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Joseph Schumpeter; O homem que previu o fim do capitalismo e que ajuda a entender a economia de hoje

“O capitalismo pode sobreviver?”, se perguntou Joseph Schumpeter. “Não, acho que não”, foi a resposta dele.

Joseph Schumpeter nasceu em 1883 e morreu em 1950.
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A reflexão foi feita em uma de suas principais obras: Capitalismo, Socialismo e Democracia, de 1942.

O influente economista austríaco não acreditava na ditadura do proletariado nem na revolução de Karl Marx. Pelo contrário, ele rejeitava o que entendia como os elementos ideológicos da análise marxista.

Para ele, o que levaria ao fim do capitalismo seria o seu próprio sucesso. “Considero Schumpeter o analista mais aguçado do capitalismo que já existiu. Ele viu coisas que outras pessoas não viram”, disse Thomas K. McCraw, professor emérito da Escola de Negócios da Universidade de Harvard, ao Working Knowledge, o site da universidade.

Schumpeter “está para o capitalismo assim como Freud está para a psicologia: alguém cujas ideias se tornaram tão onipresentes e arraigadas que não podemos separar seus pensamentos fundamentais dos nossos”, disse o acadêmico.

A tragédia

Schumpeter nasceu em 1883 em uma cidade da República Tcheca, que na época fazia parte do império austro-húngaro.

Schumpeter falava diversos idiomas.
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Ele era filho único e perdeu o pai aos 4 anos de idade. Sua educação ficou a cargo de sua mãe e seu novo marido, que frequentavam a aristocracia local.

Embora estudasse direito, o tema que o atraiu foi a economia — Schumpeter se tornaria um dos melhores alunos da Escola Austríaca de Economia.

“Schumpeter era um excelente aluno, leitor incansável, tinha uma mente viva e curiosa, era um mestre em várias línguas”, escreveu Gabriel Tortella, professor emérito de História e Instituições Econômicas da Universidade de Alcalá, no artigo Um profeta da social-democracia, publicado na revista Book.

Ele tinha uma personalidade carismática, era mulherengo e amava cavalos. Viveu por um tempo na Inglaterra, onde teve um relacionamento com uma mulher 12 anos mais velha que ele.

Sylvia Nasar, em seu livro “Grande Busca: A história do Gênio Econômico, conta que se casou com o economista, mas que, com o tempo, ambos reconheceram que o casamento fora um erro. Em 1913, eles se separaram e anos depois se divorciaram oficialmente.

Schumpeter se casou novamente em 1925, desta vez com uma mulher muitos anos mais nova. Mas, um ano depois, uma tragédia abalaria sua vida: sua esposa morreu enquanto dava à luz seu filho, que também morreu pouco tempo depois. Nesse mesmo ano, ele ainda perderia a mãe.

Entre luxo e academia

Schumpeter morou em Viena após a Primeira Guerra Mundial e a queda do império austro-húngaro.

Schumpeter viveu a Primeira Guerra Mundial, que causou grandes estragos na Europa. Direito de imagem GETTY IMAGES

Schumpeter foi ministro da economia do governo socialista que governou a Áustria em 1919. Depois, morou em sete países, em alguns dos quais foi professor e trabalhou como banqueiro de investimentos, o que lhe permitiu fazer uma fortuna — que depois desapareceria.

Antes de seu segundo casamento, por algum tempo, Schumpeter levou uma vida de muitos luxos e parecia não se importar de ser visto em público com prostitutas, diz Nasar.

“Schumpeter era um acadêmico brilhante que fracassou retumbantemente como ministro das Finanças da Áustria”, escreveu Pearlstein, vencedor do prêmio Pulitzer, em uma resenha do livro de Nasar publicada no jornal americano The Washington Post.

O economista se estabeleceu nos Estados Unidos em 1932, onde lecionou na Universidade de Harvard pelo resto da vida. Em sua nova casa, diz Tortella, Schumpeter se apaixonou e se casou com uma historiadora de economia chamada Elizabeth Boody, 15 anos mais nova que ele.

Foi ela quem compilou e editou os textos dele sobre a história do pensamento econômico, publicados postumamente (ambos morreram antes da publicação do livro em 1954: ele em 1950 e ela em 1953) no monumental History of Economic Analysis (História da Análise Econômica, em inglês).

Schumpeter analisou a Grande Depressão dos anos 1930
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Destruição criativa

Durante a Grande Depressão da década de 1930, disse Thomas K. McCraw, “muitas pessoas inteligentes da época acreditavam que a tecnologia havia atingido seu limite, e que o capitalismo atingira seu auge “.

“Schumpeter acreditava exatamente no oposto e, é claro, estava certo”, afirmou McCraw, foi o autor do livro Profeta da Inovação: Joseph Schumpeter e Destruição Criadora.

O conceito de destruição criativa foi um dos que Schumpeter ajudou a popularizar. E, segundo Fernando López, professor de Pensamento Econômico da Universidade de Granada, essa ideia é uma espécie de darwinismo social.

“É a ideia de que o capitalismo destrói empresas não criativas e não competitivas”. “O processo de acumulação de capital continuamente os leva a competir entre si e a inovar e apenas os mais poderosos sobrevivem”.

Uma ansiedade constante

Essa dinâmica ideal do capitalismo significa que os empreendedores nunca podem relaxar. “Esta é uma lição extremamente difícil de aceitar, principalmente para pessoas de sucesso. Mas os negócios são um processo darwiniano e Schumpeter frequentemente o vincula à evolução”, afirmou McCraw.

Novos produtos aparecem constantemente para substituir os antigos, que se tornam obsoletos.

“É um processo contínuo de aprimoramento, e essa é a característica número um do capitalismo”, segundo Pep Ignasi Aguiló, professor de economia aplicada na Universidade das Ilhas Baleares, na Espanha.

A dinâmica dos negócios leva à “única maneira de sair da competição, que é muito dura, é através de tentativas de redução de custos, o que exige processos de inovação na produção ou através do desenvolvimento de novos produtos preferidos pelos consumidores em relação aos anteriores “, diz o doutor em Economia.

No entanto, as tentativas de redução de custos também podem levar a superexploração de trabalhadores, lobby para regulamentação e práticas nocivas para o ambiente — temas que muitas vezes são “esquecidos” quando se fala do assunto.

O fim do capitalismo e das meias femininas

Schumpeter usava dois exemplos para explicar suas teorias foi o das meias femininas.

Schumpeter explicava suas teorias dando como exemplos produtos como meias femininas – Direito de imagem GETTY IMAGES

No início do século 20, apenas mulheres da classe alta podiam comprá-las. Mas, após a Segunda Guerra Mundial, eles se tornaram mais acessíveis aos consumidores de diferentes grupos sociais.

