Indústria do Açúcar manipula a Ciência

Estudos que relacionam o açúcar a doenças cardiovasculares chegaram a ser interrompidos no passado

saúde
A indústria do açúcar ocultou durante cerca de 50 anos estudos efetuados com animais que sugeriam os efeitos negativos que a sacarose tem na saúde.
Foto MARK R. CRISTINO EFE

Durante a história da humanidade morrer de câncer de pulmão era uma verdadeira raridade. No entanto, o consumo em massa de tabaco, que começou no final do século XIX, causou uma epidemia mundial. A relação entre o hábito de fumar e o câncer começou a ser demonstrada nos anos 40, e no final dos 50 as provas já eram irrefutáveis. Em 1960, porém, somente um terço dos médicos dos Estados Unidos acreditavam que o vínculo entre a doença e o tabagismo fosse real. Para essa confusão dos médicos e da população a ciência também contribuiu. Em 1954, o pesquisador Robert Hockett foi contratado pelo Comitê de Investigação da Indústria do Tabaco, dos EUA, para pôr em dúvida a solidez dos estudos sobre os malefícios dos cigarros.

Apesar dos esforços daquela indústria, a acumulação de provas conseguiu fazer com que a consciência sobre os perigos de fumar seja quase universal e que as campanhas tenham reduzido significativamente o número de fumantes. Mas o negócio do tabaco não é o único que manipulou a ciência para proteger seus lucros. Como o tabagismo, o consumo desenfreado de açúcar é um hábito doentio moderno. E embora a consciência sobre os danos do açúcar seja algo muito mais recente, parece que a própria indústria está ciente deles há muito tempo. De fato, Hockett, antes de buscar a proteção do tabaco por meio da confusão, tinha feito o mesmo com o açúcar. Nesse caso, ao não poder negar a relação entre a sacarose e as cáries, tentava promover intervenções de saúde pública que reduzissem os dados no açúcar em vez de restringir seu consumo.

Companhias como Pepsi deixaram de financiar estudos ao observar que podiam demonstrar o dano de seus produtos

Esta semana, uma equipe da qual participam Cristin Kearns e Stanton Glantz, pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco conhecidos por apontar as maracutaias do negócio açucareiro, recuperou antigos documentos que mostram sua forma de trabalhar. Segundo explicam em um artigo publicado na revista PLOS Biology, a Sugar Research Foundation (SRF), conhecida agora como Sugar Association, financiou em 1965 uma revisão no New England Journal of Medicine na qual eram descartados indícios que relacionavam o consumo de açúcar, os níveis de gordura no sangue e doenças cardíacas. Essa mesma fundação também realizou estudos em animais em 1970 para analisar esses vínculos. Seus resultados encontraram um maior nível de colesterol em ratos alimentados com açúcar em relação a outros alimentados com amido, uma diferença que atribuíam a distintas reações dos micróbios de seu intestino. Quando a SRF conheceu os dados, que indicavam uma relação entre o consumo de açúcar e as doenças cardíacas, e até um maior risco de câncer de bexiga, interrompeu as pesquisas e nunca publicou seus resultados.

Glatz e seus colegas comentam que este tipo de trabalho propagandístico, direcionado a semear dúvidas sobre qualquer relação entre o consumo de sacarose e as doenças crônicas, continua hoje. Como exemplo citam uma nota à imprensa divulgada pela Sugar Association em 2016 como resposta a um estudo publicado na revisa Cancer Research. Nela, eram questionados os dados obtidos por uma equipe do Centro para o Câncer MD Anderson da Universidade do Texas, nos quais se observou em ratos que o consumo de açúcar favorecia o crescimento de tumores e a metástase.

Estratégias em vigor

As estratégias da indústria açucareira do passado continuam vigentes. Como quando Hockett propunha mitigar o impacto do consumo do açúcar nas cáries sem reduzir seu consumo, hoje, empresas como a Coca-Cola focam na necessidade de se fazer exercícios para reduzir a obesidade, deixando de lado a de diminuir o consumo de açúcar.

Em uma entrevista a El País, Dana Small, uma cientista da Universidade Yale que trabalha para entender a maneira como o entorno moderno, desde a alimentação à poluição, favorece a obesidade, comentou sua experiência colaborando com a Pepsi. Apesar de reconhecer que os dirigentes da empresa tinham boas intenções quando começaram a financiar projetos sobre alimentação e saúde, conta que tudo andou bem até que tiveram “resultados que indicavam que seus produtos poderiam estar causando danos”. Não podiam assumir que conheciam os perigos de seus produtos para a saúde porque essa informação poderia ser utilizada contra eles em futuras ações judiciais. “Deixaram de financiar-me na semana seguinte e confiscaram os computadores dos cientistas com os quais estava trabalhando”, relatou.

Glanz considera que a atitude das entidades açucareiras “questiona os estudos financiados pela indústria do açúcar como uma fonte confiável de informação para a elaboração de políticas públicas”. Small, no entanto, considera que a indústria do açúcar e a da alimentação em geral são grandes demais para serem ignoradas. Em sua opinião é necessário buscar meios de proteger este tipo de colaboração de tal maneira que ambas as partes possam trabalhar de forma honesta “sem ter que se preocupar com segredos comerciais ou ser alvo de ações judiciais”.

“O pão branco é uma bomba que estamos dando às pessoas”

Professor visitante de Harvard, Miguel Ángel Martínez-González alerta sobre as táticas agressivas de algumas empresas de alimentos.

Martínez-González, no campus do IESE Business School de Barcelona, em janeiro passado
Martínez-González, no campus do IESE Business School de Barcelona, em janeiro passado VANESSA MONTERO

Demora-se menos de dois minutos para se dar conta de que o doutor espanhol Miguel Ángel Martínez-González ensina pelo exemplo. Ele sobe a pé as escadas da faculdade até o segundo andar, onde dá aula de bioestatística a futuros médicos, toma o café sem açúcar e, em um cardápio de restaurante que oferece como opções lentilhas, massa e carne, escolhe sem hesitar os grãos. Está há mais de duas décadas em busca de evidências científicas para respaldar as benesses atribuídas pela tradição à dieta mediterrânea.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O catedrático de Saúde Pública da Universidade de Navarra, e desde junho também professor visitante de Harvard, é um dos cérebros do relatório Predimed, o mais amplo realizado até agora sobre os efeitos da dieta mediterrânea, originária do sul da Europa: o acompanhamento de um coorte formado por 7.500 participantes recrutados em toda a Espanha durante uma década demonstrou que esta reduz em 66% os problemas circulatórios, em 30% os infartos e derrames e em 68% o risco de câncer de mama.

“O pão branco é um dos principais problemas que temos. Quando já se tem sobrepeso é uma bomba”

No corredor ao lado de sua sala no campus de Pamplona, onde é realizada esta entrevista, estão pregados em uma cortiça os trabalhos que seu departamento publicou recentemente em revistas científicas. “É o muro da autoestima”, brinca. O médico malaguenho, de 59 anos, colabora desde os anos noventa com diversas pesquisas da Escola de Saúde Pública de Harvard, referência mundial em nutrição. Dali tirou a inspiração e os conhecimentos para contribuir para criar não só o projeto Predimed —suas descobertas já estão incluídas nos guias nutricionais oficiais dos Estados Unidos— como também o SUN, um programa no qual mais de 22.000 pessoas, 50% delas profissionais de saúde, colocaram à disposição dos pesquisadores —de forma continuada desde 1999— dados sobre sua saúde e estilo de vida que serviram para dezenas de trabalhos de pesquisa. Também começou recentemente outro projeto, Predimed Plus, que tenta demonstrar por meio do acompanhamento de quase 7.000 pacientes obesos durante quatro anos que com a dieta mediterrânea melhorarão sua dieta, aumentarão sua atividade física e perderão peso.

Já é um fato científico: a dieta mediterrânea é saudável. Então, por que há tanto sobrepeso nesses países? Muita gente diz que conhece e segue a dieta mediterrânea. Mas a realidade é que as gerações jovens incorporaram a dieta norte-americana. Come-se carne vermelha e processada demais. Não quero dizer que temos de nos tornar vegetarianos. Mas a evidência científica indica que, à medida que aumenta a porcentagem de proteínas vegetais sobre as animais, cai brutalmente a mortalidade cardiovascular e por câncer. A dieta mediterrânea, sobretudo o consumo de azeite de oliva extra-virgem, frutas secas, frutas, verduras e legumes, é a melhor opção. Depois, melhor comer peixe do que carne e, esta, preferencialmente de aves ou coelho. Também convém reduzir o consumo de açúcar e sal, e levar uma vida menos sedentária. Usar mais as escadas e menos o elevador.

