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Incêndios Florestais:Incêndios na Amazônia derretem geleiras andinas

A fuligem das queimadas aumenta a radiação solar absorvida pelo gelo, favorecendo sua fusão

Um bombeiro combate o fogo em uma floresta em Nova Fronteira, na cidade de Novo Progresso, no estado do Pará, na Amazônia brasileira, em setembro.

Os incêndios que destroem a floresta e a savana amazônicas têm outro efeito bem longe dali: o derretimento das geleiras andinas. Essa é a conclusão de um estudo que mostra como a fuligem das queimadas viaja pelo ar até a cordilheira e, ao se depositar sobre o gelo, aumenta a radiação solar que retém ― acelerando sua fusão. O foco do trabalho foi um pequeno glaciar, mas seus resultados poderiam ser reproduzidos nas centenas de geleiras dos Andes, já castigadas pela mudança climática.

Em 23 de agosto de 2010, houve 148.946 incêndios na região amazônica. Aquele inverno foi o pior do século em relação aos fogos. Inclusive pior que o deste ano. A fumaça, repleta de fuligem e carvão preto da combustão, nublou os Andes, como mostra o arquivo de imagens de satélite da NASA. Dias depois da onda de fogos daquele ano, houve um pico de descarga de água procedente de várias geleiras. Agora, cientistas brasileiros e franceses ligaram os pontos.

Num trabalho publicado na revista Scientific Reports, os pesquisadores reuniram os dados existentes sobre os incêndios registrados neste século na região amazônica. A imensa maioria ocorreu entre agosto e outubro, quando acontece a transição entre as estações seca a chuvosa. Nesses meses, a escassez de precipitações impede que a água arraste a fuligem das queimadas. Estima-se que a queima da terra na América do Sul produza cerca de 800.000 toneladas de fuligem por ano.

Em 23 de agosto de 2010, houve quase 150.000 incêndios na região amazônica

Para complicar as coisas, nos meses da temporada de incêndios os ventos dominantes a região, até então do oeste, deslocam-se para leste/noroeste em direção aos cumes andinos. Para saber aonde a coluna de fumaça se dirige, os cientistas também analisaram mais de 2.000 trajetórias de fumaça nesses meses entre 2000 e 2016. Com os dados, criaram um modelo de deposição de partículas de carbono preto sobre o gelo que indicou como essas impurezas reduziam seu efeito albedo, ou seja, sua capacidade de refletir a radiação solar.

Os pesquisadores aplicaram o modelo a Zongo, uma pequena geleira da cordilheira Real, porção boliviana dos Andes. Ali, os glaciologistas franceses (alguns deles coautores do estudo) têm uma base da qual saíram os dados sobre as partículas de fuligem acumuladas no gelo e a descarga anual em forma de água perdida pela geleira. Para cada metro quadrado de gelo em 2010, indica a pesquisa, havia em sua camada mais superficial 1,17 miligrama de carbono preto. Em termos de concentração, em setembro daquele ano havia 73,4 partes de fuligem por um bilhão de partes de matéria (ppb). A cifra caiu para 29,2 ppb em outubro.

A fumaça dos incêndios do inverno de 2010 cobria boa parte da encosta oriental dos Andes.
A fumaça dos incêndios do inverno de 2010 cobria boa parte da encosta oriental dos Andes. MODIS/NASA

Os pesquisadores aplicaram o modelo a Zongo, uma pequena geleira da cordilheira Real, porção boliviana dos Andes. Ali, os glaciologistas franceses (alguns deles coautores do estudo) têm uma base da qual saíram os dados sobre as partículas de fuligem acumuladas no gelo e a descarga anual em forma de água perdida pela geleira. Para cada metro quadrado de gelo em 2010, indica a pesquisa, havia em sua camada mais superficial 1,17 miligrama de carbono preto. Em termos de concentração, em setembro daquele ano havia 73,4 partes de fuligem por um bilhão de partes de matéria (ppb). A cifra caiu para 29,2 ppb em outubro.

Com essas cifras, os autores do estudo estimam que, sozinha, a fuligem pode ter reduzido o efeito albedo em até 7,2%. Se a isso for somada a poluição procedente de outras fontes, incluindo pó e poluição urbana, a porcentagem de redução poderia chegar a 20,2%. A consequência é um maior degelo: “Estimamos que entre 3% e 4% da fusão da geleira se deva aos incêndios”, afirma por e-mail o pesquisador Newton de Magalhães Neto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Embora o resultado só possa ser aplicado a essa geleira, os autores acreditam que os incêndios também agravariam o degelo de outros glaciares andinos.

“A neve pode refletir até 85% da radiação solar, ao passo que o efeito albedo do gelo é menor: entre 30% e 40% da radiação”, recorda Francisco Navarro, físico da Universidade Politécnica de Madri e presidente da Sociedade Glaciológica Internacional. Entre os elementos que mais podem reduzir o albedo, estão a poluição oriunda das atividades humanas e o pó dos desertos. “Mas a redução máxima é gerada pelas erupções vulcânicas, em especial se o vulcão tem uma geleira associada. Então o albedo pode diminuir em até 50%”, afirma Navarro.

Navarro diz que a maioria das geleiras andinas, como Zongo, é pequena e de montanhas muito altas. “Portanto, o efeito será local [afetando as reservas de água para as comunidades localizadas ao pé da encosta], mas não global”, afirma. Além disso, como acontece com as erupções, os incêndios são mais ou menos pontuais. “Para as geleiras, o global é o aquecimento da atmosfera com a mudança climática, e o pontual são os vulcões e os incêndios”,

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A corrida contra o relógio para conter o aquecimento global

ONU alerta que países precisam multiplicar por cinco seus esforços se quiserem cumprir a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris

O glacial Lower Grindelwald, nos Alpes suíços, em 1865 e em 2019.
O glacial Lower Grindelwald, nos Alpes suíços, em 1865 e em 2019. DENIS BALIBOUSE (REUTERS)

Mas o principal desafio não é que as reduções dos países signatários do Acordo de Paris sejam multiplicadas por três ou cinco. O problema fundamental, como indica o relatório, é que os cortes devem começar a acontecer já em todo o planeta, ao contrário do que indicam as projeções das emissões de gases do efeito estufa. “Se não o fizermos, a meta do 1,5 estará fora de nosso alcance antes de 2030”, disse Inger Andersen, diretora-executiva do PNUMA, em comunicado.

