Walt Whitman – Versos na tarde – 05/02/2016

Neste momento terno e pensativo
Walt Whitman¹

Neste momento terno e pensativo
Aqui sentado a sós
Sinto que existem noutras terras outros homens
Ternos e pensativos,
Sinto que posso dar uma espiada
Por cima e avistá-los
Na França, Espanha, Itália e Alemanha
Ou mais longe ainda
No Japão, China ou Rússia,
Falando outros dialetos,
E sinto que se me fosse possível
Conhecer esses homens
Eu poderia bem ligar-me a eles
Como acontece com homens de minha terra,
Ah e sei que poderíamos
Ser irmãos ou amantes
E que com eles eu estaria feliz.

¹Walt Whitman
* Long Island, Usa – 31 de Maio de 1819 d.C
+ Long Island, Usa – 26 de Março de 1892 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Walt Whitman – Versos na tarde – 10/02/2015

Desdobrado das Dobras
Walt Whitman ¹

Desdobrado das dobras da mulher
O homem se desdobra e está sempre
Por vir a se desdobrar:
Desdobrado da mulher mais soberba da terra
Está por vir o mais soberbo homem da terra,
Desdobrado da mulher mais amigável
Está por vir o mais amigável dos homens;
Só desdobrado do corpo perfeito de uma mulher
Pode surgir um homem perfeito de corpo,
Só desdobrado dos inimitáveis poemas da mulher
Podem criar-se os poemas do homem
(é só daí que vêm os meus poemas),
Desdobrado da arrogante e forte mulher que eu amo
Só daí é que pode vir
O homem forte e arrogante que eu amo,
Desdobrados dos abraços vigorosos
Da mulher firme que eu amo
É só daí que vêm os vigorosos abraços do homem,
Desdobrada das dobras do cérebro da mulher
Procedem todas as dobras do cérebro do homem
Umas seguindo as outras obedientemente,
A desdobrar-se da justiça da mulher
Toda a justiça do homem se desdobra,
Desdobrada da simpatia da mulher
É toda simpatia;
Grande coisa é um homem pela terra
E pela eternidade,
Mas cada vírgula da grandeza do homem
Tem sua origem na grandeza da mulher
– primeiro o homem toma forma na mulher
E só depois pode tomar forma em si mesmo.

¹ Walt Whitman
* Long Island, Usa – 31 de Maio de 1819 d.C
+ Long Island, Usa – 26 de Março de 1892 d.C


[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Emily Dickison – Versos na tarde – 09/01/2015

Poema
Emily Dickison ¹

Para o Ódio nunca tive –
Tempo –
pois que a Morte espreita –
E a vida nunca foi
tanta
Que uma Aversão se acabasse.

Nem tempo tive de Amar –
Ocupar-me
Era preciso –
Do amor o simples Trabalho –
Como achei –
Que Me bastava.

¹ Emily Dickinson
* Boston, Usa – 10 de Dezembro de 1830 d.C
+ Boston, Usa – 15 de Maio de 1886 d.C

>> biografia

Nota do Editor
O poema acima foi extraído do livro “Emily Dickinson: Alguns Poemas”.

Tendo vivido e produzido à margem dos círculos literários de seu tempo, solteira por convicção e auto-exilada dentro de casa por mais de vinte anos, Emily Dickinson não chegou a publicar os seus versos, por não se submeter aos rígidos padrões de discrição e singeleza que se esperava então de uma mulher.

Sua voz era uma voz estranha em meio às tímidas dicções poéticas da época, e por essa razão ela teve de encarar em vida a rejeição de seu labor poético. Ao arrumar o quarto de Emily depois que ela morreu, a sua irmã Lavinia encontrou uma gaveta cheia de papéis em desordem.

Eram cadernos e folhas soltas com uma grande quantidade de poemas inéditos. Disposta a divulgar a obra da irmã, Lavinia entrou em contato com um medíocre crítico literário, Thomas Higginson, que durante trinta anos renegou todos os versos que Emily lhe submetera, e uma obscura escritora, Mabel Todd, que por cinco anos havia freqüentado a casa da poeta sem nunca chegar sequer a vê-la.

Dessa improvável união de forças surgiu a publicação póstuma de alguns de seus poemas, seguida em pouco tempo de diversas outras edições, em vista da excepcional acolhida que tiveram.

Em 1955, o crítico e biógrafo Thomas H. Johnson reuniu numa edição definitiva todos os seus 1.775 poemas.

Sua escrita poética, ambígua, irônica, fragmentada, aberta a várias possibilidades de interpretação, antecipa, sob muitos aspectos, os movimentos modernistas que se sucederiam depois de sua morte. Essa instigante poesia, nascida na solidão e no anonimato dá hoje a Emily Dickinson um merecido e lugar na literatura universal.

Seus versos constam da coletânea “The Complete Poems of Emily Dickinson”, editada por Thomas H. Johnson, Cambridge, Mass (EUA), 1955.


[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Robert Creeley – Versos na tarde – 28/11/2014

Claridade
Robert Creeley¹

Específica, intensiva claridade,
como nada mais, nada menos
que ela mesma –
tudo isso, ecoa,
visto, ouvido, sentido
ou provado, o uno
e múltiplo.

Mas o punho contra
a porta, pergunta magro,
contrita entrada
quer mais.