Por que é tão difícil emagrecer?

Primeiro, porque é preciso ter muita força de vontade para perder quilos e não recuperá-los. Mas é que, além disso, certa indústria alimentícia exerce grande pressão para colocar muitos alimentos a nossa disposição a toda hora, a um custo muito baixo e em grandes quantidades. O que está mais acessível nas prateleiras dos supermercados? Alimentos ultraprocessados, com grande densidade energética, porque têm muita gordura, açúcar e sal, às vezes contra a natureza do produto, como acontece com o ketchup. O que ele tem a ver com molho de tomate? E é vendido e consumido em quantidades industriais. Além disso, as porções grandes e baratas incham as pessoas. Vivemos em uma cultura de sobrealimentação. As opções mais saudáveis deveriam estar mais disponíveis.

Por mais que a indústria queira tentar as pessoas, elas sabem que tudo isso não é muito saudável. Ninguém as obriga a comer.

“Algumas empresas alimentícias usaram táticas similares às usadas pela indústria do tabaco”

A maior parte das escolhas que fazemos não são muito racionais. O economista Richard H. Thaler, referência na teoria das finanças comportamentais, e Cass R. Sunstein, outro especialista em economia comportamental, explicam isso muito bem em um de meus livros favoritos, O empurrão para a escolha certa (Ed. Campus). As pessoas costumam optar pela decisão mais fácil, e há um certo tipo de indústria que lhes dá esse empurrãozinho. Por isso, acredito que é preciso tornar o saudável mais acessível, dar pistas de que se deve escolher para comer bem. São estratégias de saúde pública para construir uma sociedade mais saudável. De tal maneira que, como padrão, lhe ofereçam pão integral. O suco, sem açúcar. Thaler e Sustein chamam isso de paternalismo libertário. As pessoas devem ser livres para escolher, mas acredito que é preciso informar e proteger contra escolhas impensadas e prejudiciais. Sem forçar. Isso é o que ensino em medicina preventiva.

O Governo espanhol acaba de anunciar a criação de um imposto que penaliza o consumo de refrigerantes. O que o sr. acha?

Sou partidário de que se subvencione o azeite de oliva extra-virgem, as frutas e as verduras e que se sobretaxe o consumo de carne vermelha e processada, as trash foods e as bebidas açucaradas. Assim se lança uma mensagem clara do que é sadio ou não.

O sr. falava antes do pão. Faz parte da dieta mediterrânea?

Debatemos muito sobre esse tema. A conclusão a que chegamos é que o pão branco é um dos problemas mais graves que temos na Espanha. A grande maioria o consome e assim engorda. É preciso saber que é fundamentalmente um amido, e nosso corpo é super eficiente em transformar amido em açúcar. É como tomar glicose. Basta colocar um pouco de miolo na boca e na hora se sente um gosto doce. E por que a indústria se incomoda de tirar o grão integral? Porque as farinhas refinadas aguentam melhor. São muito úteis comercialmente, mas tira-se delas a parte mais nutritiva e que permite que os açúcares sejam absorvidos mais lentamente. Estamos dando às pessoas, com o pão branco, um combustível de rápida absorção. E isso, especialmente quando já se tem sobrepeso, certa resistência a insulina, é uma bomba. Seria preciso consumir menos e, preferencialmente, integral.

Proliferam agora os livros sobre as diversas teorias de que alimentos engordam mais ou menos. Que as gorduras não são tão ruins como se pensava e o açúcar é a razão da epidemia de obesidade e diabetes. O que é pior, o açúcar ou as gorduras?

O açúcar é um grande problema. É acrescentado em grandes quantidades aos refrigerantes, sucos e produtos engarrafados. As crianças se acostumam a esses sabores super doces e, claro, depois não querem comer uma pera. Mas, ao mesmo tempo, está demonstrado que a gordura saturada tem um efeito negativo sobre a doença cardiovascular. Tanto as gorduras como o açúcar podem ser problemáticos.

A indústria diz que não se pode demonizar alimentos, que é preciso comer de tudo.

Não se demonstrou cientificamente que comer uma ampla variedade de alimentos seja melhor do que restringir alguns. Mas o que interessa dizer para o produtor de carne bovina? Que não há que demonizar nenhum alimento. A indústria tem muito mais recursos do que as autoridades de saúde pública para lançar essas mensagens. Já aconteceu antes. Algumas empresas de alimentação usaram táticas similares às usadas pela indústria de tabaco. Como pagar cientistas para dizer que o tabaco não prejudicava a saúde tanto quanto se acreditava. Chegou-se a dizer que o câncer de pulmão inicial era resultado do desejo de fumar para acalmar a dor. Também se usou dinheiro para desprestigiar os epidemiologistas que trabalham em nutrição.

Comparar a indústria alimentícia à de cigarro não é um pouco exagerado?

Há dois anos publicou-se um relatório na PLoS Medicine com os documentos internos da indústria do açúcar nos anos cinquenta e sessenta. Ali se constata que se sabia perfeitamente que era a causa das cáries dentárias. Naqueles documentos internos se detalha como pagaram a cientistas para que semeassem a dúvida, sobretudo o que pudesse prejudicá-los. Os especialistas em marketing que aconselhavam as empresas açucareiras foram contratados depois pelas de tabaco, que imitaram essas estratégias. Em contrapartida, é preciso destacar que nos últimos anos houve movimentos responsáveis dentro da própria indústria alimentícia para retirar as gorduras trans [as mais prejudiciais] de seus produtos, usar adoçantes não calóricos e reduzir a quantidade de sal.

“Só na presença de uma dieta não saudável é que a genética se relaciona à obesidade. Sem dúvida, o papel dos pais é chave”

O sr. aceitou dinheiro da indústria?

Duas vezes. A primeira, em um momento em que nos negaram todos os fundos e a coorte SUN dedicada ao estudo dos hábitos alimentares correu risco de desaparecer. Aceitamos uma oferta da Danone para analisar os efeitos metabólicos do iogurte sobre a obesidade. Foram cerca de 40.000 euros em 2013 (cerca de 130 mil reais hoje). Concluímos que o consumo de iogurte reduzia o risco de obesidade, mas também dissemos que o consumo de frutas reduzia ainda mais. Depois de publicar o estudo, encerramos nossa colaboração com eles e lhes pedi que não me ligassem mais.

Foi publicado o que se quis, por que recusá-los?

É uma pressão muito sutil. Convidaram-me para um simpósio em Boston para falar de nossas descobertas sobre o iogurte. Não gosto de aparecer em um congresso de mãos dadas com uma indústria real. Considero que é melhor para todos os pesquisadores que sejam independentes.

Não recebeu dinheiro dos produtos de azeite de oliva?

Não. A segunda vez foi o Conselho Internacional de Frutas Secas quem nos pagou. Participamos de uma chamada pública competitiva para financiar o Predimed Plus porque distribuíamos frutas secas entre os participantes. Obtivemos um projeto de 50.000 euros (cerca de 164 mil reais) para dois anos, menos de 3% do dinheiro que recebemos nessa época. Agora, o total de nosso financiamento é público: fundos norte-americanos, espanhóis e europeus.

“O pão branco é uma bomba que estamos dando às pessoas”
Martínez-González, no campus do IESE Business School de Barcelona, em janeiro passado VANESSA MONTERO
 Há pesquisadores que aceitam dinheiro da indústria.

É um assunto delicado. Em 2013, nosso trabalho publicado no PLoS Medicineconcluía que era cinco vezes mais provável que os estudos realizados com financiamento de certa indústria concluíssem em favor dessas empresas. Também é interessante contrastar com qualquer estudo que tenha recebido dinheiro de empresas de alimentos com outros independentes e compará-los. Não se pode confiar apenas em pesquisas financiadas pelos interessados. Não se pode ser juiz e parte envolvida. Outra possibilidade seria a indústria aportar esse capital a um fundo anônimo e que não tivesse capacidade para decidir que projetos serão financiados. Ao mesmo tempo, as agências públicas teriam de incrementar seus investimentos em epidemiologia nutricional. A alimentação interessa a toda a população.

A obesidade já é uma epidemia de alcance global.

É a grande pandemia do século XXI, e vai provocar o fato insólito de que nas sociedades desenvolvidas retrocedamos em expectativa de vida. Nos Estados Unidos acabamos de saber que já aconteceu. Um macroestudo recente realizado em Israel mostra que até as pessoas cujo peso está dentro da normalidade, mas na parte superior, resvalando no sobrepeso, sem ser ainda obesos, têm um risco maior de mortalidade cardiovascular. A OMS associa a obesidade a 15 tipos de câncer. Isso tem um impacto na qualidade de vida. Por isso estamos fazendo o estudo Predimed Plus, para ver se com a dieta mediterrânea não ficamos apenas mais sadios, mas também mais magros.