De acordo com o relatório da ONU apresentado nesta terça-feira, a partir de 2020 serão necessárias reduções anuais de 7,6% para atingir a meta do 1,5 grau. A análise contém uma censura e uma advertência: atrasar (outra vez) os cortes tornará cada vez mais difícil cumprir a meta e vai implicar que os esforços anuais necessários sejam ainda maiores. “Não começar a reduzir as emissões em 2010” significou que agora são necessárias baixas mais acentuadas, explica a ONU.

Isso porque, durante esta década, as emissões, em vez de cair, cresceram a uma taxa de 1,5% ao ano. E em 2018 o aumento prosseguiu, segundo o relatório.

“Não podemos dilatar mais a ação climática em todos os níveis, tanto por parte dos Governos como das entidades supranacionais e outros atores econômicos e sociais”, disse a ministra espanhola para a Transição Ecológica, Teresa Ribera, ao comentar o informe. “O relatório do PNUMA nos diz que as emissões precisam atingir o teto em 2020 e começar a cair de modo acelerado a partir dessa data”, acrescentou ela em nota.

A ministra enfatizou que a cúpula do clima a ser realizada a partir de segunda-feira em Madri, conhecida como COP25, deve servir para que elevem a “ambição” de seus planos de corte de emissões em 2020.

Revisões em alta

Que os esforços não eram suficientes já se sabia quando foi assinado o Acordo de Paris, na capital francesa, em 2015. Por esse motivo foi estabelecido um mecanismo de revisão para cima dos planos de corte que cada país precisa apresentar ao aderir ao pacto climático.

A primeira revisão deve ser feita em 2020 para se aproximar das metas de 1,5 e 2 graus. Mas, por enquanto, apenas 70 países se comprometeram a fazer isso. A expectativa é que mais Estados o façam durante a COP25.

A ONU lembra em seu relatório que as países do G20 acumulam 78% de todas as emissões de gases do efeito estufa. “Mas apenas cinco membros do G20 se comprometeram a estabelecer uma meta de longo prazo de zero emissões”, relata o PNUMA. Os mais ambiciosos são os europeus: França, Alemanha e Itália (e também a Espanha) se comprometeram com esse objetivo de zero emissões até 2050.

“No curto prazo, os países desenvolvidos terão que reduzir suas emissões mais rapidamente do que os países em desenvolvimento, por razões de equidade”, explicou a ONU nesta terça-feira. Mas, no longo prazo, todos os países deverão contribuir de forma mais decisiva. Atualmente, a China é o principal emissor de gases do efeito estufa e não faz parte da categoria de países desenvolvidos nas negociações climáticas. E, por ora, apenas se compromete a reduzir a expansão de suas emissões a partir de 2030.
ElPais

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Governo tem que provar que pode lidar com o óleo nas praias do nordeste

Ambiente,Oceanos,Crimes Ambientais,Brasil,Petróleo,Meio Ambiente,Ecologia,Fauna,Blog do Mesquita 01Governo tem que provar na Justiça que é capaz de lidar com desastre ambiental no nordeste.

Manchas de óleo nas praias da capital sergipana, no início de outubro. Foto: Adema/SE.

O governo Federal está, desde o final da última semana, em meio a um embate judicial para provar que é capaz de conter e lidar com o vazamento de óleo que já polui cerca de 2 mil km da costa do nordeste brasileiro. No centro da questão está a implementação do Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional (PNC), que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) garante estar em plena operação. O entendimento é contrário ao de especialistas no assunto.

Na última sexta-feira (18), o Ministério Público Federal nos nove estados do Nordeste havia ajuizado uma Ação Civil Pública conjunta para que a Justiça Federal obrigasse a União a acionar, em 24 horas, o PNC, sob pena de multa de R$ 1 milhão/dia, em caso de descumprimento da determinação. No domingo (20), a juíza federal Telma Maria dos Santos Machado julgou a ação. Em seu entendimento, o Governo Federal já colocou o Plano em andamento. O MPF em Sergipe, que encabeça este processo, estuda recorrer da determinação. Enquanto isso, outras Ações Civis Públicas estão em andamento (leia mais abaixo), solicitando medidas pontuais do governo no gerenciamento da crise.

Plano Nacional de Contingência

O Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Águas sob Jurisdição Nacional (PNC) foi instituído pelo Decreto nº 8.157/2013. Ele foi criado após o acidente em um poço de petróleo da empresa americana Chevron na Bacia de Campos, em 2011, quando 3.700 barris de óleo foram derramados no mar.

Visando evitar que tragédias como a ocorrida em 2011 voltassem a se repetir, o documento que regulamenta o PNC fixou responsabilidades, estabeleceu estrutura organizacional e definiu diretrizes, procedimentos e ações a serem tomadas em casos de incidentes de poluição por óleo em águas brasileiras, de modo a organizar a atuação coordenada de órgãos da administração pública e entidades públicas e privadas, para ampliar a capacidade de resposta e minimizar danos ambientais e para a saúde pública em casos como o que o Nordeste vivencia atualmente. Isto é, ele define quem deve fazer o que, em casos de desastres ambientais por derramamento de óleo.

Petróleo cru polui a praia do Forte, na Bahia. Foto: Instituto Bioma/Fotos Públicas.

O documento é minucioso. Ele contém normas e procedimentos a serem tomados, inclusive com detalhamento de quais as ferramentas devem ser utilizadas em caso de acidentes, como é o caso das Cartas de Sensibilidade Ambiental ao Óleo, chamadas “cartas SAO” e o Mapeamento de Área para Resposta Emergencial no Mar (Marem).

Mesmo diante do ineditismo da tragédia que acomete o Nordeste atualmente, por sua dimensão e características, e apesar do entendimento da juíza federal, tanto MPF quanto especialistas no assunto entendem que o governo tem falhado no enfrentamento da crise e na aplicação do Plano.

“A nosso juízo não houve até a presente data tal colocação [do PNC em ação]. Ou colocaram em prática um Plano Alternativo (apenas de conhecimento deles). Basta assistir às medidas ‘incrementadoras’ que vem sendo inseridas a conta-gotas, a cada dia, pelos órgãos do governo, na tentativa paliativa para não gastar muitos recursos financeiros, esperando que as manchas órfãs (até agora) ‘desistam de aparecer’ nas praias do Nordeste, ou em qualquer outro endereço”, diz a oceanógrafa Yara Schaeffer Novelli, professora sênior do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (USP) e sócia-fundadora do Instituto Bioma Brasil.

