100 mil: a culpa não é do morcego

Pandemia: a antítese entre sociedade e mercado. Retomo o tema à luz do que ocorreu nesses últimos três meses. Em artigo anterior, citei Rousseau que, a propósito de uma catástrofe natural, o terremoto de Lisboa em 1755, disse que a maior parte dos nossos males são sociais e não naturais.  Elas se distribuem desigualmente e é a estrutura social que determina quem sofre, quem morre, quem tem sua vida destruída.

Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida causados pela Covid-19 (Foto: Alex Pazuello/Semcom)

No artigo, também cito o terremoto de São Francisco de 1989, de intensidade 7,1 graus na escala Richter, que causou a morte de 63 pessoas e deixou cerca de 3.700 mil feridos. Em comparação, o terremoto de Porto Príncipe de 2010, magnitude 7 na escala Richter, deixou 300 mil mortos e mais de 300 mil feridos. Dez meses depois, uma epidemia de cólera matou nove mil pessoas. A natureza não pode ser responsabilizada pelas mortes a mais em Porto Príncipe ou pelo 1,5 milhão de pessoas que lá ficaram desabrigadas. Isso é obra humana.

A hipótese mais aceita para a origem do coronavírus é o comércio de animais selvagens na China. Teria saltado dos morcegos para os humanos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os primeiros casos na China apareceram em dezembro de 2019, dois meses antes de a doença se espalhar pelo planeta. O país teve cerca de 84 mil infecções e apenas 4.600 mortes. Os Estados Unidos têm até agora 4,3 milhões de infectados e 150 mil mortos. No Brasil, há aproximadamente três milhões de infecções e 100 mil mortos. Essa diferença não vai para a conta do morcego. Deve-se à desigualdade, a um modo de vida em que o mercado é a racionalidade hegemônica e – produto arrasador de 40 anos de neoliberalismo – ao entorpecimento da consciência da massa pela ideia de que não há sociedade, mas indivíduos que lutam por seus interesses, como acreditava Margaret Thatcher. Ou, como disse Marx certa vez, a uma estrutura em que indivíduos são “mônadas dobradas sobre si mesmos”.

Vejamos como um fato da natureza transforma-se em catástrofe social tomando o município de São Paulo como exemplo para evitar que disparidades regionais contaminem as conclusões. Aqui, o prefeito e o governador (antes do seu plano arco-íris) apareceram inicialmente como heróis do combate à pandemia. O que, em contraponto com o genocida Jair Bolsonaro, não era exatamente um grande feito.

Em 23 de março, a capital tinha 477 casos confirmados e 30 óbitos. A quarentena foi decretada em 24 de março. Funcionavam apenas os serviços essenciais de alimentação, abastecimento, saúde, bancos, limpeza e segurança. No final de maio, João Doria apresentou seu plano de fases coloridas que não era um “relaxamento” da quarentena, mas o fim gradativo dela. Com sua linguagem pomposa e pernóstica, apresentou a proposta como um “monitoramento e ajuste fino regional”, tudo “seguindo a orientação da ciência, da medicina e da saúde”. Punha-se de maneira dissimulada na mesma esfera de Jair Bolsonaro, permitindo que a capital reabrisse shoppings, atividades imobiliárias, comércio e concessionárias. Enquanto Bolsonaro defendia às claras o fim do isolamento social – fascistas normalizam a loucura moral –, o outro aparecia como representante de uma burguesia ilustrada que sabe ser oblíqua. Ambos a serviço do mercado.

Nessa trajetória paulistana de fechamento à abertura, de março a agosto, passamos de 477 casos e 30 óbitos no dia 23 de março para cerca de 246 mil infecções e mais de 10 mil óbitos no dia 8 de agosto, segundo boletins da prefeitura de São Paulo. Vejamos mês a mês, tomando aleatoriamente o dia 15 para efeito de comparação. Infecções e mortes, respectivamente, em 15 de abril: 8.024 e 563. Em 15 de maio: 37.106 e 2.695. Em 15 de junho: 100.627 e 5.703. Em 15 de julho: 179.850 e 8.510. Em 8 de agosto: 246.650 e 10.172. Considerando as subnotificações, podemos multiplicar isso tudo por algum número que não se pode saber ao certo.

No período de 15 de maio a 15 de julho, desde o fim do isolamento, passamos de cerca de 37 mil casos para cerca de 179 mil, com a reabertura de shoppings, imobiliárias, comércio e concessionárias de carros. Agora, já são 246 mil casos. João Doria e Bruno Covas jogaram centenas de milhares de trabalhadores nas ruas, nos transportes coletivos e em contato com a população em geral, em situação de vulnerabilidade, provocando o agravamento da pandemia.

Quem precisa de shoppings abertos? Quem precisa comprar carros? Quem precisa comprar imóveis agora? Quem não pode esperar alguns meses para ter carros novos, perfumes, roupas de grife e sapatos de 800 reais? A elite empresarial – com seus interesses econômicos e sua ânsia desenfreada por lucros – e os consumidores da classe média para cima. Qual a lógica de fechar a cidade com 477 casos e prosseguir na reabertura quando se atingem 246 mil?

A Unifesp fez uma pesquisa sobre desigualdade e vulnerabilidade na pandemia e concluiu que regiões com mais presença de autônomos e pessoas que usam transporte público têm mais mortes do que regiões em que pessoas usam mais carros, são empregadores ou profissionais liberais. O responsável pelo estudo, Kazuo Nakano, foi taxativo em entrevista à Folha: “de uma maneira bem contundente estão acontecendo mais mortes onde você tem mais viagens de transporte coletivo, de ônibus, trem e metrô”.

O que todos os especialistas com um mínimo de comprometimento com a ciência e a razão afirmam é que, não havendo vacina ou qualquer antiviral eficaz, a única maneira de enfrentar a pandemia é o isolamento. Mas a própria estrutura do capitalismo inviabiliza isso porque somente uma porcentagem ínfima no topo da pirâmide é capaz de se proteger desse modo. Além do mais, temos uma das burguesias mais estúpidas do planeta (de que Bolsonaro e Doria são legítimos representantes), incapaz de ver seus interesses estruturais de classe. Se conseguisse raciocinar além do balanço mensal, os danos teriam sido atenuados. Além disso, 40 anos de hegemonia neoliberal deixaram marcas na ideia de consciência social e de solidariedade, transformando cada vez mais os indivíduos em mônadas dobradas sobre si mesmas. De qualquer forma, o capitalismo será sempre incompatível com a totalidade e com a ideia de uma humanidade em que todos possam ser igualmente protegidos por direitos.Rodando o globo terresre,Capitalismo,Economia,Humor,Trabalho,Escravos,Blog do Mesquita

A culpa não é do morcego. É do capitalismo. Comecei com Rousseau e termino com Rousseau, citado por Marx em Sobre a questão judaica (1844): “quem se propõe a tarefa de instituir um povo deve transformar a natureza humana (quer dizer, o homem em seu estado natural) de um todo perfeito e solitário a parte de um todo maior, de substituir a existência física e independente por uma existência parcial e moral. Deve ser despojado de suas próprias forças para que receba outras, que lhe são estranhas e das quais só possa fazer uso com a ajuda de outros homens”.

Substituir a “existência física” por uma “existência moral” expressa em outras palavras que o mercado não é sociedade. Quando a “existência física” deriva para a loucura moral, passamos para o fascismo, a forma mais perversa de capitalismo. É o capitalismo, com eventuais derivações fascistas, que está nos matando. Não o morcego.

MARCIO SOTELO FELIPPE é advogado e foi procurador-geral do Estado de São Paulo. É mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP

Covid-19; apó a pandemia os giganjtes da tecnologia terão ainda mais controle sobre o que você vê e pensa

Os algoritmos do Vale do Silício estão controlando seu mapa cognitivo, e os governos estão deixando isso acontecer. O Covid-19 está fornecendo a cobertura perfeita para reforçar esse controle – bem a tempo das eleições de 2020.

O neoliberalismo foi a cobertura perfeita para os oligarcas desencadearem guerras ideológicas para proteger os bilhões que saquearam dos contribuintes. Trilhões de dólares fluíram para o Vale do Silício, o berço da censura digital – censura que, sob muitos aspectos, é mais perigosa e insidiosa do que o golpe fracassado d’état de um presidente dos EUA apoiado no discurso com a farsa rússia e a farsa do impeachment.

Nas últimas duas décadas, as sociedades democráticas foram manipuladas pelos gigantes não-regulamentados de alta tecnologia do Vale do Silício, que agora controlam o fluxo de notícias e atacam com a Amazon, Facebook, Google, Twitter, YouTube, Instagram, Netflix, PayPal, Reddit, TikTok, Microsoft e Amazon, Apple e a perigosa Internet Of Things (acelerada pela 5G).FOTO DE ARQUIVO: Sheryl Sandberg do Facebook, uma forte defensora dos Clintons © Reuters / Philippe Wojazer
É difícil encontrar provas concretas, pois você nunca pode pegar os gigantes da tecnologia em flagrante. A maneira como eles propositalmente ocultam todos os seus dados e algoritmos de marca registrada serve apenas para reforçar as suspeitas e as evidências dispersas. Mas seus motivos têm sido transparentes em suas próprias declarações e ações públicas.

Covid-19 é a diversão perfeita.

Enquanto o Congresso passa movimentadamente mais resgates de bilhões de dólares para bilionários, a alta tecnologia furtivamente garante que as futuras gerações se tornem viciados em digital que cegamente aceitam e abraçam, como ovelhas, o surgimento da tirania digital. Os estudantes de hoje tropeçam como zumbis em transe, com os olhos fixos nos celulares, com medo de perder as atualizações em tempo real do Instagram ou os memes mais recentes do TikTok. O desenvolvimento do 5G pode resultar em uma Segunda Guerra Mundial silenciosa que garante o rápido desaparecimento de uma sociedade ocidental zumbificada sem que um único tiro seja disparado.

