Meio Ambiente: Estamos perto de um ponto sem volta

Devemos fazer de 2021 o ano em que a ação climática atingiu a maturidade, ou enfrentaremos o desastre, escreve Inger Andersen, o diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Incêndios extremos ligados às mudanças climáticas foram uma ocorrência frequente em 2020

Com a implementação dos programas de vacinação COVID-19, 2021 começa com a esperança de que o fim da pandemia esteja próximo. Precisávamos de liderança ousada, decisões difíceis e financiamento dedicado para nos levar até este ponto. Devemos agora aplicar o mesmo vigor para combater a mudança climática ou arriscar muitos mais anos tão mal quanto o anterior.

O ano de 2020 – provavelmente o mais quente já registrado – trouxe tempestades, incêndios florestais, secas, inundações e derretimento de geleiras. A desaceleração econômica associada à pandemia causou uma queda temporária nas emissões de dióxido de carbono, mas isso fará uma diferença insignificante nas temperaturas de longo prazo; nossas emissões anteriores ainda estão na atmosfera e estamos adicionando a elas.

Mesmo se os países implementassem as últimas promessas voluntárias – conhecidas como contribuições determinadas nacionalmente (NDCs) – sob o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, ainda estaríamos caminhando para um aumento projetado na temperatura média global de 3,2 graus Celsius (4,4 F) acima dos níveis pré-industriais até o final do século XXI. Esse aquecimento traria dor, miséria e perturbação que eclipsaria tudo o que COVID-19 jogou em nós.

Estamos perto de um ponto sem volta.

A seca e a escassez de água estão entre os muitos impactos do aumento das temperaturas

Os líderes podem recuar investindo em soluções sustentáveis ​​como parte dos esforços de recuperação da pandemia. O Relatório de Lacunas de Emissões 2020, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), nos disse que fazer isso poderia reduzir as emissões projetadas para 2030 em 25% – trazendo o mundo aproximadamente onde ele precisa estar para ter uma chance de atingir a meta do Acordo de Paris de limitando o aquecimento global a 2 graus Celsius. O comprometimento líquido zero pode até mesmo nos aproximar da meta de 1,5 grau Celsius.

Preparando-se para uma maratona

Medidas de recuperação verde e sustentável podem proporcionar esses cortes ao mesmo tempo em que apóiam outras metas ambientais, sociais e econômicas. Precisamos de suporte direto para tecnologias e infraestrutura de emissão zero. Fim dos subsídios ao carvão e aos combustíveis fósseis. Políticas que permitem o consumo de baixo carbono. Soluções baseadas na natureza – incluindo restauração de paisagem em grande escala e reflorestamento realizado durante a Década das Nações Unidas para Restauração de Ecossistemas, que começa este ano.

Inger Andersen, Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)

Até agora, poucas nações investiram em pacotes de estímulo verdes. Isso tem que mudar.

2021 é também o ano em que se realiza a COP26, reunião central dos países signatários do Acordo de Paris. De acordo com o Emissions Gap Report, 126 países adotaram, anunciaram ou estão considerando planos de emissão líquida zero. Se o novo governo dos EUA entrar na corrida conforme prometido, os países responsáveis ​​por mais de 63% das emissões globais de dióxido de carbono terão se comprometido com a neutralidade de carbono.

Mas, como quem se compromete no primeiro dia de janeiro a correr uma maratona até o final do ano, precisamos dar passos específicos, a partir de agora, para estarmos prontos para a corrida. Esses compromissos devem ser traduzidos urgentemente em políticas e ações fortes e de curto prazo que se integrem a uma recuperação pandêmica de baixo carbono e sejam incluídas em novos e mais fortes NDCs antes da cúpula de novembro. Caso contrário, são promessas vazias.

A energia limpa é fundamental para atingir metas líquidas de zero

O financiamento da adaptação precisa de um impulso

Outra prioridade é ajudar os países e comunidades vulneráveis ​​a lidar com os impactos cada vez maiores das mudanças climáticas. O Adaptation Gap Report do PNUMA, que será publicado nas próximas semanas, mostrará que ainda não estamos levando a adaptação a sério. O financiamento permanece muito abaixo dos níveis exigidos e a maioria das iniciativas ainda deve reduzir os riscos climáticos. Como disse o Secretário-Geral da ONU, precisamos de um compromisso global para destinar metade de todo o financiamento climático global à adaptação antes da COP26.

Este ano, temos uma chance real de evitar uma catástrofe climática. Usando recursos de estímulo com sabedoria para dar início a uma mudança sistêmica real, planejada e monitorada por meio de NDCs mais fortes e compromissos líquidos de zero, poderíamos não apenas atingir a meta de 2 ° C do Acordo de Paris, mas ter uma chance de lutar Meta de 1,5 ° C.

Devemos aproveitar esta oportunidade para proteger nosso clima e natureza e, por sua vez, a saúde humana, a paz e a prosperidade, nas próximas décadas. Pode ser um dos últimos que receberemos.

É hora de alugar, não comprar, eletrônicos?

O lixo eletrônico é um problema crescente. Mas se os fabricantes mantivessem a propriedade de seus produtos e os alugassem para nós, a reciclagem poderia fazer sentido para os negócios.

Laptops, telefones e tablets são lançados em novas e mais chamativas atualizações a cada ano, e os consumidores os absorvem, ansiosos por adquirir os modelos mais recentes e desejáveis com os recursos mais avançados. Mas a cada atualização, modelos mais antigos são acumulados em aterros sanitários em todo o mundo.