Governo “omisso, inerte, ineficiente, ineficaz”

Segundo o Ministério Público Federal, desde os primeiros anúncios do acidente, o Governo Federal tem se eximido de tomar ações concretas para a efetivação do PNC, “limitando-se a fazer limpeza de praias, a passos lentos, e prosseguindo em sua omissão de não adotar medidas protetivas às áreas sensíveis, mesmo já tendo sido impactadas, como se o Brasil não estivesse preparado para lidar com situações dessa gravidade”, diz o texto da Ação Civil Pública.

De fato, na prática, o PNC só foi formalizado pelo ministro do Meio Ambiente no dia 11 de outubro, 41 dias depois de terem surgido as primeiras manchas de óleo no litoral. Na data, o ministro Ricardo Salles enviou um ofício circular à Casa Civil designando a Marinha do Brasil como “coordenadora operacional” das ações (Veja abaixo). Por lei, o Ministério do Meio Ambiente é o responsável por acionar o plano.

Ofício circular. Reprodução.

Um dos motivos apontados para esta demora foi a dissolução, em abril de 2019, de dois dos conselhos que integram a estrutura organizacional do PNC: o Comitê Executivo e o Comitê de Suporte, após publicação de decreto presidencial que extinguiu órgãos colegiados no país. Além disso, especialistas apontam que a demora é mais uma evidência de que, na realidade, o próprio governo desconhecia que havia um plano de contingência para lidar com esse tipo específico de situação.

Soma-se a esta situação o fato de que o departamento responsável por definir estratégias para emergências ambientais do Ministério do Meio Ambiente, o Departamento de Qualidade Ambiental e Gestão de Resíduos, subordinado à Secretaria de Qualidade Ambiental, ficou sem chefe por seis meses este ano. O cargo só foi ocupado 35 dias após o início da crise nas praias do Nordeste, quando as manchas já atingiam 140 localidades. O novo diretor foi nomeado no dia 4 de outubro.

“O ministro [Ricardo Salles] indicou, de forma explícita, que havia outras coisas mais importantes [em sua lista de prioridades]. Após o início dos incidentes, a primeira agenda relacionada ao tema foi 39 dias após os primeiros registros. Nesses 39 dias, o ministro ainda teve uma viagem de duas semanas para fora do país. No meu entendimento, se temos a maior catástrofe marinha que se tem registro, eu não consigo imaginar outra coisa mais importante do que estar aqui coordenando os trabalhos e dando transparência, comunicando, de forma clara e constante, o que está sendo feito”, disse Alexander Turra, biólogo e professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP).

À imprensa, Salles defendeu que o Plano de Nacional de Contingência foi acionado no início de setembro e que o ofício enviado à marinha foi apenas uma formalização dos procedimentos. Em entrevista à Globonews na noite desta terça-feira (22), o ministro Ricardo Salles voltou a defender as ações do governo frente ao desastre.

Falta de transparência

Ministro do Meio Ambiente visitou o nordeste no começo de outubro, 38 dias após as primeiras manchas de óleo aparecerem nas praias da Paraíba, o primeiro estado atingido. Foto: Reprodução/Twitter-Ricardo Salles.

Enquanto Ricardo Salles se desdobra para defender as ações do governo em rede nacional, centenas de voluntários colocam sua saúde em risco para tentar conter a dispersão das manchas de óleo.

Segundo Alexander Turra, quanto mais o tempo passa, mais difícil fica de se fazer a contenção, ainda mais nos moldes em que os trabalhos estão sendo executados, sem o mínimo de transparência nas ações. “Há uma demanda para se quebrar o sigilo. O que está faltando? Transparência, agregar outras expertises que possam eventualmente contribuir para a questão”, disse.

Esta falta de transparência é sentida até mesmo pelos funcionários do próprio Ministério do Meio Ambiente, que sentem falta de orientação e posicionamento mais claro da pasta.

“Basicamente fomos chamados para ir para a praia tocar voluntário. Há uma extrema falta de transparência, não há informação centralizada, não há elaboração de relatórios de situação. Todas as boas práticas de atendimento a emergência não estão sendo seguidas, é uma grande obscuridade. Mesmo a turma nossa que esteve na praia falou que está todo mundo batendo cabeça, a gente tá ali cuidando do varejo, não vem nenhuma informação estratégica sobre a investigação, sobre origem, sobre nada”, disse um funcionário do Ibama, que preferiu não ser identificado.

Outras ações

Além da Ação Civil Pública conjunta do Ministério Público Federal dos nove estados do Nordeste, outros processos correm separadamente nos diferentes estados impactados pelas manchas. Neste final de semana, decisões liminares da Justiça Federal em Alagoas e Pernambuco determinaram que o governo adote imediatamente providências para conter e recolher o óleo que atinge as praias do litoral destes Estados.

Em Pernambuco, a determinação é para que o governo implante barreiras de proteção dos ecossistemas mais sensíveis de sua costa, levando em conta as Cartas SAO do litoral pernambucano e o Mapeamento Ambiental para Resposta à Emergência no Mar (Marem), entre outras ações.

Foto: Instituto do Meio Ambiente/AL.

Em Alagoas, a Justiça ordenou a implantação de barreiras de proteção, com adequado monitoramento, nos manguezais, nas principais áreas de desova das tartarugas marinhas e áreas de proteção do peixe-boi do Estado, além de ampliação do nível de atendimento, resgate e reabilitação da fauna impactada. Nesta ação, a justiça federal também determinou que o governo aprimore as ações de monitoramento e controle das manchas de óleo na costa alagoana, entre outras medidas.

Além de Pernambuco e Alagoas, os Ministérios Públicos Federal e do Estado da Bahia também ingressaram na última semana com ação civil pública contra a União e Ibama solicitando a adoção de medidas de contenção, recolhimento e destinação do material poluente, com foco na proteção de áreas sensíveis do Estado, principalmente manguezais e estuários. Até o fechamento da matéria, a ação ainda não havia sido julgada.

