O discurso do ódio que está envenenando o Brasil

O discurso do ódio que está envenenando o Brasil

Um jovem protesta contra a feminista Judith Butler, o dia 8 de novembro passado em São Paulo.

A caça às bruxas de grupos radicais contra artistas, professores, feministas e jornalistas se estende pelo país. Mas as pesquisas dizem que os brasileiros não são mais conservadores

Artistas e feministas fomentam a pedofilia. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o bilionário norte-americano George Soros patrocinam o comunismo. As escolas públicas, a universidade e a maioria dos meios de comunicação estão dominados por uma “patrulha ideológica” de inspiração bolivariana. Até o nazismo foi invenção da esquerda. Bem-vindos ao Brasil, segunda década do século XXI, um país onde um candidato a presidente que faz com que Donald Trump até pareça moderado tem 20% das intenções de voto.

 

No Brasil de hoje mensagens assim martelam diariamente as redes sociais e mobilizam exaltados como os que tentaram agredir em São Paulo a filósofa feminista Judith Butler, ao grito de “queimem a bruxa”. Neste país sacudido pela corrupção e a crise política, que começa a sair da depressão econômica, é perfeitamente possível que a polícia se apresente em um museu para apreender uma obra. Ou que o curador de uma exposição espere a chegada da PF para conduzi-lo a depor forçado ante uma comissão parlamentar que investiga os maus-tratos à infância.

“Isto era impensável até três anos atrás. Nem na ditadura aconteceu isto.” Depois de uma vida dedicada a organizar exposições artísticas, Gaudêncio Fidelis, de 53 anos, se viu estigmatizado quase como um delinquente. Seu crime foi organizar em Porto Alegre a exposição QueerMuseu, na qual artistas conhecidos apresentaram obras que convidavam à reflexão sobre o sexo. Nas redes sociais se organizou tal alvoroço durante dias, com o argumento de que era uma apologia à pedofilia e à zoofilia, que o patrocinador, o Banco Santander, ante a ameaça de um boicote de clientes, decidiu fechá-la. “Não conheço outro caso no mundo de uma exposição destas dimensões que tenha sido encerrada”, diz Fidelis.

O calvário do curador da QueerMuseu não terminou com a suspensão da mostra. O senador Magno Malta (PR-ES), pastor evangélico conhecido por suas reações espalhafatosas e posições extremistas, decidiu convocá-lo para depor na CPI que investiga os abusos contra criança. Gaudêncio se recusou em um primeiro momento e entrou com um pedido de habeas corpus no STF que foi parcialmente deferido. Magno Malta emitiu então à Polícia Federal um mandado de condução coercitiva do curador. Gaudêncio se mostrou disposto a comparecer, embora entendesse que, mais que como testemunha, pretendiam levá-lo ao Senado como investigado. Ao mesmo tempo, entrou com um novo pedido de habeas corpus no Supremo para frear o mandado de conduçãocoercitiva. A solicitação foi indeferida na sexta-feira passada pelo ministro Alexandre de Moraes. Portanto, a qualquer momento Gaudêncio espera a chegada da PF para levá-lo à força para Brasília.

“O senador Magno Malta recorre a expedientes típicos de terrorismo de Estado como meio de continuar criminalizando a produção artística e os artistas”, denuncia o curador. Ele também tem palavras muito duras para Alexandre de Moraes, até há alguns meses ministro da Justiça do Governo Michel Temer, por lhe negar o último pedido de habeas corpus: “A decisão do ministro consolida mais um ato autoritário de um estado de exceção que estamos vivendo e deve ser vista como um sinal de extrema gravidade”. Fidelis lembra que o próprio Ministério Público de Porto Alegre certificou que a exposição não continha nenhum elemento que incitasse à pedofilia e que até recomendou sua reabertura.

Entre as pessoas chamadas à CPI do Senado também estão o diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo e o artista que protagonizou ali uma performance em que aparecia nu. Foi dias depois do fechamento do QueerMuseu e os grupos ultraconservadores voltaram a organizar um escândalo nas redes, difundindo as imagens de uma menina, que estava entre o público com sua mãe e que tocou no pé do artista. “Pedofilia”, bramaram de novo. O Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito e o próprio prefeito da cidade, João Doria (PSDB), se uniu às vozes escandalizadas.