“Tornar algo acessível a todos leva a mentalidade socialista a entrar gradualmente nos poros do sistema capitalista e desacelerar sua característica essencial, que é a competição entre produtores”, diz o professor.

O raciocínio do austríaco era que, ao “apaziguar a concorrência e acabar gerando igualdade no acesso aos produtos”, o capitalismo chegaria ao fim.

Schumpeter fixou um prazo para isso: o fim do século 20.

“Ele estava errado sobre isso. Acreditava que até então as condições de disseminação da produção em massa e de produtos entre toda a população fariam todas a pessoas viverem melhor do que o rei da França do século 18 e, portanto, o clamor pelo socialismo seria grande”.

Vítima de seu próprio sucesso

“A ideia era a de que o capitalismo leva à produção em massa, a produção em massa leva a uma riqueza extraordinária que se espalha por uma parte muito importante da população, o que aumentaria o desejo de igualdade”, explica Aguiló.

O automóvel, por exemplo, deixou de ser um produto que apenas uma elite poderia adquirir e passou a estar disponível para milhões de pessoas. “O preço cai, as quantidades aumentam, e isso acontece repetidas vezes com todos os produtos”, diz o professor.

Essa circulação em massa de produtos significa que os padrões de vida dos consumidores aumentam, que há uma “demanda por mais igualdade” e que isso acaba dificultando a essência do sistema: a concorrência”, explica Aguiló.

Questões como os problemas ambientais se tornaram mais evidente desde a época de Schumpeter
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“Esse grande sucesso da abundância compartilhada, ao alcance de todos, é o que levaria ao fim do capitalismo”.

No entanto, embora a riqueza seja mais bem distribuída em alguns países, o que se viu no mundo desde então foi o contrário: apesar de muitos produtos estarem acessíveis para grande parte da população, o que se vê é uma concentração cada vez maior da riqueza produzida.

Virtude e perigo

Seguindo a lógica de Schumpeter, a concorrência se tornaria, ao mesmo tempo, uma virtude e um problema para as empresas.

Segundo López, Schumpeter acreditava que “o processo de acumulação incessante de capital levaria, em algum momento, ao que Marx chamava de tendência decrescente da taxa de lucro”.

“O capitalismo é um sistema incomparável em termos produtivos, é um sistema que, no nível produtivo, eu uso Marx novamente, é o mais progressista da história, mas tem o problema de que a acumulação incessante de capital o leva a competir também incessantemente.”

“Essa competição força as empresas a estar em uma guerra constante para inovar, obter novos mercados, novos produtos. E aí mora o perigo”.

Harry Landreth e David C. Colander, em seu livro História do Pensamento Econômico, explicam que “enquanto Marx havia previsto que o declínio do capitalismo derivaria de suas contradições, Schumpeter especulou que seu fim seria produto do seu próprio sucesso”.

Sua ideia de uma sociedade socialista

Em seu trabalho Capitalismo, Socialismo e Democracia, Schumpeter imaginou o tipo de sociedade socialista que surgiria depois que o capitalismo perecesse.

Guillermo Rocafort, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Comunicação da Universidade Europeia, inclui o pensador austríaco no grupo de economistas pessimistas ou fatalistas, desiludidos com o capitalismo de sua época.

Enquanto Marx via uma luta de classes entre a burguesia e a classe trabalhadora, Schumpeter percebia uma grande tensão entre um grupo de empreendedores, aqueles que provocam “vendavais capitalistas que levam a um grande crescimento econômico” e outro composto de empreendedores “que implementam um capitalismo não tão pioneiro, mas calculista, mais conservador “, diz Rocafort.

Na sociedade imaginada por Schumpeter, a distribuição da riqueza seria mais justa ainda existiria mercado.

Seria uma sociedade em que o valor da igualdade estaria acima de tudo, segundo Aguiló, “o que levaria a um status quo que desacelera a inovação para e na qual, portanto, o peso do mercado na distribuição dos recursos é menor, e o peso do Estado aumenta.”

Landreth e Colander citam Schumpeter: “Os verdadeiros promotores do socialismo não foram os intelectuais ou agitadores que o pregaram, mas os Vanderbilts, Carnegies e Rockefellers (famílias ricas do início do século 20)”.

Ciclos econômicos

Rocafort explica que Schumpeter reforçou a teoria dos ciclos econômicos como forma de evolução do capitalismo.

“Como se fosse uma montanha-russa, subindo e descendo, (…)Schumpeter refere-se a ciclos econômicos que têm sua origem em inovações tecnológicas e financeiras. Elas causam momentos de grande boom, depois estabilização e depois uma depressão ou recessão”, diz o professor.

O especialista cita como exemplos a quebra da bolsa de 1929 e a crise financeira de 2008.

Schumpeter nos faz ver o capitalismo como “um processo histórico e econômico que não tem crescimento contínuo, o que seria desejável, mas um crescimento bastante volátil, e que, em última análise, tem consequências para a sociedade em termos de, por exemplo, desemprego”.

No século 21

“Vários economistas, incluindo Larry Summers e Brad DeLong, disseram que o século 21 será ‘o século Schumpeter’ e eu concordo”, disse McCraw.

Schumpeter e John Maynard Keynes (na foto) são considerados os principais economistas do século 20
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“O motivo disso é que a inovação e o empreendedorismo estão florescendo em todo o mundo de uma maneira sem precedentes, não apenas nos casos bem conhecidos da China e da Índia, mas em todos os lugares, exceto em áreas que tolamente continuam a rejeitar o capitalismo.”

“A destruição criativa pode acontecer em uma grande empresa inovadora (Toyota, GE, Microsoft), mas é muito mais provável que isso aconteça nas start-ups, especialmente agora que elas têm muito acesso ao capital de risco”, afirmou McCraw.

De fato, segundo o autor, Schumpeter foi um dos primeiros economistas a usar esse termo: ele o fez em um artigo que escreveu em 1943, no qual falava de capital de risco.

Os inovadores

Schumpeter, suas idéias e, acima de tudo, o conceito de destruição criativa ganharam uma importância especial nas últimas duas décadas.

“É essencial para entender nossa economia”, diz Aguiló. Essa competição de negócios nem sempre significa “dominar o mercado com um produto, mas com uma idéia, com um tipo ou modelo de negócios”.

Rocafort destaca que nessa destruição criativa, inovadores e empreendedores são os principais protagonistas.

Um exemplo é como a indústria de tecnologia e seus gigantes como Google e Microsoft ocuparam o espaço de um setor que nas décadas de 20, 30, 40 e 50 era um dos principais: a indústria automotiva.

“Se você observar o preço das ações, as empresas de tecnologia são as mais importantes e são todas americanas”, diz ele.

