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Governo Bolsonaro: o que faz do plano de mudar a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém algo tão polêmico

O plano do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém representa uma guinada na política externa brasileira e coloca o Brasil ao lado de somente outros dois países – Estados Unidos e Guatemala – que adotaram medida semelhantePolítica Internacional,Brasil,Diplomacia,Israel,Embaixada,BolsonaroA mudança da embaixada brasileira representaria um reconhecimento da cidade como capital de Israel, o que pode provocar não apenas atritos com palestinos e países árabes, mas também reações da comunidade internacional, cuja posição é de que o status de Jerusalém deve ser decidido em negociações de paz.

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O entendimento é de que o reconhecimento de Jerusalém Ocidental como capital de Israel só deve ocorrer ao mesmo tempo em que Jerusalém Oriental for reconhecida como capital de um futuro Estado palestino. Por isso, os países mantêm suas embaixadas em Tel Aviv, a capital comercial de Israel.

Até agora, nos 70 anos desde a criação de Israel, a postura da diplomacia brasileira sempre foi de equilíbrio entre os dois lados.

Bolsonaro confirmou que pretendia transferir a embaixada no início de novembro. Nesta terça-feira, contudo, ele afirmou que a mudança ainda não estava definida.

“É uma guinada muito grande e mudará a maneira como o Brasil é visto no mundo diplomático como um todo, sobretudo no contexto da ONU”, disse à BBC News Brasil o cientista político Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Isolamento e exportações
Para Stuenkel, as implicações vão além da questão específica do conflito entre Israel e Palestina e podem resultar no isolamento diplomático do Brasil.

“Limita o papel do Brasil como um ator que defende o multilateralismo, sobretudo no sistema ONU, e pode reduzir sua capacidade de buscar apoio em relação a outras questões, como por exemplo a reforma do Conselho de Segurança, que com essa decisão se torna muito menos provável.”Política Internacional,Brasil,Diplomacia,Israel,Embaixada,Bolsonaro

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Depois que Bolsonaro anunciou a possibilidade de mudar a embaixada, Egito cancelou uma visita do ministro de Relações Exteriores brasileiro ao país.

Há também o temor de que, se levada adiante, a decisão possa afetar as exportações brasileiras para países árabes, que estão entre os principais importadores de carne bovina e de frango do Brasil, especialmente com o selo halal, que atesta técnica de abate conforme preceitos islâmicos.

Esses países apoiam a Palestina no conflito e poderiam reagir ao alinhamento do Brasil com Israel. Stuenkel acredita que o risco não é de boicote, mas sim de medidas que levem a menos acesso do produto brasileiro a esses mercados, como aumento de tarifas.

Poucos dias após o anúncio, o Egito cancelou uma visita do ministro de Relações Exteriores brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira, programada para esta semana.

Disputa histórica
O status diplomático de Jerusalém é uma das questões mais polêmicas no conflito entre Israel e palestinos. Enquanto Israel a considera sua “capital eterna e indivisível”, os palestinos reivindicam uma parte da cidade (Jerusalém Oriental) como capital de seu futuro Estado independente.

A disputa pela cidade, que abriga locais sagrados para judeus, cristãos e muçulmanos, vem desde a criação do Estado de Israel. Quando, em 1947, em sessão presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, a Assembleia Geral da ONU decidiu pelo plano de partilha da Palestina entre um Estado árabe e outro judeu, Jerusalém foi designada como “corpus separatum” (corpo separado), sob controle internacional.

Esse plano, porém, não chegou a ser implementado. Em 1948, foi declarada a Independência do Estado de Israel. Imediatamente após o anúncio, forças do Líbano, Síria, Iraque, Egito, Jordânia e Arábia Saudita atacaram o território, dando início à Guerra Árabe-Israelense. Ao final do conflito, Jerusalém foi dividida, com a parte ocidental sob controle de Israel e a parte oriental controlada pela Jordânia.

A fundação de Israel no que então era o protetorado britânico na Palestina reconheceu o que foi visto como um direito milenar do povo judeu de retornar à terra de onde foi expulso. Os judeus retornaram após a Segunda Guerra, quando cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados no Holocausto.

Mas esse movimento levou também à expulsão de milhares palestinos de suas casas, transformando um povo que vivia sob domínio britânico em refugiados sem direito a um país.

Em 1967, Israel capturou a parte oriental de Jerusalém e, desde então, ocupa a cidade inteira e vem construindo assentamentos em Jerusalém Oriental. Esses assentamentos são considerados ilegais pela comunidade internacional, posição que é contestada pelo governo israelense.

No ano passado, quebrando décadas de tradição diplomática e cumprindo uma de suas promessas de campanha, o presidente americano, Donald Trump, anunciou o reconhecimento oficial de Jerusalém como capital de Israel e a transferência da embaixada americana, até então localizada em Tel Aviv, para a cidade.Política Internacional,Brasil,Diplomacia,Israel,Embaixada,Bolsonaro

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Em maio, quando a embaixada americana foi realocada para Jerusalém, protestos na Faixa de Gaza se estenderam por semanas.

Guatemala e Paraguai
Na época, Trump argumentou que a mudança não significava “nada além do reconhecimento da realidade”. Mas a medida foi recebida com críticas pela comunidade internacional pela possibilidade de comprometer a neutralidade dos EUA na mediação do conflito e colocar em risco o já frágil processo de paz entre israelenses e palestinos.

