Como os futuros livros de história lembrarão a guerra da Síria?

Recentemente, um parlamentar britânico comparou o bombardeio russo a um comboio da ONU na cidade de Aleppo, na Síria, aos ataques nazistas na Espanha durante os anos 1930.

Olhando para trás, a ascensão de Hitler ao poder parecia óbviaOlhando para trás, a ascensão de Hitler ao poder parecia óbvia
Image copyrightGETTY IMAGES

Andrew Mitchell, do Partido Conservador, disse que a Rússia está matando civis na Síria da mesma maneira como a Alemanha nazista se comportou em Guernica durante a Guerra Civil espanhola, ataques que inspiraram o pintor Pablo Picasso a criar a obra Guernica.

A declaração foi recebida com controvérsia, mas, ao comparar dois momentos distintos da história, ensejou uma questão: como a guerra na Síria será descrita e contextualizada nas escolas no futuro?

Atualmente, aprendemos nas aulas de história que o assassinato do arquduque Franz Ferdinand foi um dos gatilhos para a Primeira Guerra Mundial. E que a ascensão de Hitler ao poder contou com vários fatores, incluindo a situação econômica na Alemanha, assim como suas habilidades como orador público.

Guerra na Síria certamente será tópico de muitas redações. A questão é: como?Guerra na Síria certamente será tópico de muitas redações. A questão é: como?
Image copyrightASSOCIATED PRESS

Com a ajuda de especialistas, fizemos algumas previsões sobre os tópicos que, que como os acima, serão cobrados dos estudantes nos próximos 50 anos.

O começo: a invasão ao Iraque em março de 2003

Soldado americano faz patrulha no deserto do Iraque
Soldado americano faz patrulha no deserto do Iraque

“Se eu estivesse dando uma aula, eu iria para março de 2003, quando Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros países decidiram invadir o Iraque”, diz o professor Tim Jacoby, especialista em conflitos e professor da Universidade de Manchester.

“Mas você também poderia argumentar que para entender o que aconteceu na Síria você precisa entender a decisão de Saddam Hussein de invadir o Kuwait em 1991. Ou você pode ir um pouco além”, afirma.

Homem tira foto dos destroços resultantes de um ataque em Damasco com seu celularHomem tira foto dos destroços resultantes de um ataque em Damasco com seu celular – Image copyrightREUTERS

Michael Stephens, pesquisador de Oriente Médio do Instituto Real de Serviços Unificados (Royal United Services Institute), um think tank de segurança, concorda que 2003 é um bom começo para entender a guerra na Síria, mas há também outras datas cruciais.

“Até 2001, as pessoas na Síria tinham apenas duas estações de TV, ambas controladas pelo Estado. Quando as pessoas tiveram acesso à internet, elas puderam se comunicar com o mundo todo e as pessoas foram incentivadas a querer mais para elas mesmas. A crise econômica de 2007-2008 teve um impacto econômico gigante no mundo árabe, o que levou à Primavera Árabe”, explica.

Mais de mil diferentes grupos são contrários ao governo sírio

Bashar al-Assad, presidente da SíriaImage copyrightEUROPEAN PHOTOPRESS AGENCY
Image captionBashar al-Assad, presidente da Síria

Michael Stephens e Tim Jacoby concordam com a alta probabilidade de que este será considerado um dos mais complexos conflitos em décadas, se não o mais complexo.

Alguns dos principais grupos atuando no conflito são:

– Presidente Bashar al-Assad, líder do governo sírio, e seus apoiadores;

– Rebeldes que se opõem à liderança de Assad, lutando contra o Exército do governo;

– Partidos políticos que dizem que Assad é responsável por fraudar as eleições, garantindo sua permanência no poder;

– O grupo extremista que se intitula Estado Islâmico, que usou a violência contra grupos como cristãos e Yazidis.

Segundo estimativas, existem mais de mil grupos diferentes se opondo ao governo desde que o conflito começou, com 100 mil soldados.

EUA, Rússia e Irã são alguns dos grandes jogadores internacionais

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente dos Estados Unidos, Barack ObamaO presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama – Image copyrightREUTERS

Esta é mais uma questão de “grande complexidade”, segundo Jacoby. Segundo o especialista:

– A Rússia sempre foi uma aliada da Síria e continua a ser, principalmente porque ela continua a ser sua principal aliada no Oriente Médio;

– O Irã teve uma grande influência na região como consequência da invasão ao Iraque em 2003. São aliados próximos;

– Para a política americana, um grande elemento do envolvimento dos Estados Unidos na Síria é garantir a segurança de Israel, seu aliado próximo.

O chamado Estado Islâmico quer dissolver as fronteiras entre Síria e Iraque

Soldados americanos fazem patrulha em BagdáSoldados americanos fazem patrulha em Bagdá – Image copyrightGETTY IMAGES

“A invasão ao Iraque é a primeira vez em um bom tempo em que a coalizão internacional invadiu um país soberano e o subjugou a um período prolongado de ocupação”, diz Jacoby.

“Desestabilizou muito os regimes tirânicos e despóticos que existiam na região há décadas. O conflito na Síria é um resultado direto dessa desestabilização, eu diria.”

Mapa mostra perda de território do Estado Islâmico
Mapa mostra perda de território do Estado Islâmico

E nem todo mundo pensa que Iraque e Síria são duas nações separadas.

“Aquela fronteira que desenhamos no mapa entre esses povos nunca foi aceita na mente dessas pessoas”, explica Jacoby.

“As pessoas que vivem no deserto e transpõem aquela fronteira são as mesmas. Então o que o Estado Islâmico quer de alguma maneira é dissolver aquela fronteira – e é exatamente isso o que eles fizeram.”

É difícil saber exatamente quantas pessoas morreram na Síria

Homem reage à morte de familiares após um ataque aéreo das forças de Assad em AlepoHomem reage à morte de familiares após um ataque aéreo das forças de Assad em Alepo – Image copyrightREUTERS

“A conta de mortes no Iraque é apenas uma estimativa”, diz Jacoby. “Comparado com o Vietnã, onde os corpos eram contados e as mortes publicadas, há pouquíssima informação.”

Jacoby afirma que essa era uma “política deliberada” por parte da coalizão de governos como Estados Unidos. Um resultado, diz ele, é que o movimento antiguerra não tinha esses dados pra ajudar na sua causa.

O que nós sabemos é que milhões de pessoas deixaram a Síria durante os últimos anos como refugiadas.

O número de refugiados varia muito

Mulher síria refugiada e seus filhos em campo de refugiados em Atenas, GréciaMulher síria refugiada e seus filhos em campo de refugiados em Atenas, Grécia
Image copyrightASSOCIATED PRESS

As redes sociais e a internet tiveram um papel importante em não apenas permitir um experiência melhor de mundo às pessoas que estão dentro da Síria, mas também dar a elas uma plataforma para noticiar o que acontece em suas vidas.

“Da perspectiva do Oriente Médio, eu acho que a onda de debates nas redes sociais foi bastante polarizador”, diz Stephens.

“É um pouco como quando Alan Kurdi (o menino de três anos na fotografia considerada hoje icônica) apareceu na praia. É mesmo necessário que uma criança seja levada pelo mar até uma praia para as pessoas se importarem?”

O corpo de Alan Kurdi é carregado por soldado
O corpo de Alan Kurdi é carregado por soldado – Image copyrightAFP

“Talvez a crise síria de refugiados tenha nos levado a pensar um pouco mais criticamente sobre nosso papel no resto do mundo”, disse Jacoby.

Ele destaca que o número de refugiados sírios vivendo em diferentes países varia muito. “A Turquia por exemplo tem provavelmente três milhões de refugiados sírios”, diz ele, comparando com os poucos milhares que vieram à Inglaterra.