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Dobram os focos de queimadas em terras indígenas da Amazônia

Números são os maiores desde 2011. Parque do Xingu registrou o total mais alto de sua história. Segundo Ipam, aumento se deve à ação de invasores em combinação com período de secas intensas.    

Inpe revela que total de queimadas em áreas indígenas nos primeiros 9 meses de 2019 é o dobro do mesmo período de 2018Inpe revela que total de queimadas em áreas indígenas nos primeiros 9 meses de 2019 é o dobro do mesmo período de 2018

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados nesta quinta-feira (10/10) revelam que o número de focos de queimadas em áreas de demarcação indígena nos primeiros nove meses de 2019 é o dobro do mesmo período ano anterior.

Entre 1º de janeiro e 30 de setembro, os satélites do Inpe registraram 5.242 focos de incêndio em terras indígenas, contra 2.544 nos primeiros 9 meses de 2018. Os dados de 2019 são os maiores desde o ano de  2011, quando foram contabilizados 2.680 pontos, segundo informações do Inpe publicadas pelo portal de notícias G1.

Nos últimos anos o maior número de focos de queimadas registrado nesse período foi em 2010, com 7.451 pontos de queimadas em áreas indígenas. O Programa Queimadas do Inpe avalia a situação das terras indígenas levando em  conta os focos dentro e fora do seu território.

Segundo o Inpe, o território indígena Karipuna em Rondônia, de 153 mil hectares, é o mais ameaçado levando-se em conta número de focos dentro dos limites da área demarcada. Na última década, a comunidade aparece no tipo dessa relação em sete anos.

A incidência de focos de incêndio é consequência do fato de o território estar cercado de fazendas. Os fazendeiros da região desmatam para abrir espaço para o gado e depois queimam a mata. O Ministério Público federal considera os Kapurinas, com apenas 20 pessoas na comunidade, como ameaçados de genocídio em razão das ameaças de grileiros e madeireiros que atuam no território.

O Parque do Xingu, segundo o Inpe, registrou o maior número de focos de queimadas já observado em seu território no Mato Grosso, que abriga 16 comunidades indígenas em de 2,642 milhões de hectares.

Com 495 focos de incêndio nos primeiros 9 meses do ano, o Parque do Xingu lidera a relação das terras indígenas mais atingidas em 2019, seguido da reserva Raposa do Sol, em Roraima (337), Apyterewa, no Pará (330), Yanomani, no Amazonas (305), e Urubu Branco, no Mato Grosso.

As comunidades que aparecem na lista dos 30 povos indígenas mais afetados pelas queimadas estão concentradas nos estados do Mato Grosso, Pará, Amazonas e Rondônia.

Segundo Anne Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o aumento das queimadas nessas regiões resulta da ação de invasores em combinação com os períodos de secas intensas na região. Há milhares de anos os indígenas realizam a queima das roças em seus territórios, o que não justificaria o maior número de queimadas, observou Alencar, citada pelo G1.

Ela explica que há cinco terras indígenas que sofrem queimadas ininterruptas há 15 anos. São elas, o Parque do Xingu, Parque do Araguaia, Porquinhos dos Kanela Apãmjera, Pimentel Barbosa e Parabubure.

RC/ots

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Iceberg de 315 bilhões de toneladas se desprende da Antártida

Sistema de satélite Sentinel-1 da União Europeia capturou essas imagens para fazer a comparação antes e depois

A plataforma de gelo Amery, localizada na na Antártida, acaba de produzir seu maior iceberg em mais de 50 anos. O bloco tem uma área de 1.636 km² — um pouco maior que a cidade de São Paulo — e foi batizado de D28.

Assim que começa a se deslocar, um iceberg desse tamanho passa a ser monitorado e rastreado, pois no futuro pode se tornar um risco para o transporte marítimo. A Amery não produzia um iceberg tão grande desde a década de 1960.

Amery é a terceira maior plataforma de gelo da Antártida e um importante canal de escoamento para o leste do continente.

A plataforma é a extensão flutuante de várias geleiras que fluem na direção do mar. Perder icebergs para o oceano é a maneira como essas correntes de gelo mantêm o equilíbrio diante dos acúmulos de mais neve.

Mas os cientistas já previam esse acontecimento. O interessante é que boa parte da atenção sobre a área foi focada no leste do trecho que se separou.

Imagem mostra Dente SoltoDireito de imagem NASA
‘Dente mole’ retratado no início dos anos 2000; D28 é vista se formando à esquerda

‘Dente’ vizinho

Este é um segmento da Amery que ficou carinhosamente conhecido como Dente Mole, devido à sua semelhança em imagens de satélite com a dentição de uma criança. Ambas as áreas de gelo tinham o mesmo sistema de fendas.

Mas, embora pendente, o Dente Mole ainda continua preso. O D28 é que foi “extraído”.

“É um molar quando comparado a um dente de leite”, disse à BBC a professora Helen Fricker, da Scripps Institution of Oceanography.

Fricker havia previsto em 2002 que o Dente Mole se descolaria em algum momento entre 2010 e 2015.

“Estou empolgada em ver esse evento após todos esses anos. Sabíamos que isso aconteceria eventualmente, mas, para ficarmos mais espertos, não aconteceu exatamente quando esperávamos”, disse ela.

A pesquisadora do Scripps enfatizou que não havia ligação entre este evento e as mudanças climáticas.

Dados de satélite capturados desde a década de 1990 mostraram que a Amery está em equilíbrio com o ambiente, apesar de sofrer forte derretimento da superfície durante o verão.

Superfície da AmeryDireito de imagem RICHARD COLEMAN/UTAS
Amery, 3ª maior plataforma de gelo da Antártida, não produzia um iceberg tão grande como esse desde a década de 1960

“Embora haja muito com o que se preocupar na Antártida, ainda não há motivo de alarde em relação a essa plataforma de gelo em particular”, acrescentou a professora Fricker.

Entretanto, a Divisão Australiana da Antártida vai observar a Amery de perto para ver como ela reage. Os cientistas da divisão têm instrumentos na região.

É possível que a perda de um iceberg tão grande mude o equilíbrio na plataforma de gelo. Isso pode influenciar o comportamento das rachaduras e até a estabilidade do Dente Mole.

Calcula-se que o D28 tenha cerca de 210 metros de espessura e cerca de 315 bilhões de toneladas de gelo.

