A estratégia midiática do Estado Islâmico

A especulação sobre a posição ideológica dos terroristas tornou-se uma certeza quando, na tarde daquele dia, os canais do Estado Islâmico na Telegram, a plataforma de mídia social preferida pelos jihadistas, fizeram circular em língua inglesa uma reivindicação de responsabilidade.

O texto, transferido para a página, em WordPress, da Amaq News Agency, a agência de notícias “oficial” do Estado Islâmico, foi instantaneamente transmitido, por milhões de computadores e desmartphones, para veículos jornalistas e comentaristas do mundo inteiro.

Foi assim que o Estado Islâmico assumiu o espaço da narrativa em torno dos atentados, embora a declaração de responsabilidade não fornecesse qualquer nova informação e, na realidade, parecesse uma fusão de detalhes da operação já observados pelas reportagens da mídia ocidental.

Na avalanche de incertezas que se seguiu aos atentados, os responsáveis pela propaganda do Estado Islâmico puderam ditar seu texto – literalmente, palavra por palavra – para uma audiência internacional e especificamente ocidental. A divulgação da reivindicação de responsabilidade primeiramente na língua inglesa não foi um erro.

Dirigida, em primeiro lugar e principalmente, aos inimigos ocidentais do Estado Islâmico, a declaração foi uma maneira de capitalizar o tumultuado noticiário da mídia internacional logo depois dos atentados em Bruxelas. Seja por meio de manchetes ou pelo Twitter, os responsáveis pela propaganda manipularam uma audiência global – tanto de opositores quanto de simpatizantes – para disseminar sua mensagem de intimidação e realçar a percepção da ameaça do Estado Islâmico.

O grupo preferia divulgar filmes com assassinatos

A técnica não é nova. Na verdade, os terroristas mais recentes adotaram há muito tempo a “propaganda do fato”, uma tática que, nas palavras do especialista em operações de informação do exército australiano Jason Logue, envolve “planejar e executar operações que têm por objetivo exclusivo a atração de sua propaganda”. O Estado Islâmico usa a mídia como nenhuma outra organização terrorista.

Ele sabe que, embora o território e os recursos sejam fundamentais para o sucesso total de sua insurreição agressiva na Síria e no Iraque, a mídia é a arena onde se trava a guerra de ideias, onde a relevância do grupo – e, em última instância, a longevidade de suas concepções – pode ser preservada e talvez intensificada, mesmo que passe por perdas de território.

O terrorismo do Estado Islâmico não termina quando a bomba é detonada. Continua durante as horas, os dias de as semanas que se seguem, alimentado pela mídia. Em reconhecimento a isso, o Estado Islâmico priorizou a propaganda do fato e, com certeza, parece executá-lo cada vez melhor.

Apenas algumas horas depois que explodiram as primeiras bombas em Bruxelas, os responsáveis “oficiais” pela propaganda do Estado Islâmico foram repassando pouco a pouco, a uma audiência ávida por informações, uma série de reivindicações, em várias línguas e em multimídia, que pareciam simplesmente novas versões do que a mídia já divulgara. Por ocasião dos atentados de Paris, esse tipo de declaração levou 15 horas para vir à tona. Na terça-feira levou metade do tempo.

No passado, o grupo preferia divulgar filmes com assassinatos como principal veículo de propaganda do fato, como, por exemplo, as decapitações praticadas por Mohammed “Jihadi John” Emwazi ou a imolação do piloto jordaniano Mu’adh al-Kasasbeh. No entanto, à medida que a mídia foi se tornando mais experiente e o consumidor mais insensível, esses filmes aparentemente perderam parte de sua capacidade de ocupar as pautas globais.

Por outro lado, ações terroristas de pilhagem ou de saque contra o inimigo “cruzado” em terras distantes – infinitamente mais difíceis de serem realizadas – ainda não chegaram ao ponto do rendimento decrescente na atenção global. Isso provavelmente significa que devemos esperar por mais.

Usar “o peso da mídia contra a mídia”

Nas últimas semanas, entre reportagens sobre perdas territoriais, morte de líderes e a prisão de Abdeslam, o tema de cobertura da mídia ocidental concentrou-se na promoção de um “o declínio do Estado Islâmico”. Ao conseguir operações como os atentados de Bruxelas e, então, capitalizar habilmente o tumulto de mídia que se seguiu, o Estado Islâmico pode, até certo ponto, substituir a percepção de declínio por outra que transmita a ideia oposta.

Não importa se a cobertura que se segue for negativa – digamos, criticando a brutalidade do grupo ou questionando sua legitimidade religiosa. Para o Estado Islâmico, desde que seja nos termos dos responsáveis por sua propaganda e transmita a suposta força e onipresença do grupo, qualquer cobertura é boa cobertura.

Nesse sentido, o terrorismo do Estado Islâmico não termina quando a bomba é detonada. Em vez disso, continua por horas, dias e semanas, alimentado pela mídia.

Ao mesmo tempo em que procuram criar um impasse econômico e instabilidade política, operações como as de Bruxelas, Istambul, Jacarta e Paris também continuam porque tornam possível aos terroristas – sejam eles seguidores do Estado Islâmico ou da al-Qaida – tomar controle do discurso da mídia e lutar pelo domínio absoluto da informação.

Portanto, independentemente de quanto a liderança do Estado Islâmico estava envolvida no planejamento propriamente dito dos atentados de terça-feira – ou se o grupo está reivindicando como sua uma operação em grande parte autônoma, como já fez no passado –, eles incentivam eventos como esses também para que sua equipe de comunicação possa, como diz o estudioso de insurreições Neville Bolt, usar “o peso da mídia contra a mídia”. Avaliado por esse prisma, o Estado Islâmico está matando em nome de ficar no ar – e está conseguindo o que quer.