Em 2020, geramos um recorde de 53,6 milhões de toneladas métricas de lixo eletrônico, de acordo com o Monitor Global de E-waste da Universidade das Nações Unidas (UNU) – uma instituição acadêmica e de pesquisa da ONU – entre outras organizações. A previsão é que esse montante chegue a 74 milhões de toneladas até o final da década.

Além do grande volume de lixo que se acumula em pilhas de lixo, os eletrônicos geralmente contêm produtos químicos tóxicos, como mercúrio e clorofluorcarbonos, que podem contaminar o meio ambiente.

Apesar da crescente conscientização sobre o problema, poucos desses resíduos estão sendo reciclados.

Tanto as pessoas quanto o meio ambiente sofrem com os impactos negativos do lixo eletrônico

“Embora os consumidores muitas vezes digam ‘Sim, é claro que sou a favor da reciclagem e sim, eu reciclo’, quando você realmente olha para os comportamentos, isso não corresponde às porcentagens que dizem que o fariam”, disse Laura Kelly, diretora do grupo Shaping Sustainable Markets no Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED), uma organização de pesquisa independente com sede em Londres.

É por isso que alguns especialistas estão pedindo uma revisão radical do modelo de negócios dos fabricantes de eletrônicos.

“A inovação é muito necessária para reutilizar o máximo possível”, disse Ruediger Kuehr, diretor do Programa de Ciclos Sustentáveis ​​da UNU e um dos autores do Global E-waste Monitor.

Kuehr acredita que precisamos “desmaterializar” os setores eletrônicos – em vez de comprar e possuir a tecnologia mais recente, devemos alugar os dispositivos que usamos, com os fabricantes mudando seu modelo para fornecer um serviço em vez de bens materiais.

Mudando a responsabilidade dos consumidores para os fabricantes
Com os fabricantes mantendo a propriedade de seus produtos, o fardo da reciclagem passaria dos consumidores – que geralmente não sabem a melhor forma de descartar dispositivos antigos – para empresas que reutilizariam materiais e peças para novos produtos.

Muitos produtos eletrônicos ficam rapidamente desatualizados

Em 2019, apenas 17,4% do lixo eletrônico – 9,3 milhões de toneladas – foi formalmente coletado e reciclado, de acordo com o último Monitor de lixo eletrônico. Em grande parte, isso resulta em instalações de reciclagem que operam independentemente dos fabricantes. E como o lixo eletrônico não é problema deles, os próprios fabricantes têm pouco incentivo para projetar produtos com a desmontagem fácil e a recuperação de materiais reutilizáveis ​​em mente.

Os novos dispositivos com invólucros suaves da era espacial costumam ser virtualmente impossíveis de desmontar, o que significa que até os materiais preciosos que eles contêm vão parar em aterros sanitários. E para os fabricantes, quanto mais rápido os descartamos e substituímos, maiores serão seus lucros.

No entanto, para certos produtos, os modelos de leasing já estão provando fazer sentido para os negócios. A empresa japonesa de eletrônicos Canon tem um esquema para alugar grandes impressoras de escritório na Europa, que Kuehr citou como um exemplo de desmaterialização. A Hewlett-Packard e a Xerox oferecem iniciativas semelhantes.

Quando um aluguel termina, a Canon pega de volta a impressora usada, a recondiciona para o próximo cliente ou, se ela não estiver mais em funcionamento, a envia para suas instalações em Giessen, Alemanha, onde é desmontada no chassi. As peças são então reutilizadas no conserto de outras máquinas. Isso permite que a empresa recupere 80% dos materiais em peso, de acordo com o gerente de sustentabilidade da Canon Andy Tomkins.

Onde estamos cinco anos após o Acordo de Paris

Cinco anos após a negociação do Acordo de Paris de 2015, o cientista climático Saleemul Huq diz que vivemos em um mundo com mudanças climáticas.

Desde 2015, o Acordo de Paris tornou-se um símbolo de esperança

Em 12 de dezembro de 2015, o então Ministro das Relações Exteriores da França e Presidente da 21ª Conferência das Partes (COP21) Laurent Fabius martelou o histórico Acordo de Paris sob aplausos estrondosos na sala de conferências.

Tive a sorte de estar naquela câmara naquela noite histórica. Eu fiz parte desse aplauso. Fui testemunha de um momento de última hora que ficou em suspenso durante as duas semanas de negociações intensas.

As emoções estavam em alta na sala de conferências cheia de promessas
Cinco anos depois, o Reino Unido – como presidente entrante da COP26 a ser realizada em novembro de 2021 – convocou uma Cúpula da Ambição do Clima. A ser realizado no quinto aniversário daquela noite memorável, é uma oportunidade para chefes de governo de todo o mundo compartilharem seus planos revisados ​​para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

E esta é uma oportunidade que eles devem levar a sério.

Em dezembro de 2015, os países em desenvolvimento vulneráveis, que ajudo a representar, defenderam fortemente uma meta de temperatura de longo prazo de 1,5 grau Celsius. Nosso apelo encontrou resistência inicial de muitas nações desenvolvidas, o que tornou a inclusão final da meta no Acordo de Paris uma grande conquista para nós.

‘Perda de momentum’

Mas não aconteceu o suficiente nos anos que se seguiram para nos colocar no caminho para atingir a meta. Vimos os Estados Unidos se retirarem do acordo e, embora nenhum outro país tenha seguido o exemplo, ainda assim foi um grande revés para o esforço global de combate às mudanças climáticas.Cientista do clima, Saleemul Huq

A perda geral de ímpeto na última meia década permitiu que as temperaturas subissem mais de 1 grau Celsius acima das médias pré-industriais. Os impactos adversos desse aquecimento planetário estão agora se tornando visíveis em todo o mundo, com incêndios florestais, inundações, secas e furacões afetando vidas e meios de subsistência.

