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Por que cidades precisam mais do que nunca de árvores

Megacidades como Paris e Londres têm projetos ambiciosos para se tornarem mais verdes. Algo indispensável, segundo ecologistas, para frear os efeitos das mudanças climáticas nas cada vez mais populosas áreas urbanas.    

Pessoas caminham em parque de ParisParis construirá quatro florestas urbanas dentro da cidade ao longo de 2020

Não muito tempo atrás, muita gente não tinha certeza se as árvores deveriam ter um lugar nas cidades. Pedestres, carros, casas e prédios compunham áreas urbanas – não havia muito espaço para a natureza.

Mas as árvores agora têm um lugar fundamental em muitas grandes cidades do mundo, diz Sonja Dümpelmann, historiadora da paisagem da Universidade da Pensilvânia – mesmo que, na maioria delas, ainda estejam lutando por espaço.

Para colher os benefícios das paisagens urbanas, ecologistas dizem que é fundamental que as árvores sejam vistas como mais do que uma mera adição estética às cidades. Isso é especialmente verdade agora que metade da população mundial vive em espaços urbanos – até 2050, estima-se que outras 2,5 bilhões de pessoas se mudarão para cidades.

Árvores são chave quando se trata de regular os microclimas, filtrando a poluição do ar, fornecendo sombra, absorvendo CO2, ajudando a evitar inundações repentinas. Além disso, atuam como um antídoto importante para o efeito de ilha de calor urbana, que torna as cidades muito mais quentes do que as áreas rurais vizinhas.

“As árvores podem fazer uma enorme diferença na temperatura de uma cidade”, diz Tobi Morakinyo, climatologista urbano que pesquisa o efeito de resfriamento de árvores em Akure, sudoeste da Nigéria. Segundo ele, o uso de árvores para gerar sombra em edifícios pode resfriá-los em até 5°C.

Em cidades quentes da África subsaariana como Akure, onde as temperaturas médias máximas de verão podem chegar a 38°C, esse efeito de resfriamento é uma ferramenta importante. Segundo Morakinyo, as cidades podem empregar árvores tanto contra o estresse térmico quanto contra os custos de resfriamento.

“Além dos serviços ecológicos que as árvores urbanas proporcionam, há também as qualidades que não podemos colocar em valor monetário”, acrescenta Cris Brack, ecologista florestal da Universidade Nacional Australiana e diretor do Arboretum Nacional em Camberra. “São a biodiversidade, a estética e nossa necessidade visceral de experimentar a natureza”, completa Brack, referindo-se ao conceito de ‘biofilia’ – a ideia de que os seres humanos têm um desejo inato de se conectar com a natureza.

Evidências sugerem que habitantes de regiões com mais árvores experimentam níveis mais baixos de estresse e doenças mentais.

Luta contra o cimento

A necessidade de árvores nas cidades é cada vez maior, mas elas frequentemente lutam contra ambientes urbanos opressivos. Abaixo do solo suas raízes podem ser sufocadas por tubos de água, estradas e estacionamentos subterrâneos, e acima pela poluição, linhas de energia e tráfego. Árvores também enfrentam danos causados por carros, condições climáticas cada vez mais extremas e remoções para dar lugar a canteiros de obras.

Talvez o desafio moderno mais duro para as árvores da cidade, diz Somidh Saha, ecologista florestal urbana do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, seja a estiagem. Após a onda de calor sem precedentes na Europa em 2018, um estudo coassinado por Saha constatou que 30% das árvores plantadas em Karlsruhe, no sudoeste da Alemanha, nos quatro anos anteriores haviam morrido – tanto direta quanto indiretamente por falta de água.

“Sem água suficiente, as árvores se tornam fracas e isso as torna vulneráveis a doenças”, diz Saha. Ao mesmo tempo, o declínio das populações urbanas de aves e mamíferos arborícolas, como morcegos, deixa as populações de insetos sem controle, e as árvores locais mais vulneráveis.

Projetos em megacidades

Projetos ecológicos ambiciosos surgiram em várias megacidades ao redor do mundo nos últimos anos – Nova York plantou um milhão de árvores entre 2007 e 2015; o prefeito de Londres, Sadiq Khan, espera tornar verde mais da metade da capital até 2050; Paris, por sua vez, anunciou que construirá quatro florestas urbanas ao longo de 2020.

Mas fora da Europa, em lugares como a Índia e a Nigéria, onde faltam recursos e vontade política para tornar o verde urbano uma prioridade, as árvores nas cidades são muito mais escassas.