Os algoritmos do Vale do Silício determinam o conteúdo que você vê, quando o vê, como o vê ou se o vê. Se os “moderadores” sombrios e sem rosto discordam do seu ponto de vista ou se opõem à narrativa neoliberal oficial, ela desaparece e você é banido das sombras. Por exemplo, acredito firmemente que meu feed do Twitter do @PlanetPonzi é de sombra. O CEO do Twitter, Jack Dorsey, endossou um artigo como uma “ótima leitura”, no qual os autores refletiram como a política dos EUA ficou tão ruim (sob a Casa Branca Trump) que “não havia um caminho bipartidário a seguir … e o país está à beira de uma guerra civil.”

Eles continuaram: “Neste período atual da política americana, neste momento de nossa história, não há como um caminho bipartidário fornecer o caminho a seguir”. O apoio de Dorsey a este artigo estabelece um precedente que permite uma cultura tóxica no Twitter, o que provavelmente se refletiu na seleção de contas dos funcionários para o shadowban. Vice conduziu uma investigação que revelou como as famosas vozes conservadoras que usavam o Twitter eram constantemente suprimidas mais do que as contas liberais.

O Twitter nunca abordou os resultados do Vice e mais tarde negou alegações dizendo que era um erro ou que “sinais baseados em comportamento” aumentam a visibilidade de certas contas, enquanto suprimem a visibilidade de outras pessoas como parte do objetivo do Twitter “de melhorar a saúde das conversas públicas em Twitter.” Então, para reiterar, vozes conservadoras, incluindo membros existentes do Congresso dos EUA, como Matt Gaetz, foram suprimidas no Twitter.

Devido à natureza opaca do Twitter, é impossível afirmar que o Twitter aumenta as contas individuais, garantindo que as postagens com as quais os moderadores do Twitter discordam nunca sejam vistas, mas é altamente provável. As avaliações estratosféricas “baseadas em fraudes por clique” das empresas sem fins lucrativos de zumbis do Vale do Silício continuam extraordinárias. A avaliação de US $ 20 bilhões do Twitter é hilária. A Elliott Management, de Paul Singer, é um investidor corajoso que acredita e confia no modelo de negócios do Twitter.

Outro exemplo pode ser encontrado simplesmente olhando os comentários direcionados a Boris Johnson, enquanto ele está sentado no hospital lutando contra o Covid-19. As pessoas estão pedindo sua morte e afirmando que ele merece estar nessa situação. Esses comentários ainda apareceriam se eles pedissem a morte de um liberal? Tudo bem, simplesmente porque Johnson é um conservador?

E não é apenas o Twitter.

Apesar de seu testemunho juramentado, a Pesquisa do Google foi flagrada manipulando dados de pesquisa, ocultando dados e criando algoritmos que fazem exatamente isso e não deixam evidências. Por exemplo: os artigos que escrevo são ocultados pela Pesquisa do Google (tente pesquisar no Google ‘Feierstein’, ‘Mitchell Feierstein’, ‘Feierstein rt.com’ e ‘Mitchell Feierstein rt.com’ e compare os resultados).

Cientistas de dados e psicólogos têm a mesma opinião. Dê uma olhada nos estudos de Ronald E. Robertson sobre o Efeito de manipulação de mecanismos de pesquisa publicados nos Anais da Academia Nacional de Ciências, que são fascinantes e condenadores.

Esses porteiros digitais têm o poder de controlar e manipular populações por meio da coleta de big data. Seu perfil digital contém um registro de tudo que você faz. Você está sendo rastreado e todos os seus movimentos e ações são gravados. Esses dados valiosos são compilados e armazenados pelas empresas listadas acima. Esses dados são valiosos e baseiam-se em suas preferências e em todos os itens que você pesquisou ou comprou na Internet, nas lojas que você visitou e nos lugares pelos quais viajou, seja de carro, ônibus, trem ou avião. Google, Amazon, Facebook e outros. estão gravando todos os seus movimentos. Todas essas são, pelo menos nominalmente, funções de exclusão – mas as empresas estão contando descaradamente que as pessoas não estão sendo incomodadas o suficiente para vasculhar as configurações e desmarcar todo isenções de responsabilidade de pequenos scripts.Tecnologia,Internet,Redes sociais

Parece assustador? Bem, é sim. O pior é que o controle total dos dados do consumidor – e o poder resultante de influenciá-lo – é combinado com preferências políticas claramente expressas.

Teddy Goff, estrategista de campanha digital de Hillary Clinton em 2016, enviou o seguinte email a Clinton e John Podesta, gerente de campanha de Clinton:

“As relações de trabalho com o Google, Facebook, Apple e outras empresas de tecnologia foram importantes para nós em 2012 e devem ser ainda mais importantes para você em 2016, dadas as posições ainda em ascensão na cultura. Essas parcerias podem trazer uma série de benefícios para a empresa. uma campanha, do acesso a talentos e possíveis doadores ao conhecimento antecipado de produtos beta e convites para participar de programas-piloto. Começamos a ter conversas discretas com algumas dessas empresas para entender suas prioridades para o próximo ciclo, mas encorajamos você, assim que sua liderança em tecnologia estiver no lugar, a iniciar discussões mais formais. ”

Você se lembra do slogan do Google “Não seja mau”? Bem, o Google é mau. É um dos maiores doadores da classe política irresponsável e paga de Washington.

A China contratou Eric Schmidt, do Google, para criar um sistema de crédito social chinês que espionasse e censurasse grande parte da população chinesa. Em resposta, os funcionários do Google publicaram a seguinte declaração: “Nos recusamos a criar tecnologias que ajudem os poderosos a oprimir os vulneráveis, onde quer que estejam.” Enquanto Schmidt representou esse Sistema de Crédito Social como estando apenas no estágio de desenvolvimento e não estaria concluído por anos, relatórios recentes afirmam que isso é uma mentira total e que o sistema está totalmente funcional.

“Nós sabemos onde você está. Nós sabemos onde você esteve. Podemos saber mais ou menos o que você está pensando.”
ex-CEO do Google, Eric Schmidt.

O presidente Obama se reunia com Schmidt com freqüência, e o Google exercia influência sobre a administração e as políticas de Obama. Os registros da Casa Branca mostram que, entre 2009 e 2015, enquanto o presidente Obama estava no cargo, funcionários do Google e suas entidades associadas visitaram a Casa Branca 427 vezes.

Em 2016, os relatórios da mídia sugeriram que os resultados de pesquisa do Google ocultaram más notícias sobre Clinton e retrataram Hillary de uma maneira muito mais favorável que Trump. Schmidt respondeu: “Não tomamos posição na eleição presidencial americana e nem espero que o façamos”.

Além do trabalho de Schmidt nas estratégias de tecnologia da campanha, ele também secretamente financiou um fornecedor da campanha de Hillary Clinton. Em outubro de 2016, Goff transmitiu um e-mail enviado a Clinton: “A palavra de Schmidt eclipsaria facilmente a operação de tecnologia de qualquer oponente de Clinton”.

Primeira quarentena, agora sinos de leprosos digitais: quanta liberdade os britânicos estão dispostos a se render em um ataque de pânico do Covid-19?
O ás de Mark Zuckerberg, COO do Facebook, Sheryl Sandberg, também estava trabalhando ativamente com John Podesta, gerente de campanha de Clinton, na campanha de Clinton. O político informou que Sandberg foi colocado na lista de Clinton para se tornar secretário do Tesouro dos EUA depois que Clinton venceu, embora Sandberg mais tarde tenha negado.

No entanto, as esperanças foram frustradas quando o mundo ficou chocado com a perda inesperada de Clinton. Por que eu trago isso à tona? Bem, Google, Facebook e Vale do Silício tiveram quatro anos para aperfeiçoar um sistema que garante que seu candidato vença e Trump perca. Eric Schmidt aprendeu com seus erros de 2016 e se opôs a tudo o que Trump. Schmidt não é o único que quer Trump fora, o mesmo acontece com 98% do Vale do Silício, o que garantirá que 2020 será diferente.

Conhecimento é poder e quem controla a mídia controla o fluxo de informações e controla o poder. É assim que essas empresas de tecnologia se propõem a atingir um objetivo comum: controlar seu mapa cognitivo. Não é sobre o que foi dito e debatido, é sobre o que está enterrado e deixado de fora.

Por que parece que a censura digital do Vale do Silício é a mesma censura digital da China? Simples, é o mesmo. Enquanto o Covid-19 destrói o mundo, a tirania digital está matando a democracia, enquanto o Congresso dos EUA fica em silêncio e deixa acontecer. Para ser claro, o Vale do Silício precisa de regulamentação e precisa agora. O congresso precisa acordar.

Bertrand Badie:Covid-19 está evidenciando de forma dolorosa a verdadeira face da globalização

Os profetas do neoliberalismo viraram promotores da economia social. É preciso voltar aos imperativos sociais”

Bertrand Badie, em seu escritório do Instituto de Estudos Políticos.PATRICE NORMAND / AFP / CONTACTOPHOTO / PATRICE NORMAND / AFP
CARLA MASCIA

Que um vírus originado em um mercado de Wuhan tenha se espalhado pelos cinco continentes em apenas algumas semanas, causando uma das crises sanitárias mais graves da história da humanidade não surpreende Bertrand Badie, um dos maiores especialistas franceses da globalização. O cientista político de 69 anos, professor emérito no Science Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris) e pesquisador associado ao Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais (CERI), há décadas defende que a ação individual de um dos 6 bilhões de habitantes do planeta pode ser mais importante do que a decisão de qualquer Governo.

Em um “mundo único” em que as fronteiras já não impedem que o que acontece em um país tenha efeitos imediatos nos outros, onde a interdependência entre os diferentes setores de atividade humana jamais havia sido tão importante e a mobilidade, tanto humana como de mercadorias, tão veloz, “um aperto de mãos em Wuhan” pode colocar em xeque toda a humanidade, afirma.

Por isso, o autor do recente ensaio L’Hégémonie Contestée acha que a crise atual precisa abrir nossos olhos para a importância da dimensão social da mundialização, abandonando o dogma neoliberal que se limita a conceber o ser humano como um simples ator econômico para abraçar um multilateralismo inclusivo.