Hoje, muitos setores da sociedade pedem uma mudança no sistema econômico
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Um alerta

Por outro lado, especialistas como López pedem cautela na aplicação das idéias de Schumpeter para explicar a economia atual. “Não é conveniente usar categorias históricas porque são sociedades diferentes. As velhas teorias não funcionariam para nós “, diz ele.

Schumpeter é o produto de uma época e “seu capitalismo não é o capitalismo de hoje”, alerta.

A acumulação de capital era diferente e não tinha nem o alcance global nem o impacto ecológico de hoje. Segundo o professor, o sistema está atravessando barreiras que antes pareciam impensáveis: se um país se industrializa, o emprego aumenta, mas o meio ambiente se deteriora.

“Isso não estava na mente de Schumpeter, nem John Maynard Keynes. [Na época,] a industrialização era o elemento fundamental do desenvolvimento.”

Mas López reconhece que “aspectos parciais do trabalho de Schumpeter [como destruição criativa] podem nos ajudar a entender o sistema”.

Em transição?

Rocafort também concorda que o trabalho de Schumpeter é sua visão pessoal da realidade em que ele viveu. “Agora temos um contexto macroeconômico que não existia na época: paraísos fiscais, fundos de investimento especulativos, endividamento excessivo das nações”, explica.

No entanto, ele esclarece que dada a situação de incerteza que enfrentamos diante da economia mundial, faz sentido procurar explicações nos grandes clássicos da economia. “É preciso tentar ver o que se aplica de cada teórico, porque não pode haver ortodoxia ou dogmatismo na economia. Nós idolatramos Keynes e o resultado, como vimos nos últimos 15 anos, está sendo um fracasso”, diz Rocafort.

O economista acredita que Schumpeter e suas ideias como “ciclos econômicos e destruição criativa” podem ajudar a esclarecer alguns pontos do momento que vivemos. “Talvez o modelo econômico atual esteja esgotado e estejamos precisando de novas inovações tecnológicas e financeiras”.

“Ele fala de destruição criativa como aquele novo ciclo causado por um grande desenvolvimento tecnológico. Talvez um ciclo esteja colidindo com outro, como placas tectônicas”, reflete.

Pressão da concorrência e expectativa do consumidor ameaçam gigantes da tecnologia

Inovação deixou de ser diferencial para se tornar obrigação de qualquer negócio que pretenda sobreviver. A zona de conforto virou espaço proibido até para a maior e mais tradicional das companhias

 | Divulgação

“Vivemos a quarta Revolução Industrial e quem não entender a inovação como uma necessidade diária vai abrir caminho aos que fizerem isso”. A defesa é de Claudio Carvajal Júnior, coordenador do curso de Administração e Gestão da Tecnologia da Informação da Faculdade de Informática e Administração Paulista (FIAP).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Ele lembra que o tempo da inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, impressão 3D, internet das coisas, realidade aumentada e machine learning não sóchegou, como se consolidou e trouxe consigo novos modelos de negócios.

A expectativa do consumidor impulsiona o lançamento de soluções transformadoras. E o aumento da qualificação dos concorrentes – que, em pouco tempo, torna o novo defasado – não dão chances à acomodação. “Nem a maior das organizações está imune aos efeitos da concorrência, ou pode visitar a zona de conforto se quiser continuar competitiva”, pontua Carvajal.

Veja exemplos de empresas que, diante de alterações de cenários, mudaram a estratégia de atuação ou, ao esperarem demais para isso, amargaram algumas crises.

Netflix

Desafio enfrentado – Em 1997, o Netflix iniciou as operações como um serviço online de locação de filmes. Dois anos depois, lançou um plano de assinatura em que os títulos que o cliente queria assistir em casa chegava por correio mensalmente e, ao devolvê-los, outros eram enviados. Em 2002, a companhia já tinha 600 mil assinantes e um catálogo de 11,5 mil títulos. Ao perceber alterações no comportamento do consumidor, lançou em 2007 o serviço de streaming – quando a transmissão de dados acontece de forma instantânea por meio de redes.

Solução encontrada – De 2008 a 2010, a empresa firmou parcerias com fabricantes de eletrônicos para que os filmes que disponibilizava fossem transmitidos em TVs, mas também em tabletes, computadores, videogames e smartphones. Há seis anos, enquanto a rede de locação Blockbuster pedia falência nos Estados Unidos, o Netflix ganhava o mundo. Em 2011 chegou ao Brasil e em 2013 iniciou a produção de séries e conteúdos originais, entre eles, sucessos de audiência como House of Cards e Orange is the New Black. Pelo custo atual equivalente a R$ 17,90 ou R$ 26,90 por mês, 81,5 milhões de assinantes distribuídos em todo o mundo aproveitam a tecnologia.

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Positivo Informática

Desafio enfrentado – Em 2010, a empresa viu seu lucro líquido despencar 74,1% no terceiro trimestre do ano, em relação ao mesmo período de 2009. Na época, a queda nas vendas dos computadores da companhia foi motivada, em parte pelo aumento da concorrência, em parte pelo barateamento de aparelhos importados. Depois, os resultados continuaram caindo. No quarto trimestre do ano passado, a receita da empresa reduziu 19,7%. A retração econômica, o aumento das vendas promocionais de computadores e tabletes decorrentes do excesso de estoque, além da permanente concorrência com a importação estão entre os desafios principais. A dificuldade acompanha um cenário global. Segundo a consultoria IDC, 2015 foi o pior ano da história para a indústria de computadores. No mundo, o índice de vendas caiu 10,4% e, no Brasil, 37%.

Solução encontrada – Há seis anos, a organização trabalha para diversificar atividades. Em 2010, expandiu as operações para a Argentina em busca de maior ocupação geográfica. Em 2012, apostou no ramo dos celulares. No segundo trimestre deste ano, viu suas receitas na área mais que dobrarem, chegando a R$ 164,4 milhões. A boa aceitação pelos oito modelos de smartphones da marca representou 78% da receita da categoria. Eles são distribuídos em onze mil pontos de vendas por todo o país.

De acordo com Mauricio Roorda, vice-presidente de Marketing e Produto na Positivo Informática, parte do bom resultado se deve à parceria com a Quantum, uma unidade de negócios que funciona dentro da Positivo, mas com autonomia e equipe própria. “Os aparelhos da marca têm maior valor agregado e excelente desempenho”, diz.

Ele também conta que uma parceria firmada com a VAIO no ano passado para produzir e comercializar computadores da marca no Brasil e a fabricação de aparelhos na África para um projeto de educação em Ruanda, em conjunto com a BGH, também devem trazer bons resultados. “Em abril deste ano, ainda entramos para a área de tecnologia aplicada à saúde”, lembra Roorda. A Positivo comprou 50% da startup curitibana Hi Technologies (HiT), que desenvolve soluções para monitoramento remoto de pacientes.

