O site Jornalivre está explorando seu computador sem você saber

Página ligada ao MBL “mineirava criptomoedas” às custas do processador de sua máquina.

Poucos dias depois de propor incendiários boicotes à arte, o site Jornalivre, mantido por simpatizantes do MBL e constantemente replicado pelo grupo, começou a apresentar problemas para quem o acessava. O motivo? Por meio de um script, o site está usando o computador alheio para minerar moedas virtuais.

O script é o mesmo que foi encontrado na última quarta-feira (4) no site da D-Link e pertence a uma empresa chamada Coinhive, conhecida por oferecer um arquivo .js para minerar a criptomoeda Monero.

Assim que abrimos o site, caso não usemos um antivírus que avise sobre o malware, a utilização de CPU do computador vai às alturas, o que indica que o script está usando recursos do seu computador para render uma verba a alguém. (Não são todos os antivírus que reconhecem o script como malware. O Kaspersky, por exemplo, não; Avast, sim.)

Em uma simples olhada dentro do código-fonte da página, podemos ver que, além de fazer o scr do script, que basicamente é a forma de carregar um arquivo de javascript dentro de uma página web, alguém configurou o script para rodar dentro do site para o usuário do Coinhive com a key jDZBZnZTPKAA7OHq40uuC80DASwwmsJv.

As maiores probabilidades são duas: 1) o administrador do site Jornalivre está usando a ferramenta para cunhar umas moedas virtuais às custas das nossas máquinas ou 2) o site foi hackeado por um terceiro que está no controle da ferramenta.

Há também uma terceira hipótese, menos provável: poderia existir um script da Coinhive dentro de um plugin do próprio WordPress, plataforma no qual o Jornalivre é feito.

Procurados pelo Motherboard, os responsáveis pelo Jornalivre não responderam o contato.

COMO FUNCIONA A MINERAÇÃO VIA SCRIPT

E como eles lucram? Bem, o processo funciona da seguinte maneira: em dados momentos, que são controlados por um programa que está administrando o sistema e distribuído por todos os nós (cada um dos computadores que entraram no Jornalivre), um hash (uma sequência de bits gerada por um algoritmo responsável pela encriptação do conteúdo) é emitido. Todos os nós dessa rede tentam quebrar a criptografia para chegar no valor guardado dentro desse hash. Quem conseguir, leva o valor em criptomoeda.

O esquema de mineração da moeda suga os recursos do seu computador porque ele precisa resolver uma operação matemática complexa. O que o script usado no site Jornalivre faz é “terceirizar” esse trabalho, ou seja, o processador do visitante é usado para fazer essa operação

É aí que mora o problema: o Jornalivre (ou, vá lá, a pessoa que botou esse script lá) está usando a capacidade do computador do usuário que entra no site para fazer a operação e ficar com a grana da criptomoeda. Por consequência, o visitante de suas enviesadas notícias pode ter o computador travando e gastando mais energia.

Ainda não há crime para essa função prevista em lei, mas, caso queira manter distância dessas armadilhas mineradoras, há algumas opções de defesa. Alguns dos bloqueadores de anúncio tradicionais, como o AdBlock, já estão adicionando atualizações que não permitem a execução do script de mineração. Além deles estão começando a aparecer plugins voltados especificamente para esse fim, como o NoCoin e o minerBlock.

Mas vale ficar atento: os próprios mineradores estão lançando anti-anti-blocks. Ao que parece, a briga irá longe.

Após a publicação da matéria, o script foi retirado.

Fake news é uma pratica na ciência da desinformação

O que é fact-checking?

Nessa animação, o pessoal da Agência Pública explica a importância da checagem de informações em meio ao aumento de notícias falsas na rede.

O fact-checking é uma checagem de fatos, isto é, um confrontamento de histórias com dados, pesquisas e registros.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Se um político jura que nunca foi acusado de corrupção, há registros judiciais que irão atestar se é verdade. Se o governo diz que a inflação diminuiu, é preciso checar nos índices se isso realmente ocorreu. E se uma corrente diz que há um projeto de lei para cancelar as eleições, é preciso conferir nas propostas em tramitação se essa informação é real.

O fact-checking é uma forma de qualificar o debate público por meio da apuração jornalística. De checar qual é o grau de verdade das informações. Reportagens do Buzzfeed e do The Guardian, por exemplo, mostraram que boa parte do conteúdo compartilhado na internet durante as últimas eleições nos Estados Unidos vieram de sites de notícias falsas. Situação semelhante aconteceu no Brasil na semana do impeachment de Dilma Rousseff.

Saiba mais sobre o que é checagem na animação a seguir.

Agência Pública mantém um projeto de fact-checking, o Truco, desde 2014, com o objetivo de verificar frases de políticos e personalidades. Com isso, qualifica-se o debate público e aprimora-se a democracia. Sugestões de checagens podem ser enviadas para o nosso WhatsApp: (11) 96488-5119 ou para o e-mail truco@apublica.org.

O fact-checking é uma checagem de fatos, isto é, um confrontamento de histórias com dados, pesquisas e registros.

Se um político jura que nunca foi acusado de corrupção, há registros judiciais que irão atestar se é verdade. Se o governo diz que a inflação diminuiu, é preciso checar nos índices se isso realmente ocorreu. E se uma corrente diz que há um projeto de lei para cancelar as eleições, é preciso conferir nas propostas em tramitação se essa informação é real.

O fact-checking é uma forma de qualificar o debate público por meio da apuração jornalística. De checar qual é o grau de verdade das informações. Reportagens do Buzzfeed e do The Guardian, por exemplo, mostraram que boa parte do conteúdo compartilhado na internet durante as últimas eleições nos Estados Unidos vieram de sites de notícias falsas. Situação semelhante aconteceu no Brasil na semana do impeachment de Dilma Rousseff.

Saiba mais sobre o que é checagem na animação a seguir.

 

Agência Pública mantém um projeto de fact-checking, o Truco, desde 2014, com o objetivo de verificar frases de políticos e personalidades. Com isso, qualifica-se o debate público e aprimora-se a democracia. Sugestões de checagens podem ser enviadas para o nosso WhatsApp: (11) 96488-5119 ou para o e-mail truco@apublica.org.

Al Gore, Fake News e Globalismo

Fake News e marginais globalistas atuando desesperadamente.

Logo que Trump deu um “uper cut” na conferência do clima em Paris,começaram a brotar as costumeiras noticiais apocalípticas sobre o aquecimento global.
Tenho acompanhado a mídia. Em média, duas notícias por dia.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]
 
As pessoas do mundo em geral são tão alienadas e doutrinadas mentalmente, seja numa “universidade”, seja em frente a televisão, que simplesmente “Não Observam” que mesmo com os “avisos alarmantes” de Al Gore e sua trupe, as temperaturas ao redor do mundo seguiram baixando e diminuindo e mesmo assim, a farsa continua até hoje.
Mesmo tendo acontecido exatamente o oposto das “previsões catastróficas” de “alertas” daqueles “políticos” e “pseudo-ecologistas” que quando questionados, não tinham e não tem respostas mas apenas Repetições Virulentas de discursos pré preparados que decoram e creem.
 