“E depois de passar por todo aquele sofrimento e privação, eles serem submetidos ao racismo endêmico na Grã-Bretanha é absolutamente imperdoável”, diz.

Menina síria em campo de refugiados na TurquiaMenina síria em campo de refugiados na Turquia – Image copyrightASSOCIATED PRESS

Michael Stephens acredita que esse será o conflito definitivo até a metade desse século, acrescentando: “pode ser tão importante quanto foi a Primeira Guerra”. Ambos os especialistas preveem que o futuro será castigado pela forma como o conflito sírio tem ocorrido.

“Eu acho que permitir que milhares de homens, mulheres e crianças se afoguem no mar Mediterrâneo será visto como um dos maiores crimes do começo do século 21. É completamente escandaloso, acho que a história será extremamente crítica sobre nosso papel nisso, nossa capacidade de ignorar isso”, diz Jacoby.

“Aprender a lições da história será dolorido para todos. Eu acho que todo mundo (do Irã aos Estados Unidos e Europa) terão que jogar as mãos para o alto e dizer que poderiam ter feito algo diferente. Do jeito que a região está, acho que a situação ficará pior antes de ficar melhor”, completa Stephens.
Com dados da BBC

Quem é Hamza, o filho de Bin Laden que pode ser o novo líder da Al-Qaeda

Uma nova mensagem de áudio, divulgada recentemente em uma das redes da Al-Qaeda, voltou a lançar luz sobre uma figura emergente dentro do grupo radical: a voz da mensagem é de alguém que afirma ser Hamza Bin Laden, um dos filhos de Osama Bin Laden.

YouTube/GettyHamza Bin Laden é considerado por vários analistas como o filho preferido de Osama para se transformar em seu sucessor – Image copyrightYOUTUBE/GETTY

Não é a primeira vez que o filho de Bin Laden faz uma gravação para a Al-Qaeda. Mas foi a primeira vez que o grupo radical apresentou oficialmente Hamza como seu membro.

Desde que Osama Bin Laden, líder da organização, foi morto pelas forças especiais americanas em Abbottabad, no Paquistão, em 2011, a Al-Qaeda parecia estar perdendo sua força e influência, a ponto de parecer, ao menos sob os olhos do Ocidente, relegado à sombra do grupo autodenominado Estado Islâmico.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Apesar disso, analistas afirmam que o grupo extremista não está menos perigoso.

Segundo Fawaz Gerges, autor dos livros The Rise and Fall of Al-Qaeda(“Ascensão e Queda da Al-Qaeda”, em tradução livre) e ISIS: A History (“EI: Uma História”) e especialista em política no Oriente Médio, Hamza Bin Laden tem todas as credenciais para se transformar no novo líder da organização.

Carisma e popularidade

Nos últimos anos, a Al-Qaeda tem sido liderada pelo egípcio Ayman al Zawahiri, com uma abordagem mais pragmática.

Sua nova estratégia se concentrou em conseguir mais apoio local, com o objetivo de ser um grupo “muito mais duradouro” do que o Estado Islâmico (EI), explicou à BBC Charles Lister, membro do Middle East Institute, centro de estudos localizado nos Estados Unidos.

Mas, com a liderança do filho de Osama, o grupo poderia ter muito mais sucesso.

Getty ImagesA Al-Qaeda pode mudar de estratégia e tentar objetivos mais próximos do que os Estados Unidos e a Europa – Image copyrightGETTY IMAGES

“A Al-Qaeda está desesperada para ter uma nova imagem, principalmente se levarmos em conta a ascensão do EI nos últimos anos e a sombra que ele jogou na Al-Qaeda”, afirmou Gerges.

“Hamza Bin Laden é a nova cara da Al-Qaeda. É carismático e muito popular entre os soldados”, explicou o acadêmico.

Gerges ainda acrescentou que Hamza era o “filho favorito de Osama”.

De acordo com o pesquisador, já se comentava a possiblidade de Hamza suceder o pai, já que, apesar de ser jovem, o filho de Bin Laden tem experiência na Al-Qaeda.

Desde 2001

A Al-Qaeda já divulgou várias mensagens de Hamza Bin Laden. E a primeira aparição pública do filho de Osama havia ocorrido ainda em 2001.

Getty ImagesDepois da morte de Bin Laden, o comando da Al-Qaeda ficou nas mãos de Ayman al Zawahiri (esq.) Image copyrightGETTY IMAGES

Na época, ele tinha apenas dez anos e foi visto em um vídeo perto dos destroços de um helicóptero americano caído na província de Ghazni, Afeganistão. Ele foi mostrado caminhando perto de combatentes do Talebã.

Desde então, ele começou a pregar o assassinato de “infiéis” e a usar um uniforme militar.

Um vídeo divulgado em 2005, chamado O Mujahedin do Waziristão, mostrava Hamza participando de um ataque da Al-Qaeda contra forças de segurança paquistanesas na região montanhosa da fronteira com o Afeganistão.

Nos anos seguintes, ele publicou poemas sobre as proezas militares da Al-Qaeda instigando os militantes a “acelerar a destruição de Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Dinamarca”.

O filho de Bin Laden tem hoje cerca de 25 anos e, segundo Gerges, com “novas ideias” de que a Al-Qaeda acredita “precisar” para se renovar.

Guerra de duas frentes

A primeira mensagem com a voz de Hamza foi divulgada em 2015, na qual ele pregava a violência contra os Estados Unidos e seus aliados, com uma convocação à jihad (“guerra santa”) aos combatentes do grupo em Bagdá, Cabul e Gaza, tendo como “alvos” Washington, Londres, Paris ou Tel Aviv.

Meses depois, em maio de 2016, ele divulgou mais uma mensagem convocando a intifada e falando da “libertação” de Jerusalém e da “revolução” na Síria.

ReutersA Al-Qaeda quer deixar claro que o grupo também tem presença na Síria e que não é apenas o EI que está tentando derrubar o governo do país
Image copyrightREUTERS

Em julho, ele falou sobre vingar a morte de seu pai em um discurso de mais de 20 minutos.

E, em sua última mensagem, Hamza fala sobre a convocação de jovens sauditas para que “derrubem” a monarquia de seu país e se juntem à Al-Qaeda da Península Arábica, que opera principalmente no Iêmen.

Essa convocação contra a Arábia Saudita, segundo Gerges, pode significar uma possível mudança de estratégia do grupo jihadista – que antes se concentrava apenas em inimigos mais distantes no Ocidente.

“O que Hamza está dizendo é que o EI não é o único grupo declarando guerra aos governos da Arábia Saudita, Síria e Iraque; que eles também participam disso.”

O problema, de acordo com o especialista, é que agora as potências ocidentais enfrentam uma guerra em duas frentes: “Uma frente contra o Estado Islâmico no Iraque, Síria e Líbia e outra contra a Al-Qaeda no Afeganistão, Paquistão, Iêmen e outros cenários”, explicou Gerges.
Com dados da BBC

Irmãos que realizaram ataques na Bélgica estão ligados aos de Paris

Atentados deixaram mais de 30 mortos e 270 feridos.
Irmãos Khalid e Ibrahim El Bakraoui são dois dos terroristas.

Khalid e Ibrahim foram identificados como os dois suicidas que fizeram o atentado no aeroporto e no metrô, em Bruxelas, na segunda-feira (22) (Foto: Reprodução RTBF/Interpol)

Khalid (esq.) e Ibrahim foram identificados como os dois suicidas que fizeram o atentado no metrô e no aeroporto, em Bruxelas, na segunda-feira (22) (Foto: Reprodução RTBF/Interpol)

 Dois irmãos apontados como os autores dos atentados de terça-feira (22), em Bruxelas, estão relacionados com os ataques de 13 de novembro, em Paris, afirmaram nesta quarta-feira (23) as autoridades belgas, no primeiro dia de luto em homenagem às vítimas. Outros dois suspeitos ainda não foram identificados oficialmente.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O procurador federal belga, Frédéric Van Leeuw, confirmou em uma coletiva de imprensa nesta quarta que dois dos autores destes atentados eram os irmãos Khalid e Ibrahim El Bakraoui, já procurados por suas ligações com os ataques de 13 de novembro em Paris.

