Amparo Jimenez – Versos na tarde – 09/03/2017

Ilusión Marina
Amparo Jimenez¹

Tu lengua,
pececillo inquieto en mi rostro.
Tu boca,
ostra que juega con mis labios.
Tu piel,
arena ardiente sobre mi cuerpo todo.
Tu voz,
canto de sirena que me llama y espera.
Mi piel y mi alma responden
pero tú, sirena mía,
te esfumas con el sol
al bajar la marea.

¹Amparo Jimenez
Jornalista e poeta.
* ?
+ Valledupar, Colombia – 11 de agosto de 1998.
Assassinada quando investigava questões latifundiárias para a televisão para a qual trabalhava.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Demócrito Rocha – Versos na tarde – 08/03/2017

O Rio Jaguaribe
Demócrito Rocha¹

O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta
por onde escorre
e se perde
o sangue do Ceará.
O mar não se tinge de vermelho
porque o sangue do Ceará
é azul …

Todo plasma
toda essa hemoglobina
na sístole dos invernos
vai perder-se no mar.

Há milênios… desde que se rompeu a túnica
das rochas na explosão dos cataclismos
ou na erosão secular do calcário
do gnaisse do quartzo da sílica natural …

E a ruptura dos aneurismas dos açudes…
Quanto tempo perdido!
E o pobre doente – o Ceará – anemiado,
esquelético, pedinte e desnutrido –
a vasta rede capilar a queimar-se na soalheira –
é o gigante com a artéria aberta
resistindo e morrendo
morrendo e resistindo…

(Foi a espada de um Deus que te feriu
a carótida
a ti – Fênix do Brasil.)

E o teu cérebro ainda pensa
e o teu coração ainda pulsa
e o teu pulmão ainda respira
e o teu braço ainda constrói
e o teu pé ainda emigra
e ainda povoa.

As células mirradas do Ceará
quando o céu lhe dá a injeção de soro
dos aguaceiros –
as células mirradas do Ceará
intumescem o protoplasma
(como os seus capulhos de algodão)
e nucleiam-se de verde
– é a cromatina dos roçados no sertão…

(Ah, se ele alcançasse um coágulo de rocha!)

E o sangue a correr pela artéria do rio Jaguaribe…
o sangue a correr
mal que é chegado aos ventrículos das nascentes …
o sangue a correr e ninguém o estanca…

Homens da pátria – ouvi:
– Salvai o Ceará!
Quem é o presidente da República?
Depressa
uma pinça hemostática em Orós!
Homens –
o Ceará está morrendo, está
esvaindo-se em sangue …

Ninguém o escuta, ninguém o escuta
e o gigante dobra a cabeça sobre o peito
enorme,
e o gigante curva os joelhos no pó
da terra calcinada, e
– nos últimos arrancos – vai
morrendo e resistindo

¹Demócrito Rocha
* Caravelas, BA – 14 de Abril de 1888 d.C
+ Fortaleza, CE – 29 de Novembro de 1943 d.C[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O mistério dos cinco editores chineses desaparecidos

O primeiro dos editores da Mighty Current a desaparecer foi Gui Minhai, cujo ultimo contato foi feito na Tailândia, no começo de outubro.

Entre novembro e dezembro de 2015, três outros funcioarios da editoria não foram mais vistos. A policia chinesa afirma que está investigando o caso mas os desaparecimentos assumem cada vez mais um viés político.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

É o que garante a reportagem “The Case of the Missing Hong Kong Book Publishers”, publicada pela revista New Yorker em 8 de janeiro e da qual publicamos os parágrafos (em inglês ) a seguir:

…Although none of the booksellers have disclosed their locations, a few have been in sporadic contact with family members to communicate, in opaque terms, that they are “assisting in an investigation.” On the phone with his wife, Sophie Choi, earlier last week, Lee conveyed that he was calling from Shenzhen, specifying that he, too, was voluntarily helping with a case but, strangely, spoke in Mandarin, the standard mainland dialect, rather than his native Cantonese. Choi asked why his mainland travel permit, which he would normally have needed to visit Shenzhen, was still at home. A few days later, in a fax to a colleague and his wife, Lee wrote that he had travelled to Shenzhen “by his own methods,” and implied that he would be staying on the mainland for some time in order to aid in the investigation. That letter added that Lee “had to handle the issue concerned urgently and could not let outsiders know.”