Pergunta. Acha que a pandemia do coronavírus revelou o verdadeiro rosto da globalização?

Resposta. Penso que, até essa crise, a opinião pública e, o que é ainda mais surpreendente, os dirigentes dos diferentes países do mundo ignoravam e pretendiam ignorar o que esse fenômeno realmente significa. A mundialização muda profundamente o próprio significado da alteridade. O outro, em nosso antigo sistema westfaliano, era o inimigo potencial; depois, com o livre comércio e a aceleração das trocas comerciais, o outro se transformou em um competidor, um rival, e não vimos que, no plano social, estava sendo criada outra definição de alteridade, em que o outro era um parceiro cujo destino está profundamente ligado ao nosso. Isso significa que entramos em mundo que já não é o da hostilidade e da competição, e sim necessariamente o da solidariedade, porque agora se quero sobreviver e, ainda mais, ganhar, preciso me assegurar de que o outro sobreviva e que o outro ganhe, e temos muita dificuldade em admitir isso. Essa dificuldade nos levou nesse contexto de crise a escutar idiotices como “é um vírus chinês” e “o vírus é um inimigo do povo americano”, como afirmou o presidente dos Estados Unidos. Donald Trump não entendeu que o verdadeiro significado da mundialização está na criação de necessidades de integração social que devemos satisfazer urgentemente, do contrário nos encaminharemos ao desastre.

P. O senhor defende que é a fraqueza, e não a força, que rege o mundo globalizado em que vivemos. A que se refere?

R. Em um mundo inclusivo, interdependente e móvel, é o fraco que decide enquanto o poderoso está perpetuamente em uma posição reativa e defensiva. Devemos levar muito a sério as novas necessidades de segurança humana já que dos segmentos de população mais inseguros, frágeis em termos de saúde, economia, alimentação e condições climáticas, vem necessariamente o risco mais agudo da crise. Não devemos nos esquecer que esse vírus nasceu em um mercado de Wuhan caracterizado por uma grande precariedade sanitária. A vulnerabilidade de nossas sociedades extraordinariamente sofisticadas é, em última instância, bem alta. Entramos em um mundo invertido em que a lógica da fraqueza é a lei. Isso se observa em outros conflitos que ameaçam o planeta como o Sahel, Oriente Médio, a bacia do Congo e o Chifre da África, que continuam sendo áreas de grande fraqueza e que, de certo modo, conformam a agenda internacional.

P. Por que os Estados continuam priorizando o investimento militar para garantir sua segurança, sem se preocupar com os focos de vulnerabilidade que o senhor menciona?

R. Vivemos durante séculos e séculos com a ideia de que o que nos ameaça e causa nossa insegurança é de natureza militar e interestatal. No mundo de hoje gasta-se por volta de dois trilhões de dólares (10 trilhões de reais) em orçamento militar. Precisamos admitir que essa competição só adula a arrogância dos Estados e não tem nenhuma eficácia em termos humanos. O Programa das Nações Unidas ao Desenvolvimento deixou claro em um relatório de 1994 que a principal ameaça ao mundo era a humana, a alimentar, a sanitária, a ambiental, entre outras, e ninguém, nenhum líder do planeta levou a sério essa advertência, seguindo os incertos caminhos do investimento militar. Se pelo menos essa crise servir para que os dirigentes que até agora não estavam à altura de sua responsabilidade, e que não quiseram ver o que estava diante de seus olhos, levem a sério, então terá servido para algo.

P. O que lhe inspira a guinada keynesiana que de repente impregna o discurso de alguns políticos mais conhecidos por sua orientação liberal como Donald Trump e Emmanuel Macron?

R. É preciso lembrar que o social foi assassinado pelo neoliberalismo e relegado a um mero efeito de goteira. A famosa fórmula tão elogiada pelo Banco Mundial de que “o crescimento é bom para os pobres” porque acabarão se beneficiando de seus efeitos, reflete a maneira como o social foi concebido nos últimos 30 anos. Se hoje os profetas do neoliberalismo estão se transformando em promotores da economia social é porque concebem, diante da catástrofe atual, que já não será possível fazer o mesmo que antes e que será necessário voltar aos imperativos sociais.

P. Acha que essa mudança social será duradoura?

R. É muito cedo para saber se irá se manter após a crise ou se as velhas práticas voltarão. Há um sinal de otimismo, entretanto, no fato de que o novo foco dessa direita que se confundia com o ultraliberalismo, responsável pelo desmantelamento dos serviços públicos, foi anterior à crise sanitária. O ano de 2019 foi extremamente turbulento com a proliferação de movimentos sociais em todo o mundo e isso teve consequências. A prova disso é, por exemplo, o tom social adotado por Boris Johnson no Reino Unido durante as últimas eleições legislativas. A ideia de investir em questões sociais praticamente se transformou no slogan do Partido Conservador Britânico. Acho que isso significa que essa redescoberta do social não depende totalmente do medo ao coronavírus, há algo mais, e isso me faz pensar que, aconteça o que acontecer, nunca voltará a ser o mesmo.

Devemos levar muito a sério as novas necessidades de segurança humana
P. A União Europeia está sendo muito criticada por sua incapacidade de proporcionar uma solução comum contra a pandemia da Covid-19…

R. Essa é, de fato, a grande decepção dessa crise, e talvez o ponto mais obscuro. A Europa esteve até agora, e quero ser muito cuidadoso com minha formulação, em um nível zero de integração. Ou seja, uma incapacidade total, não digo parcial, para dar uma resposta integrada a uma crise que, comparada com todas as que enfrentamos, é exatamente a que precisa de mais solidariedade. Esse fracasso pôde ser observado tanto no plano sanitário, com a ausência de coordenação entre Estados membros —cada Estado faz do seu jeito e frequentemente de maneira contraditória—, como econômico, com um BCE (Banco Central Europeu) cuja primeira ação foi totalmente desastrosa e causou uma espécie de quebra nas Bolsas que poderia ter sido ainda mais considerável.

P. Christine Lagarde corrigiu isso ligeiramente depois, concorda?

R. É verdade que existiu uma pequena inflexão, em ritmo forçado, mas a verdade é que continuamos sem ter acordo sobre os Eurobônus (ou coronabônus), no meu entendimento, a maior expressão do que se pode fazer juntos para enfrentar a crise financeira que se aproxima no horizonte. O problema é que ainda que consigamos chegar a uma solução comum, o dano já está feito. Estamos vendo o verdadeiro rosto da União Europeia e suas lacunas no plano da solidariedade. Outro aspecto com o qual precisamos nos preocupar é por que não importa qual seja a questão na UE, encontramos essa distância entre o norte e o sul? E isso desde Maastricht. Acabará tendo efeitos catastróficos e podemos até nos perguntar se algum dia acabaremos por ter duas Europas.

P. O que resta da governança global diante da retomada soberanista que estamos vendo nos últimos anos?

R. A inoperância da Europa é um reflexo do fracasso da governança mundial. A ação da OMS se reduz a ler todas as noites um comunicado em um inglês aproximado para pedir aos Estados que façam alguma coisa, o que é verdadeiramente desastroso quando a OMS deveria ter sido a task force no assunto, o órgão que coordena as políticas de saúde, que organiza a ajuda técnica e médica e, principalmente, que produz normas. O grande perigo é justamente a falta de padrões comuns, e que cada país continue operando por sua conta e à sua maneira.

P. A solução para sair dessa crise está, de acordo com o senhor, em mais multilateralismo e decisões comuns. O mundo atual, entretanto, está cheio de líderes nacionalistas, de Trump, passando por Bolsonaro, a Johnson. É paradoxal, não acha?

Há uma necessidade de governança global como nunca em nossa história, e ao mesmo tempo um auge de nacionalismo que não havia sido visto até agora
R. Acho que podemos dizer que os planetas nunca estiveram tão mal alinhados. Há uma necessidade de governança local como nunca em nossa história, e ao mesmo tempo um auge de nacionalismo que não havia sido visto até agora. Ambos são inconciliáveis. De modo que a única razão à esperança é que o nacionalismo é uma ideologia vazia que não tem nada a oferecer. Todas as tentativas de gestão estritamente nacional da crise falharam. Líderes como Johnson, Trump e até Bolsonaro, que partiram de premissas nacionalistas, e negacionistas, precisaram mudar seu discurso, cada um a sua maneira. Além disso, o desprezo desses políticos liberais pelos desafios sanitários nos leva a outro ponto essencial que abordei no ensaio L´impuissance de la Puissance, que é a flagrante impotência de um país como os Estados Unidos diante dessa pandemia. A evolução da crise nos EUA é aterrorizante e em parte se deve a essa concepção herdada da Escola de Chicago de total cegueira diante das ameaças e dramas coletivos.

P. Há outras grandes ameaças, como a mudança climática, que requerem uma ação conjunta a curto prazo. Acha que o coronavírus mudará a mentalidade dos políticos mais céticos sobre a necessidade de investir recursos antes que não se possa mais voltar atrás?

R. Logicamente, esse raciocínio é imparável. Humanamente já é diferente e politicamente, ainda mais. Humanamente, é difícil olhar os dois objetivos ao mesmo tempo ainda que estejam muito ligados, mas politicamente, o fato de que a luta contra o aquecimento global signifique gastos, esforços, sacrifícios a curto prazo para se ter conquistas a longo prazo transforma esse investimento em algo politicamente suspeito. Após essa crise, os Estados terão que investir muito para reconstruir a economia global. Aceitaremos gastar e investir muito pelo clima, ou seja, acrescentar gastos aos gastos? Sou bem pessimista.

P. Sairá algo bom dessa crise?

R. Sempre há esperança. O próprio de uma crise, aumentar o medo, é o que permite o desenvolvimento da criatividade humana e social. A crise econômica de 1929 que levou os nacionalistas a vencer nas urnas, também inventou o keynesianismo e permitiu que a economia nacional se revitalizasse até a vingança do neoliberalismo nos anos oitenta. Também foram as grandes guerras, e as mais mortíferas, que trouxeram, pelo menos na Europa, invenções absolutamente extraordinárias e que por fim permitiram a resolução de problemas que não poderiam ser resolvidos em contextos de paz e mobilização. Quanto mais forte essa crise for, portanto, mais romperá os esquemas e os círculos viciosos e por isso acho que algo positivo pode sair dela. Quando, como e por quê, não sabemos.

