Como a pandemia pode acelerar a desindustrialização do Brasil

DAVID ALVES/ PALÁCIO PIRATINI

Produção industrial brasileira retraiu 9,7% no primeiro semestre de 2020

A covid-19 parou o mundo e derrubou a atividade industrial em dezenas de países, ricos, emergentes e pobres.

Os dados divulgados neste mês pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) mostram quedas de dois dígitos em todas as regiões.

Levando em consideração o segundo trimestre deste ano, que concentrou a maior parte das perdas, o tombo foi de 12,9% na Ásia, de 16,5% na América do Norte, de 19,3% na Europa e de expressivos 24,2% na América Latina, quando se compara ao mesmo período do ano passado.

No ranking de países elaborado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) com base dados da Unido e antecipado à BBC News Brasil, o Brasil aparece em 26º lugar entre 43 países, levando-se em consideração o intervalo de janeiro a junho ou a julho, a depender do país.

Nesse intervalo, a atividade industrial contraiu 9,7%, desempenho que coloca o país no lado de baixo da lista, mas ainda à frente de países europeus que amargaram resultados ainda piores: Portugal (-12,1%), Alemanha (-14,5%), Espanha (-15,2%), França (-15,4%) e Itália (-18,3%), que aparece em último lugar.

A magnitude menor pode dar a falsa sensação de que a posição do Brasil é mais confortável.

Mas, para o economista responsável pelo estudo, Rafael Cagnin, mesmo que o país mantivesse os mecanismos que suavizaram os choques negativos da covid-19 e retomasse a agenda de reformas, como a tributária, a situação do Brasil ainda seria “mais adversa”.

Isso porque, avalia ele, a pandemia deve acelerar dois processos que já vinham fazendo o país perder espaço na indústria global.

A indústria 4.0 e o ‘reshoring’

Na última década, o avanço tecnológico permitiu que indústrias em todo o mundo passassem por profundas mudanças.

Processos antes realizados por dezenas de trabalhadores foram automatizados, o armazenamento e processamento de dados em nuvem permitiu que as empresas minimizassem perdas e tornassem alguns processos mais eficientes (o que, em última instância, ajuda a aumentar as margens de lucro).

O Brasil vem passando ao largo dessas transformações, que caracterizam a chamada indústria 4.0.

Mais que isso, o país vem passando por um processo de desindustrialização, diz Cagnin. Isso é visível não apenas pela perda de participação do setor no Produto interno Bruto (PIB), mas também na participação na indústria global e na fatia que os manufaturadores representam nas exportações, que é cada vez menor.

“A desindustrialização é multifacetada e aparece em todos os prismas”, afirma o economista do Iedi.

“Isso pode ser agravado de forma muito profunda com esse salto que pode ser dado agora (pela indústria global)”, ele completa.

Isso porque o uso cada vez mais intensivo de tecnologia na indústria e a transformação do setor devem ser acelerados no pós-pandemia, já que o mundo inteiro estará em busca de recuperar o mais rápido possível as perdas amargas de 2020.

ARNALDO ALVES/ ANPR
O ‘reshoring’ se caracteriza pela aproximação entre produção e mercados consumidores, que reduz custo financeiro e ambiental do frete

E não só isso. O pós-crise também deve intensificar, na avaliação do economista, um processo que vinha se consolidando nos últimos anos, o chamado “reshoring” — o contrário do “offshoring”, o movimento de saída de muitas indústrias de países ricos para emergentes que marcou as últimas décadas.

A lógica do “reshoring” não é apenas trazer de volta empregos que foram “exportados”, mas atender a uma exigência cada vez mais forte dos consumidores para que o processo produtivo seja sustentável.

Aproximar a produção dos mercados consumidores reduz os custos de frete e permite que as empresas acompanhem de perto cada etapa da produção e adotem critérios rígidos tanto em relação às leis trabalhistas quanto ao meio ambiente.

“E o plano de recuperação da União Europeia tem claramente um ‘eixo de recuperação verde’, um ‘green new deal'”, destaca, referindo-se ao programa anunciado no último dia 21 de julho, que dá as diretrizes para o orçamento do bloco para os próximos sete anos.