Como a mudança climática traz temperaturas mais quentes e chuvas mais imprevisíveis, as cidades estão exigindo um novo tipo de resiliência das árvores urbanas. Para muitas cidades do mundo, os ecologistas dizem que isso significa plantar espécies mais exóticas.

Pessoas caminham no Central Park, em Nova YorkNova York plantou um milhão de árvores em cerca de uma década

A ideia, porém, encontra bastante resistência. Os ecologistas Brack e Saha argumentam, no entanto, que espécies alternativas geralmente se adaptam melhor ao ambiente artificial de uma cidade – especialmente diante do aumento das ondas de calor. O bordo de três dentes, nativo da China, Coreia e Japão, é uma espécie que poderia aparecer em maior número em outras partes do mundo à medida que a temperatura global aumenta.

Há também uma distinção importante a ser feita entre árvores “exóticas”, o que significa apenas que não são locais, e as “invasivas”, que são prejudiciais, espalhando-se muito rapidamente e dominando o meio ambiente.

Quanto à vida selvagem local, estudos contínuos estão sendo realizados em lugares como Canberra, onde quase todas as espécies de árvores da cidade são exóticas. Ali, os pássaros comem com prazer frutas de plantas não nativas, e os mamíferos encontram casas onde quer que haja um buraco apropriado.

Empenho cidadão

Uma solução para preservar as árvores urbanas que tem crescido em popularidade nos últimos anos é o envolvimento dos moradores. O programa de poda de Nova York permite que os habitantes da cidade tenham aulas para se tornarem cuidadores oficiais das árvores, e Berlim – um lugar que normalmente tem excluído os cidadãos de cuidar da flora urbana – está agora permitindo que os residentes solicitem licenças para manter canteiros e propôs que eles reguem árvores no verão.

O envolvimento dos cidadãos tem seus prós e contras, diz Dümpelmann, e estes tipos de programas podem ou não ser eficazes dependendo da cultura local. Mas até mesmo regar árvores sozinho “demonstrou ser um esforço de manutenção realmente relevante”, comenta.

Embora o plantio de árvores em espaços urbanos seja uma forma eficaz e bastante eficiente de adaptação às mudanças climáticas, Dümpelmann enfatiza que não é uma solução holística. “É algo em que devemos trabalhar ao mesmo tempo em que abordamos as causas fundamentais da mudança climática”, diz.

Além de usar as árvores como ferramenta de geoengenharia, ecologistas urbanos ressaltam que mais árvores nas cidades poderiam mudar as perspectivas da vida urbana e dar às pessoas uma maior compreensão de como valorizar a natureza como parte de uma cidade sustentável e habitável – não separada dela.

Isso significa ver as árvores como seres vivos, em crescimento, diz Brack, não paradas no tempo, ou imunes aos estresses da vida em ambientes urbanos.

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Testamento Vital – Emanuel Jorge Botelho – Poesia

Testamento Vital
Emanuel Jorge Botelho

estou tão cansado de andar a ir morrendo,
à espera que o tempo saia do meu nome.

trepar paredes não é risco a que dê gasto de alma,
e não tenho caligrafia
para cancelar o endereço.

ponho uma faca entre os dentes?
masco tília?
ou desenho a primeira sílaba de uma asa?

não faço nada.
não sou capaz de trair a minha morte.

“As pessoas precisam estar prontas para Machado”, diz tradutora


Após adaptar “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para o inglês, tradutora define autor brasileiro como incomparável. Para ela, Machado “brincou de maneira genial e absolutamente perversa com a sociedade em que vivia”.

O selo Penguin Classics lançou nos Estados Unidos, no dia 2 de junho, a nova tradução para o inglês do clássico de Machado de Assis Memórias Póstumas de Brás Cubas. Intitulado The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, o livro, na versão em papel, se esgotou no mesmo dia. A editora não divulga a tiragem. De toda forma, parece um feito surpreendente para um mercado no qual apenas 3% das publicações são traduzidas de outros idiomas.

Foi uma surpresa também para a tradutora americana Flora Thomson-DeVeaux, que dedicou nada menos que cinco anos de trabalho à empreitada. Em entrevista ela afirma que ainda não sabe dizer se este é mais um “momento Machado”, que toda geração vive quando redescobre a obra do autor no mundo anglófono, como já disse a crítica americana Susan Sontag, admiradora confessa do “bruxo do Cosme Velho”.

Publicado pela primeira vez em livro em 1881, Memórias Póstumas é narrado em primeira pessoa por um morto, que reconta sua história de vida, e perpassa temas ainda caros à sociedade brasileira, como raça e classe social. Machado, aliás, negro e neto de escravos alforriados, passou por um processo de branqueamento ao longo da história. Essa parte de sua identidade, segundo Thomson-DeVeaux, aparece de forma velada na obra que ela traduziu.