A obesidade é genética?

É hereditária, porque os costumes podem passar de pais para filhos, mas o componente genético não explica a pandemia atual. Em Harvard foi feito um estudo muito interessante em 2012: pegaram 32 genes relacionados à obesidade e viram o que acontecia quando se tomava bebidas açucaradas. Se essas bebidas não eram consumidos, a genética não previa nada. É muito claro. Só na presença de uma dieta não saudável a genética se relaciona com obesidade. Sem dúvida, o papel dos pais é chave, e também o da escola, dos profissionais de saúde, da mídia e da cultura de entretenimento.

Até onde pode chegar a medicina preventiva?

Comecei a me formar como cardiologista, mas logo me dei conta de que gostava de atuar antes, na epidemiologia, nos grandes números. Nos anos noventa, a medicina preventiva era insignificante na Espanha. Foi ganhando prestígio graças à medicina baseada na evidência científica. Antes o médico se fiava em sua inspiração, em seu olho clínico, em sua experiência. Agora há pesquisas que afirmam que depois de estudar 10.000 pacientes isso é o que costuma acontecer. A linguagem da medicina mudou.

Costumava-se dizer que um bom médico era alguém mais velho, com experiência.

Era uma visão subjetiva. Agora há uma base mais objetiva, quantificada, rigorosa, científica, mas nunca deve faltar o afeto humano ao paciente e a atenção personalizada.

Não podemos acabar ficando obcecados com a prevenção?

As pessoas confundem a medicina preventiva com os tratamentos precoces e os exames. Mas o principal é o estilo de vida e a dieta. A vida é simples, pelo menos na teoria: não fumar, permanecer magro, fazer atividades físicas, comer de forma saudável e controlar a pressão arterial, o colesterol e a glicose. Se essas coisas estão sob controle, a mortalidade cardiovascular se reduz em 76%.

Hoje em dia, com um simples exame de sangue ou saliva, é possível prognosticar um câncer em uma pessoa totalmente saudável.

Essa medicina preventiva tem aplicações que são favas contadas. Mas muito pouca gente que pode se beneficiar atualmente. Não há recursos. Ao mesmo tempo, comer mais lentilhas e menos carne está ao alcance de toda a população agora mesmo.

Há um empenho em fazer com que as pessoas vivam muito mais anos.

A qualidade de vida é fundamental. E muito disso se perde com as doenças neurodegenerativas. Estamos pesquisando o efeito da dieta mediterrânea em demências como Alzheimer e Parkinson e começamos a ver que também é benéfico. Calculo que em um anos serão publicados os resultados. Acredito que será uma bomba.
Cristina Galindo

Alimentação: o açúcar que você não vê

As fotos que mostram o açúcar oculto em sua comidaAs fotos que mostram o açúcar oculto em sua comida

Projeto denuncia a quantidade de açúcar presente em produtos industrializados

Aviso: um iogurte “de frutas” pode conter até quatro cubos de açúcar.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Um iogurte de frutas da marca Danone “0%” tem quatro cubos de açúcar. Uma caixa de 200 mililitros de molho de tomate, a mesma quantidade. Um copo de suco “veggie”, sete cubos. E um café Mocha Branco Venti do Starbucks, com chantili e calda de chocolate, a prodigiosa quantidade de 20 cubos de açúcar.

Quando consumimos qualquer um desses alimentos, raramente temos ideia da grande quantidade de açúcar que estamos ingerindo, açúcar que pode criar dependência e cujo abuso leva ao excesso de peso, diabetes, cárie dentária ou risco cardiovascular. Ou não lemos os rótulos onde a quantidade é indicada, ou não entendemos exatamente as quantidades indicadas.

Essa cegueira é o que levou Antonio Rodríguez Estrada a criar o SinAzúcar.org, uma iniciativa para divulgar imagens nas quais os produtos são acompanhados pela quantidade de açúcar que contêm, medida em uma unidade familiar e compreensível para todos: o cubo de açúcar.

“Uma das causas da atual epidemia de obesidade é o abuso de produtos industrializados na alimentação diária”, afirma este fotógrafo, entusiasta da alimentação saudável. “O SinAzúcar.org pretende visualizar o açúcar oculto nesses alimentos processados de uma forma simples e gráfica para que possam ser facilmente compartilhados por meio das redes sociais. É meu grãozinho de areia para melhorar os hábitos de consumo.”

Embora a ideia não seja muito original — o site norte-americano Sugar Stacks e a conta de Instagram @dealerdesucre vêm fazendo algo semelhante há um tempo—, o projeto apresenta duas novidades: os produtos são vendidos no mercado espanhol e as imagens, brilhantes e polidas, imitam deliberadamente a estética publicitária com a qual costumam ser anunciados. “A indústria alimentícia apresenta seus produtos de forma brilhante para seduzir o consumidor. Se quisermos lutar contra este marketing, devemos ser capazes de nos nivelarmos a eles e usar suas próprias armas para criar imagens atraentes que comuniquem de forma eficaz”, disse o fotógrafo, que terminou há alguns meses um curso de nutrição esportiva no Instituto de Ciências da Nutrição e Saúde.

Rodríguez Estrada começou postando fotos de produtos com grandes quantidades de açúcar, tais como bebidas açucaradas. Mas então percebeu que os alimentos que mais surpreendiam eram aqueles nos quais este ingrediente é mais inesperado, como um molho de tomate ou iogurte para bebês. Por isso, decidiu dar prioridade à denúncia desse tipo de alimentos em relação aos que o consumidor baixa a guarda mais facilmente, especialmente quando alegam ser saudáveis, como “0%”, ou são recomendados por sociedades médicas sem muitos escrúpulos.

Para calcular a quantidade de açúcar, o fotógrafo utiliza a informação fornecida pelo próprio fabricante no rótulo. No caso de alimentos mais genéricos como torradas, bolo de queijo, donuts de chocolate ou doces, escolhe uma marca de referência e aplica o mesmo padrão. Cada um dos cubos de açúcar das fotos pesa quatro gramas.

Algumas imagens da iniciativa nos levam a pensar duas vezes antes de dar certos alimentos prontos para crianças ou ingerirmos uma bebida “energética”, alguns biscoitos ou cereais. Mas como nos tornamos tão insensíveis a tais quantidades de sacarose? “Uma das consequências do abuso do açúcar é o aumento do limiar de sabor doce”, explica Rodríguez Estrada. “Precisamos cada vez mais para que o sabor nos agrade. Se educamos nosso paladar desde pequenos com vitaminas, iogurtes açucarados ou refrigerantes, quando somos adultos um café com 20 com cubos de açúcar parece delicioso.”

Como era previsível, o SinAzúcar.org tem sido apoiado por vários nutricionistas nas redes sociais, os quais o fotógrafo espera ajudar na luta por uma melhor alimentação e contra as práticas nocivas da indústria de alimentos. Por outro lado, entre as marcas representadas nas imagens, por enquanto reina o silêncio. “Nenhuma ainda me contatou”, disse Rodríguez Estrada, ironicamente, “mas, cada vez que entro no Starbucks, noto que fazem cara feia”.
El Pais

A pegada da agricultura orgânica

Jornalista comenta polêmica após reportagem “Deixe de comprar comida orgânica se quiser salvar o planeta”

Feira na cidade Síria de Idlib.Feira na cidade Síria de Idlib. OMAR HAJ KADOUR AFP

O EL PAÍS publicou no sábado passado, em sua edição impressa, um artigo — “Deixe de comprar comida orgânica se quiser salvar o planeta”, escrito por Kristin Suleng — no qual se acusava esse tipo de tipo cultivo de representar uma ameaça muito maior para a conservação do planeta do que a agricultura convencional. O artigo foi reproduzido no site do jornal em espanhol e traduzido ao português para ser publicado, na última segunda-feira, na edição online brasileira, onde provocou um grande rebuliço. Algumas reclamações de leitores brasileiros chegaram por email à minha caixa de entrada, e muitas outras à redação de São Paulo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”] 

Henrique Kugler, jornalista, especialista em ciências ambientais e leitor da edição brasileira do EL PAÍS, me enviou uma longa mensagem que vou resumir: “A principal fonte que embasa o texto [de Kristin Suleng] é o engenheiro agrônomo Marco Antonio Oltra […], fundador do Orcelis Grupo, nada menos que uma empresa atuante no setor de tecnologia agrícola. Leia-se, agronegócio. Basta checar o currículo dele no LinkedIn. É um conflito de interesse flagrante.” Esse leitor expressa uma dúvida quanto à “ingenuidade” ou “incompetência” da autora do texto e lhe recomenda a leitura de um artigo publicado no início de 2016 na revista Nature Plants que sustenta teses diferentes das do artigo de Suleng. “Publicar um artigo assim é como cuspir na cara de seus leitores”, acrescenta Kugler.