A tecnologia pode facilitar esse processo.

O custo de mão de obra mais elevado em países europeus e nos Estados Unidos está entre as principais razões que levaram à transferência de unidades produtivas para outras regiões, especialmente para o Sudeste Asiático. Agora, a robotização barateia a produção e abre espaço no orçamento para que as empresas arquem com os salários maiores dos trabalhadores localizados em seus países-sede. Em outras palavras, ela permitiria, do ponto de vista de custos, que uma fábrica que foi transferida para a China voltasse para a Alemanha, por exemplo.

De maneira geral, o processo reduz o volume de empregos gerados pela indústria (daí o grande debate sobre o desemprego potencial gerado pela automação e pelo desenvolvimento tecnológico), mas passa a criar vagas nos países de origem das empresas.

“Quando você precisa acelerar crescimento econômico, esses movimentos todos se tornam convergentes.”

“E isso abre espaço para uma disrupção estrutural. Alguns países vão conseguir dar saltos de produtividade muito grandes e avançar mais rapidamente”, avalia.

Nesse cenário, o Brasil vai ficando para trás e sua indústria vai perdendo competitividade — o que contribui para que ela veja diminuir ainda mais seu espaço na estrutura produtiva global, aprofundando a desindustrialização.

GETTY IMAGES
Entre 2011 e 2019, produção encolheu 15% no país e entrou em 2020 operando no mesmo nível de 2004

O desafio de ‘digerir’ uma crise após a outra

O desempenho da indústria brasileira em 2020 foi em parte poupado pelos programas criados para amortecer os efeitos da crise gerada pela pandemia.

De um lado, o auxílio emergencial sustenta uma parte da demanda dos consumidores. De outro, os programas de crédito dão algum fôlego para as empresas.

A Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do IBGE mostra, de certa forma, esses efeitos.

Entre os 25 segmentos acompanhados pela pesquisa, quatro chegaram a crescer no período entre janeiro e julho, em comparação ao mesmo intervalo do ano passado, sendo três deles diretamente ligados a esses fatores: a indústria de produtos alimentícios (4,9%), de produtos de limpeza (4,1%) e de produtos farmacêuticos (1,9%).

Os dados desagregados também expõem a dimensão do problema, especialmente de médio e longo prazo. Os segmentos de maior intensidade tecnológica, como de aparelhos elétricos, produtos eletrônicos e máquinas, recuaram mais do que a média (de 9,7%), assim como o ramo de bens de capital, que está diretamente ligado ao investimento.

Isso se soma ao fato de que o setor ainda tentava digerir a recessão de 2014-2016, cujos estragos ainda não haviam sido totalmente recuperados.

“A gente já tem feridas não cicatrizadas da crise anterior, e essa vai trazer novos problemas que podem se arrastar daqui pra frente.”

Plano do G20 para excesso de aço pode gerar tensão em emergentes

g20acobricsblog-do-mesquitachinaA oferta excedente na China está transbordando para outros mercados do mundo, desencadeando medidas protecionistas da Índia aos EUA.

A iniciativa do Grupo dos 20 para acabar com o excesso mundial de aço enfrentará um grande obstáculo se os países em desenvolvimento resistirem às tentativas de eliminar os subsídios do governo aos produtores locais, de acordo com o diretor do Comitê do Aço da OCDE, que está prestes a deixar o cargo.

A oferta excedente na China está transbordando para outros mercados do mundo, desencadeando medidas protecionistas da Índia aos EUA e chamando a atenção dos líderes mundiais.

Um obstáculo a superar poderia ser a relutância dos países emergentes a abandonar iniciativas que nutrem o setor doméstico com apoio governamental, disse Risaburo Nezu, presidente do Comitê do Aço da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que tem sede em Paris.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

A OCDE está mediando o fórum internacional do Grupo dos 20 para lidar com o excesso de capacidade, e a abundância de aço foi uma das prioridades da agenda da cúpula realizada em Hangzhou neste mês. A China, que fornece cerca de metade do aço mundial, tem tido divergências com outros grandes produtores sobre como lidar com essa questão e, nas negociações da OCDE em abril, não foi possível chegar a um acordo sobre o caminho a seguir.