A sociedade do Hiperconsumismo

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”

Byung-Chul Han

O filósofo Byung-Chul Han em Barcelona
MASSIMILIANO MINOCRI EL PAÍS

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, um destacado dissecador da sociedade do hiperconsumismo, fala sobre suas críticas ao “inferno do igual” 

As Torres Gêmeas, edifícios idênticos que se refletem mutuamente, um sistema fechado em si mesmo, impondo o igual e excluindo o diferente e que foram alvo de um ataque que abriu um buraco no sistema global do igual. Ou as pessoas praticando binge watching (maratonas de séries), visualizando continuamente só aquilo de que gostam: mais uma vez, multiplicando o igual, nunca o diferente ou o outro… São duas das poderosas imagens utilizadas pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han (Seul, 1959), um dos mais reconhecidos dissecadores dos males que acometem a sociedade hiperconsumista e neoliberal depois da queda do Muro de Berlim. Livros como A Sociedade do CansaçoPsicopolítica e A Expulsão do Diferente reúnem seu denso discurso intelectual, que ele desenvolve sempre em rede: conecta tudo, como faz com suas mãos muito abertas, de dedos longos que se juntam enquanto ajeita um curto rabo de cavalo.

 

Autenticidade. Para Han, as pessoas se vendem como autênticas porque “todos querem ser diferentes uns dos outros”, o que força a “produzir a si mesmo”. E é impossível ser verdadeiramente diferente hoje porque “nessa vontade de ser diferente prossegue o igual”. Resultado: o sistema só permite que existam “diferenças comercializáveis”.

Autoexploração. Na opinião do filósofo, passou-se do “dever fazer” para o “poder fazer”. “Vive-se com a angústia de não estar fazendo tudo o que poderia ser feito”, e se você não é um vencedor, a culpa é sua. “Hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. E a consequência: “Não há mais contra quem direcionar a revolução, a repressão não vem mais dos outros”. É “a alienação de si mesmo”, que no físico se traduz em anorexias ou em compulsão alimentar ou no consumo exagerado de produtos ou entretenimento.

‘Big data’.”Os macrodados tornam supérfluo o pensamento porque se tudo é quantificável, tudo é igual… Estamos em pleno dataísmo: o homem não é mais soberano de si mesmo, mas resultado de uma operação algorítmica que o domina sem que ele perceba; vemos isso na China com a concessão de vistos segundo os dados geridos pelo Estado ou na técnica do reconhecimento facial”. A revolta implicaria em deixar de compartilhar dados ou sair das redes sociais? “Não podemos nos recusar a fornecê-los: uma serra também pode cortar cabeças… É preciso ajustar o sistema: o ebook foi feito para que eu o leia, não para que eu seja lido através de algoritmos… Ou será que o algoritmo agora fará o homem? Nos Estados Unidos vimos a influência do Facebook nas eleições… Precisamos de uma carta digital que recupere a dignidade humana e pensar em uma renda básica para as profissões que serão devoradas pelas novas tecnologias”.

Comunicação. “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!”.

Jardim. “Eu sou diferente; estou cercado de aparelhos analógicos: tive dois pianos de 400 quilos e por três anos cultivei um jardim secreto que me deu contato com a realidade: cores, aromas, sensações… Permitiu-me perceber a alteridade da terra: a terra tinha peso, fazia tudo com as mãos; o digital não pesa, não tem cheiro, não opõe resistência, você passa um dedo e pronto… É a abolição da realidade; meu próximo livro será esse: Elogio da Terra. O Jardim Secreto. A terra é mais do que dígitos e números.

Narcisismo. Han afirma que “ser observado hoje é um aspecto central do ser no mundo”. O problema reside no fato de que “o narcisista é cego na hora de ver o outro” e, sem esse outro, “não se pode produzir o sentimento de autoestima”. O narcisismo teria chegado também àquela que deveria ser uma panaceia, a arte: “Degenerou em narcisismo, está ao serviço do consumo, pagam-se quantias injustificadas por ela, já é vítima do sistema; se fosse alheia ao sistema, seria uma narrativa nova, mas não é”.

 

Os outros. Esta é a chave para suas reflexões mais recentes. “Quanto mais iguais são as pessoas, mais aumenta a produção; essa é a lógica atual; o capital precisa que todos sejamos iguais, até mesmo os turistas; o neoliberalismo não funcionaria se as pessoas fossem diferentes”. Por isso propõe “retornar ao animal original, que não consome nem se comunica de forma desenfreada; não tenho soluções concretas, mas talvez o sistema acabe desmoronando por si mesmo… Em todo caso, vivemos uma época de conformismo radical: a universidade tem clientes e só cria trabalhadores, não forma espiritualmente; o mundo está no limite de sua capacidade; talvez assim chegue a um curto-circuito e recuperemos aquele animal original”.

Refugiados. Han é muito claro: com o atual sistema neoliberal “não se sente preocupação, medo ou aversão pelos refugiados, na verdade são vistos como um peso, com ressentimento ou inveja”; a prova é que logo o mundo ocidental vai veranear em seus países.

Tempo. É preciso revolucionar o uso do tempo, afirma o filósofo, professor em Berlim. “A aceleração atual diminui a capacidade de permanecer: precisamos de um tempo próprio que o sistema produtivo não nos deixa ter; necessitamos de um tempo livre, que significa ficar parado, sem nada produtivo a fazer, mas que não deve ser confundido com um tempo de recuperação para continuar trabalhando; o tempo trabalhado é tempo perdido, não é um tempo para nós”.

O “MONSTRO” DA UNIÃO EUROPEIA

“Estamos na Rede, mas não escutamos o outro, só fazemos barulho”, diz Byung-Chul Han, que viaja o necessário, mas não faz turismo “para não participar do fluxo de mercadorias e pessoas”. Também defende uma política nova. E a relaciona com a Catalunha, tema cuja tensão atenua brincando:

“Se Puigdemont prometer voltar ao animal original, eu me torno separatista”.

Já no aspecto político, enquadra o assunto no contexto da União Europeia: “A UE não foi uma união de sentimentos, mas sim comercial; é um monstro burocrático fora de toda lógica democrática; funciona por decretos…; nesta globalização abstrata acontece um duelo entre o não lugar e a necessidade de ser de um lugar concreto; o especial é incômodo, gera desassossego e arrebenta o regional. Hegel dizia que a verdade é a reconciliação entre o geral e o particular e isso, hoje, é mais difícil…”. Mas recorre à sua revolução do tempo: “O casamento faz parte da recuperação do tempo livre: vamos ver se haverá um casamento entre a Catalunha e Espanha, e uma reconciliação”.

Bresser Pereira: PEC 241, carga tributária e luta de classes inversa

Há várias maneiras de definir o neoliberalismo, mas talvez a maneira mais simples é dizer que é a ideologia da luta de classes ao inverso.

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No passado o comunismo foi a ideologia equivocada dos trabalhadores ou dos pobres contra os ricos; desde os anos 1980, no mundo, e desde os anos 1990, no Brasil, o neoliberalismo é a ideologia da luta dos ricos contra os pobres.
Por Bresser Pereira

Não de todos os ricos, porque entre eles há empresários produtivos, ao invés de meros rentistas e donos de empresas monopolistas, que ainda estão comprometidos com a nação – a associação de empresários produtivos e trabalhadores de cada país na competição com os demais países. Mas dos ricos rentistas que perderam qualquer compromisso com a ideia de nação e se sentem parte das “elites globais”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

A luta de classes neoliberal tem um objetivo geral: reduzir os salários diretos e indiretos dos trabalhadores. Os salários diretos através das reformas trabalhistas; os salários indiretos através da redução do tamanho do Estado ou a desmontagem do Estado Social através de reformas como a proposta a emenda constitucional PEC 241, que congela o gasto público exceto juros.

O objetivo dessa emenda não é o ajuste fiscal, que é necessário, mas a redução do tamanho do Estado, que nada tem de necessária. Ao contrário do que afirmam os economistas liberais, a carga tributária brasileira não tem crescido e não há uma crise fiscal estrutural: apenas uma crise fiscal conjuntural. Desde 2006 a carga tributária gira em torno de 33% do PIB. Seu grande crescimento ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso: ela cresceu de 26,1% em 1996 para 32,2% em 2002.

Carga Tributária do Brasil
Ano           % do PIB
1996           26,14%
2002           32,20%
2006           33,31%
2008           33,53%
2010           32,44%
2012           32,70%
2014           32,42%
2015           32,66%
Fonte: Receita Federal (2015): “Carga Tributária no Brasil 2015” / Ministério do Planejamento (2015): “Evolução Recente da Carga Tributária Federal”.

Um capítulo impressionante dessa luta de classes de cima para baixo está hoje sendo travado no Brasil através da PEC 241, que visa a desmontagem do Estado Social brasileiro – ou seja, reduzir em termos per capita seus gastos com educação e saúde. Com o aumento da população e do PIB os recursos para esses dois fins necessariamente se reduzirão em termos percentuais do PIB e em termos per capita.

Hoje, um grande número de entidades de classe patronais postaram nos grandes jornais um manifesto a favor da PEC. Paradoxalmente, entre elas estão muitas entidades representando os empresários industriais, embora, entre 1990 e 2010, as empresas industriais tenham sido as maiores prejudicadas pela política econômica liberal-conservadora adotada nos governos FHC e Lula-Meirelles.

E também pela política desenvolvimentista populista de Dilma (2011-14). Entendo a insatisfação dos empresários industriais – uma espécie em extinção no Brasil – com o governo Dilma, mas para mim sua incapacidade de criticar o rentismo e a financeirização globalista, que tomaram conta do governo Temer, é um sinal de sua profunda alienação em relação a seus interesses e aos interesses nacionais

Economia: A inflação não dá folga no neoliberalismo de Macri

Ah, a inflação. Os populistas não se preocupam com a inflação. Gastam mais, muito mais do que arrecadam.

Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil
Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil 

Como decorrência, uma das sequelas é a inflação que pune exatamente os que vivem de salário. Já os neoliberais cuidam muito desse aspecto. Têm responsabilidade fiscal e não admitem explosões inflacionárias.

Isto posto vamos à realidade argentina do governo conservador de direita de Maurício Macri. Apesar da recessão e da queda de vendas, os aumentos se mantêm firmes.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Dentro do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), o novo cálculo da “inflação núcleo”, que exclui os serviços públicos e outros itens, se acelerou no mês passado. Escalou 3 por cento, contra 2,7 de maio.

O Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) informou que os preços aumentaram 0,3 pontos percentuais em junho em relação ao mês anterior. Os dados difundidos continuam sem dar conta do incremento acumulado no primeiro semestre, tampouco a variação interanual.

Os índices de preços ao consumidor publicados por órgãos provinciais, sindicatos e consultorias privadas exibem aumentos da ordem de 25 por cento entre janeiro e junho, alcançando só no primeiro semestre a meta autoimposta pelo ministro da Fazenda e Finanças, Alfonso Prat-Gay, para o ano todo.

Os distintos porta-vozes do governo e os economistas das consultorias privadas preveem uma desaceleração inflacionária no segundo semestre, que, no entanto, terá entre seus principais fatores a queda do poder aquisitivo e a contração das vendas. Os sinais de diminuição da alta dos preços ainda não aparecem.

Pelo contrário, o “IPC-Núcleo” registrou em junho 3 por cento, mais que os 2,7 por cento registrado em maio. Esse novo indicador do Indec exclui os preços da energia e os alimentos por sua elevada volatilidade de curto prazo para tentar mostrar uma tendência sobre como evolui a inflação. É um truque elaborado pelo Indec que recriou o conceito de “inflación núcleo” para tentar mostrar uma tendência descendente no custo de vida.

Para sua “core inflation”, como se denomina em inglês, o Indec deixa de fora a eletricidade, a água, o gás, os serviços de saúde, a educação, o transporte, os cigarros, as frutas, as verduras e as viagens, entre outros itens em que se observou uma marcante aceleração de preços ao longo deste ano.

O informe do Indec mostrou aumentos significativos em itens centrais do orçamento familiar durante junho: 11,1 por cento em verduras, que já haviam galgado 20,1 por cento no mês anterior, e 10,9 por cento em azeites, ao lado de fortes aumentos também nos itens Vivenda e Serviços Básicos e Atenção médica, de 7,1 e 7,0 por cento, respectivamente.

Também tiveram altas acima da média os preços dos medicamentos (5,1) e dos produtos panificados (3,8), o mesmo ocorrendo com o item Alimentos e Bebidas, com uma alta de 3,2 por cento, dentro do qual a carne registrou altas entre 0,4 e 4,8 por cento, segundo os cortes. Em Frutas e Verduras, a batata subiu 17,2 por cento; o tomate, 13,0; a cebola, 11,5 e a abóbora, 9,9, enquanto a banana subiu 9,5. O item Educação aumentou 2,2 por cento.

Todos os valores resultam da medição na área metropolitana de Buenos Aires, já que outra das novidades do novo IPC é que o Indec abandonou a tomada de preços no restante do território nacional, o que sinaliza que está tentando esconder que o ritmo da inflação nessas áreas é ainda mais rápido.

Os bens que representam 61,5 por cento da cesta, mostraram uma variação de de 2,2 por cento em junho, enquanto os serviços, que explicam os restantes 38,5 por cento, tiveram uma variação de 4,5 por cento com relação a maio.

Diante dos fatos, Alfonso Prat Gay, reavaliou a meta inflacionária que ele mesmo previu para 2016 de até 25 por cento: “Se não der entre dezembro e dezembro, a alcançaremos entre março e março”.

E eles acham que o povo argentino não está sentindo na própria pele, acompanhando a situação e cotejando as promessas eleitorais.
Por Max Altman

O que o ressurgimento do fascismo pode nos ensinar

Fascismos,Hitler,Mussoline,Democracia,Blog do MesquitaPensamos que ele tinha desaparecido de vez. Foi um engano. Eis aqui por que.
Veja um pequeno exercício de reflexão.

Por Umair Haque¹

Publicado originalmente no site Bad Words, integrante da plataforma Medium.

Se no natal passado eu lhe tivesse dito que o principal candidato a presidente do país mais poderoso do mundo tivesse dito, abertamente, que concordava com a venda de armas, com campos de concentração, com proibições extrajudiciais e com direitos de sangue, a menos que você fosse um sócio atuante da Internacional dos Teóricos da Conspiração, você provavelmente teria dado uma gargalhada na minha cara.

E, no entanto… Aqui estamos nós, precisamente nessa realidade. E não se trata apenas de Donald Trump. O espectro mais tenebroso da política global, aquele que pensávamos ter sido exorcizado, de alguma maneira foi convocado e renasceu: é o ressurgimento do fascismo. Aquilo que chamarei, nesta pequena série de ensaios, de novo fascismo é um fenômeno global.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Marine Le Pen, a mais extremista dos políticos que contestam as lideranças nacionais desde Hitler… triunfou, com um terço dos votos, no primeiro turno das eleições de dezembro na França [1]. O mundo procura equilibrar-se à beira do precipício de uma Era das Trevas do Novo Fascismo – que se levanta, como um cérebro, da Escandinávia à Europa e da Turquia à Austrália.

Acredito que o Novo Fascismo, em sua individualidade, é o acontecimento político mais importante de nossas vidas. Trata-se de um momento crítico para a sociedade global – um momento decisivo. E, como todo momento decisivo, é um teste. Um teste que avalia o melhor de nós: se as sociedades civilizadas podem, de fato, continuar civilizadas, no sentido mais essencial dessa expressão – ou se corremos o risco de mergulhar, outra vez, numa era de guerra mundial e genocídio.

Isso lhe parece um exagero? Então, torne a ler o primeiro parágrafo deste ensaio e pergunte a si próprio se esperava que um possível presidente norte-americano defendesse campos de concentração… apenas um ano atrás. A primeira coisa que você precisa aprender sobre a ascensão do fascismo é que ele desafia suas expectativas de um mundo sensato. Ninguém espera – como na famosa frase do Monty Python – a Inquisição Espanhola.

Um produto de uma inconveniência econômica

Por conseguinte, eu irei discutir o Novo Fascismo nesta série de ensaios. No primeiro ensaio, explicarei sua ascensão; no segundo, a sua dinâmica: por que cresce tão rapidamente, pegando todo mundo de surpresa; no terceiro, discutirei como combatê-lo – se, na verdade, for possível combatê-lo.

Então, como ele surgiu? Minha explicação é simples – mas exigirá que você faça uma reflexão cuidadosa. Irei argumentar que o fascismo é um produto do extremismo – tanto de esquerda quanto de direita. Que o extremismo acabou com o centro – o que criou um vácuo no qual nasceram os Novos Fascistas, que combinam os piores elementos da esquerda e da direita.

Para começar, deixem-me dar uma ideia geral das quatro etapas pelas quais o fascismo cresce. Meu ensaio está incompleto e é simplificado em excesso, com certeza. Não pretendo escrever uma história definitiva do fascismo: simplesmente apresentar um retrato cru que possa ser usado para compreendermos em que etapa estamos.

Eis aqui a etapa incipiente do fascismo: vamos chamá-la estagnação.

O fascismo é sempre um produto de uma inconveniência econômica. A inconveniência cria uma sensação ardente de injustiça. O bolo da riqueza encolhe, desmorona e se deteriora. As sociedades começam a disputar a quem pertencem as fatias, que vão ficando cada vez mais finas, cada vez mais emboloradas.

Seres existencialmente inferiores

E aqui vem a segunda etapa do fascismo: vamos chamá-la demagogia.

Surge uma briga entre os líderes no sentido de fazer alguma coisa em relação ao problema da estagnação. Tanto a esquerda quanto a direita vão ficando mais extremadas. E aí acaba o centro. O vácuo que o centro ocupava dá espaço para um tipo de político inteiramente novo – um tipo de político que normalmente era freado pela esquerda em sua luta contra a direita, mas agora livre para combinar o que há de pior na esquerda e na direita.

Logo aparece um demagogo, que grita: o bolo pertence ao povo – e só ao povo! Ele sintetiza o que há de pior, tanto na esquerda quanto na direita. É um socialista, mas só para as pessoas certas. Mas também é um nacionalista e não reivindica apenas domínio e recursos, como terra: ele reivindica a superioridade, pelo sangue ou por deus, de um povo, para além dos recursos. Daí a expressão, paradoxal, “nacional socialismo”.

A perigosa apelação do demagogo é a seguinte: ele localiza a fonte de estagnação naqueles que não têm pertencimento, que são inferiores – não apenas moral, mas existencialmente – e os aponta com o dedo, aponta o veneno dentro da sociedade. É muito mais fácil acreditar que a sociedade está sendo envenenada por um conjunto de pessoas corruptas que não pertencem a ela, do que acreditar que o contrato social acabou e deve voltar a ser escrito – e assim se abre o caminho do demagogo para o poder.

E chegamos ao terceiro estágio do fascismo: a tirania.

Mas quem é “o povo”? Quem é, de fato, inferior e quem é superior? Quem merece os frutos do nacional socialismo – o direito a consumir fatias do bolo que encolhe, que é do que trata toda esta ideologia? E aí vem à tona a noção de volk: os verdadeiros moradores da terra, os herdeiros do destino, o direito de nascer, a superioridade. E como os definiríamos? Afinal, essa é uma pergunta traiçoeira, que não admite certezas óbvias. Você merece os recursos da Nação-Sociedade simplesmente por ter nascido ali? Ou porque você viveu ali? Ou seria porque seus avós já nasceram ali? É justamente a essas perguntas que a Nação-Sociedade, Na-Zi, começa a dedicar seus recursos. Imensas burocracias são organizadas, trilhas de papel são criadas, investigações são realizadas.