“Quando eu leio o capítulo em que Brás mata sem pensar uma borboleta preta, porque ele fica chateado com a borboleta preta, e depois pergunta ‘Por que ela não nasceu azul?’, não consigo não ler em uma chave que tem a ver com uma experiência vivida num país onde o valor de uma vida preta estava claramente colocado e era muito baixo”, diz Thomson-DeVeaux,

Do Rio de Janeiro, onde vive desde 2017, a tradutora e escritora falou sobre seu processo de trabalho no livro e como a obra machadiana permanece atual e incomparável e que não se pode “tentar botá-lo numa caixinha certa, com a fitinha certa, para as pessoas finalmente o abraçarem”. “Não, elas é que têm que estar prontas para ele”, diz.
Flora Thomson-DeVeaux, tradutora
Flora Thomson-DeVeaux dedicou cinco anos de trabalho à tradução de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

Como começou a sua relação com o Brasil e com a língua portuguesa?

Flora Thomson-DeVeaux: Começou no primeiro ano na Universidade de Princeton, eu não tenho relação familiar no Brasil, sou norte-americana. Eu entrei na faculdade falando espanhol, que aprendi no ensino médio. Em um evento de apresentação do departamento aos alunos, eles nos aconselharam a estudar português, além do espanhol. Então foi assim, começou como curiosidade puramente linguística. Eu apanhei muito no primeiro semestre estudando a língua, era muito mais difícil do que eu imaginava. Mas no segundo semestre eu comecei a criar uma relação com o Brasil além da língua.

Sobre a tradução de Memórias Póstumas, quanto tempo levou o processo de tradução e como você definiu seu método?

Antes de sentar e falar “estou traduzindo”, teve quase dois anos de pesquisa para o doutorado. Vim morar no Rio de Janeiro no começo de 2017, e foi nessa fase que comecei o processo de tradução, quando eu alternava com a pesquisa sobre as traduções anteriores. Cheguei a entrar em contato com o genro do primeiro tradutor [de Memórias Póstumas para o inglês], William Grossman, fui até a Califórnia para resgatar materiais do processo dele de tradução. Também consultei o acervo do tradutor machadiano Gregory Rabassa, na Universidade de Boston. Então eu fui meio que conjugando essa pesquisa continuada com a tradução. Defendi a tese no final de 2018, e nessa época o processo com a editora já estava em curso. No total foram cinco anos de trabalho, o que é um luxo, porque todo tradutor literário sonha com tanto tempo de pesquisa.

Muitos tradutores comentam que é um desafio transpor uma cultura de uma língua para outra. Na teoria da tradução há textos de Goethe citando que é preciso manter ao máximo “o ritmo e até o ar entre as palavras”. Existe um segredo para traduzir a “pena da galhofa” de Machado para o inglês?

A parte cultural é a parte grande e histórica. É peculiar achar que, se um leitor brasileiro precisa de anotações sobre a questão temporal e histórica, um leitor de língua inglesa não vá precisar. Há uma ideia de que as notas são a derrota do tradutor, porque você não conseguiu encaixar algo. Mas não tem como você enfiar todo o contexto, vai virar outra coisa. O Machado estava escrevendo em um determinado momento histórico, em um lugar, para um determinado público. Acho que a gente só tem a ganhar com essa contextualização.

A minha concessão para manter a integridade do texto era colocar notas no fim do livro, e não de rodapé. Tendo sido aprendiz de tipógrafo, o Machado era muito consciente do livro como objeto físico, ele falava das margens, das edições e da encadernação. Memórias Póstumas não é um livro que se pensa com nota de rodapé, isso foi muito importante para mim.

Sobre manter o ar entre as palavras, que o Goethe escreveu, acho que entra aí uma questão temporal também. O Machado tem umas frases bem longas nas quais o ponto e vírgula é essa respiração. Você não tem a ênfase abrupta de um ponto final, é como se as frases flutuassem. Aí o segredo é manter. O bacana de olhar outras traduções é porque só ao estranhar a ausência de alguma coisa é que entendemos a importância dela. É muito difícil você captar tudo isso só a partir do texto na língua original ou apenas lendo uma tradução.

Qual o limite entre manter a estrutura e ser fiel ao autor ou ser mais claro na nova língua, para facilitar a compreensão do leitor estrangeiro?