Já vivemos em um mundo com mudanças climáticas.

Um dos principais resultados do Acordo de Paris foi liberar as oportunidades para que atores não governamentais, incluindo prefeitos de cidades, chefes de empresas, grupos da sociedade civil, bem como jovens e até crianças, tomem as ações necessárias, independentemente de seus próprios governos estarem fazendo isso. .

Isso levou a grandes movimentos globais que viram crianças em idade escolar – lideradas por Greta Thunberg – pressionarem seus pais e idosos a tomarem as medidas necessárias.

Furacões e ciclones, mas também secas e inundações estão se tornando cada vez mais frequentes e, em muitos casos, mais graves

O futuro do planeta, entretanto, não pode ser deixado apenas para esses movimentos.

Joe Biden prometeu voltar a aderir ao Acordo de Paris assim que tomar posse como presidente dos Estados Unidos em janeiro de 2021. Mas se quisermos chegar perto da meta de 1,5 grau pela qual lutamos tanto, todos os países precisarão consideravelmente aumentar suas ambições.

E quando a COP26 finalmente acontecer no ano que vem, também deve ser um fórum para abordar a questão do apoio às vítimas de perdas e danos como resultado do aquecimento global. Não fazer isso pode levar ao fracasso do COP.

Saleemul Huq é o diretor do Centro Internacional para Mudanças Climáticas e Desenvolvimento (ICCCAD) em Bangladesh. Ele também assessora o grupo de Países Menos Desenvolvidos (LDC) na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Árvores amazônicas estão vivendo menos, diz estudo

Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)Pesquisadores constatam círculo vicioso na região, impulsionado pelo aquecimento global, que estaria privilegiando árvores que morrem mais jovens. Quanto mais cedo elas desaparecem, menor o papel na absorção de carbono.

Árvores morrem porque estão passando do limite fisiológico que podem suportar

Um círculo vicioso vem sendo observado por cientistas na Amazônia. Por causa da tragédia climática em curso, árvores de crescimento rápido vêm sendo privilegiadas pela seleção natural. O problema é que elas apresentam maiores taxas de mortalidade. Ao longo da vida, portanto, retêm menos carbono e contribuem menos para mitigar o aquecimento global. Este, por sua vez, segue favorecendo as árvores de crescimento rápido.

Esta é a principal conclusão de um estudo publicado no periódico científico Nature Communications nesta semana. Um esforço da Rede Amazônica de Inventários Florestais (Rainfor) − consórcio de pesquisa fomentado por agências de financiamento de Brasil, Colômbia, Reino Unido e União Europeia −, com o trabalho de mais de 100 cientistas, analisou 30 anos de dados sobre espécies vegetais da Amazônia.

“No total, monitoramos 124 mil árvores, e 23 mil delas morreram no período”, conta à DW a bióloga e ecóloga brasileira Adriane Esquivel-Muelbert, pesquisadora da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e que esteve à frente do trabalho.

Vento é causa de morte de 50% das árvores

Foram analisados exemplares de 3.966 espécies. “As árvores que crescem mais rapidamente são as que estão sob maior risco de morrerem. Identificamos que 50% das árvores da Amazônia morrem por efeito de ventos. Quando elas são encontradas mortas, já estão quebradas ou com as raízes aparecendo”, exemplifica ela.

Em nota divulgada à imprensa, o professor da Universidade de Leeds, também no Reino Unido, David Galbraith, participante do estudo, externou preocupação com os resultados. “O serviço de sequestro de carbono fornecido pelas árvores da Amazônia está diminuindo”, resume ele.

Na região sul do bioma, a mortalidade das árvores vem sendo influenciada pela seca, conforme identificaram os pesquisadores. Como a área já sofre com um clima mais árido há bastante tempo − agravado nos últimos anos, com termômetros chegando a marcar 50 graus no verão −, havia uma expectativa de que as plantas estivessem se adaptando ao cenário. “O que está acontecendo nessa região é que as árvores estão passando do limite fisiológico que podem suportar. A condição é tão extrema que elas estão morrendo”, diz Esquivel-Muelbert. “[A região se tornou] um laboratório para entendermos o que está acontecendo. E não deixar que aconteça em outros locais.”

Pesquisas anteriores, publicadas a partir de 2015, já indicavam que as árvores amazônicas estavam vivendo menos do que o esperado. O estudo atual não só confirma essa hipótese como avança sobre as causas dessa mortalidade. Sobretudo na região sul da Amazônia também se observou que a fragmentação das florestas, causada pela expansão do desmatamento, é um fator que influencia a vida das árvores em intocadas áreas adjacentes. Conforme explica a pesquisadora, trata-se de um “risco extra”.

Comprometimento na estocagem de carbono

Os índices de desmatamento na Amazônia vêm batendo recordes recorrentes. No mês de outubro, a região perdeu quase 840 quilômetros quadrados de cobertura florestal, uma alta de 50,6% em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), coletados pelo sistema Deter. O valor é o maior para o mês desde 2015, quando foi iniciada a série histórica.

O ritmo da devastação da Amazônia acelerou-se em maio de 2019. A partir de então, por 14 meses seguidos, a perda florestal foi superior ao ano anterior − em sete situações, atingiu-se um recorde para o mês.