Embora muitos países em desenvolvimento estejam sofrendo com o fluxo de metal chinês barato, é possível que surja no fórum um grupo que deseja “nutrir o setor siderúrgico com financiamento governamental, quando o que está sendo proposto é abolir os subsídios estatais, de acordo com os princípios do mercado”, disse Nezu, em entrevista em Tóquio, na semana passada.

“Independentemente da forma ou de quem estiver lidando com isso, nunca é fácil resolver esta questão”, disse ele, referindo-se ao novo fórum. “Muitas dificuldades vão surgir”.

Embora a China tenha se comprometido a reduzir sua capacidade em até 150 milhões de toneladas, cerca de 13 por cento do total, antes de 2020, órgãos reguladores dos EUA e da Europa argumentaram que os esforços de Pequim para limitar os subsídios foram insuficientes. No entanto, o comunicado oficial do G20 se absteve em atribuir a culpa a Pequim e descreveu o excesso de capacidade como um “problema global, que exige uma resposta coletiva”.

Contudo, regiões e países avançados, como Europa, EUA e Japão, querem acabar com os subsídios ou qualquer outra forma de apoio estatal que distorce os mercados e contribui para o excesso de capacidade, disse Nezu. Na tentativa de encontrar um modo de conciliar esse posicionamento com a China e outros países emergentes, a primeira reunião do fórum, realizada no dia 9 de setembro em Paris entre representantes da OCDE e do G20, teve um ritmo lento e nenhum plano concreto foi traçado.

“Assuntos importantes não foram discutidos na reunião”, disse Nezu. “Acho que as discussões deveriam ter sido um pouco mais profundas, mas essa abordagem foi evitada para amenizar a situação”.

Nezu anunciou que deixará o cargo no Comitê do Aço da OCDE e entregará as rédeas a Ronald Lorentzen, vice-secretário assistente de gestão de importação do Departamento do Comércio dos EUA. Nezu, que tem MBA da Harvard Business School , é um ex-funcionário público do ministério do comércio do Japão.

Especiais InfoMoney

Brasil é último em ranking de criação de emprego da OCDE

Em razão da crise econômica, o Brasil deve ter, em 2016, o pior desempenho na criação de empregos na comparação com outros 43 países, de acordo com um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado nesta quinta-feira. 

Engenheiro trabalha em obra
Brasil fica na pior colocação em ranking de empregos
Image copyright TONGRO IMAGES

Em razão da crise econômica, o Brasil deve ter, em 2016, o pior desempenho na criação de empregos na comparação com outros 43 países, de acordo com um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado nesta quinta-feira.

Segundo o relatório, o Brasil deve registrar um saldo negativo de empregos (quando as demissões superam as contratações) de 1,6% neste ano, enquanto nos países da OCDE a previsão é de crescimento de 1,5% dos postos de trabalho em 2016.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Nas projeções da OCDE, apenas quatro outros países, além do Brasil, terão saldo negativo de empregos neste ano, com quedas bem menores, que vão de apenas -0,1%, como a Finlândia, a -0,9%, no caso da Costa Rica.

Em 2017, afirma o estudo, a situação no Brasil deve melhorar, com previsão de crescimento de 0,7% do emprego.

O estudo, intitulado “Perspectivas do Emprego 2016”, leva em conta os dados dos 35 países membros da organização (a Letônia aderiu ao grupo em junho) e de nove outras economias, como Brasil e China.

Em junho, a OCDE já havia estimado, em outro estudo, que o Brasil deverá sofrer em 2016 a maior queda do PIB entre as 44 economias analisadas, com recuo de 4,3%, e atribuiu a “recessão profunda”, que deve durar no país até 2017, ao “contexto de grande incerteza política” e também aos casos de corrupção que abalam a confiança de consumidores e investidores.

A OCDE prevê que a taxa de desemprego no Brasil deverá atingir 11,3% neste ano contra 8,5% em 2015, segundo o estudo divulgado nesta quinta.