O nome vem de um sistema de classificação administrado pelo Centro Nacional de Neve e Gelo dos Estados Unidos, que divide a Antártida em quadrantes.

O quadrante D cobre as longitudes de 90 graus Leste a zero grau, o Meridiano de Greenwich. O tamanho do D28 é ofuscado pelo poderoso iceberg A68, que rompeu com a plataforma de gelo Larsen C em 2017. Atualmente, ele cobre uma área três vezes maior.

As correntes e ventos costeiros levarão o D28 para o oeste. É provável que demore vários anos para que se desmanche e derreta completamente.
BBC

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Fundos que controlam 16 trilhões de dólares cobram pela crise na Amazônia

Fundos financeiros de 30 países que movimentam 16 trilhões de dólares exigem que Brasil adote medidas eficazes para proteger a Amazônia em meio à recente crise ambiental.Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 03

A Amazônia brasileira perdeu em agosto 1.698 quilômetros quadrados de sua cobertura vegetal por conta das queimadas.
Foto FERNANDO BIZERRA JR

Brasil só julgou 14 dos 300 assassinatos de ambientalistas da última década

Sob pressão, Câmara reinicia debate sobre lei que flexibiliza licenciamento ambiental

Boicote por crise dos incêndios na Amazônia chega ao mercado financeiro e acende alerta.

A crise ambiental provocada pelo aumento dos incêndios na Amazônia brasileira se refletiu com força no mercado financeiro. Nesta quarta-feira, um total de 230 fundos de investimento internacionais que juntos administram 16 trilhões de dólares (cerca de 65 trilhões de reais) –valor equivalente a cerca de nove vezes o PIB do país em 2018– publicaram um manifesto, colocando mais pressão para que o Governo brasileiro apresente medidas efetivas para proteger a floresta amazônica e deter o desmatamento. O manifesto foi divulgado no mesmo dia em que a Organização das Nações Unidas (ONU) vetou o discurso do presidente Jair Bolsonaro ou de um representante brasileiro na cúpula do clima da próxima semana em Nova York. A justificativa é que o Brasil não apresentou um plano concreto e inspirador de aumento do compromisso de enfrentar a mudança climática.

Em um contexto de aumento da degradação e de debilidade na fiscalização ambiental no Brasil, empresas e fundos de investimento manifestaram preocupação com o impacto financeiro que o desmatamento na Amazônia pode ter nas empresas nas quais possuem participações, o que poderia aumentar os riscos de reputação, operacionais e regulatórios.

Os 230 fundos de investimento que colocaram mais pressão no Governo Federal nesta quarta-feira pedem às empresas que “redobrem seus esforços e demonstrem um claro compromisso de eliminar o desmatamento em suas operações e cadeias de abastecimento”. Trata-se de um grupo grande que investe um valor em torno de nove vezes o PIB brasileiro do ano passado. Nesse sentido, seu manifesto pode ter uma força importante para alertar as empresas que são coniventes com o desmatamento.

A responsabilidade ambiental, social e de governança (conhecida sob a sigla em inglês ESG) é um critério crescente nas carteiras de fundos de investimento em todo o mundo, como reflexo dos grupos de pressão na sociedade organizados em torno da luta contra a mudança climática. Na semana passada, grupos liderados pela ESG disseram que a onda de incêndios no Brasil entrou no radar.

O Brasil registrou entre janeiro e a terceira semana de agosto um total de 71.497 focos de incêndio, o maior número do mesmo período nos últimos sete anos, e pouco mais da metade ocorreu na maior floresta tropical do mundo. “Considerando o aumento das taxas de desmatamento e os recentes incêndios na Amazônia, estamos preocupados que as empresas expostas ao possível desmatamento em suas operações e cadeias de abastecimento brasileiras tenham cada vez mais dificuldades para ter acesso aos mercados internacionais”, diz a nota conjunta dos 230 fundos de investimento.

Eles se juntam a mais empresas e outros fundos de investimento que já tinham reagido nas últimas semanas contra a política ambiental do Governo Federal. O presidente minimizou a mudança climática e o desmatamento ilegal, assim como rejeitou as críticas de países como França e Alemanha. Sem um plano ambicioso para enfrentar a mudança climática, o presidente nem sequer poderá discursar na cúpula da ONU na próxima semana. A Organização havia solicitado aos países que apresentassem um plano com seus compromissos climáticos e selecionou os 63 que tinham os discursos mais inspiradores. O Brasil ficou fora dessa lista, assim como os Estados Unidos e outros países.

A crise ambiental brasileira se tornou um golpe na imagem internacional do país. Há pouco menos de duas semanas, a gigante da moda H&M anunciou a suspensão, com efeito imediato, da compra de couro brasileiro. Alegou “a conexão dos graves incêndios da Amazônia com a pecuária”. A decisão, segundo a empresa, ficará em vigor “até que existam sistemas de controle confiáveis de que o couro não contribui para os danos ambientais na Amazônia”.

O Brasil sofre uma campanha de boicote aos seus produtos, promovida por empresas internacionais que têm uma clientela cada vez mais preocupada com a mudança climática. Além da H&M, as empresas VFcorp, Vans e The North Face também anunciaram que deixariam de comprar couro brasileiro.

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Proteção do clima e os autoproclamados salvadores do mundo

Alemanha só é responsável por 2% das emissões globais de CO2. E uma redução rápida poderia ser facilmente alcançada sem a necessidade de protestos cinematográficos, opina Felix Steiner.

    
Karikatur Klimakabinett englisch

Que encenação: um embate de 19 horas, com direito a manifestantes em frente à Chancelaria Federal em Berlim, e atos em mais 500 cidades em toda a Alemanha. Mas, afinal, o que está em jogo é nada menos do que a salvação do mundo.

A apenas alguns dias da Cúpula do Clima das Nações Unidas, na sexta-feira (20/09) manifestantes já marcham pelo globo. Mas em nenhum lugar o tema é tratado com tanto fervor quanto na Alemanha. Os alemães estão mais uma vez em seu elemento: “Nós sabemos o que é nobre, útil e bom. E devemos ser um modelo para o resto mundo, para que ele nos siga o mais rápido possível.” “Que o caráter alemão possa curar o mundo” já era um mote quando a Alemanha ainda tinha um imperador.

