria suficiente para combater uma recessão.

Mas, nos últimos anos, a maioria dos banqueiros centrais gravitou para exortar os governos a usarem seus orçamentos para impulsionar o crescimento. Christine Lagarde abriu seu mandato como presidente do Banco Central Europeu com um pedido de estímulo fiscal. Powell alertou recentemente o Congresso contra a retirada prematura de sua resposta fiscal à pandemia. Em maio, Philip Lowe, governador do Banco da Reserva da Austrália (rba), disse ao parlamento australiano que “a política fiscal terá que desempenhar um papel mais significativo na gestão do ciclo econômico do que no passado”.

Permanecendo nas linhas de bem-estar

Isso coloca a maioria dos banqueiros centrais na segunda escola de pensamento, que se apóia na política fiscal. Os adeptos duvidam que as compras de ativos do banco central possam oferecer estímulo ilimitado, ou ver essas compras como perigosas ou injustas – talvez, por exemplo, porque a compra de dívida corporativa mantém as empresas vivas que deveriam falir. Melhor para o governo aumentar os gastos ou cortar impostos, com os déficits orçamentários absorvendo o excesso de poupança criada pelo setor privado. Pode significar ter grandes déficits por um período prolongado, algo que Larry Summers, da Universidade de Harvard, sugeriu.

Essa visão não elimina o papel dos bancos centrais, mas os relega. Eles se tornam facilitadores de estímulos fiscais, cuja principal tarefa é manter os empréstimos públicos de longo prazo ainda mais baratos à medida que os déficits orçamentários disparam. Eles podem fazer isso comprando títulos diretamente, ou fixando as taxas de juros de longo prazo perto de zero, como fazem o boj e o rba atualmente. Como resultado da covid-19 “a linha tênue entre política monetária e gerenciamento da dívida do governo ficou turva”, de acordo com um relatório do Bank for International Settlements (bis), um clube de bancos centrais.

Nem todo mundo está feliz com isso. Em junho, Paul Tucker, ex-vice-governador do Banco da Inglaterra, disse que, em resposta às vastas compras de títulos do governo pelo banco, a questão era se o banco “agora voltou a ser o braço operacional do Tesouro”. Mas aqueles influenciados pela escola keynesiana, como Adair Turner, ex-regulador financeiro britânico, querem que o financiamento monetário do estímulo fiscal se torne uma política declarada – uma idéia conhecida como “dinheiro de helicóptero”.Enormes programas de estímulo fiscal significam que os índices de dívida pública / PIB estão aumentando (ver gráfico 2). No entanto, esses não mais preocupam economicamente os economistas. Isso ocorre porque as baixas taxas de juros atuais permitem que os governos paguem dívidas públicas muito mais altas (veja o gráfico 3). Se as taxas de juros continuarem abaixo do crescimento econômico nominal – ou seja, antes de se ajustar à inflação -, uma economia poderá sair da dívida sem precisar ter um superávit orçamentário, um ponto enfatizado por Olivier Blanchard, do Instituto Peterson de Economia Internacional, um think tank. Outra maneira de argumentar é dizer que os bancos centrais podem continuar a financiar governos enquanto a inflação permanecer baixa, porque é a perspectiva de inflação que força os formuladores de políticas a aumentar as taxas para níveis que tornam a dívida cara.

Para alguns, a idéia de transformar a torneira fiscal ao máximo e cooptar o banco central para esse fim se assemelha à “moderna teoria monetária” (mmt). Essa é uma economia heterodoxa que pede que países que podem imprimir sua própria moeda (como os EUA e a Grã-Bretanha) ignorem os índices de dívida em relação ao PIB, confiem no banco central para conter a dívida pública e continuem executando gastos deficitários, a menos e até desemprego e inflação voltam ao normal.

E há de fato uma semelhança entre essa escola de pensamento e a mmt. Quando as taxas de juros são zero, não há distinção entre emitir dívida, que de outra forma incorreria em custos de juros, e imprimir dinheiro, que os livros didáticos supõem que não incorrem em custos de juros. A uma taxa de juros zero, “não importa se você financia com dinheiro ou com dívida”, disse Blanchard em um webinar recente.

Mas a comparação termina aí. Enquanto aqueles que defendem o mmt querem que o banco central atrele as taxas de juros a zero permanentemente, outros economistas do setor defendem uma política fiscal expansionista precisamente porque desejam que as taxas de juros subam. Isso, por sua vez, permite que a política monetária recupere a tração.

A terceira escola de pensamento, que se concentra nas taxas de juros negativas, é a mais radical. Preocupa-se com a forma como as taxas de juros permanecerão abaixo das taxas de crescimento econômico, como Blanchard estipulou. Seus defensores veem o estímulo fiscal, financiado por dívida ou pela criação de dinheiro do banco central, com alguma suspeita, pois ambos deixam contas para o futuro.

