Henrique Meirelles & JBS. Um Esquecimento conveniente

A conveniente ausência de Henrique Meirelles na delação da JBS

Brazilian Finance Minister Henrique Meirelles speaks during a ceremony to announce measures to make access to labour rights more flexible at Planalto Palace in Brasilia on February 14, 2017.The Government expects the injection of R$ 40 billion (around U$ 13 billion) in the economy with the access of workers to amounts retained in the guarantee fund. / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)
 Foto:AFP/GettyImages
 Dos nomes cogitados até aqui para suceder Michel Temer, como nome de “consenso” – ou, se preferir, com a chancela do mercado –, um deles não apenas já disputou eleições, esteve no comando de parte importante da economia do país por quase uma década e, apesar de ostentar uma farda de tecnocrata, sempre teve ambições políticas. Ele já passou por três partidos (PSDB, PMDB e PSD) e, em sua única incursão eleitoral, mostrou força: foi eleito deputado federal por Goiás, com a maior votação no Estado. Seu nome é Henrique Meirelles.

A solução Meirelles agrada a muitos atores relevantes numa possível queda de Michel Temer: o empresariado, o setor financeiro, o PMDB, o PSDB, aqueles que empunham a bandeira do “Brasil não pode parar”. Agrada, de certa forma, até mesmo ao ex-presidente Lula – depois de comandar o Banco Central durante os oito anos de governo do petista, ainda foi alvo de lobby do ex-presidente junto a Dilma Rousseff para que ele voltasse a ocupar um cargo de relevo na área econômica.

Depois da eclosão da crise política na semana passada, Meirelles limitou-se a dizer a empresários e investidores algo que, ao menos, já serviu de alívio: mesmo num mandato-tampão ou num novo governo até 2018, ele está disposto e confortável para seguir no comando do Ministério da Fazenda, ditando os rumos da economia do país.

Num cenário de eventual estabilização econômica e política, Meirelles fica em condições de disputar o comando do país no voto direto, seguindo, 24 anos depois, o caminho de outro de seus avalistas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Se alguma coisa nessa linha se concretizar, Meirelles terá alguém a agradecer: Joesley Batista e outros integrantes do grupo JBS.

O nome do ministro da Fazenda passou incólume nas 41 delações narradas a procuradores pelo alto escalão da JBS. A única exceção é a conversa que Joesley gravou com o presidente Michel Temer, no porão do Palácio do Jaburu, na noite de 7 de março. Naquilo que é possível discernir do áudio de péssima qualidade, Joesley relata intimidade e acesso fácil a Henrique Meirelles. Temer não se mostra surpreso. Mais que isso, o empresário conta para o presidente da República sobre suas agruras na tentativa de emplacar nomes de interesse do grupo J&F em postos-chave de órgãos de controle da atividade econômica.

Temer, em um de seus potenciais crimes praticados naqueles 30 minutos de conversa e agora investigados pela Procuradoria-Geral da República, diz para Joesley que, se Meirelles ficasse resistente aos pleitos, poderia usar seu nome e dizer ao ministro que ele, Temer, dera aval para que os pedidos da JBS e outras empresas do grupo J&F fossem considerados.

Batista – É só isso que eu queria, ter esse alinhamento. Pra gente não ficar e pra ele perceber que nós temos

Temer – (Inaudível)

Batista – Uhum, uhum. Quando eu digo de ir mais firme no Henrique é isso, é falar “Henrique, você vai levar, vai fazer isso? Então tá bom”. Porque aí ele vem, então pronto, é esse alinhamento só que eu queria ter.

Temer – Pode fazer isso.

A origem dessa proximidade entre Joesley e Henrique Meirelles vem de 2012. Apesar de toda essa relação de mais de cinco anos com o ministro da Fazenda, que poderia fazer brilhar os olhos de procuradores interessados em limpar a administração pública, ela sequer é questionada pelos membros do Ministério Público que tomaram os depoimentos de Joesley.

Em uma semana, Meirelles respondia apenas a Joesley e demais integrantes da família Batista. Na semana seguinte, seu chefe passou a ser Michel Temer.

No início de 2012, o dono da JBS convenceu o homem que presidiu o Banco Central ao longo de todos os oito anos de governo Lula a assumir o cargo de presidente do conselho consultivo do grupo J&F – a cabeça de um império que se estende do processamento de carnes até materiais de limpeza.

Em entrevista à revista Exame na época, Joesley Batista tratou de explicar que o posto de Meirelles em sua empresa estava longe de ser o de rainha da Inglaterra. “O Meirelles não vai ser apenas um consultor. Vai cobrar resultados dos executivos e traçar estratégias para a expansão do negócio.”

Dito e feito. Meirelles comandou o crescimento da companhia ao longo dos quatro anos seguintes. Banqueiro de origem, em 2016 assumiu a presidência do Banco Original, também do grupo J&F, com a ousada promessa de transformar a instituição no primeiro banco brasileiro 100% digital.

Não teve tempo de cumprir a promessa porque, em maio de 2016, cedeu às investidas de Michel Temer e aceitou retornar ao governo federal – desta vez para assumir o Ministério da Fazenda em meio à maior crise econômica da história do país.

Em uma semana, Meirelles respondia apenas a Joesley e demais integrantes da família Batista. Na semana seguinte, seu chefe passou a ser Michel Temer. As menções a Meirelles não escapariam, evidentemente, de uma conversa entre os dois patrões do banqueiro.

Uma leitura que se poderia fazer dessa conversa é que o atual ministro da Fazenda seria incorruptível. De fato, não existem evidências de que Meirelles tenha recebido propina. Mas isso também não foi investigado com profundidade pelo Ministério Público. Convém lembrar que, se a desconfiança sobre o governo do presidente Michel Temer provocou um curto-circuito financeiro na Bolsa de Valores, imagine o que poderia acontecer se Meirelles, o ponto de sustentação da parca confiança do empresariado na retomada econômica, também constasse como delatado.

Ou Joesley mente ao dizer que tem falado com Meirelles, ou a atribulada agenda de compromissos oficiais de Henrique Meirelles não é transparente.

Essa imagem de distanciamento pode ser reforçada pelo fato de que, oficialmente, não existe registro, desde que assumiu o Ministério da Fazenda, de nem um único encontro entre Henrique Meirelles e Joesley ou com quaisquer outros representantes de uma das maiores empresas do Brasil ou do grupo J&F. A rigor, a única vez que um representante da JBS pisou no Ministério da Fazenda durante o governo Temer foi, conforme os registros oficiais, disponíveis ao público, em 20 de outubro de 2016, quando um integrante do terceiro escalão do governo, o subsecretário de Crédito e Garantias às Exportações, Guilherme Laux, recebeu “representantes da JBS”.