Apesar da crise, as taxas de desemprego no Brasil permanecem bem mais baixas do que as previstas neste ano para países como a Grécia (23,9%), Espanha (19,3%) ou a África do Sul, onde o índice estimado é de 26,5%.

‘Recuperação dolorosa’

O estudo afirma que a situação do mercado de trabalho continua melhorando nos países da OCDE após a crise internacional dos últimos anos, “mas de maneira lenta e dolorosa” em inúmeros países que integram a organização.

Isso é devido, diz a organização, ao fato de que a economia mundial está “colada em um crescimento tímido caracterizado por um baixo nível de investimento, ganhos anêmicos de produtividade e poucas criações de empregos, além de uma estagnação dos salários”, destaca o estudo.

Mecânico examina carro
Desemprego no Brasil deve diminuir em 2017, segundo previsão
Image copyright HUNTSTOCK

Os salários, no entanto, não têm acompanhado a evolução dos níveis de emprego, acrescenta a OCDE, ressaltando que em muitos casos os ganhos são, em média, pelo menos 5% inferiores aos patamares que deveriam ter atingido se o crescimento econômico dos anos 2000 a 2007 tivesse se mantido.

“São numerosos os trabalhadores que arrumaram emprego após a recessão, mas o crescimento dos salários permanece moroso e o stress no trabalho afeta inúmeras pessoas”, diz o estudo, acrescentando que poderá ser difícil recuperar esse atraso nos valores.

O estudo também prevê que a taxa de emprego nos países da OCDE deverá, em 2017, voltar ao nível registrado antes da crise financeira mundial.

O deficit de empregos nos países membros, que chegou a ser, no início de 2010, de mais de 20 milhões de postos de trabalho perdidos, caiu para 5,6 milhões em 2015.

Para a OCDE, esse déficit de empregos será “totalmente absorvido” ao longo de 2017.

“É evidentemente uma boa notícia, mas o fato de que a recessão pesou sobre o emprego durante cerca de dez anos atesta a severidade da crise e o preço que os trabalhadores tiveram de pagar”, destaca o relatório.

O documento também alerta para o caso dos jovens com baixa qualificação que saíram do sistema escolar e do mercado de trabalho e que correm o risco de “serem definitivamente deixados de lado” na sociedade.

No ano passado, 15% dos jovens de 15 a 29 anos se enquadravam nessa categoria nos países da OCDE, o que representa um leve aumento em relação aos níveis que existiam em 2007, antes da crise mundial.

Segundo a OCDE, “é urgente” colocar em ação políticas nacionais e internacionais para estimular o crescimento e colocá-lo em uma trajetória durável.

Panama Papers: G-20 vai atuar contra os países que não divulgarem informações fiscais

Grupo de países ricos e emergentes pede à OCDE para identificar os não colaboradores.

O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, chega à cúpula do G-20 na sexta-feira em Washington.
O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, chega à cúpula do G-20 na sexta-feira em Washington. Foto: MANDEL NGAN AFP

Os países do G-20 advertiram esta sexta-feira que tomarão “medidas defensivas” contra os países que não aderirem ao programa de troca automática de informações fiscais.

A cúpula de Washington esteve marcada pelo forte vazamento de dados de contas opacas radicadas no Panamá para evitar o pagamento de impostos e pela constatação da fragilidade da recuperação econômica global.

O fato até agora não foi suficiente para consolidar a recuperação ou erradicar as artimanhas fiscais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

MAIS INFORMAÇÕES

Uma imagem da quinta-feira à tarde serviu para mostrar como a evasão fiscal está espalhada e é sistêmica na economia global.

Dos cinco ministros que apresentaram uma iniciativa para saber quem está por trás das empresas, e evitar artimanhas fiscais, dois, o britânico George Osborne e o espanhol Luís de Guindos, tinham membros de seus Governos atingidos pelos Panama Papers.

O primeiro-ministro David Cameron admitiu que se beneficiou do fundo de investimento dirigido por seu pai em um paraíso fiscal, enquanto que o ministro da Indústria espanhol José Manuel Soria, renunciou na sexta-feira depois ficar conhecido que foi administrador de uma empresa no paraíso fiscal de Jersey.