Se não há nenhum fato da atualidade que justifique esse tipo de campanha, os guardiões da moral remontam a muitos anos atrás. Assim aconteceu com Caetano Veloso, de quem se desenterrou um velho episódio para recordar que havia começado um relacionamento com a que depois foi sua esposa, Paula Lavigne, quando ela ainda era menor de idade. “#CaetanoPedofilo” se tornou trending topic. Mas neste caso a Justiça amparou o músico baiano e ordenou que parassem com os ataques.

A atividade de grupos radicais evangélicos e de sua poderosa bancada parlamentar (198 deputados e 4 senadores, segundo o registro do próprio Congresso) para desencadear esse tipo de campanha já vem de muito tempo. São provavelmente os mesmos que fizeram pichações recentes no Rio de Janeiro com o slogan “Bíblia sim, Constituição, não”. Mas o verdadeiramente novo é o aparecimento de um “conservadorismo laico”, como o define Pablo Ortellado, filósofo e professor de Gestão de Políticas Públicas da USP. Porque os principais instigadores da campanha contra o Queermuseu não tinham nada a ver com a religião. O protagonismo, como em muitos outros casos, foi assumido por aquele grupo na faixa dos 20 anos que há um ano, durante as maciças mobilizações para pedir a destituição da presidenta Dilma Rousseff, conseguiu deslumbrar boa parte do país.

Com sua desenvoltura juvenil e seu ar pop, os rapazes do Movimento Brasil Livre(MBL) pareciam representar a cara de um país novo que rejeitava a corrupção e defendia o liberalismo econômico. Da noite para o dia se transformaram em figuras nacionais. Em pouco mais de um ano seu rosto mudou por completo. O que se apresentava como um movimento de regeneração democrática é agora um potente maquinário que explora sua habilidade nas redes para difundir campanhas contra artistas, hostilizar jornalistas e professores apontados como de extrema esquerda ou defender a venda de armas. No intervalo de poucos dias o MBL busca um alvo novo e o repisa sem parar. O mais recente é o jornalista Guga Chacra, da TV Globo, agora também  classificada de “extrema esquerda”. O repórter é vítima de uma campanha por se atrever a desqualificar -em termos muito parecidos aos empregados pela maioria dos meios de comunicação de todo o mundo-, 20.000 ultradireitistas poloneses que há alguns dias se manifestaram na capital do pais exigindo uma “Europa branca e católica”.

Além de sua milícia de internautas, o MBL conta com alguns apoios de renome. Na política, os prefeitos de São Paulo, João Doria, e de Porto Alegre, Nelson Marchezan Jr., assim como o até há pouco ministro das Cidades, Bruno Araújo, os três do PSDB. No âmbito intelectual, filósofos que se consideram liberais, como Luiz Felipe Pondé. Entre os empresários, o dono da Riachuelo, Flávio Rocha, que se somou aos ataques contra os artistas com um artigo na Folha de S. Paulo no qual afirmava que esse tipo de exposição faz parte de um “plano urdido nas esferas mais sofisticadas do esquerdismo”. O objetivo seria conquistar a “hegemonia cultural como meio de chegar ao comunismo”, uma estratégia diante da qual “Lenin e companhia parecem um tanto ingênuos”, segundo escreveu Rocha em um artigo intitulado O comunista está nu.

“Não é algo específico do Brasil”, observa o professor Pablo Ortellado. “Este tipo de guerras culturais está ocorrendo em todo o mundo, sobretudo nos EUA, embora aqui tenha cores próprias”. Um desses elementos peculiares é que parte desses grupos, como o MBL, se alimentou das mobilizações pelo impeachment e agora “aproveita os canais de comunicação então criados, sobretudo no Facebook”, explica Ortellado. “A mobilização pelo impeachment foi transversal à sociedade brasileira, só a esquerda ficou à margem. Mas agora, surfando nessa onda, criou-se um novo movimento conservador com um discurso antiestablishment e muito oportunista, porque nem eles mesmos acreditam em muitas das coisas que dizem”. A pauta inicial, a luta contra a corrupção, foi abandonada “tendo em vista de que o atual governo é tão ou mais corrupto que o anterior”. Então se buscaram temas novos, desde a condenação do Estatuto do Desarmamento às campanhas morais, que estavam completamente ausentes no início de grupos como o MBL e que estão criando um clima envenenado no país. “É extremamente preocupante. Tenho 43 anos e nunca tinha vivido uma coisa assim”, confessa Ortellado. “Nem sequer no final da ditadura se produziu algo parecido. Naquele momento, o povo brasileiro estava unido.”