Foi simplesmente por isso que o nome do evento “Aquecimento Global”, mudou para “câmbio climático”. Para ser menos ridículo e as pessoas não correrem o risco de “cair na real” uma vez que o planeta não esquentava e as temperaturas seguiam baixando.
Globalistas da Nova Ordem Mundial são deuses e Al G(B)ore seu maldito profeta.

Mídia, mentira e desinformação

Os meios de comunicação, a mentira pela omissão e o papel da desinformação.

Nada do que é importante no mundo é hoje refletido pela comunicação dita “social”, os meios de comunicação empresariais que arrogantemente se auto-intitulam como padrão de “referência”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Para quem pretende uma transformação do mundo num sentido progressista isto é um problema, e problema grave. Significa um brutal atraso na tomada de consciência dos povos, cuja atenção é desviada para balelas, entretenimentos idiotas, falsos problemas e outros diversionismos.

Omissão não é a mesma coisa que desinformação. Vejamos exemplos de uma e outra, a começar pela primeira.

A mais atual é a ameaça da instalação de mísseis Iskander junto às fronteiras ocidentais da Europa. Isso é praticamente ignorado pela mídia ocidental, assim como é ignorada a razão porque eles estão a ser agora instalados: o cerco da Rússia pela OTAN, que instalou novos sistemas de mísseis numa série de países junto às suas fronteiras. É indispensável reiterar que tanto os da OTAN como o da Rússia são dotados de ogivas nucleares.

Outro exemplo de omissão é o apagamento total de informação quanto ao terrível acidente nuclear de Fukushima, que tem consequências pavorosas e a longuíssimo prazo para toda a humanidade. Continua o despejo diário de 400 toneladas de água com componentes radioativos no Oceano Pacífico, o equivalente a uma disseminação igual à de todos os mais de 2500 ensaios de bombas nucleares já efetuados pela espécie humana. Caminha-se assim para o extermínio de uma gama imensa de espécies vivas – da humana inclusive – pois tal poluição entra no ecossistema que lhes dá suporte.

Outro exemplo ainda é o silenciamento deliberado quanto às consequências do desastre com a plataforma de pesquisa da British Petroleum (BP) no Golfo do México. Tudo indica que a gigantesca fuga de petróleo ali verificada ao longo de meses (100 mil barris/dia?) não está totalmente sanada, pois este continua a vazar embora em quantidades menores. A política ativa de silenciamento conta com o apoio não só da BP como do próprio governo americano. Este, aliás, já autorizou o reinício da exploração de petróleo em águas profundas ao longo das costas norte-americanas.

Este silenciamento verifica-se com o pano de fundo do Pico Petrolífero (Peak Oil), que também é deliberadamente escondido da opinião pública pelos meios de comunicação corporativos. Pouquíssima gente hoje no mundo sabe que a humanidade já atingiu o pico máximo da produção possível de petróleo convencional, que esta está estagnada há vários anos. Trata-se do fim de uma era, com consequências irreversíveis, cumulativas, definitivas e a longo prazo. Mas este fato é ocultado da opinião pública.

A maioria dos governos de hoje abandonou há muito a pretensão de ser o gestor do bem comum: passou descaradamente a promover os interesses de curto prazo do capital – em detrimento das condições de sobrevivência a longo prazo da espécie humana. Trata-se, pode-se dizer, de uma política tendente ao extermínio. Veja-se o caso, por exemplo, do fracking, ou exploração do petróleo e metano de xisto (shale) através de explosões subterrâneas e injeção de produtos químicos no subsolo – o que tem graves consequências sísmicas e polui lençóis freáticos de água potável. O governo Obama estimula ativamente o fracking, na esperança – vã – de dotar os EUA de autonomia energética.

Mas há assuntos que para os meios de comunicação corporativos dominantes são não apenas omitidos como rigorosamente proibidos – são tabu. É o caso da disseminação do urânio empobrecido (depleted uranium, DU) que o imperialismo faz por todo o mundo com as suas guerras de agressão. Países como o Iraque, a antiga Jugoslávia, o Afeganistão e outros estão pesadamente contaminados pelas munições de urânio empobrecido. Trata-se do envenenamento de populações inteiras por um agente que atua no plano químico, físico e radiológico, com consequências genéticas teratológicas e sobre todo o ecossistema. A Organização Mundial de Saúde é conivente com este crime contra a humanidade pois esconde deliberadamente relatórios de cientistas que examinaram as consequências da invasão estado-unidense do Iraque. Absolutamente nada disto é refletido nos meios de comunicação empresariais.

Um caso mais complicado é aquela categoria especial de mentiras em que é difícil separar a omissão da desinformação. Omitir pura e simplesmente a crise capitalista – como os meios de comunicação corporativos faziam até um passado recente – já não é possível: hoje ela é gritante. Portanto entram em acção as armas da desinformação, as quais vão desde o diagnóstico até as terapias recomendadas. Os economistas vulgares têm aqui um papel importante: cabe-lhes dar algum verniz teórico, uma aparência de cientificidade, às medidas regressivas que estão a ser tomadas pela nova classe dominante – o capital financeiro parasitário. As opções de classe subjacentes a tais medidas são assim disfarçadas com o carimbo do “não há alternativa”. E a depressão económica que agora se inicia é apresentada como coisa passageira, meramente conjuntural. Os meios de comunicação passaram assim da omissão para a desinformação.

Desde o iluminismo, a partir do século XVIII, a difusão da imprensa foi considerada um fator de progresso, de ascensão progressiva das massas ao conhecimento e entendimento do mundo. Hoje, em termos de saldo, isso é discutível. A enxurrada de lixo que atualmente se difunde no mundo superou há muito as publicações sérias. Basta olhar a quantidade de revistecas exibidas numa banca de jornais ou a sub-literatura exposta nos super-mercados. Tal como na Lei de Greshan, a proliferação do mau expulsa o bom da circulação. E esta proliferação quantitativa não pode deixar de ter consequências qualitativas. Ela faz parte integrante da política de desinformação.

A grande mídia corporativa esmera-se neste trabalho de desinformação. Além de omitir os assuntos realmente cruciais para os destinos humanos ainda promove ativamente campanhas de desinformação. Um caso exemplar foi a maneira como apresentavam e apresentam a agressão à Síria.
Assim, bandos sinistros de terroristas e mercenários pagos pelo imperialismo — alguns até praticaram o canibalismo como se viu num vídeo famoso difundido no YouTube — são sistematicamente tratados como “Exército de Libertação”. E daí passaram à mentira pura e simples, afirmando que o governo legítimo da Síria teria utilizado armas químicas contra o
seu próprio povo.

Denúncias públicas de que os crimes com gases venenosos foram cometidos pelos bandos terroristas (com materiais fornecidos pelos serviços secretos sauditas), não tiveram qualquer reflexo na mídia corporativa – foram simplesmente ignoradas.

Verifica-se neste caso um padrão misto de omissão deliberada e desinformação/mentira. Tudo orquestrado pelos centros de guerra psicológica do império, que a colonizada mídia portuguesa reproduz entusiasticamente. A submissão é tamanha que até publicações conservadoras e burguesas dos centros do império, como a Der Spiegel ou o Financial Times, dão uma informação mais objetiva do que os meios de comunicação portugueses.