Um efeito colateral do qe é que ele deixa o banco central incapaz de aumentar as taxas de juros sem pagar juros pela enorme quantidade de dinheiro eletrônico que os bancos estacionaram com ele. Quanto mais dinheiro for impresso para comprar títulos do governo, mais dinheiro será depositado nele. Se as taxas de curto prazo aumentarem, a conta de “juros sobre reservas” do banco central também aumentará. Em outras palavras, um banco central que cria dinheiro para financiar estímulos está, em termos econômicos, fazendo algo surpreendentemente semelhante a um governo que emite uma dívida de taxa flutuante. E os bancos centrais são, em última instância, parte do governo.

Portanto, não há almoços grátis. “Quanto mais alto o qe pendente como parcela da dívida total do governo, mais o governo fica exposto a flutuações nas taxas de juros de curto prazo”, explicou Gertjan Vlieghe, do Banco da Inglaterra, em um discurso recente. Outra preocupação é que nas próximas décadas os governos enfrentarão ainda mais pressão sobre seus orçamentos com os gastos com pensões e assistência médica associados ao envelhecimento da população, investimentos para combater as mudanças climáticas e outras catástrofes no molde da covid-19. A melhor maneira de estimular as economias continuamente não é, portanto, criar contas a serem pagas quando as taxas subirem novamente. É tomar taxas de juros negativas.

À espera de uma promoção
Algumas taxas de juros já são marginalmente negativas. A taxa da política do Banco Nacional Suíço é de -0,75%, enquanto algumas taxas na zona do euro, Japão e Suécia também estão no vermelho. Mas Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, e Willem Buiter, ex-economista-chefe do Citigroup, um banco, prevê taxas de juros de -3% ou menos – uma proposta muito mais radical. Para estimular gastos e empréstimos, essas taxas teriam que se espalhar por toda a economia: aos mercados financeiros, às taxas de juros dos empréstimos bancários e também aos depósitos nos bancos, que precisariam encolher com o tempo. Isso desencorajaria a poupança – em uma economia deprimida, afinal, muita economia é o problema fundamental – embora seja fácil imaginar taxas de juros negativas provocando uma reação populista.

Muitas pessoas também gostariam de tirar seu dinheiro dos bancos e enfiá-lo debaixo do colchão. Efetuar essas propostas, portanto, exigiria uma reforma abrangente. Existem várias idéias de como fazer isso, mas o método da força bruta é abolir pelo menos as notas de alta denominação, tornando caro e impraticável manter grandes quantidades de dinheiro físico. Rogoff sugere que, eventualmente, o dinheiro possa existir apenas como “moedas pesadas”.

Taxas negativas também apresentam problemas para os bancos e o sistema financeiro. Num artigo publicado em 2018, Markus Brunnermeier e Yann Koby, da Universidade de Princeton, argumentam que existe uma “taxa de juros reversa” abaixo da qual os cortes nas taxas de juros realmente impedem os empréstimos bancários – prejudicando a economia em vez de impulsioná-la. Abaixo de uma certa taxa de juros, que a experiência sugere que deve ser negativa, os bancos podem não estar dispostos a repassar cortes nas taxas de juros para seus depositantes, por medo de levar os clientes irritados a transferir seus depósitos para um banco rival. Taxas de juros profundamente negativas podem esmagar os lucros dos bancos, mesmo em uma economia sem dinheiro.

Pegue o que é deles

Vários fatores ainda podem tornar a economia mais hospitaleira a taxas negativas, no entanto. O dinheiro está em declínio – outra tendência que a pandemia acelerou. Os bancos estão se tornando menos importantes para o financiamento, com cada vez mais intermediação nos mercados de capitais (ver artigo). Os mercados de capitais, observa Buiter, não são afetados pelo argumento da “taxa de reversão”. Enquanto isso, os banqueiros centrais estão brincando com a idéia de criar suas próprias moedas digitais, que podem funcionar como contas de depósito para o público, permitindo que o banco central pague ou pague juros diretamente sobre os depósitos, e não através do sistema bancário. A campanha de Joe Biden para a Casa Branca inclui idéias semelhantes, o que permitiria ao Fed atender diretamente aqueles que não têm uma conta bancária privada.

Os formuladores de políticas agora têm que ponderar os riscos a escolher no mundo pós-cobiçado: ampla intervenção do banco central nos mercados de ativos, aumentos contínuos na dívida pública ou um abalo no sistema financeiro. No entanto, um número crescente de economistas teme que mesmo essas mudanças radicais não sejam suficientes. Eles argumentam que existem problemas mais profundos que só podem ser resolvidos por reformas estruturais.