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Apple

Desafio enfrentado – O tempo áureo dos celulares da Apple pode estar chegando ao fim. Pelo menos, é o que sugerem números da companhia. No Brasil, no primeiro trimestre deste ano, as vendas de IPhones caíram 40% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram comercializadas 489 mil unidades. É a segunda forte retração trimestral. Segundo dados da consultoria Gartner, a condição foi sentida por quase todos os fabricantes de celulares. Juntos, eles venderam 25% a menos do que nos três primeiros meses do ano passado. O problema para a Apple foi que ela perdeu mais que a média. Sua queda só foi menor que a da LG, cujas vendas desabaram 58,4%. Por outro lado, as vendas da sul-coreana Samsung, concorrente direta da empresa, caíram apenas 15%. Globalmente, os resultados também não foram positivos. A comercialização de IPhones diminuiu 16% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. A falta de um lançamento realmente original e com alto valor agregado pelo ineditismo, é o que vem tornando o cenário difícil para a gigante.

Solução encontrada – Na busca por seguir faturando, a empresa declarou algumas vezes a intenção de apostar em realidade aumentada – quando informações do mundo real são exibidas em telas de aparelhos, como smartphones – e inteligência artificial. Apesar dos anúncios, nenhuma divulgação mais transparente das soluções foi feita até agora, o que motiva críticas e até dúvidas sobre a existência de estratégias reais. Por enquanto, a Apple contorna críticas que sugerem que ela possa ser ultrapassada por empresas como Amazon, Google e Facebook e jura trabalhar duro para não perder a “majestade”.

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Nokia

Desafio enfrentado – A Nokia chegou a ser líder global em celulares, mas foi ultrapassada por concorrentes como Apple e Samsung. Em 2007, quando o IPhone chegou ao mercado, ela detinha metade do mercado mundial de smartphones. Seis anos depois, o índice caiu para 3%. A empresa chegou ter valor de mercado de 200 bilhões de euros, mas, por não conseguir se adaptar à rápida ascensão dos smartphones, vendeu em 2013 suas operações de celulares à Microsoft por US$ 7,2 bilhões.

Solução encontrada – Em 2015, a Nokia renovou a estratégia de atuação ao entrar no ramo de fabricação de equipamentos para redes telecomunicações de operadoras globais como Deutsche Telekom e a China Mobile. Em maio deste ano, deu outra reviravolta e anunciou o retorno ao mercado de smartphones e tablets. Ela disponibilizou seus direitos e patentes à finlandesa HMD Global, que vai assumir a tarefa de criar as novidades e reconquistar o mercado.

/ra/pequena/Pub/GP/p4/2016/09/07/Economia/Imagens/Vivo/12197297.jpggs/pr/Guy Solimano

Kodak

Desafio enfrentado – Fundada em 1888 e criadora do filme fotográfico, a empresa não conseguiu acompanhar a transição do mercado para as máquinas digitais. Em 2012, pediu concordata e fez um empréstimo de US$ 950 milhões. Executivos que trabalharam na companhia chegaram a dizer que imaginaram um período de dez anos para que a transição para a realidade digital acontecesse. Mas ela veio em menos tempo. A Kodak chegou a investir no segmento de impressoras, só que a estratégia não compensou do ponto de vista econômico.

Solução encontrada – Em 2013, a Kodak anunciou sua saída da concordata e a conclusão do processo de reestruturação pelo qual passou. No ano passado, lançou na Europa e nos Estados Unidos o primeiro smartphone, feito em parceria com a inglesa Bullit. A Kodak Alaris, criada após a aquisição da marca pelo grupo inglês KPP, identificou que a produção de scanners e softwares para o mercado corporativo poderia ser um bom negócio. E a estratégia vem mantendo a sobrevivência da empresa, que continua na ativa, mas ainda longe de aproveitar a relevância de antigamente.
Com dados da GazetadoPovo/Claudia Guadagnin

Como a pobre Brejo Santo, no Ceará, construiu as melhores escolas públicas do Brasil

Cidade desafia todos os estereótipos e teorias pedagógicas para conquistar o maior Ideb nacional.

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Escola em Brejo Santo, no Ceará. Foto Ana Carolina Cortez.

Sob um sol forte e um calor de mais de 30 graus, começam a descer das vans escolares, às 7 horas da manhã, os alunos da escola de ensino fundamental Maria Leite de Araújo, na zona rural de Brejo Santo, cidade a 70 quilômetros de Juazeiro do Norte, no Ceará, e a mais de 500 km da capital do Estado, Fortaleza.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O verde das paredes da escola, uma construção simples de tijolos, contrasta com a paisagem ao redor, dominada pelo marrom das estradas de terra, pelo amarelo das plantações acostumadas à escassez de chuva e pela magreza do gado, castigado pela seca.

A escola tem somente cinco salas e 180 alunos, dos quais mais de 90% dependem de programas sociais do Governo, como o Bolsa Família. A renda per capita da região não passa de 350 reais mensais (contra pouco mais de 1.000 reais no Brasil), dinheiro que vem principalmente da agricultura familiar. Com essas características, que são bastante comuns na rede de ensino de um Brasil tão desigual, a escola Maria Leite desafia todos os estereótipos e teorias pedagógicas de um colégio modelo: é a melhor instituição pública de ensino fundamental do país.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), apurado pelo Ministério da Educação (MEC), é quem constata o fato. A escola Maria Leite de Araújo possui a maior nota do Brasil, 9,6, para o primeiro ciclo do fundamental. A média para o país, inclusive, é quase a metade (5,2). O indicador mede o desempenho em português e matemática dos alunos da rede pública.

O segredo para tal desempenho, segundo a secretária municipal de Educação, Ana Jacqueline Braga, não se esconde em uma fórmula mágica mirabolante. “Não é preciso muito dinheiro. Basta fazer um feijão com arroz bem feito. Se tiver recurso sobrando, faz também um bifinho à milanesa, claro. Mas é o básico que precisa ser feito primeiro”, conta. A secretária foi percebendo os desafios educacionais do município durante seus mais de 20 anos de experiência como professora da rede.

Um exemplo do “básico” que precisava ser feito parece um reles detalhe, mas fez toda a diferença num município predominantemente pobre. Desde 2009, as crianças tomam um café da manhã quando chegam para assistir às aulas, uma medida fundamental quando grande parte delas tem na escola a principal fonte de alimentação (às vezes, a única). Além dessa refeição, contam com um almoço bem reforçado no recreio. A matéria-prima vem dos agricultores familiares do município, uma iniciativa que garante a qualidade das frutas e verduras no prato das crianças e movimenta a economia local.