Tradução Regis Bonvicino

¹Robert Creeley
* Massachusetts, Usa – 21 de Maio de 1926 d.C
+ Carolina do Norte, Usa – 30 de Março de 2005 d.C


[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Elizabeth Bishop – Versos na tarde – 21/03/2014

Poema
Elizabeth Bishop ¹

Perca algo todos os dias.
Aceite a perturbação
De perder as chaves da porta,
A hora mal usada.
A arte de perder
Não é difícil de dominar

¹ Elizabeth Bishop
* Massachusetts, Usa – 8 de Fevereiro de 1911 d.C
+ Massachusetts, Usa – 6 de Outubro de 1979 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Sylvia Plath – Versos na tarde – 16/02/2014

Eu sou vertical
Sylvia Plath ¹

Mas não que não quisesse ser horizontal.
Não sou árvore com minha raiz no solo
Sugando minerais e amor materno
Para a cada março refulgir em folha,
Nem sou a beleza de um canteiro
Colhendo meu quinhão de Ohs e me exibindo em cor,
Desconhecendo que me despetalo em breve.
Comparados a mim, uma árvore é imortal
E um pendão nada alto, embora mais assombroso,
O que eu quero é a longevidade de uma e a audácia do outro.

À luz infinitesimal das estrelas,
Flores e árvores trescalam seus frios perfumes.
Eu me movo entre elas, mas nenhuma me nota.
Chego a pensar que pareço o mais perfeitamente
Com elas quando estou dormindo –
Os pensamentos esmaecem.
É mais natural para mim deitar.
Céu e eu então animamos a prosa,
Hei de servir no dia em que deitar afinal:
E as árvores aí talvez em mim tocassem e as flores comigo se ocupassem.
(28-11-1961)

Sylvia Plath ¹
* Massachusetts, USA – 27 de Outubro de 1932
+ Primrose Hill, Londres, Inglaterra – 11 de Fevereiro de 1963 d.C

>> biografia de Sylvia Plath


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Paul Auster – Versos na tarde – 09/10/2013

Poema
Paul Auster¹

Leve-me com você,
e de nossas duas misérias
faremos talvez
uma espécie de felicidade.

¹Paul Benjamin Auster
* Newark, Usa – 3 de Fevereiro de 1947 d.C

Escritor, filósofo e poeta norte-americano autor de vários best-sellers como Timbuktu, O Livro das Ilusões, A Noite do Oráculo e A Música do Acaso.

Frequentou a Universidade de Columbia e viveu durante quatro anos em França. A sua proximidade à literatura francesa haveria de marcá-lo para sempre. Foi confesso admirador de André Breton, Paul Éluard, Stéphane Mallarmé, Sartre e Blanchot, alguns dos quais traduziu para língua inglesa. O seu gosto pela tradução é muitas vezes referido pelo próprio, que aconselha os jovens escritores a traduzir poesia para entenderem melhor o significado intrínseco das palavras. Além destes autores, Paul Auster refere ainda como suas influências Dostoiévsky, Ernest Hemingway, Fitzgerald, Faulkner, Kafka, Hodërlin, Samuel Beckett e Marcel Proust.

Em 1998, realizaria o seu primeiro filme, “Lulu on the Bridge”. Nos seus livros é evidente a influência cinematográfica norte-americana e as suas histórias desenrolam-se numa sucessão que faz lembrar um thriller, usando igualmente o método da “caixa chinesa”, sucessão de histórias no interior umas das outras. A sua obra parece ser mais apreciada na Europa do que no seu país natal. Atualmente vive em Brooklyn, Nova Iorque.

Boa parte da sua história ele conta no que parece ser uma autobiografia. “Da mão pra boca” reúne relatos de sua vida, um jogo criado pelo escritor chamado action baseball, e mais três peças do autor, consideradas por ele mesmo como fracas.


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Walt Whitman – Versos na tarde – 28/09/20132

O Próprio Ser Eu Canto
Walt Whitman¹

O próprio ser eu canto:
Canto a pessoa em si, em separado
_ embora use a palavra Democracia
e a expressão Massa.

Eu canto o Corpo
Da cabeça aos pés:
Nem só o cérebro
Nem só a fisionomia
Tem valor para a Musa
– digo que a forma completa
é muito mais valiosa,
e tanto a Fêmea quanto o Macho
eu canto.

A vida plena de paixão,
Força e pulsam,
Preparada para as ações mais livres
Com suas leis divinas
– O Homem Moderno
eu canto.

¹Walt Whitman
* Long Island, Usa – 31 de Maio de 1819 d.C
+ Long Island, Usa – 26 de Março de 1892 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Emily Dickinson – Versos na tarde – 03/08/2013

Poema
Emily Dickinson¹

Eu sou Ninguém! E tu quem és?
Também tu és – Ninguém?
Então somos dois? Não digas nada!
Haviam de apregoar – sabes!

Como é aborrecido – ser – Alguém!
Como é público – qual rã –
Dizer-se o nome – Junho fora –
A um Charco admirador!

¹Emily Dickinson
* Boston, Usa – 10 de Dezembro de 1830 d.C
+ Boston, Usa – 15 de Maio de 1886 d.C

>> Biografia de Emily Dickinson


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Edna St. Vincent Millay – Versos na tarde – 17/07/2013

O amor não é tudo
Edna St. Vincent Millay ¹

O amor não é tudo: nem carne nem
bebida, nem é sono, lar da gente,
nem a tábua lançada para quem
se afunda e volta e afunda novamente.

O amor não pode encher o pulmão forte,
pôr osso no lugar, tratar humores,
embora tantos dêem a mão à morte
(enquanto o digo) só por desamores.

Bem pode ser, na hora mais doída,
ou da minha franqueza arrependida,
buscando alívio à dor, seja capaz

de vender teu amor por minha paz
ou trocar-te a lembrança pelo pão.
Bem pode ser que o faça. Acho que não.

Tradução: Paulo Mendes Campos

¹ Edna St. Vincent Millay
* Maine, USA – 22 de Fevereiro de 1892 d.C
+ New York – 19 de Outubro de 1950 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]