A par da omissão & desinformação, a mídia corporativa esmera-se em campanhas para instilar terrores fictícios. É o caso da impostura do aquecimento global, em que gasta-se rios de tinta. Nesta campanha orquestrada pelo IPCC e pela UE procura-se instilar o medo com aquilo que poderia, dizem eles, acontecer daqui a 100 anos – mas escondem cuidadosamente o que já está acontecer agora. Os terrores atuais e bem reais devem ser escondidos e, em sua substituição, inventam-se terrores para o futuro, com a diabolização do CO2 erigido em arqui-vilão. Carradas de políticos e jornalistas ignorantes embarcam nessas balelas. Os mais espertos conseguem sinecuras à conta do dito aquecimento global (agora rebaptizado como “alterações climáticas”). Passam assim a sugar no orçamento do Estado português e dos fundos comunitários.

Este mostruário de exemplos de omissão & desinformação poderia prolongar-se indefinidamente. Ele é o pão nosso de cada dia para milhões de pessoas, em Portugal e no mundo todo. Mas a omissão & desinformação dificulta extraordinariamente a transformação das classes em si em classes para si. A situação é hoje o inverso da que existia no princípio do século XX, quando a consciência de classe dos oprimidos era mais aguda (ainda que o nível de literacia fosse muito menor). Hoje, quem tem maior consciência de classe é a burguesia e a da massa dos despojados é mais ténue. Por isso mesmo a primeira impõe uma lavagem cerebral coletiva e permanente às classes subalternas. Mas a realidade tem muita força e, apesar de tudo, acabará finalmente por se impor. Os povos do mundo já começaram a acordar. Não se pode enganar toda a gente eternamente.

autor: Jorge Figueiredo

A cadeia de valor do mundo digital é outra

Caio Tulio Costa

Caio Túlio Costa foi um dos pioneiros em temas que hoje estão na ordem do dia do jornalismo: o impacto da internet nos modelos de negócio e nos modos de produção e circulação das reportagens.

Participou ativamente do projeto de criação do UOL, do qual foi o Diretor Geral até 2002. Foi também o primeiro Ombudsman da imprensa brasileira, cargo que ocupou na Folha de São Paulo nos anos 1990.

Mineiro de Alfenas, Caio é professor da pós-graduação em jornalismo na Escola de Propaganda e Marketing (ESPM) em São Paulo. Em 2013 foi Visiting Research Fellow na Columbia University Graduate School of Journalism, em Nova York.

É também fundador do Torabit, um sistema de monitoramento digital . Caio Tulio integra os conselhos da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura-SP), da Transparência Brasil, da Revista Pesquisa Fapesp e da Revista de Jornalismo da ESPM, editada em conjunto com a escola de jornalismo da Universidade Columbia.

É autor de quatro livros: Ética, jornalismo e nova mídia – uma moral provisória (Zahar, 2009), O que é Anarquismo (Brasiliense, 1981), Cale-se (A Girafa, 2003) e Ombudsman – O Relógio de Pascal (Geração Editorial, 2006; Siciliano, 1990). Escreveu também vários artigos acadêmicos e organizou publicações como 50 Brasileiros param para pensar o país (Instituto DNA Brasil, 2005) e Somos ou estamos corruptos? (Instituto DNA Brasil: 2006).

“Moral Provisória – Ética e jornalismo: da gênese à nova mídia” é o título de sua tese de doutorado defendida em junho de 2008 na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – a mesma que foi editada em livro pela Zahar.

Na entrevista abaixo, dada por e-mail ao jornalista Pedro Varoni, Caio fala sobre o atual momento do jornalismo no ocidente e no Brasil abordando tanto o aspecto econômico quanto ético. Sobre a extinção do cargo de Ombusdman no New York Times, o jornalista é categórico: “Foi péssima a demissão e pior ainda a explicação”. Quando perguntando sobre uma possível reconfiguração do jornalismo pós- lava jato, Caio se volta aos valores basilares da profissão: independência, transparência, espirito crítico e capacidade investigativa.

Recentemente o New York Times anunciou a extinção do cargo de ombudsman função que, teoricamente, teria sido suplantada pela lógica da cultura participativa em rede. Como você analisa essa decisão e quais seriam os papeis de um ombudsman no ecossistema midiático contemporâneo, ele é ainda uma figura necessária?

C.T.: Achei essa desculpa absolutamente esfarrapada. É claro que o leitorado exerce a crítica do jornalismo praticado pelo seu jornal favorito – seja na internet seja por meio de cartas e telefonemas quando ainda não existiam as redes sociais. Elas amplificaram e facilitaram a interação com o leitorado. Mas essa crítica, este acompanhamento feito pelos leitores, em nada se assemelha ao trabalho do editor público, ou ombudsman. Ele faz a crítica do jornal de uma forma técnica. Faz a crítica do ponto de vista de um profissional do jornalismo movido pelo interesse do leitor. Abrir mão deste olhar técnico, do expert, é abrir mão da discussão sistemática e profissional do jornalismo praticado. Foi péssima a demissão e pior ainda a explicação.

A crise política e institucional que se arrasta no Brasil desde 2013 tem implicações éticas no trabalho jornalístico? Você acha que existe no Brasil uma crise de representação em relação ao jornalismo? Como ele pode se reconfigurar diante desse cenário?

C.T.: Evidentemente que sim, tem implicações éticas. Principalmente em relação às questões de verdade e de mentira. O país está dividido majoritariamente entre esquerda e direita (apesar desses termos serem hoje tão velhos e pouco significativos!) e cada lado acha que tem razão e que o outro exagera ou mente. Sem falar nas outras divisões que opõem conservadores, liberais, esquerdas, direitas e radicais de toda ordem. A imprensa também se divide, de certa forma, e assim ela vai cumprido seu papel. Do ponto de vista ideológico a boa notícia é que a esquerda, com um belo empurrão dos governos do PT, conseguiu algum espaço, principalmente na internet. Por isso, não há mais o que reconfigurar. A reconfiguração que já foi feita. E hoje não é preciso de poder econômico para se comunicar. Esta fantástica virada foi trazida pelos meios digitais e veio para ficar. Teremos que conviver com esta nova realidade, fruto da disrupção nas comunicações.

Em 2014 você escreveu um artigo- publicado também pelo observatório da imprensa – sobre modelos de negócio para o jornalismo digital em que defendia, entre outras coisas, que as empresas de informação deveriam se transformar em empresas de serviços como forma de sustentabilidade financeira. Você acha que as empresas tem seguido esse caminho?

C.T.: Absolutamente não. As empresas jornalísticas continuam teimando em buscar receitas digitais apenas em publicidade e assinatura (via diversas formas de paywall). A nova fonte de receita sugerida no paper, criar produtos/serviços de valor adicionado, praticamente tem sido ignorada. No memento, a impressão que se tem é a de que apenas o Washington Post pode seguir por este caminho.

Diante do impacto de dois fatores- a crise econômica brasileira e as mudanças na forma de produção e circulação de notícias – quais seriam os caminhos possíveis para o fortalecimento das empresas de comunicação?