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Charlie Winter, é jornalista
Publicado originalmente na revista The Atlantic, 23/3/2016 sob o titulo “Why ISIS propaganda works?” Tradução de Jo Amado.

Como Bruxelas virou centro do extremismo islâmico na Europa

Burocracia excessiva, descentralização do Estado, rivalidade entre valões e flamengos e má integração de minoria muçulmana são algumas das explicações para capital belga ter se tornado foco do jihadismo.

Bruxelas foi alvo de atentados no aeroporto internacional Zaventem e na estação de metrô de Maelbeek, próxima a prédios da União Europeia. Os ataques desta terça-feira (22/03) foram reivindicados pelo grupo jihadista “Estado Islâmico” (EI).

Apesar de ser esta a primeira vez que a capital belga é alvo de atentados, ela tem sido frequentemente associada ao terrorismo islâmico. A DW lista a seguir quatro fatores que contribuíram para que Bruxelas se tornasse centro do jihadismo na Europa.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Recrutas belgas” do “Estado Islâmico”

O especialista em terrorismo Guido Steinberg afirma haver uma relação entre os frequentes alertas terroristas em Bruxelas e o que ele chama de “recrutas belgas”, cidadãos do país europeu que se uniram ao grupo “Estado Islâmico” na Síria. “O EI decidiu contra-atacar na Europa. E como ele dispõe de muitos recrutas belgas e também franceses, Bruxelas é, ao lado de Paris, um dos pontos centrais da onda de atentados dos últimos meses”, afirmou Steinberg à emissora alemã de noticias N-TV.

De fato, as autoridades de segurança de Bélgica identificaram centenas de jovens do país que viajaram à região de guerra no Oriente Médio. Este é o caso do francês Salah Abdeslam, que reside no distrito de Molenbeek, em Bruxelas, e de Abdelhamid Abaaoud, dois presumíveis responsáveis pelos atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris. As autoridades do país estimam que mais de 450 belgas partiram para a Síria e outros centros do EI no mundo árabe.


Abdelhamid Abaaoud é um dos mentores dos atentados de Paris

Segundo o Centro Internacional para o Estudo da Radicalização e Violência Política (ICSR), dos 11 mil combatentes estrangeiros que se juntaram aos jihadistas na Síria e no Iraque entre 2011 e 2013, quase um quinto saiu da Europa Ocidental. Com pelo menos 296 recrutas, a Bélgica ocupa o topo dessa lista, em números absolutos.

Para efeito de comparação, na Alemanha, país de população oito vezes maior, estima-se que haja até 240 combatentes do jihad, a “guerra santa”. Proporcionalmente à população, a Bélgica tem 27 jihadistas para cada milhão de habitantes, sendo, portanto, o principal “fornecedor” de combatentes europeus. “Os belgas afrouxaram as rédeas quanto à observação da cena [jihadista] e a medidas preventivas”, comentou à DW Asiem El Difraoui, cientista político especializado em Oriente Médio.

Para muitos especialistas, a discriminação e má integração dos muçulmanos à sociedade está na origem do problema. Cerca de 6% dos belgas são muçulmanos. Segundo apontou um estudo da Rede Europeia Contra o Racismo, mesmo quando falam a língua perfeitamente ou são falantes nativos, eles são tratados como estrangeiros.

A ONG Anistia Internacional também criticou o governo belga pela falta de esforços para a integração. Segundo um estudo de 2012, facilitou-se às empresas a recusa de candidatos a emprego por motivos religiosos. As mulheres muçulmanas que usavam o véu foram as mais afetadas. A frustração resultante de situações como essa propicia a radicalização e o recrutamento por grupos fundamentalistas islâmicos.

Estado bilíngue e descentralizado

Muitos especialistas em segurança internacional apontam há bastante tempo a Bélgica como o “calcanhar de Aquiles” da Europa, no que tange à violência islâmica. Os fatores citados são a grande população muçulmana, estruturas estatais fragmentadas pelas profundas cisões entre flamengos e valões (de língua francesa), e um histórico de mercado de armas de fogo (legais e ilegais).

“A Bélgica ostenta uma posição central no coração da Europa. É um país pequeno, cuja localização favorece o movimento de pessoas com intenções hostis”, afirma o primeiro-ministro belga, Charles Michel, insistindo, no entanto, que sua coalizão de centro-direita está enfrentando o problema.

Na opinião do cientista político El Difraoui, o conflito interno entre Flandres e Valônia contribui para o fracasso na luta contra o terrorismo islâmico. “Os belgas estão, simplesmente, preocupados demais consigo mesmos.” Há anos a rivalidade entre flamengos e valões tem impedido o governo de cuidar dos problemas internos do país, diz o especialista.

Ataques paralisam Bruxelas e deixam Europa em alerta máximo

O professor do Centro de Terrorismo e Contraterrorismo da Universidade de Leiden, Edwin Bakker, também afirma que a extrema descentralização, que tem sido a resposta da Bélgica às forças regionais que tentam dividi-la há décadas, enfraquece a reação do Estado a ameaças como o terrorismo.

“A Bélgica é um Estado federado e isso sempre é uma vantagem para terroristas. Os diferentes níveis administrativos travam o fluxo de informações entre os investigadores.” Além disso, como grande fabricante de armas durante muito tempo, a Bélgica também se tornou um centro de distribuição para o tráfico de armas a partir dos Bálcãs e de outros locais.

“Em algumas partes de Bruxelas, existem áreas onde a polícia tem pouca influência, áreas muito segregadas, que não se sentem parte do Estado belga”, acrescenta Bakker. “Embora vizinhos possam ter visto algo acontecendo, eles não passam a informação adiante à polícia.”