Duas semanas após o anúncio, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução rejeitando o reconhecimento de Jerusalém por Washington. Ao todo, 128 países, inclusive o Brasil, aprovaram a resolução. Somente oito países apoiaram os EUA: Israel, Guatemala, Honduras, Micronésia, Palau, Nauru, Togo e Ilhas Marshall.

Em maio deste ano, quando a embaixada americana foi finalmente realocada para Jerusalém, protestos na Faixa de Gaza se estenderam por semanas e deixaram dezenas de palestinos mortos.

A decisão dos EUA foi seguida somente pela Guatemala. O Paraguai também chegou a transferir sua embaixada para Jerusalém, mas, poucos meses depois, com um novo presidente no poder, reverteu a medida.

Mas para James Phillips, especialista em Oriente Médio do centro de pesquisas conservador Heritage Foundation, a decisão dos EUA e, caso levada adiante, a do Brasil, representam um gesto simbólico para corrigir o que ele considera uma injustiça: o fato de Israel ser “o único país do mundo que não pode escolher em que cidade abrigar embaixadas”.

“E não há nada que impeça uma embaixada em um Estado palestino no futuro, inclusive em Jerusalém Oriental, se isso for negociado”, disse Phillips à BBC News Brasil. “Os EUA deixaram claro que transferir a embaixada para Jerusalém não impede também reconhecer um futuro Estado palestino, caso ambos os lados possam negociar isso.”

Eleitorado evangélico
Apesar do possível impacto nas relações externas, tanto a posição de Bolsonaro quanto a de Trump são vistas como questão de política doméstica, em um momento em que cresce a força do eleitorado evangélico em ambos os países.

“Os evangélicos, tanto nos EUA quanto no Brasil, tendem a ser muito pró-Israel”, disse à BBC News Brasil o cientista político Harold Trinkunas, da Universidade de Stanford, na Califórnia. “É uma maneira de demonstrar comprometimento com seus interesses.”

A defesa de Israel por parte da comunidade evangélica costuma ser baseada, entre outros fatores, na herança comum entre o Judaísmo e o Cristianismo e na crença de que a criação de Israel foi ordenada por Deus. O argumento é de que a Bíblia estabelece que os judeus são o povo prometido e que Jerusalém é a capital de Israel. Alguns cristãos também citam a profecia bíblica sobre o retorno de Jesus Cristo e o fim dos tempos, na qual é importante que os judeus estejam ali.

Pesquisas de opinião nos EUA indicam que 80% dos evangélicos acreditam que a criação de Israel em 1948 representou o cumprimento da profecia bíblica sobre o retorno de Cristo.Política Internacional,Brasil,Diplomacia,Israel,Embaixada,Bolsonaro

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Aproximação também é vista como aceno a eleitorado evangélico, que é pró-Israel.
O plano de Bolsonaro, confirmado ao jornal israelense Israel Hayom, em sua primeira entrevista exclusiva a um veículo de imprensa estrangeiro após a eleição, foi condenado por líderes palestinos e elogiado pelo premiê israelense, Binyamin Netanyahu, que indicou a intenção de viajar a Brasília para a posse do novo presidente, em 1º de janeiro de 2019.

Bolsonaro disse que pretende aprofundar a relação com Israel e que o país “pode contar” com o voto do Brasil na ONU. Em anos recentes, houve alguns episódios tensos nas relações entre os dois países.

Em 2014, depois de o Brasil ter chamado para consultas seu embaixador em Tel Aviv por conta do que condenou como “uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza”, o então porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel disse que o Brasil era um “anão diplomático”. Em 2015, o governo de Dilma Rousseff não aceitou as credenciais do candidato a embaixador de Israel em Brasília, Dani Dayan.

Na entrevista ao jornal israelense, Bolsonaro também cogitou remover a embaixada palestina em Brasília.

O Brasil reconhece o Estado Palestino desde 2010. Mas não há reconhecimento por parte da ONU, o que depende de aprovação do Conselho de Segurança. Desde 2012, a organização reconhece a Palestina apenas como “Estado observador”.

Riscos
Para Trinkunas, a possível transferência da embaixada brasileira é uma sinalização aos EUA de um comprometimento de alinhar a política externa brasileira à do governo Trump. “Também pode impulsionar laços e conexões com outros governos de direita que estamos vendo ao redor do mundo.”

Mas o analista vê riscos. “Pode alienar outros países, na Europa e na Ásia, que apoiam a solução dos dois Estados para Israel e Palestina. Também prejudica a capacidade do Brasil de desempenhar um papel de facilitador diplomático neutro para resolver conflitos.”

Stuenkel alerta para o custo que o país pode pagar ao seguir os passos do governo americano, já que é mais fácil para a maioria dos países se afastar do Brasil do que dos EUA, que são o maior mercado consumidor do mundo e têm alianças de defesa com várias nações do Oriente Médio.

“Acho que precisamos nos preparar, isso afetará a influência diplomática brasileira muito mais do que tem sido o caso com os EUA depois dessa guinada.”

Mas ao comentar a experiência dos EUA, Phillips ressalta que, apesar de ações simbólicas que alguns governos árabes podem tomar, muitos países do Oriente Médio parecem não estar mais tão focados no conflito entre Israel e Palestina.