Outro leitor brasileiro, Juliano Hojah, se refere nos seguintes termos ao artigo que leu no site do jornal: “Como uma jornalista do EL PAÍS pode dizer que deixemos de comprar alimentos orgânicos se quisermos salvar o planeta!? É uma loucura!!!! […] No Brasil, já houve muita repercussão negativa nos grupos dos quais participo…. Como podem permitir que artigos como este sejam publicados no EL PAÍS?”.

Kristin Suleng, colaboradora regular do jornal, defende seu artigo e responde o seguinte aos leitores:

“Entre os especialistas consultados, esta jornalista selecionou como fonte de informação o senhor Marco Antonio Oltra Cámara como especialista na área de agricultura, com experiência em ambos os tipos de agroprodução (orgânica e convencional), a fim de fornecer avaliações baseadas na experiência profissional de alguém considerado uma referência no assunto. Oltra é doutor em engenharia agronômica, com mais de 20 anos de experiência em agricultura. Pioneiro no cálculo da pegada hídrica e na agricultura via satélite, é professor-associado de biologia vegetal na Universidade de Alicante, cujo cargo corresponde ao de um reconhecido profissional cujo trabalho principal é realizado fora do âmbito universitário. É fundador da empresa Orcelis Grupo, como consta em seu perfil público do LinkedIn, dedicada ao desenvolvimento de um sistema de apoio na tomada de decisões agrícolas por meio da Orcelis Fitocontrol, da qual a empresa recebe 100% das receitas. Oltra afirma não defender qualquer interesse particular a favor ou contra qualquer tipo de agricultura. A Orcelis Fitocontrol acompanha a tomada de decisões tanto na agricultura convencional quanto na orgânica, já que entre seus clientes estão empresas de produção orgânica, algo que, reconhece Oltra, não é incompatível com sua opinião científica sobre a questão abordada no artigo.

“Como alerta outro dos especialistas consultados, o bioquímico José Miguel Mulet, professor e pesquisador do Instituto de Biologia Molecular e Celular de Plantas (IBMCP), centro misto subordinado ao CSIC [Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha] e à Universidade Politécnica de Valência, não se comete nenhuma falha ao entrevistar um especialista em agricultura para falar de um tema agrícola, já que seria prepotente, além de faltar com a realidade da atividade agrícola, dar a entender que os únicos autorizados a expressar suas avaliações na imprensa procedam exclusivamente do mundo acadêmico.

“As afirmações expostas no artigo se sustentam em pesquisas baseadas no método científico. Não se trata de opiniões, e sim de dados, provas e resultados, como contribuem os estudos da Nature e da Universidade Cornell. Como aponta Emilio Montesinos, catedrático de Patologia Vegetal na Universidade de Girona, o artigo citado pelo leitor se contrapõe a uma robusta meta-análise na Nature, com aparência mais de artigo de opinião do que de uma análise rigorosa dos dados. Montesinos deseja manifestar a este jornal que sua pesquisa se desenvolve inteiramente na Universidade, no campo dos ‘biopraguicidas e biofertilizantes’, cujo currículo de publicações pode ser consultado no ResearchGate. Ele é o inventor de várias patentes que são propriedade da Universidade de Girona e participa de uma spin-off da mesma universidade sobre biopraguicidas, como uma das atividades que hoje são valorizadas no currículo do professor universitário, sempre dentro do marco legal.”

Agradeço a Suleng por sua detalhada exposição. Da minha parte, devo fazer algumas considerações em relação ao artigo.

Em primeiro lugar, considero extremamente infeliz o título: “Deixe de comprar comida orgânica se quiser salvar o planeta”. Longe de refletir as nuances que caracterizam um assunto tão polêmico, para entender quais são as vantagens e os inconvenientes desse tipo de cultivo, o título é peremptório e produz uma incômoda sensação coercitiva.

Independentemente dos méritos profissionais do senhor Marco Antonio Oltra Cámara, citado profusamente no artigo, considero um equívoco que não constasse sua condição de fundador e principal diretor do Orcelis Grupo. Sem isso, se dá fundamento à acusação de “conflito de interesses” formulado pelo supracitado leitor. E se a empresa dele “acompanha a tomada de decisões tanto na agricultura convencional como na orgânica”, conforme aponta Suleng, há aí mais uma razão para que isso constasse no artigo.

Comenta a autora, baseando-se nos especialistas e na documentação consultada, que um dos graves problemas da agricultura orgânica é a sua menor produtividade, razão pela qual esta exige extensões de terra muito maiores para a obtenção de colheitas suficientes para alimentar a crescente população mundial, com o consequente desmatamento. Entretanto, há abundante literatura sobre o tema em que se destaca que a produtividade de determinados cultivos orgânicos é praticamente idêntica à de seus homólogos da agricultura convencional. Aparentemente, são muitos os fatores que interferem (tipo de terra, clima, cultivos, rotações) no comportamento dos cultivos orgânicos, e, embora globalmente sua produtividade seja inferior, os avanços nesse terreno permitem antever uma equiparação entre ambos os tipos de agricultura neste aspecto. Num mundo em constante avanço, é preciso levar em conta não só as realidades presentes, mas também as tendências que despontam no horizonte. Teria sido útil, talvez, mencionar as perspectivas da agricultura ecológica nesse sentido.

Microsoft redefine o PC com o Surface Studio

O Windows 10 será atualizado no primeiro semestre de 2017 para se adaptar à realidade virtual

https://www.youtube.com/watch?v=BzMLA8YIgG0

Com o sistema operacional Windows e o computador pessoal, a Microsoft se tornou onipresente.

Três décadas e meia depois de sua introdução, a empresa de tecnologia de Redmond — depois de jogar a toalha com relação aos celulares — decide apostar fortemente na máquina que serviu para democratizar o uso de computadores no mundo inteiro com a apresentação do Surface Studio, a versão de mesa tudo em um de seu tablet híbrido.

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“É mais do que um simples PC”, destacou na apresentação Panos Panay, vice-presidente da Microsoft encarregado dos aparelhos Surface, “esta máquina foi construída para transformar a criação”.
A ideia é simples: criar a mesa de trabalho em um estúdio. Os produtos, afirma o executivo, “ajudam a dar vida às ideias” e, com essa intenção, desenvolveu-se um computador que “proporciona possibilidades ilimitadas à imaginação”.

O Surface Studio, que será vendido inicialmente por 2.999 dólares (9.300 reais), pretende fazer a diferença no mercado dos PCs, criando uma nova categoria, como ocorreu com o Surface Pro no caso dos tablets.

“A questão não era fazer mais um computador pessoal”, insistiu. “Trata-se de um passo adiante”.

A Microsoft o apresenta, com efeito, como o melhor equipamento que os criadores de conteúdo digital poderão ter para dar vida a suas ideias.

Satya Nadella, principal executivo da Microsoft, explicou que nos últimos anos proliferaram muitos produtos voltados para o consumo. Acredita, no entanto, que a próxima etapa será dominada pela criação, afirmando, por isso, que o computador pessoal continua sendo uma ferramenta essencial para atender ao “desejo inato de criar, conectar e se expressar”.

A Microsoft também dobrou o rendimento do portátil SurfaceBook para torna-lo mais versátil. “Os usuários nos pediam mais, e aqui está”, disse Panos. O equipamento disporá de bateria com até 16 horas de autonomia.

“Não há nada comparável no mercado”, afirma o executivo. O novo modelo, com um design mais sofisticado, custará 2.399 dólares (7400 reais). O Surface básico sai por 899 (2800 reais).

A apresentação da Microsoft ocorreu na véspera da apresentação das novidades para iPad e Mac pela sua superconcorrente Apple. Enquanto as vendas dos tabletes híbridos tiveram um crescimento de 38% no último trimestre em comparação com o mesmo período do ano anterior, os computadores da empresa da maçã tiveram uma contração de 14%, e os tabletes, de 9%.

A Microsoft não facilita em nada a vida da empresa de Cupertino na faixa mais alta do mercado, para uso profissional. A Apple tem sofrido também com os equipamentos de baixo custo Chromebook da Alphabet. Os investidores, com efeito, estão bastante atentos aos movimentos neste campo, no momento em que ele começa a se estabilizar.