Eu nunca tive a pretensão de fazer o Machado soar como autor do século 21. Enquanto eu traduzia, li autores de língua inglesa do século 19. Uma das coisas geniais de Memórias Póstumas é que há uma modernidade surpreendente, mas dentro da linguagem do século 19. Se você tira esse estilo, essa sintaxe, ele deixa de parecer tão surpreendente, tão moderno. O comprimento das frases na literatura foi caindo com o tempo, então manter essas frases longas é uma marca d’água de origem.

O escritor chileno Jorge Edwards relatou certa vez que o poeta Allen Ginsberg tinha Machado de Assis como um “Kafka dos beatniks”. Com qual autor da literatura mundial o brasileiro poderia ser comparado, na sua opinião?

Eu acho engraçado que as pessoas acabam mobilizando referências muito diferentes para comparar o Machado, e é porque nenhuma se encaixa. Não há comparações, o Machado da literatura universal é o Machado. Na primeira tradução, nos anos 1950, falou-se muito em Laurence Sterne, que era uma referência para o Machado. O romance A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy, que é do século anterior ao Memórias Póstumas, é uma obra-prima, é muito inventivo, mas se você conhece o contexto histórico e cultural, você percebe que o Machado pega emprestado algumas coisas dessa inventividade formal do Sterne e de outras referência anteriores para brincar de uma maneira genial e absolutamente perversa com a sociedade em que ele vivia.

Em um texto publicado em 2018 na revista Piauí, você conta a descoberta, por meio de Memórias Póstumas, do “calabouço”, um local onde o Estado castigava os escravos mediante pagamento dos proprietários. O que mais descobriu sobre o Brasil lendo Machado?

Essa foi a descoberta que mais me perturbou, tanto que acabei me sentindo até impelida a escrever aquele ensaio. As minhas notas no final do livro são as minhas descobertas, e acho que são mais de 150. O que achei particularmente importante, além da busca linguística dos dicionários do século 19, foi recorrer a eles e não encontrar a palavra que eu estava procurando, porque não existia em dicionário, mas havia ali um anacronismo muito sutil. Eu pensei muito sobre como traduzir referências aos negros no romance. Acabei seguindo esse mesmo caminho e usando negros com “n” minúscula porque a exigência por “n” maiúscula foi posterior, do começo do século 20. Algo parecido acontece hoje, com Black escrito com “b” maiúscula, pois ajuda a desnaturalizar essa designação, ajuda a não normalizar como categoria. Mas o Machado, enquanto autor não branco, está escrevendo dentro de um contexto, criando personagens de pessoas negras que concebem no mesmo nível que a prataria da casa. Seguindo esse caminho é que a gente sente o impacto do que ele estava fazendo.

Para quem fez o ensino secundário no Brasil, era comum ter a imagem de um Machado de Assis branco, por causa dos retratos que apareciam nos livros. Houve nitidamente um “branqueamento” do escritor. Para você, essa relação do Machado com a sua cor influenciou a obra dele?

Eu realmente não consigo entrar na questão da experiência vivida de raça do Machado, porque acho que é algo irrecuperável. O que dá pra ver são algumas coisas. Tem um estudo do [historiador] Sidney Chalhoub, “Machado de Assis, historiador”, que mostra como o Machado no Ministério da Agricultura estava responsável pelo cumprimento da Lei do Ventre Livre e como ele lutou sistematicamente para que escravos que estivessem contestando isso tivessem uma decisão favorável à liberdade. Há um registro historiográfico forte sobre esse tema. Tem uma coletânea bastante contundente do Eduardo de Assis Duarte, que se chama “Machado de Assis: Afrodescendente”, que é de textos do Machado que abordam essa questão. Mas, quando eu leio o capítulo em que o Brás mata sem pensar uma borboleta preta, porque ele fica chateado com a borboleta preta, e depois pergunta “Por que ela não nasceu azul?”, obviamente é uma cena que pode ser lida em várias chaves, mas eu não consigo não ler em uma chave que tem a ver com uma experiência vivida num país onde o valor de uma vida preta estava claramente colocado e era muito baixo.

A edição em brochura de Memórias Póstumas que você traduziu se esgotou bem rápido. Você esperava essa vendagem?

Eu estou muito feliz que pessoas além da minha banca estão lendo uma parte da minha tese. Claro que esperança a gente sempre tem, mas eu sou botafoguense, e as minhas esperanças são moderadas. Foi uma bela surpresa.

Na introdução da edição que você traduziu consta que Machado ainda precisa encontrar seu lugar no mundo anglófono, embora toda geração tenha seu “momento Machado”. Susan Sontag escreveu um artigo em 1990 falando que, ainda mais notável que a ausência de Machado na literatura mundial, é o fato de ele ser muito pouco conhecido e lido na América Latina fora do Brasil. Por quê?