Polícia caótica

É difícil dizer quem seja o responsável pela segurança da capital da Bélgica, hoje notória como local de origem de alguns dos terroristas que executaram os atentados do 13 de Novembro em Paris.

Com cerca de 1,2 milhão de habitantes, Bruxelas está longe de ser uma das maiores metrópoles da Europa, mas tem uma estrutura municipal e política extremamente complicada. Críticos do sistema criticam que esse nó entrava os esforços para melhorar a segurança e combater o terrorismo.

Luta contra a radicalização da juventude belga

“Em termos de segurança, Bruxelas é um exemplo perfeito de verdadeiro caos”, afirmou o prefeito de Vilvoorde, Hans Bonte, à rede de TV RTBF. Sua cidade nos arredores da capital também já foi apontada como um epicentro de terrorismo, mas tem liderado esforços para erradicar o problema.

Em vez de uma administração centralizada, Bruxelas tem um total de 19communes, extremamente autônomas e que dispõem de seus próprios prefeitos, vereadores e regras locais. Alguns dos conselhos municipais dessas áreas contam com até 50 membros.

Aos prefeitos, cabe administrar não apenas a educação e os bens públicos, mas também manter a segurança em suas áreas. E muitas vezes as administrações dependem de coalizões frágeis para se manter no poder. Entre essas prefeituras está a de Molenbeek, apontada por órgãos de inteligência como local de concentração de diversos terroristas que atacaram Paris.

Toda a área que compreende as prefeituras é, em princípio, comandada por uma espécie de primeiro-ministro. Na prática, ele tem pouco poder, e a questão da segurança não faz parte de suas atribuições.

Para complicar ainda mais, também existe a figura de um governador para toda a área, uma função burocrática que representa os interesses do governo federal na região. Por fim, a capital ainda tem três comissões para atender a suas comunidades linguísticas em assuntos como educação e cultura, cada uma com seu próprio parlamento.

Prisão de Salah Abdeslam em Molenbeek

Essa fragmentação também se estende à polícia local. A cidade não possui um departamento de polícia, mas seis – todos independentes –, cujas zonas de atuação se estendem por várias prefeituras. O efetivo policial total da área da capital inclui 5 mil homens, que não respondem a um comando unificado, e sim a seis colégios formados pelos prefeitos na área de cada uma das zonas de atuação. Esses prefeitos também têm interesses que muitas vezes não coincidem entre si, além de serem rivais no plano federal, pois vários deles também são deputados.

Há também outros complicadores, como o fato de a vigilância no interior dos trens de Bruxelas ser uma atribuição da polícia federal e o policiamento das estações de trem ser responsabilidade das polícias locais.

Vários políticos já propuseram uma unificação dos seis departamentos de polícia da capital, mas, também aqui, a iniciativa esbarra nas divisões do Estado belga. O movimento de unificação é liderado pelos partidos da região de Flandres, de maioria flamenga; e os políticos francófonos de Bruxelas são contra a unificação, por temerem perder sua autonomia regional.

Molenbeek

Todos os problemas da Bélgica parecem se refletir nesse distrito a oeste de Bruxelas, lar de muitos muçulmanos, principalmente de famílias oriundas do Marrocos e da Turquia. Desde os atentados terroristas de 13 de novembro de 2015, o nome Molenbeek é quase sempre lembrado quando se fala em extremismo islâmico na Europa.

Salah Abdeslam, capturado em Molenbeek após 125 dias foragido

Lá morava Salah Abdeslam, um dos mentores dos ataques na capital francesa. E também lá ele foi preso pela polícia belga, na última sexta-feira. Um membro destacado do grupo por trás dos atentados a trens de Madri, que em 2004 mataram 191 pessoas, era natural de Marrocos e vivia em Molenbeek.

O distrito bruxelense está relacionado a dois ataques terroristas na França em 2015. Autoridades de segurança afirmam que Amedy Coulibaly, responsável por quatro mortes num mercado judaico em Paris na época do atentado contra o tabloide satírico Charlie Hebdo, em janeiro, adquiriu armas em Molenbeek. Assim como o homem que foi dominado antes de conseguir disparar suas armas num trem de alta velocidade Thalys, que viajava entre Amsterdã e Paris, em agosto.

Um suposto complô para atacar a polícia belga em janeiro de 2015, evitado com uma operação policial que matou dois homens na cidade belga de Verviers, tinha conexões com Molenbeek. E um francês acusado de matar a tiros quatro pessoas no Museu Judaico de Bruxelas, em 2014, também passou um tempo no distrito.

A prisão de Abdeslam, em 18 de março de 2016, voltou a chamar a atenção para o distrito e as dificuldades da polícia belga. Depois de quatro meses fugindo, o jovem de 26 anos foi preso em Molenbeek, a apenas alguns metros da casa de sua família e praticamente sob o nariz das autoridades belgas.

“Ou Salah Abdeslam foi muito esperto, ou os serviços belgas foram muito incompetentes – o que é mais provável”, afirmou o deputado francês Alain Marsaud, ex-investigador especializado em terrorismo.
DW

“Estado Islâmico” quer uma Europa anti-islâmica, alertam especialistas

Ao defenderem a lógica do “nós contra eles”, dos muçulmanos contra os cristãos, jihadistas do EI e ultradireitistas europeus operam espécie de coalizão tácita e funesta.

Protesto contra refugiados sírios em PragaProtesto contra refugiados sírios em Praga

Aconteceu o que todos esperavam: apenas algumas horas após os sangrentos atentados em Bruxelas, nesta terça-feira (22/03), o “Estado Islâmico” (EI) reivindicou a responsabilidade pelos atos. Num comunicado, a milícia terrorista agradeceu à “equipe de segurança do califado”, que partiu “para o ataque aos cruzados, que não cessam de fazer guerra ao islã e seus adeptos”.