“Pedimos à OCDE para estabelecer os critérios até nossa reunião de julho para identificar jurisdições não cooperativas”, aponta o comunicado do G-20, o grupo que integra os países ricos e emergentes, e acrescenta que “medidas defensivas” serão estudadas contra esses países.

O objetivo dos países é que já exista uma implementação generalizada dessas normas de troca de informações fiscais em 2017 ou 2018.

O Panamá, centro do escândalo nos dias de hoje, ainda não se comprometeu oficialmente, embora o secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría, disse na quinta-feira à imprensa que tinha recebido informações de que fariam isso.

O acordo por uma maior transparência faz parte do pacote de medidas destinadas acombater a erosão fiscal e a transferência de lucros de empresas (Beps, segundo a sigla em inglês deste plano).

A parte complicada desta batalha contra as manobras que quer evitar o pagamento de impostos nos lugares onde os rendimentos são gerados é que muitas dessas operações são legais, como revelou na semana passada o presidente dos EUA, Barack Obama.

“Esse é o problema”, disse ele. Vazios legais, artifícios contábeis e incentivos fiscais significam uma perda de arrecadação de até 230 bilhões de euros anuais só no imposto de empresas, de acordo com estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Na cúpula de novembro da Turquia, o G-20 aceitou as recomendações da OCDE para combater as ações das multinacionais que procuram enganar o fisco.

As principais economias desenvolvidas e emergentes também constaram o crescimento “modesto e desigual” da economia mundial e deram impulso aos estímulos monetários sem procedentes realizados pelos grandes bancos centrais.
Amanda Mars/El Pais

Número de pobres no Japão cresce; brasileiros também vivem apuros

Kato Shirai vive nas ruas da capital, mas sonha poder voltar a trabalhar e ter um lar

Kato Shirai (dir), sem-teto em Tóquio (BBC Brasil)
Quando deixou Taubaté (SP), há dez anos, acompanhando o ex-marido numa jornada rumo ao Japão, Priscilla Aparecida Pereira Gonçalves, de 36 anos, vislumbrava uma vida melhor.

Após apenas um ano de trabalho em fábricas japonesas, ela conseguiu pagar as dívidas acumuladas de um pequeno restaurante que tinha na cidade paulista.

Mas hoje, separada e desempregada, os tempos de aperto voltaram e a brasileira tem dificuldades para pagar todas as contas com os cerca de R$ 2.700 que recebe mensalmente de seguro-desemprego.

Para o governo japonês, Priscilla faz parte de um contingente que vem crescendo no país: o de pobres.

Segundo um levantamento divulgado recentemente pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, 16,1% da população do Japão vive com um rendimento abaixo do considerado limite para a pobreza – estipulado no país em cerca de R$ 27 mil por ano.

Isso significa que um em cada seis japoneses vive em situação de pobreza, uma marca recorde no país.

Para Aya Abe, diretora do departamento de pesquisas empíricas do Instituto Nacional de Pesquisa da População e da Seguridade Social, a taxa de pobreza provavelmente subirá ainda por algum tempo.

“A pobreza não é apenas um problema econômico, mas também estrutural. Digo isso porque a taxa aumenta continuamente desde a década de 1980, mesmo durante os anos de prosperidade econômica”, disse a pesquisadora à BBC Brasil.

O índice do Japão tem aumentado constantemente e hoje está bem acima da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Em ranking publicado em meados dos anos 2000, o Japão já estava, com 15%, em quarto lugar na lista dos países-membros com maiores taxas de pobreza, ficando atrás de México (18,5%), Turquia (17,5%) e Estados Unidos (17%). A taxa mais baixa foi registrada na Dinamarca (5%).

Priscilla Gonçalves
Priscilla Gonçalves aproveita o tempo ocioso para estudar o idioma japonês

Mães solteiras

Na pesquisa feita pelo governo japonês, 59,9% das famílias responderam que passam por dificuldades.