Mas a conversa com Temer indica algo bem diferente.

O já histórico diálogo traz uma confirmação do trânsito de Joesley junto ao ministro da Fazenda e dos contatos que mantinha com Henrique Meirelles, a quem se refere como “Henrique”. O empresário diz ao presidente que “tem uma relação ótima comigo” e que “já andei falando com ele alguns assuntos”, dando a entender que isso havia acontecido recentemente.

Isso já é indicativo de que, ou Joesley mente ao dizer que tem falado com Meirelles, ou a atribulada agenda de compromissos oficiais de Henrique Meirelles não é transparente. Se seguiu o exemplo de Michel Temer, que recebeu Joesley Batista em sua residência oficial tarde da noite e ainda fez questão de orientá-lo a não se identificar na guarita do Palácio do Jaburu, não é implausível que Meirelles possa ter feito o mesmo.

Entre as defesas de Temer no caso, está a afirmação de que Joesley não conseguiu o que queria junto a Meirelles e ao governo. O diálogo entre Temer e o empresário indica que o presidente do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que, segundo Joesley, deveria ser um “ponta firme”, já tinha sido trocado em janeiro deste ano. Mas, na verdade, o novo presidente do órgão somente foi indicado pelo presidente Temer em 20 de abril, cinco semanas após a conversa entre os dois, junto com a indicação de mais um nome para o conselho. Não há evidências de que esses novos integrantes do Cade, que ainda serão sabatinados, sejam “abençoados” pela JBS.

Uma outra mudança importante pleiteada por Joesley a Meirelles e a Temer, e ainda em aberto, é no comando da CVM, órgão responsável por coibir fraudes na bolsa de valores. O atual presidente do órgão está no cargo desde 2012. Seu mandato termina em julho deste ano.

Banqueiro político

A ausência de perguntas sobre Meirelles nos depoimentos prestados por Joesley e outros integrantes da JBS aos procuradores da República chama a atenção. Em parte porque o ministro é nominalmente citado no áudio mais importante da delação – a conversa entre Joesley e Temer – como alguém que estaria em vias de ser corrompido para usar seu cargo em defesa de interesses do grupo J&F. Meirelles não está em nenhum dos anexos da delação. Também não foi alvo, ao que se sabe, de nenhuma gravação do empresário, nem antes nem depois do início da ação controlada.

Complementarmente, está o fato de que o ministro, embora muito respeitado pelo setor financeiro, está longe também de ser simplesmente um “nome técnico”. Ele sempre teve aspirações políticas clássicas, e circulou com frequência em meio a um universo em que a regra é caixa dois, como as delações da JBS e da Odebrecht deixaram claro.

Em 2002, foi eleito o deputado federal mais votado por Goiás, pelo PSDB. Meirelles sequer exerceu o mandato legislativo, no entanto. Em janeiro de 2003, já tinha na mão as chaves do Banco Central, dando respaldo ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva junto a um desconfiado setor financeiro.

Em 2010, com a era Lula chegando ao fim, Meirelles se filiou ao PMDB e cogitou concorrer ao governo de Goiás, onde fatalmente iria se expor à indústria do caixa dois – alimentada por empresas como a JBS. Acabou seguindo à frente do Banco Central. Anos depois, já como presidente do conselho da J&F, voltou a trocar de partido. Assinou a ficha de filiação do PSD de Gilberto Kassab (que, segundo a JBS, recebeu durante cerca de dois anos, um “mensalinho” de R$ 350 mil). Disputaria uma vaga no Senado, mas, novamente, acabou desistindo e optou por seguir na vida privada.

Agora, no ocaso da gestão Temer, ele aparece como nome preferido do mercado para, na eventualidade de uma eleição indireta, surgir como consenso para assumir o comando do país ou, ao menos, como ele mesmo já disse a investidores e empresários, permanecer à frente do Ministério da Fazenda.

Ao preservar Meirelles, o grupo J&F mantém potencialmente aberto um canal de diálogo na hipótese de Michel Temer deixar o governo. Figuras como ele e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha provavelmente nunca mais comprarão um bife da Friboi, mas Meirelles não teria muito do que reclamar. A delação de Joesley Batista, ao preservá-lo, pode elevá-lo de patamar no cenário político brasileiro.

Mantega

Se o material das delações não traz mais detalhes sobre a relação entre a JBS e o atual Ministério da Fazenda, de Henrique Meirelles, o mesmo não pode ser dito sobre a relação da empresa com a pasta nos governos anteriores, de Lula e Dilma, sob o controle do ex-ministro Guido Mantega.

Brazilian Finance Minister Guido Mantega speaks during a meeting of the Council of Economic and Social Development at the Palacio do Planalto in Brasilia on June 5, 2014. At one week of the start of the FIFA World Cup Brazil 2104, the government faces threats of strikes in various sectors like transportation, public safety and education, besides protests in all the host cities of the World Cup. AFP PHOTO/Evaristo SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Ex-ministro Guido Mantega – Foto: AFP/Getty Images

Conforme o Termo de Colaboração de Joesley Batista ao Ministério Público Federal, a partir de 2004 a JBS passou a pagar propina a um intermediário de Mantega, Victor Sandri, para obter grandes financiamentos. Na época, Mantega ainda era Ministro do Planejamento – ao qual o BNDES é vinculado. Ao assumir a Fazenda, o esquema de corrupção adquiriu proporções ainda maiores.Joesley Batista cita financiamento do BNDES de US$ 80 milhões, em 2005, para a JBS; US$ 580 milhões em 2007; US$ 500 milhões em 2008; US$ 2 bilhões por aquisição de debêntures, em 2009; e US$ 2 bilhões em favor da empresa Eldorado, em 2011.

Joesley conta que pagava uma porcentagem do valor dos financiamentos como propina, depositada em contas no exterior destinadas a Lula e Dilma. Em 2009, passou a negociar as tratativas diretamente com o então ministro Guido Mantega, com quem tinha contato frequente – a exemplo de Meirelles, raramente registrado em agenda oficial.