O estranho é que a intensidade desses escândalos está oferecendo uma imagem enganosa do que na realidade pensa o conjunto dos brasileiros. Porque, apesar desse ruído ensurdecedor, as pesquisas desmentem a impressão de que o país tenha sucumbido a uma onda de ultraconservadorismo. Um estudo do instituto Ideia Big Data, encomendado pelo Movimento Agora! e publicado pelo jornal Valor Econômico, revela que a maioria dos brasileiros, em cifras acima dos 60%, defendem os direitos humanos, inclusive para bandidos, o casamento gay com opção de adotar crianças e o aborto. “Em questões comportamentais, nada indica que os brasileiros tenham se tornado mais conservadores”, reafirma Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Os dados de seu instituto também são claros: os brasileiros que apoiam os direitos dos gays cresceram nos últimos quatro anos de 67% para 74%. Paulino explica que “sempre houve um setor da classe média em posições conservadoras” e que agora “se tornou mais barulhento”.

As investigações do Datafolha só detectaram um deslocamento para posições mais conservadoras em um aspecto: segurança. “Aí sim há uma tendência que se alimenta do medo crescente que se instalou em parte da sociedade”, afirma Paulino. Aos quase 60.000 assassinatos ao ano se somam 60% de pessoas que confessam viver em um território sob controle de alguma facção criminosa. Em quatro anos, os que defendem o direito à posse de armas cresceu de forma notória, de 30% a 43%. É esse medo o que impulsiona o sucesso de um candidato extremista como Jair Bolsonaro, que promete pulso firme sem contemplações contra a delinquência.

Causou muito impacto a revelação de que 60% dos potenciais eleitores de Bolsonaro têm menos de 34 anos, segundo os estudos do instituto de opinião. Apesar de que esse dado também deve ser ponderado: nessa mesma faixa etária, Lula continua sendo o preferido, inclusive com uma porcentagem maior (39%) do que a média da população (35%). “Os jovens de classe média apoiam Bolsonaro, e os pobres, Lula”, conclui Paulino. Diante da imagem de um país muito ideologizado, a maioria dos eleitores se move na verdade “pelo pragmatismo, seja apoiando os que lhe prometem segurança ou em alguém no que acreditam que lhes vai garantir que não perderão direitos sociais”.

Apesar de tudo, a ofensiva ultraconservadora está conseguindo mudar o clima do país e alguns setores se dizem intimidados. “O profundo avanço do fundamentalismo está criando um Brasil completamente diferente”, afirma Gaudêncio Fidelis. “Muita gente está assustada e impressionada.” Um clima muito carregado no qual, em um ano, os brasileiros deverão escolher novo presidente. O professor Ortellado teme que tudo piore “com uma campanha violenta em um país superpolarizado”.

     

 

Vitória de Crivella no Rio, a ponta de lança do projeto político da Igreja Universal

Influente membro da terceira igreja evangélica mais numerosa do Brasil governará a cidade-vitrine do país.

Crivella eleito para a prefeitura do Rio nas eleições 2016O novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Foto:YASUYOSHI CHIBA AFP

O Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, sede dos últimos Jogos Olímpicos e do Carnaval mais famoso do mundo, acaba de eleger prefeito o líder evangélico Marcelo Crivella, de 59 anos. Sua vitória, com 59,37% dos votos decide uma eleição que levou ao segundo turno as duas faces do Brasil de hoje.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Em um extremo estava o modelo conservador encarnado por Crivella, senador desde 2002, engenheiro, cantor gospel de sucesso, defensor da teoria criacionista, evangelizador na África e ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, a terceira com mais fiéis do Brasil, fundada por seu tio Edir Macedo, que controla a segunda maior rede de TV do Brasil, a Record.

No outro, Marcelo Freixo, um professor de história, de 49 anos, deputado estadual e defensor da legalização do aborto e das drogas, que encarnou a resistência das forças de esquerda em plena crise do Partido dos Trabalhadores, da ex-presidenta Dilma Rousseff, destituída do poder há apenas dois meses. Para além dos espectros ideológicos irreconciliáveis, os programas de ambos os candidatos divergiam em alguns pontos, como a participação da iniciativa privada na gestão da cidade, que Crivella defende.