Segundo a agência France Presse, a polícia também deteve na noite de terça, no bairro de Schaerbeek, uma pessoa que está sendo interrogada.

Assim como no caso de Paris, os atentados na Bélgica foram reivindicados pelo grupo jihadistaEstado Islâmico (EI). Morreram mais de 30 pessoas, e outras 270 ficaram feridas no aeroporto de Bruxelas e na movimentada estação de metrô de Maalbeek.

Segundo o procurador belga, “o número de vítimas pode, infelizmente, aumentar nas próximas horas”.

Ibrahim El Bakraoui

Ibrahim El Bakraoui teria detonado seus explosivos no aeroporto de Bruxelles-Zaventem. Ele foi identificado por impressões digitais. O homem já havia sido apontado como suspeito em imagens de câmeras da segurança divulgadas na terça-feira pela polícia.

As imagens mostravam três homens empurrando carrinhos de bagagem, pouco antes das duas explosões que arrasaram o salão de embarque do aeroporto. Ibrahim, que nasceu em Bruxelas em 9 de outubro de 1986, seria o homem do meio.

Graças a um taxista, que explicou ter recolhido os três homens do aeroporto no bairro de Schaerbeek, a polícia revistou um apartamento da região onde foram encontrados 15 quilos de explosivos TATP e material para fabricar bombas.

Na mesma rua foi encontrado um computador abandonado em uma lata de lixo, no qual havia o que o procurador chamou de “testamento” de Ibrahim. Nele, diz “não saber o que fazer” e afirma que é procurado “por todas as partes” e por isso não se sente “seguro”.

O computador foi encontrado em um lixo no bairro de Schaerbeek, onde a polícia realizou na terça-feira operações de buscas que permitiram localizar “15 quilos de explosivo do tipo TATP, 150 litros de acetona, 30 litros de água oxigenada, detonadores, uma mala cheia de pregos, bem como material destinado a confeccionar artefatos explosivos”.

O gabinete do presidente turco, Tayyip Erdogan, disse que Ibrahim foi preso na Turquia, no sul perto da fronteira com a Síria, e depois foi deportado para a Holanda no ano passado, e que a Bélgica na sequência ignorou um alerta de que o homem era um militante. A Turquia também notificou as autoridades holandesas, afirmou Erdogan.

“Um dos agressores em Bruxelas é um indivíduo que nós detivemos em Gaziantep em junho de 2015 e deportamos. Nós relatamos a deportação para a embaixada belga em Ancara em 14 de julho de 2015, mas ele mais tarde foi solto”, declarou Erdogan. “A Bélgica ignorou o nosso alerta de que essa pessoa era um combatente estrangeiro.”

Khalid El Bakraoui

O irmão de Ibrahim, Khalid também foi identificado por suas impressões digitais como o autor do ataque na estação de metrô de Maelbeek, que ocorreu cerca de uma hora depois das explosões no aeroporto. “A explosão aconteceu no interior do segundo vagão do trem, quando este ainda estava parado na estação”. Khalid nasceu em 12 de janeiro de 1989 em Bruxelas.

Os irmãos El Bakraoui, conhecidos da polícia por assaltos a mão armada, foram mencionados pelos meios de comunicação belgas em conexão com a caça ao suspeito-chave dos atentados de Paris, Salah Abdeslam, capturado na sexta (18) no município de Molenbeek, em Bruxelas, depois de quatro meses de buscas.

Khalid também foi identificado por suas impressões digitais como o autor do ataque na estação de metrô de Maelbeek (Foto: Interpol/Reuters)Khalid também foi identificado por suas impressões digitais como o autor do ataque na estação de metrô de Maelbeek (Foto: Interpol/Reuters)
Khalid El Bakraoui teria alugado, com uma identidade falsa, um apartamento que serviu de esconderijo em Charleroi (sul), de onde partiram alguns dos autores dos atentados de 13 de novembro, e um apartamento no bairro de Forest, igualmente em Bruxelas, onde uma operação policial de rotina em 15 de março ajudou a encontrar o rastro de Abdeslam.

Najim Laachraoui

Fontes policiais disseram à France Presse que o segundo homem-bomba que participou no ataque ao aeroporto de Bruxelas foi identificado pelas autoridades como Najim Laachraoui – ele seria o homem que aparece à esquerda nas imagens das câmeras de segurança. A informação, no entanto, não foi confirmada oficialmente. A imprensa belga, chegou a anunciar a detenção de Laachraoui mais cedo nesta quarta, mas se retratou pouco depois da informação.

Laachraoui, de 24 anos, foi identificado na véspera dos ataques em Bruxelas como cúmplice de Salah Abdeslam – fugitivo que era procurado pelos ataques de novembro em Paris e foi preso – e dos comandos que cometeram os atentados de Paris. Na ocasião, os procuradores belgas lançaram um pedido público de informações sobre Najim Laachraoui, que teria passado pelos controles na fronteira entre Áustria e Hungria.

De acordo com o jornal “Washington Post”, acredita-se que ele teria preparado as bombas usadas em Paris.

Seu DNA foi encontrado no material explosivo usado nos ataques de 13 de novembro na capital francesa e em várias residências utilizadas pelos extremistas que cometeram aqueles atentados.

Najim Laachraoui é procurado pela polícia por suspeita de ter participado do ataque ao aeroporto de Bruxelas, na terça-feira (22) (Foto: Belgian Federal Police/Handout via Reuters )Najim Laachraoui é procurado pela polícia por suspeita de ter participado do ataque ao aeroporto de Bruxelas, na terça-feira (22) (Foto: Belgian Federal Police/Handout via Reuters )

Suspeito de jaqueta clara

Quanto ao terceiro homem que aparece nas imagens das câmeras de segurança, com chapéu e uma jaqueta clara, ele continua foragido, de acordo com o procurador belga, e não foi identificado.

“Ainda não foi identificado”, afirmou o procurador federal belga, Frédéric Van Leeuw, indicando que “em sua mochila estava a maior parte da carga explosiva” utilizada no ataque, indicando que poderia ter causado muito mais danos.

Quando, após evacuar o prédio, as equipes antibomba encontraram a bolsa, esta explodiu devido à “grande instabilidade” dos artefatos que continha.

Temores

Com a confirmação da participação dos irmãos El Bakraoui nos atentados de terça, os investigadores já podem estabelecer uma relação direta entre a rede por trás dos ataques de Paris em novembro de 2015, que deixaram 130 mortos.

Também reforça os temores sobre a capacidade das rede extremistas belgas de continuar a realizar ataques sangrentos, apesar do reforço das medidas de segurança em toda a Europa e a pressão policial consideravelmente aumentada desde os ataques de Paris.

“Deveríamos ter restabelecido o nível 4 (de alerta máximo) de ameaça terrorista após a prisão de Salah Abdeslam? Não tínhamos informações para prevenir a iminência desta ameaça?”, questionava nesta quarta-feira em uma edição especial o jornal “Le Soir”, que ressaltou a possível existência de “cúmplices” que poderiam voltar a agir.

Vítimas

Os piores ataques terroristas ocorridos na Bélgica poderiam ter “atingido mais de 40 nacionalidades”, segundo o ministro belga das Relações Exteriores, Didier Reynders. Mas até o momento as autoridades não divulgaram a lista de mortos nem suas nacionalidades.

Sabe-se que uma mulher peruana, um estudante de Direito e um membro da Comunidade Valônia-Bruxelas (organização governamental que representa falantes de francês na região) morreram nas explosões.