À DW, o biólogo brasileiro Filipe França, pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e da Rede Amazônia Sustentável, destacou que a pesquisa mostra como as condições atuais estão comprometendo a “habilidade das florestas em controlar as mudanças climáticas através da estocagem de carbono”.

Importância das pesquisas de longa duração

França pontua que a importância do trabalho também está em mostrar que há diferenças espaciais na Amazônia, de acordo com os gradientes de precipitação. E isso interfere na mortalidade das árvores. Assim, ações de conservação precisam levar em conta esses fatores − e não compreender o bioma como uma coisa só.

Outro ponto destacado por pesquisadores é o fato de que um mapeamento tão abrangente como este só foi possível graças a dados coletados por cientistas por um longo período. “Pesquisas de longa duração são fruto dos trabalhos de muitas pessoas, com financiamentos locais. Por isso é importante haver financiamento de longo prazo dos órgãos de fomento de ciência dos países locais, sem isso a gente não conseguiria entender o que está acontecendo na Amazônia — e no planeta como um todo. É preciso enfatizar a importância do investimento em ciência pelos governos”, salienta Esquivel-Muelbert.

A pesquisadora e sua equipe seguem debruçadas sobre os dados. A ideia é aprofundar mais a compreensão das causas mortis das árvores amazônicas para chegar a conclusões que expliquem esse aumento da mortalidade em todas as regiões do bioma.

Agenda ambiental de Biden deve aumentar importância geopolítica da América do Sul

Meta de zerar emissões nos EUA até 2050 deve impulsionar interesse nas reservas de Argentina, Bolívia e Chile de lítio, usado em baterias, e em energias renováveis do Brasil.

Incrustada no subsolo do Salar de Uyuni, a reserva de lítio boliviana é uma das maiores do mundo

A meta ambiciosa de zerar as emissões líquidas de carbono nos EUA até 2050 é o ponto de maior destaque do “Plano para Mudança Climática e Justiça Ambiental” apresentado pelo democrata Joe Biden durante a campanha à eleição presidencial da qual se saiu vencedor, derrotando o republicano Donald Trump.

O incentivo dado aos combustíveis fósseis, bandeira do republicano nos últimos quatro anos, dá lugar aos investimentos em energias renováveis, enquanto a negação científica das mudanças climáticas cede espaço para uma adesão ao esforço multilateral pela preservação ambiental.

A partir de 20 de janeiro de 2021, Joe Biden tem o desafio de recolocar os EUA, segundo maior emissor global de carbono, no Acordo de Paris. A saída do acordo costurado em 2015, anunciada por Trump meses depois de sua chegada à presidência, se concretizou no último dia 4 de novembro.

Espera-se que Biden seja mais rigoroso com as obrigações climáticas e ambientais em atividades intensivas em CO2, como a indústria de petróleo e gás, simpática à tradição republicana e que teve momentos auspiciosos com Trump.

Caso o novo presidente dos EUA realmente coloque em prática o seu plano climático e ambiental, a América do Sul deverá alcançar outro patamar de importância no xadrez internacional da geopolítica.

Lítio: “petróleo branco”

Para reduzir as emissões, Biden terá que estimular as alternativas existentes aos combustíveis fósseis. No caso da indústria automotiva, por exemplo, deve-se esperar por incentivos à massificação dos carros elétricos.

O processo de “eletrificação” é inerente à transição para uma economia de baixa emissão de carbono, em todas as áreas. Nesse cenário, não haverá mineral mais importante que o lítio, principal matéria-prima utilizada na fabricação de baterias. Não à toa, o elemento é chamado de “petróleo branco”.

Mantida a comparação com o combustível que moveu o mundo no século 20, a América do Sul seria uma espécie de Oriente Médio. Bolívia, Argentina e Chile formam o “triângulo do lítio”, região que concentra 68% das reservas do mineral no mundo.

Recentemente empossado como presidente da Bolívia, Luis Arce afirmou que o lítio é o passaporte para o desenvolvimento econômico e social do país andino. Incrustada no subsolo do Salar de Uyuni, a reserva de lítio boliviana é uma das maiores do mundo.

Mas há uma diferença conceitual entre “reserva” e “recurso”. Reserva é o depósito de teores minerais, o que a Bolívia detém. Recurso, por sua vez, é aquilo que é extraído da reserva, algo que a Argentina e o Chile já estão fazendo.

“O mercado de lítio ainda é caracterizado por inúmeras empresas, mas poucos projetos são viáveis”, explica Emily Hersh, vice-presidente executiva da U.S. Critical Minerals, empresa de exploração mineral estadunidense.

“A América Latina abriga uma grande variedade de depósitos de lítio em vários estágios de desenvolvimento. Os países que investem em infraestrutura e demonstram compreensão da cadeia de fornecimento de baterias irão emergir como líderes no novo futuro energético”, afirma a especialista.

Atualmente, a China é o maior produtor mundial de lítio. No contexto da guerra comercial entre os dois países, é crucial para a segurança energética dos EUA no século 21 reduzir a dependência do mineral em relação ao país asiático.

Oportunidades para o Brasil

O economista Edmar Almeida, pesquisador do Instituto de Energia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que a demanda dos EUA pode gerar oportunidades para produzir baterias no Brasil e outros países da região que detêm lítio.

“À medida que a indústria de bateria ganhe terreno, a questão da cadeia produtiva da bateria assumirá um caráter estratégico. O Brasil já tem uma indústria de bateria bem consolidada, podendo abrir novas oportunidades”, assinala.