O grupo jihadista advertiu a Bélgica e outras “nações de cruzados” unidas na luta contra o EI que outros “dias negros virão”. E o que virá será ainda mais devastador, pois “Alá capacitou nossos irmãos a instilar medo e terror nos corações dos cruzados”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Com declarações como essas, o EI quer mostrar ao mundo que seus seguidores estão por toda parte; que são a ponta de lança de um movimento generalizado; que se trata de uma luta dos fiéis contra os infiéis, os kuffar. Uma luta que eles travam na Europa e também em outras partes do mundo – um mundo preto e branco, do “nós” contra “eles”, muçulmanos contra não muçulmanos.

Dividir para vencer

A meta é exatamente essa, explica Günter Meyer, do Centro de Pesquisas sobre o Mundo Árabe, em Mainz. “O EI aposta numa polarização e radicalização das relações entre a população muçulmana e a não muçulmana, para assim recrutar mais adeptos; desestabilizar as sociedades europeias e, deste modo, chegar mais perto da meta de disseminação do califado.”

Após atentados como os de Bruxelas ou de Paris, sobretudo os migrantes e refugiados ficam preocupados em se tornarem menos bem-vindos em certos setores das sociedades europeias. Pois, na esteira de seus atentados, o EI também se aproveita do debate sobre os refugiados na Europa.

Isso ocorreu, por exemplo, depois dos atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris, quando quis-se dar a impressão de que entre os terroristas se encontrava um refugiado. A intenção era colocar sob suspeita generalizada todos os migrantes sírios chegados à Europa nos meses anteriores. Assim, os franceses e o resto do mundo deveriam passar a ter medo dos muçulmanos, medo de tudo o que associam com o islã.

No entanto, nem depois dos ataques a Paris nem depois dos atentados em Bruxelas apareceram provas de que houvesse uma ligação direta entre os refugiados e os criminosos, lembra Ska Keller, porta-voz da bancada do Partido Verde no Parlamento Europeu.

Minuto de silêncio por vítimas de atentados, Place de la Bourse, BruxelasAtentados de 22 de março chocaram a Bélgica e a Europa

Jihadistas e ultradireitistas: uma cooperação funesta

Muitos partidos políticos da Europa defendem uma política de imigração rígida, e encontram cada vez mais respaldo graças aos ataques terroristas fatais. A postura anti-islâmica de parcelas crescentes da população europeia, fomentada por populistas e extremistas de direita, em especial no debate sobre os refugiados, faz exatamente o jogo do EI. Pois os jihadistas querem que os muçulmanos não encontrem um lar na Europa, mas só com o EI.

E eles parecem estar tendo sucesso, à medida que os partidos europeus críticos ao islã vão avançando. O populista Alternativa para a Alemanha (AfD), por exemplo, obteve mais de 10% da preferência eleitoral nas eleições legislativas estaduais. Na França, a Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen chegou a 28% no primeiro turno das eleições municipais de 2015.

Mas também em outros Estados europeus as legendas nacional-conservadoras e direitistas que exigem maior rigor na política de imigração ganham cada vez mais respaldo popular. Isso poderá ter consequências fatais para o Ocidente, alerta Günter Meyer, do Centro de Pesquisas Árabes.

Pois, quando até mesmo muçulmanos dispostos à integração ou já integrados enfrentam rejeição ou são discriminados e atacados, torna-se grande o perigo de que jovens islâmicos respondam com ódio ao ódio que parte sobretudo dos radicais de direita.

A França e a Bélgica já experimentaram isso. O número de jihadistas belgas que viajaram para a Síria, lá se submeteram a treinamento e então retornaram é grande – em números absolutos e sobretudo proporcionalmente à população total.

“Mas também em outras partes há ambientes jihadistas crescentes. Isso vai criar muitos problemas nos próximos anos, não só na Bélgica”, prevê o especialista em islã Guido Steinberg, do Instituto Alemão de Relações Internacionais e Segurança (SWP), sediado em Berlim. É preciso fazer-se algo.

Internos do presídio El Harrach, ArgéliaPresídios são comprovadamente celeiros de radicalização religiosa

Trabalho espiritual nas prisões e escolas

O salafismo, que se alastra rapidamente, oferece uma nova inspiração religioso-ideológica a muçulmanos frustrados, discriminados e rejeitados. “Desse modo, os jovens são confrontados com uma nova perspectiva de futuro, em que podem subir de underdog para top dog“, explica Meyer. Os conhecimentos teológicos de muitos desses jovens são fracos, portanto “eles são dependentes de outros, tornando-se vítimas fáceis para os salafistas que lhes pregam o ‘único islã verdadeiro’.”

A biografia dos autores dos atentados contra o semanário satírico francês Charlie Hebdo, do Club Bataclan e também em Bruxelas mostra, além disso, que seu processo de radicalização começou na prisão.

“Por isso é indispensável também uma intensificação da assistência espiritual islâmica nas prisões, até agora basicamente negligenciada. Só assim vai se evitar que elas se transformem em celeiros do jihadismo”, pleiteia o especialista do Centro de Pesquisas sobre o Mundo Árabe.

Para ele, o trabalho contra o terrorismo de fabricação doméstica deve começar nas escolas, com aulas de religião muçulmana. Elas “devem comunicar aos jovens a necessidade de encararem as promessas dos salafistas com o necessário ceticismo, em especial quanto ao uso de violência e à propagação do Ocidente como imagem do inimigo”.