“Acho que, em geral, esses países tendem a estar mais preocupados com o Irã e as terríveis guerras na Síria e no Iêmen”, afirma Phillips.

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Lider Palestina: transferir embaixada brasileira para Jerusalém seria ‘irresponsável’

Teria ‘sérias consequências’Hanan Ashrawi,Palestina,Israel,Brasil,Diplomacia,Trump,Embaixada,Comércio Internacional,EconomiaUN Photo

‘Se acontecer, haverá sérias consequências; esperamos que seja apenas retórica e que não seja implementada’, disse Hanan Ashrawi

DANIELA KRESCH
 

A integrante do comitê executivo da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e do Conselho Legislativo Palestino, Hanan Ashrawi, considera que a decisão de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é uma decisão “irresponsável” do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL-RJ). 

Líder do departamento de Cultura e Informação da OLP,  a ex-deputada palestina espera que a medida não se transforme em realidade. “Não seria bom testar as consequências”, afirma na entrevista exclusiva à RFI Brasil.

O que a senhora pensa sobre essa decisão do presidente eleito do Brasil de transferir a embaixada brasileira para Jerusalém?

Esperamos que isso seja apenas conversa e não se transforme em ação, porque se trata de uma decisão ilegal e muito irresponsável. Seria um passo provocativo e ilegal.

Haverá consequências no relacionamento entre Brasil e os palestinos?

Se acontecer, haverá sérias consequências. Esperamos que seja apenas retórica e que não seja implementada. Não seria bom para o Brasil.

Como assim?

Não seria bom para as relações comerciais do Brasil com o resto do mundo. Não apenas com o mundo árabe ou o mundo islâmico, mas com todo o mundo. O Brasil seria visto como um país que dá um passo ilegal e contra as exigências da paz.

Mas a transferência foi uma promessa de campanha de Jair Bolsonaro.

As pessoas dizem muitas coisas durante as campanhas. O fato de que ele prometeu não torna a promessa implementável. O [presidente norte-americano Donald] Trump prometeu muitas coisas em sua campanha, mas não implementou todas. Trump é repudiado em todo o mundo. Então, não acho que ele queira estar na companhia de Trump e de [primeiro-ministro de Israel, Benjamin] Netanyahu como violadores da lei.

O Brasil ficará isolado, caso isso aconteça?

Sim, claro. A transferência teria consequências diplomáticas e econômicas, além de outras consequências. Ainda há tempo de voltar atrás. Lembro que o Paraguai chegou a transferir a embaixada para Jerusalém e voltou atrás. Tudo é reversível.

A senhora acredita que seria uma mudança muito profunda na diplomacia brasileira no Oriente Médio?

Parece-me que o Brasil sempre teve uma posição de legalidade e moralidade e boas relações com a Palestina e com o mundo árabe, independentemente de diferenças individuais ou de quem tenha vencido eleições. Achamos que isso deveria ser uma constante e as políticas do presidente deveriam refletir essa tradição.

Há uma tentativa da liderança palestina em tentar mudar a decisão?

Estamos apenas pedindo ao Brasil para usar sabedoria e responsabilidade e não dar esse passo. Para estar do lado da justiça e não da ilegalidade. Não seria bom testar as consequências.

POR QUE SE DENUNCIA TANTO O AUTORITARISMO DE TRUMP E PUTIN, MAS NÃO O DE NETANYAHU EM ISRAEL?

OS LIBERAIS OCIDENTAIS têm se manifestado bastante, atualmente, sobre a ascensão de governos autoritários e iliberais em todo o mundo: de Putin, na Rússia, a Orbán, na Hungria; de Trump, nos EUA, a Erdogan, na Turquia; de Modi, na Índia, a Duterte, nas Filipinas.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu preside o encontro semanal do gabinete em seu escritório, em Jerusalém, em 11 de dezembro de 2016.
Foto: Abir Sultan/AFP/Getty ImagesREAD IN ENGLISH 

Não se vê tanto clamor em relação a Netanyahu, em Israel — a despeito do fato de que o país, como admitiu o ex-ministro israelense de Relações Exteriores Shlomo Ben-Ami, esteja “sucumbindo aos seus mais profundos impulsos etnocentristas” e esteja “no rumo de se juntar ao crescente clube das democracias iliberais, graças ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu”.

Alguns dirão que “no rumo” é eufemismo. Segundo Hagai El-Ad, diretor-executivo da organização B’Tselem, o Centro de Informações de Israel sobre Direitos Humanos nos Territórios Ocupados, o Estado judeu poderia ser considerado sócio-fundador desse clube por sua “ampla dianteira” em relação aos demais membros. Por exemplo, a prática de “descrever a oposição, e especificamente as organizações de direitos humanos, como traidores, e então pleitear que sejam criminalmente investigados (…) pode parecer familiar a ouvintes de vários países (…) onde governos autoritários estão em ascensão”, me diz ele, no último episódio do podcast Deconstructed, “mas, olha, Israel já fazia isso muito antes”.