De fato, o governo federal da Alemanha alcançou uma conquista notável: a gigantesca soma de 54 bilhões de euros será investida nos próximos quatro anos, no combate às mudanças climáticas. Pode ser que um ou outro lucre com isso, mas para a massa das cidadãs e cidadãos comuns, isso significa nada além de um pesado aumento de impostos. Pois a maioria continuará a anda de carro e a não querer congelar no inverno. Nesse ponto, o ministro das Finanças pode se dar por muito feliz: quem se lembra de uma época em que o povo tenha implorado tanto assim por um aumento de impostos?

Diante de somas tão enormes, é de admirar que a maioria dos manifestantes fosse de jovens. Quando se tratava do orçamento de escolas e universidades, nas últimas décadas nunca havia dinheiro suficiente – independente do estado da economia. Agora, finalmente, uma soma equivalente a um décimo do pacote para salvar o mundo – 5 bilhões de euros – será disponibilizada para equipar as escolas com computadores modernos. E isso num país que não tem recursos naturais além das aptidões dos seus habitantes!

Os jovens, no entanto, não parecem se incomodar nem um pouco com essa disparidade. Isso, porque sem a proteção do clima eles não terão mesmo qualquer futuro, como atestam suas faixas e cartazes.

Que tolice! O mundo não vai acabar em 2030 nem nas décadas seguintes, não importa como se comportem as curvas de temperatura. O apocalíptico discurso diário sobre crise, desastre, pontos de ruptura e de virada parece ter ofuscado o bom senso de muitos. O fato de que isso poderia se tornar um dia contraproducente ficou claro recentemente para o movimento pró-clima nos Estados Unidos: o escritor Jonathan Franzen ruminava na renomada revista The New Yorker sobre as consequências últimas de se reconhecer que não há mais nada a ser salvo.

Que outras finalidades não se poderia dar a esses 54 bilhões de euros? Por exemplo, pesquisa avançada em fusão nuclear. Ou o desenvolvimento de carros com células de combustível; ocupar-se de todas as formas de progresso e inovação que não dependam do esgotamento de recursos. E assim manter a Alemanha tecnologicamente no topo, a fim de manter também no futuro a prosperidade já alcançada.

Isso tudo vai demorar demais? Os objetivos do clima de 2025 e 2030 não serão alcançados só por esses meios? Talvez. Por outro lado, isso também poderia ser fácil: seria preciso apenas colocar as usinas nucleares já existentes de volta em operação e desligar as muito piores termoelétricas que usam linhito, um grande emissor de CO2. Pois até agora nenhum outro Estado quis seguir a Alemanha no abandono da energia nuclear, anunciado em 2011 com uma certeza messiânica e ênfase em seu caráter exemplar.

No fim de semana, não pretendo protestar em nenhum lugar, mas sim me preparar para o inverno que se aproxima na Alemanha, e cortar lenha. E essa é uma atividade satisfatória, pois, apesar de todo o esforço, vê-se logo o resultado. E é garantido que funciona: quando faz frio lá fora, minha casa está bem quentinha.

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Brasil vê posição de fornecedor global de alimentos ameaçada

A política do governo para a Amazônia deve prejudicar imensamente a economia brasileira, e produtos já estão sendo boicotados na Europa. O país levará anos para se livrar novamente de sua reputação de pária ambiental.    

Plantação de sojaAlgumas empresas internacionais já anunciam não comprar soja da Amazônia desmatada

Os consumidores da Europa foram os primeiros a responder à política brasileira para a Amazônia. Eles ameaçam boicotar todos os produtos que contenham ingredientes provenientes do Brasil. Trata-se principalmente de itens alimentares e artigos de moda.

As reações de fabricantes foram imediatas. Por exemplo, a multinacional sueca de moda H&M e a holding VF Corporation dos EUA – que possui uma dezena de marcas bem conhecidas, também na Europa, em seu portfólio (Timberland, The North Face) – anunciaram que não comprarão mais couro do Brasil.

O produtor norueguês de salmão em cativeiro Mowi ASA, o número 1 do mundo, está considerando suspender suas importações de soja do Brasil. As empresas de agronegócio Bunge e ADM garantem que não comercializam milho e soja da Amazônia desmatada. O Nordea Bank também não quer comprar mais títulos do governo brasileiro. Baseado em Helsinque, o banco é o maior do norte da Europa.

O Brasil se tornou novamente o pária ambiental global, como há duas décadas e meia na Cúpula da Terra da ONU no Rio (Eco-92). Os danos econômicos e políticos causados por um retrocesso no país serão imensos – imediatos, mas principalmente a médio e longo prazo.

A indústria agrícola já está sentindo as consequências da política de Bolsonaro para o meio ambiente e a Amazônia. “Vai custar caro ao Brasil reconquistar a confiança de alguns mercados”, afirmou Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

Para as associações de agricultores europeus e seus lobbies, o confronto abrasador entre a Amazônia e Bolsonaro é uma boa ocasião para fechar seus mercados. Brito, como diretor-executivo da Agropalma, o maior produtor de óleo de palma do Brasil, monitorou de perto como o óleo indonésio foi rapidamente retirado do mercado europeu devido à destruição da floresta tropical por lá.

“Temos que parar com esta mania de achar que o Brasil é o único produtor mundial e que, se a gente não fornecer, ninguém o fará. A lei de mercado é clara: deixe um espaço vazio e alguém vai ocupá-lo”, disse Brito ao jornal Valor Econômico. “O foco dos próximos anos não é produzir o que a gente quer, mas o que o mercado demandar.”

Também Blairo Maggi, maior exportador de soja do Brasil e ex-ministro da Agricultura, destaca que a relação entre o agronegócio brasileiro e a Europa sempre foi difícil. Segundo Maggi, após anos de esforço para convencer o mercado internacional de que a produção brasileira é amigável ao meio ambiente, o discurso de Bolsonaro pode levar agronegócio à “estaca zero”.

O empresário agrícola, que já foi agraciado com o prêmio Motosserra de Ouro do Greenpeace, trabalha agora com organizações ambientais – não porque ele se tornou um ambientalista convicto, mas porque ele sabe que somente assim tem chance de vender sua soja para países industrializados.

Ele diz temer um dano ainda maior. Segundo Maggi, o discurso “agressivo” de Bolsonaro tem potencial para fazer fracassar o acordo com a União Europeia (UE). No fim de junho, o Mercosul, grupo em que o Brasil é o membro mais importante economicamente, e a UE anunciaram um acordo de livre-comércio.