Por outro lado, certas camadas da população não muçulmana também têm que cumprir sua parte, acrescenta Günter Meyer. “É necessária uma educação política reforçada, tanto na luta contra a islamofobia como nova forma de racismo, como no bloqueio aos partidos populistas anti-islâmicos.”
DW

Grupo ligado a Al-Qaeda usa falas de Trump para recrutar jihadistas

Vídeo divulgado pelo Al-Shabab usa discursos anti-islâmicos da pré-campanha presidencial de Donald Trump para incitar jovens dos EUA a se unirem ao grupo. 

Grupo ligado a Al-Qaeda usa falas de Trump para recrutar jihadistas
Donald Trump minimizou sua aparição no vídeo do grupo jihadista
(Foto: Flickr/TPNN)
Um vídeo publicado na última sexta-feira, 1º, pelo grupo terrorista Al-Shabab, um aliado da Al-Qaeda, usa imagens e falas do pré-candidato republicano à presidência dos EUA Donald Trump para incitar jovens muçulmanos e negros dos EUA a se unirem ao grupo.

O Al-Shabab se filiou à Al-Qaeda e age em países da África. O grupo foi responsável peloataque que deixou 60 mortos no shopping Westgate em 2013, em Nairóbi, no Quênia.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Com 51 minutos de duração, o vídeo do grupo alerta sobre o aumento do racismo e da aversão ao Islã no país e usa como exemplo a proposta de Trump para barrar a entrada muçulmanos nos EUA.

O vídeo também alerta sobre o aumento das injustiças contra negros nos EUA, mostrando cenas de violência policial, protestos raciais e negros na prisão, alguns fazendo orações religiosas.

Também foram usados trechos de discursos de Malcom X, ícone da luta pelos direitos dos negros dos EUA.

No vídeo os jihadistas afirmam que “há uma nuvem pesada no horizonte” americano. Segundo eles, o país se tornará cada vez mais intolerante e a única saída é se unir à luta jihadista para combater o “ódio maligno” que tomou o país.

Uma fala do jihadista americano Anwar al-Awlaki, morto em 2011, em um ataque aéreo dos EUA no Iêmen, também é usada na gravação.

“Ontem os EUA eram uma terra de escravidão, segregação, linchamento e Ku Klux Klan.

Amanhã será a terra da discriminação religiosa e campos de concentração”, disse al-Awlaki. Neste momento, são mostradas imagens da campanha de Trump “Make America Great Again” (Tornem os EUA grandioso de novo).

Trump minimizou sua aparição no vídeo do grupo jihadista em uma entrevista dada à rede CBS no último sábado, 2. “O que posso fazer? Eu digo o que tenho que dizer. Eles usaram outras pessoas também”.

Há duas semanas, a pré-candidata democrata à presidência Hillary Clinton disse em um debate que o grupo Estado Islâmico estava usando imagens de Trump em seus vídeos. No entanto, a declaração foi desmentida, já que não foi encontrada qualquer evidência que a sustentasse.
Blog  Opinião e Política

Noruega: terror e internet

O poder de pensamentos perigosos na internet
Timothy Garton Ash ¹
Reproduzido do Estado de S.Paulo/tradução de Celso Paciornik

“Você pode ignorar a jihad, mas não pode evitar as consequências de ignorar a jihad.” Essa foi a primeira reação da blogueira anti-islâmica americana Pamela Geller à notícia dos ataques terroristas na Noruega.

No seu site, Atlas Shrugs, ela colocou um link para um vídeo antigo de uma demonstração pró-Hamas em Oslo.

Quando se revelou que o assassino em massa não era um terrorista islâmico, mas um terrorista anti-islâmico cujo manifesto online de 1.500 páginas estava repleto de material de escritores anti-islâmicos como o dela, Pamela deu de ombros: “Ele é um assassino sanguinário. Ponto. Ele é responsável por seus atos. Ele e apenas ele. Não há nenhuma ‘ideologia’ aqui”.

“Ninguém explicou nem pode explicar como as supostas opiniões antijihad desse sujeito têm qualquer coisa a ver com seu massacre de crianças”, protestou Robert Spencer da Jihad Watch, outro blogueiro favorecido por Anders Behring Breivik.

Bruce Bawer, americano que mora em Oslo e autor de uma lamentação sobre o crescimento do controle muçulmano sobre a Europa, foi mais ponderado.

Notando que em seu manifesto Breivik “cita de maneira aprovadora e por extenso meu trabalho, mencionando meu nome 22 vezes”, reflete Bawer, com decente consternação, “é arrepiante pensar que postagens no blog que eu compus em minha casa na zona oeste de Oslo nos dois últimos anos estavam sendo lidas e copiadas por esse futuro assassino em massa”.[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Agentes da violência

Então, qual é, se é que existe, a conexão entre as palavras deles e os atos de Breivik? Quais deveriam ser as consequências para a maneira como sociedades livres tratam escritores que esse assassino em massa citou com tanta deferência? Para começar, pessoas como Pamela e Spencer, para não mencionar o suave Bawer, não são responsáveis pelo que Breivik fez. É tão errado proclamá-los culpados por associação de assassinato em massa como considerar escritores muçulmanos não violentos (embora às vezes não liberais e extremados) culpados por associação com muçulmanos terroristas que cometeram atentados em Nova York, Londres e Madri.

Como esse é um jogo que eles próprios vinham jogando há anos, algumas pessoas podem sentir uma pitada de schadenfreude (pequena alegria com a desgraça alheia) ao ver Pamela & Cia. provando do próprio veneno. Mas não devemos fazer o mesmo. Eles não são culpados por associação. Ponto.

