A intolerância é geral

A intolerância com o que é diverso se espalha como epidemia. A Taba dos Alencares já foi um dia um terreiro mais acolhedor.
O Editor
Intolerância Religiosa,Imigrantes,Islamismo,Fortaleza,Preconceito,Blog do MesquitaVítimas do extremismo. Atentados geram hostilidades contra muçulmanos
Foto: Camila de Almeida/O Povo


Ação extremista do Estado Islâmico cria um ambiente de intolerância e hostilidade contra comunidade religiosa. O POVO apresenta relatos e discute a situação com especialistas.

Na tarde quente de novembro em Fortaleza, três mulheres andam com a cabeça, o colo e o pescoço cobertos. São muçulmanas e vestem o véu (chamado hijab), conforme a religião orienta. “Vamos sair daqui que essas aí são do Afeganistão”, dizem dois homens que passam por elas. Eles riem. Elas não.

As mulheres não discutem. Seguem, apenas. Colocam óculos escuros e tentam abstrair os insultos, ali na região da Maraponga. Uma delas é a síria Motiaa Halabieh, de 40 anos, que vive no Brasil há 25 anos, os últimos seis em Fortaleza.

“Vem dizer na minha cara, seu velho! Anda, fala na cara!”, grita a mulher na sala de espera de um órgão estadual. É o segundo constrangimento em menos de meia hora. Ela conta ter sido chamada de “terrorista” por um homem, em meio à sessão de fotos para O POVO. Acuado, o suposto agressor sai sem dar explicações.
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“Moro há muitos anos no Brasil e nunca tinha passado por isso”, relata Motiaa, com mãos e lábios trêmulos. “Acho que andam ouvindo muita bobagem. Nunca tive problemas antes, não com essa agressividade”, narra. Por 15 anos, ela viveu em Foz do Iguaçu, no Paraná, onde a comunidade árabe é grande. Agora, ela quer voltar para lá, um lugar com clima mais amigável para islamitas.

O episódio ocorreu na última semana, poucos dias após os atentados na França, no Líbano e na Nigéria, que juntos deixaram mais de duas centenas de mortos. Ainda que esteja a quilômetros do foco dos ataques de extremistas religiosos, que usam o Islã para defender seus ideais, a população não-muçulmana no Brasil anda desconfiada.

O receio se espalha pelo mundo. Na Internet e na política, surgem os que condenam todos que seguem o Islã como se fossem uma legião de fanáticos. Mas o medo justificaria as ofensas?

Para a advogada do Escritório de Direitos Humanos Frei Tito, Luanna Marley, esse tipo de comportamento é considerado discriminação e está passível de punição já que a Constituição Federal garante liberdade religiosa.

“Ainda tem o fato de atribuirem falsamente um crime a alguém que não cometeu. E isto é calúnia. Nosso código penal é bem preciso quanto a este tema”, afirma, sobre os que acusam pessoas de “terrorismo”. Segundo a especialista, a pena para os crimes de xenofobia (discriminação de origem) e intolerância religiosa varia de um a três anos de prisão.

Outras histórias
Convertida há três anos, a cearense Aminah Sales também teve sua cota de discriminação após os atentados. “Já tinha ouvido muito no ônibus, mas depois dos ataques, perto da minha rua passaram no carro e gritaram “terrorista’”, narra. Ela costumava trabalhar como professora, mas decidiu deixar a profissão após ser proibida de usar o véu nas dependências da escola.

O estudante de química Yahya Simões, de 27 anos, conta que tem sido mais difícil achar emprego desde que se converteu e passou a usar vestes islâmicas. “As pessoas não gostam de você parar para fazer oração ou manter a barba longa. Há falta de entendimento e de abertura”, diz. Ele também enfrenta resistência da família que, segundo afirma, não entende sua religião.

Um migrante africano muçulmano, casado com uma brasileira, desistiu de dar entrevista. Segundo ele, a família evangélica da mulher não aceita a união e, portanto, não quer expor a história na mídia.

Nas próximas páginas, são abordadas ações de muçulmanos para tirar a má impressão deixada pelos extremistas. As consequências da intolerância são analisadas por especialistas. E por fim, relatos comparam a situação do Brasil à de países que fazem parte da lista de alvos potenciais dos terroristas.
Fonte: Jornal OPovo

Arte – Grafite – Publicidade – Pricess Hijab

Artista intriga franceses pintando véus em cartazes publicitários.