Outra iniciativa importante para elevar a qualidade de ensino do município foi o acompanhamento pedagógico constante dos alunos. Antes de todo ano letivo, cada criança é avaliada por suas competências. Aquelas que não aprenderam o conteúdo esperado, assistem a aulas de reforço fora do horário no qual foram matriculadas. Ao longo de todo o ano, as crianças também são acompanhadas por coordenadores pedagógicos. Quando têm dificuldades em alguma disciplina, os professores são orientados sobre como trabalhar com aquela criança para nivelá-la em relação àquilo que é esperado da turma.

A guinada na qualidade do ensino de Brejo Santo, com cerca de 45 mil habitantes, não é um caso isolado do Ceará. Foi durante o governo de Cid Gomes, entre 2007 e 2014, que o Estado começou a implantar um projeto educacional para todos os municípios da região, com destaque para o Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic). Em 2007, 39% das crianças entre 7 e 8 anos saíam dos primeiros anos do ensino fundamental sem saber ler nem escrever, percentual de analfabetismo que caiu para 6% em 2014. Foram iniciativas como acompanhamento pedagógico de professores e de alunos e meritocracia, como as feitas em Brejo Santo, que o Estado viu o seu Ideb evoluir de 3,5 para 5,2 nos estágios iniciais do ensino fundamental em menos de sete anos. O projeto educacional do Estado, contudo, foi inspirado em uma experiência na cidade natal da família Gomes, Sobral.

No caso da cidade visitada pelo EL PAÍS, os 921 professores da rede municipal fazem treinamentos semanais na secretaria de Educação, como parte de um programa de educação continuada do município. O piso salarial é superior ao nacional, que hoje soma 2.135 reais. Os magistrados também recebem bônus de final de ano, um 14 salário que acompanha o desempenho da sua escola no Ideb e no Spaece, prova que mede o conhecimento dos alunos no Estado do Ceará. “Quem faz acontecer, na verdade, é o professor. Então a sua profissão deve ser valorizada”, explica Jacqueline.

Nos últimos anos, a rede toda foi reformulada, e a maior parte das 42 escolas de ensino básico foram segregadas por séries. Algumas escolas oferecem matrículas do ensino infantil, outras do primeiro ao quinto ano do fundamental e, outras, do sexto ao nono. Diferentemente da tentativa de reorganização escolar aplicada no Estado de São Paulo, as crianças que foram transferidas contam com transporte escolar e, ainda que tudo seja muito perto na zona urbana da interiorana Brejo Santo, não precisam se preocupar com a distância entre o novo colégio e as suas casas. Na zona rural, onde as distâncias são de fato um problema, as escolas costumam oferecer vaga para todos níveis de ensino. Mesmo assim, o transporte escolar é obrigatório.

Antes de 2009, o ensino em Brejo Santo era multisseriado, ou seja, na mesma sala de aula encontravam-se alunos de séries diferentes. O modelo, que funciona bem na Escola da Ponte, em Portugal, parece não se adaptar a Brejo Santo. “Modelos muito construtivistas são ótimos quando os alunos têm boa estrutura familiar, conhecimentos prévios para serem trabalhados. As crianças aqui não vivem essa realidade e eu não posso simplesmente ignorá-las, nem esperar que elas estejam preparadas para as pedagogias modernas”, defende Jacqueline.

Dados comprovam a evolução do município após a reestruturação, rede de ensino que já esteve entre as piores do país. O Ideb médio de Brejo Santo passou de 3 em 2007 para 7,2 em 2013. Há alguns anos, a evasão escolar era uma das maiores do Brasil e, o número de matrículas, baixo. Atualmente, 99% dos alunos em idade escolar estão, de fato, na escola, o que corresponde a 12.325 estudantes. Tudo o que foi conquistado pela cidade, contudo, provém de poucos recursos. Além dos repasses do Fundeb, fundo de educação básica distribuído pelo Governo federal para todos os municípios do país, Brejo Santo aplica no segmento 27,5% de suas receitas com tributos, pouco mais de 13 milhões de reais por ano. A cidade conta com cerca de 47 mil habitantes, dos quais 11 mil dependem de bolsas assistenciais do Governo.

Sucesso na simplicidade

Diferentemente de uma escola de primeiro mundo, os estudantes da zona rural de Brejo Santo não têm muito contato com as novas tecnologias. Nunca viram um drone, não desenvolvem robôs em sala, não aprendem com o auxílio de tablets e, antes de 2014, nem tinham acesso à internet. De acordo com Maria das Graças Bezerra, diretora da escola Maria Leite, nada disso faz falta para o processo de aprendizagem de seus alunos. “Fazemos tudo de forma muito simples, e o simples dá trabalho”, afirma. Para a diretora, o foco da escola não é trabalhar a tecnologia, mas sim o conhecimento e a leitura. “Quem interpreta bem um texto consegue interpretar bem e executar bem qualquer coisa”, complementa. No intervalo, todos os dias os alunos vão para debaixo da sombra de um grande juazeiro que fica no pátio da escola. Em roda, contam histórias e interpretam contos com fantoches.

A diretora também “pega no pé” dos alunos no quesito frequência escolar. Cada falta deve ser justificada pelos pais e se necessário vai na casa dos alunos entender o que está acontecendo. Maria das Graças acredita que a frequência escolar também sofreu uma influência positiva do Bolsa Família. “Esse programa fez muita diferença para as famílias da região. Hoje não vemos mais alunos desmaiarem de fome. Eles vêm mais arrumadinhos, têm material para estudar. Vem com mais autoestima”, complementa.

O pecuarista Jaílson Cosmo, de 46 anos, é um dos beneficiário do programa na região. Somando o auxílio do Governo, a renda da família, composta por cinco pessoas, chega a 1.000 reais por mês. Seus três filhos, os gêmeos Jeferson e Jardel, de 9 anos, e Cícera, de 14 anos, estão matriculados na E.E.F. Maria Leite de Araújo, “a melhor escola do país”, como se orgulha em dizer. Ele, que vende leite e gado para abate, largou os estudos na terceira série do fundamental. “A escola era muito longe, eu tinha que caminhar 6 quilômetros por dia. Também precisava trabalhar para ter o que comer”, conta. “Quero que meus filhos tenham um futuro melhor, quero que aprendam, que estudem muito. Eles que vão escolher o que querem ser. Se quiserem ser agricultores, como eu, tudo bem. Mas se quiserem ser outra coisa, terão essa opção”, complementa.

