O mérito numa sociedade desigual e de privilégios

Reflexões – Prof. Antônio T. Praxedes – Editor do Blog Lobo Frontal

Um dos temas mais polêmicos na teoria política diz respeito à meritocracia. De acordo com essa teoria, a investidura no poder deve dar-se quase que exclusivamente em razão do mérito do candidato.

Porém, embora a meritocracia tenha sido um fator determinante no preenchimento de cargos públicos na Antiguidade, nas sociedades contemporâneas ela diz respeito diretamente ao sucesso na competição pela sobrevivência.

Antes de mais nada, convém ressaltar que os gregos – autores dessa perspectiva – pressupunham três critérios que integrariam a avaliação do mérito do cidadão num regime democrático: isagoria (a igualdade política entre os indivíduos do corpo civil), a isotimia (o livre acesso aos cargos públicos aos cidadãos) e a isonomia (a igualdade de todos perante a lei da pólis). Ainda, convém esclarecer que esse modelo helênico, puramente formal, tinha por alicerce uma sociedade fundamentalmente desigual e injusta: as mulheres e os filhos não eram cidadãos, ocupando, junto com o escravos, o patrimônio econômico do cidadão grego, ou seja, o locus social dessas pessoas era a puramente privado, sujeito às regras do justo e injusto de uma justiça privada ou não-pública, nos dizeres de Aristóteles (na obra “Política”).
Isso para não descrever certos aspectos dessa cidadania, que admitia a venda de pessoas na qualidade de “escravo”, como foi o caso de Platão, cidadão e filósofo ateniense que serviu nessa condição, num navio mercante, por vários anos. Com isso, pode-se afirmar que tal paradigma sócio-político de meritocracia era, inequivocamente, formal.

Dando prosseguimento a essa modesta investigação, pergunta-se: como essa estrutura foi absorvida pelas culturas ocidentais, e que marca (trauma) ela provoca nas formas de acesso ao poder (sócio-econômico)? Igualmente: quais seriam as consequências práticas desse tipo de perspectiva diante da obscena desigualdade entre os sujeitos que compõe um modelo jurídico-formal de Estado Democrático de Direito? E, finalmente: que perspectiva se abre diante dos contornos de uma democracia plural, inclusiva e participativa?[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Em que pese os milênios de transformações sociais e culturais pelas quais passaram as civilizações ocidentais, que se abeberaram na filosofia grega para contemplar o modelo de Estado de Direito, a organização dessa Modernidade optou por uma abordagem puramente formal de configuração das estruturas de poder. Essa perspectiva está alinhavada numa transição paradigmática que faz parte das transformações registradas pela História (principalmente da Idade Média coletivista, para a Modernidade individualista), que culminou na prevalência dos interesses privados do homo oeconomicus, com uma mudança focal sobre a vida social, isto é, uma mudança de viés na concepção da organização da vida individual e coletiva: o cerne das preocupações do indivíduo passou da esfera pública para a privada.

A promessa de um “futuro melhor” por meio do progresso foi o estopim e armadilha na qual se jogaram os países europeus, alimentados por ideologias e modelos sociais os mais variados – mas todos comprometidos com alguma tentativa ou proposta de equilíbrio entre os interesses individuais e nacionais: houve uma transmutação de conceitos: da coletividade para a nacionalidade, como bem ilustra os adeptos da Escola Histórica e das doutrinas jurídico-políticas que se utilizaram da filosofia hegeliana.

Entretanto, ao contrário do que indicava o fatalismo da abordagem histórica, os progressos tecnológicos de que se desfruta atualmente (revolução aeroespacial, telemática e informática, biotecnologia, energia termonuclear etc.) também modificaram aquela configuração sócio-política do Estado nacional: a globalização reduziu distâncias, eliminou fronteiras geográficas, tornando o mundo, paulatinamente, numa aldeia global, sem, contudo, resolver os problemas do passado. A miséria e os diversos tipos de desigualdade e exclusão social, ao contrário do esperado, se intensificaram.

Isso porque essa globalização sedimentou-se sobre ruínas de uma disputa da Modernidade (entre os argumentos da economia de mercado e da economia planificada), que resultou com a vitória da perspectiva formal liberal, que assumiu os contornos de uma neoliberalismo: neo (novo) porque adequado a um mundo de plena liberdade conferida ao mercado financeiro e às grandes indústrias transnacionais; neo porque abandonou o indivíduo à própria sorte, por concentrar-se e validar apenas o direito à propriedade, e relegar ao plano meramente abstrato os direitos da personalidade (ao desenvolvimento das capacidades plenas do indivíduo).

