Corrupção saqueia o Brasil repetindo ação dos corsários do passado

A excelente reportagem de Leandro Colón, O Estado de São Paulo de quinta-feira 24, iluminando para a opinião pública um incrível escândalo que explodiu no Ministério das Cidades, responsabilidade maior do titular da pasta, Mário Negromonte, acrescenta mais um episódio à sequência de corrupção que saqueia o Brasil. Impressionante como é tratado o dinheiro público. Só tem paralelo na ação dos corsários do século XVI que tinham base no Caribe e nas Antilhas.

Os corsários de hoje, como os de ontem, que inspiraram várias lendas, não respeitam limites. Roubam freneticamente e, com isso, desfecham bofetadas na face da população. A fraude homologada pelo ministro Mário Negromonte, referente a obras da Copa do Mundo em Cuiabá, eleva-se a 700 milhões de reais. Caso de demissão imediata de seus principais auxiliares.

Depois de Carlos Lupi, que balança, mas vai terminar caindo, Negromonte será o sétimo a ser demitido por corrupção. E o oitavo a sair da equipe da presidente Dilma Roussef, já que Nelson Jobim foi demitido por insubordinação. É demais? Sim. Mas isso só na esfera do Palácio do Planalto. Porque as fraudes proliferam de maneira incessante em quase todas as áreas, incluindo as estaduais e municipais.

Os cargos que possuem verbas altas são disputadas, não como instrumento de realização coletiva, sentido maior da política, mas sim como chave para o roubo e o assalto, passando pela farsa e atravessando o plano da chantagem, imunda por natureza. Chantagem sim. Porque o pretexto apresentado hipocritamente é o de tornar cada vez mais sólida a maioria parlamentar do governo no Congresso. Algo repugnante.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Nenhum dos desonestos consegue falar sobre seu verdadeiro papel na ópera que encenam e da qual se tornam personagem sombrios. Nem podem se olhar no espelho da demissão, pois como dizia Santiago Dantas, nenhuma posição é legítima se aquele que a ocupa não puder dizer seu verdadeiro nome.

Mais impressionante ainda é que os acusados tentam resistir à realidade das denúncias e custam a tomar a iniciativa de tomar o elevador para ir embora. Insensibilidade aí entra em cena. Pois Palocci, Wagner Rossi, Alfredo Nascimento, Pedro Novais, Orlando Silva e agora, no fim da escala, Carlos Lupi e Mário Negromonte, deviam pelo menos considerar a perspectiva de que a fonte de divulgação contra todos eles é uma só: o Palácio do Planalto.

Claro. Pois todas as reportagens partem de investigações da Polícia Federal, inclusive com base em escutas telefônicas com autorização judicial. Ora, a Polícia Federal está diretamente subordinada ao Ministério da Justiça. E o titular da pasta, Eduardo Cardoso, à presidente Dilma Roussef. Assim se jornais e jornalistas tiveram acesso e informações captadas pela PF, como esta não as passou antes, ao Planalto? Não pode ser. Não teria a menor lógica. Representaria até uma insubordinação a chefe do Poder Executivo ela tomar conhecimento pelos jornais e revistas de crimes de corrupção por ministros que desempenham cargos de sua confiança direta.

Se tal processo fosse lógico, ela passaria, aí sim, a desconfiar do Ministério da Justiça e da própria Polícia Federal. Não pode haver outra interpretação. Os atores da corrupção, apanhados em flagrante, deveriam logo se demitir para que a presidente Dilma não seja obrigada a fazê-lo.Mas esta é outra questão.

No entanto, como esperar o mínimo de ética pelos antiéticos? Se não fossem antiéticos, não seriam corruptos. A corrupção, como os fatos revelam a cores firmes, assumiu entre nós, um caráter alarmante e sobretudo ameaçador como um maremoto. Sufoca e destrói os valores sociais e corroi a própria economia brasileira.

Falta dinheiro para a saúde, educação, transporte, segurança pública, exatamente pela transferência dos recursos pilhados. Em vez de irem para a sociedade, em forma de serviços, vão para as contas nacionais e internacionais dos ladrões.
Pedro do Coutto/Tribuna da Imprensa

Mais um ministro que ‘dá bode’

Esse é mais um caso aterrador.

Transcende o hilário, o nonsense, e descamba para o escárnio e a certeza da impunidade.

É mais que certo que o dinheiro não volte aos cofres públicos.

Também é mais que certo que sua (dele) ex-celência não será punido, sendo responsabilizado civil, criminal e administrativamente.

Não vai dar em nada!
Esse “bode” é emblemático como referência ao chiqueiro onde patinam a moralidade e a ética dos “omi” públicos da Taba dos Tupiniquins.
O Editor


Caramba! Os ministros não tomam vergonha. Agora é o ministro Negromonte que se expõe ao ridículo na Festa do Bode.

Os governistas enchem a internet de críticas às revistas semanais Veja, IstoÉ e Época (só não atacam a Carta Capital, por motivos óbvios, diante de seu declarado apoio ao governo). Mas essas críticas às três maiores revistas de informação, em boa parte das vezes, não têm razão de ser. Os jornalistas apenas divulgam as irregularidades cometidas pelas autoridades.

Devem fazê-lo, têm o dever de fazê-lo. Aliás, esta é talvez a mais importante função da imprensa, seja lá quem estiver no governo, conforme nos ensina o mestre Helio Fernandes.

Pois bem, agora é a revista Época que estampa – e nos espanta – os malfeitos do ministro das Cidades, o baiano Mario Negromonte, do PP, no patrocínio da Festa do Bode. Eleito deputado federal pela quinta vez em 2010, Negromonte não mede esforços e até se expõe ao ridículo ao trabalhar com afinco para eleger o filho Mário como prefeito de Paulo Afonso, maior cidade de sua base eleitoral no norte da Bahia.

Além de ajudar a eleger a mulher, Ena Vilma, para a Prefeitura de Glória, Negromonte usa dinheiro público para se promover e fortalecer também a imagem de Mário Filho, que é deputado estadual. Tudo isso faz parte da estratégia de controle político da região pela família do ministro.

Como se sabe, as festas do bode fazem parte da tradição do Nordeste. Mas na realização de uma desses eventos, semana passada, em Paulo Afonso, município no norte da Bahia, os cartazes espalhados pelas ruas destacaram o nome e o cargo de Negromonte e do filho Mário, ao lado dos logotipos de sete órgãos públicos apresentados como patrocinadores, que o próprio ministro pressionou para que liberassem as verbas.

A repórter Isabel Clemente, da Época, procurou especialistas para ouvir opiniões sobre a exibição do nome de ministro e do deputado na propaganda da festa. “Por si só, o cartaz com o nome de uma autoridade associada a alguma realização fere o princípio constitucional da impessoalidade, segundo o qual nenhuma obra ou realização é fruto do esforço de uma pessoa, mas de um governo, uma prefeitura”, disse a procuradora da República Janice Ascari, de São Paulo.

O procurador da República Rogério Nascimento, que já atuou pelo Ministério Público Eleitoral, também tem preocupações relacionadas à exposição de nome de políticos em cartazes.

“Se adversários se sentirem prejudicados e a situação configurar abuso de poder econômico e político, independentemente de haver improbidade, pode ser um caso de propaganda antecipada para o qual a lei prevê multas”, destacou Nascimento.

Assim, Negromonte, que já estava cotado para deixar o cargo na próxima reforma ministerial, já pode ir fazendo as malas. Estava na cara que uma iniciativa dessas tinha mesmo de dar bode (desculpem, mas a piada é irresistível).

Carlos Newton/Tribuna da Imprensa