Windows para criadores

A ponte entre o real e o virtual é o sistema operacional. A Microsoft apresentou os primeiros detalhes da próxima atualização do Windows 10, prevista para o primeiro semestre de 2017. Seu nome será Creators Update.

Como explicou Terry Myerson, cada usuário tem um interesse diferente do outro quando usa o computador. O próximo passo, na evolução da plataforma, é melhorar a experiência com a realidade virtual.

Para isso, os aplicativos de produtividade Paint e PowerPoint terão uma evolução no sentido da criação em 3D, simplificando o seu uso e tornando-o mais intuitivo. “Nosso mundo é tridimensional”, observou Megan Saunders. Os dois programas permitem a inclusão, com facilidade, de imagens tridimensionais digitalizadas de objetos reais, exportadas do Minecraft ou de comunidades como SketchUp.

A atualização do Windows 10 também incrementará a experiência com as HoloLens, criando espaços virtuais ou combinados com cenários reais. O sistema operacional da Microsoft conta com mais de um bilhão de usuários no planeta. O objetivo, com essa evolução, é chegar às novas gerações, que têm uma percepção diferente da criação de conteúdo.

A Microsoft, assim, aposta muito na realidade virtual. Para democratizar esses “efeitos”, ela apresenta os óculos de realidade aumentada da HP, Dell, Lenovo, Asus e Acer, a um preço inicial de 299 dólares (930 reais).

Todos esses equipamentos contêm sensores que permitem identificar o entorno. A atualização do sistema operacional vai melhorar, paralelamente, a criação de competições na plataforma para games Xbox Live.

O Windows 10 Creators permitirá também uma simplificação na maneira de compartilhar conteúdo, podendo-se juntar na barra de tarefas uma única caixa que integra todas as plataformas que cada contato usa para se comunicar.

Pretende-se evitar, dessa forma, que as mensagens importantes se percam em meio à abundância das redes sociais, complicando a comunicação.

Amazônia: O grileiro dos Jardins

A história do pecuarista acusado de comandar, em São Paulo, esquema de desmatamento da Amazônia

Helicóptero do IBAMA sobrevoa área desmatada ilegalmente.Helicóptero do IBAMA sobrevoa área desmatada ilegalmente.
Fot:MARCIO ISENSEE E SÁ

O maior desmatador da história recente da Amazônia é filho de um rico e tradicional pecuarista de São Paulo. Ele próprio operava sediado no bairro dos Jardins, na capital. Até ser preso, comandava um esquema sofisticado de desmatamento, grilagem e falsificação no Pará, que contava até com profissionais de geoprocessamento para enganar os satélites de monitoramento.

Denunciado por índios, o caso levou a recente operação conjunta entre o Ibama, a Polícia Federal, o Ministério Público e a Receita Federal, revelando detalhes sobre como hoje se organiza o crime na expansão da fronteira agropecuária amazônica.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Operação Kaypó

Era fevereiro de 2014. Luciano Evaristo, diretor de Proteção Ambiental do Ibama, chegava à garagem da sede da instituição em Brasília e conseguia ouvir um burburinho alto vindo do escritório. Dentro de seu gabinete, pintados para guerra, mais de trinta índios kayapós esperavam por ele com arcos e flechas. Luciano teve o cuidado de pedir que depositassem as armas antes de começarem a conversa.

O Plano Básico Ambiental (PBA) do licenciamento da rodovia BR-163, que liga Cuiabá (Mato Grosso) à Santarém (Pará), dá aos kayapós da Terra Indígena Mekrãgnoti, o direito a receber recursos do Governo para compensação de impactos decorrentes da obra. Em 2014, desconfianças do Governo de que os índios estariam desmatando no entorno da Mekrãgnoti levou a retenção desta verba. Os índios não eram os culpados pelo desmatamento, mas eles sabiam quem era. Foram até Brasília a procura de Luciano Evaristo para denunciar um criminoso.

Em São Paulo, empresas de fachada serviam para que o grileiro movimentasse as altas quantias de dinheiro que iam para financiar a atividade ilegal de desmatamento, ou servir de crédito para atrair compradores das terras griladas

“A conversa foi dura”, relembra Luciano. Tão logo os kayapós se foram, ele tratou de levantar as imagens de satélite da região em busca das áreas alvo das denúncias. “Não achei nada nos satélites que indicasse operação de desmatamento em larga escala.” Ainda assim, resolveu confiar nos índios. Luciano desembarcou em Mekrãgnoti em abril de 2014. Lá, um grupo de lideranças kayapós se uniu à equipe de fiscalização do Ibama. Usando um sistema de radioamadores para repassar informações entre si – sinal de telefone celular não pega – os índios já haviam mapeado a localização de acampamentos de desmatadores na floresta.

Encontraram 18 acampamentos. Somados, foram embargados 14 mil hectares. “A maior área já encontrada pelo IBAMA aberta por empreitada de um só infrator ambiental na floresta amazônica”, conta Luciano. A ação ficou conhecida como Operação Kayapó. Presos 40 trabalhadores, logo muitos começaram a falar. Um mesmo nome, então, se repetia. Começava aí a investigação que uniu instituições e resultou, pela primeira vez, na prisão de um chefão do crime operando na floresta.

O milionário das motosserras

O maior desmatador da história recente da Amazônia é filho de um pecuarista milionário de São Paulo. Antônio José Junqueira Vilela Filho – o AJJ Vilela, vulgo Jotinha, nasceu e cresceu em um império bovino montado pelo pai, Antônio José Junqueira Vilela. Junto com a família, Jotinha operava um esquema sofisticado que envolvia desmatamento em série, grilagem de terras públicas, lavagem de dinheiro, falsificação e trabalho escravo no Pará.

O nome de Jotinha começou a circular pelas páginas de embargos do Ibama no Pará nos idos de 2009, embora ligado a áreas desmatadas menores. Foi entre 2012 e 2014, revelam as investigações, que as motosserras de Vilela Filho trabalharam sem descanso. Ao serem presos, ele e seus parceiros acumulavam denúncias de destruição que somavam 30 mil hectares de floresta no município de Altamira (PA), área equivalente ao território de cidades como Fortaleza, no Ceará, ou Belo Horizonte, em Minas.

A Terra Indígena Mekrãgnoti, banhada pelo rio Curuá, ocupa 5 milhões de hectares de florestas preservadas.A Terra Indígena Mekrãgnoti, banhada pelo rio Curuá, ocupa 5 milhões de hectares de florestas preservadas. Foto: MARCIO ISENSEE E SÁ
 A operação Rios Voadores, que prendeu a quadrilha, foi deflagrada em 30 de junho de 2016, após dois anos de quebras de sigilo bancário e interceptações telefônicas. No dia D, contou com um efetivo de 95 policiais federais, 15 auditores da Receita e 32 servidores do Ibama, distribuídos pelos estados de Pará, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. A Justiça Federal de Altamira expediu 52 medidas judiciais, entre 15 prisões preventivas e mandados de busca e apreensão.

Jotinha, primeiro considerado foragido, apresentou-se à Justiça uma semana depois. Dias após a operação, escutas telefônicas interceptaram Ana Luiza Junqueira Vilela Viacava, irmã de Jotinha, que passava férias nos Estados Unidos, coordenando de longe a ocultação e destruição de provas contra o irmão.

Ana Luiza foi presa ao desembarcar de viagem. Os três filhos de Antônio José Junqueira Vilela – Jotinha, Ana Luiza e Ana Paula – todos acusados de participar do esquema, são figurinhas fáceis da noite paulistana. A família circula entre celebridades e políticos.

Na Internet é possível achar menções a eles em colunas sociais, frequentando eventos exclusivos e recebendo vips para festas em mansões no bairro dos Jardins, de classe média alta em São Paulo. Ana Luiza leva o sobrenome Viacava do marido Ricardo. A família Viacava é de igual peso na história da pecuária brasileira e seus patriarcas são amigos de longa data. Ricardo Viacava, além de cunhado, era o braço direito de Jotinha na operação criminosa.

Vilela Filho é hoje o homem que recebeu o maior valor em multa aplicada a um só infrator ambiental – R$ 119,8 milhões, somadas em dez autos de infração referentes à Operação Rios Voadores. Ele é acusado de movimentar o equivalente a R$ 1,9 bilhão entre 2012 e 2015, em operações ilegais. Legou à sociedade, segundo os cálculos do Ibama, um prejuízo ambiental estimado em R$ 420 milhões.