Os homens do presidente

Maiores aliados de Michel Temer, os ministros da Casa Civil, Eliseu Padilha, e da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, também não são alvos das delações da JBS. Ambos os ministros são investigados pelo Ministério Público Federal na Lava Jato, suspeitos de cobrarem propina da Odebrecht para o PMDB.

Conforme os delatores da Odebrecht, Eliseu Padilha era importante nas tratativas criminosas com a empreiteira e participou de negociações nos governo de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma – nos quais abocanhou ministérios – tendo arrecadado R$ 11,5 milhões em propina.

Moreira Franco, também conforme os delatores, cometeu crime de corrupção ao favorecer a empreiteira por meio de edital de concessões aeroportuárias, na época em que comandava a Secretaria de Aviação Civil, tendo recebido em troca R$ 4 milhões em propina.

Ambos os ministros, que possuem foro privilegiado em função do cargo, são os maiores defensores da permanência de Michel Temer na Presidência, e divulgaram vídeos com mensagens alinhadas à de Temer ao destacar melhorias na economia e enfatizar que “o Brasil não pode parar”.

Ao ficarem preservados da delação da Odebrecht, poderiam seguir, num governo tampão, atuando como articuladores políticos de um eventual novo governo no Congresso – especialmente Eliseu Padilha, que assumiu toda a condução política da reforma da Previdência.

A falta de informações a respeito da relação entre Eliseu Padilha e a JBS é questionável, levando em consideração que o ministro é criador de gado e foi fornecedor da empresa recentemente. Conforme reportagens publicadas na imprensa de Mato Grosso em março deste ano, a JBS teria desrespeitado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e comprado 240 cabeças de gado da Fazenda Cachoeira, da qual Padilha é um dos sócios e que está embargada por crime ambiental desde o ano passado.
Alline Magalhães, Jéssica Sbardelotto

Se está em jogo a “propinocracia”, TSE deve julgar chapa Dilma-Temer

Força-tarefa da Lava Jato reescreve história com foco no PT e deixa o novo protagonista oculto

Flávia Marreiro, El País

Há poucas coisas tão dolorosas nesta crise política como as oportunidades perdidas.

Um impeachment casuístico e fatiado é a desculpa perfeita para o PT se esquivar do profundo exercício de mea culpa que deve à sociedade brasileira e à esquerda, em particular, pelos erros no poder.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Era a hora e o momento de um debate sério sobre privilégios e desigualdades com o facão dos cortes sobre as nossas cabeças.

O Governo Temer acha, aliás, que está tudo bem com os mais pobres pagando o pato.

É muito provável que a questão da Previdência acabe com um grupo pequeno e coeso tentando empurrar goela abaixo um projeto enquanto outro grupo maior é liderado por uma cúpula que esperneia e tenta, se der, garantir umas vantagens setoriais e corporativas.

É com a mesma desolação que vemos a elite de umas das principais carreiras do serviço público brasileiro, a do Ministério Público Federal, abraçar sem dó o espetáculo para apresentar a denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Lava Jato.

Ele foi descrito como fundador e “maestro” do “Governo das propinas”, mesmo que entre os crimes a ele atribuídos na acusação formal não estivesse o de formação de quadrilha.

Não é a primeira vez que a grandiloquência acomete os procuradores de Curitiba na hora de falar sobre Lula.

Em março, na nota em que explicavam porque pediram à Justiça que o obrigasse a depor, o petista já era apontado como “maior beneficiado” do esquema de desvios na Petrobras (no qual só o ex-diretor Pedro Barusco devolveu 100 milhões ao erário, lembre-se).

Justiça aceita denúncia sobre corrupção na Petrobras na era FHC

Denúncia agora se torna uma ação penal com Duque e Barusco como réus.Segundo o Ministério Público Federal, pagamentos de propina começaram por volta de 1999, no governo de Fernando Henrique Cardoso

O juiz substituto da 3ª Vara Federal do Rio, Vitor Barbosa Valpuesta, aceitou a denúncia do Ministério Público Federal sobre pagamento de propina da empresa holandesa SBM Offshore a funcionários da Petrobras e confirmou que casos de corrupção na estatal começaram por volta de 1999, no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A denúncia foi feita pelos procuradores em dezembro e agora se torna uma ação penal, de acordo com reportagem da Folha de S. Paulo.

Os réus são os ex-funcionários da Petrobras Jorge Zelada, Renato Duque, Pedro Barusco e Paulo Roberto Buarque Carneiro, e os ex-representantes da SBM no Brasil Julio Faerman e Luís Eduardo Campos Barbosa.

Segundo o Ministério Público Federal, pagamentos de propina começaram por volta de 1999, no governo de Fernando Henrique Cardoso

O juiz Vitor Valpuesta entendeu que há indícios mínimos do cometimento dos crimes apontados, entre eles corrupção ativa, passiva e evasão de divisas.

A decisão de abertura da ação foi tomada no dia 13 de janeiro.

De acordo com o Ministério Público Federal, os pagamentos de propina começaram por volta de 1999, no governo de Fernando Henrique Cardoso, e seguiram até até 2012, passando pelos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

O caso começou a ser investigado ainda antes da Operação Lava Jato virar assunto, e por isso corre na Justiça do Rio.
JB

Circunstâncias fazem PT ser ‘ambíguo’ sobre Cunha, diz Olívio Dutra

Ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra diz que não concorda com a postura do PT.

PT,Corrupção,Olívio Dutra,Partidos Políticos

Figura histórica do PT, ex-ministro de Luiz Inácio Lula da Silva e ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra diz não concordar com a postura do partido frente às graves denúncias que recaem sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Na sua avaliação, o PT hoje tem uma postura “ambígua” porque, sendo governo, carrega “essa carga enorme no ombro de (ter que) fazer o governo funcionar”. E para tanto, afirma, “tem que trabalhar relações” com o Congresso.

Cunha é acusado de participação no esquema de corrupção da Petrobras investigado pela Operação Lava Jato – o que ele nega.

As denúncias ficaram mais fortes no fim de setembro, quando veio à tona que ele e sua família têm contas milionárias na Suíça. O parlamentar reconhece a existências das contas, mas diz que o dinheiro tem origem lícita.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“O PT, por conta das circunstâncias em que vive, está tendo uma postura, no meu entendimento, ambígua nisso porque não faz a declaração aberta da insensatez que é ter uma figura como o deputado Cunha, com todas, digamos, essas evidências de coisas malfeitas, presidindo a Câmara Federal”, afirmou Dutra à BBC Brasil.