Entre os feridos também está o jogador de basquete nascido no Brasil Sebastien Bellin, de 37 anos, e uma aeromoça indiana, Nidhi Chaphekar, cujas fotos tiradas pouco depois das explosões no aeroporto deram a volta ao mundo.

Explosões no aeroporto de Bruxelas deixaram mais de 10 mortos e dezenas de feridos (Foto: Ketevan Kardava/ Georgian Public Broadcaster/AP)Foto de aeromoça indiana Nidhi Chaphekar (à direita de amarelo) e de mulher não identificada (à esquerda) foi tiada pouco depois das explosões no aeroporto de Bruxelas (Foto: Ketevan Kardava/ Georgian Public Broadcaster/AP)

Além disso, dez franceses, dois britânicos e três americanos ficaram feridos. Uma delegação do FBI e da polícia de Nova York devem viajar para Bruxelas. O Departamento de Estado alertou os cidadãos americanos para “riscos potenciais se quiserem viajar para e pela Europa”.

Minuto de silêncio

A Bélgica parou nesta quarta para observar um minuto de silêncio em memória das vítimas em vários pontos da capital, como no cruzamento Schuman, no coração do bairro europeu, na presença do casal real, Philippe e Mathilde, e do primeiro-ministro Charles Michel.

Centenas de pessoas se reuniram na Place de la Bourse, convertida em um memorial improvisado, onde houve aplausos ao fim do minuto de silêncio.

“Na noite passada, vim depositar uma vela e passei esta manhã em solidariedade com as vítimas e suas famílias. É importante estar aqui com outras pessoas”, declarou à AFP Latifa Charaf, de 50 anos, uma professora de Bruxelas.

O aeroporto da capital belga continuará fechado pelo menos até sexta-feira. Várias estações de metrô reabriram sob a vigilância de soldados, mas a movimentação era muito menor do que o habitual.
G1

Por que a Bélgica tornou-se um alvo terrorista?

A Bélgica vive um pesadelo do qual não sabe como fugir. O país que há apenas dois anos vivia quase alheio às medidas de segurança habituais em outros Estados – entre eles a Espanha – tornou-se um dos principais cenários doterrorismo na Europa.

Atentado terrorista em Bruxelas, BélgicaTrabalhadores do aeroporto de Bruxelas se abraçam depois dos atentados.
O. Hoslet EFE.

Quatro dias depois de ter recebido com alívio a prisão de Salah Abdeslam, arquiteto dos atentados de 13 de novembro em Paris, o terror ataca novamente Bruxelas com um atentado cujas consequências ainda são difíceis de prever.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O atentado ao Museu Judaico de Bruxelas, em maio de 2014, foi o primeiro alarme. Com ele as autoridades belgas descobriram que a capital da Europa era alvo terrorista e a segurança começou a ser reforçada em locais estratégicos. Mas os ataques, realizados então por um jihadista francês, estavam longe de ser um episódio isolado.

Com esse acontecimento, a Bélgica descobriu com espanto que era o país da UE mais afetado por um novo fenômeno: o dos chamados combatentes estrangeiros, jovens com nacionalidade europeia que abandonam lugar de origem para se juntar à guerra síria.

Com cerca de 500 pessoas que em algum momento viajaram ao Iraque ou à Síria, o país, de 11,2 milhões de habitantes, era o que tinha o maior número de jihadistas per capita na Europa.

A presença de núcleos radicais no país não era inteiramente nova ou exclusiva de Bruxelas. Em setembro de 2014, a justiça de Antuérpia fez um mega julgamento de 46 fundadores e membros da Sharia4Belgium, uma organização terrorista responsável pelo recrutamento e formação desses jovens que tomavam parte de um conflito tão alheio ao seu cotidiano quanto o sírio.

Mas, longe de conter a ameaça, os problemas se multiplicaram a partir daquele momento.

Uma equipe da polícia fora do edifício onde Salah Abdeslam foi preso.Uma equipe da polícia fora do edifício onde Salah Abdeslam foi preso.
Carl Court Getty Images

O ápice dessa enorme incidência terrorista em Bruxelas foi mostrado com toda a sua crueza nos atentados de 13 de novembro, que provocaram a morte de 130 pessoas em Paris. Rapidamente a investigação mostrou que esses ataques foram tramados em grande parte em Bruxelas, orquestrados por jovens europeus de origem muçulmana.

O epicentro é um bairro de forte concentração árabe que, desde então, ganhou relevância internacional. Trata-se de Molenbeek, o refúgio onde Abdeslam se tornou um radical e onde foi finalmente preso na sexta-feira.

Esse bairro, a poucos minutos do centro histórico de Bruxelas, mostrou alguma ligação com muitos dos ataques que atingiram a Europa nos últimos anos, inclusive o de 11 de março de 2004 na Espanha.

Desde os atentados de Paris, Bruxelas descobriu que também era alvo direto de um massacre semelhante ao da capital francesa. Os indícios de que algo parecido estava sendo organizado levou as autoridades belgas a tomar uma decisão inédita em dezembro: o fechamento preventivo, durante vários dias, do metrô, das escolas, centros comerciais, instalações esportivas e outros lugares públicos.

O que não aconteceu na época ocorreu, com especial virulência, nesta terça-feira. O grande paradoxo –e motivo de alarme para as autoridades belgas– é que os ataques atingiram os dois núcleos mais vigiados da capital belga desde 13 de novembro: o aeroporto de Zaventem, o maior do país e um dos mais movimentados Europa, e a área onde estão localizadas as principais instituições da UE, conhecida como o Schuman.

Todos esses organismos (a Comissão Europeia, o Conselho Europeu, o Parlamento Europeu, o serviço diplomático…) contam com dispositivos de segurança reforçados, inclusive com a presença de militares nas instalações. O mesmo acontece com as duas estações de metrô dessa zona central: Maelbeek (a que sofreu a explosão nesta terça-feira) e Schuman.

As autoridades belgas terão dificuldade para superar o estigma –justificado ou não– que lhes persegue desde os ataques de Paris: que a capital belga é um autêntico berço do jihadismo. E que essa ameaça terrorista se enraizou em boa medida pelas costas dos serviços de inteligência do país.

Um alto funcionário da luta europeia contra o terrorismo considera infundadas as acusações e acrescenta que a Bélgica comunica a outros países –principalmente a França– um bom número de informações relacionadas com o terrorismo.

Apesar disso, foram precisamente as autoridades francesas que enfatizaram que a captura de Abdeslam teve muito a ver com o envolvimento direto de sua polícia na investigação belga dos ataques de 13 de novembro.

Esse enorme esforço não conseguiu evitar o que na Bélgica é considerado como “o dia mais negro do país desde a Segunda Guerra Mundial”.
El País

Chomsky: ‘Este é o momento mais crítico na história da humanidade’

Chomsky repassa as principais tendências do cenário internacional, a escalada militarista do seu país e os riscos crescentes de guerra nuclear.

Ministerio de Cultura de la Nación Argentina / Flickr

“Os Estados Unidos sempre foram uma sociedade colonizadora. Inclusive antes de se constituírem como Estado já trabalhavam para eliminar a população indígena, o que significou a destruição de muitas nações originárias”, como bem lembra o linguista e ativista estadunidense Noam Chomsky, quando se pede que descreva a situação política mundial.

Crítico feroz da política externa de seu país, ele recorda 1898, quando ela apontou seus dardos ao cenário internacional, com o controle de Cuba, “transformada essencialmente numa colônia”, e logo nas Filipinas, “onde assassinaram centenas de milhares de pessoas”.

