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ONU denuncia “violações graves dos direitos humanos” durante protestos no Chile

Alto Comissariado para os Direitos Humanos, chefiado pela ex-presidenta Michelle Bachelet, recebeu relatos de execuções simuladas

Policiais prendem manifestante durante um protesto contra o Governo do Chile em Santiago, dia 14 de novembro.
Policiais prendem manifestante durante um protesto contra o Governo do Chile em Santiago, dia 14 de novembro. GORAN 
  • Manifestantes suben al monumento al general Baquedano durante el octavo día de protestas contra el gobierno del presidente Sebastián Piñera el 25 de octubre de 2019 en Santiago, Chile.
  • Protestas en Santiago de Chile contra la política de Sebastián Piñera, el martes, 29 de octubre.
  • Una protesta en Santiago de Chile.

Por outro lado, o relatório reconhece que o Governo chileno cooperou, sustentou um “diálogo franco” e entregou “amplas informações”, facilitando o “acesso rápido e sem entraves” aos locais de detenção. No entanto, o ACNUDH denunciou que tanto os Carabineiros (polícia), como o Exército não aderiram às normas e padrões internacionais sobre o uso da força. O relatório afirma que das 26 investigações do Ministério Público por mortes ocorridas no contexto das manifestações no Chile, quatro casos se devem a ações que envolvem agentes estatais. Romario Veloz Cortés pertence a esse grupo: cidadão equatoriano de 26 anos, faleceu em La Serena, cerca de 500 quilômetros ao norte do Santiago, devido a disparos com munição letal feitos por pessoal militar, um fato que está sendo investigado. “Busco justiça… justiça para todos os que morreram”, afirmou sua mãe, segundo o relatório do ACNUDH.

As Nações Unidas apontam a grande quantidade de pessoas lesionadas durante os protestos, incluindo os feridos nos olhos pelo uso de balas de borracha. “O ACNUDH considera que o número alarmantemente alto de pessoas com lesões nos olhos ou no rosto (aproximadamente 350) mostra que há razões fundadas para acreditar que as armas menos letais foram usadas de maneira indiscriminada”, afirma o Alto Comissariado, acrescentando que, embora o uso das balas de borracha estivesse suspenso enquanto sua composição exata é determinada – elas continham apenas 20% de borracha, segundo dois estudos acadêmicos –, “esta ordem não foi completamente implementada”.

O organismo internacional menciona o caso de Gustavo Gatica, o estudante de 21 anos que em 8 de novembro foi ferido em ambos os olhos por disparos dos Carabineiros e perdeu totalmente a visão. “As autoridades tinham informação sobre o alcance das lesões causadas neste contexto desde em 22 de outubro. Entretanto, as medidas tomadas não foram imediatas e efetivas”, afirma o departamento liderado por Bachelet – que foi também a primeira mulher a ocupar o ministério da Defesa no Chile, durante o mandato de Ricardo Lagos (2000-2006).

Torturas e maus tratos

O ACNUDH dedica um espaço do seu relatório de 35 páginas à “tortura e maus tratos”, dos quais afirma ter reunido 133 casos. Em 28 de novembro, o Ministério Público tinha iniciado 44 investigações nesta linha. Na maioria, diz o escritório da ONU, “os supostos autores são membros de Carabineiros”. O relatório enumera as formas mais comuns que teriam sido empregadas: socos fortes, chutes, coronhadas e golpes de cassetete, frequentemente realizados por vários agentes ao mesmo tempo. “O ACNUDH também recebeu informação sobre vários casos de pessoas atropeladas por veículos e motocicletas das forças de segurança” e detalha relatos que denunciam “tortura psicológica como ameaças de morte, ameaças de fazer a pessoa ‘desaparecer’, ameaças de estupro, surras em familiares e amigos na frente da pessoa e ameaças de agressão contra os familiares”.

O organismo liderado por Bachelet recebeu “relatos isolados” de execuções simuladas por parte dos Carabineros e das forças militares, como a descrita por um chileno de 28 anos. “O Exército me jogou no chão, senti golpes com a coronha de uma arma na minha cabeça e na coluna vertebral. Quando entramos no veículo militar, eles continuavam nos batendo e disseram: ‘Levemos [os detidos] ao quartel e vejamos o quanto eles aguentam com a eletricidade’. Suplicamos que nos deixassem ir embora. Nos tiraram [do veículo] na escuridão, e pude reconhecer que estávamos na parte de trás do cemitério. Havia uns 12 soldados atrás de nós, que carregaram suas armas. Nos fizeram gritar ‘perdoe-me, Chile’. Nesse momento, pensei que atirariam em nós. Choramos, demos as mãos e nos despedimos.”