“É uma questão realmente muito séria. O partido fica prisioneiro. Eu, particularmente, não concordo com essa postura. Mas quem está de fora (do governo) para dentro pode falar”, disse o petista, que atualmente está sem cargo político.

No momento, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados analisa uma representação contra Cunha apresentada por PSOL e Rede, mas que recebeu assinatura de deputados de outros partidos, a maioria deles (32) do PT.

No entanto, a imprensa brasileira tem noticiado que haveria um acordo nos bastidores, articulado pelo ex-presidente Lula, em que o PT retardaria o processo no conselho em troca de Cunha não dar início a um processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.
Esse acordo teria ganhado mais força após a decisão dos partidos de oposição, como PSDB e DEM, de romper com Cunha.

Cunha tem poder para dar início a um processo de impeachment contra Dilma
Há três deputados do PT no conselho: Zé Geraldo (PA), Valdir Prascidelli (SP) e Leo Brito (AC). Na semana passada, eles não apareceram no horário marcado para a leitura do relatório a favor da abertura de um processo contra Cunha – o que acabou contribuindo para dificultar o início da sessão por falta de quórum.

A reunião, marcada por muita polêmica, acabou não sendo realizada após manobras do presidente da Câmara para cancelar a sessão. Isso gerou forte reação de parte dos deputados, que abandonou o plenário da Casa aos gritos de “fora Cunha”.

A leitura do relatório pelo deputado Fausto Pinato (PRB-SP) ocorreu nesta terça, mas, como aliados de Cunha pediram vista para analisar o documento, a votação para decidir se um processo contra ele será aberto ficou para daqui a uma semana.
Caso seja instaurado, o processo deve se estender até abril de 2016.

PT e Dilma
Dutra nega a existência de tal “acordão” entre PT, governo e Cunha. Para ele, uma negociação do tipo “seria algo absurdo”.
“Eu duvido que tenha lideranças sérias do partido decidindo isso. Eu duvido até que me provem por A mais B que tenha essa negociação. Para mim, ela não existe, a não ser nas suposições do jogo político, adversário, para desgastar o governo e o PT”, afirmou.

“Até porque a Dilma, no meu entendimento, não tem porque sair do governo. Não tem argumentos consistentes, jurídicos, políticos, para um impeachment contra a Dilma. No entanto, ela fica constantemente prisioneira das chantagens da base aliada. O PMDB está e não está no governo. O Cunha é do PMDB, que é base do governo”, acrescentou Dutra.

Dutra nega “acordão” entre PT, governo e Cunha e diz que negociação “seria algo absurdo”.

O petista gaúcho não vê saída rápida para a atual crise, que na sua avaliação não é só do PT, mas de todo o sistema político. Ele aponta um suposto preconceito das elites contra o partido, mas reconhece que a legenda precisa fazer uma autocrítica.

“Eu acho que o PT está sendo uma mala sem alça para a Dilma. É um problema porque o PT se meteu em coisas que feriram profundamente o patrimônio ético e moral do partido. São figuras importantes (as envolvidas) e o PT não fez essa autocrítica pública, então fica cada vez mais desgastado nessa situação”, reconheceu.

“Ele (o partido) não ajuda muito a presidente. Aliás, eu acho que de certa forma é um peso. E os demais partidos estão também envolvidos em falcatruas. Às vezes para eles a política sempre foi isso, para nós a política não era para ser isso.”

Questionado sobre sua expectativa quanto ao desempenho do PT nas eleições municipais, Dutra disse que o eventual encolhimento do partido não é necessariamente ruim e criticou uma possível candidatura de Lula a presidente em 2018.

“É evidente que o partido não vai resolver a situação ganhando essa ou aquela eleição. Até acho que é muito temerário colocar o Lula como candidato a presidente da República”, opinou.

“O partido depender de uma única pessoa significa que o partido tem que fazer muito mais do que já fez para ter base social, quadros políticos, que não dependem de uma única figura, por mais importante que ela seja.”
BBC/Mariana Schreiber

Os sapatos do William Bonner

Jornal Nacional Mídia Blog do MesquitaWilliam Bonner, do Jornal Nacional, costuma dizer que todas as noites sua equipe tenta colocar um elefante dentro de uma caixa de sapatos. Sempre conseguem.

Trata-se da configuração do jornal de maior audiência na TV brasileira. Significa que grande quantidade das notícias produzidas é jogada na lata do lixo e outras tantas somente são divulgadas após lapidar edição que envolve a escolha de enquadramentos, incidências e aparas.

Por ficarem de fora, não serão discutidas pelo público: o “lixo”, outros enquadramentos, outras incidências, outras maneiras de ver e de apresentar os temas.

É o que se denomina agendamento (agenda setting), teoria bastante conhecida em todo o mundo por qualquer estudante de comunicação, desde os anos 70, que revela como os meios de comunicação determinam a pauta (agenda) para a opinião pública.

Ou seja, resolvem o que e de que forma – de que ângulo, de que ponto de vista, sob que aspecto ou profundidade – nós, indefesos leitores/ouvintes, devemos discutir a história de cada dia. Pois, para muitos, o que não deu no Jornal Nacional, a caixa de sapatos de Bonner, não aconteceu.

Tem-se no agendamento o instrumento de impor ao leitor/ouvinte uma carga de opiniões político-ideológicas ou culturais que interessam às instâncias de poder vinculadas aos donos do veículo de comunicação. Dito de outra forma, a linha ideológica nasce de modo “espontâneo”, das necessidades dos profissionais da comunicação de manter uma relação de boa convivência e conforto em seus postos de trabalho.

Ou seja, a linha ideológica da notícia nasce não só do perfil intelectual e cultural do jornalista, de suas relações e afinidades ou do seu compromisso social, mas também e sobretudo do tipo de (in)dependência profissional com seu veículo empregador.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

De qualquer forma, para a unanimidade dos estudiosos não há isenção na produção de qualquer matéria jornalística, mesmo a que não é rotulada como opinativa. E assim, o ouvinte/leitor recebe o “benefício” do agenda setting para não precisar pensar.

Já na década de 20, dizia o Estadão: “Um verdadeiro jornal constitui para o público uma verdadeira bênção. Dispensa-o de formar opiniões e formular ideias. Dá-lhes já feitas e polidas, todos os dias, sem disfarces e sem enfeites, lisas, claras e puras” (Editorial do O Estado de São Paulo, de 14/01/1928).