Neste momento, torna-se necessário avaliar o argumento que discute a contemporaneidade – também designada de “pós-modernidade”, que nada mais indica além da prevalência de um modo de vida pautado nas “sociedades mais desenvolvidas” (Lyotard) do complexo político de cariz eurocêntrico.

O atual modelo de organização social tem na esfera econômico-financeira o seu alicerce primordial. Para ter “sucesso”, os indivíduos devem zelar pela otimização dos recursos sociais e, dentre eles, tempo e dinheiro compõe a “chave para o sucesso” na organização dessa vida social. Assim, garantir os interesses pessoais e individuais é uma máxima válida e inquestionável, se o cidadão almejar uma sobrevivência plena e abundante em bens materiais e segurança financeira, numa sociedade de consumo em massa.

Mas, em que pese todo o aparato das correntes do pensamento crítico, além da falta de oportunidade que continua a assolar as populações dos países da periferia da antiga divisão Norte-Sul globais, hoje, esse sistema global reproduz a miséria e os diversos tipos de desigualdade no centro desse sistema (Norte) – sendo a atual crise econômica europeia o melhor exemplo a ilustrar esse fato: inundados por imigrantes, sem perspetiva de empregabilidade (diante do fenômeno da deslocalização de empresas), com uma pirâmide social absolutamente invertida (envelhecimento populacional) e vivenciando políticas de austeridade, os europeus estão endividados, desempregados e desgovernados.

A competição global por acesso aos bens e aos recursos naturais, de um lado, só proporciona o referido progresso (prometido na Modernidade) àqueles dotados de privilégios que, porventura, consigam administrar e dispor de tempo e dinheiro (de que já dispõem) à formação que propicie o desenvolvimento de competências técnicas adequadas. De outro lado, os excluídos do processo não dispõem dessas ferramentas, tendo que ocupar a margem industrial excluída pelos processos tecnológicos, recebendo apenas uma remuneração que só garante a sua reprodução biológica e o sustento de suas necessidades elementares.

O que se constata é que houve um aumento (globalizado) do fosso que separa ricos e pobres.

Em que pese esse ser um cenário generalizado, ainda persistem algumas ilhas de resistência a esse panorama desalentador.

Sobreviveu, em alguns países, uma linha de proteção social aos desamparados e, associada a ela, uma linha argumentativa de um modelo não-formal (mas nem por isso menos jurídico-político) de correção daquelas distorções formais do (neo)liberalismo.

Seria uma linha por estabelecer um espaço limítrofe entre a humanidade e o mercado, entre o ser e o ter: as políticas públicas do Estado de Bem-estar Social e Democrático de Direito, sustentada por uma outra linha, também limítrofe, de reforma social, da social-democracia. Social-democracia essa que reconhece os direitos do indivíduo, consagrados pelo liberalismo político e jurídico, mas que também zela pelos direitos da sociedade; que dá a noção de que o indivíduo, antes de ter, é e está, e nessa condição de estar, convive. A união entre esse modelo estatal e o outro jurídico-político está vivo no texto constitucional de países como o Brasil, França, Itália, Alemanha e Portugal, dentre outros.

Porém, as avaliações sobre a efetividade e a sobrevivência dessas linhas são desoladoras, porque, embora elas existam, a leitura e interpretação que se procedem sobre elas ainda é majoritariamente formal. Significa dizer que, embora existam modelos jurídicos que assegurem a transposição dessas dificuldades e mazelas sociais, é necessário uma abordagem circunstancial e não-formal dessas garantias.

Tome-se o caso de um problema global: corrupção. A abordagem formal da corrupção submete-a à formulações procedimentais e processuais que são incompatíveis ferramentas de solução do problema. Por que? Porque a impunidade relativa a ela é formal: não se trata de um problema sistêmico, mas extra-sistêmico; não é jurídico, é político, e está ligado à omissão (relativamente aos mecanismos da democracia participativa, de controle, fiscalização e cobrança dos atos de governo). Outro problema: formação educacional.