Sobre violência sexual – reportada antes pelo HRW –, o ACNUDH reuniu 24 casos, que incluem “estupro, ameaças de estupro, tratamento degradante (como ser obrigado a se despir), comentários homofóbicos ou misóginos, golpes e atos que causam dor nos genitais e manuseios”.

As Nações Unidas incluem o relato de Carla, de 16 anos: “Foi detida pelos Carabineros em Viña del Mar com seu pai em 5 de novembro. No momento da detenção, seu pai avisou os Carabineros que ela tinha uma deficiência psicossocial. Ela disse ter sido forçada a mostrar os seios, ter sido assediada fisicamente com um bastão/cassetete e ter sido ameaçada de que seria desaparecida.”

Com base nos dados do Ministério da Justiça, o ACNUDH estima que, entre 19 de outubro e 6 de dezembro, houve 28.210 pessoas detidas, das quais 1.615 permanecem em prisão preventiva. Ao se referir a casos de detenções ilegais ou arbitrárias, o organismo detalha o relato de Jacinto, de 20 anos: “Informou ter sido detido por uma camionete vermelha às 5:00 da manhã; colocaram um capuz em sua cabeça e o levaram a um edifício onde teria sido interrogado, ameaçado e torturado. Segundo os relatos, inseriram agulhas debaixo de suas unhas e lhe pediram que dissesse ‘tudo o que sabia sobre os protestos’.”

O ACNUDH mencionou a destruição da infraestrutura pública e privada no contexto da explosão social e entrevistou policiais feridos durante os protestos, que, de acordo com o Ministério do Interior, chegam a 2.705 efetivos. Também fez 21 recomendações ao Estado chileno, incluindo uma série de medidas relativas aos Carabineros, como “estabelecer um mecanismo para coletar, sistematizar e difundir as informações sobre violações dos direitos humanos” e assegurar que o processo de elaboração de uma nova Constituição seja inclusivo, participativo e transparente, “inclusive garantindo a paridade de gênero – 50% homens e 50% mulheres – durante o processo e a participação de povos indígenas”. “Os direitos humanos devem estar no centro deste debate nacional”, concluiu o organismo liderado por Bachelet em Genebra.

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Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

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Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

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SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE OPRESSORES E OPRIMIDOS

A filósofa e ativista francesa Simone de Beauvoir dizia que os opressores não seriam tão fortes se não tivessem cúmplices entre os próprios oprimidos. Nessa mesma linha, Paulo Freire sentenciara: quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

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A filósofa e ativista francesa Simone de Beauvoir dizia que os opressores não seriam tão fortes se não tivessem cúmplices entre os próprios oprimidos. Nessa mesma linha, Paulo Freire sentenciara: quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.

Isso explica o sindicalista pelego, o pobre que propaga o falacioso discurso da meritocracia, a mulher que diz que outra mulher foi violentada sexualmente porque “usava roupas curtas”, o negro que declara que falar sobre racismo é vitimismo e o judeu que apoiou o regime nazista.

E assim tem sido desde os primórdios da civilização humana.

Uma das primeiras medidas do Império Romano ao conquistar novos povos era se aliar às elites locais que, em troca de receber alguns privilégios, garantiam a manutenção do poder de Roma.

Séculos depois, durante o processo de colonização, os europeus se aproveitaram de uma guerra civil para esfacelar o Império Inca e fomentaram conflitos étnicos entre os diversos povos africanos.

Os resultados dessas empreitadas: os colonizados, divididos, lutaram entre em si, em vez de combater o principal inimigo em comum: o colonizador.

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No Brasil, a elite jamais saiu de casa para manifestar seus interesses.

Para isso, sempre que precisaram, convocaram a classe média (que não se reconhece enquanto explorada) que prontamente ocupou às ruas para “protestar” contra governos que colocaram em prática políticas que minimamente beneficiariam os setores populares, como foram os casos de João Goulart e Dilma Rousseff, depostos por golpes de Estado.

A classe alta também não mata diretamente os pretos e pobres, recruta pessoas entre os próprios pretos e pobres para fazer isso.

Antes se chamavam “Capitães do Mato”; hoje “policiais”.