Pode-se inferir então que um mergulho no “lixo” e nas aparas, e um exame por ângulos e critérios ideológicos diversos no noticiário jornalístico, certamente produziriam caixas de sapatos diferentes da de Bonner. Um mergulho e um exame que serão facultados a qualquer ouvinte/leitor quando o veículo de comunicação lhe oferecer os diversos ângulos e a totalidade dos fatos, para que exerça criticamente sua análise e sua escolha. Será, enfim, a oportunidade de poder formar sua opinião, sua versão dos fatos.

Para que isso aconteça, a sociedade precisa se dar conta de que existe um direito que a Constituição lhe garante: o Direito à Informação. Informação em sua integralidade, que permita acesso a uma leitura crítica, personalizada, liberta das amarras opinativas unidirecionais viciadas. Democraticamente aberta a múltiplas interpretações e juízos. Múltiplas caixas de sapatos…

Mensalão e STF – Dia 7

No 7º dia, advogados citam Lula, e defensor pede nulidade da ação.
Defesa de Costa Neto afirmou que o dinheiro foi fruto de ‘acordo eleitoral’.
Defensor-geral da União disse que houve erro no processo do mensalão.

No sétimo dia do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), três advogados de réus do processo citaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante as sustentações orais. Lula foi mencionado pela defesa dos acusados ligados ao extinto PL – Valdemar Costa Neto, Jacinto Lamas e Antônio Lamas.

A ausência de Lula entre os réus do processo foi destacada por dois defensores. Foi a primeira vez que isso aconteceu no julgamento do mensalão, que teve início na última quinta-feira (2). O Supremo já ouviu 25 advogados dos 38 réus da ação penal.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O nome de Lula havia sido citado pela defesa de José Dirceu, que destacou que o ex-presidente foi testemunha da ação penal. Na leitura do relatório do processo, o ministro Joaquim Barbosa também disse que Lula foi testemunha. Barbosa lembrou o fato de que a defesa de Roberto Jefferson questionou a ausência do ex-presidente no rol de denunciados. O advogado de Roberto Jefferson falará nesta segunda (13) e deve voltar a abordar o assunto.

Nulidade

O encerramento da primeira semana dedicada às defesas dos acusados também foi marcada pela tentativa do defensor público-geral da União, Haman Tabosa de Moraes e Córdova, de anular o processo contra Carlos Alberto Quaglia, um dos réus ligados ao núcleo do Partido Progressista (PP). Alegando insuficiência de recursos, o argentino foi representado pela Defensoria Pública no julgamento.

Quaglia é acusado pelo Ministério Público de ter disponibilizado sua empresa, a corretora Natimar, para a Bônus Banval lavar e repassar parte dos recursos do valerioduto para o PP. A defesa do empresário argentino reclama que ele teria sido prejudicado na instrução do processo por uma “falha” do Supremo.

Em 2008, afirma a Defensoria, Quaglia teria informado a Suprema Corte sobre a substituição de seu primeiro advogado, que o assessorava desde o inquérito policial. Segundo o defensor público, apesar de o acusado ter anexado a procuração de seu novo defensor aos autos, o tribunal passou três anos e três meses intimando o antigo advogado para os interrogatórios. “Não foi um erro do relator do processo. Foi um erro do tribunal”, disparou Córdova.

A suposta falha só teria sido corrigida em 2010, após a conclusão da fase de instrução do processo. Com base no eventual prejuízo processual, Córdova requereu que todos os depoimentos envolvendo o empresário argentino e a ala do PP sejam refeitos.

O pedido preliminar de nulidade apresentado pelo defensor público-geral abriu um debate entre os magistrados no plenário. Os ministros Ricardo Lewandowski, Cezar Peluso e Celso de Mello quiseram saber como havia se dado a troca de advogados e os motivos de o novo defensor não ter sido comunicado dos depoimentos.

A possível aceitação do argumento poderia gerar a nulidade do processo contra Quaglia e influenciar outros cinco réus que, segundo a Procuradoria, pertencem ao mesmo núcleo: Pedro Herny, Pedro Corrêa, João Cláudio Genú, Enivaldo Quadrado e Breno Fischberg. Os ministros do Supremo ainda terão de decidir, pelo voto, se aceitam ou não o pedido de nulidade durante o voto do relator.

Citações a Lula
Para corroborar a tese de que o dinheiro foi fruto de acordo político, o advogado Marcelo Luiz Ávila de Bessa citou na sustentação oral uma reunião da qual Lula teria participado para discutir o compartilhamento de recursos entre PT e PL.

“Daí a tal reunião no apartamento do deputado Paulo Rocha, que participou mas não do acordo. Estava Lula, o vice Alencar, representantes do PT, Valdemar e Delúbio. Foi discutido como uma forma de realizar a campanha, como motivação única e exclusivamente, como causa, a coligação entre PT e PL, com o partilhamento do caixa de campanha.”

No púlpito do Supremo, o advogado de Jacinto Lamas, Délio Lins e Silva Júnior, disse que Lula também argumentou que não sabia do esquema e não integra o rol de réus. Avaliou que seu cliente deveria ter o mesmo tratamento.

“Não estou aqui dizendo que [Lula] deveria figurar nesta ação. Acredito que ele não sabia. É a ausência de critério do Ministério Público. Se entre as quatro paredes do Planalto era feita a tratativa, quem seria o maior beneficiário do esquema? Seria o chefe do governo, o presidente Lula. Existe uma pessoa que disse que Lula sabia de tudo, e foi Roberto Jefferson. É tão fácil acreditar em Lula e é tão difícil acreditar em Lamas, um mero subalterno, quando ele diz que não sabia?”, disse.

O advogado Délio Lins e Silva, que defendeu Antônio Lamas, irmão do ex-tesoureiro, também usou o mesmo argumento.

“Era para ser a denúncia do Ali Babá e os 40 ladrões. Na medida que eu vejo 100 pessoas com a mesma conduta que não foram denunciadas e o Antônio Lamas foi, eu me questiono, qual foi o critério para ele ser denunciado? Foi o sobrenome? […] Por que o senhor Luiz Inácio Lula da Silva não foi denunciado? […] E eu só trouxe isso porque, nesse país, o pau só quebra nas costas do pequeno. O cacete só rola nas costas do humilde”, disse.