Almeida acredita, todavia, que a maior oportunidade de cooperação para o Brasil reside no segmento de energias renováveis, vetor fundamental da transição energética almejada por Biden. O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, com cerca de 46% da energia produzida proveniente de fontes renováveis.

“É uma área em que o Brasil possui acordos com o governo americano, e o país já tem uma indústria renovável muito desenvolvida, com grande potencial de crescimento”, afirma.

O economista destaca, ainda, o potencial apresentado pelo país em programas de hidrogênio verde, solução escolhida pela Alemanha e pela União Europeia como meio para alcançar neutralidade na emissão de carbono até 2050 e fazer a transição para uma economia limpa.

“O fato de termos uma indústria elétrica já bastante descarbonizada cria condições únicas para a produção de hidrogênio verde, que não existem em outros países. O Brasil pode alavancar investimentos em projetos de P&D, projetos-piloto e projetos comerciais em hidrogênio verde. Temos uma chance única”, diz.

Amazônia: ponto sensível

A preservação da Amazônia se apresenta como o tema potencialmente mais delicado da relação do governo de Jair Bolsonaro com o novo presidente dos EUA.

Recentemente, Bolsonaro insinuou um conflito militar com a maior potência armamentista do mundo em resposta à ameaça feita por Biden na campanha de impor sanções comerciais ao Brasil pelas queimadas na região: “Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”, disse o presidente brasileiro no dia 10 de novembro, durante um evento de fomento ao turismo nacional.

Os planos de Biden para a preservação da floresta não se limitam às possíveis retaliações econômicas. Durante a campanha, ele propôs a criação de um fundo de 20 bilhões de dólares (cerca de 100 bilhões de reais) com outros países para garantir a proteção da Amazônia.

Em agosto do ano passado, Bolsonaro recusou ajuda financeira de países do G7, anunciada pelo presidente da França, Emmanuel Macron, para combater os incêndios florestais na Amazônia. A decisão foi atribuída à necessidade de manter a “soberania” sobre a região, termo citado por três vezes durante seu discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU deste ano.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Juliano Cortinhas, o descaso do governo Bolsonaro com a agenda ambiental e a Amazônia tende a deixar o Brasil em uma posição vulnerável em um cenário de aumento das pressões internacionais sobre o país.

“Para garantir a soberania sobre a Amazônia, o Brasil precisa preservá-la. Somos um dos maiores emissores de CO2 do mundo, e as nossas emissões são, em sua maior parte, provenientes de queimadas. É um padrão de emissões diferente das grandes potências industrializadas”, destaca.

Paulo Guedes; o auxiliar de Ricardo Salles na destruição do meio ambiente no Brasil

Os Sinistros da Economia e do Meio Ambiente são parceiro na tarefa de transformar o Brasil em um saara tropical.

Enquanto Salles domina as manchetes, política econômica de Guedes se centra no agronegócio e retira incentivos à inovação, impedindo um crescimento verde.

Embora Ricardo Salles seja visto (corretamente) como o maior responsável pela grave situação ambiental que o Brasil atravessa, tem passado despercebido o fato que a política econômica de Paulo Guedes é amplamente desfavorável ao crescimento verde.

A equipe econômica do governo aposta numa estratégia de crescimento pautada na redução do estado e na produção de produtos primários, nos quais o país é mais produtivo, desprivilegiando políticas que incentivam a inovação e a produção industrial de alta tecnologia. Essa aposta, porém, corre sério risco de não só elevar o impacto ambiental da nossa economia como também de desacelerar nosso crescimento.

Enquanto vário países elaboram estratégias de recuperação e crescimento verdes, associando crescimento econômico à redução das emissões de gases de efeito estufa, Bolsonaro decidiu seguir em direção oposta no Brasil.

A política econômica do governo Bolsonaro vai contra cinco importantes pilares da proposta de crescimento verde. São eles:

Indústria high-tech

A política econômica de Paulo Guedes é inteiramente voltada para o aumento da produção primária, mais poluidora, em detrimento de atividades industriais mais limpas e de alta tecnologia. Para entender o tamanho do impacto ambiental das atividades primárias, basta observar que, em 2018, a produção agropecuária brasileira foi responsável por 70% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil (incluídas as emissões por desmatamento), embora com participação direta no PIB de apenas 5%.

Investimentos em P&D

Inovações tecnológicas são cruciais para reduzir as emissões de gases. Para incentivar inovações verdes, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE ressalta, entre outras medidas, o papel central dos incentivos à pesquisa. No Brasil, contudo, em função da política de contenção de gastos, para 2021, está previsto um corte de 32% nos já reduzidos recursos da área de ciência e tecnologia.

Infraestrutura

O aumento da eficiência do uso de recursos depende em grande medida de investimentos em infraestrutura, voltados para a melhoria do uso e tratamento da água, para mudanças no sistema de transporte e para a geração de energia limpa. Nesse aspecto, destaca-se a aprovação do novo marco do saneamento, que promete elevar os investimentos nessa área. Contudo, os cortes sucessivos de investimentos públicos têm prejudicado a melhoria da infraestrutura brasileira, ameaçando até mesmo a reposição da depreciação. O investimento público federal e das estatais federais, que foi de 2,4% do PIB entre 2009 e 2014, caiu para 1,3% em 2019, e deve continuar caindo em 2020 e 2021.