A folgada vitória de Crivella, do Partido Republicano Brasileiro (PRB), braço político de sua igreja, foi impulsionada pelo eleitorado evangélico, que representa um terço dos quase 4,9 milhões de votantes, e pelos eleitores mais pobres e menos instruídos. Crivella, que disputava sua terceira eleição a prefeito da cidade e já tentara se tornar governador em 2006 e 2014, atraiu também os votos de seus aliados políticos de centro e direita, como Índio da Costa (PSD) e Carlos Osório (PSDB) e a maioria dos vereadores eleitos pelo PMDB, e da direita radical, representada por Flávio Bolsonaro (PSC).

Freixo, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), paradoxalmente, contou com o apoio das classes mais ricas e educadas, assim como dos mais jovens. Os grandes vencedores, porém, foram a abstenção (26,85%) e os votos brancos (4,18%) e nulos (15,90%). A ressaca da crise política, os escândalos de corrupção e o longo processo de destituição de Rousseff se traduziram em desânimo nestas eleições municipais. Apesar de o voto ser obrigatório no Brasil, a abstenção já tinha sido a protagonista no primeiro turno no Rio e em outras grandes capitais, onde os candidatos mais votados não conseguiram superar a soma dos votos não dados.

No seu primeiro discurso como prefeito, Crivella agradeceu a Deus, sua família, seus aliados e até a Igreja Católica. “Aquele que se elege é apenas um representante de todos os que lutaram junto para que nosso projeto pudesse alcançar o coração dos nossos eleitores. É um momento de imensa emoção, sobre todo para mim que já vinha tentando ser prefeito do Rio em varias ocasiões. O momento em que saiu o resultado foi insquecível”, disse acompanhado da esposa e dezenas de militantes.

Crivella criticou, mais uma vez, a imprensa que, segundo ele, orquestrou uma campanha contra sua candidatura. Nos bastidores, na verdade, há também uma luta de poder entre a TV da Igreja Universal, a TV Record, e sua principal concorrente, a TV Globo. “Vencemos uma onda enorme de preconceitos, por parte de uma mídia facciosa que se opôs à nossa campanha”, diz Crivella.

Uma vitória sem precedentes

Crivella na prefeitura da segunda cidade mais populosa do Brasil é uma conquista sem precedentes para os evangélicos. As igrejas evangélicas estão em expansão no Brasil: o número cresceu 61% entre 2000 e 2010. Seus pastores já concentram poder no Legislativo –são 80 parlamentares, 14% a mais do que na última legislatura–, mas têm, até agora, pouco peso em cargos executivos.

O novo prefeito, que se empenhou durante toda a campanha em suavizar seu papel em uma igreja que demoniza outras religiões e vê a homossexualidade como um pecado terrível, promete não misturar religião com política. No entanto, Crivella já declarou anos atrás que trocou o altar pela política por determinação de sua igreja e que algum dia o Brasil teria um presidente evangélico. “E, então, queridos irmãos”, disse a um grupo de pastores em 2011, “poderemos ser a igreja evangelizadora dos últimos dias e levar o evangelho a todas as nações da terra”.

Agora deverá demonstrar com sua gestão e suas indicações que seu gabinete ficará afastado do púlpito. Entre os nomes que têm se discutido para ocupar as secretárias de Crivella está o do cientista político e editor César Bejamin, para a pasta de Educação, Carlos Osório, candidato derrotado do PSDB, na secretaria de Transportes, e Índio da Costa na Casa Civil, embora ele prefira a secretária da Saúde.

Crivella deve enfrentar o enorme desafio do Rio pós-olímpico. A cidade, de mais de seis milhões de habitantes, enfrenta depois dos Jogos um brusco aumento do desemprego e sofre os reflexos da grave crise financeira vivida pelo país e, sobretudo, o Estado do Rio, em áreas fundamentais como segurança e saúde.