So far, these baffling correspondences have raised more questions than they have answered. What is the investigation? Are they assisting in its proceedings or detained as the target of the investigation? For the moment, Choi has dropped the missing-persons police report based on her belief in the authenticity of her husband’s handwriting, although some Hong Kong politicians have openly raised the possibility that the letter was written under duress.

Gui is a Swedish national and Lee holds a British passport, and both countries have expressed deep concern about their missing citizens. Chinese officials have not publicly acknowledged their involvement in the disappearances, or in any “investigation.” After British Foreign Secretary Philip Hammond inquired about the status of the booksellers, however, Chinese Foreign Minister Wang Yi described Lee Bo as “first and foremost a Chinese citizen.” Taken together with an editorial in China’s nationalist Global Times, in which Mighty Current was accused of “profiting on political rumors,” selling books with “trumped-up content,” and making money through “disrupting mainland society,” the implication seems evident enough. To be a Chinese citizen, even one living in a semi-autonomous territory with its own set of laws, seems to mean being subject to China’s strictures and within its reach…

O texto integral da reportagem pode ser lido aqui.

Quebra de sigilo.Lúcia Hippólito, quem diria acusada de petista por Reinaldo Azevedo

Agora embolou de vez. Assim como o PT, que é, prosaicamente, acusado de ter mais alas que uma escola de samba, agora é a turma do outro lado que bate cabeça. E boca!

De um lado a socióloga e jornalista Lúcia Hippolito reconhecidamente uma pessoa “muiiiiiiiito” ligada ao sistema, e habitual palestrante para auditórios, digamos, não muito faforáveis aos candidatos do PT. Do outro lado, Reinaldo Azevedo, o clone, mal feito, de Paulo Francis.

Se Lúcia aumenta o conteúdo do cofre com cachês de palestras e com o trabalho jornalístico – além da TV Globo, é comentarista da rádio CBN e tem coluna de opinião publicada em diversos jornais – , Reinaldo Azevedo é colunista semanal da Veja, é um iracundo e mal educado crítico de Lula e do PT, costuma desqualificá-los chamando-os de ´Petralhas´- e mantém um blog hospedado sob o guarda chuvas da editora Abril.

A revista Veja, basta folheá-la, tem uma considerável receita oriunda de publicidade, cujas fontes são as verbas publicitárias de empresas estatais e do governo que Azevedo, de forma contumaz, chama de corrupto. Por dedução, então parte do salário de Azevedo é formado com dinheiro de corrupção

Para arguir independência ambos, Lúcia Hippolito e Azevedo, que agora se entre devoram, deveriam retirar seus blogs da confortável sombra dos grandes grupos de comunicação e sobreviverem por conta própria.
O Editor
Abaixo as “amenidades” trocadas pelos dois articulistas.


PATRULHA DA LAMA ME ATACA NOVAMENTE – MAS NÃO VAI ME VENCER
Por Lúcia Hippólito
Quarta-feira, dia 1º, fui a São Paulo para duas palestras, em dois bancos de investimentos.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Meu marido, que tinha uns negócios a ver em São Paulo, foi comigo. No hotel, antes da primeira palestra, que era às 20h, conversamos sobre o teor do meu comentário na CBN às 18,32h.

Expus minhas incertezas a respeito dos últimos acontecimentos. Quebra de sigilo pipocando a toda hora, uma notícia atrás da outra, cheiro de amadorismo no ar. Tudo isso às vésperas do primeiro turno.

Como tenho pavor de gente que, depois dos 50 anos, só tem certezas (desconfio sempre), eu me permiti ter dúvidas. Mas os fanáticos de direita e de esquerda não têm dúvidas, sabemos disso.

Fiz o comentário, e meu marido até comentou depois, elogiando mais uma vez minha capacidade de expressão, e fomos para a palestra.

Ao final, posso dizer sem falsa modéstia que fui muito aplaudida por cerca de 400 convidados do banco. Depois disso jantamos e voltamos para o hotel.

No dia seguinte, logo cedo, outra palestra para outros 200 convidados de outro banco. Dessa vez, analisando o cenário econômico estava o economista José Roberto Mendonça de Barros. Nós dois nos saímos muitíssimo bem, também bastante aplaudidos.