C.T.: O estudo ao qual você se referiu acima explicava, exaustivamente, que a saída é procurar uma terceira fonte de receitas, já que publicidade e assinaturas não conseguem pagar as contas de uma redação online independente, voltada para a investigação, para o jornalismo crítico e determinado a acompanhar os poderes (econômicos, políticos, culturais) com total distanciamento. A única forma capaz de dar sustentabilidade a um veículo digital de maiores proporções (que fique do tamanho das redações de imprensa clássicas) é criar uma outra fonte de receitas, que viria dos produtos de valor adicionado. As empresas jornalísticas precisam fazer como fizeram as empresas de telecomunicações quando acabou o tráfego nas linhas fixas. Criaram os tráfegos de dados, e os celulares. Os barões do jornalismo continuam agarrados às suas edições tradicionais e estão vendo-as morrer, definhar. A cadeia de valor no mundo digital é outra.

Qual o impacto dos novos formatos disponíveis na internet na linguagem jornalística tradicional? O que é preciso mudar?

C.T.: Primeiro de tudo, é preciso mudar a cabeça dos jornalistas. A maioria tem a cabeça analógica. Não haverá tempo para que as novas gerações, de cabeças digitais, tome conta do negócio. Pode ser que quando as novas gerações chegarem ao poder esta imprensa que conhecemos hoje não mais exista. Enquanto isso, o novo jornalista precisa dominar as técnicas capazes de produzir boas narrativas – o que implica não apenas saber ler e escrever, mas também trabalhar conteúdos multimídia, entender o monitoramento digital e a força da hiperdistribuição de conteúdos via redes sociais.

O que é o índice Torabit?

C.T.: O índice nada mais é do que um ranking de um determinado nicho, como o dos veículos de comunicação publicado no Observatório. Ele mede a taxa de engajamento dos usuários com uma determinada marca, nome ou instituição. É possível obter esta taxa em qualquer atividade nas redes sociais. É muito simples. Ele é a soma de todas as ações que os usuários praticam em cada rede numa determinada página ou perfil (como likes, comentários e compartilhamentos no caso do Facebook), multiplica por 100 e divide pela quantidade de seguidores que esta página ou perfil tem diariamente. Este índice reflete o aproveitamento de cada marca versus sua base de fãs, ou seja, mostra proporcionalmente o quanto do conteúdo ofertado é relevante para os fãs. A média mensal desta taxa de engajamento é um ranking, publicado em forma de infográfico. Quanto melhor a taxa, mais o engajamento da referida marca com os seus usuários.

Como é possível com as tecnologias de inteligência artificial medir aspectos como engajamento dos usuários com as marcas?

C.T.: É simples. Basta capturar os dados diariamente e realizar a continha descrita na resposta anterior. A inteligência artificial pode sofisticar estes aspectos – e de uma maneira quase infinita. Como, por exemplo, dando peso a cada ação praticada em rede. Mas tudo isso é muito simples e conforme se desenvolve esta técnica, muito mais aspectos poderão ser identificados.

Em que medida aspectos como circulação (no caso dos meios impressos) ou audiência (no rádio e na TV) são imprecisos para avaliar o comportamento dos usuários com as mídias?

C.T.: Basta ver, no Facebook, por exemplo, como as reactions podem ser contadas como ações, mas, no fundo, duas delas – Triste e Grr – significam reação negativa. Então isto precisa ser ponderado no momento de verificar a taxa de engajamento. Quando você compra um jornal impresso ou vê um canal normal de televisão as suas reações não são captadas em tempo real – na internet podem ser. Não é que sejam imprecisos os dados, eles são inexistentes na velha mídia, a não ser que você faça uma pesquisa de campo.

Como o jornalismo brasileiro deve se preparar para as eleições de 2018 no cenário pós-lava jato?

C.T.: A receita é a mesma de sempre: independência, transparência, espírito crítico e capacidade investigativa.

Por Pedro Varoni/Observatório da Imprensa

Algorítimos irritam usuários da Internet

Internet se rebela contra a ditadura dos algoritmosInternet se rebela contra a ditadura dos algoritmos

Facebook e Google corrigem seus sistemas de inteligência artificial para mostrar a seus usuários uma visão de mundo mais rea

Pressionado pela crise das notícias falsas, o Google reagiu com mudanças em sua joia da coroa, os algoritmos de busca: a partir desta semana darão mais peso às páginas consideradas mais confiáveis e tornarão menos visíveis os conteúdos de baixa credibilidade.

Depois de meses de testes, as melhorias anunciadas pretendem evitar que os primeiros lugares das buscas continuem exibindo páginas que negam o Holocausto, divulgam mensagens vergonhosas contra as mulheres ou difundem boatos como o de que Barack Obama prepara um golpe de Estado contra Donald Trump.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Com o mesmo objetivo, o Facebook começa a permitir aos usuários que denunciem informações duvidosas. A partir desta semana, também passa a mostrar abaixo delas notícias confiáveis sobre o mesmo tema e também links para sites de checagem de dados.

A divulgação de mentiras, informações muito tendenciosas, rumores e boatos foi protagonista nas campanhas do Brexit e das eleições presidenciais nos EUA e colocou sob escrutínio os algoritmos de Google e Facebook, acusados de favorecer a divulgação de notícias falsas e a criação de bolhas ideológicas.

Isso porque as redes sociais mostram na timeline de cada usuário o que seus algoritmos intuem que a pessoa vai gostar, favorecendo notícias que confirmam sua visão de mundo diante das que questionam suas ideias, segundo adverte o relatório do projeto REIsearch, patrocinado pelo Atomium (o Instituto Europeu para a Ciência, Meios de Comunicação e Democracia), que acaba de lançar uma grande pesquisa pública para questionar os europeus sobre este e outros impactos da nova geração de tecnologias da Internet.

“Culpar as redes sociais pelas bolhas ideológicas é um paradoxo. Ampliam a visão dos usuários para além de seu entorno mais próximo, mas não resolveram um problema que já existia, porque seus algoritmos ainda não são suficientemente bons”, afirma David García, pesquisador da área de ciências sociais computacionais na Escola Politécnica Federal de Zurique.

Ali ele analisa se o conteúdo emocional das notícias falsas contribuiu para aumentar sua difusão. E destaca que os algoritmos podem detectá-las melhor se forem alimentados com dados sobre como são compartilhadas as notícias nas redes sociais.

Monitorar os usuários

“A pesquisa sobre as redes sociais permite identificar os usuários que compartilham notícias não verazes. Um algoritmo poderia detectar que uma notícia está sendo compartilhada por muitos desses usuários e classificá-la como possivelmente falsa”, afirma David García. “Imagino que o Google esteja fazendo algo parecido para melhorar seu algoritmo, mas o problema é que não sabemos o que é.”

Em 2015, um grupo de cientistas do Google publicou um artigo de pesquisa no qual explicava um novo método para avaliar a qualidade dos sites em função da veracidade dos dados que contém, em vez do método tradicional do buscador, que determina a popularidade de um site combinando uma multiplicidade de sinais externos, como o número de links para ele a partir de outros sites.

O Google não esclarece se incorporou esse algoritmo da verdade em suas melhorias recentes.

Walter Quattrociocchi, pesquisador da área de ciência de dados, redes e algoritmos no IMT – Institute for Advanced Studies italiano, alerta sobre essa ideia: “Um algoritmo, por definição, nunca será capaz de distinguir o verdadeiro do falso”.

Carlos Castillo, que dirige o grupo de pesquisas de ciência de dados no Eurecat (Barcelona), concorda: “Decidir se algo é verdadeiro ou falso não é algo que devemos terceirizar para uma máquina. Nem para outras pessoas. Não pode haver um Ministério da Verdade [como o do romance 1984, de George Orwell], tampouco um algoritmo da verdade”.