E aqui chegamos à última etapa: a autodestruição.

Busca-se saber quem é um “verdadeiro” cidadão. Depois, busca-se saber quem é um “verdadeiro” membro do volk [povo], por nascimento ou pelo sangue. E depois busca-se saber quem é “verdadeiramente” – e simplesmente – uma pessoa. Esse é o abismo. Isso porque, por essa lógica, se você não for um membro do volk, você deve ser subumano. É isso que significa não ser apenas moralmente, mas existencialmente inferior. Os subumanos, os não-volk, não são apenas o sorvedouro dos recursos minguantes da Nação-Sociedade, que não merecem qualquer fatia encolhida do bolo da Nação-Sociedade – na verdade, e em primeiro lugar, eles são o motivo pelo qual o bolo está encolhendo. Portanto, agora eles representam um problema. Um problema para o qual os volk precisam achar uma “solução”. Os líderes coçam a cabeça e chegam a uma conclusão. Soluções temporárias para problemas permanentes não são um bom negócio.

O que se precisa é de uma solução final.

Uma crença ideológica extremista

Agora, a sociedade está se destruindo a si própria. Isso porque nenhuma sociedade civilizada pode obedecer às ordens de expulsar, prender ou assassinar seus cidadãos por um motivo qualquer e continuar sendo civilizada. Mas isso é algo que os fascistas, que agora já compõem a maioria da população, dos volk, não conseguem ver. Eles só veem pureza, perfeição e um destino glorioso.

Tudo isso é o que Umberto Eco chamou o “fascismo eterno” – a dinâmica que cria qualquer fascismo, seja qual for a sociedade em que surge. Passemos, agora, a ser específicos. Onde se encaixa o Novo Fascismo no meu modelinho de fascismo eterno? Em que etapa nosencontramos?

De 1950 a 1970, os Estados Unidos se encontravam numa Idade do Ouro. Não era apenas o país mais rico, mais seguro, mais tecnologicamente avançado e mais educado: em média, suas famílias também eram. Ou seja, tinha elaborado um contrato social historicamente único, em que o crescimento econômico era amplamente compartilhado pela média de seus cidadãos.

Mas aí, alguma coisa deu errado – muito errado. Os rendimentos começaram a estagnar. A média das famílias começou a sofrer e o país logo ficaria para trás dos restantes mais avançados do mundo em simples termos humanos, como saúde, educação e poupança.

Por que o padrão de vida começou a estagnar na década de 70 – e continuou por quase uma década? A explicação é a seguinte. Num caso único entre as economias mais avançadas, os Estados Unidos foram quase totalmente consumidos por uma ideologia econômica de extrema-direita. A ideia era simplesmente de que a prosperidade lá de cima caísse na forma de gotas de chuva para os que estavam mais em baixo. Portanto, fundamentalmente, a renda foi redistribuída de baixo para cima – com a crença de que amanhã os beneficiados seriam os de baixo. E como foi executada essa redistribuição? Simples: cortando, com austeridade, os impostos lá de cima, retalhando o poder de negociação dos de lá de baixo com o mesmo rigor e financeirizando a economia, isto é, desregulamentando o mercado de capitais para que os de cima pudessem investir os lucros que estavam colhendo.

Desnecessário dizer que tudo isso estava em desacordo com a realidade. A classe média e a de baixo nunca gozaram de benefício algum – e nunca houve um pingo de evidência que sugerisse que gozariam. Essencialmente, os Estados Unidos rasgaram o contrato social de sua Idade do Ouro em nome de uma crença ideológica extremista.

Neoliberalismo retirou milhões da pobreza

E quando a estagnação se impôs, as instituições e os líderes brigaram sobre a forma pela qual o contrato social deveria ser reescrito – mas não o reescreveram. Assim, a estagnação continuou, ganhou força e a classe média não só deixou de prosperar como passou a encolher.

Recentemente, os Estados Unidos chegaram a ponto crítico histórico: pela primeira vez, a classe média é minoria. Nem você nem eu podemos dizer que isso “prova”, em termos acadêmicos, que isso é uma causa para o fascismo. No entanto, podemos dizer, com confiança, o seguinte: o fascismo é sempre um produto da inconveniência. Nos Estados Unidos, a classe média e seu padrão de vida atingiram seu pico por volta de 1970. Desde então, a classe média vem encolhendo continuamente. E nos dias de hoje, o fascismo vem crescendo precisamente no momento em que a classe média chegou a um ponto crítico, passando de maioria para minoria.

Teria a classe média fracassado devido a seus líderes e instituições? Estaria angustiada com isso e desesperada pela prosperidade? Sim. Mas não se trata disso. A questão é simplesmente a seguinte: a classe média está reagindo a seu próprio declínio dando seu apoio aos Novos Fascistas.

Mas isso é apenas metade da história. Segue-se a outra metade.

Enquanto a direita não se limitava a divulgar uma crença econômica extremista e não comprovada, a esquerda nem sequer compreendia com o que lutava. Em vez disso, uma geração de esquerdistas decidiu que a verdadeira oposição não era uma economia de direita local – e sim, uma política global chamada “neoliberalismo”.

Mas boa parte do neoliberalismo, em completa oposição à economia segundo a qual a prosperidade lá de cima cairia na forma de gotas para os que estavam mais abaixo, retirou, na realidade, milhões de pessoas da pobreza, da miséria e do desespero pelo mundo afora. Por que? Porque o liberalismo, tenha ele a definição que tiver, não é uma economia de conta-gotas. É precisamente o contrário: investe em instituições, em pessoas e em sociedades para que o excedente não se acumule na parte de cima.

Já apareceu um líder demagogo

No entanto, a esquerda começou a manifestar-se e protestar justamente contra as instituições que defendiam o mundo da economia de conta-gotas – o Banco Mundial, o FMI e a ONU. É claro que tenho certeza de que aqueles de vocês que forem de esquerda irão se opor a mim com veemência e dirão que eu sou uma pessoa detestável. O fato, entretanto, é que o FMI e o Banco Mundial foram criados por Keynes justamente para evitar que a riqueza se acumulasse no topo [da pirâmide] – e foi precisamente isso que eles fizeram. Portanto, vocês, esquerdistas, estão simplesmente provando uma terrível e profunda ignorância da história econômica. Perdoem-me por ser duro, mas agora devemos falar verdades nuas e cruas.

E esse erro trágico, histórico e colossalmente imbecil – a confusão da política de conta-gotas com o liberalismo, da esquerda com a direita – condenou a esquerda a um caminho de total irrelevância. Ao invés de lutar contra a direita, a esquerda passou a lutar… contra si própria.

Se você não acredita, responda: onde está a esquerda agora? Trava uma nobre e valente luta em favor dos… transgêneros em videogamespronomes de gênerobanheiros para todos os gêneros. Mas não diz uma palavra sobre a questão do Novo Fascismo. Organiza manifestações, protestos e movimentos em defesa dos primeiros, mas nada em relação ao último. Entende o que eu digo? A esquerda está lutando contra si própria, trava uma luta cada vez mais extremada contra a esquerda. Mas não enfrenta a direita.

Pessoas de bom senso podem discordar a respeito de banheiros para todos os gêneros – mas pessoas de bom senso não podem discordar sobre campos de concentração. No entanto, enquanto a esquerda se deixa consumir pela política de identidade sexual, as ideias fascistas começam a assumir o controle das sociedades por atacado (por exemplo, 47% dos norte-americanos concordam com a proposta de Trump de “banir” os muçulmanos). Com que se pode comparar isso? É como se você quisesse uma pedicure enquanto uma gigantesca gangrena devora sua perna… porque você quer marcar um encontro.

Portanto, a causa concreta da ascensão do Novo Fascismo é o extremismo. De ambos os lados – esquerda e direita. Podemos chamar o extremismo de direita fundamentalismo e o de esquerda, narcisismo. Mas ambos são extremismos. Nenhum dos lados prioriza uma nova redação do contrato social – apenas disputam suas fatias minguantes de um bolo que encolhe cada vez mais.

Portanto, o crescimento do extremismo de ambos os lados provocou o fim do centro. Esquerda e direita já não evitam os piores excessos. Consequentemente, a doença que combina o pior deambos tem liberdade para crescer e o nome desse câncer é fascismo.

Respondendo à pergunta: em que etapa de meu modelinho nos encontramos? Eu diria que estamos mais ou menos em um terço do arco do fascismo. Já ultrapassamos as etapas iniciais. Considerando o que dissemos acima, já passamos a etapa da estagnação e estamos quase nofinal da etapa da demagogia – pois já apareceu um líder demagogo. Não estamos simplesmente correndo o risco de que “aconteça aqui” em algum tipo de futuro improvável.

A exaltação da destruição

Minha história tem sutilezas. Tentei fazer uma distinção entre uma causa imediata e a causa definitiva. A causa definitiva do fascismo é a direita – mas a causa imediata é a esquerda. Em termos simples, as origens do fascismo estão no extremismo de direita – mas foi a irrelevância que se auto-impôs a esquerda que permitiu sua ascensão, e talvez até lhe tenha dado um impulso. Você pode discordar de minha história. É apenas uma síntese entre tantas outras. No entanto, eu o previno contra o extremismo de opostos que define a nossa época. Para explicar plenamente a ascensão do fascismo – por ser a mais venenosa fusão de ambos os lados –, devemos falar aberta e honestamente dos erros da esquerda e da direita.

Na história da ascensão do Novo Fascismo vemos precisamente os mesmos elementos que funcionam no fascismo eterno. O bolo encolhe. Os líderes e as instituições brigam – enquanto o bolo encolhe. Então, o momento crítico, quando o centro desaparece. O demagogo fica desimpedido para cantar sua canção das trevas. Cai a noite. E começa a Idade do Ouro dos volk, a longa marcha rumo à terra prometida por entre vales de sangue e de desespero.