Meu marido e eu aproveitamos o fato raro de estarmos juntos em São Paulo e nos demos de presente um excelente almoço no ótimo restaurante Parigi. No final da tarde, tomamos o avião e voltamos para casa.

Quando abri o meu computador, encontrei uma enxurrada de lixo, proporcionada por um cidadão(?) que escreve na Veja e não tem o menor escrúpulo em atirar lama na biografia de pessoas honestas.

E o pior é que atiçou a tigrada e o lúmpen que compõem esta patrulha da lama que vive na internet a infernizar a vida alheia e a entupir a caixa postal da gente.

Mas se eles pensam que vou desistir, podem tirar o cavalo da chuva. Estou na estrada há muito tempo e pretendo continuar.

Um bom feriado a todos(as).


Melhor não cantar o Hino Nacional, querida!
Por: Reinaldo Azevedo

Outro dia circulou um áudio no Youtube — e eu não escreveria nada a respeito se ela própria não tivesse explicado o que aconteceu — em que a comentarista Lúcia Hipólito, da CBN, desandava a dizer coisas sem sentido sobre o “Programa Nacional-Socialista dos Direitos Humanos”. Parecia a Vanusa cantando o Hino Nacional. As duas deram a mesma explicação: tomaram “remédios muito fortes” e ficaram meio trelelés. Acontece.

Não tratei do assunto aqui nem publiquei o áudio porque, de vez em quando, eu também consumo “remédios muito fortes”. Compreensível. Só que tomo o cuidado de não cantar o hino, não escrever nem opinar sobre política. Minha mulher diz que sempre quero dançar, mas ela me demove da idéia (quase sempre).

Lúcia comentou ontem, na CBN, a violação do sigilo fiscal de Verônica Serra.

Na primeira parte do seu comentário, afirmou que a Receita parecia a casa-da-mãe-joana e coisa e tal. Enquanto ouvia, perguntava-me: “Estarei percebendo certo esforço para, ainda que com aparência crítica, endossar a versão de Otacílio, o Cartaxo do PT, segundo a qual tudo não passa, assim, de lambança, desorganização, bagunça, mas sem conotação política?” Deixei a suspeita de lado: “Pô, Reinaldo, seja um homem bom! Ouça até o fim”. Ouvi.

A partir, no entanto, de 1min31s, as coisas se complicaram. Eu transcrevo aqui em vermelho a sua fala, com intervenções minhas em azul:

“O outro aspecto que tem de ser visto nessa história, Nonato, é que, é, é…, a gente não sabe o que dizer a esse respeito”.

Bem, quando a gente não sabe o que dizer, o melhor mesmo é ficar de boca fechada. É o que ela deveria ter feito. Sigamos.

Se for verdade, se for verdade, que isso seria uma reedição do caso dos aloprados, isto é uma maluquice, Nonato! Não é possível que imaginaram que fossem fazer tudo outra vez. É de uma incompetência assombrosa.

Se você ouvir o áudio, vai perceber que aquele segundo “se for verdade” é dito de forma cantada, evidenciando que a comentarista está muuuito desconfiada. O raciocínio já começa a caminhar por aquelas larguezas da irracionalidade. Na opinião de Lúcia, “não é possível” porque seria “muita incompetência”. Isso não é um raciocínio lógico, isso não é um raciocínio ilógico, isso não é um raciocínio dialético, isso não é um raciocínio linear. Isso não é um raciocínio.

Há um contador que já apareceu, chamado Antônio Carlos de Tal, que já declarou ao jornal O Globo que sim, que foi ele que falsificou a procuração, que foi ele que violou o sigilo fiscal da filha de José Serra a pedido de não sei quem… É de uma incompetência que faz até a gente desconfiar de que não seja verdade. Eu acho que é preciso ir com muito cuidado neste caso, ir com muita seriedade, porque é tão incompetente, mas tão incompetente, que fica até parecendo uma armação, sabe, Nonato? Fica parecendo uma coisa armada sei lá por quem para tumultuar esse processo no final da corrida eleitoral…

Vamos por partes. A desinformação de Lúcia Hipólito é constrangedora:

1 – Antônio Carlos de Tal não confessou a falsificação; disse que atendia a um cliente;