Os cariocas precisam também de itens básicos como saneamento, ruas que não se tornem rios na época das chuvas, moradia social e ônibus com ar condicionado em verões que ultrapassam os 45 graus. O Rio precisa também projetar-se como destino de turismo internacional, não só de visitantes, mas de empresários e eventos esportivos, para rentabilizar as milionárias obras e as mais de 50.000 vagas de hotel com as que a cidade chegou à maior festa esportista do mundo.
Maria Martín/ElPais

“Só as polícias não darão conta das duas facções”, diz ex-líder do Comando Vermelho

Ex-traficante, agora pastor, prevê mais mortes nas cadeias e reflexo nas ruas com fim de pacto

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Quem assiste o pastor Aldidudima Salles, 53, pregando o evangelho com uma bíblia debaixo do braço não imagina que ele participou da fuga mais ousada da história do sistema carcerário brasileiro.

Em 31 de dezembro de 1985, ele, então conhecido como Ligeirinho, uma das lideranças do Comando Vermelho, estava no helicóptero que pousou no pátio do presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, para resgatar José dos Carlos Reis Encina, vulgo Escadinha, fundador da organização.
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Fora do crime e convertido há 31 anos, Salles, que admite ter cometido mais de 26 homicídios e diz ter comandado mais de 6.000 traficantes no Rio de Janeiro, é taxativo ao falar sobre o fim da paz entre o Primeiro Comando da Capital e o CV, desencadeada após rebeliões em presídios no domingo: “Vai haver guerra”, disse ele, que sugeriu que as ações das polícias podem ser insuficientes para conter a reverberação do problema.

A frase soa dramática, mas não é muito distinta da dita pelo secretário da Administração Penitenciária de São Paulo, Lourival Gomes, que disse ao site G1 nesta terça-feira que “a guerra recomeçou” _ainda que tenha frisado que, à diferença de outros Estados, não há “nenhuma insegurança” em São Paulo.
Pergunta. Você acha possível que o Comando Vermelho e o PCC retomem seu pacto de aliança?

Resposta. É difícil um acordo a essa altura, a não ser que os chefões das duas facções tentem controlar isso. Mas é difícil haver um acordo depois das mortes que ocorreram nos presídios de Roraima e Rondônia. Ainda mais naquelas circunstâncias [dia de visita, considerado o mais importante para os presos].

P. O que pode ter causado o rompimento?

R. Quando aconteceu a morte do rei da fronteira, o Rafaat [Jorge Rafaat Toumani, traficante assassinado em Juan Caballero, fronteira do Brasil com Paraguai, em junho deste ano], eu comentei que aquilo não ia dar boa coisa. Ele foi morto pelo PCC e pelo CV [há versões de que foi apenas o PCC que atuou na ação e outra de que foi uma ação conjunta, com posterior batalha pelo domínio da rota deixada pelo traficante]. É experiência de ter vivido dentro de uma facção. Eu acho que romperam por luta de poder: o CV não aceita receber ordem. O PCC idem. Então deve ter havido essa separação por um querer mandar mais que o outro. E no final de contas, o dinheiro sempre fala mais alto.

P. O que deve acontecer agora?

R. Eu acredito que não vai ficar barato, que vai ter uma guerra. Se o Governo Federal não colocar o Exército na rua, não vai ter jeito. Só as policias civil e militar dos Estados não dão conta de lidar com duas facções desse porte, com esse tipo de armamento que eles têm. E muita gente vai morrer.

P. E a situação das cadeias, você acha que acontecerão mais mortes?

R. Não acho, tenho certeza de que terão mais mortes nas cadeias. Se a Justiça não abrir o olho para controlar agora, pode ser que amanhã seja tarde.

P. Você mencionou o Rafaat. Na sua época de CV as conexões internacionais já eram importantes para o tráfico?

R. Naquela época as conexões internacionais já eram fundamentais. A droga entrava pelas fronteiras, Colômbia, Paraguai. Bolívia e Peru. Buscávamos de avião monomotor, voando bem baixo para não ser pego pelo radar. Fui treinado por Pablo Escobar Gaviria em Medellín, na Colômbia. O treinamento que recebi dele foi para mexer com droga, fazer ela render, dar mais dinheiro.

P. Quando você era do CV, a facção tinha alguma relação com criminosos paulistas?

R. Na minha época não existia PCC. Tinham traficantes de São Paulo para quem a gente repassava droga.

P. O CV de hoje em dia é diferente da facção da sua época?

R. Quando nós começamos o CV, nosso estatuto, era bem diferente. Tínhamos normas que eram cumpridas. Hoje em dia não tem mais norma, não. Respeitávamos pai e mãe, não violentávamos ninguém, não assaltávamos pobres… Não concordávamos com esse tipo de coisa. Nosso foco era droga e assalto a banco. Hoje se mata por cem reais, por um par de tênis.
ElPais

Igreja evangélica fundada por mulheres homossexuais

Igreja evangélica fundada por mulheres homossexuais no centro de São Paulo quer acolher ” escorraçados pela intolerância”

Pastora Rosania Rocha (à esq.) e a missionária Lanna Holder

Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

Lanna Holder, a ex-lésbica, ex-drogada e ex-alcoólotra pregadora evangélica, era a prova cabal do poder curador de Deus na vida dos que nele creem.