Um novo artigo de Atif Mian, da Universidade de Princeton, Ludwig Straub, da Universidade de Harvard, e Amir Sufi, da Universidade de Chicago, expande a idéia de que a desigualdade prejudica a demanda da economia. Assim como a desigualdade cria uma necessidade de estímulo, eles argumentam, o estímulo acaba criando mais desigualdade. Isso ocorre porque deixa as economias mais endividadas, ou porque as baixas taxas de juros incentivam as famílias ou empresas a tomar empréstimos, ou porque o governo está com déficits. O endividamento público e privado transfere a renda para investidores ricos que possuem a dívida, diminuindo ainda mais a demanda e as taxas de juros.

As tendências seculares das últimas décadas, de maior desigualdade, maiores índices dívida / PIB e menores taxas de juros, reforçam-se assim. Os autores argumentam que escapar da armadilha “requer consideração de políticas macroeconômicas menos padronizadas, como as que se concentram na redistribuição ou as que reduzem as fontes estruturais de alta desigualdade”. Uma dessas “fontes estruturais de alta desigualdade” pode ser a falta de competitividade. Grandes empresas com mercados cativos não precisam investir tanto quanto investiriam se enfrentassem mais concorrência.

Um novo documento de trabalho de Anna Stansbury, também da Universidade de Harvard, e Summers, rejeita essa visão e culpa o declínio do poder de barganha dos trabalhadores no mercado de trabalho. Segundo os autores, isso pode explicar todos os tipos de tendências econômicas americanas: o declínio (até meados de 2010) da participação dos trabalhadores na renda, redução do desemprego e da inflação e alta rentabilidade corporativa. Eles sugerem que os empresários podem economizar mais do que os trabalhadores, de modo que, à medida que a renda das empresas aumenta, as economias agregadas aumentam.

Stansbury e Summers são a favor de políticas como o fortalecimento dos sindicatos ou a promoção de “acordos de governança corporativa que aumentem o poder dos trabalhadores”. Eles argumentam que tais políticas “precisariam ser cuidadosamente consideradas à luz dos possíveis riscos do aumento do desemprego”. Idéias para aumentar o poder dos trabalhadores como indivíduos podem ser mais promissoras. Uma é fortalecer a rede de segurança, o que aumentaria o poder de barganha dos trabalhadores e a capacidade de se afastar de acordos de trabalho pouco atraentes.

Em um livro recente, Martin Sandbu, colunista do Financial Times, sugere substituir os subsídios isentos de impostos por pequenos rendimentos básicos universais. Outra idéia é fortalecer a aplicação da legislação trabalhista existente, atualmente fraca em muitos países ricos. Uma regulamentação mais rigorosa de fusões e aquisições, para impedir a formação de novos monopólios, também ajudaria.

Todas essas novas idéias agora competirão por espaço em um ambiente político no qual a mudança repentinamente parece muito mais possível. Quem poderia imaginar, apenas seis meses atrás, que dezenas de milhões de trabalhadores em toda a Europa teriam seus salários pagos por esquemas de licença financiados pelo governo ou que sete em cada dez desempregados americanos em recessão ganhariam mais com o seguro-desemprego pagamentos do que haviam feito no trabalho? Devido aos resgates em massa, “o papel do estado na economia provavelmente parecerá consideravelmente maior”, diz o bis.

Falando sobre uma revolução

Muitos economistas desejam precisamente essa intervenção do estado, mas ela apresenta riscos claros. Os governos que já possuem dívidas pesadas podem decidir que se preocupar com déficits é para os fracos e que a independência do banco central não importa. Isso poderia finalmente desencadear inflação alta e fornecer um lembrete doloroso dos benefícios do antigo regime. As reformas do setor financeiro podem sair pela culatra. Uma maior redistribuição pode tirar a economia de uma maneira estranha, como Sufi, Stansbury e seus respectivos colegas descrevem – mas impostos pesados ​​podem igualmente desencorajar o emprego, a empresa e a inovação.

Repensar a economia é uma oportunidade. Atualmente, existe um consenso crescente de que mercados de trabalho restritos poderiam dar aos trabalhadores mais poder de barganha sem a necessidade de uma grande expansão da redistribuição. Uma reavaliação equilibrada da dívida pública pode levar ao investimento público verde necessário para combater as mudanças climáticas. E os governos poderiam desencadear uma nova era das finanças, envolvendo mais inovação, intermediação financeira mais barata e, talvez, uma política monetária que não seja restringida pela presença de dinheiro físico. O que está claro é que o velho paradigma econômico parece cansado. De um jeito ou de outro, a mudança está chegando.
Com dados da The Economist/