Também esse seria um problema a exigir uma solução não formal: de que adianta proporcionar o ingresso de discentes de classes sociais desprovidas às universidades (públicas e privadas), se não há livros, alimentação e transportes públicos e gratuitos aos estudantes? Em outras palavras: você consegue estudar com fome? Portanto, as questões relativas ao mérito devem ser avaliadas diante da seguinte problemática: quem tem mais mérito? Aquele que goza de benefícios, facilidades, apoio e suporte financeiros, ou aquele que, mesmo diante de privações, falta de oportunidades e carestia consegue seu lugar ao Sol? Como se determina o mérito num modelo competitivo, desigual, formal e excludente?

STF: até 2013 Dilma Rousseff indicará 5 ministros

Até meados de 2013, a presidente Dilma Rousseff, com pouco mais da metade do mandato presidencial, terá indicado quase a metade dos integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Com as aposentadorias de Cesar Peluso, Ayres Britto e a de Celso de Mello, prevista para março do ano que vem, a presidente completará 5 indicações para o STF.

Isso tem que mudar. O acesso deveria ser por mérito, tempo de serviço, concursos e prova de títulos.

Da maneira como se dá a ascensão, exige que um magistrado logo que nomeado para, seja qual for, a mais insignificante comarca, e caso almeje voos maiores, comece de logo, nesses confins, a garimpar apoios e apadrinhamentos políticos.


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Mensalão, Luis Fux, Zé Diceu e a meritocracia

Meritocracia e magistratura. Já escrevi muito sobre isso. 

O acesso deveria ser por mérito, tempo de serviço, concursos e prova de títulos. Da maneira como se dá a ascensão, exige que um magistrado logo que nomeado para, seja qual for, a mais insignificante comarca, e caso almeje voos maiores, comece de logo, nesses confins, a garimpar apoios e apadrinhamentos políticos. O ministro peregrinou apoio, da Fiesp ao MST, de Sérgio Cabral a Zé Dirceu e João Paulo Cunha! 

José Mesquita – Editor
Ps. Mas o ministro condenou Zé Dirceu e João Paulo Cunha de forma justa e implacável. Não contemporizou. 


Ao empossar-se no cargo de presidente do STF, Joaquim Barbosa criticou os critérios de ascensão funcional dos juízes.

“Nada justifica, a meu sentir, a pouco edificante busca de apoio para uma singela promoção de juiz de primeiro ou segundo grau”, discursou o relator do mensalão.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Barbosa acrescentou: “O juiz, bem como os membros de outras carreiras importantes do Estado, deve saber de antemão quais são suas reais perspectivas de progressão. E não buscar obtê-las por meio da aproximação ao poder político dominante no momento.”

Para o novo presidente do Supremo, é preciso alterar o modelo, de modo afastar o juiz, “desde o ingresso na carreira, das múltiplas e nocivas influências que podem, paulatinamente, minar-lhe a independência”. Barbosa talvez não tenha se dado conta. Mas, aplicadas ao caso do colega Luiz Fux, suas palavras ganharam a forma de uma carapuça feita sob medida.

Em notícia veiculada neste domingo (2), a repórter Mônica Bergamo conta que, em campanha para obter a promoção que o levou do STJ para o STF, Fux achegou-se a políticos com influência junto ao “poder político dominante.”

Entre eles o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu. Um personagem que ele teria que julgar no processo do mensalão.

Fux sonhava com a cadeira do STF desde 1983, quando passou no concurso que o fez juiz em Niterói (RJ). Foi à “luta” em 2004. Sempre que abria uma vaga no Supremo, apresentava-se como candidato. “Bati na trave três vezes”, ele diz. Em 2010, último ano de Lula no Planalto, Fux decidiu empreender uma campanha para convencer o então presidente de que merecia ser alçado ao Supremo.

É o próprio Fux que admite que grudou em Delfim Neto (conselheiro informal de Lula para temas econômicos), pediu carta de apoio ao líder do MST João Pedro Stedile, rogou pelo suporte do grão-petista Antônio Palocci e solicitou ao governador do Rio, Sérgio Cabral, que intercedesse em seu favor. Reuniu-se também com empresários.

“Eu fui a várias pessoas de São Paulo, à Fiesp”, relatou Fux. “Numa dessas idas, alguém me levou ao Zé Dirceu porque ele era influente no governo Lula.” Quem levou? O ministro diz que não se recorda. Ele diz que entregou um currículo ao réu-mor do processo que teria que julgar.