Eu acho que o atraso nunca ajuda, e aí tem o fato de que a editora do Machado em vida não facilitou que a obra dele fosse traduzida. Teve até um caso que dá uma dor no coração, de uma mulher que queria traduzir um livro dele para o alemão, ela escreveu para o Machado, o Machado escreve para a editora, e a editora falou: “Se ela quer traduzir, ela que nos pague.” E aí houve uma falta de visão da Garnier, para dizer o mínimo. Teve poucas traduções em vida do Machado, então, quando ele chega [a outro país, em outro idioma], chega deslocado no tempo. Isso certamente não ajuda, pois ele chega mais como curiosidade do que como contemporâneo. E aí a gente só pode especular como poderia ter sido.

Agora a gente sempre olha para a obra e pergunta: “O que o Machado tem que não encaixa na literatura universal? Será que é brasileiro demais? Brasileiro de menos?” Mas tem uma parte importante que é o público receptor, que tem que estar pronto para receber aquela obra, e isso tem tudo a ver com o contexto daquela sociedade. O mercado norte-americano é notoriamente fechado para qualquer coisa que não seja escrita na língua inglesa, tem essa cifra terrível, que apenas 3% do total de publicações do mercado norte-americano são de obras traduzidas. Então, a gente só pode esperar que este seja um momento em que as pessoas estejam mais prontas para o Machado de Assis, em vez de tentar botá-lo numa caixinha certa, com a fitinha certa, para as pessoas finalmente o abraçarem. Não, elas é que têm que estar prontas para ele.

Antoine De Saint-Exupéry – Miseráveis Macabros

Miseráveis Macabros

É que não foram tão poucas como isso as vezes que vi a piedade enganar-se. Nós, que governamos os homens, aprendemos a sondar-lhes os corações, para só ao objecto digno de estima dispensarmos a nossa solicitude. Mais não faço do que negar essa piedade às feridas de exibição que comovem o coração das mulheres. Assim como também a nego aos moribundos, e além disso aos mortos. E sei bem porquê.

Houve uma altura da minha mocidade em que senti piedade pelos mendigos e pelas suas úlceras. Até chegava a apalavrar curandeiros e a comprar bálsamos por causa deles. As caravanas traziam-me de uma ilha longínqua unguentos derivados do ouro, que têm a virtude de voltar a compor a pele ao cimo da carne. Procedi assim até descobrir que eles tinham como artigo de luxo aquele insuportável fedor. Surpreendi-os a coçar e a regar com bosta aquelas pústulas, como quem estruma uma terra para dela extrair a flor cor de púrpura. Mostravam orgulhosamente uns aos outros a sua podridão e gabavam-se das esmolas recebidas.

Aquele que mais ganhara comparava-se a si próprio ao sumo sacerdote que expõe o ídolo mais prendado. Se consentiam em consultar o meu médico, era na esperança de que o cancro deles o surpreendesse pela pestilência e pelas proporções. Chegavam a empregar os cotos para conquistar um lugar no mundo. Daí também o aceitarem os cuidados como uma homenagem e oferecerem os membros a abluções bajuladoras.

Mas, apenas o mal os deixava, descobriam-se sem importância. Já nada alimentavam que fosse deles próprios, davam-se por inúteis. O único remédio era ressuscitar de novo essa úlcera que vivia à custa deles. E, uma vez envoltos de novo no seu mal, gloriosos e vãos, pegavam na escudela, e tornavam a empreender o caminho das caravanas. Voltavam a espoliar os viajantes em nome dos seus sórdidos deuses.

Antoine De Saint-Exupéry

As máscaras da pandemia no olhar da arte

Das mídias sociais à arte de rua, as máscaras estão surgindo em todos os lugares.

Deborah Nicholls-Lee encontra imagens em todo o mundo refletindo o que está acontecendo agora. Uma foto de perfilcom a boca coberta recebe os visitantes da página do Instagram da designer visual cipriota.

O artista do mash-up pegou uma tesoura virtual e cola em sua própria imagem e sobrepôs uma máscara cirúrgica azul brilhante a uma fotografia monocromática.

Corona Lisa, de Hayati Evren, tornou-se um meme estampado em sacolas e canecas (Crédito: Hayati Evren)

O artista brincalhão, que mexe com obras de arte há quase uma década, é mais conhecido agora por sua atrevida Corona Lisa, que bebe uma cerveja Corona através de uma máscara facial perfurada. Juntamente com a versão teetotal de Antonio Brasko, com sede em Oregon, o meme se espalhou das mídias sociais para camisetas, bolsas e canecas. The Persistence of Corona, a reformulação de Evren de uma obra icônica de Salvador Dali, coloca a máscara no centro do palco novamente, desta vez cercada por outros apetrechos de gerenciamento de coronavírus: desinfetante para as mãos, luvas de borracha e colônia de limão – um desinfetante tradicional na Turquia.