Por Francisco Fernandes Ladeira
Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ); Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); articulista do Observatório da Imprensa e professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) – Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.
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“Onda conservadora é regresso civilizacional”

Marco Lucchesi, presidente da ABL, classifica recentes ataques à liberdade de expressão na arte e na literatura de “sopro de barbárie”. Em entrevista, ele se diz contrário ao Escola sem Partido e a favor da pluralidade.Academia Brasileira de Letras,,ABL,Marco Lucchesi ,Liberdade,Arte,Literatura

Marco Lucchesi (Arquivo/ABL)
“A literatura pode ser boa ou má, mas não santa ou perversa”, afirma Lucchesi

A recente onda de movimentos conservadores e moralistas que têm buscado reprimir obras de arte no Brasil é um “sopro de barbárie”, desprovida de inteligência e de orientação, afirma o presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marco Lucchesi.

Escritor, poeta, professor, ensaísta e tradutor, Lucchesi também se opõe à proposta Escola sem Partido. “Na escola e nas universidades, devemos ver posições diferentes […] Uma pessoa pode concordar ou não com Marx. Mas ele é incontornável. É parte da história do Ocidente”, exemplifica em entrevista à DW Brasil.

Aos 54 anos, Lucchesi já publicou cerca de 50 livros, fala aproximadamente 20 idiomas e, em dezembro do ano passado, se tornou o presidente mais jovem da ABL nos últimos 70 anos. Lucchesi ocupa uma cadeira na academia desde desde 2011.

Na entrevista, ele também comenta a atual situação do mercado literário e rechaça a ideia de redução da maioridade penal. O “imortal” da Academia Brasileira de Letras visita regularmente presídios e centros de ressocialização de jovens para falar sobre literatura.

DW: Mesmo em comparação com países socialmente próximos, o Brasil fica atrás em termos de leitura de livros. Por que o brasileiro lê tão pouco?

Marco Lucchesi: Este é o grande desafio atual. Antigamente, havia uma relação afetiva. Não é uma matéria de saudosismo, mas de pensamento, de afeto. Nós só não estamos piores, porque há no Brasil uma revolução silenciosa. Refiro-me a professores que estão na ponta do processo e que, apesar de pouco valorizados, fazem trabalhos surpreendentes. Por isso, alunos do Piauí recebem medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática, por exemplo. Eles [os professores] estão trabalhando intensamente, contra tudo e contra todos.

Grandes redes de livrarias no Brasil estão fechando unidades. Isso é reflexo do meio digital, da crise econômica ou de um menor interesse por livros? Quais os efeitos disso?

É um pouco disso tudo. O sistema literário brasileiro, que já foi um pouquinho mais vigoroso, hoje se vê ameaçado. Além disso, as escolas estão falhando. Preparam, essencialmente, o aluno para o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio]. Isso é incontornável, mas não pode ser tão limitado. Alguns editores dizem que estamos regredindo para o quadro dos anos 80. Eu não acho que chegamos a tanto. Mas, hoje, são as pequenas editoras que essencialmente levam adiante a poesia. Precisamos de incentivos ao livro e à livraria.

A literatura retrata aspectos da sociedade, personagens e o momento histórico. Qual livro seria, segundo a sua perspectiva, o retrato do Brasil atual?

Eu costumo usar uma metáfora: eu diria que o Brasil é o próprio livro. Esse livro ainda não está escrito. E terá vários autores. Todos farão parte e se chamará A República. Tem que ser plural, policromático e com todas as vozes. Ele está em construção. Quando falamos sobre paz atualmente no Brasil, temos que saber que a paz não cairá do céu. Ela começa pela justiça social. O combate à corrupção é importante. Não há dúvida. Mas questão fundamental hoje é o combate à desigualdade. Ela é anterior a tudo. Ou se faz isso ou o resto é maquiagem.

Nos últimos anos, temos visto questionamentos e críticas à arte no Brasil. Nossa literatura é muitas vezes sexualizada, com relações de adultério, por exemplo. Essa onda conservadora e moralista pode impactar a produção de livros ou mesmo tirar os clássicos literários dos nossos currículos, como Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, e Dom Casmurro, de Machado de Assis?