Energias renováveis

A geração de crescimento verde passa também pela constante melhoria da matriz energética rumo a energias limpas. Mas Petrobras, sob o governo Bolsonaro adotou a estratégia de focar esforços na extração, no pré-sal, reduzindo suas atividades em energias renováveis. Essa opção significa caminhar em direção contrária às estratégias das grandes petrolíferas europeias, como BP (Reino Unido), Total (França) e Equinor (Noruega), que estão investindo pesado em energias renováveis. O Brasil seguiu a linha de focar na exploração de combustíveis fósseis em detrimento de energias limpas e da mitigação da mudança climática.

Fiscalização ambiental

A comunidade internacional tem assistido atônita ao aumento das queimadas na Amazônia e no Pantanal, sem que quase nada seja feito para conter esses crimes ambientais. O governo abriu mão do Fundo Amazônia, que colaborava para manter o combate ao desmatamento e, agora, alega falta de recursos para as atividades de controle. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tem sido acusado de atuar para dificultar a fiscalização ambiental e, assim como o presidente, tem sido mais aberto às demandas dos mineradores ilegais – atividade altamente poluidora, diga-se de passagem – do que às de ambientalistas e dos indígenas. A proposta de reforma administrativa de Guedes, se aprovada, deverá dificultar ainda mais a atuação independente dos fiscais do Ibama, uma vez que abrirá espaço para maior interferência política nos serviços públicos.

Na contramão do mundo

Estratégias de crescimento verde já vêm sendo adotadas há mais de uma década em diversos países. Alguns exemplos são o plano quinquenal sul-coreano de 2009-2013, o chinês de 2011-2015 e as diretrizes de desenvolvimento verde da Irlanda de 2007-2013. Em particular, destaca-se o programa para crescimento verde da OCDE, iniciado em 2011.

Essas estratégias buscam combinar aumento da produção com redução de emissões de gases por meio de inovações tecnológicas verdes, mudança da estrutura produtiva e da matriz energética e aumento da eficiência no uso de recursos. Essas mudanças levam a ganhos de produtividade, de renda e à geração de empregos de qualidade. A reversão da mudança climática colabora ainda para elevar a produção agropecuária, pois reduz a ocorrência de eventos climáticos que a prejudicam, como enchentes, secas etc.

Diversos estudos têm apontado para a importância de elevar a complexidade da economia, isto é, diversificar a economia e adensar a produção industrial de alta tecnologia como forma de gerar crescimento e ao mesmo tempo mitigar impactos ambientais. Os influentes trabalhos dos professores César Hidalgo, da Universidade de Toulouse, e Ricardo Hausmann, de Harvard, indicam que o aumento da complexidade econômica está ligado ao aumento do crescimento do PIB per capita.

O índice de complexidade econômica capta o conhecimento produtivo presente em cada economia. Nesse sentido, trabalhos recentes têm mostrado que maior diversificação em setores de alta complexidade está também associada a um maior nível de conhecimento relacionado à aplicação de tecnologias mais limpas. Em artigo publicado este ano na revista Research Policy, a pesquisadora Penny Mealy e seu colega Alexander Teytelboym, ambos da Universidade de Oxford, apresentaram evidências que a produção de bens de maior complexidade está associada a mais inovações verdes e a menos impacto ambiental.

Em outra pesquisa semelhante, publicada como texto de discussão do Centro para Economia e Políticas Públicas de Cambridge, eu e Camila Gramkow, pesquisadora da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a Cepal, apresentamos evidências que o aumento da complexidade econômica conduz à redução da intensidade de emissões de gases de efeito estufa.

Estagnação cinza

A produção industrial de alta tecnologia, as inovações e os investimentos em infraestrutura são cruciais não só para a redução dos impactos ambientais da produção como também para o aumento da competitividade e do crescimento. Ao incentivar a reprimarização predatória e poluidora da economia brasileira, as políticas econômicas do governo Bolsonaro têm prejudicado também nossa produtividade, que apresentou queda de 1% em 2019. Essa queda foi puxada pela redução da produtividade da indústria e dos serviços, enquanto só a agropecuária apresentou ganho.

Somando todos esses fatores às turbulências da política brasileira e do cenário internacional, não surpreende que esteja ocorrendo fuga de capitais do Brasil, e que o investimento externo direto tenha sofrido forte retração em 2020.

Não é possível fomentar inovações verdes, elevar a produção industrial limpa, melhorar a infraestrutura, a matriz energética e a fiscalização ambiental sem políticas ativas do estado. O Green New Deal da União Europeia, por exemplo, irá destinar quase 2 trilhões de euros para fomentar a redução das emissões do bloco.

No Brasil, o estrangulamento dos gastos públicos pelo teto de gastos inviabiliza a adoção de políticas públicas que permitam combinar crescimento acelerado com mitigação da mudança climática. A adoção de uma estratégia de crescimento verde no país passa pela modernização do teto de gastos para permitir algum crescimento real do gasto e para liberar o investimento público.

Na contramão do mundo, o governo Bolsonaro vem mantendo baixos os investimentos públicos, reduziu os recursos para a inovação, relaxou o combate ao desmatamento, incentivou a produção primária e abdicou de elaborar políticas que incentivem produção industrial limpa e de alta tecnologia. Tudo isso colabora, simultaneamente, para a redução do crescimento e para a elevação das emissões de gases de efeito estufa.

Não é exagero afirmar que a política econômica de Paulo Guedes representa hoje a perfeita antítese da proposta de crescimento verde.
João P. Romero

Bolsonaro e a política ambiental

A política anti-ambiental do governo Bolsonaro, que tem resultado no aumento expressivo do desmatamento da Amazônia, da violência no campo e da ameaça aos povos indígenas deve ser interrompida imediatamente.