Chomsky continua seu relato fazendo uma pequena contra-história do império: “roubou o Havaí da sua população originária 50 anos antes de incorporá-lo como um dos seus estados”. Imediatamente depois da II Guerra Mundial, os Estados Unidos se tornaram uma potência internacional, “com um poder sem precedente na história, um incomparável sistema de segurança, controlando o hemisfério ocidental e os dois grandes oceanos. E, naturalmente traçou planos para tentar organizar o mundo conforme a sua vontade”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Contudo, ele aceita que o poder da superpotência diminuiu com respeito ao que tinha em 1950, o auge da sua hegemonia, quando acumulava 50% do produto interno bruto mundial, muito mais que os 25% que possui agora.

Ainda assim, Chomsky lembra que “os Estados Unidos continua sendo o país mais rico e poderoso do mundo, e incomparável a nível militar”.

Um sistema de partido único

Em algum momento, Chomsky comparou as votações em seu país com a eleição de uma marca de pasta de dentes num supermercado.

“Nosso país tem um só partido político, o partido da empresa e dos negócios, com duas facções, democratas e republicanos”, proclama. Mas ele acredita que já não é possível continuar falando dessas duas velhas coletividades políticas, já que suas tradições sofreram uma mutação completa durante o período neoliberal.

Chomsky considera que “os chamados democratas não são mais que republicanos modernos, enquanto a antiga organização republicana ficou fora do espectro, já que ambas as vertentes se moveram muito mais à direita durante o período neoliberal – algo que também aconteceu na Europa”.

O resultado disso é que os novos democratas de Hillary Clinton adotaram o programa dos velhos republicanos, enquanto estes foram completamente dominados pelos neoconservadores. “Se você olha os espetáculos televisivos onde dizem debater política, verá como somente gritam entre eles e as poucas políticas que apresentam são aterrorizantes”.

Por exemplo, ele destaca que todos os candidatos republicanos negam que o aquecimento global ou são céticos – não o negam mas dizem que os governos não precisam fazer algo a respeito.

“Entretanto, o aquecimento global é o pior problema que a espécie humana terá pela frente, e estamos nos dirigindo a um completo desastre”. Em sua opinião, as mudanças no clima têm efeitos comparáveis somente com os da guerra nuclear.

Pior ainda, “os republicanos querem aumentar o uso de combustíveis fósseis. Esse não é um problema de centenas de anos, mas sim um criado pelas últimas duas gerações”.

A negação da realidade, que caracteriza os neoconservadores, responde a uma lógica similar à que impulsiona a construção de um muro na fronteira com o México. “Essas pessoas que tratamos de distanciar são as que fogem da destruição causada pelas políticas estadunidenses”.

“Em Boston, onde vivo, o governo de Obama deportou um guatemalteco que viveu aqui durante 25 anos, ele tinha uma família, uma empresa, era parte da comunidade. Havia escapado da Guatemala destruída durante a administração de Reagan.

A resposta a isso é a ideia de construir um muro para nos prevenir. Na Europa acontece o mesmo. Quando vemos que milhões de pessoas fogem da Líbia e da Síria para a Europa, temos que nos perguntar o que aconteceu nos últimos 300 anos para chegar a isto”.

Invasões e mudanças climáticas se retroalimentam

Há apenas 15 anos, não existia o tipo de conflito que observamos hoje no Oriente Médio. “É consequência da invasão estadunidense ao Iraque, que é o pior crime do século. A invasão britânica-estadunidense teve consequências horríveis, destruíram o Iraque, que agora está classificado como o país mais infeliz do mundo, porque a invasão cobrou a vida de centenas de milhares de pessoas e gerou milhões de refugiados, que não foram acolhidos pelos Estados Unidos, e tiveram que ser recebidos pelos países vizinhos pobres, obrigados a recolher as ruínas do que nós destruímos. E o pior de tudo é que instigaram um conflito entre sunitas e xiitas que não existia antes”.

As palavras de Chomsky recordam a destruição da Iugoslávia durante os Anos 90, instigada pelo ocidente. Assim como Sarajevo, ele destaca que Bagdá era uma cidade integrada, onde os diversos grupos culturais compartilhavam os mesmos bairros e se casavam membros de diferentes grupos étnicos e religiosos.

“A invasão e as atrocidades que vimos em seguida fomentaram a criação de uma monstruosidade chamada Estado Islâmico, que nasce com financiamento saudita, um dos nossos principais aliados no mundo”.

Um dos maiores crimes foi, em sua opinião, a destruição de grande parte do sistema agrícola sírio, que assegurava a alimentação do país, o que conduziu milhares de pessoas às cidades, “criando tensões e conflitos que explodiram após as primeiras faíscas da repressão”.

Uma das suas hipóteses mais interessantes consiste em comparar os efeitos das intervenções armadas do Pentágono com as consequências do aquecimento global.

Na guerra em Darfur (Sudão), por exemplo, convergiram os interesses das potências ocidentais e a desertificação que expulsa toda a população às zonas agrícolas, o que agrava e agudiza os conflitos.

“Essas situações desembocam em crises espantosas, e algo parecido acontece na Síria, onde se registra a maior seca da história do país, que destruiu grande parte do sistema agrícola, gerando deslocamentos, exacerbando tensões e conflitos”, reflete.

Chomsky acredita que a humanidade ainda não pensa com mais atenção sobre o que significa essa negação do aquecimento global e os planos a longo prazo dos republicanos, que pretendem acelerá-lo: “se o nível do mar continuar subindo e se elevar muito mais rápido, poderá engolir países como Bangladesh, afetando a centenas de milhões de pessoas.

Os glaciares do Himalaia se derretem rapidamente, pondo em risco o fornecimento de água para o sul da Ásia. O que vai acontecer com essas bilhões de pessoas? As consequências iminentes são horrendas, este é o momento mais importante da história da humanidade”.

Chomsky crê que estamos diante um ponto crucial da história, no qual os seres humanos devem decidir se querem viver ou morrer: “digo isso literalmente, não vamos morrer todos, mas sim se destruiriam as possibilidades de vida digna, e temos uma organização chamada Partido Republicano que quer acelerar o aquecimento global. E não exagero, isso é exatamente o que eles querem fazer”.

Logo, ele cita o Relógio do Apocalipse, para recordar que os especialistas sustentam que na Conferência de Paris sobre o aquecimento global foi impossível conseguir um tratado vinculante, somente acordos voluntários.

“Por que? Simples: os republicanos não aceitariam. Eles bloquearam a possibilidade de um tratado vinculante que poderia ter feito algo para impedir essa tragédia massiva e iminente, uma tragédia como nenhuma outra na história da humanidade. É disso que estamos falando, não são coisas de importância menor”.

Guerra nuclear, possibilidade certa

Chomsky não é de se deixar impressionar por modas acadêmicas ou intelectuais. Seu raciocínio radical e sereno busca evitar o furor, e talvez por isso não joga palavras ao vento sobre a anunciada decadência do império.

“Os Estados Unidos possuem 800 bases ao redor do mundo e investe em seu exército tanto quanto todo o resto do mundo junto. Ninguém tem algo assim, soldados lutando em todas as partes do mundo. A China tem uma política principalmente defensiva, não possui um grande programa nuclear, embora seja possível que cresça”.

O caso da Rússia é diferente. É a principal pedra no sapato da dominação do Pentágono, porque “tem um sistema militar enorme”. O problema é que tanto a Rússia quanto os Estados Unidos estão ampliando seus sistemas militares, “ambos estão atuando como se a guerra fosse possível, o que é uma loucura coletiva”.

Chomsky acredita que a guerra nuclear é irracional e que só poderia suceder em caso de acidente ou erro humano. Contudo, ele concorda com William Perry, ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, que disse recentemente que a ameaça de uma guerra nuclear hoje é maior que durante a Guerra Fria. O intelectual estima que o risco se concentra na proliferação de incidentes que envolvem as forças armadas de potências nucleares.