Isso é um regresso civilizacional. Inenarrável. A obra é autotélica. Ela tem uma finalidade em si própria. Ela não está colocada sub judice. A literatura, por exemplo, pode ser boa ou má, mas não santa ou perversa. Esses movimentos são um sopro de barbárie. A barbárie, como tal, é desprovida de inteligência, desprovida de sentido e de orientação. Ela quer destruir, mas não sabe o que fazer. Ela só é alguma coisa momentaneamente pelo uso da força, mas a força também é desprovida de inteligência. Isso tudo aborrece, desanima, perturba.

Por que desanima?

Desanima, porque há um diálogo deplorável, de que você não deveria tomar parte. Então, temos que lembrar a defesa do direito de expressão, que a literatura é ficção e pode fazer o que bem entender. Senão a gente cai num mundo esquizofrênico. Já temos problemas demais para resolver.

O que explica a força do conservadorismo e dos chamados bons costumes? E qual o risco de se ter um projeto político muito alicerçado por questões religiosas?

O Estado é laico. Ponto. Essa é uma grande questão, apesar de que, inclusive na televisão aberta, há características de um Estado teocrático. Esse tipo de política acaba construindo valores que não são de abrangência e de cultura da paz. Ela [a política] tem que ser voltada para cultivar a diferença. O que nos enriquece é que não temos só uma religião, não temos uma única forma de fazer literatura. Temos que defender a pluralidade. E isso tem que ser ecumênico, ou então ficamos onde estamos.

O senhor fica preocupado quando vê projetos como o Escola sem Partido? Qual a sua avaliação sobre propostas atualmente debatidas para a área de educação?

Essa proposta de Escola sem Partido me preocupa bastante. No Brasil, temos liberdade de expressão e liberdade de cátedra. Ninguém pode me dizer o que devo ensinar dentro da sala. Na escola e nas universidades, devemos ver posições diferentes. Freud e Marx estão na berlinda da barbárie. Uma pessoa pode concordar ou não com Marx. Mas ele é incontornável. É parte da história do Ocidente. Assim como Freud, que foi uma grande revolução na perspectiva da sexualidade. Não podemos tomar a obra de forma ignorante.

A Lei Rouanet tem sido alvo de ataques. Qual o papel desse tipo de financiamento na literatura brasileira? A lei teria que ser revista?

Essa lei permite, por renúncia fiscal, que o Brasil possa levar sonhos adiante. Se houve um ou outro problema por questões administrativas, não é motivo para suprimir a Lei Rouanet, como tentaram fazer com o Ministério da Cultura.

O senhor faz um trabalho social com presidiários. Como funciona e quais os resultados observados quando os detentos passam a ter contato com a literatura?

É fascinante. Também visito unidades de ressocialização, unidades socioeducativas com menores de 18 anos. Eu deixo que eles [os menores] falem, e eles fazem uma espécie de narrativa das próprias histórias. Com o tempo, vou entrando em contato e entrando no mundo deles. Há muita luz nesse processo. Mesmo no auge da escuridão, sempre há centelhas de luz. Ou acreditamos nisso. Ou vamos para a guerra. Mas essa não é a melhor solução. Muita gente menospreza esse trabalho dentro dos presídios. Questionam se um adulto criminoso deixará o crime por causa de um livro. Talvez não. Mas [levar a literatura a eles] é humano.

Uma das bandeiras do novo governo é reduzir a maioridade penal. Qual a sua opinião?

Seria dramático. É óbvio que as pessoas se sentem inseguras, que têm raiva da pessoa que está assaltando, mas criar a cultura do ódio? Prender e armar. Armar e prender. A situação já está complexa. Como já disse Darcy Ribeiro: se não construirmos escolas, teremos que construir presídios. Há pesquisas que mostram que, se um bom trabalho for feito nas unidades socioeducativas, 70% dos jovens não reincidem [no crime]. Não podemos condenar o futuro desses meninos, pois ainda há esperança.

Henry Miller,Literatura,Liberdade,Blog do Mesquita

Henry Miller – Literatura – Tudo o que posso dizer é que estou louco por ti.

Amar e Ser Livre ao mesmo TempoHenry Miller,Literatura,Liberdade,Blog do Mesquita

Tudo o que posso dizer é que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e não consegui. Estou constantemente a escrever-te… Na minha cabeça, e os dias passam, e eu imagino o que pensarás. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para terça-feira! E não só terça-feira… Imagino quando poderás ficar uma noite… Quando te poderei ter durante mais tempo… Atormenta-me ver-te só por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece… O tempo é tão precioso e as palavras supérfluas… Mas fazes-me tão feliz… porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas preparações para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda há demasiado sagrado agarrado a ti. 