Pelo contrário, o pesquisador afirma que a maioria das mudanças anunciadas por Google e Facebook nas últimas semanas aplicam soluções baseadas na participação humana. Castillo defende o fomento do ceticismo visível: destacar as notícias falsas e contextualizá-las, ao contrário das exigências de que Facebook e Google as eliminem.

Soluções humanas: educação e verificação de dados

“O que sim podemos pedir a um algoritmo é que nos ajude a avaliar a veracidade de uma informação, destacando os dados e demais elementos que devemos comparar para formar nossa opinião”, acrescenta o pesquisador Carlos Castillo.

“Decidir se algo é verdadeiro ou falso não é algo que devemos terceirizar para uma máquina. Nem sequer para outras pessoas.”

Assim, a Full Fact, uma agência independente de verificação de dados, prevê que este ano seus revisores possam começar a usar inteligência artificial para agilizar seu trabalho.

Google e Facebook começaram a dar visibilidade a estas verificações humanas ao lado das notícias que divulgam, para que os usuários possam avaliar melhor sua veracidade.

Walter Quattrociocchi destaca a necessidade de “sinergias entre jornalistas e instituições acadêmicas para promover um intercâmbio cultural e combater a difusão de notícias falsas”.

“O problema não será resolvido pelos algoritmos”, adverte David García. E Carlos Castillo concorda também que “nos falta alfabetização midiática: ainda não desenvolvemos certas habilidades para avaliar as notícias, mas faremos isso”.

Na mesma linha, Andreas Schleicher, diretor de Educação da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) anunciou que a análise crítica de informações digitais será incorporada ao próximo relatório PISA, que em 2018 avaliará o rendimento acadêmico dos estudantes de nível secundário internacionalmente.
ElPais

Drones, jornalismo e os peitos da Kate Midleton

Os peitos de Kate e o futuro do jornalismo: aviões de controle remoto

kate middleton ok Os peitos de Kate e o futuro do jornalismo: aviões de controle remoto

Kate Middleton tem uns peitinhos pequenos, clarinhos, simpáticos. Sem grande personalidade. Não impressionam pela aerodinâmica, volume, coloração ou “empinância”. Kate é uma inglesa jovem, magrinha e atlética. Suas “mamicas” não causariam sensação numa praia qualquer da França, onde o topless é praticamente norma, tanto de mocinhas como de velhinhas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Na Europa, é difícil praia onde não se vê uns peitos de fora, e em algumas os mamilos expostos preponderam. A gente acostuma. Depois de uns 15 minutos, o brasileiro mais tarado já se esqueceu do topless, e está reparando mais é nas partes de baixo, enormes, tampando o traseiro todo. Cadê aquelas bundinhas bronzeadas e torneadas a la carioca? Fora o choque de ver os peitões caídos e cheios de veias das vovós.

Como Kate resolveu se casar com o herdeiro do trono da Inglaterra, não faz como boa parte das moças da sua idade. Não faz topless na praia. Mas de férias no sul da França, em companhia do marido, tirou a parte de cima pra curtir o sol e a piscina. William nem tchuns. Imagino que aprecie ver a mulher pelada, mas não é exatamente novidade.

Um fotógrafo capturou as imagens a distância. Tentou vender para os jornais ingleses. Se recusaram. Sabiam que vinha bala. Vendeu para uma revistinha francesa. Processo à vista. Vão perder uma fortuna. Kate é figura pública, mas estava em espaço privado. Não tem volta: as fotos caíram na internet. Também não tem importância: amanhã teremos esquecido. Mas a história tem outras implicações. Vai lá ver, depois volta.

A revista colocou umas legendas bem temperadas. Tenta elevar a temperatura do conteúdo. Veja as fotos sensuais do príncipe William e Kate! Veja a futura rainha da Inglaterra, como ela nunca mais será vista! Bem, o casal aparece sozinho na piscina. Podiam ter dado uns amassos, ou quem sabe algo mais, por que não? Férias é pra essas coisas… Mas as fotos são totalmente casalzinho, William besuntando a mulher de filtro solar, os dois papeando, erotismo zero.

Comentando o caso, o colunista do jornal britânico Telegraph Willard Foxton levanta o principal ponto do caso. Essa não será a última vez que veremos as “peitolas” de Kate, ou as escapadas de Harry, ou outros famosos e poderosos aparecendo como não queriam. Porque todo celular é uma câmera faz tempo.

Agora eles são ótimas câmeras, com capacidade de zoom, de controlar a luz e de focar, que antigamente só fotógrafos profissionais tinham à disposição. Ontem mesmo, a Apple mostrou ao mundo o novo iPhone, que vem com uma câmera de oito megapixels. Tem mais, diz o colunista. Tem drones. Sabe o que é? Aviõezinhos de controle remoto, contendo câmeras. Drone journalism: a utilização de drones para captação de fotos, vídeos, dados.

Foxton cita o Team Blacksheep, uma equipe de hobbistas americanos, que criaram seus próprios drones em garagens. E o caso do vídeo feito na Polônia por um drone, registrando um quebra-quebra. Olha o bicho pegando em Varsóvia.

varsovia Os peitos de Kate e o futuro do jornalismo: aviões de controle remoto

A conclusão dele: daqui para frente, ninguém está a salvo de ter sua vida registrada, exposta e comercializada. A minha: não há legislação que segure a onda. O texto completo está aqui.

Eu vinha procurando uma chance de tocar nesse assunto, e chegou. Drone journalism vem sendo saudado como o futuro do jornalismo por publicações como Wired e Fast Company. O assunto já tem um ano, pelo menos. Já existem ONGs dedicadas ao jornalismo drone. Um centro de drone journalism na Universidade de Nebraska recebeu um prêmio da Knight Foundation, instituição americana dedicada à inovação no jornalismo. Tá pegando.

Drone journalism tem uma série de vantagens. Dá para cobrir esportes, shows e tal. Mas também desastres naturais, revoluções, abusos policiais, e muitas outras coisas. Um drone baratinho custa US$ 6 mil dólares, os mais sofisticados dez vezes mais. Os preços estão caindo. Em Moscou, protestos na última eleição de Putin foram registrados por um drone.

Os cupinchas do presidente tentaram abater o helicopterozinho a bala, mas não conseguiram. As fotos são incríveis. Dão um peso enorme ao protesto. Drones são ótimos porque permitem a gente comum cobrir o que as grandes empresas de comunicação muitas vezes preferem ignorar, ou manipular. Veja as fotos de Moscou e comprove.

Há questões de legislação. Países diferentes têm regras diferentes sobre a utilização de drones, ou nenhuma. Nos EUA, o FAA, órgão público que regulamenta a aviação, tem até 2015 para propor novas regras para seu uso. É certo que os drones serão liberados. Eles têm muitas utilizações potenciais, e não só no jornalismo. Podem ser combinados com GPS. Podem ter algum nível de inteligência artificial.

Podem revolucionar a meteorologia, o controle de tráfego, a guerra, a segurança. Também podem servir para a manutenção de um estado policial, ou para desintegrar nossos conceitos de privacidade. Quer comprar um drone? Esses robokopters parecem bem legais. Veja aqui.