Analisemos o conjunto de leis “antidemocráticas” que foram aprovadas na última década pelo Knesset, o parlamento de Israel, e que tiveram um efeito assustador sobre a liberdade de expressão. Em 2011, foi promulgada a “Lei do Boicote“, que permite que qualquer indivíduo ou organização israelense que incite um boicote contra Israel seja processado por perdas e danos. Houve também a “Lei Nakba“, que autorizou o Ministério das Finanças de Israel a interromper o financiamento a instituições que rejeitem a condição de Estado “judeu” de Israel, ou que considerem que o Dia da Independência do país seja um “dia de luto”. Em 2015, veio a “Lei das ONG’s“, que atinge organizações de direitos humanos em Israel que recebam financiamento estrangeiro, e que foi descrita por Mossi Raz, um político do partido de esquerda Meretz, como uma “lei semi-fascista que fere a democracia e silencia a divergência de uma forma que lembra a Rússia de Putin”. (Das 27 organizações ameaçadas por essa lei, 25 são de esquerda ou grupos de direitos humanos.)

Há ainda a opinião pública israelense, que apresentou uma extraordinária guinada nas últimas décadas rumo à direita autoritária e racista. Segundo uma pesquisa do Pew Research Center, quase metade (48%) dos judeus israelenses atualmente apoiam expulsar os árabes de Israel, e a ampla maioria (79%) considera ter direito a “tratamento preferencial” em relação às minorias não-judaicas em Israel.

Nessa edição do Deconstructed, também conversei com Avner Gvaryahu, ex-paraquedista militar das Forças de Defesa de Israel (FDI), que hoje atua como diretor-executivo da ONG israelense Breaking the Silence [Rompendo o Silêncio], “especialmente detestada pelos israelenses de direita” porque coleciona depoimentos anônimos de veteranos militares de Israel a respeito de abusos que presenciaram ou cometeram durante seu período nos Territórios Ocupados. Segundo Gvaryahu, a direita israelense criou “um ambiente tóxico que um dia deve se voltar contra eles, mas que nesse momento está basicamente destruindo o que resta dos valores liberais em nosso país”.

Por fazer afirmações tão provocadoras e expor possíveis crimes de guerra praticados pelas FDI nos Territórios Ocupados, Gvaryahu, El-Ad e outros ativistas de direitos humanos em Israel não apenas têm sido alvo das leis antidemocráticas, mas também têm sofrido agressões verbais, assédio e ameaças de morte. Até membros de alto escalão do governo israelense entram nessa conta. Parece ruim que Donald Trump tenha chamado a CNN de “fake news”? Nehanyahu já atacou a “Breaking the Silence” por difundir “mentiras e difamar nossos soldados pelo mundo”. O ministro da Defesa Avigdor Lieberman acusou membros do B’Tselem e da Breaking the Silence de serem “completos traidores” financiados “pelas mesmas fundações que financiam o Hamas”.

Perguntei a Gvaryahu como ele reage a ataques pessoais tão maliciosos pelos funcionários mais graduados do país. “Nós meio que brincamos com isso (…) entre os membros da Breaking the Silence. Em que ponto nos tornamos traidores? Foi (…) da primeira vez que lemos um blog de esquerda quando ainda éramos soldados? Foi quando lemos (…) algum livro enquanto guardávamos [prisioneiros palestinos] e brotou em nossas cabeças uma ideia, e começamos a questionar o que estávamos fazendo — ali já éramos traidores também? Quando compartilhamos nossas experiências ao voltar para casa, conversando com pessoas da família — éramos traidores, então? Ou só nos tornamos traidores quando (…) [começamos a] romper o silêncio publicamente?”

Nas últimas semanas, atiradores de elite das FDI sofreram fortescríticas por alvejar e matar dezenas de manifestantes palestinos desarmados, inclusive crianças e jornalistas, na fronteira com Gaza. Para Gvaryahu, “a verdade é que provavelmente há soldados na fronteira agora que um dia serão parte da Breaking the Silence. Será que nesse momento eles já são traidores?”

El-Ad diz que não está surpreso com o discurso hostil. “Por 50 anos, temos definido toda oposição palestina à ocupação como incitação. Por que não poderíamos começar a definir também a oposição israelense à ocupação como incitação, e ir fechando aos poucos o cerco da Linha Verde — mas na direção errada?”

Diante do constante ataque das autoridades israelenses de direita contra El-Ad, Gvaryahu e suas organizações e veículos de notícias, não é vergonhoso que as lideranças liberais do Ocidente não estejam se manifestando ruidosamente em apoio a eles? Ou que essas lideranças estejam tão engajadas em denunciar comportamentos iliberais ou autoritários de Trump ou de Vladimir Putin, mas tão dispostas a fazer vista grossa para Netanyahu?

O ATUAL GOVERNO de Israel — o governo mais à direita e mais avesso à paz de que se tem lembrança — está determinado a demonizar e deslegitimar seus críticos internos, especialmente os ativistas de direitos humanos e as organizações da sociedade civil. E que se dane a liberdade de expressão!

Por quê? Porque as críticas de judeus ao Estado judeu sempre foram mais difíceis de ignorar ou repelir. Fossem Albert Einstein e Hannah Arendt nos anos 1940… ou Natalie Portman no começo de abril. A atriz israelense-americana causou furor em Israel ao se recusar a comparecer a uma cerimônia de premiação em Tel Aviv, dizendo que “não queria dar a impressão de que aprova Benjamin Netanyahu” e se insurgindo contra “o tratamento inadequado daqueles que sofrem pelas atuais atrocidades” em Israel. E qual foi a resposta do governo israelense? O ministro do Gabinete Yuval Steinitz afirmou que o boicote promovido por Portman “beirava o antissemitismo.”