Na segunda (13), o advogado de Jefferson pretende sustentar diante dos 11 ministros do STF que, mesmo que Lula não tivesse conhecimento sobre o suposto pagamento de propina a parlamentares em troca de apoio político no Congresso, ele deveria ter sido responsabilizado criminalmente pela existência do mensalão.

“Vou chamar o procurador-geral da República para a briga. Lula não poderia ter ficado de fora (da denúncia da PGR), mas ele tem vários zagueiros eficientes””, afirmou Barbosa em entrevista ao G1 no final de julho.

Além da defesa de Jefferson, também farão sustentações orais nesta segunda os advogados de Bispo Rodrigues, Emerson Palmieri, Romeu Queiroz e José Borba.

Veja abaixo um resumo do que disseram os advogados dos cinco réus desta sexta.

Breno Fischberg
O advogado Guilherme Alfredo de Moraes, que defende Breno Fischberg, afirmou que o processo não demonstrou a culpabilidade de seu cliente no suposto esquema. Para o defensor, o MP deveria ter pedido a absolvição de Fischberg ao verificar que não havia elementos para condenar seu cliente.

“O MP não é órgão condenador. É órgão seguidor de leis, fiscalizador. “A [sua] missão constitucional, procurador-geral da República, ao perceber que os vínculos que ligariam Breno [com o mensalão] caíam por terra, precisaria [a Procuradoria] se encontrar com um pedido de absolvição.”

O advogado disse que seu cliente teve a vida “aniquilada” para tentar provar que não tinha relação com o suposto esquema.

Carlos Quaglia
O defensor público-geral da União, Haman Córdova, disse que seu cliente teve os “braços e pernas amarrados” porque a defesa não foi intimada para participar da fase de interrogatórios por mais de três anos.

“De janeiro de 2008 a abril de 2011 houve essa falha processual. Ele não pode acompanhar nenhum depoimento daqueles que o envolveram nesta ação penal. […] Eu entendo que há nulidade absoluta. Requeremos o deferimento da nulidade, com a consequente marcha ré no processo para que seja recolocado no trilho o processo a partir de seu interrogatório em juízo”, afirmou o defensor.

Quaglia é o único réu do processo do mensalão sem advogado e para o qual foi designado um defensor público da União. Defensor público é aquele que presta assistência jurídica para pessoas que não podem pagar um advogado particular. De acordo com o defensor, o réu não tinha recursos financeiros. Segundo ele, a renda de Quaglia é de um quarto de salário mínimo e ele teria pedido benefício de assistência social se não fosse de nacionalidade argentina.

Valdemar Costa Neto
O advogado Marcelo Luiz Ávila de Bessa, que defende o deputado federal Valdemar Costa Neto (PR-SP), confirmou que o cliente recebeu dinheiro do PT, mas disse que os recursos foram repassados ao presidente do extinto PL (atual PR) e não ao parlamentar. Segundo o defensor, não houve compra de votos, mas sim um “acordo eleitoral”.

Para o advogado Marcelo Bessa, o “acordo” entre PT e PL foi para viabilizar a campanha presidencial de 2002, na qual José Alencar, então no PL e morto em março de 2011, era o candidato a vice na chapa na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva.

“Houve um acordo político. Mas no caso especifico, houve um acordo de Valdemar, não por ser deputado, e não porque seria deputado, mas sim porque era presidente de partido, para viabilizar na campanha presidencial a candidatura de José de Alencar como vice. […] Foi um acordo eleitoral”, afirmou o advogado, que citou uma entrevista dada por Alencar que confirmava o acordo para a campanha presidencial.

Jacinto Lamas
O advogado Délio Lins e Silva disse que o ex-tesoureiro do PL Jacinto Lamas é um “zero à esquerda” e que quem mandava no PP era o então presidente do partido, Valdemar Costa Neto.

O advogado disse que o cliente fez o saque por ordem de Valdemar Costa Neto. [Jacinto] não tinha consciência da ilicitude dos saques a mando de Valdemar Costa Neto.”

“Quem mandava e desmandava, como manda e desmanda até hoje, era Valdemar Costa Neto, mandava desde a compra de uma caneta ou café, até as reuniões políticas e as votações de A ou B. Jacinto era um zero à esquerda em termos políticos”, completou o advogado. O defensor pediu para que sejam separados “mensaleiros e mensageiros”.

Antônio Lamas
O advogado Délio Fortes de Lins e Silva, que representa o irmão do ex-tesoureiro do PL Antônio Lamas, questionou se houve “abuso” do Ministério Público Federal ao denunciar seu cliente. O advogado chamou a denúncia, apresentada pelo procurador-geral anterior, Antonio Fernando de Souza, de “guisado”.

“Esse guisado, ele veio temperado com uma dose de exagero, uma colher de abuso e uma pitada muito forte de irresponsabilidade muito forte da representação anterior do Ministério Público”, afirmou o advogado.

Segundo o defensor, seu cliente não recolheu habitualmente valores para o deputado Valdemar Costa Neto, então presidente do PL, como descreve a denúncia. Isso porque, de acordo com o advogado, ele foi uma única vez ao banco Rural, a mando de Costa Neto. “Teria havido abuso do Ministério Público? Eu pergunto: teria havido exagero?”
Fabiano Costa, Mariana Oliveira e Rosanne D’Agostino/G1 

João Paulo Cunha nega mensalão e diz que houve ‘erro político’ do PT

Deputado Federal PT Mensalão João Paulo Cunha

Às vésperas do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP), um dos réus deste processo, disse que o maior escândalo do governo Luiz Inácio Lula da Silva foi um erro cometido e já corrigido pelo PT.

Em entrevista ao site Consultor Jurídico (Conjur), o deputado nega a existência do mensalão e alega que o que houve foi “financiamento irregular de campanha” do PT e seus aliados.

E, no seu entender, o processo no qual é réu é uma questão para o Código Eleitoral, enquanto o esquema envolvendo o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e parlamentares, como o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO), se enquadra no Código Penal.

Para o parlamentar, os dois casos podem ser resumidos da seguinte maneira: “É o paradigma da lei: do Código Eleitoral para o Código Penal”.

Segundo ele, o erro cometido – e corrigido – pela direção do PT no episódio denominado de mensalão foi, fundamentalmente, um erro político já admitido pelo PT por conta do sistema de financiamento de campanha que existe no Brasil.

“O erro político foi utilizar recursos não contabilizados, ou ”caixa dois”, para fazer campanha eleitoral ou preparação de processos eleitorais”, justificou João Paulo Cunha.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Para o deputado, outra diferença é que no mensalão não houve enriquecimento ilícito dos acusados.