No entanto, se é ridículo sugerir que não há absolutamente nenhuma conexão entre ideologia islâmica e terror islâmico, é também ridículo sugerir que não houve nenhuma conexão entre a visão alarmista da islamização da Europa que esses escritores espalharam, e o que Breivik entendeu que ele próprio estava fazendo.

“Nenhuma ideologia” aqui? Pode apostar que houve. Uma parte significativa do manifesto de Breivik é uma reafirmação – com frequência por citação “recortada e colada” da internet – precisamente de sua história de horror da Europa como “Eurábia”: tão enfraquecida pelo veneno do multiculturalismo e outras doenças esquerdistas que sucumbe sem luta a uma condição de subserviência ante a supremacia muçulmana.

Sua mente claramente desequilibrada salta, então, para a conclusão de que o Cavaleiro Justiceiro solitário (ele próprio) deve emitir um sinal de alarme heroico e brutal para sua sociedade fragilizada – um “sinal agudo” como ele disse a investigadores noruegueses.

O que deveria ser feito então a respeito a palavras tão incendiárias? Uma resposta, bastante popular em partes da esquerda europeia, é “proibi-las”! Se o pensamento foi o pai do feito, parem o pensamento. Um novo rol de termos e sentimentos ofensivos e extremados deveria ser somado à já longa lista de “discurso de ódio” pelo qual se pode ser processado em algumas partes da Europa.

Alguns anos atrás, a então ministra alemã da Justiça, Brigitte Zypries, levou a União Europeia a aprovar uma “decisão de estrutura” para uma multiplicação pan-europeia desses tabus embora a prática felizmente tenha ficado aquém das intenções dela. Felizmente – pois essa é uma maneira muito errada de agir. Ela não acabará com esses pensamentos, apenas os empurrará para o subsolo, onde eles se corrompem e ficam ainda mais venenosos.

Isso esfriará o debate legítimo sobre questões importantes: imigração, a natureza do Islã, fatos históricos. Trará aos tribunais fantasistas como Samina Malik, uma ajudante de loja de 23 anos processada na Grã-Bretanha por escrever maus versos glorificando o martírio e o assassinato jihadista, mas não os verdadeiros homens da violência. A incitação direta à violência deve merecer em toda parte, e sempre, o pleno rigor da lei.

Corpo de evidências

Os textos ideológicos que alimentaram a loucura de Breivik, até onde posso ver, não cruzaram a linha. Permitir a expressão das fantasias reformadoras tanto de islâmicos quanto de anti-islâmicos radicais é o preço que pagamos pela liberdade de expressão numa sociedade aberta.

Isso significa que eles devem ficar sem resposta? Evidentemente que não. Como o preço da proibição é alto demais, e na era da internet ela é de qualquer modo irrealizável (“como saltar sobre uma sombra”, como diz o especialista em liberdade de expressão Peter Molnar), precisamos enfrentá-los num combate aberto.

Um campo de batalha decisivo é a política, onde políticos europeus das correntes dominantes, de olho no sucesso eleitoral de partidos populistas xenófobos, estão contemporizando em vez de falar contra os mitos extremistas.

Outro é a mídia chamada dominante. Em um país como a Noruega – e na Grã-Bretanha – as emissoras públicas de rádio e televisão e uma imprensa de qualidade responsável em geral asseguram que, apesar de opiniões extremistas serem transmitidas, os mitos perigosos que elas espalham são esvaziados por fato, razão e senso comum. Para os que ainda leem e ouvem esses meios de comunicação, melhor dizendo.

Mas, e se a pessoa obtém suas notícias de tabloides sensacionalistas demagógicos, do tipo favorecido por Rupert Murdoch? Ou de um canal de televisão sistematicamente partidário, seja um de Silvio Berlusconi na Itália ou a Fox News de Murdoch nos Estados Unidos?

Na noite da matança de Oslo, a âncora do programa The O’Reilly Factor na Fox News, Laura Ingraham, reportou “dois ataques terroristas mortais na Noruega, no que parece ser o trabalho, mais uma vez, de extremistas muçulmanos”.

Após descrever o que se sabia até aquela hora sobre dos ataques, ela prosseguiu: “Enquanto isso, em Nova York, os muçulmanos que querem construir uma mesquita no Marco Zero (área onde ficavam as Torres Gêmeas) conseguiram recentemente uma enorme vitória legal”. Muçulmanos sanguinários, percebem, plantando bombas em Oslo, mesquitas em Nova York.

E se a pessoa recebe suas notícias do mundo principalmente pela internet?

A história de Breivik mostra de novo o recurso fantástico que a internet é para os que querem buscar com a mente aberta. Em poucas horas, foi possível juntar uma quantidade de informações que em outros tempos exigiria semanas, e provavelmente uma viagem ao país em questão para montá-la. Mas há um corpo crescente de evidências de que a maneira como a internet funciona também pode contribuir para fechar mentes, reforçar preconceitos e nutrir teorias conspiratórias.

Respostas difíceis

Online podem-se encontrar com muita facilidade os milhares de outras pessoas que partilham sua visão pervertida. Obtém-se, então, uma espiral viciosa de pensamento grupal, reforçando o pior tipo de ideologia: uma visão de mundo sistemática, internamente consistente, totalmente divorciada da humanidade real. O manifesto de Breivik, com seus intermináveis pedaços “recortados e colados” de fontes online, é um exemplo didático desse processo.

Não há respostas fáceis aqui. “Proibi-las!” é a errada. O verdadeiro desafio é descobrir como podemos elevar ao máximo a capacidade extraordinária da internet para abrir mentes – e reduzir ao mínimo sua agora evidente tendência a fechá-las.