“A guerra esteve a ponto de ser deflagrada inumeráveis vezes”, admite ele. Um de seus exemplos favoritos é o sucedido sob o governo de Ronald Reagan, quando o Pentágono decidiu provar as defesas russas através de uma simulação de ataques contra a União Soviética.

“Acontece que os russos levaram a sério. Em 1983 depois que os soviéticos automatizaram seus sistemas de defesa, foi possível detectar um ataque de mísseis estadunidense. Nesses casos, o protocolo é ir direto ao alto mando e lançar um contra-ataque. Havia uma pessoa que tinha que transmitir essa informação, Stanislav Petrov, mas decidiu que era um alarme falso. Graças a isso, podemos estar aqui falando”.

Chomsky defende que os sistemas de defesa dos Estados Unidos possuem sérias falhas, e há poucas semanas se conheceu um caso de 1979, quando se detectou um ataque massivo com mísseis que vinham da Rússia. Quando o conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, estava levantando o telefone para chamar o presidente James Carter e lançar um ataque de represália, chegou a informação de que se tratava de um alarme falso. “Há cada ano são registradas dúzias de alarmes falsos”, assegura ele.

Neste momento, as provocações dos Estados Unidos são constantes. “A OTAN está realizando manobras militares a 200 metros da fronteira russa com a Estônia. Nós não toleraríamos algo assim se acontecesse no México”.

O caso mais recente foi a derrubada de um caça russo que estava bombardeando forças jihadistas na Síria, no final de novembro.

“Há uma parte da Turquia quase rodeada pelo território sírio e o bombardeiro russo voou através dessa zona durante 17 segundos, até ser derrubado. Uma grande provocação que, por sorte, não foi respondida pela força”. Chomsky argumenta que fatos similares estão sucedendo quase diariamente no mar da China.

A impressão que ele tem, e que expressa em seus gestos e reflexões, é que se as potências agredidas pelos Estados Unidos atuassem com a mesma irresponsabilidade que Washington, o destino do planeta estaria perdido.

Visão sobre a Colômbia

O linguista estadunidense Noam Chomsky conhece de perto a realidade colombiana. Fiel ao seu estilo e suas ideias, ele visitou o país e sua diversidade, conheceu a Colômbia que existe longe dos focos acadêmicos e midiáticos, adentrou no Vale do Cauca, onde grupos indígenas constroem sua autonomia, com base em seus saberes ancestrais, atualizados em meio ao conflito armado.

“Parece haver sinais positivos nas negociações de paz”, reflete Chomsky. “A Colômbia tem uma terrível história de violência desde o século passado, a violência nos Anos 50 era monstruosa”, lembrou ele, reconhecendo que a pior parte foi obra de operações paramilitares. Mais recentes são as fumigações realizadas pelos Estados Unidos, verdadeiras operações de guerra química, que deslocaram populações enormes de camponeses, para beneficio das multinacionais.

Como consequência, a Colômbia se tornou o segundo país do mundo em número de migrantes dentro do próprio território, depois do Afeganistão. “Deveria ser um país rico, próspero, mas está se quebrando em pedaços”, agrega.

Por isso, se as negociações tiverem sucesso, eliminarão alguns dos problemas, mas não todos. “A Colômbia, mesmo sem o problema da guerrilha, continuará sendo um dos piores países para os defensores dos direitos humanos, para líderes sindicais e outros”.

Um dos perigos que ele observa, no caso de que se assine o acordo definitivo de paz, seria a integração dos paramilitares ao governo, uma realidade latente no país.

Ainda assim, ele sustenta que a redução do conflito com as FARC seria um grande passo para frente, por isso acredita que deve se fazer todo o possível para contribuir com o processo de paz.

Tradução: Victor Farinelli

Créditos da foto: Ministerio de Cultura de la Nación Argentina / Flickr

Tecnologia: Para vencer o EI, a batalha central é dominar o virtual

 Um ano antes do Estado Islâmico estabelecer seu califado extremista na Síria e no Iraque, Abdulmunam Almushawah notou uma mudança preocupante a mais de 1.600 quilômetros de distância, na Arábia Saudita.

Homem com bandeira do Estado Islâmico em Raqqa, Síria. 29/06/2014Homem com bandeira do Estado Islâmico em Raqqa, Síria – Foto Reuters
O chefe de um programa financiado pelo governo saudita que rastreia jihadistas on-line disse que viu novas tendências crescendo entre os militantes já em 2013.
Eles estavam formando grupos técnicos para ajudar radicais a enviar mensagens criptografadas.Houve uma enxurrada de atividades em francês, e os apelos à jihad na Europa estavam crescendo. Dois anos mais tarde, houve massacres em Paris, primeiro na revista Charlie Hebdo em janeiro e, em seguida, em múltiplos alvos em novembro.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Entendemos que eles estiveram construindo a realidade de hoje”, disse Almushawah em uma entrevista em sua base em Riad. “O que acontece na vida real tem uma sombra anterior no mundo eletrônico”.

Os EUA e seus aliados dizem que estão vencendo a luta contra o Estado islâmico, retomando território conquistado no ano passado e libertando cidades como Kobane na Síria e Ramadi no Iraque. No entanto, está perdendo terreno em uma área na qual os ataques aéreos não podem alcançar, um espaço em grande parte controlado por empresas sediadas nos Estados Unidos.

Executivos da Google Inc. e Facebook Inc., junto com funcionários do governo agora estão reunindo apoio para uma resposta combinada.

Território Digital

As informações recolhidas por Almushawah mostram como é difícil pegar as informações atuais e transformá-las em previsão.

Os jihadistas desenvolveram um nível de conhecimento técnico que permite a utilização da Internet e das redes sociais sem serem pegos por agências de inteligência, disse a Europol em um relatório divulgado na segunda-feira.

A campanha de Internet do Estado Islâmico, também conhecida como ISIS, ISIL ou Da’esh, ajudou a atrair milhares de soldados estrangeiros e inspirou ataques isolados.

O de San Bernardino, Califórnia, mostrou como a Internet ajuda a “fazer crowdsource de terrorismo, para vender assassinatos”, disse James Comey, diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI). Envolveu pessoas “consumindo veneno pela Internet”, disse ele em um discurso duas semanas após o ataque de dezembro.

Almushawah notou mais recentemente um aumento no diálogo envolvendo a Indonésia. Uma bomba em Jacarta reivindicada pelo Estado Islâmico deixou oito pessoas mortas este mês.

Nova Dinâmica

Um vídeo de 17 minutos aparentemente feito pelo Estado Islâmico no domingo mostrou imagens supostamente de um dos nove terroristas que participaram dos ataques de 13 de novembro em Paris, no território controlado pelo grupo, antes dos ataques, enquanto declarava que empresários e líderes políticos franceses são alvos da agrupação.

O vídeo recebeu o título de: “Mate onde encontrá-los”.

Empresas de rede social estão cooperando com as agências de inteligência ocidentais, mas caminham sobre a linha tênue entre ajudar na luta contra o extremismo e desencadear uma enxurrada de demandas de países em todo o mundo pedindo para apagar postagens.

Contra ataque

Com a expansão desse alcance on-line, também aumentaram os esforços das agências de segurança de combatê-la, como fizeram com a Al-Qaeda.

Os EUA este mês anunciaram sua Countering Violent Extremism Task Force, um novo grupo que irá integrar o esforço em casa, e outra organização para fazer a ligação com os parceiros internacionais.

A Casa Branca disse no dia 8 de janeiro, que a equipe de segurança do presidente Barack Obama se reuniu com empresas de tecnologia na Califórnia.

A unidade especializada da Polícia Metropolitana de Londres remove 1.000 posts de conteúdo extremista a cada semana, em média, enquanto a Europol criou uma equipe em junho, com a missão de combater a presença do Estado Islâmico nas redes sociais. Sua missão era fechar qualquer nova conta afiliada ao Estado Islâmico duas horas depois de ter sido criada.