Desde o surgimento do Covid-19, a máscara – o emblema da pandemia – alimentou a criatividade de artistas em todo o mundo, assumindo várias formas, de memes engraçados a declarações sérias. Obrigatória em alguns países e inicialmente desencorajada em outros, a máscara é objeto de controvérsia: símbolo de censura e separação, mas também de cuidado e proteção.Uma paródia de Garota com brinco de pérola de Johannes Vermeer, A garota de Banksy com um piercing no nariz foi recentemente atualizada com uma máscara (Crédito: PA)

Embora a mídia social tenha sido o playground de artistas digitais como Evren, a rua também se tornou uma galeria de máscaras. Recentemente, os lábios gentilmente separados da garota de Banksy com um piercing no nariz foram escondidos durante a noite atrás de uma máscara protetora de tecido. O mural gigante, um riff de Girl With a Pearl Earrings, de Vermeer, mas com um alarme de segurança para um piercing, apareceu pela primeira vez em Albion Dock, em Bristol, em 2014. Se o gesto foi um ato de preservação amoroso ou o escárnio cômico de nossos medos, Banksy negou qualquer envolvimento.Hijack doou 100% dos lucros de seu Pandemonium impresso para a Global Foodbanking

No bairro de Pico-Robertson, em Los Angeles, o grafiteiro Hijack recentemente pintou com spray duas figuras mascaradas em macacões com detergente em spray, um espanador de penas e um aspirador de pó como armas contra o vírus – um comentário irônico, sem dúvida, sobre a nossa impotência . “Em tempos como esse, a criatividade pode nos ajudar a lidar com … uma crise como a que estamos enfrentando”, diz ele à BBC Culture. “A peça em si é mais uma observação do nosso estado mental atual. Parece que estamos travando uma guerra contra um inimigo invisível, deixando alguns de nós em pânico. Eu queria transmitir isso da maneira típica do Hijack. ”

Esse pânico, sugere o fotógrafo alemão Marius Sperlich, às vezes pode ser cego. Sperlich, cujo trabalho normalmente explora de perto o corpo humano, tem os olhos, ouvidos e boca de seu modelo cobertos por máscaras cirúrgicas brancas em uma fotografia recente intitulada Isolation. Comentando a postagem no Instagram, ele escreve: “Nossos sentidos foram restringidos, estamos isolados e com medo, incapazes de pensamentos racionais”.

O retrato de Zabou do grafiteiro de Nova York BK Foxx, Born to Paint, foi criado em 2019, mas teve ressonância especial este ano (Crédito: Zabou)

Embora os novos trabalhos estruturados em torno do meme da máscara tenham se multiplicado, as peças existentes com máscaras também ganharam novos públicos. O retrato de 3m² de Zabou do artista de rua BK Foxx usando sua máscara respiratória trouxe cor à Brick Lane de Londres no início de 2019, mas o mural do artista francês adquiriu um novo significado durante a pandemia, e agora é visto como uma imagem icônica da crise. A máscara, Zabou disse à BBC Culture, agora se tornou parte de nossas vidas diárias. “Representa uma ferramenta de ação e proteção – e às vezes sobrevivência – contra o vírus, e é por isso que as máscaras podem ser uma imagem poderosa neste contexto.”

Homenagens ao NHS de Rachel List – que pinta seus murais à mão livre, em vez de usar estênceis – foram compartilhadas em todo o mundo (Crédito: Rachel List)

Em alguns casos, o poder da imagem da máscara facial atraiu artistas menos conhecidos para os holofotes e transformou os heróis em humildes. Rachel List, de 29 anos, de Pontefract, em West Yorkshire, marcou seu mural gigante de máscara com #itwasntbanksy para terminar com as especulações que começaram quando suas séries anteriores de pinturas na parede de uma pequena enfermeira de desenho animado do NHS em uma máscara facial tendiam no Twitter.