Quando foi entrevistado, o pai estava de passagem na escola. Tinha visitado um amigo ali perto e resolveu “dar uma olhadinha nos meninos”. A cobrança de Jaílson é constante e, ainda que não consiga mais acompanhar a lição de casa dos filhos, que já passaram da série na qual ele parou de estudar, pede para a filha mais velha “checar os cadernos” dos irmãos mais novos, para “saber se fizeram tudo direito”, explica. Outra “ferramenta” que auxilia Jaílson na cobrança é a memória fotográfica. “Sei se eles escreveram no caderno porque guardei a última página”.

De volta à escola

A presença dos pais na vida escolar dos filhos é fundamental, na opinião de Maria Auxiliadora Moura, diretora da Nobilino Alves de Araújo, outra escola rural de Brejo Santo com um Ideb invejável (9,2). “Educação de qualidade é um processo e depende da dedicação da equipe, da construção de um ambiente favorável ao aprendizado e do envolvimento ativo da comunidade”, afirma.

Para engajar os alunos, a escola promove diversas competições, que vão desde “olimpíadas” de matemática, concursos de redação e até gincanas de astronomia. Em maio, por exemplo, o professor de física da escola inspirou os alunos a construírem um foguete de material reciclado. Ganhava o grupo que desenvolveu o foguete que voava mais alto.

A instituição tem salas de ensino infantil à EJA (Educação de Jovens e Adultos), pois é a única do bairro onde atua. Ainda que esteja situada na zona rural, Nobilino está no meio de uma região industrial em Brejo Santo, perto de fábricas de tijolos e até das obras da ferrovia Transnordestina, projeto que vai ligar o Porto de Pecém (CE), o Porto de Suape (PE) e o município de Eliseu Martins (PI) em uma rota de produção mineral.

Aproveitando a demanda dessas empresas por funcionários locais, a escola buscou fazer parcerias com elas, para diminuir a evasão dos alunos da EJA e atrair mais adultos para concluírem os estudos. “Deu super certo, pois eram companhias que pediam diploma de ensino fundamental para contratação”, diz.

Programa de inclusão

Outro projeto de inclusão que as “escolas-modelo” de Brejo Santo vem implementando é o de crianças com necessidades especiais. A cidade, que recebe cada vez mais visitas de educadores e pesquisadores de todo o país, interessados em entender o que tornou o município um case de sucesso educacional, faz um acompanhamento pedagógico e clínico desses alunos com frequência. Na escola municipal Padre Pedro Inácio Ribeiro, que fica na zona urbana, no centro, a figura do “cuidador” existe há alguns anos. O profissional ajuda o professor titular no aprendizado dos alunos com deficiência, para que toda a sala receba atenção por igual. Também existe um professor, formado em psicologia, em cada turno escolar. Fora do período em que o aluno está matriculado, o psicólogo “dá aulas” que desenvolvem as habilidade motoras e cognitivas da criança com deficiência.

Ariela, de 10 anos, é um exemplo de aluna que conseguiu melhorar seu desempenho com a ajuda desses profissionais. A estudante do 4 ano do fundamental, possui uma doença degenerativa e quase não enxerga mais. Ainda assim, foi a primeira de sua turma a se alfabetizar, ainda no primeiro ano. Também é uma das primeiras da classe em matemática. “Estamos lhe ensinando a ler em braile, agora”, conta a diretora Caline Araújo. Ariela já sabe o que quer ser quando crescer: médica. Para a gestora, integração é um dos pilares que fazem de Brejo Santo uma “cidade educadora”. “Os estudantes querem se sentir protagonistas do aprendizado. Demandam mais aulas interativas, gostam de aprender juntos, de desenvolver atividades em equipe. Dar aula só com lousa e giz não funciona”, defende.

A diretora Ivonete Moemia, da escola Maria Heraclides Lucena Miranda, concorda. “Primamos muito por aulas ao ar livre, pela formação cidadã. Oferecemos atividades culturais depois do turno, como aulas de música, saraus, projetos de literatura. Tudo isso é muito importante, ainda mais em uma região de extrema vulnerabilidade social como a nossa”, diz.

As transformações pelas quais Brejo Santo vem passando também envolvem grandes obras de infraestrutura. Além da Transnordestina, a Transposição do Rio São Francisco há dez anos promete melhorar o abastecimento de água do município. O projeto prevê a construção de represas para as comunidades rurais do Ceará, incluindo os município vizinhos de Penaforte, Jati e Mauriti.

Um dos reservatórios está em construção a menos de dois quilômetros de distância da E.E.F. Maria Leite de Araújo. Há dois anos, quando o consórcio responsável pela obra começou a extrair argila vermelha de três jazidas da região, o bônus e o ônus do “progresso” se tornou visível até nas paredes da escola. Os efeitos do tremor das dinamites levou a secretaria de educação a ter de reparar algumas rachaduras da construção. Também teve de levantar um muro ao redor da escola, para proteger as crianças do tráfego intenso de caminhões que passam em frente, carregando toneladas de argila para as obras. As próprias estradas acabam sendo reparadas pelo consórcio constantemente, já que não foram feitas para suportar o peso das carretas.

Por outro lado, as obras geraram emprego para muitos dos moradores da cidade – e até de municípios próximos, em Pernambuco. Junto com os trabalhadores migrantes, vieram os “filhos de Francisco”, procurando vaga nas escolas rurais de Brejo Santo.

A previsão é que tudo acabe em 2017, mas as consequências da Transposição prometem durar mais. A expectativa é que as famílias possam usufruir da reserva para plantação e para o gado. Atualmente, a água utilizada para essas finalidades vêm de poços artesianos.
Ana Carolina Cortez/ElPais

Escola rural gaúcha fisga jovens do campo com ensino tecnológico

Acordar bem cedo até nos fins de semana e nos dias de inverno mais rigoroso para dar água e alimentar os animais da fazenda, uma rotina bastante comum para os habitantes da zona rural de Viamão, região metropolitana do Rio Grande do Sul, pode estar com os dias contados, se depender da criatividade dos alunos da escola municipal Zeferino Lopes.
Alunos explicam como funcionará o cocho eletrônico que estão desenvolvendo

Com apenas 15 e 17 anos, os estudantes Victor Matheus, Richard Diovani e Matheus Maica, no 9º ano, desenvolveram dentro da sala de aula o protótipo de dois cochos automáticos, um para água e outro para alimentos, que prometem se encarregar dessas tarefas matinais. Os três moram em sítios com criação de animais e ajudam a família nos trabalhos diários do campo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Os animais têm horário certo para comer e às vezes a gente gostaria de dormir até mais tarde no domingo”, brinca Victor, o mais velho do grupo. A motivação para o invento dos jovens, contudo, transcende a reivindicação de mais tempo para descansar. “O cocho poderia servir, também, como um sistema de estoque em épocas de secas”, complementa.