Qualquer pessoa que se manifeste contra o comportamento repressor do governo de Israel, de ambos os lados da Linha Verde, deve ser silenciado. Essa é a mentalidade autoritária e ultranacionalista que agora domina não só o gabinete de Netanyahu, mas também o Knesset. No começo do ano, legisladores israelenses deram aprovação inicial a uma emenda que permitia ao Ministério da Educação proibir de entrarem em escolas as organizações que criticam as FDI. Membros do Knesset destacaram especificamente a Breaking the Silence enquanto discutiam a emenda.

Gvaryahu acredita que seria difícil defender judicialmente uma medida tão ampla e draconiana. “O mais interessante, porém”, ele me conta, “é que, embora tenha havido essa discussão e haja resistência nas escolas que nos convidam, ainda somos convidados. Tivemos uma experiência incrível uns meses atrás, quando alunos de ensino médio nos convidaram, mas os diretores da escola tiveram medo da reação e decidiram cancelar”.

Ainda assim, continua o líder da Breaking the Silence, “os próprios alunos disseram: ‘quer saber? Vamos encontrá-los no nosso próprio horário, em nossas próprias casas’ – adolescentes de 17, 18 anos! Quer dizer, como você motiva jovens de 17, 18 anos, nos tempos atuais, a fazer qualquer coisa? E eles, em seu próprio horário, fora da escola, disseram: ‘vamos convidar vocês’”.

Por isso, Gvaryahu afirma estar otimista e não ter planos de desistir de sua campanha contra a ocupação ilegal de Israel e contra as violações de direitos humanos — independentemente da pressão venha de cima e do apoio escasso dos liberais do Ocidente. O ex-soldado acredita que ele e os demais ativistas podem continuar a “romper o silêncio” diante de cada vez mais israelenses, especialmente os mais jovens. “Eles estão fechando uma porta”, diz ele, “vamos entrar pela janela”.

Maior torre de energia solar do mundo é construída em deserto de Israel

Usina de Ashalim ficará pronta no primeiro trimestre de 2018

A Usina de Ashalim, em construção, em Israel
Foto: Divulgação

Na paisagem das areias do deserto do Negev, no sul de Israel, uma torre de 250 metros de altura – o equivalente a um prédio de 50 andares – se destaca. Trata-se da torre da usina solar de Ashalim, parte do esforço das autoridades israelenses para produzir, até 2020, 10% de sua energia através de fontes renováveis; hoje, este porcentual é de 2,5%.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

A mais alta do mundo em um projeto de energia solar térmica concentrada (Concentrating Solar Power – CSP, em inglês), a torre de Ashalim é circundada por 50.600 espelhos controlados por computador (heliostatos), distribuídos por uma área de 3 km². Esses espelhos acompanharão a movimentação do sol de modo a refletir luz sobre uma caldeira localizada no alto da torre, durante o maior tempo possível ao longo do dia.

A radiação solar infravermelha capturada pelos espelhos e refletida sobre a caldeira criará um processo térmico de vapor que moverá enormes turbinas, gerando energia elétrica “limpa”. Quando pronta, no primeiro trimestre de 2018, a usina de Ashalim produzirá 121 megawatts de energia solar, suficientes para iluminar 125 mil casas, evitando a emissão anual de 110 mil toneladas de dióxido de carbono.

“A eletricidade será gerada a partir do vapor da mesma forma que geraria uma usina de gás ou de carvão, mas a energia não vem de combustíveis fósseis e sim do sol. É uma obra de porte para quem quer investir em energia limpa”, diz o engenheiro uruguaio Jacinto Durán-Sanchez, diretor-geral da usina solar.

Espelhos e torre da Usina de Ashalim ao fundo
Espelhos podem ser controlados remotamente e ficam próximos a torres de wi-fi, para garantir conexão sem interrupção | Foto: Felipe Wolokita

Conexão 24h

Os espelhos serão controlados remotamente até mesmo por telefones celulares dos engenheiros e diretores. Diariamente, a areia do deserto acumulada sobre eles terá de ser retirada.

“Os heliostatos vão estar inclinados, levando os raios de sol e o calor até a caldeira para levar a água a um vapor de 600 graus. Cada heliostato tem seu comando individual e remoto. Entre os espelhos há torres de wi-fi para assegurar que estejam conectados 24h por dia”, explica o engenheiro argentino Claudio Nutkiewicz, outro latino-americano envolvido no projeto.

No mundo, existem atualmente apenas 10 usinas heliotérmicas com capacidade superior a 121 MW. A maior é a de Ivanpah, no deserto do Mojave (EUA), inaugurada em 2014, com capacidade projetada de 392 MW. Mas ela conta com três torres de 190 metros de altura cada uma (40 andares), que recebem luz de 173.500 heliostatos.