Os drones vão longe. Até onde? Não faço ideia. Sei que as Kates e todos os famosos e importantes terão que se acostumar com o fato de que não terão mais vida privada. E sei que os drones são poderosos demais para ficar na mão dos poderosos. Os abusos virão. Mas abusos também há na imprensa e na internet, como provam os peitinhos da princesa. E como a imprensa e a internet, os drones dão poder a nós, os plebeus.

Viva a revolução!
AndreForestier/R7

“Misturar o verdadeiro e o falso é típico das ditaduras”

Nas páginas do The New York Times, Roger Cohen (Londres, 1955), é um dos colunistas mais influentes dos Estados Unidos. Em suas memórias, The Girl from Human Street (A garota de Human street), conta a história de sua família, que começa na Lituânia. Todos os que não fugiram foram assassinados pelos nazistas. Sua história passa pela África do Sul e pelo Reino Unido e é marcada pela tolerância e pela ideia de que somente a generosidade de outros países que abriram suas fronteiras permitiu sua existência. Uma frase do historiador britânico Simon Schama, que citou em uma de suas últimas colunas, resume seu pensamento sobre a presidência de Donald Trump: “A indiferença para com a verdade e a mentira é uma das condições prévias do fascismo. Quando a verdade morre, também cai a liberdade”. Cohen visitou Madri recentemente, convidado pela Fundação Rafael del Pino, onde deu uma conferência.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Pergunta. Seus familiares conseguiram sobreviver porque puderam se tornar refugiados. O que o senhor sente diante da política de imigração de Donald Trump?

Resposta. Venho de uma família que teve de emigrar a cada geração, da Lituânia, da África do Sul… Estou indignado, é desnecessário. Não há nenhuma evidência de que algum cidadão dos países vetados tenha cometido um ato terrorista com perda de vidas nos EUA nos últimos anos. Durante toda a campanha, vimos que Donald Trump, com Steve Bannon por trás, é antimuçulmano. Vimos isso com essa medida, estimulada por preconceitos. A forma como foi adotada provocou caos e justa indignação não só entre aqueles que não puderam entrar nos EUA, apesar de terem visto, mas em todo o mundo. É injustificável.

P. Podemos entender a história do século XX, e inclusive a do século XIX, sem a imigração em massa de milhões de pessoas em todo o mundo?

R. Os Estados Unidos são uma ideia, e uma parte importante dessa ideia é que é um país de imigrantes. Trump é um retrógrado. Todo movimento populista precisa de um mito do passado (“que a América volte a ser grande de novo”), e um inimigo, que para Trump são os mexicanos e os muçulmanos. Ele está tomando um caminho muito perigoso, o do medo. Dito isso, ele ganhou e foi capaz de intuir algo está acontecendo, captar o medo, a ansiedade em relação à precariedade econômica, o ressentimento, o sentimento de que as elites agiram com total impunidade no crash de 2008. E, como no caso do Brexit, baseou-se em mentiras, não há outra palavra para isso. Existe uma percepção de que a democracia não protege todos…

P. O senhor fez uma reportagem sobre os campos em que estão confinados os refugiados que tentam chegar à Austrália, lugares terríveis. Acredita que na crítica às medidas de Trump há alguma hipocrisia, muitos países fazem o mesmo sem o dizer?

R. Estamos diante de um problema real: vivemos o momento com mais refugiados desde 1945 e a capacidade das democracias ocidentais para absorver centenas de milhares de pessoas é limitada. A Alemanha não foi hipócrita, acolheu quase um milhão de refugiados. É necessário que as pessoas sejam tratadas com justiça e humanidade, de acordo com a Convenção sobre os Refugiados. No caso da Austrália, não é assim em absoluto. Há mais de três anos, milhares de pessoas, seres humanos, estão apodrecendo em duas ilhas remotas. Muitas delas estão doentes, outras estão traumatizadas, é algo terrível. Nos EUA, o fato de que o presidente use esse tipo de preconceito contra os muçulmanos, uma população total de 1,1 bilhão de pessoas no mundo, pode ter consequências muito graves.

P. Qual é a diferença entre a pós-verdade e as mentiras que dizem muitos presidentes e políticos de todo o mundo como, por exemplo, as mentiras de George W. Bush que deram a base para a invasão do Iraque?

R. Existe uma diferença. Trump diz coisas, como o ataque fictício na Suécia, que por um lado são ridículas, mas por outro são perigosas. A palavra do presidente dos EUA é algo que durante 75 anos ajudou a manter a segurança global, era crível, mas não é mais. É verdade que a invasão do Iraque foi baseada em mentiras. Mas agora o presidente norte-americano acusa o The New York Times e o The Washington Post, dois pilares da República, de divulgar notícias falsas, estamos entrando num mundo onde dois mais dois são cinco. Misturar o verdadeiro e o falso é um problema muito sério porque é uma característica fundamental das ditaduras. No final, a única verdade é a voz do líder, que é o que Trump se considera. Devemos ter muito cuidado com os paralelismos históricos, mas, ao mesmo tempo, não podemos ignorar o que aconteceu nos anos trinta. Temos Steve Bannon, o homem da sombra, dizendo que “a imprensa deveria fechar a boca”. Acho que os meios de comunicação têm de fazer seu trabalho: responsabilizar o poder e testemunhar os acontecimentos. Isso é mais sério, porque há um ataque premeditado e total contra a verdade. Está sendo criado um ambiente em que a verdade e a mentira são intercambiáveis.

“Existe um problema muito grande nos EUA, é um país dividido e os seguidores de Trump não se importam com o que o ‘The New York Times’ diz”

P. Em seu livro, o senhor escreve: “As verdades são muitas e em todas as guerras se luta pela memória”. Podemos chegar a esse estado? Mesmo que não haja guerra, o senhor acredita que estamos, na Europa e nos EUA, diante de partes em conflito com memórias diferentes?

R. Cobri guerras no Líbano, na Bósnia e cada lado tem sua verdade e sua memória, que é sempre fluida e manipulável pelos líderes nacionalistas. François Mitterrand costumava dizer que “o nacionalismo é a guerra”. O nacionalismo levado a certo ponto representa sempre a guerra e esse é o triunfo da UE. Uma das coisas que mais me alarmam nos dias de hoje é como a grande criação política da segunda metade do século XX, a UE, é atacada pelo presidente Trump, foi corroída pelo Brexit e está sofrendo uma extraordinária amnésia sobre suas realizações.

P. A imprensa pode ser suficiente para conter Trump?

R. Não é apenas a imprensa, também temos os tribunais. É extraordinário ver como a Constituição dos Estados Unidos, tantas décadas depois, continua a fornecer instrumentos para responsabilizar as autoridades. Há um grande problema nos EUA: é um país dividido e os seguidores de Trump não se importam com o que o The New York Times diz. Como superar essa ruptura? É uma pergunta muito importante.

P. Os populismos sempre oferecem soluções simples para problemas complexos, seja Trump, Marine Le Pen na França ou Geert Wilders na Holanda. Dizem que é suficiente tomar medidas contra os estrangeiros para que tudo se resolva. Como podemos lidar com isso?