“Não há, entre todos os réus do mensalão, um acusado de apropriação particular de recurso.

O único caso, que, por causa disso, está fora do processo, é o caso do Silvio José Pereira, o Silvinho, acusado de ter recebido uma Land Rover de um construtor da Bahia. Em resumo: cometemos infrações de caráter administrativo e eleitoral. No caso Demóstenes/Cachoeira parece que não é a mesma coisa”, acrescentou.

Ao negar a existência do mensalão e justificar o episódio como “financiamento irregular de campanha”, Cunha diz: “Foi um financiamento irregular de campanha do PT e dos aliados.

Funcionou com recursos não contabilizados, não declarados, para o PT e para os partidos aliados. Não tem nenhuma prova do mensalão (como esquema de compra de apoio no Congresso).

Ninguém aponta onde entrou o dinheiro e onde ele influenciou em alguma votação. Isso não foi mostrado.”

De acordo com o deputado, o PT cresceu com o processo e se corrigiu.”Podemos ter errado em uma época, mas não podemos continuar no caminho errado.

O problema seria permanecer no caminho errado. Nós já corrigimos isso, que foi um erro, causado pela busca exacerbada pelo holofote, pela aparição fácil, da nossa sociedade do espetáculo”, disse.
Daiene Cardoso, da Agência Estado

Tópicos do dia – 02/05/2012

12:38:38
Supremo deve discutir julgamento do mensalão nesta quarta
Relator Joaquim Barbosa pediu discussão do formato do julgamento.
Ação penal por suposta compra de apoio para o governo tem 38 réus.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) devem debater nesta quarta-feira (2) o formato do julgamento do processo do mensalão. Está na pauta da sessão uma questão de ordem proposta pelo relator do caso, Joaquim Barbosa, para que os ministros discutam o assunto.
A ação penal apura a responsabilidade de 38 réus no suposto esquema de compra de apoio político durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para que a ação entre na pauta de julgamentos, falta somente a liberação do processo pelo ministro revisor, Ricardo Lewandowski.

Ainda não há data prevista para que Lewandowski termine a revisão, mas ministros já discutem mudanças na rotina do tribunal para julgar o caso.
O risco de prescrição, o número de réus, que terão uma hora cada para se defender, as 600 testemunhas ouvidas e a complexidade dos fatos narrados nos autos vão exigir uma força-tarefa para que o julgamento ocorra antes do período eleitoral.

Considerado o mais complexo caso já analisado pelo Supremo, a ação penal do mensalão deve levar de três a quatro semanas para ser julgada, na avaliação de ministros.
De acordo com o regimento interno da Corte, o advogado de cada um dos 38 réus terá uma hora para apresentar sua defesa no plenário. O texto também prevê uma hora para o procurador-geral da República, autor da denúncia do mensalão.

Como aconteceu no julgamento de 2007, quando o STF aceitou a denúncia contra os acusados, é possível que o tempo da acusação seja estendido, em razão da quantidade de réus. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, já afirmou que uma hora para a acusação seria “insuficiente”.
G1

14:06:59
Por Cabral, PMDB revê seu posicionamento na CPI
Vera Magalhães, Folha de São Paulo
O Palácio do Planalto calcula que o desgaste causado ao governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), pela profusão de imagens mostrando sua intimidade com o empresário Fernando Cavendish, presidente licenciado da Delta, terá pelo menos um efeito imediato: o PMDB será forçado a rever sua posição de distanciamento da CPI do Cachoeira.
A tendência é que a legenda, a despeito da avaliação que Cabral faz política fora do partido, antecipe a montagem do seu “primeiro time” na CPI, indicando senadores experientes e com trânsito na oposição para as vagas que deixou em aberto à espera de incêndios


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Tópicos do dia – 01/04/2012

09:10:00
Corrupção: aliado do Ministro da Saúde envolvido em suborno

Nesta semana, além da matéria de capa “O mistério renovado do santo sudário”, a revista Veja traz reportagem sobre como a disputa política pelo comando de hospitais federais motivou jogadas sórdidas, envolvendo deputados federais e um aliado fiel do ministro Alexandre Padilha (Saúde).
Como pano de fundo, a velha disputa de espaço entre PT e PMDB. O aliado do ministro é Edson Pereira de Oliveira, que acompanha Padilha há duas décadas.

Em dezembro, ele deixou o cargo de assessor especial de Padilha alegando razões pessoais, mas a verdade é que caiu por causa da pressão de parlamentares fluminenses. Oliveira poderia ter resistido se não fosse por um detalhe: havia recebido R$200 mil de propina, transferidos em depósitos separados, de emissários de um grupo suspeito de desvios milionários em hospitais do Rio. O suborno foi pago a Edson para que o bando continuasse com um canal aberto junto ao ministério. Os depósitos bancários comprovam que os pagamentos foram feitos em junho de 2011.

Entre os depositantes, estão empregados de uma empresa farmacêutica que recebeu R$3,8 milhões da União desde 2009 – parte deles graças a contratos com hospitais universitários do Rio de Janeiro. Os R$200 mil cobriram uma dívida de campanha de Edson, que havia concorrido nas eleições municipais de 2008. Veja localizou Valsido de Souza, um dos laranjas de Oliveira para receber o pagamento. Ele confirma: “Eu recebi para pagar a dívida de campanha dele”.

09:20:30
Ação entre amigos: projeto de Demóstenes no Senado virou rentável negócio de Cachoeira
Reportagem de Vinicius Sassine, no Correio Braziliense, mostra que uma das principais bandeiras de Demóstenes Torres (DEM-GO) no Senado serviu a um dos ramos de negócio de Carlinhos Cachoeira.

Amigo íntimo do bicheiro/empresário, o senador foi relator na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do projeto que alterou o Código Penal e a Lei de Execução Penal para permitir o monitoramento eletrônico de presos por meio de pulseiras ou tornozeleiras eletrônicas. Demóstenes incluiu uma emenda no texto que ampliou a possibilidade de uso dos equipamentos.

Diálogo telefônico usado pela Polícia Federal (PF) para a Operação Monte Carlo, obtido pelo Correio, revela que Cachoeira intermediou a compra de 2 mil tornozeleiras eletrônicas, em maio do ano passado: “Carlinhos pede para pegar um negócio em Brasília, 2 mil peças, tornozeleiras de presídios”, cita a PF na transcrição da conversa entre o bicheiro e um funcionário.