Os alunos ainda trabalham na conclusão do protótipo de ração. Para construi-lo, já projetaram o motor para a tampa automática e construíram a estrutura de madeira do cocho. Falta, agora, programar. Isso eles começarão a fazer na aula de robótica, guiada por um professor especialista em computação, fruto de parceria com a Fundação Telefônica.

Na Zeferino Lopes, todos os alunos, desde o primeiro ano, desenvolvem projetos como o desses meninos. A proposta pedagógica da escola, que foi considerada uma das mais inovadoras do país pelo Ministério da Educação, incorpora o uso de pesquisa e tecnologia ao currículo básico no desenvolvimento de soluções para os problemas do dia a dia.

Nem tudo, entretanto, tem correlação com a vida no campo. Victor e Richard, por exemplo, não imaginam permanecer em Viamão. Querem fazer faculdade em Porto Alegre ou Canoas. “Mas, quem sabe um dia, eu trabalhe com tecnologia”, cogita Victor. “O aprendizado extrapola a realidade da comunidade, pois o ensino direcionado para projeto estimula a criatividade dos alunos e permite que eles vislumbrem possibilidades de carreira articuladas com tecnologia, seja no campo ou fora dele.

O nosso objetivo é incentivar um aprendizado mais autônomo e pautado na própria curiosidade e interesse de cada aluno”, explica a coordenadora da escola, Cristina de Faria.

No ano letivo, os alunos geralmente fazem três “saídas disparadoras”, passeios fora da escola – e até do município – para levantarem perguntas para as quais buscarão descobrir as respostas. A primeira rodada de 2016, por exemplo, foi composta de passeios por fazendas e fábricas de arroz, principal cultivo de Viamão. Dali partiram diversas engenhocas dos alunos. Uma delas, elaborada por crianças de 7 a 9 anos, eliminava ervas daninhas na plantação.

Mas diversas rodadas já foram feitas desde o começo de 2015, quando o projeto pedagógico da escola foi reformulado. Delas, partiram perguntas como “por que o avião voa se ele é tão pesado?”, “como as flores conseguem nascer sem serem plantadas pelo homem?”, “como o leite se forma dentro da vaca?”, “como o carrinho de bate-bate se movimenta?”, “para onde vai o lixo da praia?”.

Cada pergunta gera uma pesquisa. As aulas de pesquisa ocorrem duas vezes por semana, dias em que os alunos ficam na escola em tempo integral. As consultas são geralmente feitas na internet, pelos tablets e netbooks que cada criança recebeu, doados à escola por meio de parcerias entre o setor privado e o governo.

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Alunos do 2º e 3º anos mostram suas engenhocas inspiradas no parque de diversões. Cada grupo estuda o funcionamento de um brinquedo. Foto Eduardo Tavares

De cada projeto, nascem protótipos, que podem ser de papelão e materiais diversos até robôs de lego, programados nas aulas de robótica. “Essa rede recolhe o lixo do rio”, explica Alan Lima, de 10 anos, mostrando orgulhosamente o barco de garrafa pet e isopor que seu grupo está construindo para resolver o problema da poluição das águas. Com pouco mais de um metro de altura, ele já fala com a propriedade de um engenheiro ambiental sobre os estragos que faz em todo o ecossistema o lixo que as pessoas jogam irresponsavelmente na praia.

A dúvida que o grupo enfrenta no momento é em que parte da engenhoca vão acoplar a haste da rede na “lixeira sustentável do mar”, como o barco foi batizado, pois ainda são jovens demais para aulas de física. De qualquer jeito, a intuição resolve o conhecimento técnico que ainda não adquiriram. “Pensamos em colocar aqui mais no meio… assim o barco não pesa na frente e não afunda”. Ainda será desenvolvida a hélice, de garrafa, que será responsável pela movimentação do barco na água.

Na mesa ao lado, outro grupo de crianças replica em um robô de lego, a coluna vertebral de uma chita. “É um dos animais mais velozes do mundo”, conforme explica João Vitor, de 10 anos. “Ela pode alcançar mais de 110 quilômetros por hora. Ela é tão rápida que suas vértebras funcionam como uma corrente e a pata tem a função de um amortecedor”, complementa o colega de grupo, Luis Miguel, de 11 anos. Como os meninos descobriram este animal típico da savana africana? Na internet. A paixão por animais direciona as pesquisas online há algum tempo. Antes da chita, reproduziram um tigre dente de sabre.

A professora Márcia Kist explica que são os próprios alunos que sugerem os passeios e os temas de pesquisa. “A ideia do projeto pedagógico é partir da curiosidade dos alunos e de seus conhecimentos prévios para construir conceitos novos”, conta. O método permite que professores e alunos aprendam juntos. “Descobrimos muita coisa em conjunto, pois nós, professores, não sabemos tudo de todas as áreas. E os alunos não se importam. Eles gostam de pesquisar com a gente, de nos ensinar a mexer até nos tablets”, diz.

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João Vitor, 10 anos (superior à esquerda) e Luis Miguel, 11 anos (inferior à esquerda) programam coluna vertebral de uma chita, com lego. Foto Eduardo Tavares

A comunidade também participa dos projetos. Algumas rodadas atrás, um pai trouxe um cavalo para a escola para que os alunos pudessem aprofundar seus conhecimentos sobre o tema do trimestre: os artefatos farroupilhos, ideia que partiu de um passeio ao museu. No final do ano, alunos apresentam seus trabalhos para a comunidade e, aqueles mais votados, ganham um prêmio simbólico.

Desinibidos e bem articulados, os estudantes mostram suas engenhocas, montam slides em power point e até desenvolvem sites para exibir as fotos que tiram dos tablets e celulares dos passeios e de seus protótipos. No ano passado, o destaque da mostra foi o cocho automático para água do pasto.

Em Viamão, oito escolas fazem parte de um projeto de inovação na cidade, tanto na zona rural quanto na urbana. O município, que soma pouco mais de 250 mil habitantes, conta com 61 escolas, 24.600 alunos e 1.380 professores. Ainda que faça parte da região metropolitana do Estado, a maior extensão territorial do município é destinada à agricultura e pecuária, uma paisagem que mescla o vermelho das estradas de terra ao verde das plantações. A população, contudo, é predominantemente urbana.

Há 20 quilômetros da Zeferino Lopes, por exemplo, se localiza outra escola inovadora do município, a Frei Pacífico. Com paredes de pedra e telhado de grama, o lema da instituição é trabalhar a sustentabilidade com os alunos. “Inovação não se limita apenas ao uso de tecnologia em sala de aula, mas também em método de ensino.