Escrevi demais. Fiquei cansado, assim como você. Portanto, vamos parar por aqui para dar uma pausa e refletir. O fascismo, a venenosa mistura do que há de pior na esquerda e na direita, é um câncer que pode ter infectado o corpo político quando este estava entorpecido e minimizado, adoecido e frágil devido à estagnação. E a obrigação de todas as pessoas de bom senso é enfrentá-lo. Não apenas porque ele destrói e classifica  a destruição como um destino glorioso, nem porque ele mata e considera o assassinato como uma forma nobre de justiça, e sim, porque a exaltação da destruição é o fim de tudo aquilo que representa a civilização. Não apenas o tecido de nossas sociedades, mas a própria sobrevivência da humanidade.

[1] O partido de Marine Le Pen foi no entanto derrotado no segundo turno das eleições, também em dezembro de 2015

¹ Umair Haque é escritor, economista e diretor do Havas Media Lab

Regina Casé, a Globo e a suposta denúncia da violência policial

A mãe de DG foi ao Esquenta, mas não teve espaço para vocalizar as críticas que vem fazendo às UPPs.

Esquenta!”, DG e a disputa pela representação da nova classe trabalhadora

Vejo o “Esquenta” como um dos retratos do empoderamento conquistado por uma classe subalterna durante os anos Lula, e também de seus limites (que parecem cada vez mais incontornáveis nos moldes da atual governabilidade conservadora).

Esse empoderamento veio, como se sabe, pela conquista de aumento do poder de consumo. Um empoderamento que pode ser frágil e sem dúvida algum contraditório, mas foi empoderamento, porque o acesso a esses bens ampliou as condições materiais de autocomunicação e auto-organização desses setores – veja-se os “rolezinhos”, um dos exemplos mais marcantes desse fenômeno.

Frágil, porque é preciso analisar o peso do endividamento das famílias nessa expansão do consumo, e mais ainda porque basicamente não se tocou nas estruturas que concentram poder – material e ideológico – nas classes e setores dominantes.

Porém, embora não se tenha enfrentado essas estruturas, elas não ficaram imunes à maior inclusão desse setor subalterno no mercado de consumo.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Não se promoveu a democratização dos meios de radiodifusão nem se mexeu, aparentemente, nos privilégios fiscais de Globo e cia, mas fica cada vez mais difícil para a Globo e cia ignorarem a existência dessa classe em relativa ascensão econômica.

Engana-se redondamente quem pensa que basta, para não perder a hegemonia ideológica e de mercado sobre esse setor, fazer propaganda dirigida para ele (o que tem acontecido bastante, claro).

A Globo sabe que seu grande concorrente, cada vez mais, é a internet, com suas redes de autoprodução e difusão de cultura e entretenimento, inclusive entre esse segmento de trabalhadores pobres.

Prova disso é a reformulação que está fazendo em diversos programas para tentar torná-los mais “interativos” e parecidos com as redes sociais – não assisti ao Fantástico de ontem, mas dizem que foi mais um marco nesse sentido.

Então, preocupada com a hegemonia de audiência e ideológica sobre o setor pobre consumidor, o ‘consumitariado’, a Globo sabe que, cada vez mais, não bastará mostrá-lo como objeto; é preciso, tal como acontece nas redes sociais, promover sua inclusão como sujeitos produtores de cultura e entretenimento, em alguma medida.

O “Esquenta” é a principal resposta da Globo, até aqui, a esse duplo movimento: à ascensão consumidora de uma classe, e às mudanças forçadas pela nova lógica social de produção e comunicação, em escala global (cujas raízes não cabe examinar neste texto), que têm como grande símbolo as redes sociais.

Não é por acaso, então, que Douglas Silva, o DG, um dos jovens negros assassinados numa favela do Rio de Janeiro nessa semana, fosse um dançarino de destaque do Esquenta, e não do Fantástico, Domingão do Faustão, do programa do Luciano Huck, Fátima Bernardes, Ana Maria Braga ou Serginho Groisman.

Obviamente, nesses outros programas também devem trabalhar jovens pobres e negros de favelas do Rio de Janeiro. Porém, muito provavelmente, não na mesma proporção do Esquenta, e o mais importante: não tanto diante das câmeras, e muito menos em posições de destaque e como porta-vozes da estética produzida pelos segmentos da periferia, como no programa de Regina Casé. Estética essa que não é homogênea, claro, e que é seletivamente recortada nas suas representações admitidas e priorizadas no “Esquenta!”.

O Esquenta é, pois, uma pequena abertura conquistada pelas lutas dessa classe em relativa ascensão. Conquistada pelas lutas, sim: as pequenas grandes conquistas do ciclo lulista – não só Bolsa-Família, mas, mais ainda, políticas como o aumento real sustentado do salário-mínimo – foram arrancadas do poder: respostas do Estado para tentar se legitimar diante de anos e anos de mobilização popular por justiça social.

É claro que a resposta lulista foi limitada, deu-se nos marcos de não promover reformas estruturantes; e por isso mesmo, parece delinear-se não só sua precariedade, como seu esgotamento. Porém, isso não muda o fato de que esses parcos avanços foram obtidos pelas lutas, como tentativas dos poderosos de “dar os anéis (ou nem isso) para não perder os dedos”. De modo análogo, o programa “Esquenta”.

Dada a função que cumpre e sua composição social de classe (no palco e na audiência), o Esquenta não tinha como não se dedicar, hoje, à morte de seu dançarino Douglas DG, não tinha como não contextualizá-la como mais um episódio brutal da violência contra a juventude pobre e negra das periferias do Rio de Janeiro e do Brasil…

Devemos comemorar, pois, que se tenha falado nesses assuntos, ainda que de modo passageiro e superficial, no programa de Regina Casé de hoje. Trata-se de um furo do bloqueio midiático sobre a discussão desses temas, conquistado pelas lutas dos movimentos negros, das periferias, de cultura, populares.

Porém, basta olhar com um pouco mais atenção para a edição de hoje do Esquenta para se perceber os limites e o caráter contraditório da “abertura” em que ele consiste.

Praticamente não se falou da violência policial sistemática dirigida contra a população pobre e negra das favelas. Não se tocou no fato de que o Estado é um dos grandes instrumentos desse ciclo de criminalização da pobreza e da juventude negra.

O tom geral foi o de se falar da violência em abstrato, sem denunciar as políticas de segurança pública como parte fundamental desse quadro violento. Contraditoriamente, o discurso genérico “contra a violência” que marcou o programa de hoje pode alimentar justamente a legitimação da resposta policialesca que é parte do problema, e não de sua solução.

A resposta do governo do Rio à morte de DG, que tem indícios sérios de responsabilidade da polícia, é bastante eloquente sobre isso: na repressão ao protesto da população indignada da comunidade do Pavão-Pavãozinho, mais um jovem morto pela ação da PM: Edilson da Silva.

Não é uma coincidência que o Esquenta de hoje não tenha falado sobre Edilson. Não era conveniente para os interesses da Globo lembrar que insistir na resposta policial à violência só vem agravando-a ainda mais (perdi o começo do programa e posso ter tido algum lapso de atenção, mas, caso alguém tenha tocado no tema por lá, foi de modo extremamente passageiro e sem desdobrar a crítica).

Mais conveniente era falar de combater a violência, em abstrato, e até mesmo a impunidade (!), como o fez Jô Soares no programa (e não para falar de impunidade de policiais…).

Ou seja: a solução seria punir ainda mais… Como se os jovens das favelas já não estivessem sendo punidos, muitas vezes com a morte, por sua condição social e identidade racial.

Significativas, também, foram outras falas do Esquenta, como a de Fátima Bernardes. A apresentadora disse que o Estado tem de estar presente na favela também com educação. É claro que já é alguma coisa reconhecer-se a necessidade de superação da desigualdade no acesso à educação, saúde, etc.

Porém, a armadilha desse tipo de discurso é que critica a omissão do Estado, mas silencia diante da outra face complementar dela: o inchaço de seu aparato repressor. Esse é o discurso que se tenta construir, agora, para legitimar a ocupação militarizada das favelas: o problema não estaria exatamente nela, mas na ausência das políticas sociais.

Ou seja, uma vez que se “compense” a violência sistemática, a criminalização da pobreza, com “políticas sociais” (“UPP social”), aí o problema estaria resolvido…

Como se não fosse preciso mudar radicalmente as políticas de segurança pública, como se elas e a omissão do braço social do Estado não fossem parte de uma mesma política.

O fato é que são. O projeto das UPPs mostra muito bem isso, como parte de uma lógica de gestão neoliberal da pobreza. Neoliberal?! Sim. O neoliberalismo produz a “ascensão do Estado penal”, “em resposta à crescente inseguridade social, e não à insegurança criminal”, diz o sociólogo Loïc Wacquant, autor da já clássica obra “Punir os pobres: o governo neoliberal da inseguridade social” (2009).

O “neoliberalismo realmente existente”, diz Wacquant, consiste não na redução do Estado (conforme sua propaganda ideológica), mas em sua reengenharia, na “construção de um Estado forte capaz de opor-se de modo efetivo à resistência social à mercantilização e de moldar culturalmente subjetividades em conformidade com isso”.

Trata-se, diz ainda o francês radicado nos Estados Unidos, de uma “articulação entre Estado, mercado e cidadania que direciona o primeiro para impor o selo da segunda na terceira”.

O Estado não diminui, mas ganha um novo perfil, ainda mais forte como máquina de estratificação social a serviço da mercantilização. No caso da “ocupação” das favelas, isso fica bastante claro: o projeto das UPPs envolve não apenas o disciplinamento político de uma classe via repressão explícita, mas também uma disputa econômica pelo controle do mercado consumidor e produtivo dos territórios “pacificados”…

A retórica é de que o controle territorial pelo Estado teria por fim “levar serviços básicos” às favelas, mas o que se tem registrado não é isso.

A disputa pelo controle da economia dos territórios das favelas alcança não apenas a concorrência comercial pela prestação de alguns serviços, mas, de modo bastante central, a ofensiva de inclusão daquelas terras no mercado imobiliário dominado pelas grandes empresas “do asfalto”.