Raio-x de um crime exemplar

O esquema comandado por Vilela Filho chama a atenção pela sofisticação. A quadrilha tinha núcleos bem definidos. Em campo ficavam os agenciadores de mão-de-obra ilegal. A etapa de desmatamento era custosa. Eremilton Lima da Silva, vulgo Marabá, era um dos chamados gatos, responsável por arregimentar pessoas para trabalharem no campo.

Ele aparece na investigação recebendo valores que superam 170 mil reais em nome de sua esposa, Laura Rosa Rodrigues de Souza. Os irmãos Jerônimo Braz Garcia e Bruno Garcia, sócios na empresa Jerônimo Máquinas, também faziam parte do esquema. Chegaram a receber 500 mil reais por um só serviço de “limpeza”, conforme consta no inquérito.

A liderança indígena Dototakakyre Kayapó (conhecido como Dotô) utilizando o rádio. Foi através da comunicação entre aldeias que os indígenas mapearam as áreas onde a quadrilha de grilagem atuava.A liderança indígena Dototakakyre Kayapó (conhecido como Dotô) utilizando o rádio. Foi através da comunicação entre aldeias que os indígenas mapearam as áreas onde a quadrilha de grilagem atuava.Foto:MARCIO ISENSEE E SÁ
As equipes nos acampamentos eram sempre de dez pessoas, com funções bem definidas – um cozinheiro, um meloso, responsável pela manutenção de motosserras, e oito motosserristas. Todos trabalhavam sem dias de folga e eram pagos apenas ao final do serviço. Caso o Ibama os flagrasse, receberiam nada. Luciano nunca esqueceu do primeiro acampamento que encontrou: “Chamou a atenção o trabalho escravo e degradante. Eu lembro que abri um balde que eles usavam para armazenar carne e o gás metano praticamente voou na minha cara, parecia que ia explodir. A carne estava podre”.

Os núcleos de desmatadores operavam em todas as fases do típico processo de abertura de floresta. Primeiro retiravam as árvores maiores e mais valiosas – o chamado corte seletivo. A venda ilegal de madeira era uma das atividades com a qual lucrava Jotinha. Na sequência, as áreas eram completamente desmatadas. Entravam em cena os tratores e “correntões”, cabos de aço que devastam em série. Em seguida vinha o fogo. Queimadas eram repetidas até que a área estivesse “limpa”.

Completo o ciclo de devastação, plantava-se capim, muitas vezes com o uso de aviões agrícolas. Por último chegava o boi. Dependendo da aptidão do local, algumas destas áreas eram vendidas ou arrendadas para terceiros, que iriam explorá-la mediante aluguel. Outras permaneciam em posse da quadrilha, em geral para criação de gado. O processo era otimizado: enquanto em algumas áreas a mata começava a ser derrubada, outras estavam em plena produção e umas tantas sendo vendidas ou arrendadas.

Burlar a fiscalização envolvia núcleos ainda mais aprimorados de atuação. Profissionais de geoprocessamento trabalhavam de escritórios no Pará e no Mato Grosso analisando imagens de satélite.

Em São Paulo, empresas de fachada serviam para que o grileiro movimentasse as altas quantias de dinheiro que iam para financiar a atividade ilegal de desmatamento, ou servir de crédito para atrair compradores das terras griladas. Entravam em cena as irmãs Ana Luiza e Ana Paula e o cunhado de Jotinha, Ricardo Viacava, que transferiam as quantias entre si e entre as empresas. A principal delas era a Sociedade Comercial AJJ, com sede na alameda Santos, bairro dos Jardins, área rica e tradicional da cidade de São Paulo.

“O interessante deste caso é que, como existia muito dinheiro disponível para a operação, o desmatamento acontecia muito rápido. Era um programa bem organizado, para ser feito no mínimo de tempo possível e evitar a fiscalização ambiental”, conta Higor Pessoa, Procurador do Ministério Público Federal no Pará, responsável pelo caso.

Burlar a fiscalização envolvia núcleos ainda mais aprimorados de atuação. Profissionais de geoprocessamento trabalhavam de escritórios no Pará e no Mato Grosso analisando imagens de satélite. Eles acumulavam duas funções. A principal era a de forjar Cadastros Ambientais Rurais (CAR). O CAR é um cadastramento eletrônico instituído pelo governo que tem como objetivo auxiliar na gestão das florestas brasileiras dentro de áreas privadas. Na prática, o CAR é o primeiro cadastro obrigatório a todos os proprietários rurais do país, salvo assucessivas prorrogações de prazo que enfrenta.

A quadrilha de Jotinha sabia ler o sinal dos tempos e, para facilitar a compra e venda de terras, mantinha o CAR das áreas griladas em dia. O núcleo de geoprocessamento produzia o recorte perfeito dos perímetros abertos, que seriam cadastrados em nome de posseiros. Tomavam cuidado para que nenhuma área aparecesse ao satélite em sobreposição a outras anteriormente embargadas pelo Ibama.

Vinha então o núcleo dos “laranjas”, pessoas que emprestavam o nome para constar nos cadastros ambientais declarados pela quadrilha. Apareceram como proprietários membros da família Vilela Junqueira, seus cúmplices e funcionários das empresas de fachada. Até mesmo o contador de Jotinha virou dono de fazenda. “Foi fácil chegar ao Vilela, ele deixava este tipo de rastro”, comenta Paulo Maués, coordenador da operação Rios Voadores pelo Ibama.

Servidores do IBAMA e indígenas observam o mapa dos arredores da Terra Indígena Mekrãgnoti.Servidores do IBAMA e indígenas observam o mapa dos arredores da Terra Indígena Mekrãgnoti. Foto:MARCIO ISENSEE E SÁ
 Havia ainda função mais ousada para os homens por trás dos computadores: tentar enganar o olho do Governo brasileiro. Para isso, recorriam às imagens de satélite usadas pelos agentes de fiscalização, as quais qualquer cidadão tem acesso, para analisar o próprio rastro e orquestrar a operação de desmatamento. Entre as táticas, deixar em pé árvores de porte alto, capazes de enganar os sensores dos satélites. O indicativo das queimadas era controlado de perto, para que nenhum fogo ficasse aparente. Procuravam agir em períodos nublados, quando os satélites são cegos pelas nuvens, para agirem incólumes.

A sorte de Luciano Evaristo foi ter confiado nos índios.

Crime e castigo

A certeza da impunidade é citada como o motivo que levou um jovem de família rica de São Paulo a se dedicar com tanto esmero a operar ilegalmente em plena Amazônia. “É uma questão cultural mesmo”, diz Higor Pessoa. “O pai do Vilela Filho foi um grande desmatador e nunca aconteceu nada com ele. Mas eram outros tempos”, complementa o Procurador.

Atribui-se ao patriarca da família Junqueira Vilela, Antônio José, a visão de que seria uma raça de gado recém-chegada da Índia, o Nelore, que iria melhor se adaptar às condições brasileiras e representar o futuro do pecuária de corte do país. Ele acertou nesta e em outras empreitadas, como por exemplo a de melhoramento genético de bois, atividade a qual se dedica nos últimos anos com muito sucesso.

Assim como não lhe faltou visão de negócio, tampouco careceu de terras para colocá-las em prática. Chegou ao então inóspito Mato Grosso no final da década de 1970, aos 20 anos de idade. A grilagem de terras para venda e a criação de boi na Amazônia foram suas principais atividades desde sempre. Com elas fez fortuna e fama no meio pecuário brasileiro.

A pecuária também estava no sangue de Jotinha. O grileiro sabia como usar as regras do jogo para driblar qualquer cerco. Graças a acordos de mercado, é mais difícil hoje para um frigorífico adquirir carne de gado criado em áreas embargadas. Difícil, mas longe de ser impossível. Prática comum, Jotinha lançava mão do chamado “esquentamento de boi” – vendia o gado como se fosse oriundo de fazendas regularizadas, usando o nome de terceiros. Entre os acusados de participar deste esquema está Eleotério Garcia, o Panquinha, que atuava como intermediário no processo fraudulento.

Outras movimentações, no entanto, eram menos cuidadosas. Ao menos um frigorífico, o Redentor, no Mato Grosso, teve profissionais autuados na operação por envolvimento na compra de gado de áreas sem procedência garantida. Estão ainda sob investigação os grupos Amaggi – do atual Ministro da Agricultura, Blairo Maggi -, Bom Futuro e a JBS, acusados de realizarem transações financeiras com a quadrilha que somaram R$ 10 milhões entre 2012 e 2015. A JBS é signatária de acordos com o Ministério Público Federal e com oGreenpeace, no qual se compromete a rastrear toda a carne que adquire da Amazônia. A investigação sobre o envolvimento destas empresa ainda está em curso.