R. A realidade irá colocá-los em seu lugar, veremos se Trump tem um coelho na cartola, se pode recuperar os postos de trabalho nas fábricas na era da robótica. A classe média norte-americana comprovará os resultados. Não vamos mudar a natureza humana, o fato de que as pessoas se sintam atraídas por um personagem autoritário como Trump, que usa o medo, que é cheio de ira, que promete soluções milagrosas. Também temos de reconhecer que fez algo extraordinário, incrível.

Como a publicidade influi na produção de programas culturais

O objetivo do trabalho é mostrar como a teoria “A Influência do Jornalismo”, capítulo do livro Sobre a Televisão, de Pierre Bourdieu, explica a ausência de produtos/programas televisivos culturais na Rede Globo de Televisão.*

Para isso é preciso entender como funcionam os órgãos de difusão de informação e como os campos econômicos e políticos os afetam, levando em conta todos os aspectos teóricos propostos por Pierre Bourdieu no capítulo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Embora o capítulo se chame “A influência do Jornalismo”, ele não se refere ao suposto poder de influenciar os telespectadores e moldar a opinião pública ao seu favor, como no filme O 4º Poder, de Costa Gavras. No entanto, o capítulo põe em vista todas as influências que os mecanismos jornalísticos sofrem, tendo em vista a interferência de campos externos, avaliando especificamente o jornalismo televisivo.

Com o passar dos anos, a evolução do jornalismo foi adquirindo termos e regras inexplícitas; como o desenvolvimento da televisão, começando com o barateamento do custo do aparelho televisivo e tornando um bem comum na casa do brasileiro. Com o aumento dos números de públicos possíveis veio a necessidade de utilizar linguagens universais para atingi-los, o que no texto é comparado com o surgimento da literatura industrial.

Assim como um produto, os jornais e programas televisivos são comparados por números de venda, ou seja, a quantidade de pessoas que consomem aquele determinado canal, naquele determinado momento. A partir do número de pessoas que assistem ao programa é possível cobrar mais caro por propagandas, anúncios e patrocínios, pois, teoricamente, atingiria mais pessoas. A necessidade de continuar produzindo telejornais e vendendo anúncios publicitários cria a primeira interferência de campos, os interesses do campo econômico influenciam o campo jornalístico, fazendo produzir o maior número de matérias possíveis, no menor tempo possível. Sendo assim, os jornalistas são os mais propensos a adotar “os critérios de audiência” (fazer o simples, para o entendimento de todos e em um curto espaço de tempo).

“O grau de autonomia de um órgão de difusão se mede, sem dúvida pela parcela de suas receitas que provém da publicidade e da ajuda do Estado (sob a forma de publicidade ou subvenção) e também pelo grau de concentração de anunciantes” (Pag.: 104 a 105 do livro Sobre a Televisão).

Também foi adotado pelo jornalismo um signo de velocidade, que é necessário transmitir as notícias em tempo real, e com o passar dos anos, o público absorveu essa ideia e criou esta fetichização da notícia, cobrando do jornalista uma produção em maior escala, mas na mesma carga horária. Isto afeta a qualidade da notícia produzida, empobrecendo a construção do texto e apuração dos fatos, levando em alguns casos a precipitação. A mecanicidade se torna habitual no jornalismo, podendo comprar o que era considerado por Otto Groth como produção cultural, hoje pode ser visto como a alienação do trabalho, teorizado por Karl Marx.

Visando satisfazer a sede por atualidades do público, e manter o seu emprego, o jornalista tem sua autonomia de criação ditada por pautas e prazos para cumprir. Seu campo de atuação também é interferido por fatores internos da própria empresa, que é afetada pelo campo econômico. Além destas, o tempo de uma notícia é estipulado pela emissora, delimitando o espaço do jornalista para trazer argumentos, pontos e contra pontos da notícia, o impedindo de aprofundar o assunto.

Outro fator que influência o modo em como os produtos culturais são desenvolvidos é a necessidade do jornalismo se auto afirmar objetivo e imparcial, com o intuito de manter a velha ideia de que o apresentado em telejornais são de fato a realidade, esquecendo que os produtores jornalísticos e os métodos utilizados na produção da notícia são um recorte do fato a partir de convicções políticas individuais. Estes auto afirmamentos são intitulados por Pierre Bourdieu como alodexia, que também pode ser observado em outros campos, como o jurídico.

Utilizando os mesmos critérios das grandes emissoras, entre todos os programas da TV aberta brasileira, o programa com maior número em audiência, segundo o Ibope, é o Jornal Nacional, que passa no horário nobre da Rede Globo. A emissora tem os melhores números que a concorrência em todos seus programas. Abaixo, os dados de audiência nas praças de Porto Alegre e Recife com base no ranking consolidado do Ibope dos dias 28/11 a 04/12.

Audiencias IBOPE Globo
Audiencias Record Ibope
Audiencias Band Ibope
Audiencias SBT Ibope

Muito dinheiro, pouca cultura

Como podemos analisar, a Globo tem o maior número de telespectadores e com isso suas receitas também são as maiores. Justamente por disponibilizar de tantos recursos, visa mantê-los, utilizando todos os métodos apresentados. Também influenciados pelo campo econômico, não há programas culturais realizados pelo Globo, tão pouco possui reportagens culturais.

Utilizaremos o conceito de cultura de Raymond Williams, que considera cultura atos de reação em relação aos acontecimentos individuais da vida de cada um, como citado no texto: “A história da ideia de cultura é a história do modo por que reagimos em pensamento e em sentimento à mudança de condições por que passou a nossa vida. Chamamos cultura a nossa resposta aos acontecimentos que constituem o que viemos a definir como indústria e democracia e que determinaram a mudança das condições humanas. […] A ideia de cultura é a resposta global que damos à grande mudança geral que ocorreu nas condições de nossa vida comum.” (1969, p. 305).

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizada em 2010, 77% dos entrevistados acreditam que o contato a programas culturais são caros, o que dificulta o acesso de grande parte da população. Com isso, vivemos em um país onde a maioria da população não tem acesso à cultura e no qual as grandes emissoras se isentam de levar cultura aos telespectadores, por comodidade e medo de “errar com a audiência” e consequentemente perder dinheiro.

Se para as pessoas ter dinheiro significa ter maior acesso à cultura (literatura, música, arte críticas), ironicamente, quanto mais dinheiro uma emissora tem menos autonomia ela tem sob si mesma, e mais engessada é sua grade de programação. Os únicos programas produzidos pela Globo, intitulados por eles mesmo como culturais (de novo alodoxia), são respectivos as próprias produções institucionais, como novelas, séries ou filmes.

Também há os programas de auditório, como o Altas Horas, que tentam disfarçar esta ausência de jornalismo cultural trazendo atores e atrizes da Globo que fazem peças de teatro fora da TV, mas com investimento da própria emissora.

Ao que parece, a Globo utiliza-se de sua forte importância no mercado para delimitar o que é cultura, fazendo com que a grande massa entenda que esta seja entretenimento. Pelo menos, a trata como se fosse.

* Lars Erick é estudante de jornalismo

A pós verdade e o jornalismo

Apertem os cintos: estamos entrando na era da pós-verdade.