Atuando na capital mundial da moda desde 2006, ‘Pricess Hijab’ não revela seu sexo ou religião.

Uma artista grafiteira intriga os parisienses desde 2006, pintando, às escondidas, véus sobre personagens de painéis publicitários no metrô da capital francesa.

Com uma caneta preta, a artista, conhecida como Princess Hijab (princesa Hijab – um dos véus do mundo islâmico) cobre o rosto e parte do corpo de modelos femininos e masculinos em anúncios, deixando apenas os olhos a vista.

“Eu me aproprio de símbolos, no caso, a publicidade e o véu.

Com isso, construo a minha alegoria. É um pouco como um ritual, uma performance urbana”, explica a artista, em entrevista à BBC Brasil.

“No início, eu ficava esperando para ver a reação das pessoas.

Algumas se chocavam, outras se espantavam ou ficavam intrigadas com aquilo”, conta a artista de rua.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Sexo?

Princess Hijab cultiva um certo mistério sobre sua identidade e recusa-se, inclusive, a dizer se é homem ou mulher.

No encontro com a reportagem da BBC Brasil, ela vestia um casaco de moletom e cobria a cabeça um capuz, escondendo o rosto por trás de longas mechas de cabelo comprados em salões de beleza afros da capital.

Sua voz é feminina, mas as mãos e os braços pouco delicados aumentam as dúvidas sobre seu sexo, que ela prefere não revelar.

A artista explica que a ideia de “niqabizar” (niqab é o véu que deixa apenas os olhos de fora) modelos em anúncios no metrô surgiu em 2006, quando trabalhava com moda.

“Eu já fazia roupas que cobriam todo o corpo.

Era um pouco como uma burca, mas bem colada ao corpo”, conta.

“Paris é a capital da moda. É um ato forte fazer isso aqui”, resume Princess Hijab.

Islamismo

O véu islâmico foi protagonista de um grande debate no país que resultou na sua proibição.

Para vários políticos franceses, o uso do véu contraria princípios “republicanos” e os valores de laicidade do país.

A proibição, em setembro deste ano, do uso do véu islâmico cobrindo todo o rosto em lugares públicos do país, causou protestos em parte da comunidade muçulmana e tem sido utilizada por militantes islâmicos como motivo de ameaças de atos extremistas contra o território francês.

Princess Hijab admite que seu trabalho “causou um pouco de incômodo no início e poucas pessoas queriam falar dele”.

Ela prefere se manter à margem do debate e se recusa, inclusive, a responder se é muçulmana.

“Eu me posiciono como artista. Nunca pretendi ser a bandeira de uma comunidade”, conclui.

BBC/Agência Estado

Irã: mulheres iranianas e a revolta do Xador

Revolta do xador – Irã

Irã,Xador,Feminismo,Revoluções,EleiçõesFoto: Ben Curtis/AP

Manifestantes iranianas vestem verde, a cor da oposição: a luta é também pela igualdade de direitos para as mulheres

Os protestos no Irã ganharam um rosto: o de Neda Agha Soltan, a bela iraniana assassinada por um bassiji, membro da milícia islâmica ligada ao presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Vestida de jeans e com os cabelos cobertos, como manda a lei da república islâmica, a jovem estudante de filosofia de 26 anos levou um tiro no peito, disparado à queima-roupa. Em poucos segundos, seu rosto estava coberto pelo sangue que jorrou da boca e do nariz. “Pressionei a ferida para tentar estancar o sangramento, mas não consegui. Ela morreu em menos de um minuto”, disse o médico que tentou socorrê-la no local.

A morte de Neda foi registrada em vídeo por celular. Colocadas na internet, as imagens circularam no globo, expondo o horror nas ruas de Teerã. “Qualquer um que tenha assistido a esse vídeo percebe que há algo fundamentalmente injusto ali”, disse o presidente americano, Barack Obama.

Para evitar que o funeral se tornasse o epicentro de uma rebelião, o governo iraniano providenciou o enterro de Neda às pressas e proibiu sua família de falar com a imprensa.

Veja – Thomaz Favaro