A tua carta… Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te também. É verdade, não te dou o devido valor. É verdade. Mas eu nunca disse que não me dás o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu inglês. Isso seria demasiado egoísta para eu dizer. 
Anais, não sei como expressar-te o que sinto. Vivo numa expectação constante. Tu chegas e o tempo escoa-se como num sonho. É só quando partes que eu entendo completamente a tua presença. E, então, é tarde de mais. Atordoas-me. 

Tento imaginar a tua vida em Louveciennes, mas não consigo. Walter Pach? Um sonho bêbedo… E além disso, não gosto dele; o porquê não sei dizer. O teu livro? Também parece irreal. Só quando chegas e olho para ti é que o quadro fica mais claro. Mas partes tão rapidamente… Não sei o que pensar. Sim, vejo claramente a lenda de Pushkin. Vejo-te na minha mente sentada nesse trono, com jóias à volta do pescoço, sandálias, grandes anéis, unhas pintadas, estranha voz espanhola, a viver uma espécie de mentira que não é exactamente uma mentira mas um conto de fadas. 

Vesti esta noite as minhas calças de bombazina e reparei que estavam manchadas. Mas juro pela minha vida que não consigo associar a mancha à princesa em Louveciennes que priva com guitarristas, poetas, tenores e críticos. Não me esforcei muito para tirar a mancha. Vi-te entrar na lavandaria e encostar a tua cabeça no meu ombro. Não consigo ver-te a escrever «An Unprofessional Study». 

Isto está um bocadinho bêbedo, Anais. Estou a dizer para mim «aqui está a primeira mulher com quem posso ser absolutamente sincero». Lembro-me de dizeres: «Tu podias enganar-me. Eu não o saberia». Quando passeio pelos «boulevards» e penso nisso… Não posso enganar-te… E no entanto gostaria de fazê-lo. Quero dizer que nunca posso ser absolutamente leal… Não está em mim. Adoro mulheres, ou a vida, demasiado… Não sei de que gosto mais. Mas ri, Anais, adoro ouvir-te rir. És a única mulher que tem tido um sentido de alegria, uma sábia tolerância… Já não mais pareces querer fazer com que eu te traia. Amo-te por isso. E por que fazes isso? Amor? Oh, é maravilhoso amar e ser livre ao mesmo tempo. 

Não sei o que esperar de ti, mas é algo parecido com um milagre. Vou exigir tudo de ti… Mesmo o impossível, porque tu o encorajas. És realmente forte. Até gosto da tua falsidade, da tua traição. Parece-me aristocrática. (Será que “aristocrática” soa mal na minha boca?) 

Sim, Anais, estava a pensar em como posso trair-te, mas não consigo. Quero-te. Quero despir-te, vulgarizar-te um pouco… Ah, não sei o que digo. Estou um bocado bêbedo porque tu não estás aqui. Gostaria de bater palmas e… «voilà»: Anais! Quero ter-te, usar-te. Quero fazer amor contigo, ensinar-te coisas. Não, não te dou o devido valor… Deus queira que não! Talvez até queira humilhar-te um pouco… Porquê, porquê? Por que é que não me ajoelho e te adoro? Não consigo. Amo-te risonhamente. 

Gostas disso? 
Querida Anais, sou tantas coisas. Tu só vês as coisas boas agora… Ou, pelo menos, levaste-me a pensar isso. Quero-te pelo menos durante um dia inteiro. Quero ir a sítios contigo… Possuir-te. Não sabes o quão insaciável sou. Ou o quão tortuoso. Ou o quão egoísta! 

Tenho-me portado bem contigo. Mas aviso-te de que não sou um anjo. Penso principalmente que estou um pouco bêbedo. Amo-te. Vou para a cama agora… É demasiado doloroso permanecer acordado. Amo-te. Sou insaciável. Vou pedir-te para fazeres o impossível. O quê, não sei. Provavelmente dir-me-ás. És mais rápida do que eu. Adoro a tua ***, Anais… Põe-me louco. E o modo como dizes o meu nome! Deus, é irreal. Ouve, estou muito bêbedo. Dói-me estar aqui sozinho. Preciso de ti. Posso dizer-te qualquer coisa? Posso, não posso? 
Vem depressa então, e faz amor comigo. Explode comigo. Enrola as tuas pernas à minha volta. Aquece-me. 

Henry Miller, in “Carta de Henry Miller a Anais Nin, 1932”