O desafio é eliminar o recrutamento e incitamento na Internet e nas redes sociais, mantendo fontes suficientes de inteligência para diminuir o apelo e frustrar ataques.

Alma extremista

De volta a Riad, a unidade de Almushawah, chamada Assakina, iniciada em 2003 em um país cuja própria marca conservadora do Islã tem sido acusada de abastecer a jihad. Quinze dos 19 autores do 11 de setembro de 2001, os ataques contra os EUA, eram cidadãos sauditas.

Enquanto existe um potencial para o sucesso, o esforço ainda tem como alvo apenas um punhado relativo de militantes, disse Almushawah.

O que é necessário é uma abordagem global, afirma ele.

“O ciberespaço é a alma do Estado Islâmico”, disse Almushawah.
Donna Abu-Nasr e Jeremy Hodges, da Bloomberg

Rainha da Jordânia responde a charge de Charlie Hebdo sobre Aylan

Desenho sugere que menino sírio poderia ser ‘médico, professor, pai’. Charge de revista causou polêmica ao citar criança e caso de assédio.

Desenho publicado pela rainha Rania, da Jordânia, questiona o que o menino Aylan poderia ser quando crescesse (Foto: Reprodução/Facebook/Queen Rania)Desenho publicado pela rainha Rania, da Jordânia, questiona o que o menino sírio Aylan poderia ser quando crescesse (Foto: Reprodução/Facebook/Queen Rania)

A rainha da Jordânia respondeu com um desenho alternativo a uma caricatura do jornal satírico francês Charlie Hebdo sobre o pequeno Aylan Kurdi, um menino sírio afogado numa praia turca e cuja foto, representação explícita do drama dos refugiados, comoveu o mundo.

No último número do Charlie Hebdo, o diretor da revista, Riss, assina uma charge em que um homem aparece assediando uma mulher.

O desenho é acompanhado da seguinte legenda: “Migrantes: no que teria se transformado o pequeno Aylan se tivesse crescido?”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O próprio Riss responde, com a legenda “Apalpador de bundas na Alemanha” (tradução livre de “Tripoteur de fesses en Allemagne”), em referência às agressões sexuais registradas neste país na noite de Ano Novo. Segundo as denúncias, a maioria dos suspeitos seria de refugiados.

Em suas contas do Facebook e do Twitter, a rainha Rânia da Jordânia publicou um desenho do caricaturista jordaniano Osama Hajjaj, que dá uma visão alternativa: ao lado do pequeno afogado, uma menino mais velho usando uma mochila escolar e depois, um médico.

A charge foi publicada em árabe, inglês e francês com a mesma pergunta inicial da caricatura do jornal francês: “No que teria se transformado o pequeno Aylan se tivesse crescido?”

A rainha respondeu: “Aylan poderia ter sido médico, professor ou pai carinhoso”.

O desenho do jornal Charlie Hebdo gerou fortes críticas nas redes sociais. Questionada pela AFP na quinta-feira sobre a controvérsia, a publicação não quis se pronunciar.
Da France Presse

Redator-chefe do ‘Charlie Hebdo’ : “Estamos diante de novas formas de totalitarismo”

Charlie Hebdo, Gerard Biard,Jornalismo ,Imprensa,Terrorismo,Censura,Totalitarismo,Blog do MesquitaGérard Biard fala um ano depois do ataque terrorista contra o jornal francês.

Gerard Biard é o redator-chefe da revista satírica francesa Charlie Hebdo, que faz agora em um ano sofreu um atentado no que morreram 12 pessoas. Biard repasa o que supôs neste ano para o semanário e sua forma de entender o humor.

MAIS INFORMAÇÕES

Um Deus assassino e em fuga na capa do ‘Charlie Hebdo’
67 jornalistas foram assassinados neste ano por exercer sua profissão
Estado Islâmico obriga Europa a mudar regras da luta antiterrorista[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Pergunta. Um ano depois da matança que dizimou a redação do Charlie Hebdo, o que você não quer ouvir no dia 7 de janeiro de 2016?

Resposta. Tenho medo até de ouvir isso. Diante desses atos de terrorismo, sempre acabamos encontrando explicações e justificativas que de fato soam como desculpas. É inaceitável. Para mim, trata-se apenas de rejeitar uma ideologia totalitária baseada em dogmas religiosos.

P. No entanto, qualquer explicação não serve como desculpa…

R. É verdade, mas o Estado Islâmico tem milhares de razões para nos odiar, por isso procurar explicações é um exercício que não tem fim e, repito, sempre há o risco de buscar as “razões corretas”. Estas não existem, pois o único objetivo é impor a sociedades democráticas uma ideologia religiosa radical.

P. Você se refere ao fascismo islâmico?

R. Eu, que sou de origem italiana, rejeito a palavra “fascismo” porque tem muitas conotações em um contexto histórico. “Totalitarismo” me parece mais adequado e a palavra abrange muito mais do que o estalinismo e os fascismos do século XX. Infelizmente, estamos diante de novas formas de totalitarismo no século XXI.

P. Como você viveu os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris? Como uma repetição do 7 de janeiro?

R. Eu estava na redação do Libération para comemorar sua mudança de endereço, muito perto da Sala Bataclan e dos cafés do XI distrito de Paris. Éramos 300 jornalistas e estávamos todos em um estado de estupefação: era impossível acreditar no que as redes de informação contínua nos mostravam. Nossa obsessão no Charlie Hebdo dessa vez foi falar das matanças sem ser sinistros. Nossa mensagem foi simples: “Eles que se f…”. Isso foi dito pela redação do Charlie Hebdo, mas também por todos aqueles franceses que saem para beber e vão a concertos. E o “eles” se refere, evidentemente, àqueles fanáticos que querem impor um novo totalitarismo religioso na França e no resto do mundo, porque a França, é claro, não é nada mais do que um símbolo e não é o único país ameaçado.

“Não existe uma tradução satisfatória para o ‘secularismo’ francês em outro idioma”

P. Como você explicaria o conceito de laicidade para um público que não é francês?

R. Começaria por dizer que não existe uma tradução satisfatória em outra língua. Em inglês, secularism não é suficiente para traduzir “laicismo”. Depois, nós sempre temos que estar conscientes de que há duas visões da separação entre Igreja e Estado: na França, a religião não deve se imiscuir nos assuntos do Estado, enquanto que num país como os EUA, é o Estado que não deve se imiscuir nos assuntos religiosos. São visões opostas e é por isso que é tão difícil falar de laicismo em um país anglo-saxão.

P. Outras capas do Charlie Hebdo causaram polêmica, como a do pequeno Aylan que morreu em uma praia na Turquia…

R. Sim, porque mais uma vez nos acusaram de ter blasfemado. Quisemos mudar voluntariamente o significado do que, em nossa opinião, tinha se tornado “uma imagem piedosa”, e estamos orgulhosos de manter essa tradição de desenho de imprensa.

P. A linha editorial do Charlie Hebdo mudou a partir de janeiro de 2015?

“Agora nos esforçamos para ser mais didáticos”

R. No que diz respeito ao fundo, não queremos mudar. Mas assumimos o fato de que 70% das pessoas que nos leem não nos conheciam antes de 7 de janeiro de 2015. Muitos franceses, mas também muitos europeus, aos quais temos de transmitir a mensagem de um jornal satírico quando na verdade não existe um equivalente no Velho Continente. É verdade que nos esforçamos para ser mais didáticos, mas nunca deixaremos de fazer o que sempre fizemos.
El País

A maldade como espetáculo em 2015

As decapitações do Estado Islâmico e o avião lançado sobre os Alpes consolidaram ideia. 