Pois foi só se converter ao evangelho, e Lanna, então com 20 anos, deixou para trás um pelotão de namoradas suspirantes e as noitadas movidas a cocaína e hectolitros de álcool, consumidos diariamente.

“Centenas de ministérios disputavam “a tapas” a presença da carismática Lanna em seus púlpitos.

Em pouco tempo, ela se transformou em uma espécie de “avatar da sorte” para quem quisesse manter sua congregação lotada”, escreve um pastor, a respeito da hoje desafeta.

Lanna subia ao altar e contava com voz de contralto como o milagre ocorrera em sua vida “dissoluta”.

A apoteose era quando apresentava o maridão emocionado e o filho. O templo vinha abaixo.

Dezesseis anos depois da conversão, a campeã da fé, agora com 36 anos, acaba de abrir uma nova igreja evangélica em São Paulo, a Comunidade Cidade de Refúgio, no centro de São Paulo.

Surpresa: em vez dos testemunhos de como se curou da “praga gay”, Lanna Holder rendeu-se à homossexualidade.

Ela tem até uma companheira na empreitada, a pastora e cantora gospel Rosania Rocha, 38.

As duas estão juntas há cinco anos, desde que largaram os maridos e oficializaram seus divórcios.

No tempo em que era o troféu da fé, Lanna lidou com o que hoje chama de “culpa extrema”. “Eu pregava o que desejava que acontecesse comigo”, diz.

Para evitar reincidir, mortificou a carne com jejuns e subidas e descidas de montes, em uma espécie de cooper -para cansar mesmo.

Participou de “campanhas de libertação” todas as quartas-feiras, incluindo rituais de quebra de maldição e cura interior.

Por fim, submeteu-se a sessões de “regressão ao útero materno”, nos moldes preconizados no início do século 20 pelo terapeuta Otto Rank (1884-1939). “Não deu certo”, ela diz.

Chamada para pregar em Boston, nos EUA, bastou encontrar os olhos claros da mineira Rosania para todo o “trabalho” naufragar. Rosania também se apaixonou.

Elas pediram ajuda aos pastores, oraram muito para evitar. Ficaram quase um ano sem se ver. Mas não deu.

Depois de um acidente de carro que lhe deslocou da bacia o fêmur direito, esmagou-lhe o pulmão, causou trauma cardíaco, fratura em quatro costelas e dilaceração do fígado -hoje, uma grossa cicatriz de 0,6 metro de comprimento cruza todo o tronco de Lanna-, as duas resolveram, enfim, viver juntas.

Sobre os pastores que as acusam de criarem um lugar de culto a Satanás, uma filial de Sodoma e Gomorra, as duas líderes religiosas dizem apenas: “A nossa igreja é de Cristo, não é de lésbicas ou gays.

Mas queremos deixar claro que somos um refúgio, acolhemos todos os machucados e feridos, todos os que foram escorraçados pela intolerância”.

No primeiro dia, a nova igreja juntou 300 pessoas.

Laura Capriglione/Folha de S. Paulo

Inacreditável: Deputado vê maldição na África e podridão em gays

Deputado Pastor(?) Marco Feliciano

Quando você acha que nada de mais baixo que a sarjeta o ser humano é capaz de freqüentar, sempre surge alguém capaz de surpreender. Para pior.

E o mais terrível é quando quem chapinha nas proximidades do esgoto do caráter humano é alguém que se diz pastor.
Que tipo de ovelhas integra tal rebanho?

Quem seguirá tais pregações permeadas, subliminarmente pelo ódio e a discriminação?

Ao pastor é recomendável uma leitura na Bíblia, em Ezequiel 18,20: […] “não existe maldição hereditária” […]

O Editor


Jair Bolsonaro (PP-RJ) não está só. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) despejou no twitter frases que convertem o inaceitável em inacreditável.