Ex-secretário de Segurança Pública e ex-procurador-geral de Justiça em Goiás, Demóstenes é um contumaz defensor do monitoramento eletrônico de detentos com alta periculosidade. Em 2010, pediu apoio aos líderes partidários no Senado para aprovarem o Projeto de Lei nº 175, de 2007, relatado por ele na CCJ. A proposta foi aprovada em maio de 2010 e sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mês seguinte.

09:36:43
Mais um ministro na mira de D. Dilma.
Esquenta a frigideira sob Gilberto ‘Leaks” Carvalho, Secretário Geral da Presidência da República. D. Dilma já está ao pé do fogão.

10:01:35
Brasil: da série “perguntar não ofende”.
Por que o banco do Brasil alega “sigilo” para não revelar as condições de financiamento para a construção do Estádio do Corinthians?

13:10:20
Lei seca. Hospitais econonizam 4,5 milhões de reais.
Apesar da resistência dos pinguços e dos que não conseguem ver além dos próprio interesses, desde a vigência da leiseca, os ganhos sociais, materiais e principalmente de vidas, vais demonstrando a importência monumental da medida.
Aos que argumentam que a lei os proíbe de beber, convém lembrar que não está proibido beber. O que está proibido, e sempre esteve, é dirigir alcoolizado. O resto, é bafo!

13:23:51
Brasil: da série “o tamanho do buraco”.
1. 75% dos brasileiros nunca foram a uma biblioteca. Algo em torno de 142.500.00 de Tupiniquins.
2. Isso equivale a 20% da população da Europa, ou como se toda a população da Alemanha e da Itália jamais entrasse em uma biblioteca.
Putz!


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Economia brasileira se dá bem em meio à insensatez global

Os brasileiros, que no passado não ficavam alheios às crises econômicas, viram-se repentinamente na invejável posição de espectadores das insanidades do mundo desenvolvido.

Na TV brasileira, em programas de entrevistas sobre temas atuais, fervilham há semanas, discussões sobre os problemas que estão varrendo a Europa e os EUA – do impasse em Washington em torno do teto de endividamento americano à crise financeira grega e o escândalo envolvendo o “News of the World”, no Reino Unido.

Dilma Rousseff, a presidente do Brasil, pareceu resumir, na semana passada, as percepções brasileiras sobre um mundo exterior enlouquecido, ao descrever a crise da dívida nos EUA e na Europa como “insanidade”. A incapacidade política do mundo desenvolvido em encontrar soluções para seus problemas, segundo ela, representa uma “ameaça” à economia mundial.

Mercado emergente em dificuldades, uma década atrás, o Brasil é hoje um cenário de estabilidade macroeconômica e política, em comparação com seu antes arrogante parceiro setentrional e com as antigas potências coloniais europeias.

Não só o Brasil é agora um credor dos EUA, com US$ 327 bilhões em reservas de moeda estrangeira em junho, como também a economia está crescendo e o desemprego registra uma baixa recorde.

Mas, com o mundo desenvolvido exibindo tendências antes associadas a mercados emergentes, o desafio, para o Brasil, está em como administrar seu êxito.

O país não pode se dar ao luxo de complacência diante da tarefa ainda difícil de escapar da “armadilha de renda média” em que sua economia ficou presa durante décadas.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A ruptura positiva, para a economia brasileira, veio na década de 90, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso implementou políticas destinadas a estabilizar os preços ao consumidor e o câmbio.

Seu sucessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, manteve o foco na estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, expandiu programas sociais para melhorar a qualidade de vida dos mais pobres.

Os resultados foram notáveis.

O crescimento econômico brasileiro registrou uma média de 4% ao ano durante os últimos oito anos e quase 49 milhões de brasileiros foram alçados às classes média ou alta.

O Brasil também mostrou-se relativamente responsável no enfrentamento de desafios. Seu sucesso econômico atraiu uma enxurrada de dinheiro de estagnados mercados desenvolvidos, elevando a taxa de câmbio da moeda brasileira, o real, em relação ao dólar, ameaçando a competitividade da indústria local.

O Brasil tem reagido com a denominada “guerra cambial” – controles de capital e monetários – visando conter essa valorização.

Mas o Brasil, predominantemente, tem resistido às pressões da indústria nacional no sentido de tomar medidas extremas, impondo, em vez disso, um complexo sistema de taxação destinado a desencorajar os fluxos de capital especulativo de curto prazo.

No front fiscal, durante a campanha presidencial no ano passado, Dilma posicionou-se contra uma enxurrada de gastos, defendendo o enxugamento da proposta de Orçamento para este ano.

O Banco Central também tomou a difícil decisão política de elevar as taxas básicas de juros, já altas, no Brasil, por cinco vezes, neste ano, para 12,5%, para reprimir um surto inflacionário.

O BC acoplou essas medidas a outras, destinadas a frear o crescimento rápido do crédito, que alguns analistas temem ser insustentável.

No front político, Dilma está limpando a corrupção no Ministério dos Transportes, demitindo autoridades alinhadas com um partido político parceiro da coligação de seu PT.

Seus problemas políticos têm sido interpretadas pela opinião pública como uma “limpeza de primavera” por uma presidente recém-eleita.

Nada disso significa que o Brasil não tenha seus próprios problemas.

Um mercado de trabalho apertado, um sistema de ensino fraco e escassez de trabalhadores qualificados estão provocando altas de salários, ao mesmo tempo em que uma infraestrutura deficiente vem pressionando os custos para cima.

Os níveis de endividamento das famílias estão parecendo insustentáveis para os endividados que vivem um boom de crédito.

O Brasil precisa ter cuidado para não enterrar sua nova classe média sob tanta dívida que, quando chegar a próxima crise de desaquecimento econômico, eles voltem a submergir na pobreza.

Os custos de tocar negócios continuam proibitivos, em parte por causa dos altos impostos e dos custos trabalhistas.

Embora os preços das commodities tenham subido, os volumes de exportações não cresceram.

O Brasil tem usado as receitas inesperadas do boom de commodities para incrementar o volume de suas importações.

O Brasil pode sentir-se orgulhoso de si próprio.

Mas terá de manter-se vigilante para assegurar que não plante as sementes da próxima crise durante o atual período de prosperidade.

Joe Leahy | Financial Times/VALOR
(Tradução de Sergio Blum)