2 – como a suspeita recai sobre o PT, Lúcia desconfia que tenha havido uma violação porque a operação foi “muito incompetente”. Isso nos leva, logicamente, à constatação de que ela acredita que o PT só faz coisas competentes — inclusive as safadezas. Por competentes, então não seriam descobertas. Logo, ninguém nunca flagraria uma sacanagem feita pelo partido, que passaria incólume por qualquer investigação — não porque santo, mas porque “competente”;

3 – quando Lúcia faz essa maravilha de comentário, o cartório já havia informado que Verônica não tinha firma lá, que o reconhecimento era falso, que a assinatura era falsa;

4 – ao afirmar que fica “parecendo uma armação”, ela sugere, evidentemente, que seria uma “armação tucana”, repetindo a tese petista que tenta transformar a vítima em ré;

5 – a violação aconteceu em setembro do ano passado; vai ver os tucanos já estavam planejando tudo com antecedência para poder culpar agora o PT;

6 – Lúcia ignora que, comprovadamente, o sigilo de Eduardo Jorge estava com petistas e que dados da declaração de Verônica circulavam já em blogs petistas e no texto de um ex-jornalista que participava da turma de Luiz Lanzetta;

7 – segundo a tese desta pensadora, porque há uma corrida eleitoral, então o fato deixa de ser um fato para ser uma armação. Mais um pouco.

… porque é amador demais! E quando é, sabe?, amador demais, todo mundo começa a desconfiar, porque é muito incompetente, é muito incompetente demais (sic). Eu acho que a gente precisa ir com calma, não pode tirar conclusões apressadas, é preciso investigar e saber o que é que tá acontecendo e o que foi que realmente aconteceu nessa história, Nonato…

É evidente que esta senhora está flertando com a acusação petista de que tudonão passaria de uma conspiração tucana!!! O trecho acima ilustra o que é a banalidade, a tolice, o nada, mas com entonação convicta. Destaco o “muito incompetente demais”. O único a quem a língua deu licença para coisas assim foi Tom Jobim: “Meu amor por você é enorme demais…”.

Lúcia é que não sabia o que estava acontecendo. Quando ela fazia essa magnífica intervenção, já estava claro também que a Receita havia armado uma versão, que se desmoralizou. Notem que ela não diz um “a” sobre o fato de um órgão do governo ter posto para circular uma procuração com claros sinais de fraude. Aliás, já sabia tratar-se de uma fraude. Invadiram o sigilo de um grupo de tucanos e da filha do candidato do PSDB. As informações circulavam nos subterrâneos da campanha de Dilma. Mas Lúcia Hipólito está “muuuuito” desconfiada.

Não dá! O que aconteceu é grave demais para que mereça esse tratamento ligeiro, beirando a irresponsabilidade. É a Constituição que está sendo agredida. Não se trata de uma pequena bagunça no almoxarifado. Não é aceitável que se lancem especulações como essas, contra os fatos.

Há coisas que são o retrato de um tempo. Vocês acabam de ouvir o “som” de um tempo. Não vou perguntar se Lúcia Hipólito havia tomado de novo aquele remédio. De todo modo, eu lhe recomendo que não cante o Hino Nacional. Vanusa até pode ser a Lúcia Hipólito do iê-iê-iê, mas convém que Lúcia não seja a Vanusa da análise política.

Irã: crise decreta o fim do jornalista herói

A crise iraniana é mais um sintoma do lento desaparecimento da figura do correspondente de guerra , especialmente daquele personagem glamourizado pela cinema e pela literatura, que desafiava a morte para cobrir conflitos e batalhas como testemunha ocular.

A crise iraniana está sendo coberta por repórteres que não podem sair dos hotéis de Teerã e que são obrigados a recolher material para suas reportagens recorrendo fontes indiretas e com escassa possibilidade de verificação, como mensagens transmitidas por correio eletrônico, weblogs , YouTube e o badalado Twitter, o microblog que virou uma febre mundial.

Os limites impostos pelo governo iraniano para a locomoção da imprensa estrangeira em Teerã são apenas a menor parte do problema, conforme reconhece Brian Murphy, da agência Associated Press. A esmagadora maioria das publicações internacionais substituiu seus correspondentes por freelancers (fotógrafos, cinegrafistas e repórteres) iranianos mesmo antes da proibição.