¹ Timothy Garton Ash é professor de Estudos Europeus na Universidade Oxford E bolsista sênior na Hoover Institution, Universidade Stanford

Egito e o declínio do extremismo

‘O extremismo está em declínio’, diz historiador

O historiador e cientista político francês Jean-Pierre Filiu, professor visitante na Universidade Columbia, em Nova York, afirma que vitória de revoluções pacíficas e democráticas em países árabes como Egito e Tunísia é a derrota da al-Qaeda e do movimento jihadista.

“É uma catástrofe para a al-Qaeda. Todas as coisas pelas quais os manifestantes lutam são anátema para os jihadistas: eleições livres, transparência, poder para o povo”, diz Filiu, autor dos livros “O apocalipse do Islã” e “As fronteiras da jihad” (Editora Fayard).

Para o historiador, especialista em jihadismo, a ideia de que o Oriente Médio é refém da alternativa entre as últimas ditaduras e regimes extremistas islâmicos é completamente equivocada. Segundo ele, o extremismo está em declínio.

Filiu acredita que a “pedagogia do pluralismo” de uma coalizão será benéfica para a Irmandade Muçulmana. “Ser minoria faz muito bem à cabeça e ao coração de gente que é um pouco rígida”, diz.

Professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris, Filiu, de 49 anos, viveu durante 20 anos no Oriente Médio. Em Nova York, ele trabalha no seu próximo livro, “A revolução árabe: 10 lições sobre o levante democrático”, e atende com um sorriso de alívio os alunos.

“Quando esses meninos me procuravam, eu sentia tanta pena deles, iam passar 20 anos com Mubarak, com a polícia secreta, o medo; agora eles participam da festa nas ruas do Egito.”[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A outra diferença é que seus colegas não torcem mais o nariz quando Filiu manda os alunos pesquisarem no Facebook.

O que o senhor espera ver no Oriente Médio nas próximas semana e meses? O senhor acredita que o exemplo dado pelo Egito tenha ressonância e se repita em outros países da região rapidamente?

O que acontece sempre que você está diante de um momento histórico é que nada do passado pode ser usado para interpretar ou analisar o que é radicalmente novo. Não acredito em efeito dominó. A comparação com a queda do Muro de Berlim em 1989 não é válida, porque ali havia um comando central, a União Soviética, e o fato de que a União Soviética estava se desmantelando levou mecanicamente à liberação de todos aqueles países.

No caso atual, temos a sociedade civil confrontando o regime, com uma coragem incrível, e temos um processo de emulação. As duas revoluções, na Tunísia, e no Egito, têm um enorme poder de emulação porque o medo foi derrotado, e o povo descobriu que aquilo com o que sonhava é possível.

São eventos de uma magnitude tal que serão sentidos em toda a região, mas isso não significa que a cada semana, ou a cada mês outro regime cairá. O que é certo é que se trata de uma nova era, e nesta nova era os governantes sabem que o tempo de impunidade absoluta acabou.

Olhando para o futuro, o senhor vê candidatos a presidente surgindo com força, como Amr Moussa, que anunciou sua renúncia da presidência da Liga Árabe ou o prêmio Nobel Mohamed ElBaradei? O senhor acha que os partidos de oposição conseguirão se organizar a tempo para a eleição?

Não devemos olhar para isso com olhos do passado. A era dos líderes salvadores terminou. Esses jovens não querem um líder, um modelo.

Mas alguém terá que assumir o poder, não?

Este problema é nosso, não deles. Nosso problema, nossa ansiedade, é ver alguém no lugar de Mubarak. Os egípcios não estão nem aí. Eles não fizeram esta revolução para substituir um Mubarak por outro. Se não entendermos esta mensagem, estaremos interpretando o movimento de uma maneira totalmente errada.

Se houver pressa em chegar a uma conclusão de que agora é ElBaradei ou Moussa, corre-se o risco de cair nos mesmos erros do passado. Temos que entender que essa geração é jovem não apenas porque usa o Facebook ou o Twitter, ela é jovem porque não quer um pai que diga a ela o que é certo e o que é errado. A questão mais importante, para eles, certamente não é ter um líder.

Tudo tem que ser reconstruído. Vai levar muito tempo, não se constrói um partido político ou um sindicato num piscar de olhos, nem mesmo uma ONG. Eles querem imediatamente o fim do estado de emergência, que gera vulnerabilidade a todos.

Mas não estão correndo para encontrar um salvador. Eles estão sendo muito maduros, querem antes desmanchar esse aparelho de repressão. Para eles, o mais importante é a eleição para o Parlamento, não o voto para presidente. É fascinante ver como essa pressa vem de fora, não de dentro do Egito.

Um dos motivos pelos quais os países ocidentais têm pressa é o medo que o extremismo cresça no Oriente Médio. Mas o senhor escreveu que a vitória de movimentos pacíficos na região vai desestabilizar a al-Qaeda, certo?
Fernanda Godoy/O Globo

É uma catástrofe para a al-Qaeda. Em primeiro lugar, porque o movimento pela democracia é um sucesso, e eles são um fracasso. O que a al-Qaeda conseguiu em 20 anos? Nada. Pior do que nada: conseguiu guerra civil no Iraque, guerra civil no Paquistão, ocupação prolongada no Afeganistão.

Do outro lado, um movimento pacífico, sem motivação islâmica, sem bandeira verde, e, em menos de um mês, o ditador caiu. Em segundo lugar, todas as coisas pelas quais os manifestantes lutam são anátema para os jihadistas: eleições livres, transparência, responsabilidade dos governantes, poder para o povo. A al-Qaeda está tão chocada que não consegue dizer uma palavra, e, quando diz algo, é terrível.