Sua política nefasta gera prejuízos incalculáveis à população, às florestas, à economia brasileira e ao clima global. O Brasil merece mais.

Um Ministro de Meio Ambiente, condenado por improbidade administrativa, que usa o sofrimento e a morte das vítimas da pandemia para avançar de forma violenta com uma política de destruição e de forma deliberada, dolosa e declarada, e atenta contra a própria pasta não tem moral para ocupar o mais alto cargo ambiental do país que abriga enorme porção da maior floresta tropical do mundo.

Me parece inócuo tentar atingir Bolsonaro com argumentação moral. Ele tem atitudes repugnantes desde sempre e a impressão é que isso está acomodado na base dele faz tempo.

O Brasil Bolsonarista é o Universo paralelo onde tudo está ao contrário, para o sentido do mal.

Governo tenta intencionalmente destruir povos indígenas

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Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo. José Ortega y Gasset

Em entrevista, ex-presidente da Funai diz que já na não se pode falar em falha na proteção de reservas, mas numa política deliberada para destruí-las: “Não tem ninguém no governo que seja a favor do meio ambiente”.

Queimada perto de Apui, no estado do Amazonas: destruição da floresta avança sob Bolsonaro

Se nos governos anteriores havia desaprovação a ações pontuais ligadas aos povos tradicionais, no governo de Jair Bolsonaro as críticas são direcionadas a tantas áreas que a questão indígena acaba diluída em meio a uma desaprovação maior e mais geral.

É essa a avaliação do jurista Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de Direito Agrário e Socioambiental na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Ele foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1999 e 2000.

Para o jurista, a política ambiental da atual gestão, simplesmente, não existe. “Até o ministro [do Meio Ambiente] diz que quer destruir, então não tem ninguém no governo que seja a favor do meio ambiente”, afirma.

Em entrevista à DW Brasil, Marés também comenta o enfraquecimento e desmonte gradual da Funai nos últimos anos, fala sobre o papel do governo federal em conter o avanço do coronavírus e dos recentes incêndios em terras indígenas e explica como a demarcação de terras ganhou cada vez mais ares de processo político em vez de técnico.

DW Brasil: Você foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1999 e 2000. Em essência, o que mudou de lá para cá em relação à questão indígena no Brasil?

Na virada de 1999 para 2000, os povos indígenas estavam muito expostos na mídia por causa dos 500 anos [do descobrimento]. Havia, então, essa exposição muito grande e, consequentemente, uma articulação muito grande. Justamente em 2000, houve uma repressão policial ao movimento indígena na festa dos 500 anos em Porto Seguro (BA), razão pela qual pedi demissão do cargo. Não podia compactuar com uma ação daquelas.

Quanto à Funai, nesses últimos 20 anos, ela foi sendo deteriorada do ponto de vista da ação possível. Até 2016, mais ou menos, embora estivesse fraca, ela ainda tinha dinheiro, funcionários e, portanto, ação. Mas de quatro anos para cá ela foi perdendo tudo isso. Foram muitas aposentadorias sem reposição de quadro funcional e uma deterioração da política significativa. Um exemplo é a proteção dos povos indígenas chamados “isolados”, que demandam somente uma aproximação muito distante. Essa é uma política correta e que não custa muito. Mas nos últimos anos, e principalmente nos primeiros dois anos de gestão [Jair] Bolsonaro, essa política foi rompida. Trata-se de uma política desastrosa, mortal. O correto é proteger as áreas de povos isolados e não deixar ninguém entrar.

A diferença, então, é que houve uma piora funcional e política. A Funai deixou de ser uma intermediária entre governo e povos indígenas para ela mesma ser contrária a essa população. O governo atual incentiva o ingresso em terras indígenas, a ocupação ilegal de terras, e a Funai não faz nada. E não adianta os indígenas correrem para a Funai porque a Funai “corre com eles”.

No fim de agosto, o presidente Bolsonaro afirmou em uma live que há “índios evoluídos” no Brasil, que poderiam ter “mais liberdade sobre sua terra”…

Não posso atribuir isso à ignorância porque o nome disso é racismo. Essa fala é racista e genocida. É uma postura inimiga dos indígenas, porque ele acha que os povos indígenas atrapalham. Quando ele diz que os indígenas devem ter mais liberdade, eu concordo plenamente, mas qual é a liberdade que os indígenas querem? Que ninguém entre em suas terras, que a natureza não seja destruída, que não tenha garimpeiro, madeireiro por lá. Os povos indígenas têm pouca força para usufruir dessa liberdade e quem tem que garanti-la é exatamente o Estado brasileiro. O Estado precisa ouvir os indígenas. Os ianomâmis [grupo que vive na floresta amazônica, na fronteira entre Venezuela e Brasil], por exemplo, eu sei o que vão responder: tirem os garimpeiros das nossas terras.

Os indígenas querem liberdade, mas não para trazer gente branca para a terra deles, e sim para impedir que haja exploração. E o que o presidente quer dizer é que as terras indígenas devem ser mais livres para quem quiser invadir.

Um relatório divulgado recentemente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), apontou que no primeiro ano de governo Bolsonaro (2019) as invasões em terras indígenas cresceram 135%. É exagero dizer que o atual governo está falhando na proteção aos povos indígenas?

“Falha” é uma palavra gentil. O governo não está falhando, está intencionalmente tentando destruir os povos indígenas. E isso é genocídio.