Se as dificuldades para a cobertura da crise fossem causadas apenas pelas limitações aos deslocamentos de repórteres estrangeiros, o uso de freelancers resolveria o problema porque, sendo iranianos, eles conseguem enganar mais facilmente as autoridades. O problema é que chegar até a notícia está sendo muito difícil inclusive para os locais, devido ao caráter descentralizado das manifestações e à guerra de rumores e conflitos espalhados por meios eletrônicos e pelo velho boca a boca.

A imprensa ocidental transformou o Twitter na grande vedete da crise iraniana atribuindo ao sistema de micro-mensagens transmitidas por internet e telefone celular o caráter de arma virtual contra a ortodoxia religiosa dos mulás iranianos. Algumas revistas semanais já batizaram a crise de Revolução Twitter.

Mas segundo Noham Cohen, do The New York Times, a situação é um pouco diferente e nada parecida com imagem uma tecno-revolução em marcha, transmitida pela TV norte-americana. O Twitter está sendo usado fundamentalmente para transmitir para o exterior imagens e informações produzidas por grupos de oposição aos ayatolás.

Internamente, são raríssimos os iranianos que usam os microblogs para se comunicar e menos ainda os que os empregam para fins políticos. A mobilização oposicionista contra o resultado das eleições presidenciais do dia 12 de junho, está sendo feita basicamente pelo sistema boca a boca, por blogs na internet e por torpedos enviados por telefone celular. Estas são, ainda segundo Cohen, as grandes armas da oposição liderada pelo candidato derrotado Mir-Hossein Mousavi, que denuncia fraude na votação vencida por Mahmoud Ahmadinejad, candidato à reeleição.

O essencial é que a imprensa estrangeira está sendo obrigada a informar com base em fontes que não tiveram acesso direto aos acontecimentos e por ferramentas como o

Twitter que podem ter acelerado a transmissão de fotos para o exterior, mas também causaram uma enorme confusão informativa interna por conta de uma onda de boatos espalhados por agentes do governo e ativistas pouco preocupados com a precisão das informações.

Esta também não é uma característica exclusiva da cobertura jornalística da crise iraniana. O mesmo fenômeno de “terceirização” noticiosa vem se agravando desde a guerra do Vietnã. O conflito no sudeste asiático foi a última grande oportunidade em que os correspondentes de guerra puderam deslocar-se livremente pelos fronts de combate recolhendo historias e imagens, sem intermediários.

O glamour dos correspondentes de guerra começou a se evaporar nas invasões norte-americanas no Iraque quando os repórteres perderam completamente a liberdade de movimento no front de guerra. Eles só podiam informar sobre o que os militares permitiam. A segunda invasão foi ainda pior porque a imprensa teve que vestir uniformes e incorporar-se às unidades em combate como se fossem soldados.

Em abril do ano 2000, o veterano correspondente de guerra Phillip Knightley[1] já havia decretado o fim dos correspondentes de guerra num artigo intitulado No More Heroes (Não há mais heróis). No texto ele previa que os jornalistas não teriam mais liberdade nas coberturas em combates porque a guerra tecnológica e a concentração de todas as informações nas mãos de militares impossibilitavam qualquer visão independente ou a verificação de versões conflitantes.

Os norte-americanos foram os que mais aprimoraram as técnicas de controle da imprensa em cenários de guerra, mas hoje os mesmos procedimentos se tornaram padrão em todos os exércitos do mundo. Os correspondentes acabaram tendo que se conformar com a posição de mensageiros da versão oficial dos fatos.

A tecnologia aumentou exponencialmente o volume e a velocidade de transmissão de notícias sobre guerras e conflitos mas sacrificou um personagem que já tinha um lugar cativo no imaginário popular. No caso do Irã, parece mais fácil acompanhar a crise de um computador em Nova Iorque do que nas ruas de Teerã.

[1] Phillip Knightley, inglês, é o autor do best seller The First Casuality (A primeira vítima) considerado um clássico do jornalismo em conflitos bélicos.

por Carlos Castilho – Observatório da Imprensa

Jornalistas e cozinheiros

Com a decisão do Supremo Tribunal Federal extinguindo a obrigatoriedade de diploma de curso superior para excercer a profissão de jornalismo, os defensores da reserva de mercado começam a espernear.

Jornalista, assim como um chefe de cozinha ou um empresário, não precisa de certificado. O talento e a competência determinam o sucesso, independente de diploma. Os cursos lapidam esses dons.

O que prevelecerá será a meritocracia, que nessa terra Brasilis de apaniguados e de nepotismos, anda relegada aos porões da história.