Ramal madeireiro corta a floresta amazônica. Este é um dos primeiros estágios de degradação e exploração posto em prática pelas quadrilhas que agiam na região.Ramal madeireiro corta a floresta amazônica. Este é um dos primeiros estágios de degradação e exploração posto em prática pelas quadrilhas que agiam na região. Foto: MARCIO ISENSEE E SÁ

Graças ao trabalho conjunto com a Polícia, Receita e Ministério Público, foi possível acrescentar ao rol de crimes, além do ambiental, os de falsificação de documentos, formação de quadrilha e trabalho escravo. Esse conjunto propiciou a prisão de Jotinha. Crime de desmatamento, sozinho, literalmente não dá cadeia a ninguém. As penas em geral são baixas e, quando pego o desmatador em flagrante, sai mediante fiança.

Jotinha, ele mesmo, provavelmente nunca encostou a lâmina de uma motosserra em um tronco. Quando muito, são pegos destruindo a floresta os trabalhadores pobres, vindos de municípios pequenos do Norte e trabalhando em condições análogas à escravidão. “Foi a primeira vez que eu vi uma ação conjunta desmembrar todo o aparato de um grileiro de uma só vez”, afirma Luciano Evaristo.

“Esta operação descortinou como funciona a engrenagem do crime organizado no processo de ocupação da Amazônia”, acrescenta Higor Pessoa. Ele garante que as investigações sobre o caso continuarão até pelo menos o final deste ano. “Ainda haverá mais denúncias”, antecipa o procurador.

Jotinha segue preso na Penitenciária do Tremembé, em São Paulo. Um inquérito que apura sua ligação com uma tentativa de assassinato, arquivado por falta de provas, pode ser reaberto. Ele é acusado de comandar uma emboscada contra a trabalhadora sem-terra Dezuíta Assis Ribeiro Chagas, em maio de 2015, na região do interior de São Paulo, conhecida como Pontal do Paranapanema.

Essa reportagem foi originalmente publicada pelo ((o))eco, site feito pela ONG Associação O Eco, trabalho de uma rede de jornalistas e especialistas, muitos voluntários e outros que trabalham em tempo parcial.

Juliana Tinoco/ElPais

Cuidado com o pen drive ‘assassino’

tecnologiausb-killervirussegurancpainternetdadosEstá à venda um novo dispositivo que, ao ser conectado à porta USB de qualquer equipamento, destrói o aparelho.

Vivemos tempos incertos em relação à segurança de nossos equipamentos e à privacidade do usuário.

A ameaça vem agora na forma de um dispositivo, um pen drive aparentemente inocente que, no entanto, pode inutilizar qualquer computador de maneira definitiva em questão de segundos.

O dispositivo foi batizado com um nome bem sugestivo: USB Killer (assassino de USB); acaba de ser colocado à venda no mercado, e os estoques estão esgotados.
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Como esse dispositivo funciona exatamente? Do tamanho e formato de um pen drive, o USB Killer, quando conectado a uma porta USB, acumula parte da carga elétrica do próprio equipamento ao qual está conectado em capacitores e, em seguida, envia de volta essa carga de uma vez, danificando o computador.

Há duas más notícias neste particular dispositivo: a primeira é que repete esse ciclo de carregar e descarregar até que seja fisicamente desconectado do equipamento atacado, e a segunda é que qualquer dispositivo equipado com uma porta USB pode ser uma vítima potencial do USB Killer.

Seus criadores são um grupo de especialistas em segurança digital de Hong Kong e, aparentemente, a intenção do projeto é positiva. O USB Killer nasceu inicialmente, em 2015, como um dispositivo voltado para os fabricantes de computadores como uma ferramenta para checar a segurança dos produtos comercializados.

A ideia parecia nobre: a empresa venderia esses dispositivos de teste com o objetivo de permitir que os fabricantes reforçassem a segurança dos equipamentos, mas a verdade é que o interesse por eles diminuiu rapidamente, e hoje em dia, apenas um fabricante, a Apple, conta em seus computadores com um sistema que evita esse tipo de ataque.

“Pelo que pudemos verificar”, escrevem os criadores do USB Killer em seu blog, “à exceção da Apple, os demais fabricantes optaram por não proteger os seus usuários”. O projeto, que foi lançado com muita força e grandes perspectivas de futuro, veio subitamente por água abaixo com a aparente recusa por parte dos fabricantes de checar o grau de proteção apresentado por seus equipamentos com o uso desse dispositivo.

Esse grupo de empreendedores, porém, longe de jogar a toalha, decidiu promover uma virada inesperada: se os fabricantes os ignoravam, eles passariam essa ferramenta para as mãos dos próprios consumidores.

Acaba de ser lançado, e os estoques já estão esgotados

Mais uma vez, a abordagem parecia louvável: o próprio usuário poderia testar o seu equipamento para ver se ele é capaz de aguentar um ataque desse tipo. No entanto, parece evidente que nenhuma pessoa, em sã consciência, irá atacar os seus computadores para ver se o seu fabricante os protegeu ou não.

Enquanto se discute o aspecto ético deste empreendimento, seus criadores se adiantam às críticas argumentando que o seu produto visa a aprimorar a segurança e não a destruir equipamentos e comparando o seu eventual mau uso com o que se pode fazer com qualquer outro objeto, como “um martelo ou um tijolo”.

Os criadores se adiantam às críticas argumentando que seu produto visa a aprimorar a segurança e não a destruir equipamentos

De toda maneira, o USB Killer já está à venda a um preço de 49,95 euros (183 reais), embora os estoques não poderão ser repostos até meados deste mês. Resta saber se esse lançamento irá provocar alguma reação da parte dos fabricantes e se estes se disporão a proteger seus equipamentos diante desse tipo de ataque.
José Mendiola Zuriarrain/Elpais

Internet: Uma conexão 100 vezes mais rápida do que o wi-fi

A tecnologia li-fi, que utiliza a luz direta para transmitir dados, oferece umas conexões mais eficientes e seguras

Tecnologia WiFi,Blog do Mesquita,Internet

Um frigorífico que avisa a data de validade dos alimentos e uma escova de dentes que alerta sobre qualquer pequena cárie e marca automaticamente uma consulta ao dentista. Em 2023, calcula-se que existirão 22 milhões de dispositivos conectados à rede que revolucionarão a relação entre os objetos e as pessoas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) o chamou de “internet das coisas”. Seu desenvolvimento, entretanto, se choca com a saturação do espectro de radiofrequência das redes wi-fi. A popularização do uso de dispositivos permanentemente conectados obrigou a busca de novas soluções.

Uma conexão 100 vezes mais rápida do que o wi-fi

O cientista da Universidade de Edimburgo, Harold Haas, descobriu em 2011 que a luz de um só LED (diodo emissor de luz) era capaz de transmitir mais dados do que uma antena de telefonia. Os testes no laboratório conseguiram uma transferência de arquivos de até 224 gigabits por segundo. Isso significa baixar 18 filmes em um instante. Em 2019 estima-se que o tráfego mundial de dados aumentará até os 24,3 exabytes por mês (24,3 bilhões de gigabytes). O desenvolvimento de conexões por luz direta (também conhecida como li-fi) é somente o começo de uma revolução muito próxima.

Resolvida a saturação

A principal diferença com o wi-fi é que sendo os dois ondas eletromagnéticas para transportar os dados, o li-fi o faz através da luz visível e não por micro-ondas. Dessa maneira é resolvido o problema da saturação do espectro de radiofrequência que reduz a velocidade das conexões atuais. O obstáculo para a implantação das cidades inteligente já não existiria.

Ainda não é comercializado, mas já existem empresas que pretendem colocar no mercado soluções baseadas nessa tecnologia. Arturo Campos Fentanes, diretor da Sisoft, no México, conta por e-mail que já estão na fase de miniaturização de seus protótipos. Essa empresa tem três patentes de modelos de transmissão e comunicação através de diodos LED. “O problema está no hardware dos aparelhos, porque os processadores ainda não são tão rápidos para captar todos os pacotes de dados enviados pela luz visível”, explica. O custo é outra de suas vantagens porque não requer grandes instalações. O preço ficará entre 215 e 3.445 reais, dependendo do tipo de LED e chip.

Funciona como um código Morse avançado. Com a instalação de um modulador, qualquer LED seria capaz não só de fornecer luz, como também transmitir dados. Esses moduladores fazem com que a luz acenda e apague milhões de vezes por segundo criando os zeros e uns binários que cifram os dados. A oscilação é imperceptível ao olho humano, mas não para fotodiodos colocados nos celulares e computadores que se encarregarão de captar as mudanças de luz e interpretá-las para transformá-las em informação. Dessa forma, toda a rede de iluminação de uma casa se transformaria assim em um grande roteador com múltiplos pontos de conexão dos gadgets.