As turbinas da usina solar
Usina de Ashalim tem custo estimado de US$ 570 milhões | Foto: Daniela Kresch

O projeto de Israel é mais humilde no número de espelhos (um terço), mas inova ao contar com apenas uma torre dez andares mais alta – que teria potencial maior na produção energética com custo menor do que o de erguer diversas torres. Novos megaprojetos com torres altíssimas (ao invés de várias mais baixas) estão em andamento. Uma delas, na Austrália, chegará perto da de Ashalim. A Aurora Solar Energy terá uma torre de 227 metros de altura (48 andares).

A usina solar (ou heliotérmica) de Ashalim tem custo estimado de US$ 570 milhões e, faz parte de um projeto mais amplo, o Megalim, uma joint-venture entre a General Electric (GE), a BrightSource (empresa americana de energia solar que também construiu a usina de Ivanpah) e o fundo israelense Noy (que investe em infraestrutura, com participação do Banco Hapoalim, o maior do país).

No total, o projeto é estimado, em US$ 820 milhões, incluindo mais duas obras complementares: uma para armazenamento de energia solar de noite e outra de uma usina com tecnologia fotovoltaica para produzir ainda mais energia. Juntos, os três projetos solares gerarão cerca de 310 MW – cerca de 2% das necessidades de Israel.

Mas as usinas heliotérmicas também têm críticos. Nos Estados Unidos, ambientalistas apontam para o fenômeno de aves mortas encontradas nas proximidades dessas centrais elétricas. Eles afirmam os pássaros são incinerados pela luz refletida pelos espelhos, que pode alcançar 600° centígrados.

O ciclo do ódio

Ciclo do ódio,Blog do MesquitaConta-se que Albert Einstein teria dito ser mais fácil desintegrar o átomo do que acabar com os ódios na sociedade.

Basta atentar para os primeiros sete meses de 2015 para lhe dar razão.

Sobre o tráfico de desesperados migrantes para a Europa, comove o relato do sírio Eyas Hasoun, dado ao jornal Corriere della Sera após a morte da sua filha Raghad, de 11 anos.

A menina sofria de diabetes. A esperança do pai era operá-la na Alemanha, onde ambos pretendiam chegar. Viajantes de um barco precário saído da Líbia, destinado ao tráfico de seres humanos e operado por uma das dezenas de organizações criminosas que passaram a deter parte do controle territorial e social do país depois da queda de Muammar Kaddafi, assassinado em 20 de outubro de 2011.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Segundo programado pelos traficantes de seres humanos, o barco chegaria à ilha siciliana de Lampedusa e Hasoun e Raghad fugiriam da Itália para a Alemanha. Pai e filha enferma pretendiam manter a clandestinidade e, para isso, tentariam evitar o obrigatório registro imigratório, medida geradora de proibição de ingresso em país da União Europeia diverso daquele do desembarque.

A esperança de Hasoun virou pó ao cabo da aventura vivida para deixar uma Síria em guerra, evitar as tropas fiéis a Bashar el-Assad e as decapitação por “soldados” fanáticos do Estado Islâmico. Em alto-mar, o traficante no comando da embarcação atirou a mochila de Raghad às águas, embora sabedor de conter toda a medicação necessária a mantê-la viva. Pela falta de insulina, Raghad agonizou e morreu no curso da travessia, sem largar a mão do pai, desesperado e sem alternativas.

Nem essa tragédia conseguiu abrandar a xenofobia europeia, encabeçada por líderes populistas-fascistas, como a francesa Marina Le Pen e o italiano leghista Matteo Salvini. Em cena, na Europa de hoje, duas posturas opostas. De um lado o papa Francisco, que recomenda priorizar o ser humano.

Do outro, o odioso discurso da direita europeia pelo fim da migração continental, e a sustentar o enganoso discurso do “ajudar nas próprias casas, nos seus países”, como se fosse possível dissuadir fugitivos e enviar ajuda do Chifre da África à Guiné Equatorial e aportes à Ásia. Fora isso, até a esfinge de Gizé sabe que dirigentes africanos gostam de embolsar ajuda internacional e manter na miséria os seus povos.

Nesta semana, dois barcos saídos da Líbia, ambos à deriva e um deles a fazer água, emitiram o SOS, captado por portos italianos. Houve pronta ajuda e 700 fugitivos foram salvos. Esse episódio, na esteira da tragédia da menina Raghad, reabre, desta vez com o secretário da CEI (a CNBB da Itália), monsenhor Galantino à frente, a repisar o pensamento do papa Francisco na condenação do ódio aos imigrantes, enquanto a direita europeia, clama contra a “invasão” da Europa. No pobre e falso discurso do “salvar as pessoas nas suas casas e nos seus países”, embarcou Beppe Grillo, ex-cômico, populista e líder do Movimento 5 Estrelas.

A solução possível e realista em face do fenômeno imigratório e do combate ao tráfico e exploração de seres humanos ainda não foi encontrado pela União Europeia. O recente sistema de cotas, pelo qual cada país haveria de receber um número determinado de imigrantes, está à beira da falência pelo simples fato de que chega mais gente do que o planejado. Nada melhor para a direita radical à busca de votos. O ódio assumia uma função cada vez mais decisiva no mundo, ao sabor do preconceito e da intolerância.

Em matéria, pontifica a Alemanha, tão desmemoriada em relação ao seu próprio passado: campeão na liga, o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble, de fé luterana, protagonista do episódio do “GreExit”.