Nessa época, Dirceu frequentava as manchetes como ‘mensaleiro’ dia sim, outro também. Mas a ficha de Fux não caiu. “Eu confesso a você que naquele momento eu não me lembrei, porque a pessoa, até ser julgada, ela é inocente.” Na conta de Fux, houve uma única reunião com Dirceu. Coisa de 15 minutos. Na conta do réu, houve mais de uma conversa.

Procurada, a equipe do agora condenado anotou num e-mail: “A assessoria de José Dirceu confirma que o ex-ministro participou de encontros com Luiz Fux, sempre a pedido do então ministro do STJ.”

Ao relatar a conversa com Dirceu, Fux disse: “Eu levei o meu currículo e pedi que ele levasse ao Lula. Só isso.” A repórter quis saber se o réu falou de mensalão.

E o ministro: “Ele falou da vida dele, que tava se sentindo… em outros processos a que respondia…” Mônica Bergamo perscrutou: perseguido? Fux emendou: “É, um perseguido e tal. E eu disse: ‘Não, se isso o que você está dizendo [que é inocente] tem procedência, você vai um dia se erguer’. Uma palavra, assim, de conforto, que você fala para uma pessoa que está se lamentando.”

O vaivém de Fux ateou em Dirceu e seus companheiros de infortúnio a esperança de que, guindado ao STF, Fux votaria pela absolvição. O ministro diz que não ofereceu nenhuma garantia que autorizasse essa expectativa.

Lula deixou a Presidência sem formalizar a pretendida indicação. Transferiu a incumbência à sucessora. Depois da posse de Dilma Rousseff, Fux foi ao ministro petista José Eduardo Cardozo (Justiça). A exemplo do que fizera com Dirceu, entregou-lhe o currículo.

Cardozo perguntou sobre o mensalão? “Não. Ele perguntou como era o meu perfil”, relata Fux. “Havia causas importantes no Supremo para desempatar: a Ficha Limpa, [a extradição de Cesare] Battisti. Aí eu disse: ‘Bom, eu sou juiz de carreira, eu mato no peito’. Em casos difíceis, juiz de carreira mata no peito porque tem experiência.”

Mexe daqui, conversa dali o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), outro réu graúdo do processo do mensalão, pôs-se a articular o apoio da bancada do PT a Fux. Chegou mesmo a promover uma reunião com o futuro ministro do STF em sua casa.

Um dos participantes do encontro, o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), declarou à repórter: “Eu confirmo. João Paulo me ligou dizendo que era um café da manhã muito importante e queria que eu fosse. Eu não te procurei para contar. Mas você tem a informação, não vou te tirar da notícia.”

Falou-se de mensalão? “Não vou confirmar nem vou negar as informações que você tem”, esquivou-se Vaccarezza. “Mas eu participei de uma reunião que me parecia fechada. Tinha um empresário, tinha o João Paulo. Sobre os assuntos discutidos, eu preferia não falar.” Fux também confirma a reunião. Informa, porém, que a conversa ocorreu quando o nome dele já havia sido escolhido por Dilma.

A notícia sobre a decisão da presidente chegou a Fux pelo telefone. O ministro da Justiça pediu que fosse ao gabinete dele. Fux rememora: “Aí eu, com aquela ansiedade, falei: ‘Bendita ligação!’.” Na sala de espera de Cardozo, Fux rezou por meia hora. “Quando ele abriu a porta, falou: ‘Você não vai me dar um abraço? Você é o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal’. Foi aí que eu chorei. Extravasei.”

No julgamento do mensalão, Fux foi implacável com os réus. Acompanhou o relator Joaquim Barbosa em 99,9% dos seus votos. O comportamento deixou mensaleiros e advogados embatucados. Os condenados passaram a nutrir por ele uma raiva que contagiou Dilma. O veneno foi borrifado em notas de jornal.

Na festa que se seguiu à posse de Barbosa, aquela em que Fux tocou guitarra e entoou Tim Maia, o ministro abordou o ex-deputado petista Sigmaringa Seixas. Em timbre de cobrança, queixou-se a Sigmaringa, amigo de Lula, de Dirceu e Cia., do fato de estarem “espalhando” a versão segundo a qual comprometera-se em absolver a turma do mensalão.