Isso não significa, porém, o fim do wi-fi. O projeto prevê, em princípio, somente o recebimento de informação (unidirecional), mas os cientistas afirmam que conseguir não só, por exemplo, receber um e-mail como também enviá-lo, seria tão simples como colocar um emissor de luz no dispositivo (bidirecional). A ideia é que os dois sistemas coexistam para conseguir conexões mais eficientes e seguras.

E a transmissão de dados por luz direta limita seu raio de ação ao local em que o emissor e o receptor se encontram. Nenhuma pessoa pode interferir no sinal, como é possível fazer através das micro-ondas. Essa ausência de interferências favorece a instalação nos hospitais – na Coreia do Sul existe um projeto para eliminar todo o cabeamento de determinadas máquinas – e nos aviões. As utilidades são tantas quanto a mente possa imaginar.

Teste piloto

O desenvolvimento desta tecnologia tinha sido paralisado pela impossibilidade de se conseguir, em ambientes reais, uma velocidade de transmissão de dados tão superior à do wi-fi. Nestes últimos meses, no entanto, conseguiu-se implantar com sucesso, de forma piloto, em um escritório. Isso representa um salto qualitativo ao se obter velocidades de um gigabit por segundo. Ou seja, 100 vezes superior à velocidade média oferecida pelo wi-fi. “É um passo muito importante, porque o principal problema que encontramos em ambientes reais são as interferências, como, por exemplo, a luz natural”, comenta Ana García Armada, catedrática de Teoria do Sinal e Comunicações da Universidade Carlos III de Madri.

A implantação comercial exige um redesenho de muitos dos equipamentos emissores e receptores existentes, apesar de os cientistas trabalharem para que, por exemplo, a câmera de qualquer smartphone possa servir para decifrar o sinal da luz. As empresas de telecomunicações, como a Vodafone, admitem estar acompanhando com atenção seu progresso para avaliar as vantagens potenciais.

UMA GERAÇÃO DE CARROS INTELIGENTES

A tecnologia li-fi revolucionará também a forma de circular. Um projeto espanhol está desenvolvendo um protótipo de modulador que dará acesso à internet sem fio por meio dos postes de iluminação pública. “Estamos em uma etapa inicial, mas esperamos que em alguns anos possa ser uma realidade comercial”, afirma a catedrática García Armada, que participa do projeto.

A iluminação das rodovias se transformará em uma imensa rede de conexão. Os veículos inteligentes poderão se comunicar entre si por meio dos faróis de LED. Neste caso, ao ter ambos emissores de luz direta, pode-se estabelecer uma interação bidirecional. Entre as funcionalidades estão a de evitar acidentes ao detectar-se automaticamente uma brusca redução de velocidade do veículo que circula à frente.
Carlos Santana/ElPaís

Linguagem de programação: o novo curso de idioma das escolas

São José dos Campos entra na corrida global para atrair alunos para o novo campo

Alunos em escola de São José dos Campos.
Alunos em escola de São José dos Campos. PMSJC 

Considerado um dos maiores inimigos do aprendizado na escola, o celular é geralmente banido da sala de aula por causar dispersão e falta de atenção. Mas é cada vez mais difícil separar os jovens de seus aparelhos móveis, dispositivos que manejam com destreza desde os primeiros anos escolares.

Para aproveitar a proximidade dos estudantes com as novas tecnologias, algumas escolas estão incentivando o aprendizado de programação em sala. A escola municipal Elizabete de Paula Honorato, na periferia de São José dos Campos, vem implementando um laboratório de robótica, games e realidade aumentada a pedido dos próprios alunos, com recursos levantados por meio do Projeto Escola Interativa, programa da prefeitura que tem como objetivo equipar as 119 escolas da rede com infraestrutura tecnológica.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]
A iniciativa busca aproveitar o potencial econômico da cidade, que abriga um dos maiores parques tecnológicos do país, onde se localizam mais de 300 empresas e instituições do setor. Por meio do projeto, a escola já recebeu o kit de notebooks, tablets, projetores interativos e acesso a rede wi-fi, para que alunos e professores acessem o conteúdo de bibliotecas virtuais públicas no mundo todo.

Um dos alunos que motivaram a criação do laboratório na escola é Leonardo Henrique Garcia, de 12 anos, que na sétima série começou a programar jogosporque, um dia, descobriu um link diferente dentro do site gratuito que os professores lhe indicaram como referência de estudos, a plataforma Khan Academy (que reúne uma vasta biblioteca virtual de conteúdo referente ao ensino fundamental e médio).

Navegando pela plataforma, entrou em um link sobre computação e, em seguida, sobre linguagem de programação, como Scratch (do MIT) e Java Script. Quando se deu conta, estava criando jogos de raciocínio lógico, pois matemática é a aula que ele mais gosta. “Passo bastante tempo jogando no computador. Desenvolver jogos virou um hobby para mim. Ainda não sei se quero trabalhar com isso, mas gosto muito”, conta o tímido aluno.

Os professores perceberam que Leonardo tinha talento para tecnologia quando conseguiu resolver, com linguagem de programação, um problema técnico que impedia que o blog da escola, criado por um grupo de alunos há alguns anos, fosse atualizado

Os professores perceberam que Leonardo tinha talento para tecnologia quando conseguiu resolver, com linguagem de programação, um problema técnico que impedia que o blog da escola, criado por um grupo de alunos há alguns anos, fosse atualizado. Hoje, o aluno coordena o conteúdo da página, atividade que realiza em paralelo a outro blog que mantém, de dobraduras.

Ele também foi escolhido para ser um dos monitores do Laboratório de Educação Digital e Interativa (Ledi), um projeto desenvolvido pela prefeitura da cidade que reúne, em um prédio exclusivo no centro, atividades de computação, programação, audiovisuais e robótica.

Aos 12 anos, Leonardo começou a desenvolver jogos de computador
Aos 12 anos, Leonardo começou a desenvolver jogos de computador PMSJC 

O Ledi também faz parte do projeto Escola Interativa e foi inaugurado este ano. O centro é aberto para a comunidade e para os 60 mil alunos da rede de ensino, e oferece aulas gratuitas de programação e oficinas de computação.

Lá, Leonardo colaborou, junto com um grupo de alunos da rede e de estagiários, todos vindos de graduações tecnológicas de universidades do local, para o desenvolvimento de um jogo educativo que será utilizado em sala nas escolas da cidade, o Sanja Runner – Sanja é como os habitantes se referem a São José dos Campos.

O jogo ensina história, geografia e até matemática por meio de um roteiro elaborado pelos desenvolvedores do Ledi. “Um menino faz a lição de casa, que é sobre os pontos históricos de Sanja, e, cansado, acaba dormindo sobre as anotações. Quando acorda, nota que o trabalho sumiu. Seu cachorro pegou e saiu correndo pela cidade. O personagem precisa recuperar a lição. A cada folha recuperada, uma informação sobre a história do município aparece na tela para o jogador.

Para passar para uma nova fase, o aluno precisa responder a um quiz sobre aquilo que aprendeu”, explica Yoji Kojio, de 24 anos, aluno de ciências da computação da Unifesp e estagiário do Ledi. O game, lançado no final de junho, é uma espécie de Sonic e Mário World educativo e já virou sucesso entre os alunos.

Cenário do Sanja Runner.
Cenário do Sanja Runner. PMSJC 

“A tecnologia está presente na vida dos jovens e já mudou a forma como os alunos interagem e aprendem em sala. Nada mais razoável do que incentivar essas habilidades e aproveitá-las em um modelo de ensino que se torna cada vez mais multidisciplinar”, afirma o vice-diretor da escola Elizabete Honorato, Pablo Jacinto de Oliveira.

No colégio, estão matriculados hoje 1.200 alunos do ensino fundamental e da EJA, ensino de jovens e adultos. Segundo o gestor, a maioria tem até mais de um celular. “As escolas precisam se adaptar às novas demandas de ensino, treinando professores e abrindo oportunidades de aprendizado com ferramentas interativas.

Não apenas por causa do mercado de trabalho, mas também porque os alunos se sentem mais motivados quando utilizamos ferramentas que já fazem parte do dia a dia deles”, complementa.
ElPaís

Saiba como é a vida dentro de uma fábrica de iPhones na China

Quem conhece um pouco da indústria de tecnologia sabe que praticamente tudo é produzido na China.