E Schäuble até esqueceu ter sido a reconstrução da Alemanha pós-Hitler bancada pelos vencedores da Guerra. Para o ministro, o caso da Grécia continua sendo de simples condomínio. E a condômina da União Europeia que não cumpre as regras e deixa de pagar os débitos sujeita-se ao despejo. Enquanto isso, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, proclama o “erro histórico” do acordo com o Irã.
Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

Alerta contra a intolerância

Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, ocorre algo contrário aos direitos humanos e aos preceitos constitucionais.

Com base na Lei da Transparência, sindicatos e uma associação de apoio à causa palestina exigiram da Reitoria que indicasse projetos ligados à defesa militar supostamente estabelecidos com o Estado de Israel.

Roberto Romano¹

Mas no mesmo átimo foi exigida a identificação de mestres e discentes israelitas (Memorando Circular 02/2015, Pró-Reitoria de Pós-Graduação). O requerimento proclama a “covardia” israelense e tem como base falas e atos da presidente Dilma Rousseff, que, diante do “massacre” (os próprios autores põem o termo entre aspas) dos palestinos, “chamou nosso embaixador naquele país, para consultas”.

Fosse o desejo conhecer supostos ou reais convênios bélicos entre a universidade e o Estado de Israel, o escrito enviado ao reitor limitar-se-ia aos projetos, documentos e dados. Mas o texto está embebido em ódio ideológico e conduziu o pró-reitor ao indigitamento de israelenses. Ao ler a ordem reitoral recordamos a estrela de Davi nas lapelas dos “perniciosos judeus covardes” e os massacres de hebreus aos milhões na 2.ª Guerra Mundial.

Aliás, o documento da Pró-Reitoria realiza em pequena escala o veiculado pela propaganda odienta da Rádio Islam: a nomeação dos judeus no Brasil (http://www.radioislam.org/islam/portugues/poder/lista_judeus_brasil.htm). O Ministério Público tem o dever de interpelar aquela estação de rádio, pois ela declaradamente pratica o ódio racial, com injúrias e difamação de judeus. [ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Dado o teor do requerimento, prudente seria o gabinete reitoral devolvê-lo aos signatários, exigir a retirada do viés panfletário e do grave ataque aos direitos humanos. Um texto sem aquelas marcas seria de análise possível pela autoridade acadêmica, se redigido no respeito à lei. Da maneira como agiu, a Reitoria, infelizmente, avalizou intolerantes que, em nome de causas, fazem das normas legais letra morta.

Como a vida ética não foi totalmente corroída, instituições condenaram os militantes e as autoridades universitárias que cederam ao ditado das seitas. Em nota oficial o Ministério da Educação advertiu a Universidade de Santa Maria, verberando a discriminação empreendida. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência levantou-se contra o absurdo. Parte da imprensa exigiu explicações dos responsáveis.

“O ventre imundo de onde surgiu a besta ainda é fértil.” E como, senhor Brecht! A união histórica de setores árabes com o nazismo é conhecida. O elo entre sectários de hoje e o discurso do neonazismo é patente (Gilbert Achcar, The Arabs and the Holocaust). Tais sintaxes e semânticas foram mantidas após a 2.ª Guerra para garantir a razão de Estado nas potências mundiais. Quem deseja conhecer os bastidores da infâmia pode ler dois livros importantes: de John Hawkins, The Nazy Hidra in America, e de Christopher Simpson, Blowback, the First Full Account of America’s Recruitment of Nazis. O sucedido nos Estados Unidos foi replicado na América do Sul, basta recordar o caso Mengele. Longo tempo de pregação antissemita intoxicou mentes brasileiras. Os frutos surgem agora, inclusive em grupos cristãos.

Antes da 2.ª Guerra muitos norte-americanos acreditaram em Hitler, e não nos judeus. O jornal The Christian Science Monitor, por exemplo, atacou os “que difundiam mentiras sobre a Alemanha”. No Brasil, a revista A Ordem, em editorial (Os horizontes clareiam, 1934) afirma que a caça aos judeus era “mistificação” e “conjura” contra Hitler para “impedir que o nacional-socialismo se mantivesse no poder”. Herdeiros de Gustavo Barroso e comparsas continuaram a militância, à socapa ou abertamente, contra judeus. As fontes da memória nacional estão envenenadas.

Num ambiente prenhe de antissemitismo, a imprudência da Universidade Federal de Santa Maria salta aos olhos. Se os reitores não partilham, como acredito, os dogmas dos que assinaram a petição, era seu dever exigir dos autores o respeito aos direitos constitucionais. Ao aceitar as fórmulas dos peticionários, com base nos atos da presidente Dilma Rousseff, eles abriram um precedente que pode voltar-se amanhã contra os próprios defensores da causa palestina. Se atos de terror ocorrerem no Brasil, nomes serão demandados aos reitores. Como os de Santa Maria autorizaram a devassa contra os israelenses, só lhes restará abrir nomes de reais ou supostos terroristas árabes. Eles serão magníficos auxiliares do policiamento territorial. E os defensores da causa palestina receberão o mesmo remédio que hoje tentam aplicar nos judeus.