O que chama a atenção na máscara é que você não consegue ver o sorriso das pessoas. Traz o foco de volta aos olhos, o que o torna realmente expressivo – Rachel List
List, que ganha a vida pintando murais nos quartos das crianças, viu seu trabalho secar desde o fechamento, mas uma comissão por uma faixa de agradecimento do NHS para um pub local levou a uma série de pedidos de seus tributos alegres ao serviço de saúde. List está distribuindo impressões para 500 trabalhadores do NHS e angariando fundos para o NHS e o Hospice Prince of Wales através de leilões de seu trabalho. “Para mim, o que chama a atenção na máscara é que você não consegue ver o sorriso das pessoas. Traz o foco de volta aos olhos, o que o torna realmente expressivo ”, ela diz à BBC Culture.

Tom Croft pintou um retrato da enfermeira de A&E Harriet Durkin gratuitamente depois de postar nas redes sociais (Crédito: Tom Croft)

O pintor de retratos de Oxford, Tom Croft, também usou suas habilidades como artista para reconhecer o sacrifício que está sendo feito pelos profissionais de saúde durante a crise. Quando a pandemia o deixou lutando para encontrar um objetivo em seu trabalho, ele decidiu oferecer um retrato gratuito ao primeiro trabalhador do NHS a contatá-lo. Harriet Durkin, uma enfermeira de A&E da Manchester Royal Infirmary, logo foi imortalizada em óleos em EPI completo, com sua estrutura central robusta da máscara facial 3M. Usando a hashtag #portraitsforheroes, Croft convidou outros artistas para participar da iniciativa e formar parceria com os funcionários da linha de frente.

Os sentimentos de Croft sobre a máscara são ambivalentes. “A máscara protege, esperançosamente, mas também cria uma barreira entre paciente e profissional de saúde e afeta a conexão humana com a qual estamos acostumados, que é uma grande parte dos cuidados”, disse ele à BBC Culture. “Só vendo os olhos, é muito mais difícil ler a expressão facial abaixo. Eu entendo que isso pode causar ansiedade adicional para os pacientes. ” Croft planeja produzir um segundo retrato de Harriet com seu EPI, relaxado e sorrindo em casa. “Eu senti que era importante descrever os dois lados para ela, para dar uma imagem mais completa de quem está por trás da máscara que presta os cuidados”, diz ele.

A artista britânica Rowena Dring bordou rostos em máscaras de lona, ​​incluindo The Amsterdammer, na foto (Crédito: Rowena Dring)

“Uma das piadas entre meus amigos é que eu apenas girei minhas habilidades”, diz a artista Rowena Dring, de Amsterdã, que também viu a pandemia como um chamado à ação. A abordagem ambidestro de Dring, que se baseia nas habilidades tradicionais de artesanato para re-contextualizar a costura e a pintura, deu uma nova virada quando ela uniu função e arte para responder à falta de máscaras faciais.

“Eu sou um criador: alguém que responde a situações criando coisas”, ela diz à BBC Culture. “Pesquisei com muito cuidado os materiais que usei com a ajuda de um médico, mas, ao mesmo tempo, queria fazer as pessoas rirem.” O resultado foi uma coleção cada vez maior de máscaras de lona de algodão com cera de abelha, bordadas com bigodes encaracolados, barbas desgrenhadas e sorrisos. À medida que os novos designs saíam de sua oficina improvisada em casa, eles eram enviados para amigos e familiares ou vendidos para clientes on-line. “Gosto dos sorridentes”, diz ela. “É muito engraçado ir ao supermercado com eles”.

A máscara também influenciou o design de moda. Em abril, a estilista nigeriana e estilista de celebridades Tiannah Toyin Lawani criou uma roupa mascarada deslumbrante para aumentar a conscientização sobre o vírus. Lawani agora tem uma equipe de alfaiates trabalhando em sua casa em Lagos – onde as máscaras agora são obrigatórias – fazendo máscaras incrustadas de jóias com tecidos africanos para venda ou doação.Max Siedentopf pediu desculpas por causar qualquer ofensa à sua série, argumentando que seu objetivo era inspirar outras pessoas a “ver as coisas de uma perspectiva diferente” (Crédito: Max Siedentopf)

As máscaras faciais caseiras foram a inspiração por trás de uma série de fotografias explícitas produzidas pelo artista visual namibiano-alemão Max Siedentopf em sua polêmica série Como sobreviver a um vírus global mortal. “Comecei a ver on-line todos os tipos de máscaras de bricolage para proteger contra o vírus que eram feitos de objetos domésticos comuns”, diz ele à BBC Culture. “No meio desta crise, eu queria me concentrar na criatividade dessas máscaras e em como, através de uma barreira ou problema, você ainda pode encontrar soluções inteligentes e criativas”.

Criticadas por serem insensíveis e enganosas, as imagens assustaram alguns e inspiraram outros. Mas observando pelas asas, Siedentopf ficou impressionado ao ver fotografias de pessoas replicando as máscaras da série. “Gostei de como a arte imitava a vida e, em seguida, a vida imitava a arte e se tornou um círculo completo”, diz ele.