Tal acordo proporcionará aos exportadores agrícolas da América do Sul pela primeira vez acesso ao mercado europeu – mas agora essas cotas, por exemplo, para carne bovina, estão ameaçadas. Da mesma forma, a ratificação do acordo completo pelos países-membros da UE poderá se arrastar por anos.

Agora diversos representantes do agronegócio e ambientalistas se uniram para lançar a campanha “Seja Legal com a Amazônia”, que é assinada pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag); Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec); Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC); Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS); Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura; Imazon; Ipam; Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável; Sociedade Rural Brasileira (SRB) e Instituto Ethos.

As entidades querem posicionamentos e ações concretas do ministro da Justiça, Sergio Moro, contra o desmatamento ilegal e contra o roubo de terras públicas – a grilagem – na Amazônia.

É questionável se a campanha vai ter efeito, mas Marcello Brito, da Abag, afirma: “Não podemos transformar o presidente da República. O que podemos fazer, o nosso setor, é trabalhar, de forma uníssona para tentar reverter, o máximo possível, os danos.”

Essas são palavras surpreendentemente francas para um dos principais representantes do agronegócio. Há um ano, eles estavam entre os maiores apoiadores de Bolsonaro na campanha eleitoral.

Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

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Agrotóxicos sem orientação põe agricultores brasileiros em risco

Como uso de agrotóxicos sem orientação e proteção põe agricultores brasileiros em risco.

Plantação de café em São João da Boa Vista

Direito de imagem REUTERS
Pesquisa revela risco de problemas respiratórios, hormonais e até câncer para agricultores familiares brasileiros

Pesquisas recentes sobre a saúde dos agricultores familiares brasileiros têm chamado a atenção para a prevalência de problemas respiratórios, hormonais, reprodutivos e de alguns tipos de câncer possivelmente associados à exposição aos agrotóxicos.
Apesar de o Brasil ser um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos, os esforços para medir o impacto desses produtos na saúde dos trabalhadores rurais ainda são incipientes. Em comum, esses novos estudos evidenciam que a falta de orientação e assistência técnica a pequenos agricultores resulta na falta de cuidados adequados para evitar intoxicações.

A discussão sobre a segurança dos agrotóxicos está em alta desde que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou, no final de julho, a aprovação de um novo marco regulatório para agrotóxicos.

Para o pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da USP Rafael Junqueira Buralli, autor de um estudo sobre a condição respiratória de agricultores familiares expostos a agrotóxicos em uma pequena cidade do Rio de Janeiro, o despreparo é evidente: apenas 22,9% dos trabalhadores rurais avaliados no estudo afirmaram ter recebido treinamento ou apoio técnico para o manejo desses produtos.

Entre os parentes dos trabalhadores, que com frequência auxiliam nas atividades de cultivo e também se expõem aos agrotóxicos, nenhum passou por treinamento.

Impacto na saúde respiratória

A pesquisa de Buralli, publicada em 2018 pelo International Journal of Environmental Research and Public Health, avaliou 82 indivíduos da zona rural de São José de Ubá-RJ por meio de questionários, análise de amostras de sangue e espirometria, um exame que mede a capacidade pulmonar.

Os exames revelaram diminuições dos padrões respiratórios nos trabalhadores rurais em comparação a indivíduos não expostos a agrotóxicos. E quanto maior a exposição, medida pela presença de biomarcadores no sangue, pior foi a condição respiratória observada no participante.

Sintomas como tosse, alergia nasal e dificuldade para respirar foram mais prevalentes durante o período da safra do que na entressafra, o que sugere um efeito agudo durante o período de maior exposição, diz o pesquisador.

Segundo Buralli, 90% dos participantes também afirmaram sentir com frequência ao menos um sintoma agudo de exposição aos pesticidas, entre os quais os mais comuns foram irritações nas mucosas, dor de cabeça, taquicardia e palpitação, tontura, dor de estômago e câimbras. Além disso, 70% dos entrevistados relataram apresentar ao menos um sintoma crônico, como alterações no sono, irritabilidade e dificuldade de concentração e raciocínio.

Em busca de alterações genéticas

Para ilustrar o grau de desconhecimento da população rural de Casimiro de Abreu, no Rio de Janeiro, o enfermeiro Gilberto Santos de Aguiar, do Programa do Saúde do Trabalhador da Coordenação de Vigilância em Saúde da cidade, conta que ele já viu moradores armazenando água para beber em frascos de agrotóxico.

Plantação de café em Minas GeraisDireito de imagem REUTERS
Enfermeiro diz que maior parte dos agricultores que entrevistou usam agrotóxicos sem prescrição agronômica

Aguiar faz parte de um projeto que busca investigar a associação dos agrotóxicos com doenças comuns entre os agricultores. A iniciativa surgiu a partir de um caso de câncer de pulmão em um trabalhador rural da cidade em que o médico identificou a exposição aos agrotóxicos como causa do tumor. “Evidenciamos que muitas vezes o adoecimento de um trabalhador rural não é um adoecimento natural, mas por exposição ao agrotóxico”, diz.

O grupo aplicou um questionário sobre uso de agrotóxicos e presença de sintomas em 41 propriedades rurais da região. O resultado foi encaminhado ao serviço de câncer ocupacional do Instituto Nacional de Câncer (Inca), que se interessou pelo projeto e hoje conduz um projeto de investigação de alterações genéticas por exposição a agrotóxicos na região.

Para Aguiar, a desinformação é o principal fator de risco para os pequenos agricultores da região. “A maioria dos agricultores utiliza agrotóxicos sem prescrição agronômica. A compra é orientada pelo funcionário do balcão da loja que vende agrotóxico, ou às vezes é feita na porta da propriedade por um carro que leva o kit de veneno”, afirma. Ele diz que não há nenhuma assistência técnica para orientar sobre o modo de uso e nenhuma fiscalização.

Um levantamento do perfil epidemiológico dos trabalhadores rurais de Casimiro de Abreu, publicado pela Revista Brasileira de Enfermagem no início do ano, constatou que 51,8% da população entrevistada afirma nunca usar equipamentos de proteção individual recomendados durante o manejo de agrotóxicos, como botas, luvas e máscaras respiratórias.