Até o momento foram registrados 36 mil casos de contaminação pela Covid-19 entre indígenas, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). O senhor acredita que o estabelecimento de barreiras sanitárias em terras indígenas por parte do Governo Federal, previsto emMedida Provisória publicada no último dia 1°, ajudará, de forma efetiva, a conter esse cenário? Além disso, o governo não demorou muito para tomar ações a respeito? A pandemia começou em março.

Essa demora foi intencional. Essas barreiras sanitárias eram muito fáceis de terem sido feitas há seis meses. Alguns povos, inclusive, fizeram barreiras por conta própria, mas mesmo assim teve missionário que quis entrar [nas terras], pessoas do governo, gente para entregar remédio. Há uma tensão muito grande em relação ao coronavírus e os povos indígenas.

Somente em setembro, mais de uma centena de focos de incêndio avançaram sobre terras indígenas na região do Pantanal. Em agosto, foram 200 focos. Ainda que queimadas sejam esperadas para a região nesta época do ano, os números não são altos demais? Qual é o papel do Poder Público para proteger as terras indígenas?

O grande drama que vive o Pantanal, assim como o Cerrado e a Amazônia, é o desmatamento irregular. Sempre que acontece um episódio como esses incêndios temos que nos perguntar: alguém leva vantagem nisso? O incêndio é bom para alguém?

Nesses três biomas, há quem leve vantagem com os incêndios, que é quem quer ocupar terra, que são pessoas que não são de lá. Não são os indígenas, não são os povos tradicionais, os quilombolas. Agora, para quem quer expandir suas terras, o incêndio é bom. Lembro também do Cerrado porque é uma região da qual se fala menos, mas que está sendo duramente castigada pela abertura e derrubada da vegetação nativa para dar lugar a grandes monoculturas.

Podemos então dizer que hoje a demarcação das terras indígenas se transformou em um processo político e não técnico?

A resposta é sim, apesar de que o caráter político sempre esteve presente. Os indígenas têm garantido na Constituição Federal direito à terra que ocupam. Eles têm esse direito com ou sem demarcação. A demarcação é uma providência que a Constituição determinou ao Estado brasileiro para que haja melhor proteção da terra. A ideia, portanto, não é definir qual deve ser essa terra, mas dar proteção à terra que já é do povo. Só que as forças contrárias aos povos indígenas sabem que, uma vez demarcada, é mais difícil invadir a terra, matar índio, tocar fogo. Assim, politicamente, serão contra a demarcação. Essa ação contrária aos povos indígenas é uma ação política, e acaba transformando a demarcação em um ato político.

Já no governo [Michel] Temer, mas com mais força a partir do governo Bolsonaro, veio uma vontade política muito forte de não demarcar. Mais ainda: tentar reverter as demarcações já feiras. E aqui esse adendo vale tanto para as terras indígenas como para os quilombolas. Antes de ser eleito, inclusive, o presidente Bolsonaro declarou que não iria demarcar nenhum centímetro a mais de terra indígena.

Para o senhor, quais são as principais diferenças entre o modo como o governo Bolsonaro trata a questão indígena em relação a governos anteriores? Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, receberam muitas críticas no sentido de que deveriam ter demarcado mais terras.

O governo Bolsonaro recebe críticas em tantas áreas – desenvolvimento, direitos humanos, etc – que a questão indígena é “só” mais uma coisa. No governo do PT houve fortes críticas à política ambiental, mas eram sempre críticas localizadas. A questão de [usina hidrelétrica de] Belo Monte, por exemplo, do rio Xingu, da Usina Hidrelétrica de Jirau. Eram ações específicas. Agora, no governo Bolsonaro, a política ambiental não existe, é de destruição. Até o ministro [do Meio Ambiente, Ricardo Salles] diz que quer destruir, então não tem ninguém no governo que diga que é a favor do meio ambiente. Nos outros governos ao menos tinha alguém para defender. Nesse sentido, as críticas ambientais acabam diluídas em meio a uma crítica maior e mais geral.

Costuma-se contrapor o direito dos povos indígenas ao desenvolvimento nacional. Essa contraposição já não seria, por si só, contraditória?

Dizer que a proteção aos povos indígenas é contrária ao desenvolvimento nacional é uma mentira. Não podemos admitir um desenvolvimento nacional com destruição da natureza, e as terras indígenas preservam a natureza. Quem é contrário a isso está ultrapassado. Uma das maiores preocupações mundiais é a alimentação. Mas a falta de comida significa que temos que invadir terras indígenas? Elas não são o lugar para produzir comida. É preciso pensar em desenvolvimento atrelado à preservação da natureza. Destruir as terras indígenas vai piorar a condição da água, gerando reflexos em todo o país. Dependemos da Amazônia, da Mata Atlântica. Tudo o que for destruidor da natureza prejudica o nosso desenvolvimento. Não se trata, portanto, de mera contradição, mas de uma mentira.

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‘Acostumados à barbárie’: Pesquisadora de Oxford alerta para risco de normalização de incêndios na Amazônia

Fogo e desmatamento na Amazônia causam preocupação em todo o mundo

Um grande risco para a Amazônia nos próximos anos é a normalização dos incêndios no bioma, alerta a bióloga brasileira Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster, ambas no Reino Unido.

A especialista, que estuda os impactos do fogo na Amazônia, ressalta que neste momento as atenções sobre as queimadas estão voltadas para o Pantanal, que enfrentou a seca mais intensa das últimas décadas e o pior período de incêndios em sua história recente.

Apesar de reforçar a importância de se falar sobre a situação do Pantanal e de cobrar ações rápidas das autoridades para a região, Berenguer pontua que não se deve esquecer dos problemas vividos na Amazônia.