Tatsuya Tanaka usou máscaras na entrada de 31 de março de seu Miniature Calendar (Crédito: Tatsuya Tanaka)

No Japão, a máscara facial tornou-se um item doméstico e chegou ao intrincado trabalho da miniatura japonesa Tatsuya Tanaka, que combina objetos do cotidiano em tamanho real com figuras humanas de 2 cm de altura. Desde 2011, Tanaka libera imagens diárias como parte de uma série em andamento do Miniature Calendar. Em 31 de março, uma foto de pequenos surfistas usando máscaras foi publicada com a legenda “superamos muitas dificuldades”. O motivo da máscara reapareceu em 1 de maio, quando Tatsuya divulgou a imagem de um médico mascarado fazendo uma consulta em vídeo em um computador com chocolate.

Com muitos países em confinamento, os itens domésticos comuns estão ressonando com os artistas e o público mais do que nunca. “Tornar o que você vê casualmente na vida cotidiana diferente – chamado de ‘mitigar’ no Japão – torna a vida cotidiana divertida”, disse Tatsuya à BBC Culture. “Eu usava máscaras diariamente no Japão desde antes da crise. Não é incomum, mas recebi muita atenção por causa da crise da corona [vírus], então fiz disso um motivo ”, diz ele.

A micro-arte de Hasan Kale inclui profissionais de saúde pintados em uma máscara e analgésico (Crédito: Hasan Kale)

O trabalho do micro-artista turco Hasan Kale também força uma reavaliação de objetos familiares. Prendendo a respiração para firmar a mão, ele pinta retratos e paisagens com minúsculos estranhos, como cabeças de palitos de fósforo e sementes de maçã, transformando-os no que ele chama de “cápsulas artísticas”.

As telas recentes de Kale incluem uma pastilha de paracetamol e a válvula de uma máscara cirúrgica, ambas pintadas com imagens de profissionais da saúde mascarados como sinal de gratidão pelo serviço prestado à sociedade. Uma inspeção cuidadosa do tablet revela que as máscaras não impediram seus usuários de comunicar uma mensagem microscópica em nome do artista. “Vimos o mal que fizemos ao mundo”, diz Kale. “O coronavírus é uma oportunidade para melhorarmos”.

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Joseph Brodsky – Poesia

Poema
Joseph Brodsky

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.
Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.
Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia – de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

Tradução de Carlos Leite.
Fotografia de Laura Jacques

Lixo humano é irreversível. Máscaras e luvas em todo lugar

No começo da pandemia todo mundo achava que a Mãe Natureza tinha vindo dar o recado e que seus filhos teriam aprendido: é preciso preservar nossa casa, cuidar do bem comum para que todos se beneficiem de um planeta habitável e saudável, hoje e futuramente.

Ledo engano!

O lixo humano é irremediável, inexorável e imutável. Nada adianta, nem guerras nem pandemias, nada é capaz de fazer com que o Deus Dinheiro tenha menos devotos fieis:

quebrou, compra outro
usou, joga fora
não serve, se livra

E vamos nos enchendo de lixo que não tem onde jogar fora, porque o fora não existe.

Agora, máscaras e luvas são os novos cigarros que se juntam às velhas bitucas e vamos que vamos, poluindo hoje e sempre, sem que nenhuma lição tenha sido aprendida .

Que triste não é mesmo? A reclamação vem do mundo inteiro. “Esta quarentena forçada deve nos fazer refletir sobre as nossas ações, luvas e máscaras por todo o lugar. Você não pode ser assim egoísta”. Faça você mesmo sua máscara de pano contra o coronavírus, laváveis e reutlizáveis. Se tiver que usar máscaras e luvas descartáveis, descarte-as no lugar correto e em segurança para evitar a disseminação do vírus.

Lixo Urbano,Poluição,Blog do Mesquita

Se as coisas continuarem como estão, talvez mereceremos sim a extinção. Somos vergonhosamente a pior espécie da Terra.

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog doMesquita 11

Bertold Brecht – Perguntas de um operário letrado

Perguntas de um operário letrado
Bertold Brecht

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
quem outras tantas a reconstruiu?

Em que casas da Lima dourada moravam os seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China, para onde
foram os seus pedreiros? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares?

A tão cantada Bizâncio só tinha palácios
para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
na noite em que o mar a engoliu
viu afogados gritar por seus escravos

O jovem Alexandre conquistou as Índias.
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos.
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Xilogravura de Hiromi Sumida