Não por acaso, tem se registrado alta brutal de preços dos imóveis de favelas “pacificadas”, o que tem expulsado a pobreza para áreas mais periféricas do Rio e gerado lucros exorbitantes para o capital imobiliário.

Vale lembrar que em janeiro deste ano, o secretário de segurança pública do Rio de Janeiro foi homenageado pelo Esquenta devido ao seu trabalho com as UPPs.

Foram blocos e mais blocos que falavam dos benefícios das Unidades, contradizendo outros muitos veículos midiáticos populares que trataram do assunto.

UPPs, governos e Rede Globo (e suas concorrentes da grande mídia) estão, como é bastante notório, unidos nesse projeto. Controlar territórios pobres de modo militarizado, não para garantir a segurança daquela população, mas para discipliná-la como público consumidor e assujeitado.

O “Esquenta” de hoje, ao não enfrentar a falência das UPPs ou enfrentar o tema da violência policial, mostrou-se como dimensão contraditória desse projeto. Contraditória porque esse programa, justamente por ser uma tentativa de disputar a representação simbólica da classe subalterna em ascensão (como parte do esforço de domesticá-la), precisa mostrá-la como sujeito, de alguma maneira – mesmo uma versão bastante parcial e disciplinada desse sujeito.

Ao fazer isso, abre um terreno de disputa menos desvantajoso para a autoexpressão desse sujeito e de suas lutas do que a programação “comum” da Rede Globo e das demais grandes emissoras de TV.

Como disse o megainvestidor norte-americano Warren Buffett, lembrado outro dia pelo Vladimir Safatle: “Quem disse que não há luta de classe? Claro que há, e nós estamos vencendo”.

Não sei quem está vencendo, sei que precisamos refinar nossos instrumentos de análise, pois tanto as estratégias de resistência e produção subalterna, como as de tentativa de seu apassivamento, apropriação e direcionamento, têm se sofisticado.

Mais útil do que celebrar as pequenas aberturas como se fossem revolucionárias, ou lamentar de modo impotente o fato de que não o são, é investigar a realidade dialeticamente, para pensar estratégias que alarguem a materialidade dessas frestas e evitem seu disciplinamento.
João Telésforo/Blog VioMundo

Concessões de Aeroportos. Um erro.

Na onda privatizante que correu o mundo na década de 90, a venda de patrimônio público foi a ordem do dia. Passados quase 20 anos, podemos analisar com mais frieza os resultados do ocorrido.
Classifico as vendas (privatizações) no Brasil, em função dos seus resultados, de quatro maneiras, todas interligadas:
1. Valor de venda de todas elas: ridículo.
2. Compradores: amigos do Rei. Negociatas.
3. Venda de empresas produtoras de bens como CSN, Embraer, Usiminas: positivas.
4. Venda de empresas prestadoras de serviço como telefonia: um erro.

Por que esse preâmbulo ? Está no título. Desta vez não vão vender, mas ceder para usufruto por 30 anos, novamente para amigos do Rei.

Outros amigos obviamente, pois outro é o Rei, que na nossa Monarquia Republicana é chamado de Presidente, e que pelo sistema de revezamento acertado entre eles, – todos com tempo pré-determinado para poder usufruir das benesses do cargo – está há 9 anos com os sindicalistas, “representantes” do povo.

Claro, todos se esforçam para “segurar” a chave do cofre por mais tempo, mas isso é parte do principal passatempo dos comensais da Corte, o jogo de cena, mas identificado por eles como política; por nós como estupro.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Por que estão concedendo a administração dos aeroportos para os amigos, parceiros e financiadores da iniciativa privada, que os financiam com o próprio dinheiro ganho do Estado ?

1. Porque a administração pública, tendo como patrões os políticos, é um desastre.

2. Porque não têm coragem de enfrentar a questão da estabilidade no emprego dos funcionários públicos concursados e cuja aposentadoria não tem a contrapartida do governo. Desta forma, pagam uma fortuna com dinheiro dos impostos, mas conseguem romper os contratos com os mesmos. E é justamente esta negociação que emperra até agora as concessões, pois o sindicato exige que os já aposentados recebam parte igual. Para os políticos não faz muita diferença, pois o dinheiro não é deles.

3. Os amigos que vão passar a administrar os aeroportos, o farão por um prazo de 30 anos, sendo que TODAS melhorias necessárias serão bancadas pelo BNDES, com retorno pelo mesmo prazo. Juros ? De pai para filho.

4. Sendo um monopólio, como foi o das telefonias, o lucro é certo e o enriquecimento de poucos, garantido, mas não a excelência obrigatória dos serviços.

5. Quando terminar a concessão, devolverão apenas o bagaço da laranja para a árvore.

Só os amigos do Rei ganharão neste negócio e se forem “generosos”, como terão que ser, mais “gente” ganhará.

Que os políticos tenham a coragem de fazer o que foi feito em 1966 com os empregados da iniciativa privada, quando foram honrados os contratos em andamento caso o empregado não quisesse optar, e os novos contratados somente através do FGTS.

Pois tenham coragem e parem de enganar todos trabalhadores, honrando os contratos dos que não quiserem optar e aceitando (novas regras) os novos concursados somente pela CLT.

E se já estivéssemos sob um novo contrato social, num sistema que denomino de Capitalismo Social, o Estado venderia só parte dos aeroportos mas permaneceria majoritário, administrando o Conselho e fazendo as vezes das agências reguladoras mas com mão de ferro; entregaria a parte executiva da administração aos novos acionistas , não faria concessão, não precisaria do BNDES e o lucro deste negócio seria distribuído entre acionistas e trabalhadores e não apenas para os amigos do Rei e mais “alguns”.

E, importante, há dinheiro suficiente na mão de brasileiros, para honrar um negócio como esse. Não precisaríamos entregar também os aeroportos para empresas estrangeiras, e ainda financiadas com títulos do governo, via BNDES.

Empresas Sociais. Um novo paradigma. Este é o caminho. Capital e trabalho como parceiros. Metade do resultado para o capital e metade para o trabalho.
Martim Berto Fuchs/Tribuna da Imprensa
http://capitalismo-social.blogspot.com/

Economia: 1929 redivivo?

Neoliberalismo, terceira via, desregulamentação do Estado, Estado mínimo… Seja qual for o adjetivo e/ou definição que se use a realidade é que, como escreveu Karl Marx, sobre a Revolução Francesa:  “A história acontece como tragédia e se repete como farsa”.

É provável que o que a economia esteja passando hoje talvez aconteça em função das injustiças e ausência de isonomia na democracia em amplitude mundial. Há uma ausência de senso crítico – a mídia controlada, parcial e comprometida não permite que pensamentos não alinhados com esses interesses cheguem ao povo – e o que se assiste é uma quase absoluta falta de mobilizações populares, e de pessoas, suficientemente esclarecidas que pensem antes de votarem.

No sanatório geral em que se transformou o mundo na tal de “pós-modernidade” surgem oportunidades para descomunais especulações financeiras, bolhas, as mais diversas e oportunistas, produzindo uma sensação, falsa, mas não percebidas pela maioria, de prosperidade, que agora já percorre o estreito caminho da saturação.

O Editor

Ps. O que acontece na agora chamada de “primavera árabe” é mais uma saturação da secular tolerância a governos despóticos, do que a percepção do ‘kaos’ do capitalismo especulativo.


Quem avisa amigo é

Vale, por um dia, começar além da política nacional, arriscando um mergulho lá fora.

O que está acontecendo na Europa e quase aconteceu nos Estados Unidos, onde bancos estão falindo, cidadãos sendo despejados de suas casas, economias desmanchando-se como sorvete e, last bus not least, magnatas conseguindo salvar suas fortunas e mandando a conta para a classe média e o povão através de aumento de impostos, desemprego em massa e supressão de investimentos sociais.

O risco, como em 1929, é de multidões ganharem as ruas, enfrentando a polícia e depredando tudo o que encontram pela frente. Tornarão impossível a vida do cidadão comum, instaurando o caos.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Por quê?

É preciso notar que esse protesto anunciado começa com a inadimplência mas logo chega à fome, à miséria e à doença.

Não dá mais para dizer que essa monumental revolta prevista com data marcada é outra solerte manobra do comunismo ateu e malvado.

O comunismo acabou. Saiu pelo ralo.

A causa do que vai ocorrendo repousa precisamente no extremo oposto: trata-se do resultado do neoliberalismo.

Da consequência de um pérfido modelo econômico e político que privilegia as elites e os ricos, países e pessoas, relegando os demais ao desespero e à barbárie.

Fica evidente não se poder concordar com a violência. Jamais justificá-la. Mas explicá-la, é possível.

Povos de nações e até de continentes largados ao embuste da livre concorrência, explorados pelos mais fortes, tiveram como primeira opção emigrar para os países ricos.

Encontrar emprego, trabalho ou meio de sobrevivência.

Invadiram a Europa como invadem os Estados Unidos, onde o número de latino-americanos cresce a ponto de os candidatos a postos eletivos obrigarem-se a falar espanhol, sob pena de derrota nas urnas.

O problema é que serão os primeiros a sofrer.

Perderão empregos, bicos e mesmo o direito de pedir esmola.

Preparem-se os neoliberais.

Os protestos não demoram a atingir as nações ricas.

Depois, atingirão os ricos das nações pobres.

O que fica impossível é empurrar por mais tempo com a barriga a divisão do planeta entre inferno e paraíso, entre cidadãos de primeira e de segunda classe. Segunda? Última classe, diria o bom senso, porque serão aqueles a quem a conta da crise será apresentada.

Como refrear a multidão de jovens sem esperança, também de homens feitos e até de idosos, relegados à situação de trogloditas em pleno século XXI?

Estabelecendo a ditadura, corolário mais do que certo do neoliberalismo em agonia?

Não vai dar, à medida em que a miséria se multiplica e a riqueza se acumula. Explodirá tudo.

Carlos Chagas/Tribuna da Imprensa