Presente à festa, a repórter Mônica Bergamo presenciou a cena. Puxando-a para um canto, Fux disse: “Querem me sacanear. O pau vai cantar!”. Instado a comentar o caso em termos formais, o ministro absteve-se de responder. Dias depois, procurou a repórter e se dispôs a falar.

Considerando-se tudo o que disse Fux, as palavras injetadas por Joaquim Barbosa em seu discurso de posse ganham especial relevo. Se é verdade que “nada justifica a pouco edificante busca de apoio para uma singela promoção de juiz de primeiro ou segundo grau”, também é certo que o procedimento torna-se ainda mais aviltante quando envolve a promoção de um magistrado à Suprema Corte.
blog Josias de Souza

Supersalários: um acinte à meritocracia

Procuradores municipais recebendo R$ 82 mil, agente policial da Câmara dos Deputados com salário inicial de 10 mil. Que país é esse?

O Brasil virou uma imensa Ilha da Fantasia.

As autoridades e os magistrados se comportam como se vivessem no melhor dos mundos e são absolutamente generosas na distribuição dos recursos do povo, colhidos através dos impostos, taxas e contribuições.

Em São Paulo, um acórdão da 9.ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça determinou que 26 procuradores da Prefeitura devem voltar a receber supersalários de até R$ 82 mil mensais.

Até o julgamento definitivo da ação, movida pela Associação dos Procuradores do Município, a Secretaria de Planejamento determinou o fim do corte do teto para os servidores e a restituição dos valores descontados desde abril de 2011, quando o salário máximo no funcionalismo municipal foi fixado por decreto em R$ 24.042,34, o valor pago hoje ao prefeito Gilberto Kassab (PSD).[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Seis funcionários da Câmara Municipal de São Paulo também ganharam na semana passada o direito de voltar a receber salários acima do teto, de até R$ 42 mil.

Uma pequena reportagem de Erich Decat, publicada pela Folha de S. Paulo, mostra a que ponto chegamos.

Revela que a Câmara acaba de aprovar um reajuste do salário inicial de 350 servidores de nível médio dos atuais R$ 6.697,66 para R$ 10.007,11. O reajuste, portanto, é de 49,4%.

O projeto beneficia técnicos administrativos, paramédicos e agentes da polícia legislativa que passaram nos concursos realizados nos últimos quatro anos.

A assessoria da Casa não soube informar o impacto da medida na folha salarial. O reajuste passa a valer a partir da publicação do resultado da votação do projeto.

A proposta foi votada de forma simbólica no plenário e nenhum parlamentar se posicionou contrário.

Na justificativa colocada na proposta, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS) alega que a medida serve para manter nos quadros da Casa servidores que buscam melhores rendimentos em outras instituições como Senado, TCU (Tribunal de Contas da União), e Judiciário e Executivo.

“É uma reivindicação antiga dos técnicos, de terem recompostos os seus salários. O projeto reorganiza a carreira. A categoria estava com salário completamente defasado em relação a outras categorias semelhantes da Esplanada dos Ministérios”, justificou candidamente Marco Maia após a votação.

Enquanto isso, os médicos e professores universitários continuam com seus salários achatados. Aposentados e pensionistas, nem se fala.

Que país é esse? Por que essa inversão de mérito? E ninguém diz nada, ninguém se interessa?
Carlos Newton/Tribuna da Imprensa

Educação; a grana é quem desempata!

Educação; A grana é quem desempata!

A Câmara aprovou ontem projeto do senador Marcelo Crivella (PRB) que estabelece, em caso de empate nos vestibulares para universidades federais, que a vaga será do candidato com renda familiar mais baixa.

Pela proposta do senado os estudantes que comprovarem renda familiar mensal inferior a dez salários mínimos terão prioridade sobre os concorrentes, caso a pontuação dos candidatos seja a mesma. Se mais de um candidato empatado comprovar a renda familiar dentro do valor estipulado pelo projeto, a matrícula será destinada ao mais pobre.

Atualmente, os critérios de desempate variam de acordo com cada instituição pública de ensino. Crivella explicou que o critério social para o desempate tem como objetivo dar a mesma oportunidade de um ensino de qualidade aos alunos com rendas diferentes.