Coisas assim: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato…”

Ou assim: “A maldição que Noé lança sobre seu neto, Canaã, respinga sobre continente africano, daí a fome, pestes, doenças, guerras étnicas!”

Mais ainda: “A podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, à rejeição”.

Os comentários correram a web. Houve pronta reação. Internautas inconformados trovejaram mensagens no microblog do deputado.

Muitos o compararam a Bolsonaro. E ele: “Quanto ao deputado Bossonaro, não sei o que ele falou. Eu falo por mim e respondo por mim e apenas por mim”.

Tacharam-no de racista. E Feliciano: “Repudio, e espero retratação dessa banda podre que permeia o twitter! Eu seria contra a minha mãe caso fosse racista!”

Qualificaram-no de homofóbico. E o deputado: “Bora cristãos! […] Retuitem isso: Amamos os homossexuais mas abominamos suas práticas promíscuas![ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Como a reação não cessou, Feliciano, que se apresenta como pastor da igreja Assembléia de Deus, produziu um texto maior.

Pendurou-o no sítio que mantém na internet. Dividiu-o em três pedaços: “explanação”, “explicação” e “denúncia”.

Quem lê a peça, disponível aqui, se dá conta de que o deputado-pastor acredita mesmo no que diz. Pior: ele atribui seu ideário ao Padre Eterno.

Escorando-se em trechos pinçados do Livro dos livros, Feliciano reitera:

“Bem, citando a Bíblia e a história, a veracidade sobre a postagem [no twitter]: Africanos descendem de Cão, filho de Noé”.

Mais adiante, acrescenta: “Como Cristãos, cremos em bençãos e, portanto, não podemos ignorar as maldições”.

A alturas tantas, o deputado faz uma concessão à gente negra da África:

“Também cremos que toda vez que o homem, a familia, o país, entrega os seus caminhos ao Senhor, toda maldição é quebrada na cruz de Cristo!…”

“…Tem ocorrido isso no continente africano. Milhares de africanos têm devotado sua vida a Deus e por isso o peso da maldição tem sido retirado…”

Na parte final de seu texto, o pedaço dedicado à “denúncia”, Feliciano se diz perseguido desde a campanha eleitoral de 2010.

A coisa começou, conta ele, quando apresentou “ao povo evangélico” as leis que tramitavam na Câmara.

Citou o projeto de lei 122, que criminaliza a homofobia. “Comecei a receber ataques, ameaças, xingamentos, e outras coisas mais que não vale a pena citar aqui”.

Feliciano apresenta suas credenciais: “Sou o deputado evangélico mais votado do País”.

O deputado identifica o rival: “No twitter existe um grupo de homoafetivos que deturpam tudo o que digo, e dessa vez foram longe demais!”

Ele faz um chamamento à sua tribo: “Alerta à comunidade evangélica! Estamos sob fogo cruzado!…”

“…É preciso uma ação coletiva de repúdio a esses ataques e a essas infames insinuações. Isso pode provocar o ódio, a cólera, a ira, e sabe Deus o que mais…”

“…Recebi uma mensagem de ameaça de morte dizendo que estou na lista ao lado de pastores como Silas Malafaia e outros”.

Em letras maísculas, o deputado anota: “NÃO SOU HOMOFÓBICO”. Heimmm?!?! “O que as pessoas fazem nos seus quartos não é do meu interesse…”

“…Sou contra a promiscuidade que fere os olhos de nossos filhos, quer seja na rua, nos impressos, na net ou na TV”.

De novo, em maísculas: “NÃO SOU RACISTA!” Como assim? “Sou Brasileiro com um sangue miscigenado por africanos, índios e europeus. SOU CRISTÃO, sim Senhor”.

No final, Feliciano pede “oração a todo o povo cristão brasileiro, os que lutam pela família, os que amam ao Senhor”.

Bolsonaro está sob risco. Se não se cuidar, perderá suas bandeiras. O colega Marco Feliciano revela-se um pós-Bolsonaro. Em verdade, um pós-tudo.

Espanta que esteja na Câmara. Espanta ainda mais que tenha sido levado a Brasília pelo voto.

Deus, obviamente, existe. Mas o deputado Feliciano é a prova de que Ele já não dá expediente integral. Não resta senão mimetizar Sua Sua Excelência: Oremos, irmãos!

blog Josias de Souza