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Pós verdade parece mais uma expressão de impacto para chamar a atenção de um público saturado de informações e inclinado para a alienação noticiosa. Mas o fato é que estamos diante de um fenômeno que já começou a mudar nossos comportamentos e valores em relação aos conceitos tradicionais de verdade, mentira, honestidade e desonestidade , credibilidade e dúvida.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

As evidências desta nova era estão nas manchetes de jornais, em declarações como as do candidato republicano Donald Trump ou nas dos procuradores e acusados na Lava Jato. Se antes havia verdade e mentira, agora temos verdade, meias verdades, mentira e afirmações que podem ser verdadeiras, conforme afirma o escritor norte-americano Ralph Keyes, o autor do livro The Post Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life (St. Martin’s Press, 2004. ISBN 978-0-312-30648-9).

Quando Trump afirmou num discurso que o presidente Barack Obama foi um dos fundadores do Estado Islâmico, até os ultraconservadores norte-americanos acharam que ela estava exagerando. Mas o candidato republicano não se abalou, nem mesmo na televisão, quando explicou que Obama permitiu o surgimento do grupo radical islâmico porque este cresceu no vácuo politico deixado no Iraque pelo que Trump classificou de fracassos da diplomacia do presidente norte-americano. A polêmica criada em torno da afirmação gerou a percepção de que ela poderia ser verdadeira. Foi o suficiente para que Trump saísse ileso da discussão.

A “cognição preguiçosa”

É um caso típico de aplicação da teoria da “cognição preguiçosa”, criada pelo psicólogo e prêmio Nobel Daniel Kahneman, para quem as pessoas tendem a ignorar fatos, dados e eventos que obriguem o cérebro a um esforço adicional.

Aqui no Brasil, a pós verdade é nítida no caso das investigações da Lava Jato. Separar o joio do trigo no emaranhado de versões e contra versões produzidas pelas delações premiadas é bem complicado. Há poucas dúvidas sobre a existência de esquemas de propinas, caixa dois eleitoral, superfaturamento, formação de cartéis e enriquecimento de suspeitos, mas provar cada um deles com base em evidências é uma operação complexa e demorada. Em alguns casos até inviável dada a sofisticação dos esquemas adotados pelos suspeitos de corrupção.

Mas como existe o interesse político envolvendo a questão e como existe a “cognição preguiçosa”, as convicções passam a ocupar o espaço das evidências e provas. A dicotomia jurídica clássica entre o legal e o ilegal passa a ser substituída por justificativas tipo “domínio do fato”, ou seja, convicções construídas a partir da repetição massiva de percepções individuais ou corporativas, pelos meios de comunicação.

Segundo a revista The Economist, o mundo contemporâneo está substituindo os fatos por indícios, percepções por convicções, distorções por vieses. Estamos saindo da dicotomia tradicional entre certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto, fatos ou versões, verdade ou mentira para ingressarmos numa era de avaliações fluidas, terminologias vagas ou juízos baseados mais em sensações do que em evidências. A verossimilhança ganhou mais peso que a comprovação.

A pós verdade, um termo já incorporado ao vocabulário da mídia mundial, é parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalancha de informações gerada pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Com tanta informação ao nosso redor é inevitável que surjam dezenas e até centenas de versões sobre um mesmo fato. A consequência também inevitável foi a relativização dos conceitos e sentenças.

Mas o que parecia ser um fenômeno positivo, ao eliminar os absurdos da dicotomia clássica num mundo cada vez mais complexo e diverso, acabou gerando uma face obscura na mesma moeda. Os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors no jargão norte-americano), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotômicos para criar a pós verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções já que os fatos tornaram-se demasiado complexos.

A herança de Goebbels

Diante das dificuldades crescentes para materializar a verdade por conta da avalanche informativa, especialmente na politica e na econômica, criaram-se as pós verdades, ou factoides (no jargão brasileiro), onde a repetição e a insistência passam a ocupar o espaço das evidências.

Na era da pós verdade, as versões ganharam mais importância do que os fatos, o que não é bom e nem mau. É simplesmente uma realidade. O que chamamos de fatos, na verdade são representações de um fato, dado ou evento desenvolvidas pela mente de cada indivíduo.

Assim, teoricamente, podemos ter um número de representações de um mesmo fato igual ao número de seres humanos no planeta Terra. E como as TICs permitem a disseminação massiva destas representações ou percepções, fica fácil intuir a complexidade da avaliação de fatos, dados ou eventos. “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade”, a controvertida máxima cunhada pelo chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, tornou-se preocupantemente atual.

Os meios de comunicação, principalmente a imprensa, ganharam um papel protagônico no fenômeno da pós-verdade porque a circulação de mensagens passou a ser o principal mecanismo de produção de novos conhecimentos numa economia digital movida a inovação permanente. A relevância conquistada pelos meios de comunicação os transformou em agentes fundamentais no processo que prioriza uma forma de descrever a realidade. Quando a imprensa norte-americana endossou a tese da existência de armas de destruição maciça no Iraque de Saddam Hussein, ela deixou de lado a verificação dos fatos e foi decisiva na transformação de uma possibilidade em certeza acima de suspeitas.

Teoricamente a pós verdade pode ser usada tanto pela esquerda como pela direita no terreno politico, mas como a imprensa joga um papel fundamental no processo, os rumos obviamente serão determinados pela ação de jornais, revistas, meios audiovisuais e pelas redes sociais. A imprensa portanto, não é uma observadora mas uma protagonista do processo de transformação de mentiras ou meias verdades em fatos socialmente aceitos.

A pós verdade e o jornalismo

A pós verdade é apenas um dos itens da era digital que estão abalando nossas crenças e valores. Nós jornalistas e toda a sociedade estamos vivendo um momento de insegurança e incertezas porque estamos passando de um contexto social para outro. Esta insegurança não é um fenômeno inédito na humanidade porque já aconteceu antes quando grandes inovações tecnológicas alteraram radicalmente o contexto social da época. Basta ver o que ocorreu após a invenção da pólvora, dos tipos móveis por Gutemberg, da máquina a vapor e dos processos de produção industrial.

Um dos grandes, talvez o maior de todos, dilemas enfrentados pela sociedade atual, é a necessidade de conviver com a complexidade do mundo contemporâneo. Tomemos o caso da polêmica científica sobre o meio ambiente. É um tema complexo onde o bombardeio informativo confunde as pessoas comuns com afirmações contraditórias entre cientistas e pesquisadores. Do ponto de vista dos cientistas é natural que existam posicionamentos distintos mas para o público, acostumado pela imprensa a esperar verdades absolutas, as contradições e divergências geram incertezas, que acabam conduzindo ao descrédito generalizado.

A pós verdade coloca para nós jornalistas o desafio da repensar a credibilidade e os parâmetros profissionais para avaliar dados, fatos e eventos. Não é uma casualidade o fato da credibilidade da imprensa, em países como os Estados Unidos, estar hoje num dos pontos mais baixos de sua história. O leitor está cada vez mais confuso e desconfiado em relação à imprensa. É uma resistência intuitiva ao fenômeno da complexidade informativa gerada pela internet.

A pós verdade é talvez o maior desafio para o jornalismo contemporâneo porque ela afeta a relação de credibilidade entre nós e o público. A nossa atividade está baseada na confiança das pessoas de que o que publicamos é verdadeiro. Quando uma nova conjuntura informativa interfere nesta confiabilidade, temos serias razões para nos preocupar, e muito, sobre o futuro da profissão.
Por Carlos Castilho/site objETHOS