Entre as causas desse fenômeno estão a queda da renda familiar, o prolongado período de deflação pelo qual o Japão passou e o aumento de lares formados por mães solteiras, que geralmente têm emprego de baixa remuneração.

Entretanto, Aya lembra que a deterioração das condições trabalhistas também colaboraram para o aumento do número de pobres. Um terço da força de trabalho no Japão é composta por trabalhadores com contratos temporários.

“Esses trabalhadores contratados ganham muito menos em comparação com os que tem emprego ‘permanente’ e isso é, sem dúvida, a principal causa de aumento da pobreza”, afirma.

Neste contexto, entram a maioria dos trabalhadores estrangeiros, como os brasileiros.

Priscilla, por exemplo, trabalhou durante quatro anos numa fábrica e seu contrato era renovado mensalmente.

Ela deixou o emprego no começo deste ano. Fez bicos para poder sobreviver, mas não conseguia ganhar nem R$ 2 mil por mês, o que era insuficiente para pagar todas as contas.

“Por isso, completava com o dinheiro das economias que tinha feito ao longo dos anos”, conta.

Mesmo assim, voltar ao Brasil não está nos planos da brasileira. “Hoje me considero pobre, mas sei que é apenas uma fase. Estou há muito tempo fora do mercado de trabalho e longe dos costumes do meu próprio país”, justifica.

Pacote de estímulo

Aya Abe
Para a pesquisadora Aya Abe, a pobreza no Japão tende a aumentar

Preocupado com a taxa recorde de pobreza, o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou em agosto um pacote de políticas para enfrentar o problema.

O Japão auxiliará em custos com educação dos filhos e ajudará adultos na procura por emprego fixo.

Os críticos dizem que as ações são insuficientes, uma vez que o governo atual tem uma política clara de proteção ao empresário.

Casos como o da brasileira Priscilla são comuns nas empresas japonesas. Cerca de 80% dos que vivem na pobreza no Japão fazem parte dos chamados trabalhadores pobres, de salários baixos, empregos temporários sem garantias e poucos benefícios.

Geralmente, ganham o suficiente para sobreviver, mas não para ir a restaurantes, fazer viagens e comprar supérfluos.

“Sempre quando sobra um dinheiro eu faço algo que gosto. Mas saídas frequentes como eu fazia até o ano passado, compras de roupas, sapatos e maquiagem já são considerados um luxo”, confessa Priscilla.

Sem-teto

No período pós-guerra, em que muitos japoneses lutaram para garantir comida e abrigo num país devastado economicamente, a pobreza foi sendo atenuada conforme a economia japonesa retomava os trilhos.

Pouco tempo depois, na década de 1970, havia um forte sentimento entre muitos japoneses de que estavam vivendo em um país mais igualitário, onde “todos pertenciam à classe média”.

No entanto, o abismo entre classes se abriu novamente na década de 1990, após o colapso da bolha econômica. A estagnação econômica persistente levou as empresas a acabar com o chamado “emprego vitalício”, do qual os japoneses tanto se orgulhavam.

Foi neste período que as ruas das grandes cidades começaram a ser invadidas por sem-teto. Hoje, somente na capital japonesa, o governo estima em cerca de 1.700 pessoas que não possuem um endereço fixo.

O número já foi maior, mas o problema está longe de acabar, já que a taxa de pobreza tem somente aumentado.

Kato Shirai, 68 anos, vive há cerca de quatro anos nas ruas de Tóquio. Ele guarda cuidadosamente alguns poucos pertences embaixo de uma marquise e passa o dia todo praticamente deitado. “É para evitar ficar com mais fome”, diz.

Shirai reclama da falta de ajuda do governo e diz que até gostaria de sair das ruas. “Mas como fazer isso se não há emprego?”, questiona.

A idade avançada e o fato de não ter um endereço fixo são empecilhos para muitos destes japoneses que vivem nas ruas.

“Para sobreviver, conto com a ajuda de voluntários, que vêm distribuir comida toda noite”, conta. “O difícil é quando chove e neva. O restante a gente aguenta”, fala.
Ewerthon Tobace – De Tóquio para a BBC Brasil