“Pobres e ricos são desiguais num contexto social capitalista, mas ambos, por princípio isonômico, devem ter igual direito de acesso ao ensino superior, mas em condições desiguais, especialmente quando prestado pelo poder público”.

Sem a corrupção endêmica, patrocinada por suas ex-celências, haveria dinheiro para garantir vagas aos dois.


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Cursos de Jornalismo. Acabou a reserva de mercado

Toda reserva de mercado implica no fim da meritocracia. Vamos esperar que a próxima queda seja a do famigerado exame da OAB, que somente serve para enriquecer os advogados donos de cursinhos preparatórios. Saibam que 97% dos aprovados no exame da OAB são oriundos de cursinhos. Ou seja: as faculdades de direito não estão formando bacharéis capazes de passarem no exame, sem um “pit stop” em algum cursinho.

Essa mesma tinhosa mania de reserva de mercado impera também na corretagem de imóveis. Você aí, Tupiniquin, sabia que se você quiser vender a sua Oca, ou vá lá, tapera, para um seu irmão Tapuia, tem que haver a intermediação de um corretor de imóveis, devidamente credenciado por um tal de CRECI?
Pois tem!!!

Esse intrometido irá receber uma comissão sobre o valor da transação feita entre você e seu irmão.
Caso esteja achando que é gozação, saiba que já existe tramitando na Câmara Federal, projeto para a obrigatoriedade de diploma de curso superior para quem quiser excercer as profissões de cabeleireiro, modelo de passarela e, “tchan tchan tchan tchan”… m a n i c u r e!
Argh!

O editor

Liberdade! Abriram-se as portas da senzala ideológica

O mercado contratante é que deveria estar interessado em profissionais com formação específica nisso ou naquilo, não é mesmo? Alguém precisa fazer faculdade para ser um publicitário criativo? Ora… Mas uma faculdade de publicidade que realmente produzisse saber de ponta certamente atrairia os melhores candidatos e despertaria a atenção da agências: “Quem passa por tal curso sai realmente com formação de primeira linha”.

Entenderam? Em vez de se ter um cartório de faculdades de jornalismo, todas elas abraçadas a sua preguiça, teríamos um esforço pela busca da excelência. Isso deve valer para qualquer profissão cujo desempenho dependa principalmente do talento. “Você é a favor da desregulação também para advogados?” É claro que sim. Tenho sérias dúvidas se alguém sem formação específica conseguirá lidar com o cipoal da Justiça — tenho a impressão de que não. Mas a defesa puramente corporativa da reserva de mercado é uma tolice.

As coisas caminham para a pura e simples maluquice na área da regulamentação. Há proposta para regulamentar, calculem!, a profissão de “escritor”, de “poeta”, de “repentista”… Exceção feita às atividades que oferecem risco para terceiros ou para a coletividade, dêem-me um bom motivo para se exigir um diploma…

E, é certo, ele não é garantia absoluta de competência em nenhum caso. É só um indicador de que o candidato a piloto de um jato, por exemplo, passou por um treinamento específico.

No caso do jornalismo, não tenho dúvida de que se abre a possibilidade de cursos de especialização, na modalidade de uma pós-graduação, que podem conciliar saber e tecnologia de ponta. E as empresas vão buscar esses profissionais.

Liberdade!

E, espero, caminha para a obsolescência o que já era obsoleto: cursos de jornalismo pautados apenas pela discurseira ideológica, pela “desconstrução” (termo pomposo para “picaretagem intelectual”) dos meios de comunicação e pela pregação da “resistência” (???) à “mídia”. Sei do que falo porque conheço estudantes, filhos de amigos ou do círculo familiar ampliado, submetidos a essa estupidez. “Professores” se empenham não em formar jornalistas, mas em formar militantes. É como se um piloto fizesse um curso não para ser o melhor condutor de um jato, mas para se tornar sindicalista ou sabotador de aviões, entenderam?

Por que alguém precisa pagar por isso — numa faculdade pública (que sempre é paga) ou privada? Não precisa mais!

Assim, saibam os estudantes de jornalismo — e as faculdades não foram extintas, é bom lembrar: tão logo o professor comece com discurseira ideológica em vez de ensinar o que é um bom lead ou técnicas de apuração, denunciem a malandragem ou caiam fora. Vocês não são mais obrigados a passar por isso. Estão livres! As portas da senzala ideológica foram abertas.

blog Reinaldo Azevedo