Problemas endócrinos e reprodutivos

Em sua pesquisa, que avaliou o impacto dos agrotóxicos na função da tireoide em trabalhadores rurais da soja da cidade de Sertão, no Rio Grande do Sul, a farmacêutica Tanandra Bernieri também constatou esse tipo de descuido: nenhum dos 46 agricultores entrevistados afirmou utilizar equipamentos de proteção individual corretamente. Do total, 34,8% afirmou usar luvas apenas na hora de fazer a mistura dos agrotóxicos.

“Muitos não sabiam que o agrotóxico pode ser absorvido pela boca quando comem algo com as mãos sujas do produto”, conta Bernieri. “A fonte de informação deles são os vendedores ou pessoas da família e amigos.”

A biomédica Camila Piccoli, mestre pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, também pesquisou os efeitos dos agrotóxicos na tireoide de agricultores do Rio Grande do Sul, da cidade de Farroupilha. Ela e sua equipe constataram que a exposição aos agrotóxicos pode estar relacionada a um quadro de aumento do hormônio TSH e diminuição do hormônio T4, principalmente nos homens avaliados, resultando em sintomas análogos ao hipotireoidismo.

Ela também participou de um estudo, coordenado por seu colega Cleber Cremonese, que selecionou jovens de 18 a 23 anos da mesma região e, por meio do exame de espermograma, constatou a diminuição da mobilidade e morfologia do esperma dos jovens rurais em comparação aos jovens urbanos, além de alterações nos hormônios reprodutivos.

“Não se pode afirmar que as alterações estejam relacionadas somente ao uso de agrotóxicos”, afirma Piccoli. Mas os dados sugerem que os agrotóxicos podem estar relacionados ao fenômeno, principalmente por se tratar de uma população jovem, sem outros fatores de risco.

Novo marco regulatório

O novo marco regulatório anunciado pela Anvisa traz mudanças na classificação toxicológica dos agrotóxicos e inclui mudanças na rotulagem dos produtos. Segundo a agência, as alterações podem facilitar a identificação de perigos à vida e à saúde humana.

Ao mesmo tempo, alguns produtos podem ser reclassificados para um grau de toxicidade menor, já que o novo critério leva em conta apenas estudos de mortalidade, desconsiderando outros sintomas comuns que não levam à morte. Para alguns dos pesquisadores que atuam na área, ainda não está claro se a nova classificação impactará a segurança dos agricultores.

Homens lavando bananas após colheitaDireito de imagem DAVID BEBBER
Levantamento feito por professora da UFBA constatou que houve 1.309 mortes por intoxicação ocupacional provocada por agrotóxicos em trabalhadores rurais entre 2000 e 2009

Buralli observa que, como o nível de escolaridade dos agricultores é baixo, com muitos casos de analfabetismo, eles dificilmente leem o rótulo e as instruções da embalagem dos agrotóxicos. “Hoje a instrução parte mais dos técnicos nas lojas agropecuárias. Por isso, o ensino continuado providenciado pelas agências é muito mais importante do que o que está na bula”, afirma.

Para Vilma Santana, professora titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a mudança é preocupante, já que usa como critério somente a morte por intoxicação aguda, quando os casos mais comuns são os de intoxicação crônica.

“Se já temos uma situação de desproteção por conta do baixo nível de importância que se dá ao comportamento preventivo, do baixo nível de escolaridade do agricultor, e do uso indiscriminado de agrotóxico, se o nível de controle é reduzido, eu acredito que as consequências podem ser desastrosas.”

Santana é autora de um levantamento que constatou que houve 1.309 mortes por intoxicação ocupacional provocada por agrotóxicos em trabalhadores rurais entre 2000 e 2009, levando a uma mortalidade de 0,39 por 100 mil no ano de 2009.

“A mortalidade é pequena, mas no mundo desenvolvido, como na Inglaterra, um país que tem agricultura forte, nem se estima a mortalidade porque o número de casos de intoxicação aguda por agrotóxico é praticamente nulo”, afirma.

Para ela, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer quanto ao estímulo a práticas preventivas, medidas educativas da população rural e fiscalização para chegar ao nível de segurança de países mais desenvolvidos.

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Incêndio atinge área de proteção ambiental no Pará

Chamas se alastraram nas proximidades do balneário de Alter do Chão, no oeste do estado, e chegaram a área de mata nativa. Bombeiros levam quase 24 horas para controlar o fogo. Governo não descarta ação criminosa.    

Vila de Alter do Chão, na região de Santarém, é um dos locais que mais atrai turistas no ParáVila de Alter do Chão, na região de Santarém, é um dos locais que mais atrai turistas no Pará

Um incêndio de grandes proporções se alastrou neste domingo (15/09) para uma área de proteção ambiental em Alter do Chão, na região de Santarém, um dos locais mais visitados por turistas no estado do Pará. Segundo informações das brigadas de incêndio, o fogo começou no sábado e atingiu uma grande área de mata nativa.

O governo do estado pediu apoio ao Comando Militar do Norte, solicitando o envio de aeronaves e reforços à Força Nacional. O Corpo de Bombeiros convocou integrantes que estavam de folga para ajudar nos esforços.

Segundo os bombeiros, a situação era mais preocupante na localidade de Ponta de Pedras, no oeste do estado, onde as chamas se aproximavam de uma área residencial.

Airton Faleiro
@FaleiroAirton
Minha Alter do Chão está sob chamas. Uma imagem aterradora. Estou arrasado! Os responsáveis têm que ser punidos! O médico Eugênio Scannavino, do projeto Saúde & Alegria, fez imagens da floresta em chamas à beira do rio Tapajós, paisagem que atrai 60 mil turistas por ano.

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 No domingo à noite, o governo do estado informou que o fogo estava sob controle.

O portal oficial do governo afirmou que o governador Helder Barbalho pediu a abertura de um inquérito para apurar as causas do incêndio, uma vez que não estava afastada a hipótese de ter sido uma ação criminosa.

Os bombeiros levaram quase 24 horas para controlar as chamas, que se espalharam pelo balneário de Alter do Chão e atingiram a comunidade de Ponta de Pedras. Pessoas relataram cenas de terror em postagens nas redes sociais, com centenas de fotos que mostravam uma cortina de fumaça e fuligem no local.

RC/ots