Acima dos Poderes está a Constituição. Para definir o Estado brasileiro, ela o proclama “destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”. E também: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Exigir a Reitoria universitária a indicação de nacionais ou estrangeiros é operar em conformidade com o não direito, contra a nossa Lei Suprema. Brasileiros, judeus, palestinos ou pessoas de qualquer outra origem não podem ser alvo de indigitamento, privado ou público. Esperemos que a crise ensine aos militantes mais respeito ante outros seres humanos. E aos administradores dos câmpus, prudência no trato de questões delicadas, pois elas tocam em feridas dolorosas na consciência da humanidade.

¹Roberto Romano é professor da UNICAMP e autor de “Razão de Estado e de Outros Estados” (Perspectiva)
Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo

Ridículo – Nova missão de Cunha: a paz no Oriente Médio

Após dar sucessivas demonstrações de que é o poder de fato em Brasília, Eduardo Cunha ofereceu aos brasileiros um gostinho do que seria um Brasil oficialmente presidido por ele. Cansado de tanto subjugar o governo Dilma Rousseff, o deputado decidiu colocar seus talentos a serviço do mundo.

Em sua primeira viagem oficial ao estrangeiro, o presidente presumido da República foi procurar desafios novos no Oriente Médio. Encontrou. Eis o título de notícia veiculada no portal da Câmara: “Cunha recebe pedido sobre mediação de paz no Oriente Médio.” O deputado ecoou a novidade no seu Twitter: “Em missão oficial na Palestina, Eduardo Cunha recebe pedido sobre mediação de paz no Oriente Médio.”

No comando de uma comitiva de 13 parlamentares, Cunha reuniu-se com a fina flor do poder palestino. Esteve, por exemplo, com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, e com Riad al-Malki, ministro palestino de Negócios Estrangeiros. Foi esse último interlocutor quem sugeriu à eminência parda do Brasil que promova no Congresso Nacional reuniões com representantes de Israel e da Palestina para negociar um processo de paz na região.

Prenhe de humildade, Cunha deu uma resposta que não orna com a fama de homem-bomba que Dilma tenta grudar nele: “Vou levar essa sugestão para o Brasil, mas Israel e Palestina estão há muitos anos envolvidos no processo, e nós não vamos achar que seremos os proprietários de uma eventual solução dos conflitos. Acho que é importante levar isso ao conhecimento dos parlamentares e, dentro da nossa humilde possibilidade, o que pudermos fazer para contribuir, tenho certeza que o Parlamento vai se sensibilizar.”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Na véspera, Cunha e seu séquito tinham visitado o gabinete do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o Legislativo israelense. O resultado fora exposto noutra notícia do portal da Câmara: “Autoridades israelenses pedem apoio a Cunha para manter país na Fifa.” No Brasil, muitos tratam o poder de Cunha como parte do folclore político. Mas Israel, que possui um serviço de espionagem famoso pela eficiência, parece supor que o deputado conhece a Fifa melhor do que o FBI.

Israel estava com o Brasil atravessado na traqueia desde junho do ano passado. Reagira mal a uma crítica de Dilma. Ela classificara como “massacre” os ataques que soldados israelenses faziam contra o território palestino, matando civis. “Há uma ação desproporcional”, dissera Dilma. “Não é possível matar crianças e mulheres de jeito nenhum.” Em resposta, um porta-voz da chancelaria de Israel, Yigal Palmor, dissera que o Brasil é “politicamente irrelevante”, um autêntico “anão diplomático.”

Eduardo Cunha, porém, foi tratado como gigante. Segundo a notícia da Câmara, “recebeu honras de chefe de Estado”. Foi como se as autoridades israelenses quisessem expressar sua gratidão ao Brasil por ter mandado a Jerusalém seu primeiro time, retendo Dilma em Brasília.

Presidente do Congresso israelense, Yuli-Yoel Edelstein saudou Cunha no plenário com um discurso consagrador. “Ele escolheu Israel como destino de sua primeira viagem oficial, um ato simbólico que nos leva de volta ao apoio acolhedor de um estadista brasileiro, Osvaldo Aranha”, disse, evocando a memória do ex-chanceler brasileiro que defendera na ONU, em 1947, a criação do Estado de Israel. Ouviu-se um barulhinho ao fundo. Era o ruído de Osvaldo Aranha se revirando no túmulo.

Muita gente criticou a viagem de Eduardo Cunha ao Oriente Médio, definindo-a como turismo financiado com dinheiro público. Injustiça. A passagem dele pela região desce à crônica política como uma espécie de breve governo Cunha, uma amostra do que seria o Brasil se o poder de fato substituísse o poder de direito.

Até aqui, Eduardo Cunha vinha desafiando apenas a Dilma. Agora, parece decidido a desafiar também o ridículo. Não é o suficiente para levar paz ao Oriente Médio. Mas exige muito mais coragem.
Blog Josias de Souza

Palestina X Israel

A política consegue sempre o impensável, o trágico, e que não faz parte do imaginário dos dotados de bom senso.

Elman Mirzoyev,Guerra,Cartuns,Blog do Mesquita

Que outra atividade é capaz de produzir a união de fanatismo e ódio?

Essa mistura desumana é o que produz horrores como o que está acontecendo na faixa de Gaza.

Israel e o Hamas se auto acusam, como se nesse genocídio fosse possível identificar quem é o bandido e que é o mocinho.

Enquanto os bárbaros defendem suas absurdas razões, a população é tragada nesse lamaçal de intransigência política.

Um atestado cristalino da inutilidade da ONU.


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