O objetivo é permitir a construção de um conhecimento que os jovens possam levar para além da sala de aula, pata que eles aprendam com um pouco mais de autonomia e criatividade”, explica a secretária de Educação de Viamão, Márcia Culau. No ano passado, o município escolheu oito escolas-piloto para um projeto de inovação, munindo os professores e os alunos com computadores móveis. “O computador é um dos milhares de recursos disponíveis para inovar e as crianças hoje o utilizam de forma bastante natural”, complementa.

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Alunos fazem pesquisa na internet para dar continuidade ao projeto. Foto Eduardo Tavares

Ainda que não seja a meta do projeto de inovação, Juliano Bittencourt, consultor técnico do projeto, sócio da Hardfun Studios, acredita que a tecnologia contribui para reduzir a migração dos jovens para a cidade. “À medida que trabalhamos a alta tecnologia no campo, desfazemos um pouco aquela imagem de atraso da zona rural.

A ideia do projeto é empoderar essas crianças para que elas façam o futuro que quiserem, independentemente de onde”, afirma. Para ele, o método de ensino da Zeferino subverte o funcionamento de uma escola tradicional. “No lugar de ensinar para as crianças um monte de conteúdo que elas não precisam, deixamos que elas tragam um conhecimento prévio, que sejam guiadas pela curiosidade, para desenvolver um aprendizado mais condizente com suas realidades”, complementa.

E isso não vale apenas para a vida no campo. “Por meio dos protótipos, por exemplo, os alunos conseguem compreender melhor conceitos abstratos, como matemática, além de desenvolver mais autonomia na construção do conhecimento”, diz.
Por Ana Carolina Cortez

Neo, um robô que dá aula de idiomas para crianças imigrantes

Segundo pesquisadores alemães, os pequenos aprendem melhor e mais rápido com o androide

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Menino tenta se comunicar com o robô Neo.
Foto Universidade de Bielefeld

Neo, um simpático robô que mede apenas 60 centímetros, pode ver, ouvir e se mover sozinho e, graças ao trabalho de um pequeno grupo de pesquisadores da Universidade de Bielefeld, o pequeno androide está perto de se tornar um professor bem sucedido que poderá ensinar o idioma alemão a dezenas de milhares de crianças imigrantes que chegaram ao país no último ano.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Confrontados com a realidade e as estatísticas – uma em cada três crianças menores de cinco anos na Alemanha são imigrantes –, a equipe liderada pelo professor Stefan Kopp iniciou o projeto L2TOR, que tem um objetivo invejável: em três anos, quer facilitar a aprendizagem do idioma nos jardins de infância.

Os pesquisadores da Universidade de Bielefeld estão convencidos de que se o projeto, financiado pela União Europeia, for bem sucedido, irá revolucionar o ensino, já que os robôs ajudariam as crianças a se tornarem poliglotas.

“Nossa tarefa é fazer com que o robô possa, além de se comunicar, entender a forma de pensar de uma criança”, falou o professor Kopp, especialista em inteligência artificial. “Com isso vamos oferecer às crianças imigrantes a oportunidade de aprender a língua de uma forma divertida. Mas também temos o objetivo de fazer com que as crianças alemãs aprendam um novo idioma, como o inglês”.

No momento, o androide tem sido levado às salas de jardim de infância em Bielefeld, em uma fase experimental. Segundo a equipe de pesquisadores, as crianças se integram perfeitamente com o robô e não têm problemas para se comunicar com Neo. Os estudos realizados, inclusive, mostraram que as crianças poderiam aprender melhor e mais rápido uma língua estrangeira com este androide do que com métodos tradicionais.

Em um primeiro momento, Neo pode ajudar as crianças a construir frases em alemão, mas a ideia é que elas aprendam a dominar a síntese e a gramática com a ajuda do robô em fases posteriores do projeto. Neo também será programado para compreender gestos e mímicas das crianças, para ensiná-las a se expressarem melhor.

Para facilitar a comunicação com as crianças, Neo tem a aparência de um ser humano, pequeno e simpático. O interesse que ele desperta nas crianças, e a possibilidade de que ajude os pequenos a conhecer a língua do país que sua família adotou, convenceu a União Europeia a destinar 3 milhões de euros para promover o projeto, que envolve, além da Universidade de Bielefeld, outras quatro universidades europeias na Grã-Bretanha, Holanda, Bélgica e Turquia.

O trabalho da equipe liderada por Stefan Kopp está apenas começando, mas o grupo de cientistas está convencido de que Neo pode revolucionar o ensino de idiomas estrangeiros. “Quando demonstrarmos sua eficácia, poderemos conseguir em menos de dois anos um pequeno exército de robôs nas salas de aula”, afirma o cientista.
Enrique Müller/ElPais

Financiamento – Finep lança linha de crédito para empresas que inovam

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Programa é voltado para empresas de todos os portes e vai funcionar com taxas fixas e subsidiadas, entre 4,25% e 5,25% ao ano, nos contratos de financiamento

Um novo programa de incentivo às inovação das empresas brasileiras, o Inova Brasil, começa a operar este ano.

Desenvolvido pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério de Ciência e Tecnologia, o programa é voltado para empresas de todos os portes e vai funcionar com taxas fixas e subsidiadas, entre 4,25% e 5,25% ao ano, nos contratos de financiamento.

Segundo informações da Finep, as taxas serão oferecidas de acordo com as diretrizes da nova política industrial, que dividiu os setores da economia em três grandes eixos: programas mobilizadores em áreas estratégicas; programa para conciliar e expandir a liderança; e programas para fortalecer a competitividade.

Uma das principais metas do Inova Brasil é contribuir para o incremento das atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas no país. “Esse produto é uma linha de crédito de R$ 1 milhão a R$ 100 milhões que as empresas vão poder pedir e pagar em até 100 meses”, explicou o diretor de Inovação da Finep, Eduardo Costa, em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional.

Costa acredita que o programa terá um impacto muito positivo nas empresas. “Nós fizemos um estudo grande no ano passado sobre a dificuldade que as empresas tinham de conseguir crédito para inovação e criamos um produto novo que atende todas essas necessidades”, destacou.

“Muita gente associa inovação ao setor de tecnologia das empresas. Também é isso, mas a inovação é principalmente a transformação do conhecimento em novos serviços e novos produtos”, completou. O diretor lembrou que, além da inovação tecnológica, há a inovação de mercado. “A Gol, por exemplo, quando introduziu seu modelo de negócios há oito anos foi uma empresa inovadora. Ela usava os mesmo aviões de todo mundo, mas começou a atuar no mercado de pessoas que não andavam de avião naquela época.”

Segundo Eduardo Costa, as empresas têm de ser inovadoras por necessidade. “Atualmente, as empresas que não têm uma atividade de inovação de qualquer tipo, são ultrapassadas por outras. Se não houver mudança, acabam saindo do mercado.”

da Info