Terrorismo,Tunis,Estado Islâmico,Isis,Blog do Mesquita

O Estado Islâmico atacou o Hotel Riu Imperial de Tunis no dia 28 de junho. O atentado deixou 40 mortos, em sua maioria turistas britânicos.
Foto de Kenzo Tribouillard AFP

A ideia do “mal absoluto”, como acontece com quase tudo aquilo que é absoluto, costuma ter um pano-de-fundo teológico. Mesmo quando utilizado em contextos aparentemente profanos, como, por exemplo, para descrever a política de extermínio nazista.

Costuma se referir, frequentemente, à incompatibilidade entre o fato histórico e a existência de um deus bondoso, como uma espécie de demonstração antiteológica de que existe um princípio mal equivalente ou até mesmo superior ao “bem supremo”, ou uma divindade diabólica e abjeta.
Uma hipótese, certamente, nada desprezível.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

MAIS INFORMAÇÕES
A vida depois do Estado Islâmico
O que leva os jovens a se converter em islâmicos radicais sem alma?
O piloto do avião a Lubitz: “Pelo amor de Deus, abre essa maldita porta!”
Copiloto ocultou que estava em tratamento médico e tinha atestado

Também se falou em “mal absoluto” para se referir ao terrorismo, especialmente àquele que denominamos hoje em dia de “jihadista”, que deu este ano demonstrações terríveis —das decapitações filmadas de reféns pelo Estado Islâmico aos atentados de Paris— de sua capacidade de vileza, mesmo ano que viu a forma como o copiloto Andreas Lubitz lançou deliberadamente sobre os Alpes um avião com 150 passageiros a bordo.

Quando se fala em “absoluto”, o que se quer dizer é que a sua maldade não pode ser explicada ou entendida a partir das circunstâncias de seus protagonistas e que estes, diferentemente do que Jeanette cantava, não são “rebeldes por que o mundo os fez assim”, mas sim “rebeldes sem causa”, sem razão nem qualquer justificativa possível, como se se tratasse de algo inato ou surgido dos abismos da psicose, de uma maldade sem razão.

E foi essa figura da “maldade absoluta” —que culmina com o mito romântico do “lobo solitário”— que muitas vezes tomou conta das páginas dos jornais ao longo deste ano.

De um mal que era “relativo” por fundar suas raízes na história, parece termos passado a um mal que surge de repente

Há uma dupla razão para o sucesso alcançado por essa figura. Por um lado, ele tem a ver com o desaparecimento do chamado “equilíbrio do terror” que desde 1945 vinha garantindo a paz no Ocidente: de um mundo polarizado entre dois inimigos bem ajustados, apoiado, em suma, na lógica da guerra (fria), passamos a uma ordem na qual reina apenas uma potência militar capaz de empreender uma guerra em nível global, e os inimigos dessa potência já não podem ser adversários comparáveis a ela em termos de capacidade de ataque ou defesa, mas apenas rivais desiguais sem residência fixa que compensam a sua inferioridade combatendo de forma irregular, desleal, surpreendente e espetacular, incluindo a divulgação mundial de vídeos gore.

Daí a grande dificuldade de se chamar o combate a esses novos inimigos de “guerra”. Além disso, o fato de eles darem a suas ações a roupagem de um discurso religioso de uma cultura diferente da “nossa” aumenta aos nossos olhos a dimensão de alteridade (eles não são diferentes de nós por serem maus, são maus porque são diferentes).

E, por outro lado, a atratividade dessa imagem se deve à forma como se divulgam hoje em dia os seus impactos em termos de informação: eles chegam às telas não só imediatamente como também sem qualquer discurso, sem qualquer elaboração jornalística, como imagens do cinema mudo, desvinculadas de suas circunstâncias históricas, de seus contextos, de suas raízes concretas, o que consolida a sensação de um mal “sem causa nem razão”, que acumula em si todos os traços do “inumano”, enquanto aqueles que os combatem atribuem a si mesmos todos os direitos da humanidade.

Em suma, de um mal que era “relativo” por fundar suas raízes na história, parece termos passado a um mal que se introduz na história como que surgido de repente, como um raio, que causa enormes estragos e logo desaparece entre as nuvens.

O mal nunca é “absoluto” no sentido de vir de algum princípio cósmico obscuro ou infernal; a raiz da qual todos os males procedem é a liberdade

Essa imagem expressa muito bem o espírito do nosso tempo. Mas, até que ponto podemos realmente acreditar nela? Embora haja coisas tão más que gostaríamos de enfatizar o nosso desacordo com elas dizendo que são “absolutamente” más, nunca conseguimos fazer com que essa “condenação absoluta” de certas ações ou atitudes exclua seus autores do pertencimento à mesma condição humana da qual nós, testemunhas e vítimas, fazemos parte.

O mal nunca é “absoluto” no sentido de vir de algum princípio cósmico obscuro ou infernal; a raiz da qual todos os males procedem é a liberdade.

Justamente por isso, devemos desconfiar radicalmente de todos aqueles que nos prometem, qualquer que seja a versão da promessa dentre as várias existentes, acabar definitiva e absolutamente com o mal, porque isso só poderia ser feito à custa da extinção da liberdade no mundo inteiro.

O que não significa, é claro, que tenhamos de aceitar em silêncio as atrocidades, a começar pela barbárie que é o terrorismo.

A única coisa que devemos fazer enquanto as combatemos com todas as nossas forças é lembrar que os nossos inimigos são feitos da mesma matéria que a nossa, e que a mesquinharia que consiste em justificar o sofrimento alheio como um meio necessário para atingir as nossas finalidades não é um impulso estranho a nenhum dos corações dos membros da nossa espécie.
José Luis Pardo/El País

Terrorismo. FOREIGN FIGHTERS

Com efeito, é chamado de “foreign figter” o europeu, filho de segunda, terceira ou quarta geração de imigrante muçulmano. Aquele autoproclamado jihadista e que parte para outros continentes para se filiar a organizações terroristas.

Síria,Terrorismo,Blog do Mesquita EI,Estado Islâmico,ISIS


Segundo o Conselho da Europa, em 2013 mais de dois mil europeus, — foreign fighter– saíram para combater na Síria e em adesão ao Isis-Estado Islâmico.

Muitos dos “combatentes estrangeiros do jihadismo” retornam a fixar residência no país europeu. Voltam treinados em campo de batalha.

E são considerados como prontos para “missões” futuras na Europa, de onde são naturais e residem, como, por exemplo, aconteceu em Paris com Abdel Hamid Abaaoud, Salah Abdeslam (foragido e dado como tendo entrado na Síria, em território controlado pelo Isis).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Tais “ combatentes estrangeiros”, na volta à Europa, podem formar células terroristas dormentes ou transformarem-se em predicadores ou “lobos solitários”, nome dado aos atacantes por conta e risco próprios.

Segundo levantamentos, a arregimentação de um “foreign fighter” na Europa ocorre em (1) mesquitas radicais, (2) por contato com predicadores itinerantes do fundamentalismo islâmico radical ( o Isis é sunita-wahabita) e (3) em cárceres, com cooptação de presos de fé muçulmana com problemas familiares.

Os ultradireitistas da França, Inglaterra e Itália, pregam o fechamento de todas as mesquitas, ou seja, a punir os não radicais e colocar fim à liberdade religiosa.

Para os 007 da inteligência desses três países, seria um tiro no pé. Isto porque agentes de inteligência infiltrados nessas mesquitas de predicadores radicais e filo-Isis, perderiam preciosas fontes de coleta de informações.

Para os 007 da inteligência européia, a principal causa movente de um “foreign fighter” é a exclusão social.

O bairro periférico de Molembeek, em Bruxelas e de onde partiram os cabeças do ataque terrorista a Paris de 13 de novembro, é prova disso.

Pano rápido. O momento exige, no que toca ao problema do “foreign fighter”, melhor controle de trânsito de nacionais em portos, aeroportos e fronteiras.
Por Wálter Fanganiello Maierovitch