O braço iraquiano da al-Qaeda divulgou um comunicado no dia 8 de fevereiro insultando os manifestantes egípcios, por “adorar os ídolos podres do patriotismo e da democracia infiel”. Eles não podem estar mais fora de contato com a realidade. Eles sempre disseram que esses regimes não importavam, que eles tinham que atacar o inimigo distante, o World Trade Center, para desestabilizar o Egito ou outros países.

E aqui temos uma revolução feita pelo povo, genuinamente local, dizendo ao Ocidente: “Não interfiram, não estamos pedindo sua ajuda.” Esse movimento tem um grande potencial para amizade e até aliança com o Ocidente. Ele é o oposto do jihadismo, e funcionou. Mas não dou a al-Qaeda por terminada, eles mostraram capacidade de se renovar muitas vezes.

Depois do sucesso da revolução, se esses governos eleitos livremente trouxerem melhores condições de vida às pessoas, o extremismo ficará mais debilitado?

Precisamos prestar atenção em duas coisas: o jihadismo está em alerta e vai aproveitar qualquer oportunidade para se relançar. A oportunidade para eles é a repressão, é um banho de sangue. Eles podem tentar provocações, como o assassinato de um líder de um movimento democrático que provocasse uma dinâmica de confronto. Agora é o momento de deter esse tipo de provocação contra-revolucionária, porque isso poderia abrir um ciclo de violência que poderia botar o processo democrático em risco.

E a Irmandade Muçulmana?

A Irmandade Muçulmana sabe que tem que ser uma aliada da coalizão. A questão não é apenas paz versus violência. A questão é a pedagogia do pluralismo. Ser minoria faz muito bem à cabeça e ao coração de gente que é um pouco rígida. Numa coalizão você tem que negociar e se dá conta de que não é o dono da verdade.

Abaixo da superfície, a Irmandade é muito diversificada, e, no momento em que entrar numa coalizão, a diversidade dessas cores vai aparecer. É claro que haverá tensões, mas, se o processo evoluir bem, essa tendência democrática dominará a radical. O modelo é a Turquia, que obteve sucesso nessa processo.

Por que o senhor acha que ouvimos, durante os 18 dias de protestos, tantas expressões de preocupação e de medo no Ocidente, e não tantas de esperança? Na sexta-feira, o chanceler de Portugal, Luís Amado, disse na ONU que a Europa deveria se preparar para um Egito islamizado, e aceitar isso sem medo.

A ideia de que a alternativa é entre autoritarismo e islamização é completamente errada. Já estamos no pós-Islã. Mas como estamos sempre atrasados, muitas pessoas estão dizendo, com boas intenções, que, afinal de contas, a islamização não é tão má, mas essa não é a questão! Acabou! O problema do debate sobre o Islã no Ocidente é tão marcado por clichês e preconceitos. As pessoas misturam tudo: o véu, a política, sharia, tudo. No mundo muçulmano, as pessoas querem ter mais Islã em suas vidas: comida islâmica, banco islâmico, um monte de coisas, mas isso não significa que queiram um governo islâmico.

Foi positivo para o movimento que a vitória não tenha dependido de ajuda externa?

Claro. A atitude ideal para quem está de fora é uma neutralidade benevolente, mas tem que ser benevolente.

E talvez a contribuição mais importante do Ocidente tenha sido pressionar o Exército para que não houvesse uma repressão violenta, não?

Sim, e a mesma coisa aconteceu na Tunísia. Mas isso não é interferência, é abrir o campo das possibilidades. Não é mandar um avião para retirar Mubarak, como já aconteceu no passado. De qualquer forma, estamos no amanhecer de algo muito diferente. Seja graças aos EUA ou não, para esses ditadores o jogo acabou.

O fato de que essa geração tem acesso à mídia ocidental, de que as pessoas tenham ficado felizes com a cobertura, tenham beijado e agradecido a repórteres de emissoras americanas nas ruas, isso muda algo na relação com o Ocidente?

O ambiente é muito positivo, porque houve neutralidade e houve empatia. Em segundo lugar, porque houve um eco do que foi mostrado no Ocidente pela mídia, que fez um trabalho maravilhoso. Mas não somos o centro do mundo. O que a mídia ocidental fez é o que a Al Jazeera vem fazendo há dez anos.

Os herois das ruas árabes, os que são festejados e protegidos pelos manifestantes são os repórteres da Al Jazeera. São eles que estão na vanguarda. Mas o potencial para amizade é enorme. Hospitalidade é a chave para esses países. O conceito de xenofobia é totalmente estranho à essa civilização, é uma cultura da generosidade.

O senhor acha que a Argélia é agora o país mais vulnerável?

Acho que a Argélia é a chave para muitas questões, porque foi na Argélia que parte dos sonhos que vemos hoje foi enterrada com um banho de sangue. A ideia de alternativa entre ditadura e islamização vem da suspensão do processo eleitoral na Argélia, em janeiro de 1999. Argélia é a chave para mostrar que outro futuro é possível, diferente dessa alternativa terrível. É isso o que os manifestantes na Argélia estão dizendo.

Mas, quando um regime é capaz de sobreviver quase intocado a um pesadelo desses, é claro que ele tem muita capacidade de se regenerar e cooptar. O Iêmen vai ter que se ajustar, e o presidente já disse que não vai concorrer de novo. A ideia de transmissão de poder de pai para filho acabou em todos os lugares.

Na Jordânia, a demanda principal é ter um primeiro-ministro escolhido pelo Parlamento, não pelo rei. E a Líbia está ansiosa, mas é um país tão opaco, nunca se sabe. Mas, com certeza, entre e o Egito e a Tunísia, eles não estão conseguindo dormir.

Fernanda Godoy/O Globo