Uma das mais respeitadas jornalista do Brasil, Barbara Gancia, aborda de forma magistral o assunto.

Confira:

Na quarta-feira, assim que saiu a decisão do STF tornando inconstitucional a exigência do diploma de jornalismo como condição para o exercício da profissão, recebi uma longa mensagem lamentando a determinação. Veja:

“Barbara, pelo amor de Deus, somos jornalistas. Eu estudei, me dediquei, tirei notas boas, mas, acima de tudo, amo a profissão. Agora, qualquer detentor do conhecimento que saiba escrever pode exercer a profissão sem fazer curso, sem gastar o dinheirão que eu gastei.”

Interrompo antes que o sangue suba-me à cabeça: como assim, “qualquer detentor do conhecimento que saiba escrever”? Será que o amigo missivista acha que a decisão do STF tornará o processo de seleção em jornais, revistas etc. menos rigoroso? A ideia não continua sendo de que jornalistas devem ser pessoas detentoras de conhecimento que saibam escrever? E a quem ele defende, aos cursos de jornalismo ou à profissão que diz amar?

Ele prossegue: “Estou indignado pelo fato de distorcerem artigos da Constituição a favor do convencimento que jornalista agora nem precisa de universidade. Como não precisa? Tivemos aulas de filosofia, ética, cultura popular, sociologia, teoria da comunicação…”.

Pelo visto, ficou faltando aquela aulinha básica de redação, né não? De que adianta estudar teoria da comunicação quando se acaba escrevendo uma feiúra como “a favor do convencimento que”?

O colega me faz uma pergunta muito da mal formulada, mas tudo bem: “Barbara, você concorda com o STF quando ele compara a desnecessariedade do diploma com o fato de um bom chef de cozinha não precisar de certificado para cozinhar?”

Eu diria que a analogia feita pelo STF não poderia ser mais acertada. Jornalismo é o tipo de profissão que pouco tem a ver com teoria. Aprende-se enfiando a mão na massa. E como no Brasil os cursos muitas vezes são caça-níqueis ou ministrados por professores que não conseguiram uma vaga na Redação de um grande jornal ou na TV, a faculdade de jornalismo resulta em uma espetacular perda de tempo.

Desde sempre, vejo focas saírem da faculdade e chegarem à Redação completamente despreparados e relatando histórias de terror. Cito uma clássica. Certa vez estava parlamentando com o editor quando, vinda da faculdade, uma estagiária disse que, naquele dia na sala de aula, o professor discorrera longamente sobre as desvantagens de se trabalhar com o editor em questão e na empresa em que todos nós trabalhávamos. O editor perguntou o nome do professor.

Quando a moça disse quem era, ele suspirou: “Esse eu tive que demitir por justa causa”.

Voltando à mensagem do jornalista que lamenta o fim da reserva de mercado. Diz ele que: “Os invasores não vão mais enfrentar as agruras do dia a dia numa universidade. Eu me fiz em dois por conta do meu TCC. E agora, tudo isso foi em vão?” Bem, quem mandou estudar apenas para passar de ano, não é mesmo? E que medo irracional é esse de invasores, estamos falando de marcianos?

Não é porque caiu a obrigatoriedade do diploma que a velha história sobre ter competência e se estabelecer deixou de vigorar. Por sorte, o trabalho do jornalista continua a ser uma vitrine em uma esquina movimentada: seu talento -ou a falta dele- será visto por todos os que passarem na frente da loja.

Barbara Gancia

Bill Vaughan – Frasário

“Agora que as mulheres são jóqueis, juízes de beisebol, cientistas atômicas e executivas, talvez elas consigam algum dia estacionar um automóvel paralelo a calçada.”
Bill Vaughan¹

¹William E. ( “Bill”) Vaughan
* Missouri, EUA – 8 de Outubro de 1915 d.C
+ Missouri, EUA – 25 de Fevereiro de 1977 d.C

Jornalista e escritor norteamericano. Nascido em Saint Louis, Missouri, escreveu uma coluna diária para o Kansas City Star a partir de 1946 até sua morte em 1977. Publicou artigos na Seleções Reader’s Digest e Better Homes e Gardens sob o pseudônimo Burton Hillis. Foi professor da Washington University em St. Louis.
Seus aforismos são frequentemente recolhidos em livros e em sites da Internet.